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sábado, 27 de fevereiro de 2021

lidos (3) em fevereiro

breaking dawn (stephenie meyer)

sabe que eu gostei mais da parte de jacob? a ironia e humor dele caíram bem, bella é chatinha narrando mesmo. os títulos dos capítulos eram o melhor. não lembrava nem um pouco de nahuel no final! e a cena da batalha na visão de alice só podia ser coisa do filme mesmo, nunca tem ação real nessa merda. e o super autocontrole de bella, que improvável... tinha que ser com ela, né, claro. o escudo era bem óbvio pelo jeito, massa a possibilidade de expandir. e o poder de alec que nunca foi mencionado sendo que é o mais cartada final de todos??? dá aquela sensação de que a autora foi fazendo as coisas de última hora, do jeito que precisava que fosse. muito bom o discurso de garrett no final! coragem, hein, meu filho. e o "i’ll follow you anywhere, woman" kkk. os poderes de avatar de benjamin não fazem sentido nenhum, né... e como diabos uma pessoa manifestaria sinais de uma habilidade dessas enquanto humana? a descrição de siobhan só me fez pensar na lady dimitrescu (esse nome é engraçado, né) do novo resident evil, corpulenta e com uma puta presença. me pergunto se esses vampiros não atrapalhariam a fauna com essas grandes caças deles.não gosto de como bella imediatamente é tomada por um sentimento maternal quando percebe que tá grávida, dessa fala dela de não saber que queria/gostava de algo até fazer; muita cara de coisa mórmon sendo enfiada na história. e ah, sim, por causa de renesmee que bella ficava tão feliz recebendo jacob, ótimo motivo! tudo errado esse negócio de imprinting e romance, viu. mas a parte de leah escolher ficar na alcateia de jacob e oferecer apoio achei sensível. gosto dela. seth também, queridinho, até engraçado às vezes. cruel mesmo a falta de infantilidade/infância de renesmee. risos do fandom chamando ela de "resume" heuhe. massa jacob sendo mais amigável com edward e os vampiros, também; o respeito por carlisle... não lembrava tanto de j. jenks também. ah, bem merda bella chamando a língua indígena de kaure (que edward magicamente sabe falar) de "alien tongue", aff. e a coisa de recorrer ao espanhol pra entender português, "espero que jacob tenha ao menos estudado espanhol na escola" pensando na possível fuga pro brasil -.- aiai. fazia muito tempo que não lia um livro tão grosso. fim dessa releitura de conforto que nem valeu tanto a pena... vi um vídeo sobre ler livros "neutros", que a gente já leu e conhece a história, como uma maneira de nos sentirmos seguros durante esse período de instabilidade bizarro em que o mundo tá, e faz total sentido. mas da próxima vou escolher melhor, viu.

viagem em volta de uma ervilha (sofia nestrovski & deborah salles)

ah, que gostosinho de ler! acompanhava sofia nestrovski e deborah salles no instagram por um tempo antes delas lançarem essa hq juntas, vi vários stories da gata de sofia e tal, dela com o braço engessado (!), das montanhas de livros no apartamento, de sofia fazendo kung fu... queria esse quadrinho mas empurrei pra analuísa na festa do livro da usp porque não tava podendo gastar (que bom que ela pode hehe); tinha mostrado pra ela por causa da gata chamar ervilha. pituca, pipoca, princesa ervilha – ela cita o poema de t.s. elliot que eu gosto, the naming of cats :) vi um vídeo delas no papo zine e parece que elas se tornaram amigas fazendo esse livro, muito massa terem se achado assim porque parecem conversar muito bem uma com a outra. sofia escreve bem mesmo, aliás; deborah fala do talento dela em não deixar as coisas pedantes falando de literatura, filtrar a bagagem e ser precisa. verdade. hamlet, irmãs brontë, harry potter, wordsworth... que levada a gatinha! muito bom o preto e o pink. trechos bonitos ou de destaque:

anna karenina (leo tolstoy)

ouvi inteiro com o audible! único livro que consegui ler no mês de amostra grátis. narrado pela irmã do ator de donnie darko, maggie gyllenhaal. voice acting-wise gostei de perceber as sutilezas de mudança na voz, às vezes macia e suave, transbordando sentimento, às vezes cortante e estrondosa... gostaria de fazer algo assim :) mais de 30 horas mas cheguei a colocar na velocidade 1.8 durante um bom tempo; comecei a entender por que tem gente que acelera tanto, mas ainda não vejo como é possível seguir absorvendo bem de 2 pra cima. da primeira vez que comecei esse livro li um bom tanto, e sinceramente não senti que perdi muita coisa, viu. é que vi o filme e sabia o final por causa de a insustentável leveza do ser, né... não lembrava detalhes, mas que droga a questão de anna e vronsky ficarem mal vivendo juntos, esse negócio de anna achar que vronsky parou de amá-la, a estranheza com a filha dele... aliás, estranho não saber bem como se escreve os nomes dos personagens, já que não tô lendo com os olhos, hehe. stepan arkadyevich, por exemplo, fiquei um bom tempo imaginando stepaniard, por algum motivo. o jeito que levin se reaproxima de kitty e pede a mão dela de novo foi bem parecido com o filme, e é massa porque essa é minha cena favorita lá; eles passam a noite inteira juntos, conversando, e antes de irem embora se comunicam com giz e uma lousa, escrevendo as iniciais das palavras. bem mais complicado de decifrar, o tamanho das frases que fazem, mas tão tão sintonizados que entendem tudo. "oh, so it's not time to die yet?" e levin bobo de amor sentindo que podia voar :) mas pô, as picuinhas de vida de casado, viu, até eles. muita falação de política e sentido da vida, tô de boa. não sinto que prestei tanta atenção quanto seria uma leitura normal, mas não me importei (eclipse foi obviamente mais tranquilo).

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

lidos (3) e assistidos (2) em agosto

macanudo #2 (liniers)
livro de tirinhas que mariana trouxe já faz tempo. tinha lido um pedaço já, terminei só agora. tem umas engraçadas, criativas, fofas, bobinhas... não é muito consistente, nem todas achei boas sacadas. algumas vezes me perguntei sobre a tradução, já que o original é em espanhol. dava pra fazer um trabalho em cima, hein, qualquer hora vou olhar isso. no geral é uma leitura boa pra passar o tempo, nada de mais. podia botar aqui minhas preferidas mas vai dar um trabalho de achar... mas é fácil de reler, também, então pronto.

rafiki (2018)
aquele filme queniano lésbico que pensei em passar na times, mas desisti porque nem tem tanto inglês assim, falam mais suahíli. vi com talita porque tava disponível no "cinema #emcasacomsesc" (acabei de ver que tem as duas irenes lá! que morgana do literalmente vlogando participou na produção, se não me engano. show). gosto muito das cores, das decorações caprichadas nas casas... sofá, pano que separa cômodos, coberta de oncinha, paredes. me parece uma coisa bem áfrica, né, e acho massa pensar em outras estéticas. a história parte de kena, que mora com a mãe e trabalha na vendinha do pai, que é candidato a algum cargo político na cidade. ela tem dois amigos, blacksta e um outro gratuitamente homofóbico, e eles costumam se reunir na lanchonete de uma senhora fofoqueira. um dia ziki chama a atenção de kena, e elas vão se aproximando apesar da outra ser filha do rival político do pai dela. muito estilosa, essa ziki, viu. gosto de como kena se veste, me identifico. as duas se paqueram e começam a namorar em segredo, nesse romeu e julieta lésbico moderno. foda ouvir o pastor pregando na igreja contra o "homossexualismo" e ziki querendo pegar na mão de kena. elas ficam juntas numa kombi abandonada perto do campo de futebol, bem style, bonito o romance. mas as pessoas começam a estranhar e um dia pegam as duas juntas lá, e as agridem pesadamente. cenas fortes, véi. que horror. acaba que ziki desencanta e trata aquilo tudo como uma brincadeira, impossível de ser real, e é mandada pra londres pra estudar, enquanto kena fica pra se tornar médica. no fim contam pra ela que ziki voltou, anos passados, e a última cena é kena numa colina perto de onde ziki morava, sentindo uma mão no ombro e se virando sorrindo. achei bonito, apesar de muito triste, também. muito doce as partes delas começando a se paquerar, os beijos tímidos, o deslumbramento. fiquei sentida. acho kena bem bonita, também. massa ter filmes assim, quero ver mais. "rafiki" quer dizer "amigas". parece que foi proibido/banido no país :( lá é foda em questão de homofobia, criminalidade.

la importancia de llamarse ernesto (oscar wilde)
um dos livrinhos lá da casa do mato; peguei em algum momento de querer distrair do mundo. é uma peça em três atos, sobre esse tal jack (apelido de john) que diz se chamar ernest pra conquistar a mulher em quem é interessado, e pra outro grupo de conhecidos diz ter um irmão mais novo chamado ernest, que usa como desculpa pra se sair quando der vontade. no primeiro ato ele se declara pra essa tal gwendolen, que por algum motivo diz só poder amar um homem chamado ernest (ele até testa perguntar sobre seu próprio nome, só pra ouvi-la rejeitando totalmente), e conta pro amigo algernon que diz ter um irmão fictício que usa em benefício próprio; algernon também tem uma história dessas, algo sobre "bunbury", pra poder se retirar pro campo (se passa entre londres e o condado de hertfordshire). jack tem uma pupila, cecily, que ama o tal ernest, coitada. no segundo ato algernon aparece na casa dela fingindo ser ele, e os dois trocam declarações e já combinam o casamento (essa menina é meio doida, inventou toda uma história com ernest, um noivado de tempos, uma briguinha pra depois reatarem...); engraçado que jack chega contando que o irmão morreu, todo de luto, só pro amigo se revelar dali a pouco. no terceiro ato tem uma reviravolta ainda maior: gwendolen conhece cecily, ambas revelam estar comprometidas com um tal de ernest, gwendolen não sabia de nada do suposto irmão mais velho dele... quando jack aparece cecily fala que é o tutor dela, e quando algy aparece gwendolen diz que ele é seu primo (assim que jack a conhece, aliás). confessam as mentiras, os dois prestes a serem rebatizados pelo padre ou sei lá do lugar, mas ainda vem coisa: a mãe de gwendolen, lady bracknell, reconhece a governanta de cecily, miss prism, porque 28 anos atrás ela trabalhava pra família dela e saiu com um livro e um bebê, o filho da irmã de lady bracknell, que se perderam (ela inverteu as bolsas, algo besta do tipo). e assim se dão conta de que o bebê era jack, que foi mesmo criado pelo avô ou sei lá de cecily, adotado. ou seja, ele é o irmão mais velho de algernon mesmo, e se chama ernest, por ser primogênito (mesmo nome do pai). ôxe, hein. no fim os casais ficam juntos, só não entendi porque cecily não reclama do nome real de algernon não ser ernest (ela também veio com esse papo). no prólogo explicam mais sobre o título, que faz mais sentido em inglês (the importance of being earnest), pela sonoridade do adjetivo earnest e do nome ernest... uma crítica sobre a sociedade da época (1895, mais ou menos), essa coisa de honestidade, aparências, bobageiras. foi legal, esperava menos.

gräns (2018)
comecei aqui a missão de assistir filmes que me interessam logo após ter visto alguém falar sobre ou qualquer coisa do tipo. nesse caso foi puiupo que tweetou sobre filmes com os designs favoritos de monstros/criaturas dela, e por pouco não via border (o título em inglês), mas lembrei que tinha na plataforma do sesc onde vimos rafiki. filme sueco categorizado como romance e fantasia, mas só fui ver isso depois de ter começado a assistir (faz sentido) (esse pôster é tão bonito). a protagonista é tina, que trabalha supervisionando as pessoas que chegam em um porto na suécia. ela tem uma espécie de sexto sentido que a permite farejar emoções nas pessoas, e a partir disso aponta quem está transportando algo ilegal. o que ela sabe é que foi atingida por um raio quando criança, e por isso tem essa habilidade, mas além de tudo ela tem uma aparência que a wikipédia descreve como "neanderthal"; numa hora ela diz que é uma deformidade cromossômica (acho que já vi ou li sobre). quando ela pega um cara com um cartão de memória com pornografia infantil as autoridades pedem ajuda dela pra prosseguir a investigação. um dia passa um cara na fronteira que a intriga demais, mas não acham nada de anormal com ele. ele sorri de um jeito tenso e parece muito com ela, fisicamente. em outro momento ela pede pra revistá-lo por completo, e descobrem que ele tem genitália feminina e uma cicatriz no cóccix, o que deixa tina constrangida. ela também tem uma cicatriz assim, porque caiu numa pedra quando criança, segundo o pai. ela acaba indo atrás dele e eles se aproximam, porque ela se sente diferente e atraída; ela até o convida a ficar na casa de hóspedes que tem junto à dela (tina mora com um cara que tem cachorras de competição, mas não se interessa em se envolver sexualmente com ele, porque a machuca). os dois tem medo de tempestade, e numa conversa depois de um beijo vore diz que o que eles têm não é uma deformidade, que ela não deveria escutar os humanos. eles transam e tina o penetra, surpresa em ter um pênis ereto (parece um clitóris comprido), e vore diz que ela é um troll. só que aí ela encontra um bebê na geladeira dele (ele sempre tá com uma barrigona e numa noite deu à luz!) e fica sabendo que aquilo é um hiisi, um embrião não fertilizado que morre em pouco tempo e é fisicamente maleável. turns out que vore é o traficante de bebês ligado ao caso de pornografia infantil, porque ele tem essa ideia de estimular a maldade e o corrompimento moral entre os humanos como vingança pelo que fizeram com os trolls (o que ele faz é trocar bebês humanos por esses hiisi, que saem dele regularmente). what! tina discorda com isso e o denuncia pra polícia, certamente omitindo as partes fantásticas, mas ele pula no mar, de algemas, e desaparece. ela põe o pai na parede e ele revela que a adotou depois que seus pais morreram no hospital psiquiátrico onde faziam torturas e experimentos neles. what!! o nome real de tina é reva, que ela acha lindo (concordo). revolta. termina com ela recebendo uma caixona onde tem um bebê troll e um cartão postal da finlândia, onde vore disse haver uma colônia de trolls em segredo. what!!! achei esse filme incrível, inesperadíssimo e muito diferente. vi com talita e carol, que ficou meio estranhada, mas acho que curtiram. palavras suecas que lembro e reconheci: helvete e flicka.

por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça (reni eddo-lodge)
tava lendo esse há alguns meses, já. demorei porque por um tempo fiquei mal demais pra pegar em leituras pesadas. quando voltei li alguns trechos pra talita, sobre feminismo negro e outras partes que me chamaram a atenção. cada capítulo foca num âmbito, contando histórias, falando sobre o sistema, sobre privilégio branco, sobre feminismo e sobre raça e classe. muito completo e bem escrito, com alguns relatos pessoais e mais pontuais, já que a escritora é jornalista. ela fala da grã-bretanha e usa muitos detalhes históricos, mas tudo reverbera aqui no brasil e no mundo também (interessante pensar as diferenças e semelhanças entre esse livro e pequeno manual antirracista). o único problema foram as inúmeras vezes em que tinha algo errado com a tradução/edição: vários trechos esquisitos, erros de escrita e etc, uma pena. quem escreve o prefácio é a gabi do canal de pretas, gosto dela. "Eu parei de falar sobre raça com pessoas brancas porque eu não acredito que desistir é um sinal de fraqueza. Às vezes é sobre autopreservação." muito doloroso, mas absurdamente importante e necessário. massa que ficou esses dias gratuito pra baixar, porque conversa com muita coisa que vem acontecendo agora, que vem sido falado nas manifestações. aprendi e refleti sobre muita coisa, mas sei que ainda tenho muito o que pensar e voltar e fazer. alguns dos destaques que eu fiz:

A jornada para entender o racismo estrutural ainda exige que as pessoas de cor priorizem os sentimentos brancos. Mesmo que eles consigam te ouvir, eles não estão realmente escutando. (...) Quem realmente gostaria de ser alertado sobre um sistema estrutural que o beneficia à custa de outros?

Eu não posso ter uma conversa com as pessoas sobre detalhes de um problema se elas sequer reconhecem que o problema existe. Pior ainda é a pessoa branca que pode estar disposta a considerar a possibilidade do racismo dito, mas que pensa que entramos nessa conversa como iguais. Nós não entramos.

Diante de um esquecimento coletivo, precisamos lutar para lembrar.

uma definição para racismo institucional:

(...) racismo institucional, explicou o relatório, é “o fracasso coletivo de uma organização em fornecer um serviço adequado e profissional às pessoas por causa de sua cor, cultura ou origem étnica. Pode ser visto ou detectado em processos, atitudes e comportamentos que resultam em discriminação por preconceito inconsciente, ignorância, falta de pensamento e estereotipagem racistas que prejudicam as minorias étnicas.”

Dizemos a nós mesmos que pessoas boas não podem ser racistas. Parece que pensamos que o verdadeiro racismo só existe nos corações das pessoas más. Dizemos a nós mesmos que o racismo é sobre valores morais, quando, em vez disso, é sobre a estratégia de sobrevivência do poder sistêmico.

É muito provável que homens brancos altamente qualificados e bem remunerados sejam patrões, chefes, CEOs, professores-chefes ou vice-reitores em universidades. Eles são quase certamente pessoas em posições que influenciam a vida de outras. Eles são quase certamente o tipo de pessoas que estabelecem culturas organizacionais. É improvável que eles se gabem de suas políticas com colegas ou conhecidos por causa do estigma social de estarem associados a visões racistas. Porém, o racismo deles é encoberto.

sobre não ver raça e sobre o padrão ser branco:

Não ver raça pouco faz para desconstruir estruturas racistas ou melhorar materialmente as condições às quais as pessoas de cor estão sujeitas diariamente. Para desmantelar estruturas injustas e racistas, precisamos ver raça. Precisamos ver quem se beneficia de sua raça, quem é desproporcionalmente impactado por estereótipos negativos sobre sua raça e a quem o poder e o privilégio são concedidos – merecidos ou não – por causa de sua raça, sua classe e seu gênero. Ver raça é essencial para mudar o sistema.

O neutro é branco. O padrão é branco. Porque nós nascemos em um roteiro já escrito que nos diz o que esperar de estranhos devido à sua cor de pele, sotaques e status social, toda a humanidade é codificada como branca. A negritude, no entanto, é considerada a “outra” e, portanto, de se suspeitar. Aqueles que são codificados como uma ameaça em nossa representação coletiva da humanidade não são brancos.

(...) privilégio branco é a ausência das consequências negativas do racismo. Uma ausência de discriminação estrutural, uma ausência da sua raça sendo vista como um problema em primeiro lugar, uma ausência de “menos chances de sucesso por causa da minha raça”. É uma ausência de olhares engraçados direcionados a você porque acredita-se que você esteja no lugar errado; uma ausência de expectativas culturais; uma ausência da violência promulgada em seus antepassados por causa da cor de suas peles; uma ausência de uma vida inteira de marginalização sutil e divisória – exclusão da narrativa de ser humano.

a diferença entre racismo e preconceito (muito massa pra se entender por que não existe racismo reverso):

Existe uma diferença entre racismo e preconceito. Existe uma definição não-atribuída de racismo que o define como preconceito mais poder. Os desfavorecidos pelo racismo podem certamente ser cruéis, vingativos e preconceituosos. Todo mundo tem a capacidade de ser desagradável com outras pessoas, de julgá-las antes de conhecê-las. Entretanto, simplesmente não há pessoas negras o suficiente em posições de poder para promulgar o racismo contra pessoas brancas no tipo de grande escala que atualmente opera contra pessoas negras. Os negros estão super-representados nos lugares e espaços onde o preconceito poderia realmente ter efeito? A resposta é quase sempre não.

essa fala famosa de martin luther king jr. que me faz pensar em performative allyship e etc:

Martin Luther King Jr. também refletiu: “Primeiro, devo confessar que, nos últimos anos, tenho sido gravemente desapontado com os moderados brancos. Cheguei quase à lamentável conclusão de que o grande obstáculo dos negros no caminho da liberdade não é o Conselheiro do Cidadão Branco ou o Ku Klux Klanner, mas o moderado branco que se dedica mais à ‘ordem’ do que à justiça; que prefere uma paz negativa, que é a ausência de tensão, à uma paz positiva que é a presença da justiça; que constantemente diz: ‘Eu concordo com você no objetivo que você procura, mas não posso concordar com seus métodos diretos’; que, paternalisticamente, sente que pode definir o tempo de liberdade de outro homem; que vive pelo mito do tempo e que constantemente aconselha o negro a esperar até uma ‘estação mais conveniente’.” (...) “A compreensão superficial das pessoas de boa vontade é mais frustrante do que a incompreensão absoluta das pessoas de má vontade. A aceitação indiferente é muito mais desconcertante do que a rejeição total.”

sobre relacionamentos inter-raciais e adoção transracial! putz:

Agora, quando vejo um casal inter-racial, me sinto desconfortável, embora esteja em um relacionamento interracial. Quando vejo um pai branco com um mestiço, penso: ‘Esse filho vai ter o que precisa?’. Porque não tive o que eu precisava. Acho que, para pessoas brancas que estão em relacionamentos inter-raciais, ou que têm filhos mestiços, ou que adotam transracialmente, a única maneira de isso funcionar é se eles realmente se comprometerem em ser antirracistas. Ser humilde e aprender que eles são racistas, mesmo quando pensam que não são.” (...) pais brancos que adotam filhos de cor assumem uma nova responsabilidade de serem conscientes em relação à raça. Eles embarcam em uma jornada muito nova de autodescoberta e têm o dever de não mais se comprometer com as políticas limitantes da neutralidade racial. Eles têm esse dever porque uma criança negra não pode ser sobrecarregada com a responsabilidade de enfrentar os preconceitos do mundo por conta própria. Nem todos os pais brancos dedicam tempo para aprender.

sobre monumentos históricos! foda:

Um debate nacional sobre se a estátua deveria cair se seguiu. Os estudantes negros que se manifestaram foram acusados de serem antidemocráticos. “Cecil Rhodes era um racista”, dizia uma manchete, “mas você não pode apagá-lo da história.” Essa foi uma conclusão estranha a ser tirada, porque fazer campanha para derrubar uma estátua não é o mesmo que deletar o nome de Cecil Rhodes dos livros de história. A campanha Rhodes Must Fall não queria que Rhodes fosse apagado da história. Em vez disso, eles estavam questionando se ele deveria ser tão abertamente celebrado. Os oponentes da campanha – que incluíam Lord Patten, o chanceler da Universidade de Oxford – disseram que, ao exercer seu direito democrático de protestar, os estudantes estavam na verdade interferindo na liberdade de expressão. Ao fazer um barulho, interrompendo o cotidiano e apontando o problema, eles se tornaram o problema. De alguma forma, não era crível que Lorde Patten simplesmente quisesse um debate livre e justo e uma troca saudável de ideias em seu campus. Parecia que ele só queria o silêncio, o tipo de paz forçada que fervia de ressentimento, do tipo que requer que alguns sofram para que outros se sintam confortáveis.

sobre vitimização branca:

Para as pessoas que se opõem ao antirracismo com base na liberdade de expressão, a oposição a disparidades raciais grosseiras é uma questão de “ofensa”, em vez das condições materiais altamente desiguais que as pessoas afetadas por ela carregam como fardo. Estar em uma posição em que suas vidas são tão confortáveis que eles realmente não têm nada material para se opor, os falsos defensores do “discurso livre” gastam todo seu tempo livre injuriando contra a “cultura ofensiva”. Quando focam em ofensas, ao invés de sua própria cumplicidade em um sistema drasticamente injusto, eles transferem, com sucesso, a responsabilidade de consertar o sistema dos beneficiados por ele para aqueles mais inclinados a perder por causa dele. Combater o racismo passa de conversas sobre justiça para conversas sobre sensibilidade. Aqueles que são repetidamente atingidos pelas tendências do racismo de impedir suas chances de vida são aconselhados a endurecer e a ficarem mais fortes.

sobre personagens negros, véi! é isso:

É no cinema, na televisão e nos livros que vemos as manifestações mais potentes do branco como a suposição padrão. Um personagem não pode simplesmente ser negro sem um aviso prévio para um assumido público branco. Personagens negros como protagonistas são considerados como não-identificáveis (com exceção de um punhado de estrelas hollywoodianas notáveis). Quando o casting para filmes e para a TV dá um passo fora da branquitude, fãs repetidamente revelam seu lado obscuro, expressando sua irritação, desgosto e decepção. O medo de personagens negros é o medo de um planeta negro.

(...) As pessoas brancas estão tão acostumadas a ver um reflexo de si mesmas em todas as representações da humanidade, em todos os momentos, que só percebem quando isso é tirado delas.

sobre minoria modelo! véi. hermione:

Hermione, negra ou mestiça, suportando insultos cuspidos de “sangue-ruim” de seus colegas, afastada de seus pais, dita que é especial e parte de uma raça completamente diferente, pode estar muito interessada em assimilar, em ser aceita. Não é de se admirar que ela tenha tentado tanto. Não é de admirar que ela tenha feito o dever de casa de seus amigos e tenha sido a primeira a levantar a mão na aula. Ela era a minoria-modelo. Uma Hermione negra ou mestiça movimentando-se para libertar elfos domésticos, depois de seis ou sete anos sofrendo insultos raciais, pode não ter coragem de desafiar seus colegas, e em vez disso poderia ter se agarrado a algo que ela sentia que realmente poderia mudar.

sobre a tarefa de educar:

Um século depois, em 1984, a feminista negra, ativista e poeta Audre Lorde escreveu em Sister Outsider: Essays and Speeches: “As mulheres de hoje ainda estão sendo convocadas a atravessar a lacuna da ignorância masculina e educar os homens quanto à nossa existência e nossa necessidades. Essa é uma ferramenta antiga e primária de todos os opressores para manter os oprimidos ocupados com as preocupações do mestre. Agora ouvimos dizer que é tarefa das mulheres de cor educar as mulheres brancas – diante de uma tremenda resistência – em relação à nossa existência, nossas diferenças, nossos papéis relativos à nossa sobrevivência conjunta. Isto é um desvio de energias e uma repetição trágica do pensamento patriarcal racista.”

sobre a necessidade do feminismo negro:

bell hooks se apresentou em 1981, escrevendo em Ain’t I a Woman: Black Women and Feminism: “O processo começa com a aceitação da mulher individual de que… as mulheres, sem exceção, são socializadas para serem racistas, classistas e sexistas, em graus variados, e nos rotular de feministas não muda o fato de que devemos conscientemente trabalhar para nos livrar do legado da socialização negativa. É óbvio que muitas mulheres se apropriaram do feminismo para servir a seus próprios fins, especialmente aquelas mulheres brancas que estiveram na vanguarda do movimento; mas, em vez de me resignar a essa apropriação, escolho reapropriar o termo ‘feminismo’, para me concentrar no fato de que ser ‘feminista’, em qualquer sentido autêntico do termo, é querer, para todas as pessoas, mulher e homem, a libertação do machismo, padrões de gênero, dominação e opressão.”

O feminismo branco em si não é particularmente ameaçador. Torna-se um problema quando suas ideias dominam – representadas como universais, para serem aplicadas a todas as mulheres. É um problema porque consideramos a humanidade através do prisma da branquitude. É inevitável que o feminismo não ficasse imune a isso. Consequentemente, o feminismo branco reforça sua posição quando aqueles que o desafiam são considerados causadores de problemas. Quando escrevo sobre o feminismo branco, não estou reduzindo as mulheres brancas à cor de sua pele. A branquitude é uma posição política, e desafiá-la em espaços feministas não é um olho por olho porque o preconceito precisa de poder para ser eficaz. (...) Quando as feministas brancas ignoram a raça, elas inicialmente não estão vindo de um lugar de malícia – embora a oposição delas possa muito rapidamente evoluir ao ponto de espumar quando suas políticas são desafiadas. Em vez disso, aprendi que elas vêm de um lugar muito parecido com o meu. Nós todos crescemos em um mundo dominado por brancos. Este é o contexto no qual as feministas brancas estão trabalhando, beneficiando e reproduzindo um sistema que elas mal percebem. No entanto, suas habilidades de análise crítica são muito boas em identificar sistemas exclusivos, como gênero, dos quais elas não se beneficiam.

sobre o que o feminismo deve ser:

O feminismo não é sobre igualdade e, certamente, não é sobre deslizar silenciosamente para um mundo de trabalho criado por e para os homens. O feminismo, no seu melhor, é um movimento que trabalha para libertar todas as pessoas que foram marginalizadas econômica, social e culturalmente por um sistema ideológico que foi projetado para que elas fracassem. Isso significa pessoas com deficiência, negros, trans, mulheres e pessoas não-binárias, pessoas LGB e pessoas da classe trabalhadora. (...) Além das exigências óbvias – o fim da violência sexual, o fim do hiato salarial – o feminismo deve estar consciente da classe e ciente da cultura limitante da binariedade de gênero. É necessário que ele reconheça que as pessoas com deficiência não são inerentemente defeituosas, mas sim que as pessoas sem deficiência falharam na criação de um mundo físico que serve a todos. O feminismo precisa exigir moradias acessíveis, decentes e seguras e uma renda básica universal. Ele deve exigir pagamento para mães em tempo integral e creches gratuitas para mães que trabalham fora. Deve reconhecer que vivemos em um mundo em que as mulheres são constantemente instigadas a serem cobiçadas, mas punem as profissionais do sexo por usarem essa situação para ganhar a vida. O feminismo precisa reconhecer completamente que a sexualidade é fluida, e precisamos sonhar com um mundo onde as pessoas não sejam violentamente policiadas por transgredirem os rígidos papéis sociais de gênero. O feminismo precisa reivindicar um mundo no qual a história racista é reconhecida e explicada, na qual as reparações são distribuídas, nas quais a raça é completamente desconstruída.

A igualdade é boa como uma demanda transitória, mas é desonesto não reconhecê-la pelo que é – o caminho mais fácil. Há uma diferença entre dizer “queremos ser incluídas” e dizer “queremos reconstruir seu sistema exclusivo”. A primeira é mais prontamente aceita no mainstream.

sobre mulheres negras raivosas e emasculação (!):

Que mulheres negras raivosas parecem emascular homens é sexista porque faz suposições sobre as
características dos homens que inevitavelmente limitam o escopo de sua humanidade. Para acreditar na emasculação, você tem que acreditar que a masculinidade é sobre poder, força e domínio. Esses traços supostamente deveriam ser grandes nos homens, mas são muito pouco atraentes nas mulheres. Especialmente nas negras raivosas.

sobre mobilidade social:

Mudar de classe exige um mínimo de sucesso e, se você não é branco, o sucesso é uma faca de dois gumes. Mesmo se você trabalhar muito e se ver no seu melhor, haverá um debate sobre se isso aconteceu por causa de sua raça, ou apesar disso.

e por fim, sobre o papel de cada um na luta antirracista:

O trabalho antirracista – a logística, a estratégia, a organização – precisa ser liderado por aqueles no cume da injustiça. Entretanto, também acredito que os brancos que reconhecem o racismo têm um papel extremamente importante. Essa parte não pode ser feita enquanto sentem culpa deliberadamente. (...) Pessoas brancas, vocês precisam falar com outras pessoas brancas sobre raça. Sim, vocês podem ser taxados como radicais, mas têm muito menos a perder. Conversem com outras pessoas brancas que confiam em você. Conversem com pessoas brancas nas áreas de sua vida nas quais você tem influência. Se vocês se sentirem sobrecarregados por seu privilégio não merecido, tentem usá-lo para algo e usem-no onde for necessário. Mas não sejam antirracistas em prol de uma audiência. Ser branco e antirracista em sua vida privada ou profissional, onde há muito poucos elogios a serem encontrados, é muito mais difícil, mas, em última análise, mais significativo.

Se você está enojado com o que vê, e sente o fogo correndo em suas veias, então depende de você. Você não precisa ser o líder de um movimento global ou um nome de peso. Pode ser tão em pequena escala quanto diminuir as relações de poder distorcidas em seu local de trabalho. Pode ser transmitindo conhecimento e habilidades para aqueles que não teriam acesso a eles de outra forma. Pode ser de forma criativa. Pode ser informal. Pode ser o seu trabalho. Não importa o que seja, contanto que você esteja fazendo alguma coisa.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

lidos (7) e assistidos (11) em julho

dark season 3 (2020)
ok... depois de duas temporadas incríveis, as expectativas tavam enormes, né, e a terceira temporada não esteve bem à altura das outras. só de vir com isso de outro mundo já fiquei meio cabreira porque podia virar cringe. analisando enquanto assistia com as meninas entendi o problema: o jeito de contar a história e revelar os mistérios não foi igual antes, e por isso ficou tão destoante do que a gente conhecia. fiquei lembrando de um vídeo sobre como j.k. rowling escreve histórias de mistério em harry potter, em contraste com a série sherlock: no primeiro a gente vai descobrindo as coisas gradualmente, tendo pistas pra poder juntar e formular hipóteses como se estivéssemos participando de tudo, acompanhando os personagens, enquanto na outra tudo é jogado na cara sem que haja tempo pra gente pensar sozinho, porque sherlock pensa em tudo e já vai dando as respostas. e foi isso que fizeram nessa temporada, sendo que antes era do outro jeito; se tivessem mudado a ordem das revelações em vez de ficar repetindo as mesmas falas de adam com eva podia ter sido melhor. mas os três últimos episódios foram bons, e gostei do final – achei bem coerente, a coisa de ser três dimensões e não duas sempre esteve na nossa cara (tem o meio além do começo e do fim, tem 2019, 1986 e 1953...), afinal. e putz, os personagens!!! silja filha de HANNAH COM EGON, meia irmã tanto de jonas quanto de claudia, então. hannah dando o colarzinho do padroeiro dos viajantes pra mãe de katharina, que depois MATA katharina, puta merda. silja e bartosz virando casal e TENDO NOAH, jesus. e um meio termo entre jonas adulto e adam, tenso demais, chega a matar hannah. queria ter visto mais da convivência de elisabeth e noah no futuro, de como ela se tornou aquela líder fodona. MEU DEUS o pai dela morrendo,  aquela faca entrando no pescoço em câmera lenta, logo depois dela quase ser estuprada. jovenzinha e se vingou do cara brutalmente, hein. que dó, mano. melhor personagem ela, afinal, mas fiquei chateada de ver que ela não é surda de verdade. no segundo mudo quem é surda é franziska, bartosz é esquisitão e o namoradinho de martha é irmão do erik que desaparece. uma das coisas que mais me incomodou foi como essa martha chorava o tempo inteiro; muito ruim essa caracterização. meio confuso as inúmeras marthas, cinco minutos de diferença entre elas, sei lá. e que vergoinha tocar what a wonderful world enquanto todo mundo desaparece da existência ashuhs. massa o jantar dos colegas, tiraram uma com a cara dos fãs quase falando do olho de wöller, ainda por cima.

killing eve season 1 (2018)
comecei sem planejar muito e foi uma surpresa agradável. sandra oh showzona como eve polastri, uma detetive que vê e quer mais do que o emprego permite. um assassinato feio e ela tem certeza que é uma mulher; tem juntado informações sobre outros crimes que ela acha ter algo em comum. a criminosa é vilanelle, russa que mora na frança e responde a konstantin, quem dá os serviços pra ela. muito talentosa e inteligente, psicopata também, meio attention-seeker. cruza com eve logo antes de ir matar a testemunha do último crime e se atrai por ela, diz pra usar o cabelo solto. um massacre traumático e nessa eve é demitida, mas é recrutada como parte de um grupo secreto que investiga esses mesmos casos em busca da tal assassina. logo cai a ficha de eve sobre a "enfermeira" que falou com ela no banheiro e a partir daí vira uma dupla obsessão (esse é o título da série em português, aliás), vilanelle provocando eve e mandando coisas pra ela, eve tentando encontrá-la e não parando de pensar nela. a doida chega a invadir a casa de eve, véi, pede pra jantar junto, conversam. várias coisas, viagens, vilanelle mata brutalmente o parceiro de eve, no meio da balada, porque ele percebeu que ela tava atrás de eve e ficou seguindo ela. o marido de eve é polonês, acho, por isso o sobrenome; chegou até a ajudar numa tradução lá no começo antes da testemunha ser morta. mas ele começa a ficar cabreiro com o trabalho dela, muitos riscos, ela mudando, só trabalha, esquece dos compromissos com ele e os amigos. enfim, a chefe da investigação é uma tal de carolyn, toda fodona e com experiência de décadas, mas estranhamente ela conhece konstantin (tiveram um casinho no passado) e fala diretamente com vilanelle quando ela tá na cadeia num dos trabalhos dela. eve passa a desconfiar e fazer coisas sozinha, acha a casa de vilanelle e aparece lá quebrando tudo. a ota chega, elas conversam, se deitam na cama e eve esfaqueia ela. mas logo em seguida se desespera, tenta ajudar, quase se matam, e a ota foge. kkkk véi. já tinham se aproximado de novo antes, quando vilanelle tá perseguindo um carinha que tinha sido chefe de eve na polícia e que tá fazendo coisa pra organização potentona pra quem vilanelle trabalha. ela passa com o carro por cima da ex-namorada, jesus, e nem mata. por isso vai pra cadeia, pra terminar de matar a coitada. enfim, várias coisas, tô curtindo. 3 temporadas.

vozes negras (amanda condasi, flor, priscila, isa souza, maria ferreira e pétala souza)
dos 4 contos, gostei mais do segundo e do terceiro: "carimbos e memórias", de flor, priscila, e "não existem sinônimos suficientes para futuro", de isa souza e pétala souza. nesse primeiro a história é sobre essa menina chamada glorinha, que quando mais jovem ajudou numa pesquisa com a comunidade pra nomear a biblioteca da escola, e através disso conheceu carolina maria de jesus, de quem a tia do sorvete tinha sido vizinha no passado. a menina cresce, sempre gostando de escrever; vence um concurso de poesia da TV (o poema dela cita noémia de souza, carolina maria de jesus, maya angelou e a própria mãe; bem bonito) e começa a pensar que quer ter uma profissão onde pode escrever e viajar o mundo. no final ela tá num avião em direção a mais uma reportagem, de muitas, e dá a entender que ela é a glória maria. ela fala sobre ser um símbolo para outras meninas negras e tal. a outra história é mais ficção científica, bizarramente próxima do contexto atual de isolamento e pandemia. um tal de omega vírus que mata muita gente, uma doença que tem a ver com compatibilidade genética. passam muitos anos, duas gerações ou mais, e todo esse tempo as pessoas viveram em isolamentos familiares. agora tem projetos de reinserção na sociedade, jovens "trangênicos" que não provocam novos surtos, uma festa pra dar início ao convívio não-digital. mas aleduma vem de um quilombo, um refúgio onde a vida continuou sem isolamento, e a missão dela é levar enyin pra lá, mas contrariando as expectativas ela quer ficar, fazer a mudança de dentro. não sei se gosto do fim, porque foi só uma insistência a mais de aleduma e a outra se viu desmotivada e foi junto, pronto. mas a história em si foi massa, trechos bonitos, uma coisa sobre espelhos e verdade. bem escrito. os outros contos não me chamaram muito a atenção: o primeiro é daquela maria do canal/instagram impressões de maria, e fala de um relacionamento que deu errado, ida dela de salvador pra são paulo pra estudar letras, o cara negro não conseguia ficar com uma negra por causa da pressão que sofreria no ambiente de trabalho e contatos. meio sem sal, não cativou em nada, pareceu muito relato pessoal. o último é até ok, uma menina que encontra sapatilhas de balé quando ajudava a mãe no lixão, alimenta o sonho e faz aulas em ONGs até ser convocada pela companhia de dança do harlem. um indício de romance que não leva pra nada, duas amigas, festa de aniversário e bebidas, uma delas sapatão. não consigo deixar de ler esses livros e ver os erros de escrita, as letras comidas ou invertidas, a falta de ou falha na revisão. também não gosto da indecisão sobre que linguagem usar, umas coisas do tipo "ai, amiga, eu a vi no instagram" no meio de uma conversa coloquial, sabe. queria histórias que usam a linguagem do dia-a-dia mesmo, sem tentar se aproximar do literário, porque fica esse estranhamento, não parece natural. no mais, ilustrações massa. no final tem referências de livros, autores e obras.

dois garotos num navio (slaeff)
curtinho, de ler em uma sentada. referências ao passado, aparentemente recente, de quando o pai de um deles viu os dois se beijando. parece ter sido um problema, o cara reagiu mal, o filho pede desculpas pro outro. atmosfera de sonho, não querendo abrir os olhos. primeiro estão numa rua, bastante gente em volta, mas através de um beijo se transportam pro titanic. noite fria, jantam juntos, precisam correr pra ir embora porque sabem o que vai acontecer em seguida. e no fim a mãe do menino narrando o acorda, e ele vai pro velório do outro garoto. "naufrágio de um de nós". interessante a construção, foi o melhor desses young adults que tô lendo esses tempos. melancolia, né. ainda vejo defeitinhos, erros de digitação e coisa e tal, mas a composição em si foi tranquila.

onheama, a infância de um guerreiro (pequeno teatro do mundo, 2020)
uma ópera de marionetes transmitida pelo "em casa com o sesc" que analuísa chamou pra ver. sobre um eclipse – uma onça monstrona que engoliu o sol e a única esperança de trazê-lo de volta é uma criança. no caminho ele encontra yara e o boto cor-de-rosa, que se juntam a ele pra ajudar (ou atrapalhar, no caso do boto). o jeito é mandar uma flecha no focinho da onça, pra ela espirrar e vomitar o sol... ahushs, show. ela é toda robótica futurista. difícil de entender a letra às vezes, principalmente na voz da mulher, por ser agudo. podia ter legenda ou uma transcrição em algum lugar. foi divertido, bem bonito, as marionetes e tal. parece que eles mesmos que fazem, deve ser massa demais.

jeanne dielman, 23 quai du commerce, 1080 bruxelles (1975)
quanto tempo levei pra assistir esse filme de três horas? foram muitos almoços observando jeanne viver. muito louco essa abordagem, a revolução que isso foi lá atrás. tudo acontece quando nada acontece, né. eu já sabia que ela ia matar um cara, mas foi massa ir vendo as pistas. ela abre o presente e deixa a tesoura ali na penteadeira, já imaginei que seria a arma do crime. antes ela teve vários momentos de ficar com o olhar perdido, derrubar e quebrar coisas, fazer coisa errado. aquele bebê da vizinha, véi, fiquei tensa pensando que ela ia fazer algo com ele. não parava de chorar. o filho é meio tosco, né, não é capaz nem de tirar os próprios pratos. bem bosta isso da mãe/mulher cuidar da casa toda, da comida, da roupa, tudo. e ainda é uma realidade. foi bom assistir, devia ser mais conhecido. parece que a amanda miranda aqui de sbo curte muito essa diretora. se liga nas minhas anotações enquanto assistia:
- super empoeirado o cobertor na cama, viu. ela bate pra limpar e sai uma fumaça.
- então é assim que se usa uma banheira. tinha aquecedor no banheiro, então deve ser mais tranquilo no frio. e ela limpou depois de tomar banho, olha lá.
- aquela cortina pertíssimo do fogão, medo. por que as panelas tavam pra fora? talvez a geladeira seja só o clima do lado de fora mesmo. esquentou rapidinho até jantarem.
- eles nem mastigam direito, só vão engolindo. aposto que aquela comida toda no prato dele foi pro lixo, pena.
- ela lê a carta quase sem respirar. o menino nem fala nada, que bosta.
- só saíram de noite pra botar a coisa pra fora e dar uma volta?
- ele não tem quarto, então. toda noite tem que afastar os móveis e fazer isso
- abriu a janela mas tá tão cedo que nem iluminou
- ligou o aquecedorzinho... trocou toda a roupa do cara. até engraxou o sapato
- agora tem duas cadeiras na cozinha!
- que rápido esse café
- haha isso de deixar a roupa de dormir debaixo do travesseiro
- dois segundos de bebê
- a velhinha ali só de enfeite
- que escuro esse lugar que ela toma café. vontade de acender o lustre acima dela
- a hora do cara estranho!!! dois segundos e já saem, mas ela tá de cabelo bagunçado. o cara da dinheiro e diz "até quinta-feira"... sabia que ia acontecer coisa desde de manhã que ela botou aquele paninho na cama. eca
- perspectiva diferente da cozinha! será que ela percebeu que deixou a panela no fogo? parece meio atordoada, levando a panela pra lá e pra cá. só mais uma batata, é isso? vai sair pra comprar ou emprestar?
- coitada. terceira vez que vai na rua no mesmo dia
- essas batata marronzona. aí tem que descascar mesmo. olhar vazio, perdida em pensamentos
- sempre mandando ele parar de ler e comer
- aff ele parado depois de terminar. ela já pega os pratos e leva pra cozinha...
- a entrada é sempre uma sopa, então
- "un petit minute"
- nem conversam eles, ele nem responde o que ela diz
- que negócio é esse que ele faz e tem prova de natação?
- esse corte confuso, bem quando ele afasta o livro muda pra ela segurando um e depois fechando, ele escrevendo no caderno
- "não vamos ligar o rádio hoje?" por que você mesmo não faz, véi?
- o "sair" deles é dar uma volta no quarteirão? sempre esse escuro que não dá pra ver nada, só ouvir o saltinho dela
- que papo doido é esse, menino. o membro masculino é uma espada que machuca, uhum. idade de se interessar por mulheres, ele diz, com essa cara de vinte e poucos
- ela sempre abotoa todo o negócio azul que veste
- todo dia engraxar sapato, véi
- os mesmos gestos, até. o jornal debaixo do braço, o sapato em cima do lixo...
- ele apontou o botão aberto... wow
- tinha achado estranho ela colocar o prato ensaboado no escorredor e ela percebe, fica confusa! show
- tem uma bacia que fica sempre na pia. interessante
- nossa, super fino esse "colchão" onde o cara dorme né
- todo dia ela faz tudo sempre igual...
- derrubou um talher, tinha derrubado a escova de engraxar... olha só
- não entendo esse lugar que ela vai. bureau, ingang... ela que saiu cedo demais, foi?
- esqueceu a sacola...
- o número 23 esquisito fechado? que lugar é esse?
- que trabalho infinito essa carne...
- olha a sacada!!!
- que é isso que ela tirou da panela?
- nossa, jogou o leite com café todo fora??? chega pensei que era o leite estragado
- queria menos café será? esses cubinhos de açúcar, jamais vi
- de novo!!!!!! por quê? tá ruim o café?
- chaleira engraçada, uma rosquinha
- tá na bad hoje, né, minha filha. i feel you
- arrumar/limpar a casa pra ver se se apruma
- eita, vai receber gente. é agora
- sempre teve essas poltronas e a mesinha? não tô lembrando
- só bonjour e nada mais, que seco né
- que choro gritado horrível
- pega, senta, repete... que agonia
- essa porta nunca é trancada né
- cenário novo! escadas rolantes
- já tinha gente onde ela senta...
- não vai tomar? pô
- o marido morreu então
- antes as roupas vinham com papel assim mesmo, né? lembro
- a tesoura ficou ali.............
- o cara sem reação aí em cima dela... não entendi se ela tava querendo tirar ele porque tava desagradável ou porque ela tava gostando. a cara que ela faz, se esconde no cobertor...
- wow hein. e todo esse tempo contemplativa. uma expressão de felicidade?
- FIM

crickets (2020)
curta de kristen stewart nessa série da netflix "feito em casa". talita correu assistir assim que carol avisou que tinha ela. uns pensamentos de isolamento, insônia, delírios. very relatable. massa que ela fez sozinha com a namorada, aparece no final (e também os nomes de quem editou e tratou a imagem). los angeles, parece, né. é isso, tá todo mundo na merda.

12 years a slave (2013)
mano, que história pesada. solomon northup existiu mesmo, e depois daquilo tudo se tornou um grande antiescravagista, atuando nos eua todo. ele vivia com a esposa e os dois filhos numa casa própria e era um violinista bem sucedido, mas numa viagem com uns caras do circo foi capturado e mandado para o sul como escravo. teve que fingir ser analfabeto, foi traído quando tentou mandar uma carta pra família e por isso desistiu, sofreu muita dor e humilhação. a personagem de lupita nyong'o, meu deus do céu, que horror. ela pedindo que solomon a matasse, o ciúme da esposa do senhor, os castigos, as feridas... o prêmio que ganhou pelo papel foi mais que merecido. quanto branco de merda, até os mais gentis não tinham coragem de peitar o sistema perverso. brad pitt aparece pra questionar isso e por fim ajuda solomon, que até outro nome tinha recebido. muito triste ele ser levado embora enquanto os outros negros que conheceu ficam pra trás. tem essa matéria sobre luiz gama, "nosso solomon northup", que quero ler ainda.

killing eve season 2 (2019)
a primeira terminou assim que eve esfaqueia vilanelle e essa termina quando vilanelle atira em eve. não entendo essas coisas de série em que a polícia acha o criminoso e faz acordos com ele, usam ele pra resolver outra coisa. é o que acontece aqui, vilanelle participando do interrogatório de uma assassina fodona que nem ela, depois fingindo ser amiga da irmã de um steve jobs escroto pra se aproximar dele e descobrir com o que tava envolvido. claro que no fim ela o mata, numa cena em que eve pensou que vilanelle ia se virar contra ela, mas carolyn tinha isso dentro das expectativas e não tá nem aí. foi à gota d'água pra eve; combinou de fugir com vilanelle e por um momento tava tudo lindo, lésbicas nas ruínas de roma, meu deus se beijem, mas ela amarela e toma um tiro de raiva de oksana. essa temporada foi massa, as coisas se intensificando; o que foi aquela cena de oksana transando com eve pela escuta? e o boy tosco da investigação junto, usado por eve, coitado. quase morre, eve deixa ele pra ir salvar oksana, véi, o amor. e ela com o machado no cara dos twelve!!! puta merda. é nessa temporada que ela quase empurra um cara na linha do metrô, né? porque ele passou trombando nela sem nenhuma educação. acho que tô curtindo mulheres assassinas, hein. oksana mandando a real na terapia com a irmã do cara lá, falando sobre estar sempre entediada e não saber por que faz o que faz, o que quer, etc. tô misturando um pouco a segunda e a terceira temporadas porque emendei uma na outra, mas gostei de ambas igualmente.

killing eve season 3 (2020)
no começo oksana tá se casando mas nunca mais tocou no assunto, não entendi a necessidade. aparece uma russa dinossaura que foi a professora dela, ginasta. aí ela decide voltar pros twelve e tentar subir de nível, mas perde a paciência com o aprendiz e o mata, véi. o menino era gay também, fez a maior patchotcheira matando a vítima na festinha de criança. eles vestidos de palhaço ahushs. roupas de oksana sempre on point, adoro a lesbian energy dos terninhos. e woooah o beijo dela e eve no ônibus!!! uma luta toda doida e depois isso, aiai. antes ela nem sabia que eve tinha sobrevivido, coitada. eve tá mal, vivendo num apartamento minúsculo, trabalhando num restaurante de comida coreana com conhecidos da família. carolyn surge pra avisar que vilanelle voltou à ativa. kenny morre, pô!!! brutal demais, caído do prédio. e claro que konstantin tá no meio de tudo. a filha dele, aliás, não falei dela antes, mas what a little lesbian! gosto de como é andrógina e irritantemente inteligente. a coitada mata o padrasto, parece influenciada por vilanelle, no fim tem que ficar numa instituição por causa dos sinais de psicopatia. adorei o final! ela e eve se perguntando sobre o que viria depois, oksana falando pra andarem cada um pra um lado e não olharem mais pra trás, e depois de uns metros as duas olham pra trás *------* asuhsuh. nossa, o marido de eve quase morre nas mãos daquela véia ginasta, lá na polônia (teve PTSD depois de oksana matar a paquerinha dele e deixou eve – "fuck off forever" haush). oksana visita a família, mãe doida, mata ela explodindo a casa toda. deixa dinheiro pro menininho fã de elton john, só deixou ele e outro irmão vivos. tem várias coisas bobinhas, tipo isso de konstantin voltar toda hora ou outras repetições nada surpreendentes, mas o humor e a narrativa são muito únicas. não resolveu tanta coisa assim, mas acho que foi um bom final. ou pensei que ia ser, né, mas esses dias vi na internet que as filmagens da quarta foram adiadas por causa do corona. não acho que precisa, mas MANDA.

struwwelpeter (heinrich hoffmann)
umas historinhas bizarras sobre crianças malcriadas que sofrem consequências absurdas, pra ensinar pelo medo o que não fazer. anisha deu uma história chamada die geschichte vom suppen-kaspar, em alemão (super punk e tenso esse vídeo), e reconheci as ilustrações; era desse livro que era de rômulo, acho. li as outras rapidinho, são em forma de poema, com rimas e tal. interessante de pensar como era isso, ou se sempre foi humor mesmo. é de 1840 mais ou menos.

angola janga (marcelo d'salete)
li cumbe na casa de thiago e peguei angola janga na biblioteca antes da pandemia estragar tudo. fui ler só agora, na pretatona, mas pelo menos deu certo de eu ter um quadrinho de um autor negro pra preencher uma das categorias. massa como ele enfatiza que essa é uma história de palmares, não a história, porque tem tantas possíveis. aqui zumbi foi criado como livre, tendo sido tomado pelos portugueses quando bebê, porque os pais foram mortos num ataque a um quilombo. era instruído e protegido por um padre, e num dia em que outro menino ameaça machucá-lo com instrumentos de tortura de escravos ele foge pela serra da barriga. mas o quadrinho vem desde antes, acompanhando um escravo fugido chamado soares, que depois vai ser a mão direita de zumbi. no final é quem entrega seu paradeiro, também, sob a promessa de liberdade dos bandeirantes. um antagonista que eu não conhecia era zumba, que foi ganga de um quilombo também, mas que fez um acordo de paz com os portugueses pra viver em cucaú. zona era quem o influenciava, mais que tudo, e esse tinha sido homem de zumbi antes de discordar com ele e partir caminhos. a história mostra isso tudo, o massacre de indígenas no recrutamento pra guerra, a guerra em si. o uso de canhões foi decisivo na vitória dos portugueses. muita destruição e dor na construção dessa terra, né. mas é isso, olhar pra perspectiva não hegemônica, ouvir as vozes negras contando sua própria história. muitas referências, mapas e dados no final; 11 anos de dedicação... foda. espero que teja circulando bem, nas escolas e tal. uma leitura bem importante.

the ones who walk away from omelas (ursula k. le guin)
que conto incrível. o narrador vai descrevendo esse lugar chamado omelas, que parece utópico, e numa hora ele até provoca dizendo que aquilo não era nada irreal. que as pessoas eram complexas e educadas como qualquer um de nós, que a ausência de problemas e maldades não se explicava por nenhuma simplicidade. sem guerras, doenças, tristeza. massa como o narrador às vezes diz pro leitor imaginar o que quiser, que não se importa. e aí ele conta a que custo omelas é assim: em algum lugar de omelas há uma criança, sozinha, trancada perpetuamente num armário de vassouras, vivendo sobre o próprio excremento, demente. alguns habitantes vão vê-la, outros voltam a vê-la, mas todos prosseguem com suas vidas. nessa já entendi porque existiam aqueles que abandonam omelas, e é por isso mesmo. aqueles que não conseguem continuar fazendo parte daquilo sabendo o que o sustenta. pequeno e impactante, gostei de começar a ler ursula le guin por aqui. muitos pensamentos reverberando, por muito tempo, com certeza. quero fazer as meninas lerem a tradução do projeto cápsula pra gente conversar sobre.

pequeno manual antirracista (djamila ribeiro)
bem curtinho, vários capítulos pra tratar os diferentes âmbitos atravessados pelo racismo e orientações de como assumir atitudes antirracistas diante disso. achei conciso mas completo, discussões bem amarradas, bastante didáticas. é mesmo o que se propõe, um manual. fiquei desejando dar pra minha mãe ler, minha família. quem sabe. muitas referências pra consultar, também; muitos escritores negros e trabalhos importantes. não cheguei a anotar porque já reuni umas coisas (que vão me consumir por um bom tempo), e também porque sei que posso pegar sempre, já que é de carol, mas penso em ter esse livro um dia.

what we do in the shadows (2014)
vimos sob o uso de cannabis e foi absurdamente bom, mas já queremos rever porque tem referência demais pra pegar em só uma assistida. feliz que toparam ver taika waititi em vez de qualquer filme americano, e já baixei mais um monte de coisas dele porque gosto do humor e do estilo que ele tem e coloca nas histórias que conta. muito bom a coisa de vampiros serem gatos e lobisomens cachorros!!! a velhinha dizendo que já conheceu um lobisomem, que era muito gentil ahushus. sempre bonzinhos e preocupados em serem justos. se acorrentando pra lua cheia huash, até o camera man é atingido... e a surpresa do colega humano reaparecendo ahsuhs véi. muito tosco o vampiro mais novo, nick, né? e the beast sendo a ex-namorada de vlad haushus. coitado do nosferatu. talita disse que na cena do baile teve um espelho em que só o humano aparecia haushs muito boa essa parte! todo mundo chocado e tentando entender o que ele era kkkk. julia já tinha recomendado, apesar de eu conhecer antes disso e ter visto no letterboxd de puiupo também, e na hora sugeri que a gente visse com ela ou esperasse ela voltar pra vermos juntas. agora tá uma bosta, né, tudo arruinado e esquisito. mas foi bom, espero que dê pra contar pra ela o que achamos, sei lá.

hibisco roxo (chimamanda ngozi adichie)
não sabia nada sobre, e confesso que acho as edições da companhia das letras meio feias. não as ilustrações ou as cores (apesar de eu não gostar mesmo do roxo da capa desse ou da combinação roxo e vermelho), mas as fontes, véi... essa do título e a que sempre botam o nome da autora. enfim, já comecei me interessando pelo que a orelha propõe, dizendo que o leitor brasileiro poderia se reconhecer nos temas abordados, colonialismo e cristianismo. mas não esperava que fosse tão forte, sensível e bonito. primeira vez que leio chimamanda escrevendo literatura, e que talento, viu. umas coisas sutis mas absurdamente potentes; as diferenças entre a família de kambili e da tia ifeoma, como o pai pedia pra deus salvar a alma do avô "pagão" enquanto a tia pedia por sua saúde, como ela rezava pelo riso e confiava nos filhos pra fazer os saltos que ela esperava deles. a mudança no tratamento que a prima amaka dava a ela, como vão se tornando irmãs. jaja incorporando a rebeldia, sempre protegendo a irmã e a mãe. a língua dos olhos que tinham. e a mãe, meu deus, as descrições dela com o olho da cor de abacate muito maduro, ela envenenando eugene!!! não esperava por isso. que horror as agressões que elas sofriam, beatrice perdendo o bebê, kambili quase morrendo. e o romance platônico com o padre amadi, não imaginei que teria, também. mas foi tão doce, triste. o hibisco roxo, experimento da amiga da tia, como símbolo da mudança. tudo isso no meio de uma crise nacional, ainda por cima; golpe, paralizações, subornos, desigualdade. muita dor nesse livro, tão profundo essa coisa de religião e colonialismo e vida. kambili não sabia conversar, sabe, nunca sorria. corria assim que terminava a aula na escola porque senão apanhava por tomar tempo do motorista da família. o breve contato com papa-nnukwu, a pureza de ser "pagão", a conexão dele e amaka. a pintura, o enterro. nossa, que livro. daquelas histórias que marcam mesmo, que eu sei que releria um dia. que bom que é tão conhecido.

the half of it (2020)
filminho romance de netflix que você já sabe o que esperar. quando ellie e aster tão conversando na água fiquei prevendo as falas, "lonely" pra não acreditar em deus, etc. e que tosquinho a menina falando de se casar com o namorado idiota, você não tem nenhum senso de autonomia, não? imaginei ellie reagindo àquilo do jeito que falou do filme em que o cara corre atrás do trem, "morons". quais as chances de alguém ter teorias tão assertivas sobre o amor e relacionamentos? isso de alguém conquistar uma garota através da escrita ou planejamento de outra pessoa... previsível, né. essas coisas de filme adolescente em que as pessoas fazem arte juntas, criam uma coisa toda nova e inusitada, que jamais aconteceria na vida real. fiquei pensando nos produtores arquitetando isso, algo irreal mas faz parecer romântico. (elas grafitam uma parede juntas, "pincelada" por "pincelada", enquanto deixam recados sobre arte e blábláblá.) a voz da atriz que faz ellie é muito boa de ouvir, que é isso... mas também não é uma voz rara, né, dá pra imaginar um nome pra como essa voz é conhecida, até. meio rouca ou garganta raspando, madura, lésbica. e o menino apaixonado por aster, que feio, putz. enfim, filme okzinho, chorei fazendo paralelos com a minha vida medíocre. "have you ever loved someone so much you don't want them to change anything?"

black is king (2020)
no mesmo dia que lançou carol já recebeu link pra baixar em torrent e assistimos em 1080p, com legenda e tudo (loucura a pirataria). eu nem ia assistir, mas ela e analuísa ficaram enroladas esperando mariana (que no fim nem viu) e aí deu pra eu pegar tudo. analuísa disse que ficou arrepiada desde o começo, o que foi uma sensação ruim de ficar ligadona por tanto tempo... mas todo mundo ficou sem palavras. chorei algumas vezes, mas na maior parte do tempo estive com os olhos arregalados tentando não perder nenhum detalhe. sinto beyoncé como um messias, sei lá, alguém que chama e guia uma multidão. e é isso mesmo, né? as partes em que ela fala, sem cantar, umas coisas potentes e grandiosas... afrofuturismo no deserto. a filhinha junto atuando e dançando, orgulhosa do "this bloodline" na música do they'll never take my power. wow. feliz em ver isso. carol chamou a gente pra ver o lemonade qualquer dia, e topam rever black is king também; vou aproveitar as oportunidades.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

lidos (18) e assistidos (9) de abril

cowspiracy: the sustainability secret (2014)
tô falando que todo documentário tem um loiro alto de coque samurai e boné apresentando. era o mesmo que o de what the health, mas esse aqui veio antes, né. leonardo dicaprio veio antes de joaquin phoenix, então. gostei mais desse, pareceu mais convincente, realista, não sei. contou melhor as coisas. teve uma (1) analogia com indústria do tabaco, ahush. esse trata mais da sustentabilidade, então a história do cara no começo é que ele sempre se preocupou com reciclagem, usar bicicleta sempre que podia, economizar energia e água, mas só depois de adulto descobriu que o consumo de carne é o grande vilão de tudo (no outro ele conta que sempre prestou atenção no que comia pra ser saudável e descobriu tarde que o consumo de carne fode tudo). voltam a falar do montão de cocô produzido pelo gado de corte e leiteiro, mas aqui tratam mais do oceano e das zonas mortas por causa disso. falam da pesca, que mesmo as que se dizem "sustentáveis" pescam 5kg de peixes que nem são o alvo pra cada 1kg do peixe que eles querem. e que depois de esgotar uma espécie eles passam pra próxima, e nem dá tempo do ecossistema se recuperar, porque obviamente leva tempo pra rolar reprodução e tudo o mais. uma coisa que também apareceu no outro documentário é aquilo das empresas grandes em defesa das florestas e etc não tratarem da dieta – nem o greenpeace faz isso, e a questão é que se tocarem no assunto da carne vão perder um público enorme de apoiadores, porque é uma coisa vista como radical demais. precisam de dinheiro de patrocínio, então não fazem nada que provoque a perda do lucro, mesmo que isso signifique cuidar de problemas mais "superficiais". foda né, velho, como o dinheiro determina como o mundo gira... fiquei pensando em chernobyl e no que tá acontecendo agora, com a pandemia do corona vírus, que também tem a ver com um começo abafado por causa de lucro e apoios, sei lá. tem que acontecer essas merdas gigantescas pra que as coisas mudem de fato. o que faria as pessoas pararem de consumir carne senão algo enorme e gravíssimo? no documentário falam sobre a pecuária extensiva nem ser tão melhor assim, porque por ser mais "natural" o animal vive mais tempo, consome mais recursos, libera mais metano e tudo o mais. e falam do tanto de espaço pra pasto que precisaria ter pra alimentar o que os eua consomem de carne, que já seria a américa do norte inteira até o começo da américa do sul, só pra lá. tipo, por que partir da demanda em vez de fazer menos, fazer o que é sensato e mandar as pessoas se acostumarem a comer menos? o documentário não foi tanto de bad mas eu ainda fico triste pensando que é tão difícil acreditar em mudanças. nem com organizações mundiais de saúde mandando as pessoas ficarem em casa por causa da pandemia as pessoas ficam, sabe, imagina parar de comer carne... dá muito pra imaginar uma história distópica em que o governo precisa inventar uma mentira cabeluda pra que as pessoas tenham medo e aí sigam. enfim, teve uns donos de fábrica e fazenda de laticínios comentando que não é sustentável, que logo serão substituídos por leite de soja, de amêndoas, por sucos mesmo... não tratou tanto da questão de saúde no consumo, mas da sustentabilidade. e isso é massa, acho que vou mais pelo lado de viver de maneira equilibrada no planeta do que pela saúde individual e tal. vou mandar pra minha mãe ver. ah, tem a parte que falam do brasil, de ativistas sendo mortos, de gente que é perseguida e processada pela indústria da carne, que é a mais poderosa do mercado. uma mulher chefe de alguma instituição que não trata da agropecuária quando a pergunta é geral, mas quando o cara parte direto a isso ela fala sobre, assim meio hesitante e triste. vontade de chorar.

os fatos do caso do sr. valdemar (edgar allan poe)
tá ficando melhor, my boy edgar. nesse tem um cara que faz mesmerismo (que parece ter a ver com hipnotismo usado pra cura) que quer testar isso em alguém que esteja "in articulo mortis", que é termo médico pra na hora da morte. ele lembra desse sr. valdemar que ele conhecia e já tinha mesmerizado antes, e que agora tava numa fase terminal da doença. ele entra em contato pedindo pra ele o chamar quando estivesse há 24 horas de morrer, e o sr. valdemar fala pra ele ir na hora porque os médicos deram mais um dia de vida pra ele, apenas. lá o cara só começa os trabalhos quatro horas antes do suposto último momento, o que o senhor diz ser muito tarde, mas acaba que ele consegue ter sucesso em coisa que antes sabia que falhava com o velho. o cara faz umas perguntas pra ele às vezes e as respostas são sempre mórbidas, que ele tá dormindo, morrendo, dormindo. passa do prazo que os médicos deram, todos ficam admirados, mas daí a resposta à pergunta é que ele tá morto, e o cara descreve o som da voz como "áspero, alquebrado e sepulcral", como se viesse de muito longe, além de passar a sensação de um material gelatinoso ao tato (ok né). um estudante que ele chamou pra observar chega a desmair com isso, mas o tempo vai passando e eles mantém o velho assim por seis meses (!). ah, na hora que ele fala esquisito ele também tinha ficado branco e as manchas que tinha haviam sumido, além da boca ter se escancarado mostrando a língua inchada e escura. aí o mesmerizador e os médicos decidem acordar o sr. valdemar depois de tanto lenga-lenga e quando o fazem ele vai recuperando a aparência doentia e dali um minuto se decompõe todo na cama, mortinho da silva. talita achou que foi óbvio demais, que nada aconteceu, mas achei bom – a hipnose segurou o corpo lá, ué, apesar do velho ter morrido, e na hora que o acordaram nem tinha mais corpo pra estar lá, por isso ele se desfaz numa nojeira asquerosa e podre. massa, ashush. pensando agora, no pedido do velho ("pelo amor de Deus! — rápido! — rápido! — ponha-me para dormir — ou, rápido! — acorde-me! — rápido! — afirmo que estou morto!") talvez o acordar queria dizer matá-lo do mesmo jeito, mas meio que assassinando, sem tirar ele do transe.

o coração denunciador (edgar allan poe)
nesse o cara é completamente pirado mesmo. diz que não é louco, que prosseguiu com a maior cautela e precaução, e que foi o olho azul-claro e com catarata do velho que o fez decidir que ia matar o coitado. ele fica olhando o homem dormir de soslaio na porta do quarto por um tempão até atacá-lo e matá-lo de fato, e no processo ouviu a velocidade dos batimentos do velho ir aumentando cada vez mais. aí o cara enterra o velo no chão, classic já esse tipo de coisa, e depois dele terminar vem a polícia inspecionar a casa porque vizinhos ouviram gritos de noite. ficou lá papeando, todo convencido e confiante, até começar a ouvir o barulho do coração do velho de novo. não aguenta e admite o crime. talita comentou uma coisa que é fato: nunca tem o depois das conclusões pra gente ver, nesses contos. dá pra imaginar que naquela época foi surpreendente e marcante sim, mas muita coisa já virou enredo de filme e o escambau hoje em dia. e dá pra ir reconhecendo os padrões, aquilo do narrador se defender, se apresentar mostrando suas qualidades e falando do temperamento, etc. e sempre acaba assim que a coisa acaba de acontecer, puf. não lembrava direito desse, apesar de já ter lido. não é dos melhores.

uma descida no maelström (edgar allan poe)
um velho contando uma história que aconteceu com ele enquanto andam por umas montanhas na noruega. do topo de uma podem ver o mar e as várias ilhas por ali, e tem um redemoinho que surge em intervalos constantes e que determina toda a dinâmica dos pescadores e navegadores que passam por lá. a história é que uma vez o cara tava com os dois irmãos no barco, pescando, e eles iam perto do redemoinho porque conseguiam pegar muito mais peixe em pouco tempo. mas parece que o relógio que usam falha e eles são pegos no redemoinho, que é um negócio absurdo de fundo e veloz, e nessa só o cara contando o episódio sobreviveu. diz que foi assim que os cabelos embranqueceram, todos de uma vez. talvez o sal da água, sei lá. umas coisas de força propulsora ou energia centrípeta, não sei mais, mas ele descobre como se equilibrar enquanto giram e tal. longo, confuso. não curti muito não, mas o desenho é massa. me lembrou esse de paola rodrigues.

ensimesmada (flavushh)
um dos maiores quadrinhos de flavushh, que ela liberou pra ler/baixar de graça recentemente e coloquei no kindle. tem umas frases muito boas e relatable, do tipo "quero arrancar minha pele toda agora depois meus ossos" ou "me esconder para sempre e nunca mais acordar eu não quero estar aqui amanhã eu não quero amanhã". outras frases verdadeiríssimas como "ok vai passar nada é tão ruim quanto parece tem certas coisas na vida que você precisa fazer ok eu estou bem. não estou na verdade mas não importa" (rindo de desespero). essa menina parece ser uma princesa e os pais são grudados feito gêmeos siameses. tá na hora dela passar por esse ritual também, que supostamente é motivo de honra, mas ela não tá feliz nem quer isso. "me dizem que muitas matariam para estar em meu lugar e queria tanto que matassem de fato". ela monta num bicho e passa por um portal, e lá encontra uma menina igualzinha ela mesma. conversam por dias, ficam de romance, brigam; no fim ela mata a outra mas abraça o corpo. questão de se sentir perdida, não se entender. total. gosto muito dos desenhos dela, super simples e com essa estética "feia" que é única, na real. elementos de quadrinho sem quadrinho, uma das maiores inspirações pra mim, com certeza. foi a primeira coisa que li no kindle!

perfeito a trilha ali, a fala e os olharzinhos

speech sounds (octavia e. butler)
conto que faz parte de um projeto da editora morro branco chamado cápsula, em que liberam contos assim pra baixar de graça. tem um outro da ursula le guin lá também que quero ler. mas procurei em inglês porque imaginei que seria fácil de achar, pra aproveitar que era pequeno, e pra usar o kindle. a história se passa num futuro apocalíptico onde as pessoas perderam a linguagem por causa de uma doença tensa. "language was always lost or severely impaired. it was never regained. often there was also paralysis, intellectual impairment, death." e nem a memória ficava intacta, "she had a houseful of books that she could neither read nor bring herself to use as fuel. and she had a memory that would not bring back to her much of what she had read before." a principal da história até podia falar, meio assim sem sentido, mas não podia ler, e o cara que ela encontra podia ler mas não falar. "the illness had played with them, taking away, she suspected, what each valued most." no começo ela tá num ônibus tentando ir pra onde a família do irmão vivia, e começa uma briga que faz tudo parar. "loss of verbal language had spawned a whole new set of obscene gestures." aparece esse cara vestido de policial que resolve as coisas e chama ela pro carro dele. se comunicam com gestos e suposições e logo tão transando felizes. ela até desiste de tentar chegar no irmão pra não ter certeza da morte dele e poder continuar tendo família, já que "the illness had stripped her, killing her children one by one, killing her husband, her sister, her parents". no fim eles vão ajudar uma mulher e duas crianças fugindo de um cara e o homem leva um tiro e morre. mas a protagonista salva as crianças e descobre que elas falam normal, e aí conversam. massa esse fio de esperança no final, que não dá pra saber se foi real mesmo ou só delírio. muito bom uma história de ficção científica envolvendo linguagem, muito interessante! e octavia butler escreve muito bem, pô. gostei que esse foi meu primeiro contato com ela.

now she did not have to go to pasadena. now she could go on having a brother there and two nephews – three right-handed males. now she did not have to find out for certain whether she was as alone as she feared. now she was not alone.

rye glanced at the dead murderer. to her shame, she thought she could understand some of the passions that must have driven him, whomever he was. anger, frustration, hopelessness, insane jealousy... how many more of him where there – people willing to destroy what they could not have?

amoras (emicida)
livrinho infantil gratuito pra baixar na quarentena. sobre emicida mostrar amoras pra filha e dizer que as mais pretinhas são as mais doces, e daí ela fala "que bom, porque eu sou pretinha também". fofinho, pena que no kindle é tudo preto e branco. mas tem uma versão animada que resume bem. tem essa parte legal também de que martin luther king jr. choraria ao ouvir a menina, zumbi dos palmares diria que nada foi em vão... que o pensamento infantil é puro como obatalá, criador do mundo. que a gente chora ao nascer porque se afasta de alá. massa de existir, tão simples.

vampires suck (2010)
vimos twilight pra prestar atenção nuns detalhes, apesar de acelerado umas partes, pra depois ver isso. ideia de talita, julia se juntou e eu só fui. já tinha visto pedaços mas não ligo muito pra esse tipo de filme/humor... umas besteiras e exageros de briga e tudo. não sei nem o que falar sobre. tali gosta de bella (é outro nome, mas não lembro) sai do carro do pai com um vaso de cacto enorme em vez do pequeno do original. pai de jacob cadeirante mas às vezes anda. "um dos jonas brothers" em vez de "vampiro" naquela hora do "eu sei o que você é". ator artificialzão da zorra. a menina é bem bonita, até. patinete de shopping na floresta haush. eles vão até sei lá que filme nesse, não só crepúsculo. no fim os volturi ganham o baile de formatura, cujo tema era vampiros. daqueles filmes que me deixam sentindo que eu podia estar gastando minha vida com outra coisa.

tarja branca (2014)
nalu tinha que ver pra uma disciplina e decidimos ver todas juntas. gostei bastante, achei tocante, interessante. mas não perfeito, porque é sobre brincar e tem uma coisa de ressaltar a infância que me deixa um pouco desconfortável. pensando sobre como fui ruim com matheus naquela época de cuidar dele. também é sobre trabalhar com o que a gente gosta, ter coragem de fazer isso, e depois de vermos rendeu uma discussão interessante (aquilo de que trabalho nunca vai ser prazer, que ter uma "paixão" é outra forma do capitalismo te explorar, já que você vai ficar workaholic e render mais). questão de brincar sendo adulto pra poder ser feliz, de como o mundo vai pedindo seriedade em tudo e a gente perde essa essência. teve umas falas boas que eu já esqueci porque tô fazendo essa review em maio... estragando tudo. mas tudo bem porque gostaria de rever, tem no youtube. ah, tarja branca é um remédio proposto por um artista todo doido que aparece, umas pílulas pra se curar do mundo. oposição a tarja preta, né. tudo aquilo de ser criativo, original, e como a sociedade atual massacra isso. uma senhora sentada numa calçada falando coisas boas. sempre a questão da educação como possibilidade de transformação. e eu fiquei mexida porque já tava nos pensamentos de identidade, por que eu sou assim e não assado, como mariana e carol chegaram nos livros que leram, quem passou pela vida delas e as construiu... e o documentário pegou bem nisso. nossa, a música também, cultura popular! gente que dedica a vida a festivais de rua, essas coisas bem tradicionais mesmo. e lembrei também de como foi o carnaval de 2019, o quão forte foi presenciar o maracatu e estar lá junto. massa.

o vilarejo (raphael montes)
uma coleção de contos que se passam nessa vila em algum lugar da europa (não é explícito, mas mencionam 'ir para as américas' e os personagens chamam helga, ivan, mikhail, etc). cada um dos 7 contos corresponde a um dos reis demônios do inferno, um pra cada pecado capital: asmodeus pra luxúria, belzebu pra gula, mammon pra ganância, belphegor pra preguiça, satan pra ira, leviathan pra inveja e lúcifer pra soberba. dá pra ler em qualquer ordem mas tudo se encaixa de alguma forma, com os mesmos personagens e eventos em comum. o autor alega ser só um tradutor de uns cadernos escritos por uma senhora que morreu numa língua que não existe mais, o que é interessante (o prólogo e o posfácio fazendo parte da história também e tal). no fim a velha que morreu era uma moradora da vila que foi embora antes de todos morrerem de frio e fome. já escrevia quando era jovem, junto com a irmã gêmea e uma amiga. no conto que ela aparece ela mata o namorado da irmã mais velha pra ele não ficar com ninguém e faz parecer que a irmã gêmea fez por vingança de supostos abusos, e que se matou em seguida. no primeiro conto uma mãe mata e cozinha os filho tudo e uns moradores pra se alimentar enquanto o marido tá caçando. tem um que uma avó é obcecada por dinheiro e neglicencia a neta pra economizar, e acaba sendo alimentada por ela com moedas e morrendo. em um conto um cara preguiçoso escraviza duas irmãs negras pra fazer seus trabalhos de ferreiro, e em outro o pai delas se vinga da mulher que o acolheu mas foi passando a tratar ele mal. loucura o que um cara estupra uma menina recorrentemente e depois de crescida ela volta e o beija mordendo só pra passar lepra e deixar o cara morrer. no fim satan aparece de fato, como "um homem de muitos nomes", pra dizer que só fez fornecer a possibilidade das coisas, mas que as pessoas eram ruins mesmo e tudo aconteceu por isso. uma leitura sangrenta bacana pra um clima frio, sei lá, mas não gostei tanto do estilo de escrita. uma impressão de coisa meio bobinha, apesar da construção criativa. como se fosse meio prepotente, contando a história e no fim revelando a conclusão chocante, ohh. não sei explicar bem. mas é isso, nada de mais.

bloodchild (octavia e. butler)
conto gratuito pra baixar no kindle, em inglês mesmo. sobre os terrans, que eram habitantes da terra e fugiram pra outro planeta, e vivem entre os tlics. pelas descrições de "muitos membros" e "olhos amarelos" imagino que sejam algo entre uma cobra e uma centopeia, bem grandes. vivem muito mais que humanos, também. e o acordo entre as raças foi de uns humanos hospedarem as larvas dos tlics, que são parasitas, pra eles poderem continuar vivendo e os terrans terem onde viver. coisa sobre escravização na terra, e por ser octavia butler acabo colocando os personagens como negros. because your people arrived, we are relearning what it means to be a healthy, thriving people. and your ancestors, fleeing from their homeworld, from their own kind who would have killed or enslaved them–they survived because of us. we saw them as people and gave them the preserve when they still tried to kill us as worms. todos tomam ovos estéreis pra prolongar a vida, de um tlic meio que ligado à família. às vezes eles são picados, também, mas não machuca, anestesia. o narrador foi prometido pra uma tlic, e a questão é que aparece um n'tlic (que entendi ser um terran desligado do tlic que o implantou por algum motivo) e t'gatoi (a tlic "do" principal) tem que remover as larvas dele, e é super nojento e doloroso. dizem que se fosse a tlic do cara fazendo não seria assim. massa demais que a autora tirou inspiração das larvas parasitas de uma mosca que vive na amazônia pra criar uma história de "gravidez masculina", porque geralmente os hospedeiros são homens (tem algo de mulheres darem tlics melhores, mas eles entenderem que elas já têm a responsabilidade de gerar a própria raça. tem uma provocação de que elas geram a própria raça sim, mas pros tlics usarem seus filhos depois). muito interessante, uma perspectiva de aliens e vida no espaço totalmente nova. questões de escolhas ou a falta delas, retribuição... punkzera, curtindo muito a autora. gosto como ela fala sobre o processo da escrita depois dos contos; fez também em speech soundswhen i have to deal with something that disturbs me as much as the botfly did, i write about it. i sort out my problems by writing about them. se liga nas citações:

one of my earliest memories is of my mother stretched alongside t'gatoi, talking about things i could not understand, picking me up from the floor and laughing as she sat me on one of t'gatoi's segments. she ate her share of eggs then. i wondered when she had stopped, and why.

she had bonesribs, a long spine, a skull, four sets of limb bones per segment. but when she moved that way, twisting, hurling herself into controlled falls, landing running, she seemed not only boneless, but aquaticsomething swimming through air as though it were water.

she found the first grub. it was fat and deep red with his bloodboth inside and out.
at this stage, it would eat any flesh except his mother's.
there was always a grace period between the time the host sickened and the time the grubs began to eat him.

and the thing she held...
it was limbless and boneless at this stage, perhaps fifteen centimeters long and two thick, blind and slimy with blood. it was like a large worm.

i had been told all my life that this was a good and necessary thing tlic and terran did togethera kind of birth. i had believed it until now. i knew birth was painful and bloody, no matter what. but this was something else, something worse. and i wasn't ready to see it. maybe i never would be. yet i couldn't not see it. closing my eyes didn't help.

after that he concentrated on getting his share of every egg that came into the house and on looking out for me in a way that made me all but hate him–a way that clearly said, as long as i was all right, he was safe from the tlic.

"i don't want to be a host animal," i said. "not even yours."

it took her a long time to answer. "we use almost no host animals these days," she said. "you know that."
"you use us."
"we do. we wait long years for you and teach you and join our families to yours." she moved restlessly. "you know you aren't animals to us."

why else had i been given a whole egg to eat while the rest of the family was left to share one? why else had my mother kept looking at me as though i were going away from her, going where she could not follow? did t'gatoi imagine i hadn't known?

"terrans should be protected from seeing."
i didn't like the sound of thatand i doubted that it was possible. "not protected," i said. "shown. shown when we're young kids, and shown more than once. gatoi, no terran ever sees a birth that goes right. all we see is n'tlic—pain and terror and maybe death."


cápsula (amanda miranda, fernanda garcia, grazi fonseca, ing lee, marco sem s, monge man, nicholas steinmetz, puiupo e tais koshino)
comprei porque fizeram promoção de combo, cápsula + aquele calendário do ano do rato + um print de uma das ilustrações dele. esperava que fosse muito maior, tanto a hq quanto o calendário (que é só um quadradinho minúsculo... pena. bonito pelo menos, não tem cara de calendário então dá pra usar como decoração). esses nove artistas contando suas histórias que buscam homenagear akira e se inspiram no mangá de alguma forma. puiupo mesmo chegou fazendo umas moto empinada com gente com cara de logo de posto de gasolina, criticando o governo e a ideologia de "produzir até morrer". achei estranho a frase que ela fez em português com estrutura de inglês, tipo tradução literal de "be supposed to", mas agora tô me perguntando se não foi de propósito. ing lee faz uma narrativa ambientada numa bh futurística, "cápsula" como o nome de um complexo de apartamentos daqueles minúsculos, que só cabe a pessoa deitada pra dormir; bem massa, gostei dos personagens e do humor, enfrentamento de um cuzão de patinete. o defeitinho desse foi gráfico: os três sentados numa ponte e na mesma orientação vistos de trás e de frente. amanda (ex-paschoal) miranda compõe umas imagens grotescas enquanto se passa uma conversa sobre medo de altura (muito bom o "pra mim é mais tipo / tem mais a ver com estar próxima a beiradas / parece que elas me chamam"). legal a parte de tais koshino também, umas coisas de tudo caminhando pra ser uno, conhecimento compartilhado/distribuído (marco sem s fala disso também, retoma akira bastante, e só lembrei aqui essa coisa de "de onde vem o conhecimento" e etc. me intriga bastante); a de d0rts (que eu nunca tinha visto pelo nome, nicholas, e nem conhecia direito além das interações com puiupo); a da menina que fez umas coisas aparentemente abstratas mas que faziam sentido, as bolas e telas se mesclando, virando outra coisa. escolhi pra ser o livro que me faria sorrir pro desafio de maratona, e cheguei a rir com ing lee, pelo menos. apesar de tudo ser meio pesado tava satisfeita de finalmente ter, também.

los once (miguel jiménez, josé luis jiménez & andrés cruz)
sobre os dois dias de cerco do palácio da justiça da colômbia, em bogotá, em novembro de 1985, quando guerrilheiros o ocuparam e foram atacados por forças militares. a história é contada pela perspectiva de uma mãe/avó que cuida da neta e espera o retorno do filho, que trabalha no palácio. todos esses personagens são ratos, morando em buracos e trabalhando sob o palácio. os militares são cachorros ou javalis, algum bichão intimidador misturado. e tem pombas, uma cruz no chapéuzinho. começa o ataque e os ratos do palácio tentam fugir, coisas desabando, esconderijo. pombas chegam e levam pra um lugar melhor, mas logo vem um bichão e mata uma. a avó esperou e esperou, ouviu noticiário e viu coisa na tv de humanos, nada do filho voltar. no fim não tem mais ela, a netinha triste leva uma rosa pra praça do palácio, onde mais um monte de ratos se reúnem. uma inscrição no edifício dizendo com uma mensagem de santander para o povo, "las armas os han dado la independencia, las leyes os darán la libertad". parece que os fatos nunca foram esclarecidos e que existem várias versões, mas os 'onze' do título fazem referência a essas pessoas que desapareceram no incidente e eram só trabalhadores da cafeteria ou visitantes. nessa matéria diz que um senador lá disse ter escrito tudo que aconteceu, mas só podem ler quando ele morrer... pesado essas coisas, um negócio meio ditadura, né, ninguém punido nem esclarecido. massa a estrutura intercalando cenas da avó e dos onze, e forte esse negócio da representação dos personagens como animais, cada um representando uma coisa (que nem maus). os guerrilheiros tinham uma bandeira esquisita de uma pomba com umas armas cruzadas, então acho que pegou referência disso também.

o amanhã não está à venda (ailton krenak)
ensaio do krenak que a companhia das letras lançou como ebook gratuito. bem curtinho, uma reunião de três falas dele pra meios diferentes. sobre a pandemia e a sociedade atualmente, uns retornos aos temas que ele trata em ideias para adiar o fim do mundo e tal. gosto de como ele fala de outras formas de existência no mundo, quando questiona o que chamamos de humanidade, quando diz "eu não percebo que exista algo que não seja natureza. tudo é natureza. o cosmos é natureza. tudo em que eu consigo pensar é natureza". vários destaques, todos os perfis de leitores que tô seguindo postando um trecho diferente. os mais relevantes pra mim foram esses daqui de baixo. ah, e que bom que ele comenta como dizer é fazer! "é uma declaração insensata, não tem sentido que alguém em sã consciência faça uma comunicação pública dizendo "alguns vão morrer". é uma banalização da vida, mas também é uma banalização do poder da palavra. pois alguém que fala isso está pronunciando uma condenação, tanto de alguém em idade avançada, como de seus filhos, netos e de todas as pessoas que têm afeto uns com outros." semântica e pragmática, pô. li em voz alta pra carol de manhã e foi um bom começo de dia.

temos que abandonar o antropocentrismo; há muita vida além da gente, não fazemos falta na biodiversidade. pelo contrário. desde pequenos, aprendemos que há listas de espécies em extinção. enquanto essas listas aumentam, os humanos proliferam, destruindo florestas, rios e animais. somos piores que a covid-19. esse pacote chamado de humanidade vai sendo descolado de maneira absoluta desse organismo que é a terra, vivendo numa abstração civilizatória que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos.

"filho, silêncio". a terra está falando isso para a humanidade. e ela é tão maravilhosa que não dá uma ordem. ela simplesmente está pedindo: "silêncio". esse é também o significado do recolhimento.

governos burros acham que a economia não pode parar. mas a economia é uma atividade que os humanos inventaram e que depende de nós. se os humanos estão em risco, qualquer atividade humana deixa de ter importância. dizer que a economia é mais importante é como dizer que o navio importa mais que a tripulação.

em artigo que li sobre a pandemia, o sociólogo italiano domenico de masi cita a obra profética a peste, de albert camus: a peste pode vir e ir embora sem que o coração do homem seja modificado. (...) tomara que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu nada a morte de milhares pessoas no mundo todo.


carta a francisco (ana paula tavares)
não peguei muito bem, bastante poético. ela se dirige ao pai e fala de um deserto, de esperar as flores que explodem com o mínimo de água. ela fala de uma "gente do norte" que fragmentou o sul, mudou o curso dos rios, levou o sal, não se importou com "princípios cristãos e humanitários". diz que é uma carta de guerra. "dizem-me, pai, que és bom e atento e que sem romperes com o passado e a tradição andas à procura de todas as verdades, as que existem para lá das autoridades dos príncipes e das palavras dos homens. (...) dizem-me os mais-velhos que a tua voz é maior que o vento, é uma voz do infinito e consegue articular as coisas mais difíceis de dizer para que perdure eco dos ecos nas montanhas e nos desertos." antes da carta tem duas citações pesadonas, uma de um general alemão falando que acreditava que a tribo herero devia ser exterminada e outra de um chefe herero dizendo que viaja para o céu num carro de bois. lembrei agora do que emicida fala no filme invisível, amarelo, sobre princesas puxando carros de bois... coisas que a escravidão fez. ela fala mesmo de "tropas imperiais, anjos da morte e da desgraça saíram de berlim para condenar ao deserto e à agua envenenada todos os herero e os nama" e depois pede ao pai, "associa campo de concentração e morte lenta pela fome e a corda." nossa. fortíssimo. a escritora é angolana, tá numa agenda de carol com a proposta de 'literatura africana em movimento', da tag. tem ele todo aqui, é bem curtinho, fui relendo pra entender melhor e agora já senti tudo. uma denúncia e chamada pro não esquecimento. triste, profundo e importante.

o prémio (ungulani ba ka khosa)
outro da agenda da tag de carol. começa com uma descrição de uma mulher suando numa cama, as pernas abertas, gemidos, e já pensei que era sexo. mas o marido entra no quarto pra falar com ela, então é parto, na verdade. ele pergunta se ela já quer ir pro hospital mas ela sempre recusa, perguntando as horas. na primeira vez era dezessete e trinta, depois vinte e duas... no fim ela concorda e levam um tempo pra descer os dois andares até a rua, ela vomita algumas vezes. o quarto era descrito como inundado de suor, o chão como um lago, ilhotas onde pisar. ela tem o bebê e a primeira coisa que quer saber quando recobra a consciência é onde tá o prêmio, que aparentemente era um enxoval. mas a enfermeira responde que valia só pros bebês nascidos nas primeiras horas do dia tal, e ela deu à luz às vinte e três e cinquenta e cinco. véi. que pesado. a mulher até volta a desmair depois dessa. que horror, deve acontecer de fato, né? ungulani ba ka khosa é de moçambique. massa isso do suor inundando, os delírios da mulher observando as paredes. baratas fornicando, aranhas. triste.

taare zameen par (2007)
filme que carol tinha que ver pro estágio. indiano, "como estrelas na terra". sobre esse menino de uns 8 ou 9 anos de idade, ishaan, que leva muita reclamação na escola porque não aprende, repete erros, tem dificuldade. a cabeça nas nuvens, todo imaginativo e distraído; desenha e pinta bastante, constrói coisas e tal. quando a escola diz que ele vai repetir o 3º ano (acho que pela segunda vez) o pai manda ele pra um internato, e isso destrói o bichinho total. fica totalmente apático, muito depressivo, não dá atenção pra nada e tá sempre assustado em interações. e no internato os professores são ruins igual a escola, rígidos e inflexíveis, até aparecer um substituto de artes, que já chega num número musical vestido de palhaço e tocando flauta. ah, a gente não esperava que o filme fosse ser um musical, mas talvez seja bem comum em filmes da índia mesmo. e o professor fica muito tocado, chora o tempo todo, fica pensativo contemplando as coisas e os alunos de uma escola especial em que trabalha. ele olha os cadernos de ishaan, cheios de correções em vermelho e comentários de "ruim", e visita os pais dele pra mostrar os padrões dos "erros", de uma forma bem linguística, inclusive. vê as pinturas e tudo o que ele costumava fazer e se impressiona demais com a capacidade intelectual e criativa do menino, e diz pros pais que pelo que dá pra ver ishaan tem dislexia. muito boa a cena do professor dando a caixa de brinquedo em japonês pro pai ler e repreendendo ele, num paralelo ao que ishaan sofre. horrível as atitudes do pai, que acha que se importa; o professor acaba com ele falando de um povo que dirige insultos a uma árvore quando precisa que ela morra. e dá uma aula falando dos grandes nomes que foram crianças/jovens com problemas de aprendizado tradicional, e começa a ajudar ishaan de um jeito ótimo. fonética na associação de letras e fonemas, arte na caligrafia, escadas na matemática, várias coisas. e no fim faz um festival de arte em que todo mundo participa, até os professores ranzinzas, e claro que ishaan ganha e chora emocionado abraçando o professor. lindo fim com ele sorrindo e correndo pra um abraço, voando. no começo senti que era meio brega, essa coisa de músicas e ser super demorado (tem quase 3h), mas fez todo o sentido pra se sensibilizar e resolver depois. aquela coisa de questionar o quanto a gente tá viciado em um esquema de contar histórias no cinema, moldado pelo eixo eua-europa. muito bom! chega chorei. essa representação de um homem sensível, também, massa demais. o jeito que ele aborda os pais e até o diretor da escola pra tratar o assunto... premiado, parece. vi aqui que o ator do professor de artes é diretor do filme.

a máquina do tempo (h.g. wells)
planejei terminar os livros que comecei e tô empacada e o primeiro foi esse. devo ter começado em janeiro ou até antes de viajar, não lembro. não sei se fui com muita expectativa, mas logo no começo já desanimei e tava achando chato, por isso fui postergando. no começo tem esse grupo de homens de várias profissões juntos (um médico, um psicólogo, um jornalista), e um deles (o jornalista?) tá narrando. eles tinham o costume de se reunir com esse inventor ou sei lá que passa a ser chamado de "viajante do tempo" quando aparece esbaforido, sujo e ferido, e começa a relatar sua viagem depois de um banho e uma refeição. acontece que ele vai pro ano 800 mil e tanto, o que já é absurdo demais pra uma viagenzinha primeira, e lembrando que é de 1800 e pouco esse livro. lá os supostos decendentes dos humanos são pálidos, pequenos, magros, bestas. não fazem nada além de se entreter com bobeirinha, perdem o interesse rápido, dormem juntos num abrigo, temem o escuro. e no escuro tem outras criaturas humanóides, que primeiro o cara compara a gorilas na aparência, mas são branco-doente e tem olhões pra ver no escuro. o viajante faz uams teorias péssimas e não esclaresce nada, o que é o pior ainda; teve oportunidade de descobrir mais mas voltou pra trás que nem um idiota. ficou com uma namoradinha ou sei lá, carrapato, visitou um museu decadente e recuperou a máquina do tempo por sorte. em vez de voltar foi mais pro futuro ainda, viu uns caranguejo gigante, viu o sol morrendo, quase morreu também por ser trouxa. zero simpatia por esse personagem. prepotente e a zorra. várias coisas não respondidas, a única coisa que eu gostei foi que h.g. wells admite, num prefácio de uma edição antiga, que deixou a desejar mesmo, porque na época ainda era amador.

vó, a senhora é lésbica? (2018)
primeiro curta do festival online de curtas sapatão do clube lesbos, que mari se inscreveu pra vermos todas. baseado no conto de natalia borges polesso, autora daquele livro de contos lésbicos chamado amora. começa com uma criança fazendo essa pergunta durante o jantar, e só volta pra mesma cena no final. mostra a neta joana com 10 anos vendo a avó recebendo uma mulher sempre, e ela olhando meio confusa. no jantar joana tá lá com 18 anos, e nessa idade ela comeceu a namorar uma menina da faculdade. ceninha delas na biblioteca, mãozinha dada, beijo entre as prateleiras. agonia leve, até, mas pesada na cena delas juntas rindo no gramado. no fim ela fala que quer apresentar uma pessoa pra avó depois daquilo no jantar, e diz que é a namorada. sorriem. bacana pensar outras histórias assim, mulheres adultas e idosas. esperança, né.

o som e a fúria (william faulkner)
comecei isso em, o quê, dezembro?, e só terminei agora. e falhando ainda, porque tinha feito uma daquelas listinhas de tantas páginas por dia pra acabar até tal dia e não segui, só sentei pra terminar mesmo porque queria ficar livre desses livros começados pra participar da asian readathon em maio. o pior é o começo, porque é benjy que narra, e ele tem alguma deficiência intelectual que deixa tudo extremamente confuso. nessa época fui fazendo anotações dos personagens que apareciam, mas só fui rever quando acabei o livro, e lá tinha até o cara da gravata vermelha do circo com quem quentin foge. isso de o quentin e a quentin também só dá pra entender na terceira parte, com jason narrando. a segunda é do quentin e também tem muito fluxo de consciência, mas gostei bastante das coisas que ele fala. acho que tatiana feltrin ou esse cara diz que é de onde as pessoas tiram as citações bonitas mesmo, como aquela do pai dando o relógio esperando que ajude quentin a esquecer do tempo. a confirmação do suicídio dele só vem em alguma outra parte, também, porque ele só planeja com os ferros de passar e fica um tempão com a menininha italiana. a parte do jason só passei raiva, claro, porque ele é um idiota gigantesco. racista e machista pra caramba, paranóico e só ruim, mesmo. a última parte é com um narrador em terceira pessoa, o que ajuda a clarificar várias coisas. mas sei lá, vi essas duas reviews que eu mencionei e mais essa e não sinto tanto que o livro é difícil como eles falam, só diferente, incomum. talita comentou que jamais daria o som e a fúria como uma recomendação casual, mas concordamos que cai muito bem pra quem esteja procurando algo desafiador pra ler. no final foi massa conectar as partes e encaixar os pedaços, apesar de eu achar exagerado o que essas pessoas dizem de ser incrivelmente recompensador e sei lá o quê, vale a pena o custo-benefício. fiquei é com vontade de começar a reler na mesma hora, pra ver com olhos diferentes a doideira de benji e de quentin, pelo menos. jason não releria não. queria ter riscado o livro antes, também. e no fim ainda tem um apêndice falando da família, do passado e do futuro. com o cara empolgadão com o livro fiquei sabendo que o autor usou esse universo em outros livros, interessante. pensei no título como os gritos de benji e tem isso mesmo, tirado de shakespeare, coisa sobre a vida ser só "uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria". comparando com a máquina do tempo, que era o outro livro começado há anos que eu tava lendo, e com o vilarejo, que eu senti fraco no jeito de narrar, o som e a fúria é bem especial na escrita também. e serviu pra proposta, né. enfim, ok, concordo que é único e gostei de ter lido, blá blá blá. fim!

eu sou a próxima (2017)
dessa vez o curta foi documentário. lançado um ano após a morte de luana barbosa, lésbica violentada por policiais que morreu cinco dias depois em decorrência do espancamento. feita pelo coletiva (no feminino) luana barbosa, com mulheres dando voz à histórias de mulheres que foram expulsas de casa, violentadas, abusadas ou mortas por esse sistema bizarro. muito visceral, elas todas nuas ou de sutiã, preto e branco, falando olhando pra câmera. a transmissão tava com o áudio atrasado, mas isso não diminuiu o impacto. no final elas revelam as identidades reais, e uma delas era uma professora de história que contou a história de uma aluna de 14 anos que faltava à escola porque morava na rua e se prostituía. falam sobre não querer ser homem, sobre nem existir nas estatísticas. foda demais. me emocionei e pensei sobre os privilégios que a gente tem. "eu sou a próxima" é um título tão forte quanto o documentário.

o barril de amontillado (edgar allan poe)
na minha cabeça o barril de amontillado ia ser um lugar onde o cara ia meter o amigo. não lembrava que era mais um conto de gente emparedada, apesar de nesse ser um pouco diferente – o cara fecha o acesso a uma câmarazinha e o amigo fica lá dentro preso por correntes. bêbados os dois, tudo doido, isso de descer infinitamente até chegar num depósito de bebidas. nada de mais, mas curto. simples.

yacunã tuxá - mulher indígena e artista em salvador (2019)
sobre essa menina yacunã tuxá, estudante de letras na ufba, indígena da etnia tuxá do interior da bahia, sapatão e artista/ilustradora. diz que esse nome foi dado pelos encantados (massa esse título) e significa algo como "vinda da terra". ela fala sobre como a arte foi o lugar que ela achou pra se expressar e se colocar no mundo, onde ela podia encontrar a cara dela representada, e que é isso que ela busca com o que produz. aparece bastante o instagram dela. fala do processo de se assumir lésbica, de ter tentado namorar homens, e que os encantados a aceitam como ela é. questões de ser referência pros outros, e lembrei de como eu me sentia sendo professora de tanta gente, mostrando que todo espaço pode ser ocupado por pessoas lgbt e não conformistas de gênero. legal a estrutura dela falando e umas fotos passando, ela por onde passei com talita na ufba, o gramado onde fumam maconha uahsu, ela com outras mulheres pregando um lambe-lambe de noite. "em cima do medo, coragem", uma frase da vó dela. a vó e a mãe indígenas, no finalzinho a mãe cantando com um chocalho mais animada que ela. massa, tão sorridente, boas energias. dá pra assistir aqui por enquanto.

julieta paredes encontra pavio - uma breve introdução ao feminismo comunitário (2017)
essa julieta paredes, que foi uma das fundadoras do movimento feminista comunitário na bolívia, explicando suas visões e conceitos numa vinda ao brasil. faz todo o sentido o feminismo ter essa carga política, sei lá, acho que é aquilo de tudo estar integrado, feminismo e racismo e veganismo, por exemplo, as lutas contra inúmeras opressões. ela fala sobre o patriarcado não oprimir só mulheres mas homens e a natureza também, sobre como os homens deveriam apoiar as mulheres e cuidar das coisas pra que elas pudessem se reunir pra discutir o ativismo. que o machismo é uma atitude individual, mas que o patriarcado é o sistema. que não dá pra só exigir do estado as políticas públicas pra lutar contra o sistema, e que é por isso que muitas mulheres pisam na universidade. sobre o problema que é o capitalismo, sobre a luta contra o colonialismo ser a chave de tudo. bem massa. queria que as meninas ficassem imitando e zoando menos o espanhol.

úrsula (maria firmina dos reis)
bem romantismo mesmo, né, essa coisa super dramática nas falas, pensamentos trágicos, extremismo suicida, geral morrendo. "agora, decidireis da minha sorte,: feliz, ou desgraçado, úrsula, só vós sereis o meu amor". trágico, hein. o cara pedindo pra ela jurar que é dele, dizer que o ama, negócio manipulador e dependente da zorra. "depois de tão longo e apurado sofrimento, depois de ter esgotado até as fezes o meu cálix de amargura, votei ódio àquela que me fora tão cara" ahush até as fezes, véi, apareceu duas vezes essa expressão. umas perguntas que a gente já sabe responder, do tipo "mas em quem empregar esse amor, que devia ser puro como a luz do dia, ardente como o fogo de madeira resinosa?!", e coisas de não falar quem é que faz ou sente tal coisa, usar "alguém" e depois "era fulano, como o leitor perspicaz tê-lo-á já adivinhado" aushs. triste as partes de túlio e susana sobre a escravidão, como quando ele "obteve pois por dinheiro aquilo que deus lhe dera, como a todos os viventes" (e problemático a gratidão eterna que ele sente pelo cara que deu o dinheiro a ele, né). susana conta como era a vida dela antes de a levarem da família, descreve as atrocidades nos navios negreiros: "para caber a mercadoria humana no porão, fomos amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como os animais ferozes das nossas matas". a alma nas prisões do corpo, o narrador mesmo se perguntando quando os homens amarão o próximo como a si mesmos... umas coisas de deus na natureza, amor à solidão porque "aí despe-se-nos o coração do orgulho da sociedade, que o embota, que o apodrece". e o tio  fernando terrível, que assassinou o pai de úrsula, abreviou a vida já nas últimas da mãe dela, torturou susana e deixou ela morrer, atirou em túlio e matou tancredo, pra depois úrsula morrer de loucura também. "úrsula sorria, afagando invisível sombra, mas esse sorriso era débil e vaporoso – era o derradeiro esforço de uma alma, que está prestes a quebrar as prisões do corpo". que é isso. esses posicionamentos de vírgula me fez pensar se tem algo a ver com aquilo de separar oração principal e subordinada do alemão. no fim fernando se arrepende no mosteiro, mas merece não. exigiu as coisas como se o mundo todo fosse dele, "mulher altiva, hás de pertencer-me ou então o inferno, a desesperação, a morte serão o resultado da intensa paixão que ateaste em meu peito". o narrador diz que ele era otelo em seu ciúme, preciso ler alguma hora, já que baixei um bocado de coisa de shakespeare que a l&pm botou de graça. "as almas generosas são sempre irmãs."

a máscara da morte vermelha (edgar allan poe)
esse é muito corona vírus. uma doença que faz com que a pessoa sangre pelos poros e morra em meia hora, avassaladora, e um príncipe que chama mil amigos pra fortaleza dele e isola tudo. chama músicos e "bufões" pra entretê-los, etc e tal. passa seis ou sete meses e tem um baile de máscaras, que se espalha por sete salões, cada um de uma cor por causa dos vitrais através dos quais a luz do fogo entra. um salão de veludo negro cujas janelas são de vidro vermelho, e ninguém se atreve a pisar lá porque é muito tenebroso. lá dentro um relógio tenso cujas badaladas silenciam até à música a cada hora anunciada. quando dá meia-noite as pessoas notam alguém que não reconheciam, de fantasia vermelha como sangue, e máscara parecia o rosto de um cadáver. todo mundo chocado e amedrontado de chegar perto, mas o príncipe corre atrás do indivíduo com uma adaga, só pra cair morto assim que se encontram. era a morte vermelha em si. aí todo mundo começa a morrer horrivelmente, "e as trevas e a dissolução e a morte vermelha estenderam seus ilimitados domínios sobre eles todos". tenso pensar o quanto isso pode se aplicar ao que a gente tá vivendo. bem curto, bom que é terceira pessoa. novidades entre os que já lemos. e eu confundi o coração denunciador com esse porque misturava, imaginava o barulho do relógio como as batidas do coração, alguém mascarado de vermelho auhshs.

o segredo dos lírios (2012)
três mães falando sobre a descoberta da sexualidade das filhas lésbicas. uma reagiu mal e mostra se arrepender, e fala que de lá pra cá mudou e aprendeu muito; outra toda tranquila, tratando com normalidade e pedindo que a filha compartilhasse tudo com ela; outra aparentemente bem jovem, que diz que desde que a filha era bebê já sabia que ela seria lésbica (como???). massa essa perspectiva, e três experiências diferentes também. tranquilinho, foi pouca coisa pra um dia de curta mas bom o sentimento que deixou. termina com as filhas aparecendo pra dar abraço nas mães. dá pra assistir aqui. ah, esse título me fez esperar algo completamente diferente do curta, também; super cara de que vai ser ficção e dar agonia haush. mas não, ok. não explicam o porquê desse título também.