quinta-feira, 30 de abril de 2020

lidos (18) e assistidos (9) de abril

cowspiracy: the sustainability secret (2014)
tô falando que todo documentário tem um loiro alto de coque samurai e boné apresentando. era o mesmo que o de what the health, mas esse aqui veio antes, né. leonardo dicaprio veio antes de joaquin phoenix, então. gostei mais desse, pareceu mais convincente, realista, não sei. contou melhor as coisas. teve uma (1) analogia com indústria do tabaco, ahush. esse trata mais da sustentabilidade, então a história do cara no começo é que ele sempre se preocupou com reciclagem, usar bicicleta sempre que podia, economizar energia e água, mas só depois de adulto descobriu que o consumo de carne é o grande vilão de tudo (no outro ele conta que sempre prestou atenção no que comia pra ser saudável e descobriu tarde que o consumo de carne fode tudo). voltam a falar do montão de cocô produzido pelo gado de corte e leiteiro, mas aqui tratam mais do oceano e das zonas mortas por causa disso. falam da pesca, que mesmo as que se dizem "sustentáveis" pescam 5kg de peixes que nem são o alvo pra cada 1kg do peixe que eles querem. e que depois de esgotar uma espécie eles passam pra próxima, e nem dá tempo do ecossistema se recuperar, porque obviamente leva tempo pra rolar reprodução e tudo o mais. uma coisa que também apareceu no outro documentário é aquilo das empresas grandes em defesa das florestas e etc não tratarem da dieta – nem o greenpeace faz isso, e a questão é que se tocarem no assunto da carne vão perder um público enorme de apoiadores, porque é uma coisa vista como radical demais. precisam de dinheiro de patrocínio, então não fazem nada que provoque a perda do lucro, mesmo que isso signifique cuidar de problemas mais "superficiais". foda né, velho, como o dinheiro determina como o mundo gira... fiquei pensando em chernobyl e no que tá acontecendo agora, com a pandemia do corona vírus, que também tem a ver com um começo abafado por causa de lucro e apoios, sei lá. tem que acontecer essas merdas gigantescas pra que as coisas mudem de fato. o que faria as pessoas pararem de consumir carne senão algo enorme e gravíssimo? no documentário falam sobre a pecuária extensiva nem ser tão melhor assim, porque por ser mais "natural" o animal vive mais tempo, consome mais recursos, libera mais metano e tudo o mais. e falam do tanto de espaço pra pasto que precisaria ter pra alimentar o que os eua consomem de carne, que já seria a américa do norte inteira até o começo da américa do sul, só pra lá. tipo, por que partir da demanda em vez de fazer menos, fazer o que é sensato e mandar as pessoas se acostumarem a comer menos? o documentário não foi tanto de bad mas eu ainda fico triste pensando que é tão difícil acreditar em mudanças. nem com organizações mundiais de saúde mandando as pessoas ficarem em casa por causa da pandemia as pessoas ficam, sabe, imagina parar de comer carne... dá muito pra imaginar uma história distópica em que o governo precisa inventar uma mentira cabeluda pra que as pessoas tenham medo e aí sigam. enfim, teve uns donos de fábrica e fazenda de laticínios comentando que não é sustentável, que logo serão substituídos por leite de soja, de amêndoas, por sucos mesmo... não tratou tanto da questão de saúde no consumo, mas da sustentabilidade. e isso é massa, acho que vou mais pelo lado de viver de maneira equilibrada no planeta do que pela saúde individual e tal. vou mandar pra minha mãe ver. ah, tem a parte que falam do brasil, de ativistas sendo mortos, de gente que é perseguida e processada pela indústria da carne, que é a mais poderosa do mercado. uma mulher chefe de alguma instituição que não trata da agropecuária quando a pergunta é geral, mas quando o cara parte direto a isso ela fala sobre, assim meio hesitante e triste. vontade de chorar.

os fatos do caso do sr. valdemar (edgar allan poe)
tá ficando melhor, my boy edgar. nesse tem um cara que faz mesmerismo (que parece ter a ver com hipnotismo usado pra cura) que quer testar isso em alguém que esteja "in articulo mortis", que é termo médico pra na hora da morte. ele lembra desse sr. valdemar que ele conhecia e já tinha mesmerizado antes, e que agora tava numa fase terminal da doença. ele entra em contato pedindo pra ele o chamar quando estivesse há 24 horas de morrer, e o sr. valdemar fala pra ele ir na hora porque os médicos deram mais um dia de vida pra ele, apenas. lá o cara só começa os trabalhos quatro horas antes do suposto último momento, o que o senhor diz ser muito tarde, mas acaba que ele consegue ter sucesso em coisa que antes sabia que falhava com o velho. o cara faz umas perguntas pra ele às vezes e as respostas são sempre mórbidas, que ele tá dormindo, morrendo, dormindo. passa do prazo que os médicos deram, todos ficam admirados, mas daí a resposta à pergunta é que ele tá morto, e o cara descreve o som da voz como "áspero, alquebrado e sepulcral", como se viesse de muito longe, além de passar a sensação de um material gelatinoso ao tato (ok né). um estudante que ele chamou pra observar chega a desmair com isso, mas o tempo vai passando e eles mantém o velho assim por seis meses (!). ah, na hora que ele fala esquisito ele também tinha ficado branco e as manchas que tinha haviam sumido, além da boca ter se escancarado mostrando a língua inchada e escura. aí o mesmerizador e os médicos decidem acordar o sr. valdemar depois de tanto lenga-lenga e quando o fazem ele vai recuperando a aparência doentia e dali um minuto se decompõe todo na cama, mortinho da silva. talita achou que foi óbvio demais, que nada aconteceu, mas achei bom – a hipnose segurou o corpo lá, ué, apesar do velho ter morrido, e na hora que o acordaram nem tinha mais corpo pra estar lá, por isso ele se desfaz numa nojeira asquerosa e podre. massa, ashush. pensando agora, no pedido do velho ("pelo amor de Deus! — rápido! — rápido! — ponha-me para dormir — ou, rápido! — acorde-me! — rápido! — afirmo que estou morto!") talvez o acordar queria dizer matá-lo do mesmo jeito, mas meio que assassinando, sem tirar ele do transe.

o coração denunciador (edgar allan poe)
nesse o cara é completamente pirado mesmo. diz que não é louco, que prosseguiu com a maior cautela e precaução, e que foi o olho azul-claro e com catarata do velho que o fez decidir que ia matar o coitado. ele fica olhando o homem dormir de soslaio na porta do quarto por um tempão até atacá-lo e matá-lo de fato, e no processo ouviu a velocidade dos batimentos do velho ir aumentando cada vez mais. aí o cara enterra o velo no chão, classic já esse tipo de coisa, e depois dele terminar vem a polícia inspecionar a casa porque vizinhos ouviram gritos de noite. ficou lá papeando, todo convencido e confiante, até começar a ouvir o barulho do coração do velho de novo. não aguenta e admite o crime. talita comentou uma coisa que é fato: nunca tem o depois das conclusões pra gente ver, nesses contos. dá pra imaginar que naquela época foi surpreendente e marcante sim, mas muita coisa já virou enredo de filme e o escambau hoje em dia. e dá pra ir reconhecendo os padrões, aquilo do narrador se defender, se apresentar mostrando suas qualidades e falando do temperamento, etc. e sempre acaba assim que a coisa acaba de acontecer, puf. não lembrava direito desse, apesar de já ter lido. não é dos melhores.

uma descida no maelström (edgar allan poe)
um velho contando uma história que aconteceu com ele enquanto andam por umas montanhas na noruega. do topo de uma podem ver o mar e as várias ilhas por ali, e tem um redemoinho que surge em intervalos constantes e que determina toda a dinâmica dos pescadores e navegadores que passam por lá. a história é que uma vez o cara tava com os dois irmãos no barco, pescando, e eles iam perto do redemoinho porque conseguiam pegar muito mais peixe em pouco tempo. mas parece que o relógio que usam falha e eles são pegos no redemoinho, que é um negócio absurdo de fundo e veloz, e nessa só o cara contando o episódio sobreviveu. diz que foi assim que os cabelos embranqueceram, todos de uma vez. talvez o sal da água, sei lá. umas coisas de força propulsora ou energia centrípeta, não sei mais, mas ele descobre como se equilibrar enquanto giram e tal. longo, confuso. não curti muito não, mas o desenho é massa. me lembrou esse de paola rodrigues.

ensimesmada (flavushh)
um dos maiores quadrinhos de flavushh, que ela liberou pra ler/baixar de graça recentemente e coloquei no kindle. tem umas frases muito boas e relatable, do tipo "quero arrancar minha pele toda agora depois meus ossos" ou "me esconder para sempre e nunca mais acordar eu não quero estar aqui amanhã eu não quero amanhã". outras frases verdadeiríssimas como "ok vai passar nada é tão ruim quanto parece tem certas coisas na vida que você precisa fazer ok eu estou bem. não estou na verdade mas não importa" (rindo de desespero). essa menina parece ser uma princesa e os pais são grudados feito gêmeos siameses. tá na hora dela passar por esse ritual também, que supostamente é motivo de honra, mas ela não tá feliz nem quer isso. "me dizem que muitas matariam para estar em meu lugar e queria tanto que matassem de fato". ela monta num bicho e passa por um portal, e lá encontra uma menina igualzinha ela mesma. conversam por dias, ficam de romance, brigam; no fim ela mata a outra mas abraça o corpo. questão de se sentir perdida, não se entender. total. gosto muito dos desenhos dela, super simples e com essa estética "feia" que é única, na real. elementos de quadrinho sem quadrinho, uma das maiores inspirações pra mim, com certeza. foi a primeira coisa que li no kindle!

perfeito a trilha ali, a fala e os olharzinhos

speech sounds (octavia e. butler)
conto que faz parte de um projeto da editora morro branco chamado cápsula, em que liberam contos assim pra baixar de graça. tem um outro da ursula le guin lá também que quero ler. mas procurei em inglês porque imaginei que seria fácil de achar, pra aproveitar que era pequeno, e pra usar o kindle. a história se passa num futuro apocalíptico onde as pessoas perderam a linguagem por causa de uma doença tensa. "language was always lost or severely impaired. it was never regained. often there was also paralysis, intellectual impairment, death." e nem a memória ficava intacta, "she had a houseful of books that she could neither read nor bring herself to use as fuel. and she had a memory that would not bring back to her much of what she had read before." a principal da história até podia falar, meio assim sem sentido, mas não podia ler, e o cara que ela encontra podia ler mas não falar. "the illness had played with them, taking away, she suspected, what each valued most." no começo ela tá num ônibus tentando ir pra onde a família do irmão vivia, e começa uma briga que faz tudo parar. "loss of verbal language had spawned a whole new set of obscene gestures." aparece esse cara vestido de policial que resolve as coisas e chama ela pro carro dele. se comunicam com gestos e suposições e logo tão transando felizes. ela até desiste de tentar chegar no irmão pra não ter certeza da morte dele e poder continuar tendo família, já que "the illness had stripped her, killing her children one by one, killing her husband, her sister, her parents". no fim eles vão ajudar uma mulher e duas crianças fugindo de um cara e o homem leva um tiro e morre. mas a protagonista salva as crianças e descobre que elas falam normal, e aí conversam. massa esse fio de esperança no final, que não dá pra saber se foi real mesmo ou só delírio. muito bom uma história de ficção científica envolvendo linguagem, muito interessante! e octavia butler escreve muito bem, pô. gostei que esse foi meu primeiro contato com ela.

now she did not have to go to pasadena. now she could go on having a brother there and two nephews – three right-handed males. now she did not have to find out for certain whether she was as alone as she feared. now she was not alone.

rye glanced at the dead murderer. to her shame, she thought she could understand some of the passions that must have driven him, whomever he was. anger, frustration, hopelessness, insane jealousy... how many more of him where there – people willing to destroy what they could not have?

amoras (emicida)
livrinho infantil gratuito pra baixar na quarentena. sobre emicida mostrar amoras pra filha e dizer que as mais pretinhas são as mais doces, e daí ela fala "que bom, porque eu sou pretinha também". fofinho, pena que no kindle é tudo preto e branco. mas tem uma versão animada que resume bem. tem essa parte legal também de que martin luther king jr. choraria ao ouvir a menina, zumbi dos palmares diria que nada foi em vão... que o pensamento infantil é puro como obatalá, criador do mundo. que a gente chora ao nascer porque se afasta de alá. massa de existir, tão simples.

vampires suck (2010)
vimos twilight pra prestar atenção nuns detalhes, apesar de acelerado umas partes, pra depois ver isso. ideia de talita, julia se juntou e eu só fui. já tinha visto pedaços mas não ligo muito pra esse tipo de filme/humor... umas besteiras e exageros de briga e tudo. não sei nem o que falar sobre. tali gosta de bella (é outro nome, mas não lembro) sai do carro do pai com um vaso de cacto enorme em vez do pequeno do original. pai de jacob cadeirante mas às vezes anda. "um dos jonas brothers" em vez de "vampiro" naquela hora do "eu sei o que você é". ator artificialzão da zorra. a menina é bem bonita, até. patinete de shopping na floresta haush. eles vão até sei lá que filme nesse, não só crepúsculo. no fim os volturi ganham o baile de formatura, cujo tema era vampiros. daqueles filmes que me deixam sentindo que eu podia estar gastando minha vida com outra coisa.

tarja branca (2014)
nalu tinha que ver pra uma disciplina e decidimos ver todas juntas. gostei bastante, achei tocante, interessante. mas não perfeito, porque é sobre brincar e tem uma coisa de ressaltar a infância que me deixa um pouco desconfortável. pensando sobre como fui ruim com matheus naquela época de cuidar dele. também é sobre trabalhar com o que a gente gosta, ter coragem de fazer isso, e depois de vermos rendeu uma discussão interessante (aquilo de que trabalho nunca vai ser prazer, que ter uma "paixão" é outra forma do capitalismo te explorar, já que você vai ficar workaholic e render mais). questão de brincar sendo adulto pra poder ser feliz, de como o mundo vai pedindo seriedade em tudo e a gente perde essa essência. teve umas falas boas que eu já esqueci porque tô fazendo essa review em maio... estragando tudo. mas tudo bem porque gostaria de rever, tem no youtube. ah, tarja branca é um remédio proposto por um artista todo doido que aparece, umas pílulas pra se curar do mundo. oposição a tarja preta, né. tudo aquilo de ser criativo, original, e como a sociedade atual massacra isso. uma senhora sentada numa calçada falando coisas boas. sempre a questão da educação como possibilidade de transformação. e eu fiquei mexida porque já tava nos pensamentos de identidade, por que eu sou assim e não assado, como mariana e carol chegaram nos livros que leram, quem passou pela vida delas e as construiu... e o documentário pegou bem nisso. nossa, a música também, cultura popular! gente que dedica a vida a festivais de rua, essas coisas bem tradicionais mesmo. e lembrei também de como foi o carnaval de 2019, o quão forte foi presenciar o maracatu e estar lá junto. massa.

o vilarejo (raphael montes)
uma coleção de contos que se passam nessa vila em algum lugar da europa (não é explícito, mas mencionam 'ir para as américas' e os personagens chamam helga, ivan, mikhail, etc). cada um dos 7 contos corresponde a um dos reis demônios do inferno, um pra cada pecado capital: asmodeus pra luxúria, belzebu pra gula, mammon pra ganância, belphegor pra preguiça, satan pra ira, leviathan pra inveja e lúcifer pra soberba. dá pra ler em qualquer ordem mas tudo se encaixa de alguma forma, com os mesmos personagens e eventos em comum. o autor alega ser só um tradutor de uns cadernos escritos por uma senhora que morreu numa língua que não existe mais, o que é interessante (o prólogo e o posfácio fazendo parte da história também e tal). no fim a velha que morreu era uma moradora da vila que foi embora antes de todos morrerem de frio e fome. já escrevia quando era jovem, junto com a irmã gêmea e uma amiga. no conto que ela aparece ela mata o namorado da irmã mais velha pra ele não ficar com ninguém e faz parecer que a irmã gêmea fez por vingança de supostos abusos, e que se matou em seguida. no primeiro conto uma mãe mata e cozinha os filho tudo e uns moradores pra se alimentar enquanto o marido tá caçando. tem um que uma avó é obcecada por dinheiro e neglicencia a neta pra economizar, e acaba sendo alimentada por ela com moedas e morrendo. em um conto um cara preguiçoso escraviza duas irmãs negras pra fazer seus trabalhos de ferreiro, e em outro o pai delas se vinga da mulher que o acolheu mas foi passando a tratar ele mal. loucura o que um cara estupra uma menina recorrentemente e depois de crescida ela volta e o beija mordendo só pra passar lepra e deixar o cara morrer. no fim satan aparece de fato, como "um homem de muitos nomes", pra dizer que só fez fornecer a possibilidade das coisas, mas que as pessoas eram ruins mesmo e tudo aconteceu por isso. uma leitura sangrenta bacana pra um clima frio, sei lá, mas não gostei tanto do estilo de escrita. uma impressão de coisa meio bobinha, apesar da construção criativa. como se fosse meio prepotente, contando a história e no fim revelando a conclusão chocante, ohh. não sei explicar bem. mas é isso, nada de mais.

bloodchild (octavia e. butler)
conto gratuito pra baixar no kindle, em inglês mesmo. sobre os terrans, que eram habitantes da terra e fugiram pra outro planeta, e vivem entre os tlics. pelas descrições de "muitos membros" e "olhos amarelos" imagino que sejam algo entre uma cobra e uma centopeia, bem grandes. vivem muito mais que humanos, também. e o acordo entre as raças foi de uns humanos hospedarem as larvas dos tlics, que são parasitas, pra eles poderem continuar vivendo e os terrans terem onde viver. coisa sobre escravização na terra, e por ser octavia butler acabo colocando os personagens como negros. because your people arrived, we are relearning what it means to be a healthy, thriving people. and your ancestors, fleeing from their homeworld, from their own kind who would have killed or enslaved them–they survived because of us. we saw them as people and gave them the preserve when they still tried to kill us as worms. todos tomam ovos estéreis pra prolongar a vida, de um tlic meio que ligado à família. às vezes eles são picados, também, mas não machuca, anestesia. o narrador foi prometido pra uma tlic, e a questão é que aparece um n'tlic (que entendi ser um terran desligado do tlic que o implantou por algum motivo) e t'gatoi (a tlic "do" principal) tem que remover as larvas dele, e é super nojento e doloroso. dizem que se fosse a tlic do cara fazendo não seria assim. massa demais que a autora tirou inspiração das larvas parasitas de uma mosca que vive na amazônia pra criar uma história de "gravidez masculina", porque geralmente os hospedeiros são homens (tem algo de mulheres darem tlics melhores, mas eles entenderem que elas já têm a responsabilidade de gerar a própria raça. tem uma provocação de que elas geram a própria raça sim, mas pros tlics usarem seus filhos depois). muito interessante, uma perspectiva de aliens e vida no espaço totalmente nova. questões de escolhas ou a falta delas, retribuição... punkzera, curtindo muito a autora. gosto como ela fala sobre o processo da escrita depois dos contos; fez também em speech soundswhen i have to deal with something that disturbs me as much as the botfly did, i write about it. i sort out my problems by writing about them. se liga nas citações:

one of my earliest memories is of my mother stretched alongside t'gatoi, talking about things i could not understand, picking me up from the floor and laughing as she sat me on one of t'gatoi's segments. she ate her share of eggs then. i wondered when she had stopped, and why.

she had bonesribs, a long spine, a skull, four sets of limb bones per segment. but when she moved that way, twisting, hurling herself into controlled falls, landing running, she seemed not only boneless, but aquaticsomething swimming through air as though it were water.

she found the first grub. it was fat and deep red with his bloodboth inside and out.
at this stage, it would eat any flesh except his mother's.
there was always a grace period between the time the host sickened and the time the grubs began to eat him.

and the thing she held...
it was limbless and boneless at this stage, perhaps fifteen centimeters long and two thick, blind and slimy with blood. it was like a large worm.

i had been told all my life that this was a good and necessary thing tlic and terran did togethera kind of birth. i had believed it until now. i knew birth was painful and bloody, no matter what. but this was something else, something worse. and i wasn't ready to see it. maybe i never would be. yet i couldn't not see it. closing my eyes didn't help.

after that he concentrated on getting his share of every egg that came into the house and on looking out for me in a way that made me all but hate him–a way that clearly said, as long as i was all right, he was safe from the tlic.

"i don't want to be a host animal," i said. "not even yours."

it took her a long time to answer. "we use almost no host animals these days," she said. "you know that."
"you use us."
"we do. we wait long years for you and teach you and join our families to yours." she moved restlessly. "you know you aren't animals to us."

why else had i been given a whole egg to eat while the rest of the family was left to share one? why else had my mother kept looking at me as though i were going away from her, going where she could not follow? did t'gatoi imagine i hadn't known?

"terrans should be protected from seeing."
i didn't like the sound of thatand i doubted that it was possible. "not protected," i said. "shown. shown when we're young kids, and shown more than once. gatoi, no terran ever sees a birth that goes right. all we see is n'tlic—pain and terror and maybe death."


cápsula (amanda miranda, fernanda garcia, grazi fonseca, ing lee, marco sem s, monge man, nicholas steinmetz, puiupo e tais koshino)
comprei porque fizeram promoção de combo, cápsula + aquele calendário do ano do rato + um print de uma das ilustrações dele. esperava que fosse muito maior, tanto a hq quanto o calendário (que é só um quadradinho minúsculo... pena. bonito pelo menos, não tem cara de calendário então dá pra usar como decoração). esses nove artistas contando suas histórias que buscam homenagear akira e se inspiram no mangá de alguma forma. puiupo mesmo chegou fazendo umas moto empinada com gente com cara de logo de posto de gasolina, criticando o governo e a ideologia de "produzir até morrer". achei estranho a frase que ela fez em português com estrutura de inglês, tipo tradução literal de "be supposed to", mas agora tô me perguntando se não foi de propósito. ing lee faz uma narrativa ambientada numa bh futurística, "cápsula" como o nome de um complexo de apartamentos daqueles minúsculos, que só cabe a pessoa deitada pra dormir; bem massa, gostei dos personagens e do humor, enfrentamento de um cuzão de patinete. o defeitinho desse foi gráfico: os três sentados numa ponte e na mesma orientação vistos de trás e de frente. amanda (ex-paschoal) miranda compõe umas imagens grotescas enquanto se passa uma conversa sobre medo de altura (muito bom o "pra mim é mais tipo / tem mais a ver com estar próxima a beiradas / parece que elas me chamam"). legal a parte de tais koshino também, umas coisas de tudo caminhando pra ser uno, conhecimento compartilhado/distribuído (marco sem s fala disso também, retoma akira bastante, e só lembrei aqui essa coisa de "de onde vem o conhecimento" e etc. me intriga bastante); a de d0rts (que eu nunca tinha visto pelo nome, nicholas, e nem conhecia direito além das interações com puiupo); a da menina que fez umas coisas aparentemente abstratas mas que faziam sentido, as bolas e telas se mesclando, virando outra coisa. escolhi pra ser o livro que me faria sorrir pro desafio de maratona, e cheguei a rir com ing lee, pelo menos. apesar de tudo ser meio pesado tava satisfeita de finalmente ter, também.

los once (miguel jiménez, josé luis jiménez & andrés cruz)
sobre os dois dias de cerco do palácio da justiça da colômbia, em bogotá, em novembro de 1985, quando guerrilheiros o ocuparam e foram atacados por forças militares. a história é contada pela perspectiva de uma mãe/avó que cuida da neta e espera o retorno do filho, que trabalha no palácio. todos esses personagens são ratos, morando em buracos e trabalhando sob o palácio. os militares são cachorros ou javalis, algum bichão intimidador misturado. e tem pombas, uma cruz no chapéuzinho. começa o ataque e os ratos do palácio tentam fugir, coisas desabando, esconderijo. pombas chegam e levam pra um lugar melhor, mas logo vem um bichão e mata uma. a avó esperou e esperou, ouviu noticiário e viu coisa na tv de humanos, nada do filho voltar. no fim não tem mais ela, a netinha triste leva uma rosa pra praça do palácio, onde mais um monte de ratos se reúnem. uma inscrição no edifício dizendo com uma mensagem de santander para o povo, "las armas os han dado la independencia, las leyes os darán la libertad". parece que os fatos nunca foram esclarecidos e que existem várias versões, mas os 'onze' do título fazem referência a essas pessoas que desapareceram no incidente e eram só trabalhadores da cafeteria ou visitantes. nessa matéria diz que um senador lá disse ter escrito tudo que aconteceu, mas só podem ler quando ele morrer... pesado essas coisas, um negócio meio ditadura, né, ninguém punido nem esclarecido. massa a estrutura intercalando cenas da avó e dos onze, e forte esse negócio da representação dos personagens como animais, cada um representando uma coisa (que nem maus). os guerrilheiros tinham uma bandeira esquisita de uma pomba com umas armas cruzadas, então acho que pegou referência disso também.

o amanhã não está à venda (ailton krenak)
ensaio do krenak que a companhia das letras lançou como ebook gratuito. bem curtinho, uma reunião de três falas dele pra meios diferentes. sobre a pandemia e a sociedade atualmente, uns retornos aos temas que ele trata em ideias para adiar o fim do mundo e tal. gosto de como ele fala de outras formas de existência no mundo, quando questiona o que chamamos de humanidade, quando diz "eu não percebo que exista algo que não seja natureza. tudo é natureza. o cosmos é natureza. tudo em que eu consigo pensar é natureza". vários destaques, todos os perfis de leitores que tô seguindo postando um trecho diferente. os mais relevantes pra mim foram esses daqui de baixo. ah, e que bom que ele comenta como dizer é fazer! "é uma declaração insensata, não tem sentido que alguém em sã consciência faça uma comunicação pública dizendo "alguns vão morrer". é uma banalização da vida, mas também é uma banalização do poder da palavra. pois alguém que fala isso está pronunciando uma condenação, tanto de alguém em idade avançada, como de seus filhos, netos e de todas as pessoas que têm afeto uns com outros." semântica e pragmática, pô. li em voz alta pra carol de manhã e foi um bom começo de dia.

temos que abandonar o antropocentrismo; há muita vida além da gente, não fazemos falta na biodiversidade. pelo contrário. desde pequenos, aprendemos que há listas de espécies em extinção. enquanto essas listas aumentam, os humanos proliferam, destruindo florestas, rios e animais. somos piores que a covid-19. esse pacote chamado de humanidade vai sendo descolado de maneira absoluta desse organismo que é a terra, vivendo numa abstração civilizatória que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos.

"filho, silêncio". a terra está falando isso para a humanidade. e ela é tão maravilhosa que não dá uma ordem. ela simplesmente está pedindo: "silêncio". esse é também o significado do recolhimento.

governos burros acham que a economia não pode parar. mas a economia é uma atividade que os humanos inventaram e que depende de nós. se os humanos estão em risco, qualquer atividade humana deixa de ter importância. dizer que a economia é mais importante é como dizer que o navio importa mais que a tripulação.

em artigo que li sobre a pandemia, o sociólogo italiano domenico de masi cita a obra profética a peste, de albert camus: a peste pode vir e ir embora sem que o coração do homem seja modificado. (...) tomara que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu nada a morte de milhares pessoas no mundo todo.


carta a francisco (ana paula tavares)
não peguei muito bem, bastante poético. ela se dirige ao pai e fala de um deserto, de esperar as flores que explodem com o mínimo de água. ela fala de uma "gente do norte" que fragmentou o sul, mudou o curso dos rios, levou o sal, não se importou com "princípios cristãos e humanitários". diz que é uma carta de guerra. "dizem-me, pai, que és bom e atento e que sem romperes com o passado e a tradição andas à procura de todas as verdades, as que existem para lá das autoridades dos príncipes e das palavras dos homens. (...) dizem-me os mais-velhos que a tua voz é maior que o vento, é uma voz do infinito e consegue articular as coisas mais difíceis de dizer para que perdure eco dos ecos nas montanhas e nos desertos." antes da carta tem duas citações pesadonas, uma de um general alemão falando que acreditava que a tribo herero devia ser exterminada e outra de um chefe herero dizendo que viaja para o céu num carro de bois. lembrei agora do que emicida fala no filme invisível, amarelo, sobre princesas puxando carros de bois... coisas que a escravidão fez. ela fala mesmo de "tropas imperiais, anjos da morte e da desgraça saíram de berlim para condenar ao deserto e à agua envenenada todos os herero e os nama" e depois pede ao pai, "associa campo de concentração e morte lenta pela fome e a corda." nossa. fortíssimo. a escritora é angolana, tá numa agenda de carol com a proposta de 'literatura africana em movimento', da tag. tem ele todo aqui, é bem curtinho, fui relendo pra entender melhor e agora já senti tudo. uma denúncia e chamada pro não esquecimento. triste, profundo e importante.

o prémio (ungulani ba ka khosa)
outro da agenda da tag de carol. começa com uma descrição de uma mulher suando numa cama, as pernas abertas, gemidos, e já pensei que era sexo. mas o marido entra no quarto pra falar com ela, então é parto, na verdade. ele pergunta se ela já quer ir pro hospital mas ela sempre recusa, perguntando as horas. na primeira vez era dezessete e trinta, depois vinte e duas... no fim ela concorda e levam um tempo pra descer os dois andares até a rua, ela vomita algumas vezes. o quarto era descrito como inundado de suor, o chão como um lago, ilhotas onde pisar. ela tem o bebê e a primeira coisa que quer saber quando recobra a consciência é onde tá o prêmio, que aparentemente era um enxoval. mas a enfermeira responde que valia só pros bebês nascidos nas primeiras horas do dia tal, e ela deu à luz às vinte e três e cinquenta e cinco. véi. que pesado. a mulher até volta a desmair depois dessa. que horror, deve acontecer de fato, né? ungulani ba ka khosa é de moçambique. massa isso do suor inundando, os delírios da mulher observando as paredes. baratas fornicando, aranhas. triste.

taare zameen par (2007)
filme que carol tinha que ver pro estágio. indiano, "como estrelas na terra". sobre esse menino de uns 8 ou 9 anos de idade, ishaan, que leva muita reclamação na escola porque não aprende, repete erros, tem dificuldade. a cabeça nas nuvens, todo imaginativo e distraído; desenha e pinta bastante, constrói coisas e tal. quando a escola diz que ele vai repetir o 3º ano (acho que pela segunda vez) o pai manda ele pra um internato, e isso destrói o bichinho total. fica totalmente apático, muito depressivo, não dá atenção pra nada e tá sempre assustado em interações. e no internato os professores são ruins igual a escola, rígidos e inflexíveis, até aparecer um substituto de artes, que já chega num número musical vestido de palhaço e tocando flauta. ah, a gente não esperava que o filme fosse ser um musical, mas talvez seja bem comum em filmes da índia mesmo. e o professor fica muito tocado, chora o tempo todo, fica pensativo contemplando as coisas e os alunos de uma escola especial em que trabalha. ele olha os cadernos de ishaan, cheios de correções em vermelho e comentários de "ruim", e visita os pais dele pra mostrar os padrões dos "erros", de uma forma bem linguística, inclusive. vê as pinturas e tudo o que ele costumava fazer e se impressiona demais com a capacidade intelectual e criativa do menino, e diz pros pais que pelo que dá pra ver ishaan tem dislexia. muito boa a cena do professor dando a caixa de brinquedo em japonês pro pai ler e repreendendo ele, num paralelo ao que ishaan sofre. horrível as atitudes do pai, que acha que se importa; o professor acaba com ele falando de um povo que dirige insultos a uma árvore quando precisa que ela morra. e dá uma aula falando dos grandes nomes que foram crianças/jovens com problemas de aprendizado tradicional, e começa a ajudar ishaan de um jeito ótimo. fonética na associação de letras e fonemas, arte na caligrafia, escadas na matemática, várias coisas. e no fim faz um festival de arte em que todo mundo participa, até os professores ranzinzas, e claro que ishaan ganha e chora emocionado abraçando o professor. lindo fim com ele sorrindo e correndo pra um abraço, voando. no começo senti que era meio brega, essa coisa de músicas e ser super demorado (tem quase 3h), mas fez todo o sentido pra se sensibilizar e resolver depois. aquela coisa de questionar o quanto a gente tá viciado em um esquema de contar histórias no cinema, moldado pelo eixo eua-europa. muito bom! chega chorei. essa representação de um homem sensível, também, massa demais. o jeito que ele aborda os pais e até o diretor da escola pra tratar o assunto... premiado, parece. vi aqui que o ator do professor de artes é diretor do filme.

a máquina do tempo (h.g. wells)
planejei terminar os livros que comecei e tô empacada e o primeiro foi esse. devo ter começado em janeiro ou até antes de viajar, não lembro. não sei se fui com muita expectativa, mas logo no começo já desanimei e tava achando chato, por isso fui postergando. no começo tem esse grupo de homens de várias profissões juntos (um médico, um psicólogo, um jornalista), e um deles (o jornalista?) tá narrando. eles tinham o costume de se reunir com esse inventor ou sei lá que passa a ser chamado de "viajante do tempo" quando aparece esbaforido, sujo e ferido, e começa a relatar sua viagem depois de um banho e uma refeição. acontece que ele vai pro ano 800 mil e tanto, o que já é absurdo demais pra uma viagenzinha primeira, e lembrando que é de 1800 e pouco esse livro. lá os supostos decendentes dos humanos são pálidos, pequenos, magros, bestas. não fazem nada além de se entreter com bobeirinha, perdem o interesse rápido, dormem juntos num abrigo, temem o escuro. e no escuro tem outras criaturas humanóides, que primeiro o cara compara a gorilas na aparência, mas são branco-doente e tem olhões pra ver no escuro. o viajante faz uams teorias péssimas e não esclaresce nada, o que é o pior ainda; teve oportunidade de descobrir mais mas voltou pra trás que nem um idiota. ficou com uma namoradinha ou sei lá, carrapato, visitou um museu decadente e recuperou a máquina do tempo por sorte. em vez de voltar foi mais pro futuro ainda, viu uns caranguejo gigante, viu o sol morrendo, quase morreu também por ser trouxa. zero simpatia por esse personagem. prepotente e a zorra. várias coisas não respondidas, a única coisa que eu gostei foi que h.g. wells admite, num prefácio de uma edição antiga, que deixou a desejar mesmo, porque na época ainda era amador.

vó, a senhora é lésbica? (2018)
primeiro curta do festival online de curtas sapatão do clube lesbos, que mari se inscreveu pra vermos todas. baseado no conto de natalia borges polesso, autora daquele livro de contos lésbicos chamado amora. começa com uma criança fazendo essa pergunta durante o jantar, e só volta pra mesma cena no final. mostra a neta joana com 10 anos vendo a avó recebendo uma mulher sempre, e ela olhando meio confusa. no jantar joana tá lá com 18 anos, e nessa idade ela comeceu a namorar uma menina da faculdade. ceninha delas na biblioteca, mãozinha dada, beijo entre as prateleiras. agonia leve, até, mas pesada na cena delas juntas rindo no gramado. no fim ela fala que quer apresentar uma pessoa pra avó depois daquilo no jantar, e diz que é a namorada. sorriem. bacana pensar outras histórias assim, mulheres adultas e idosas. esperança, né.

o som e a fúria (william faulkner)
comecei isso em, o quê, dezembro?, e só terminei agora. e falhando ainda, porque tinha feito uma daquelas listinhas de tantas páginas por dia pra acabar até tal dia e não segui, só sentei pra terminar mesmo porque queria ficar livre desses livros começados pra participar da asian readathon em maio. o pior é o começo, porque é benjy que narra, e ele tem alguma deficiência intelectual que deixa tudo extremamente confuso. nessa época fui fazendo anotações dos personagens que apareciam, mas só fui rever quando acabei o livro, e lá tinha até o cara da gravata vermelha do circo com quem quentin foge. isso de o quentin e a quentin também só dá pra entender na terceira parte, com jason narrando. a segunda é do quentin e também tem muito fluxo de consciência, mas gostei bastante das coisas que ele fala. acho que tatiana feltrin ou esse cara diz que é de onde as pessoas tiram as citações bonitas mesmo, como aquela do pai dando o relógio esperando que ajude quentin a esquecer do tempo. a confirmação do suicídio dele só vem em alguma outra parte, também, porque ele só planeja com os ferros de passar e fica um tempão com a menininha italiana. a parte do jason só passei raiva, claro, porque ele é um idiota gigantesco. racista e machista pra caramba, paranóico e só ruim, mesmo. a última parte é com um narrador em terceira pessoa, o que ajuda a clarificar várias coisas. mas sei lá, vi essas duas reviews que eu mencionei e mais essa e não sinto tanto que o livro é difícil como eles falam, só diferente, incomum. talita comentou que jamais daria o som e a fúria como uma recomendação casual, mas concordamos que cai muito bem pra quem esteja procurando algo desafiador pra ler. no final foi massa conectar as partes e encaixar os pedaços, apesar de eu achar exagerado o que essas pessoas dizem de ser incrivelmente recompensador e sei lá o quê, vale a pena o custo-benefício. fiquei é com vontade de começar a reler na mesma hora, pra ver com olhos diferentes a doideira de benji e de quentin, pelo menos. jason não releria não. queria ter riscado o livro antes, também. e no fim ainda tem um apêndice falando da família, do passado e do futuro. com o cara empolgadão com o livro fiquei sabendo que o autor usou esse universo em outros livros, interessante. pensei no título como os gritos de benji e tem isso mesmo, tirado de shakespeare, coisa sobre a vida ser só "uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria". comparando com a máquina do tempo, que era o outro livro começado há anos que eu tava lendo, e com o vilarejo, que eu senti fraco no jeito de narrar, o som e a fúria é bem especial na escrita também. e serviu pra proposta, né. enfim, ok, concordo que é único e gostei de ter lido, blá blá blá. fim!

eu sou a próxima (2017)
dessa vez o curta foi documentário. lançado um ano após a morte de luana barbosa, lésbica violentada por policiais que morreu cinco dias depois em decorrência do espancamento. feita pelo coletiva (no feminino) luana barbosa, com mulheres dando voz à histórias de mulheres que foram expulsas de casa, violentadas, abusadas ou mortas por esse sistema bizarro. muito visceral, elas todas nuas ou de sutiã, preto e branco, falando olhando pra câmera. a transmissão tava com o áudio atrasado, mas isso não diminuiu o impacto. no final elas revelam as identidades reais, e uma delas era uma professora de história que contou a história de uma aluna de 14 anos que faltava à escola porque morava na rua e se prostituía. falam sobre não querer ser homem, sobre nem existir nas estatísticas. foda demais. me emocionei e pensei sobre os privilégios que a gente tem. "eu sou a próxima" é um título tão forte quanto o documentário.

o barril de amontillado (edgar allan poe)
na minha cabeça o barril de amontillado ia ser um lugar onde o cara ia meter o amigo. não lembrava que era mais um conto de gente emparedada, apesar de nesse ser um pouco diferente – o cara fecha o acesso a uma câmarazinha e o amigo fica lá dentro preso por correntes. bêbados os dois, tudo doido, isso de descer infinitamente até chegar num depósito de bebidas. nada de mais, mas curto. simples.

yacunã tuxá - mulher indígena e artista em salvador (2019)
sobre essa menina yacunã tuxá, estudante de letras na ufba, indígena da etnia tuxá do interior da bahia, sapatão e artista/ilustradora. diz que esse nome foi dado pelos encantados (massa esse título) e significa algo como "vinda da terra". ela fala sobre como a arte foi o lugar que ela achou pra se expressar e se colocar no mundo, onde ela podia encontrar a cara dela representada, e que é isso que ela busca com o que produz. aparece bastante o instagram dela. fala do processo de se assumir lésbica, de ter tentado namorar homens, e que os encantados a aceitam como ela é. questões de ser referência pros outros, e lembrei de como eu me sentia sendo professora de tanta gente, mostrando que todo espaço pode ser ocupado por pessoas lgbt e não conformistas de gênero. legal a estrutura dela falando e umas fotos passando, ela por onde passei com talita na ufba, o gramado onde fumam maconha uahsu, ela com outras mulheres pregando um lambe-lambe de noite. "em cima do medo, coragem", uma frase da vó dela. a vó e a mãe indígenas, no finalzinho a mãe cantando com um chocalho mais animada que ela. massa, tão sorridente, boas energias. dá pra assistir aqui por enquanto.

julieta paredes encontra pavio - uma breve introdução ao feminismo comunitário (2017)
essa julieta paredes, que foi uma das fundadoras do movimento feminista comunitário na bolívia, explicando suas visões e conceitos numa vinda ao brasil. faz todo o sentido o feminismo ter essa carga política, sei lá, acho que é aquilo de tudo estar integrado, feminismo e racismo e veganismo, por exemplo, as lutas contra inúmeras opressões. ela fala sobre o patriarcado não oprimir só mulheres mas homens e a natureza também, sobre como os homens deveriam apoiar as mulheres e cuidar das coisas pra que elas pudessem se reunir pra discutir o ativismo. que o machismo é uma atitude individual, mas que o patriarcado é o sistema. que não dá pra só exigir do estado as políticas públicas pra lutar contra o sistema, e que é por isso que muitas mulheres pisam na universidade. sobre o problema que é o capitalismo, sobre a luta contra o colonialismo ser a chave de tudo. bem massa. queria que as meninas ficassem imitando e zoando menos o espanhol.

úrsula (maria firmina dos reis)
bem romantismo mesmo, né, essa coisa super dramática nas falas, pensamentos trágicos, extremismo suicida, geral morrendo. "agora, decidireis da minha sorte,: feliz, ou desgraçado, úrsula, só vós sereis o meu amor". trágico, hein. o cara pedindo pra ela jurar que é dele, dizer que o ama, negócio manipulador e dependente da zorra. "depois de tão longo e apurado sofrimento, depois de ter esgotado até as fezes o meu cálix de amargura, votei ódio àquela que me fora tão cara" ahush até as fezes, véi, apareceu duas vezes essa expressão. umas perguntas que a gente já sabe responder, do tipo "mas em quem empregar esse amor, que devia ser puro como a luz do dia, ardente como o fogo de madeira resinosa?!", e coisas de não falar quem é que faz ou sente tal coisa, usar "alguém" e depois "era fulano, como o leitor perspicaz tê-lo-á já adivinhado" aushs. triste as partes de túlio e susana sobre a escravidão, como quando ele "obteve pois por dinheiro aquilo que deus lhe dera, como a todos os viventes" (e problemático a gratidão eterna que ele sente pelo cara que deu o dinheiro a ele, né). susana conta como era a vida dela antes de a levarem da família, descreve as atrocidades nos navios negreiros: "para caber a mercadoria humana no porão, fomos amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como os animais ferozes das nossas matas". a alma nas prisões do corpo, o narrador mesmo se perguntando quando os homens amarão o próximo como a si mesmos... umas coisas de deus na natureza, amor à solidão porque "aí despe-se-nos o coração do orgulho da sociedade, que o embota, que o apodrece". e o tio  fernando terrível, que assassinou o pai de úrsula, abreviou a vida já nas últimas da mãe dela, torturou susana e deixou ela morrer, atirou em túlio e matou tancredo, pra depois úrsula morrer de loucura também. "úrsula sorria, afagando invisível sombra, mas esse sorriso era débil e vaporoso – era o derradeiro esforço de uma alma, que está prestes a quebrar as prisões do corpo". que é isso. esses posicionamentos de vírgula me fez pensar se tem algo a ver com aquilo de separar oração principal e subordinada do alemão. no fim fernando se arrepende no mosteiro, mas merece não. exigiu as coisas como se o mundo todo fosse dele, "mulher altiva, hás de pertencer-me ou então o inferno, a desesperação, a morte serão o resultado da intensa paixão que ateaste em meu peito". o narrador diz que ele era otelo em seu ciúme, preciso ler alguma hora, já que baixei um bocado de coisa de shakespeare que a l&pm botou de graça. "as almas generosas são sempre irmãs."

a máscara da morte vermelha (edgar allan poe)
esse é muito corona vírus. uma doença que faz com que a pessoa sangre pelos poros e morra em meia hora, avassaladora, e um príncipe que chama mil amigos pra fortaleza dele e isola tudo. chama músicos e "bufões" pra entretê-los, etc e tal. passa seis ou sete meses e tem um baile de máscaras, que se espalha por sete salões, cada um de uma cor por causa dos vitrais através dos quais a luz do fogo entra. um salão de veludo negro cujas janelas são de vidro vermelho, e ninguém se atreve a pisar lá porque é muito tenebroso. lá dentro um relógio tenso cujas badaladas silenciam até à música a cada hora anunciada. quando dá meia-noite as pessoas notam alguém que não reconheciam, de fantasia vermelha como sangue, e máscara parecia o rosto de um cadáver. todo mundo chocado e amedrontado de chegar perto, mas o príncipe corre atrás do indivíduo com uma adaga, só pra cair morto assim que se encontram. era a morte vermelha em si. aí todo mundo começa a morrer horrivelmente, "e as trevas e a dissolução e a morte vermelha estenderam seus ilimitados domínios sobre eles todos". tenso pensar o quanto isso pode se aplicar ao que a gente tá vivendo. bem curto, bom que é terceira pessoa. novidades entre os que já lemos. e eu confundi o coração denunciador com esse porque misturava, imaginava o barulho do relógio como as batidas do coração, alguém mascarado de vermelho auhshs.

o segredo dos lírios (2012)
três mães falando sobre a descoberta da sexualidade das filhas lésbicas. uma reagiu mal e mostra se arrepender, e fala que de lá pra cá mudou e aprendeu muito; outra toda tranquila, tratando com normalidade e pedindo que a filha compartilhasse tudo com ela; outra aparentemente bem jovem, que diz que desde que a filha era bebê já sabia que ela seria lésbica (como???). massa essa perspectiva, e três experiências diferentes também. tranquilinho, foi pouca coisa pra um dia de curta mas bom o sentimento que deixou. termina com as filhas aparecendo pra dar abraço nas mães. dá pra assistir aqui. ah, esse título me fez esperar algo completamente diferente do curta, também; super cara de que vai ser ficção e dar agonia haush. mas não, ok. não explicam o porquê desse título também.