quinta-feira, 26 de outubro de 2017

lidos em outubro

nesse mês li demais pra compensar o que não li anteriormente, mas não de propósito, na verdade; apenas foi o que funcionava melhor pra me tirar da agonia dos dias.

primeiro terminei de ler sermões de quarta-feira de cinza, do padre antonio vieira, cuja introdução, intitulada a arte de morrer (por alcir pécora), diz assim: Vieira propõe que a verdadeira substância do que vive não é dada pelo tempo "presente", mas pelo "passado" e pelo "futuro". O "presente" seria um estado de aparência e engano entre um estado essencial revelado no "passado" e confirmado no "futuro". (...) O intervalo da vida terrena entre ambos pode ser representado por um movimento circular cujo princípio e cujo fim são idênticos. Afastar-se de um é aproximar-se do mesmo, aparentando outro. A existência circular do homem, diversamente da de Deus que é sempre idêntica ao seu próprio Ser, é ser e não ser: falso avanço, quando faz supor que se distancia e muda em relação a sua essência original, e, entretanto, avanço real e verdadeiro, porque o fim de que se aproxima é efetivamente a essência que a existência oculta. (...) Na "3ª regra" desse "segundo modo", lê-se: "[...] considerar, como se estivesse em artigo de morte, a forma e a medida que então queria ter adotado no modo da eleição presente, e conduzindo-me por ela, aja com inteira determinação". E na 4ª se estabelece que, "[...] cuidando e considerando como estarei no dia do juízo, pensar como então queria ter deliberado acerca da presente coisa, e a conduta que então queria ter tido, e tomá-la agora, para que assim encontre inteiro prazer e gozo". (...) No primeiro sermão, livra-o das penas eternas que fazem justiça às faltas cometidas em vida; no segundo, livra-o do transe terrível da hora última; no terceiro, enfim, livra-o das atribulações sem fim dos negócios do mundo. Por outro lado, em termos positivos, esse terceiro sermão acentua a "quietação" proporcionada pela morte; o segundo ressalta a eficácia dos preparativos para dominar o medo implicado nela; o primeiro torna-a condição do conhecimento dos limites e da destinação da vida humana. achei bacana até, a lógica dada pras coisas, apesar de obviamente não pensar em seguir qualquer coisa religiosa. pra mim essas foram as partes mais relevantes do primeiro sermão (talvez tenha exagerado nas marcações):

O pó levantado, como vão, quis fazer distinções de pó a pó: e porque não pôde distinguir a substância, pôs a diferença nas cores. Porém a morte como vingadora de todos os agravos da natureza a todas essas cores faz da mesma cor, para que não distinga a vaidade, e a fortuna os que fez iguais a razão.
Nas tuas ruínas vês o que foste, nos teus oráculos lês o que hás de ser; e se queres fazer verdadeiro juízo de ti mesma, pelo que foste e pelo que hás de ser, estima o que és.
Se quereis ver o futuro, lede as histórias, e olhai para o passado: se quereis ver o passado, lede as profecias, e olhai para o futuro. E quem quiser ver o presente para onde há de olhar? Não o disse Salomão, mas eu o direi. Digo que olhe juntamente para um e para outro espelho. Olhai para o passado e para o futuro, e vereis o presente. A razão ou consequência é manifesta. Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é o futuro do passado e o mesmo presente é o passado do futuro.
Comecemos de hoje em diante a viver, como quereríamos ter vivido na hora da morte. Vive assim como quiseras ter vivido quando morras. Oh que consolação tão grande será então a nossa, se o fizermos assim! E pelo contrário, que desconsolação tão irremediável, e tão desesperada, se nos deixarmos levar da corrente, quando nos acharmos onde ela nos leva!

do segundo:

Sê desde logo o pó que és, e não temerás depois ser o pó que hás de ser. Sabeis, Senhores, por que tememos o pó que havemos de ser? É porque não queremos ser o pó que somos. Sou pó, e hei de ser pó; pois antes de ser o pó que hei de ser, quero ser o pó que sou. Já que hei de ser pó por força quero ser pó por vontade. Não é melhor que faça desde logo a razão o que depois há de fazer a natureza? Se a natureza me há de resolver em pó, eu quero-me resolver a ser pó; e faça a razão por remédio, o que há de fazer a natureza sem remédio. Não sei se entendestes todos a metáfora? Quer dizer mais claramente, que o remédio único contra a morte é acabar a vida antes de morrer.
Bem creio eu que haverá não poucos que quiseram antes trocados esses termos, e poder nascer duas vezes, para escolher nascimento. Mas Deus que nos fez para a eternidade e não para o tempo, para a verdade, e não para a vaidade, deixou o nascer à natureza, e o morrer à eleição. No nascer, em que todos somos iguais, não pode haver erro, e por isso basta nascer uma vez; no morrer, em que o erro ou acerto importa tudo, e há de durar para sempre, era justo que o homem pudesse morrer duas vezes, para eleger a morte que mais quisesse, e para aprender, morrendo, a saber morrer.
Não morras no tempo que não é teu (...). Mas qual é o tempo meu, em que é bem que morra, e qual o tempo não meu, em que é bem que não morra? O tempo meu é o tempo antes da morte; o tempo não meu é o tempo depois da morte. E guardar ou esperar a morte para o tempo depois da morte, que não é tempo meu, é ignorância, é loucura, é estultícia, como a deste néscio: Stulte; mas antecipar a morte, e morrer antes de se acabar a vida, que é o tempo meu, esse é o prudente, e o sábio, e o bem entendido morrer. (...)
(...) E que quer dizer: eu vivo, mas já não sou eu? (...) Todas as cousas deste mundo são para mim, como para os mortos; nem as sinto, nem me dão cuidado, nem faço mais caso delas, como se não foram; porque se elas ainda são, eu já não sou. Considerai as imunidades dos mortos, e vereis o descanso de que gozam, e os trabalhos de que se livram os que antecipam a morte. (...) Entre os mortos livre. Livre dos cuidados do mundo, porque já está fora do mundo. Livre de emulações e invejas, porque a ninguém faz oposição. Livre de esperanças e temores, porque nenhuma cousa deseja. Livre de contingências e mudanças, porque se isentou da jurisdição da fortuna. Livre dos homens, que é a mais dificultosa liberdade, porque se descativou de si mesmo. Livre, finalmente, de todos os pesares, moléstias e inquietações da vida, porque já é morto.

e do terceiro:

(...) El-rei Ezequias mandou queimar os livros de Salomão, porque o povo recorrendo às virtudes das ervas, em suas enfermidades deixava de acudir a Deus, que é a verdadeira raiz da saúde. Assim o refere Eusébio Cesariense. Mas enquanto duraram os mesmos livros, nem aos enfermos particulares, nem ao mesmo Salomão aproveitou aquela grande ciência médica; até quando? Até que as próprias doenças os sujeitaram ao médico universal, que, sem aforismos, nem receitas, cura em um momento a todas, que é a morte. (...) Morrestes; acabaram-se todas as moléstias e aflições que martirizam um corpo humano; e até o temor da mesma morte se acabou, porque os mortos já não podem morrer.
(...) El-rei Antígono vendo que seu filho pelo ser se ensoberbecia, com que lhe abateria os fumos? (...) Não sabes, filho (lhe disse), que o nosso reino, e o reinar, não é outra cousa que um cativeiro honrado? Os reis são senhores de todos, mas também cativos de todos. A todos mandam como reis, e de todos são julgados como réus. Como o rei é a alma do reino, tem obrigação de viver em todos os seus vassalos, e padecer neles, e com eles quanto eles padecem. Se não padece assim, não é rei; e se padece, que maior martírio? Há-se de matar e morrer, para que eles vivam: há-se de cansar, para que eles descansem; e há de velar, para que eles durmam, sendo mais quieto e sossegado o sono do cavador sobre cortiça que o do rei debaixo de céus de brocado. (...)
(...) Quando eu jazer na sepultura, diz Davi, dormirei e descansarei em paz para isso mesmo, in idipsum. Que quer dizer para isso mesmo? Não se podia significar mais admiravelmente a diferença do sono, do descanso, e da paz dos mortos em comparação dos vivos. Os vivos dormimos, descansamos, e temos paz, mas não para isso mesmo; porque dormimos para acordar, descansamos para tornar a cansar, e temos paz para tornar outra vez à guerra: pelo contrário, os mortos dormem, descansam e estão em paz para isso mesmo: In pace in idipsum dormiam et requiescam. Dormem para isso mesmo: porque dormem, não para acordar, senão para dormir; descansam para isso mesmo; porque descansam, não para tornar a cansar, senão para descansar; e gozam a paz para isso mesmo, porque não gozam a paz para tornar à guerra, senão para lograr perpétua, e quietamente: Requiescat in pace.
(...) Três razões teve Deus para antecipar ou apressar a morte àquele moço: a primeira, porque lhe agradou a sua alma e a quis levar para si: Placita enim erat Deo anima illius: a segunda, porque o quis livrar das ocasiões da maldade: Properavit educere illum de medio iniquitatum: A terceira, porque o quis fortificar: Quare munierit illum Dominus. Aqui reparo. Se Deus lhe tirou a vida para o fortificar, que fortificação é esta, e contra quem? O contra quem são os vícios e pecados: a fortificação é aquela onde a morte defende os que matou, que é a sepultura. O homem vivo, com todas as portas dos sentidos abertas, é como a praça sem fortificação, que pode ser acometida, e entrada por toda a parte: porém o morto, com as mesmas portas cerradas, e cerrado ele dentro da sepultura, não há castelo tão forte, nem fortaleza tão inexpugnável a todo o inimigo; porque nem pode ser vencida do pecado, nem ainda acometida. (...)
(...) Quem vive em Deus, não vive em si; quem vive com Cristo, não vive com o mundo: e quem não vive em si, nem com o mundo, este verdadeiramente vive como morto. O morto tem olhos, e não vê; tem ouvidos, e não ouve; tem língua, e não fala; tem coração, e não deseja: e posto que o morto-vivo pode desejar, falar, ouvir e ver; nem vê o que não é lícito que se veja, nem ouve o que não é lícito que se ouça, nem fala o que não convém que se fale, nem deseja o que não convém que se deseje; porque é morto às paixões e aos apetites; e posto que viva ao sentimento, não vive à sensualidade. Isto é viver em Deus, e não em si. E que é viver com Cristo, e não com o mundo? É estar morto a tudo o que o mundo ama, a tudo o que o mundo estima, a tudo o que o mundo venera, a tudo o que o mundo adora, a tudo o que chama honra, a tudo o que chama interesse, a tudo o que chama boa ou má fortuna; porque tudo o que é próspero, ou adverso, alto ou baixo, precioso ou vil, pesado na balança da morte viva, é vaidade, é fumo, é vento, é sombra, é nada. E a todos os que assim vivem ou viverem, podemos dizer como S. Paulo: Mortui estis.

em seguida li o bem amado, de dias gomes, que achei engraçado e bem construído: odorico paraguaçu era um coronel bastante influente na cidade baiana de sucupira, bem pacata e pacífica, e aproveita o ensejo da morte de um velho pescador para discursar a respeito da vergonha que era precisar deslocar os mortos para a cidade vizinha. ele promete construir um cemitério se fosse eleito como prefeito e, quando consegue, faz uso de verbas destinadas a outras obras para construir o campo-santo. no entanto, passa-se um ano e nenhuma morte – a frustração de odorico faz com que ele praticamente encomende um enfermo, primo de uma moradora, mas o sujeito acaba melhorando com os ares locais e até se enamora com a moça. então é chamado um "fazedor de defuntos", cangaceiro natural de sucupira, que recebe a posição de delegado com a esperança de criar conflitos – o que também não acontece, uma vez que zeca diabo tem a intenção de se regenerar e aprende leis com o jornalista que faz oposição ao prefeito, neco pereira. então odorico arma mais uma situação: dá trela ao ciúme do marido de dulcineia, sua secretaria e amante, mas joga-o pra cima do jornalista e oferece até um revólver; a mulher é morta e o homem preso, proibido de conversar com a imprensa. quando a necrópole parece praticamente inaugurada, no velório de dulcineia, chega um tio com o testamento do pai dela, declarando sua vontade em ter toda a família enterrada na cidade de jaguatirica. odorico surta, se nega a obedecer, faz guarda ao caixão da morta, demite o delegado num acesso e recebe a notícia de que dirceu (marido da finada) contou tudo a neco – zeca acaba por matar o prefeito, pois traidor não merece viver, tanto mais traidor de moça donzela. a história termina, ironicamente, com neco pereira fazendo discurso no enterro de odorico, que acaba por ser o primeiro hóspede de seu "sonho".

então li sonetos de camões, de (óbvio) luís de camões, apesar de apenas 14 dos 55 contidos no livro serem pedidos pela unicamp (e mais outros 6 que tive que ler na internet). além de sonetos o livro contém redondilhas e mais uns negócios, e os elementos que permeiam as obras são os seguintes: instabilidade dos sentimentos e da realidade; ideal de perfeição física e moral; desconcerto do mundo; amor platônico; perda da amada; a própria atividade poética. achei massa, gosto de camões. alguns preferidos:

Tanto de meu estado me acho incerto
que, em vivo ardor, tremendo estou de frio,
sem causa, juntamente choro e rio;
o mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando;
num'hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar um'hora.
Se me pergunta alguém porque assi ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.
Que de tanta estranheza sois ao mundo,
que não é de estranhar, Dama excelente,
que quem vos fez fizesse céu e estrelas.
Vossos olhos, Senhora, que competem
co Sol em fermosura e claridade,
enchem os meus de tal suavidade
que em lágrimas, de vê-los, se derretem.
Meus sentidos vencidos se sometem
assi cegos a tanta divindade
e da triste prisão, da escuridade,
cheios de medo, por fugir remetem.
Quando o sol encoberto vai mostrando
ao mundo a luz quieta e duvidosa,
ao longo de ũa praia deleitosa,
vou na minha inimiga imaginando.
Aqui a vi os cabelos concertando;
ali, co a mão na face, tão fermosa;
aqui, falando alegre, ali cuidosa;
agora estando queda, agora andando.
Aqui esteve sentada, ali me viu,
erguendo aqueles olhos tão isentos;
aqui movida um pouco, ali segura;
aqui se entristeceu, ali se riu...
enfim, nestes cansados pensamentos,
passo esta vida vã, que sempre dura.

também acabei lendo sagarana (de guimarães rosa) inteiro, apesar de só o último conto importar agora. prossegui a leitura com duelo, que conta a história de turíbio todo e cassiano gomes – este o amante da esposa daquele, descoberto num retorno da pesca adiantado. turíbio é bom atirador e vai até a casa de cassiano para matá-lo, mas acaba que o morto é levindo gomes, irmão do outro, e nisso turíbio sai da cidadezinha e se inicia uma perseguição por entre os povoados da região, durando meses. cassiano abandona a causa, relembrado de seu problema cardíaco, e turíbio passa para terras paulistas e lá fica; mas, quando o médico anuncia que cassiano tem poucos meses de vida, ele se despede de todos com o intuito de pegar o inimigo antes de partir. não vai muito longe, piorando e se assentando num povoadinho, onde conhece um homem, de apelido vinte-e-um, que se torna seu compadre e recebe seu dinheiro para ajudar a família; cassiano morre e deixa tudo para ele. sabendo da notícia turíbio retorna e acaba dividindo estrada com vinte-e-um, que o mata: Peço perdão a Deus e ao senhor, mas não tem outro jeito, porque eu prometi ao meu compadre Cassiano, lá no Mosquito, na horinha mesma d'ele fechar os olhos...

o segundo conto, chamado minha gente, trata desse homem que vai visitar a fazenda de seu tio e acaba reacendendo a paixão por uma prima que já namorou, maria irma; ela o provoca e faz rodeios nas falas mas nunca cede aos seus apelos. ele toma conhecimento de um rapaz que a emprestava livros, ramiro, mas maria irma anuncia que ele era noivo de uma amiga, armanda. o primo, enciumado, tenta traçar um plano para atraí-la e visita outra fazenda, onde mora outra namorada de brinquedo de outros tempos – coisa que não afeta nada, o que faz com que ele vá embora pra outra cidade, triste. mais tarde recebe uma carta do tio, com notícias de que seu partido ganhara as eleições, e outra de um amigo louco por xadrez, terminando uma partida começada na viagem. resolve revisitar os parentes, querendo mostrar à prima que não gostava mais dela, e é então que ela o apresenta a armanda, de quem fica noivo, enquanto maria irma fica com ramiro: tudo se desdobrando conforme os planos da moça. me chamou atenção pelos pedaços que enfiei na minha vidinha...

Dormi mal, acordei de saudades, corri para junto de Maria Irma.
— Que tal, a Aldinha? — perguntou.
— Que tal você e eu, Maria Irma?
(...) E desesperava, ao sentir que eu acumulara comigo tanto amor que estava inútil, sem ter onde pousar.
Mais sofri, todavia, porque lua havia, uma lua onde cabiam todos os devaneios e em que podia beber qualquer imaginação.
— Prefiro caminhar. Quer? — perguntou-me Armanda.
Quis. Andamos. Calados. Crescia em mim uma coisa definitiva, assim com a impressão de já conhecê-la, desde muito, muito tempo. Nossas mãos se encontraram, de repente, e eu senti que ela também estremeceu.

depois vem são marcos, que é sobre esse homem muito crente em superstições, mas não em feitiçaria. ele tinha o costume de, todo domingo, visitar uma mata riquíssima em fauna e flora, e no caminho insultava e caçoava do negro joão mangolô, mestre das artes de despacho, atraso, telequinese, vidro moído, vuduísmo, amarramento e desamarração de seu povoado. numa dessas viagens ele encontra um colega que acaba contando uma história envolvendo a oração de são marcos, supostamente muito perigosa, mas com a qual o narrador até brinca. acontece que, subitamente, ele perde a visão enquanto descansa no mato – se machuca muito, quase se perde, mas lembra da reza-brava e é tomado por uma energia ao proferi-la. ele sai em disparada para a casa do feiticeiro, se atraca com ele e quase o esganava quando voltou a enxergar, só pra ver que era trabalho de mangolô: Não quis matar, não quis ofender... Amarrei só esta tirinha de pano preto nas vistas do retrato, p'ra Sinhô passar uns tempos sem poder enxergar... Olho que deve de ficar fechado, p'ra não precisar de ver negro feio... o narrador estende a bandeira branca, alegando que tem santo bom, e propõe que não tivessem briga, indo embora depois de deixar uma nota de dez mil-réis.

o próximo conto é corpo fechado, que começa com um tal de manuel fulô contando sobre os malfeitores do povoado para o doutor, seu amigo. ele descobre que fulô está noivo, coisa que não parecia de grande importância para ele – cuja maior paixão é sua mula, beija-flor –, mas targino, o sujeito mais intimidador do momento, anuncia que deseja passar uma noite com sua noiva antes do casamento e que, se fulô tivesse algo contra, o mataria. manuel fica desconjuntado mas acaba recebendo uma proposta do feiticeiro antonico: ele fecharia/blindaria seu corpo em troca da mula. os dois tinham um impasse pois fulô queria a sela mexicana de antonico, que queria a mula de fulô; o trato é feito, não obstante, e os tiros de targino não fazem nada contra manuel, que o mata com um canivete e passa a representar a figura de valentão no lugar dele.

depois vem conversa de bois, contanto um caso, a partir do relato de uma irara, sobre esse carro de bois levando rapadura e um defunto para um arraial. seu guia é um menino, filho do defunto (que quando vivo era doente e inválido) e o condutor é uma espécie de padrasto dele (pois é o companheiro de sua mãe), mas muito cruel e insensível com a criança, que caminha triste. os bois têm consciência e conversam entre si sobre sua vida e o que percebem dos homens, chegando num ponto em que seus pensamentos se misturam com os do menino e incitam vingança – eles fazem com que o menino grite, assustando os animais, que fazem pular o carro e derrubam o carreiro, que é atropelado pela roda. apesar do desespero do menino o resto do trajeto se torna mais leve com dois defuntos.

— Podemos pensar como o homem e como os bois. Mas é melhor não pensar como o homem...
— É porque temos de viver perto do homem, temos de trabalhar... Como os homens... Por que é que tivemos de aprender a pensar?...
— É engraçado: podemos espiar os homens, os bois outros...
— Pior, pior... Começamos a olhar o medo... o medo grande... e a pressa... O medo é uma pressa que vem de todos os lados, uma pressa sem caminho... É ruim ser boi-de-carro. É ruim viver perto dos homens... As coisas ruins são do homem: tristeza, fome, calor – tudo, pensando, é pior...
— Mas, pensar no capinzal, na água fresca, no sono à sombra, é bom... É melhor do que comer sem pensar. Quando voltarmos, de noite, no pasto, ainda haverá boas touceiras do roxo-miúdo, que não secaram... E mesmo o catingueiro-branco está com as moitas só comidas a meia altura... É bonito poder pensar, mas só nas coisas bonitas...
— Que é que está fazendo o carro?
— O carro vem andando, sempre atrás de nós.
— Onde está o homem-do-pau-comprido?
— O homem-do-pau-comprido-com-o-marimbondo-na-ponta está trepado no chifre do carro...
— E o bezerro-de-homem-que-caminha-sempre-na-frente-dos-bois?
— O bezerro-de-homem-que-caminha-adiante vai caminhando devagar... Ele está babando água dos olhos...

e, por último, a hora e a vez de augusto matraga (que foi uma releitura) – o protagonista é esse bandoleiro que não quer saber de trabalhar e só faz maltratar os outros e desprezar a esposa e a filha, até que sua família vai morar em outro sítio e seus homens passam pro lado de outro major. quando tenta confrontá-los é violentado até quase morrer, salvo por um casal de negros que morava ao pé do barranco do qual ele se jogou. envergonhado e arrependido, nhô augusto decide se redimir e parte para outro povoado com os velhos, assim que se recupera, e lá passa a trabalhar dia e noite para todos, se lembrando sempre que vai para o céu nem que seja a porrete. numa ocasião surge um bando de jagunços no local e augusto os hospeda e se amiga com o líder, que percebe que matraga nem sempre fora daquele jeito e o convida para se juntar ao grupo. ele recusa mas, tempos mais tarde, parte com um jumento para outro canto e topa com o bando, porém se coloca contra o jagunço para defender uma família. eles lutam até a morte, terminando contentes e amigos assim mesmo, e augusto matraga abençoa sua filha e parte conformado de que este fora o desígnio divino para ele.

E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso acontecido, não senhor.
E isso foi pensado muito ligeiro, porque já ele enrolava a palha, com uma pressa medonha, como se não tivesse curtido tantos anos de abstenção. Tirou tragadas, soltou muitas fumaças, e sentiu o corpo se desmanchar, dando na fraqueza, mas com uma tremura gostosa, que vinha até ao mais dentro, parecendo que a gente ia virar uma chuvinha fina.
A lâmina de Nhô Augusto talhara de baixo para cima, do púbis à boca-do-estômago, e um mundo de cobras sangrentas saltou para o ar livre, enquanto seu Joãozinho Bem-Bem caía ajoelhado, recolhendo os seus recheios nas mãos.

eu gostei bastante dos contos e do estilo de guimarães rosa, quero ler mais obras dele no futuro. não achei a linguagem tão difícil quanto como ouvi dizerem, apenas bastante diversa e dinâmica (são marcos foi o pior nesse aspecto pois tinha muita descrição de árvores e animais). meus preferidos foram sarapalha e conversa de bois, e o que menos gostei foi a volta do marido pródigo. (vídeo massa sobre tudo aqui.)

em seguida terminei poemas negros, de jorge de lima, que não me agradou por inteiro mas foi uma leitura tranquila. vê-se a homenagem feita às crenças e mitologias negras, retratando grande sincretismo religioso por meio de um "africanismo de adoção", além da denúncia da desigualdade social e dos problemas do povo. um que achei muito forte é intitulado Foi mudando, mudando:

Tempos e tempos passarram
por sobre teu ser.
Da era cristã de 1500
até estes tempos severos de hoje,
quem foi que formou de novo teu ventre,
teus olhos, tua alma?
Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão?
Os modos de rir, o jeito de andar,
pele,
gozo,
coração...
Negro, índio ou cristão?
Quem foi que te deu esta sabedoria,
mais dengo e alvura,
cabelo escorrido, tristeza do mundo,
desgosto da vida, orgulho de branco, algemas, resgates, alforrias?
Foi negro, foi índio ou foi cristão?
Quem foi que mudou teu leite,
teu sangue, teus pés,
teu modo de amar,
teus santos, teus ódios,
teu fogo,
teu suor,
tua espuma,
tua saliva, teus abraços, teus suspiros, tuas comidas,
tua língua?
Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão?

Olá! Negro também é muito bom e mais popular um pouco (abaixo um trecho).

Apanhavas com vontade de cantar,
choravas com vontade de sorrir,
com vontade de fazer mandinga para o branco ficar bom,
para o chicote doer menos,
para o dia acabar e negro dormir!
Não basta iluminares hoje as noites dos brancos com teus jazzes,
com tuas danças, com tuas gargalhadas!
Olá, Negro! O dia está nascendo!
O dia está nascendo ou será a tua gargalhada que vem vindo?

agora um trecho aleatório...

Eu sou um corpo distraído.
Bóiam os meus olhos pelas superfícies.
Mas os meus olhos correm mais perigo
do que se andassem em acrobacias contemplativas
pulando no céu alto, perto das estrelas.

...e pedaços de Invenção de Orfeu, aparentemente a obra-prima do autor:

Sonâmbulas as flores
conservam pelo dia
as noites.
Os ouvidos das pétalas,
e seus lábios de olor
recordam-se
transidos e orvalhados,
indiferentes, frios,
tão frios.
Jamais os dias quentes
poderão aquecer-lhes
os seus sangues noturnos
tão frios.
Agora nos jardins
espalham
nos silêncios intactos
suas presenças frias,
tão frias.
São beijadas, porém
volvidas
à lembrança das noites
permanecem veladas
e frias.
Não há na vida amor que em vão termine
nem vão esquecimento que o destine.
Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.
A estepe e a noite de deitaram juntas,
paralelas as asas sobre as asas,
ambas com as solidões, ambas defuntas,
e entre elas, sós, ardentes como brasas,
espreitando à direita e à esquerda o estrito
espaço ínfimo que entre as duas corre,
correm cruciados como o imenso grito,
imenso grito mudo de quem morre,
os olhos renegados de quem está
esperando, esperando. Que esperando?
Entre a estepe e a noite olham olhos, rente
às trevas opressoras, olhos que a
estepe e a noite juntas se estreitando
apagam misericordiosamente.

esse último se chama Poemas da vicissitude e é o canto V (achei bonito, identifico coisas). tem mais coisa que salvei por ser mais romântico (ou não)...





certo. não vou acabar mais nada esse mês então é isso.

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