quinta-feira, 31 de outubro de 2019

lidos (5) e assistidos (6) em outubro

the good place S02 (2017-2018)
resolvemos terminar de ver the good place e até que foi melhor do que a gente esperava. começa com tudo recomeçando, eleanor recebendo o próprio bilhete e tentando entender o que é chidi. ele tá tendo que escolher entre duas mulheres que supostamente poderiam igualmente ser sua alma gêmea. tahani tá com um cara baixinho que mora numa casa minúscula. jason tá de alma gêmea com um monge igual jianyu, que não deixa ele sozinho nunca. queriam que eleanor causasse na festa de boas vindas mas quem faz isso é tahani. de alguma forma eles se reúnem todos em pouquíssimo tempo e eleanor descobre que é o bad place, e michael recomeça de novo, sem shawn saber (ele não tinha permitido mais que duas tentativas). isso acontece centas de vezes. vicky, que era a eleanor de verdade antes, tá insatisfeita com os papéis menores que recebe, e ameaça de contar dos inúmeros reboots que michael fez se ele não deixar ela no controle a partir da coisa seguinte. mas acaba que ele conta pros humanos dessa situação, pedindo ajuda, e eles se unem. eleanor fica sabendo por mindy que já ficou com chidi numas vezes e fica com "efeito verônica" (passa a imaginar eles juntos e começa a gostar dele, sendo que antes não tinham nada). michael começa a tomar aulas de ética com eles, sofre uma crise existencial huahs, aprende umas coisas humanas. jason e tahani dormem juntos e passam a namorar, tendo janet como terapeuta de casal, mas aí ela começa a dar defeito e descobrem que é por causa do que teve com jason no passado, que ela não pode mentir (fingir estar ok com o relacionamento dele e tahani). ela cria um tal de derek pra ser o namorado de consolo dela, todo bestão, e depois de resolverem tudo mandam ele com cocaína pra mindy haush. shawn aparece pra elogiar michael e diz que vão adotar o plano de tortura dele, e seguindo umas coisas que michael deixa passar enquanto age como demônio ruinzão os humanos se juntam a ele pra tentar ir pro good place, mas ele nunca soube como. tahani quer "falar com o gerente" e resolvem fazer isso mesmo, ir até a juíza do universo pra apresentarem o caso e ver o que ela acha. os humanos (exceto eleanor, mas ela finge que não) falham no teste que ela dá a eles e são condenados ao bad place mesmo, mas michael argumenta que o sistema de pontos deve estar corrompido e propõe que recomecem a linha do tempo deles, salvando-os da morte e vendo se melhorariam dali em diante. eleanor melhora por uns meses, preocupada com o mundo, mas perde o entusiasmo, e michael secretamente vai encontrá-la tentando fazer com que os quatro se encontrem de novo.

the good place S03 (2018-2019)
michael vai pra terra inúmeras vezes, pra interferir um pouco em cada um dos quatro humanos, até que se encontrem. chidi começa um estudo com uma neurocienstista legal, simone, pra saber o impacto de experiências de quase morte na tomada de decisões das vítimas (só os quatro participam, parece). ele começa a dar aula de ética pra eles também, porque eleanor queria ser uma pessoa melhor, mas não vejo muito sentido nisso. chidi começa a namorar simone. ah, aquele demônio (o diabo?) trevor aparece pra ser parte do estudo também, e tenta afastá-los dizendo que a amizade deles pode interferir, tentando fazer tahani e jason ficarem, sendo animado exagerado, mas acaba que não consegue. a juíza descobre e quer terminar o experimento, mas michael e janet fogem pra terra. bobeira isso que ela não pode fazer nada (ou só não faz nada), e que ela não sabe das coisas antes mesmo sendo a poderosa juíza do universo. um monte de interferência dos dois até que os humanos os descobrem, eles revelam a realidade, explicam como funciona o tempo (jeremy bearimy, o pingo do i sendo terças-feiras e julho, acho, e nunca haushus). todos passam um tempo fazendo algo separados – chidi doido fazendo chili com doces e falando de consequencialismo e niilismo, tahani se casando com jason pra dar seu dinheiro a ele e doando um bocado pra gente na rua, eleanor devolvendo a carteira e os cacareco de um cara. ela descobre que a mãe não morreu, mas sim fingiu ter morrido pra não pagar um dívida, e que agora tá bem mais responsável; se sente mal por não ter recebido as partes boas mas depois fica ok. simulador de realidade virtual de janet onde chidi tenta terminar com simone e eleanor dá em cima dela hsuhs. tahani faz as pazes com a irmã, que também tem complexo com os pais e a coisa da competição entre elas. todos vão até o canadá pra que michael e janet conheçam doug forcett, aquele cara que acertou uns 90% de como o pós-vida realmente funcionava, mas o esforço exagerado dele em ganhar pontos positivos faz dele uma pessoa miserável. os demônios vão pra terra atrás deles e eles brigam, janet toda lutadora, e no fim vão os seis pro vácuo de janet. os humanos ficam todos com a aparência dela huahs. michael e ela vão falar com os contabilizadores de pontos e vêem que faz centenas de anos que ninguém vai pro good place, e acha que o bad place tá trapaceando algo, mas na real é que as coisas só foram ficando mais e mais complicadas e praticamente nenhum ponto positivo fica integral, sempre tem desconto de mil coisas ruins relacionadas. ihop e tahani com um bicho verde lesmento que alteram a realidade pra parecer uma echarpe, mas ela não pode tocar haush. a juíza vai à terra e vê como é tudo horrível mesmo, e decidem refazer o experimento do bairro de michael com novos participantes. jason começa a namorar janet e eleanor, chidi. um romancezinho desnecessário até terem que apagar as memórias de chidi porque escolheram simone pro novo experimento, e ele pode arruinar tudo. eleanor como arquiteta porque michael tá tendo crise de pânico.

ideias para adiar o fim do mundo (ailton krenak)
livro que esse pensador indígena lançou nesse ano, compilando umas falas que ele fez em eventos. comprei pra dar pra tati e pra casa do mato, já que ela e rômulo sempre falam dele. li antes de entregar a ela porque é curtinho. gostei de ele ter dito umas coisas meio pró-apocalipse, de querer que acabe o mundo mesmo, apesar do título. ele também diz o que acha que ajudaria a melhorar, mas no geral foram coisas importantes de lembrar e pensar. destaquei vários trechos e eles resumem bem do que se trata:

A ideia de que os brancos europeus podiam sair colonizando o resto do mundo estava sustentada na premissa de que havia uma humanidade esclarecida que precisava ir ao encontro da humanidade obscurecida, trazendo-a para essa luz incrível. Esse chamado para o seio da civilização sempre foi justificado pela noção de que existe um jeito de estar aqui na Terra, uma certa verdade, ou uma concepção de verdade, que guiou muitas escolhas feitas em diferentes períodos da história. (p.11)
Por que nos causa desconforto a sensação de estar caindo? A gente não fez outra coisa nos últimos tempos senão despencar. Cair, cair, cair. Então por que estamos grilados agora com a queda? Vamos aproveitar toda a nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas coloridos. Vamos pensar no espaço não como um lugar confinado, mas como o cosmos onde a gente pode despencar em paraquedas coloridos. (p.30)
(...) se nós imprimimos no planeta Terra uma marca tão pesada que até caracteriza uma era, que pode permanecer mesmo depois de já não estarmos aqui, pois estamos exaurindo as fontes da vida que nos possibilitam prosperar e sentir que estávamos em casa, sentir até, em alguns períodos, que tínhamos uma casa comum que podia ser cuidada por todos, é por estarmos mais uma vez diante do dilema a que já aludi: excluímos da vida, localmente, as formas de organização que não estão integradas ao mundo da mercadoria, pondo em risco todas as outras formas de viver – pelo menos as que fomos animados a pensar como possíveis, em que havia corresponsabilidade com os lugares onde vivemos e o respeito pelo direito à vida dos seres, e não só dessa abstração que nos permitimos constituir como 'uma' humanidade, que exclui todas as outras e todos os outros seres. (p.47)
Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista. Do nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe, a Terra, resulta que ela está nos deixando órfãos, não só aos que em diferente graduação são chamados de índios, indígenas ou povos indígenas, mas a todos. (p.49)
Se já houve outras configurações da Terra, inclusive sem a gente aqui, por que é que nos apegamos tanto a esse retrato com a gente aqui? (...) Essa configuração mental é mais do que uma ideologia, é uma construção do imaginário coletivo – várias gerações se sucedendo, camadas de desejos, projeções, visões, períodos inteiros de ciclos de vida dos nossos ancestrais que herdamos e fomos burilando, retocando, até chegar à imagem com a qual nos sentimos identificados. (...) O fim do mundo talvez seja uma breve interrupção de um estado de prazer extasiante que a gente não quer perder. (p.58)
De que lugar se projetam os paraquedas? Do lugar onde são possíveis as visões e o sonho. (...) Não o sonho comumente referenciado de quando se está cochilando ou que a gente banaliza "estou sonhando com o meu próximo emprego, com o próximo carro", mas que é uma experiência transcendente na qual o casulo do humano implode, se abrindo para outras visões da vida não limitada. Talvez seja outra palavra para o que costumamos chamar de natureza. Não é nomeada porque só conseguimos nomear o que experimentamos. O sonho como experiência de pessoas iniciadas numa tradição para sonhar. (...) São lugares com conexão com o mundo que partilhamos; não é um mundo paralelo, mas que tem uma potência diferente. (p.65)
Quando, por vezes, me falam em imaginar outro mundo possível, é no sentido de reordenamento das relações e dos espaços, de novos entendimentos sobre como podemos nos relacionar com aquilo que se admite ser a natureza, como se a gente não fosse natureza. (p.67)

allure (2017)
aquela atriz de thirteen e across the universe. tilera revolts mas trabalha de faxineira pra uma empresa e com o pai. vai limpar a casa de uma mulher e ela tem uma filha de 16 anos que toca piano. se interessa por ela, aproveita que ela tem um pôster do nirvana pra falar disso, fica dizendo que tá feliz em ver ela quando vai lá. um dia a mãe da menina (eva) diz a ela que pretende se mudar com o parceiro, e eva não gosta nem quer. laura (a faxineira) consola a menina e diz que ela pode ir morar com ela, e aí começa um negócio doido de laura ser extremamente dependente e controladora. a polícia até procura por eva e laura tranca a menina num quarto porque achou que ela não ligou pro fato de que laura podia ir presa se descobrissem que ela tava lá, porque ela comentou que talvez devesse avisar a mãe que tava bem. laura fica forçando um romance que a coitada nem quer, mas mesmo com os exageros dela eva não consegue ir embora, deve sentir que laura precisa mais dela do que ela de laura. a menina não consegue transar, fica assustada, claro, e laura se prostitui igual no começo da história, mas apanha de um cara que ela tinha humilhado. ela mente e diz que foi o pai, que ele voltou a tocá-la, e bota eva contra ele. o pai até pede perdão pelo que fazia, mostra que se preocupa com laura, mas ela só fode tudo. maltrata o irmão cadeirante também, não quer que eva tenha banda com ele nem sejam amigos, super possessiva e violenta. no final eva se aproveita de um apagão numa piscina que elas tavam e foge, de maiô na neve. termina com laura falando pro pai que tá sozinha e que tá ok com isso, que vai tentar continuar assim e que precisa de distância das pessoas. bom de ser lésbico mas não focado em romance; ficamos refletindo sobre qual seriam os problemas da mulher e tal, se seria a mesma coisa contar a história com um homem no papel dela. doideira.

green book (2018)
um descendente de italianos que trabalha tipo de segurança num bar é contratado por um músico pra ser motorista dele. o músico (don) é negro e o cara (tony) já começa o filme jogando no lixo uns copos de vidro que dois encanadores negros usaram na casa dele depois de um conserto, mas com o músico ele foi bem melhor do que isso fez esperar. tony é nojentão e todo bruto, come se lambuzando enquanto dirige, e vai amolecendo don, que era todo boas maneiras e frescuras chiques. negócio de kfc ser de gente negra e ele nem conhecer. ao longo da tour os dois se aproximam, um aprende com o outro, e no final é massa que don dirige na neve pra conseguir que tony chegue em tempo pro natal com a família, e depois ainda aparece pra passar a ceia junto. todo mundo dando boas-vindas e sendo legal, dá uma esperançazinha. tem umas coisas que metem don em problema, tipo ficar de paquera com outro cara num lugar de piscinas e saunas e nudez. tony ajudando oferecendo dinheiro pra policiais e don ofendido, mas é o que dá pra fazer. eles vão presos uma hora por alguma explosão impulsiva de tony, e don tira eles de lá fazendo uma ligação (também humilhante) pro governador. ah, don toca piano, muito bonito, por sinal. uma bosta que nos lugares que ele toca só tem branco ruim; numa vez ele tava indo pro banheiro dentro da casa e o cara falou que pra ele era lá fora (ele preferiu voltar pro hotel e usar lá). o ápice foi num lugar em cujo restaurante ele não podia comer por causa de uma merda de tradição; tony dá um soco no cara e eles desistem do show lá, porque pelo amor de deus. triste as apresentações em que don tá com machucados na cara de ter apanhado. muito bom que depois dessa do restaurante eles saem pra comer num barzinho simples, mas que tem um pianinho e uns músicos (e muita gente negra); ele começa a tocar lá e fica bem mais feliz e as pessoas admiradas. tudo isso inspirado em história real, uma amizade que foi até os dois morrerem. green book é um livrinho de viagem com lugares "black people-friendly" pra eles pararem.

tamagotchi (2019)
curta lésbico produzido pelas meninas do canal amena, com íris amiga de talita sendo protagonista. um cenário meio futurista, as pessoas fazendo dinheiro vendendo dados, uns números aparecendo em volta das pessoas tipo black mirror. íris (não lembro o nome da personagem) decide desligar o wi-fi e ficar longe da internet um pouco, e logo conhece uma tal de ágata que fica de romancezinho com ela. diálogos irreais e não espontâneos como sempre, do tipo "você quer me perguntar algo?" e a resposta ser "o que você queria ser quando crescesse?" e "você já se apaixonou?"... no fim a mulher some, era só uma funcionária de uma empresa que precisava fazer a menina voltar pra internet, voltar a ficar mal e tomar remédio, dar lucro pra outra empresa. esperava mais. íris tava ok atuando, boa até. de novo ansiosa, que nem aquele curta de camie.

beloved (jaeliu)
manhwa yuri que achei num app que baixei. sobre essa oftalmologista de 34 anos que se envolve com uma menina numa festa, e no outro dia de manhã olhando as coisas dela descobre que ela tem 16 anos. todo lugar que tem o manhwa avisa que a idade de consentimento na china é 14 anos, o que não faz ser menos bizarro, né. acaba que as duas voltam a se ver, a menina nem tem família direito (ou não se preocupam), vai morar com a doutora e tudo. ela tem um amigo gay, também médico, cuja família espera que fique com ela e tal. parece que ela ainda tava tentando superar o término com outra mulher, mais uma médica do mesmo hospital, mó grey's anatomy. muito bonito o traço e as cores, pintado como aquarela. levemente sensual. diz que tá terminado com 18 capítulos mas nenhum lugar passa do 16...

maunder (paula puiupo)
quadrinho que puiupo publicou por essa editora da letônia. uma avó barbiezinha gigante, uma pessoinha com rabinho construindo uma máquina de não sei o quê. conversam sobre acessar o passado, aceitar a realidade. eventually everything will grow out of proportion and merge. even individuality. that's the first thing that goes, really. bonito, uns contornos coloridos como se fosse holográfico ou sei lá, legal o jeito que ela fez. meio sem sentido como sempre, mas gostei. não sabia, mas parece que "maunder" é inglês e significa zombar, falar aereamente, proceder com indiferença, vaguear, divagar.

limite (juarez machado)
carolzinha chegou com esse livro falando que tinha comprado num sebo. nem tem o título na capa, só o nome do autor e da livraria, mas no skoob achei assim, "limite". só tem ilustrações, nas páginas da direita; sobre um homenzinho preso dentro de um quadrinho e tentando sair. atira um canhão e a bola cai no pé dele, bota fogo na bordinha e a fumaça forma uma tempestade, uma fada aparece mas diminui o tamanho do quadrado em vez de resolver. ele se sentindo preso, sonhando com estar livre. até que pinta tudo de preto e sai pela luz da lanterna, só pra ver que tava num quadrado maiorzão. engraçado ele tirando um bocado de ferramentas do nada. uns pézão, mãozona.

split (2016)
finalmente; julia disse que ia ver e fomos junto, apesar de eu estar atrasada em coisas da faculdade. começa com uma menina aparentemente deslocada das outras numa festa de aniversário. o pai de uma delas vai levar elas pras suas casas, mas parando no mercado vem um homem e ataca ele, assume o cara e as sequestra. a menina deslocada (casey) é a mais esperta e calma, observadora; quando ele pega uma delas pra fazer sei lá o que casey diz pra ela se mijar, e com isso a menina consegue se livrar. o cara aparece de outros jeitos, com outras roupas, falando diferente, e logo casey se toca que ele tem alguma coisa (não sei se ela entende totalmente, mas ele tem transtorno dissociativo de identidade). ele vai numa terapeuta e tal, muito boa por sinal, porque sabe que aconteceu alguma mudança nas identidades que dominam, e que outras tão no controle (umas não tão seguras). a questão toda é que eles (os alters) sentem que tem uma nova chegando, algo avassalador e sobrenatural, e precisam das jovens como sacrifícios. eles seguem uma ideia de que quem nunca sofreu nada é impuro, tem que morrer mesmo, e no final é isso que salva casey de ser morta/comida junto com as outras – ela tem cicatrizes de abuso do tio, pelo jeito. não dá pra entender se no fim ela se recusa a ir embora com o tio ou se consegue contar pra policial o que acontece. achei o filme muito bom, apesar dos possíveis problemas que pode relacionar a quem tem o transtorno; acabei voltando a ver um bocado de coisa sobre isso, aqueles vídeos que eu via há anos atrás e tal. chega fiz um trabalho sobre.

esôfago (lana maciel)
livro de poemas que emprestei de mateus (*zênite) sem planejar, só porque uma amiga dela tava devolvendo na mesma hora que a gente tava conversando sobre escrever e poesia. foi bom, melhor do que esperava, até. umas coisas suicidas (talita comentou da contradição de ela falar "venci a depressão" em um poema e ter outro que diz "se minhas rugas puderem aparecer", tipo, se ela conseguir envelhecer sem morrer antes... mas o primeiro pode ser a outra pessoa do poema que falou. enfim), outras parecendo lésbicas. me fez lembrar umas escritas naquela revista que tijn me deu; preciso reler e fazer review. a escritora é conhecida de zênite, e talita reconheceu ela quando o perfil dela apareceu pra mim no facebook. tem uma que fala de "pizzas no macunaíma"; me pergunto se é aquela pizzaria de onde pedimos pizza no fim das reformas da casa do mato. abaixo umas poesias que gostei; cansei de editar infinitamente o negócio de formatar como citação pra ficar bonitinho, vai ficar que nem texto mesmo.

Corpo

tenho os olhos em órbita
pareço estar perdida
enxergo por dentro
o que não entendo por fora

tenho as mãos delicadamente calejadas
a linha do coração é quebrada
mas a linha da vida é contínua
faço cartografia das dores que vivi

tenho o intestino preso
por mentiras e jabuticabas
tenho o intestino preso
porque às vezes me falta
fibra para enfrentar a vida.

A náusea da criação

eu me sinto aqui
com as mãos espalmadas
mostrando as unhas roídas
faço poemas mentais
penso sobre o ritmo
dos astros
e a falta de direção
da minha vida
penso sobre as putas
e o dinheiro que gasto
com roupas livros e comida
à toa
penso sobre as viagens
que planejo e nunca faço
penso sobre o uso dos porquês
e sobre como minha letra fica feia
quando escrevo com pressa
ou escrevo para você
penso que não sei ser prolixa
porque tudo é um tiro
não sou uma dama que finge
sapateio no meio da rua
às três da tarde quando
o sol queima as patas caninas
e os pés dos mendigos
penso que nunca consigo falar
devagar e de maneira organizada
porque penso rápido demais e
abraço o mundo
com inúmeros braços curtos
imitango uma frágil barata.

Meet me in...

se existe reencarnação
quero estar contigo
nas próximas vidas
talvez desejar isso gere um carma
ou mais músicas melodramáticas
mas eu não me importo de passar
mais uma noite ouvindo Belchior
esperando que você realmente queira
viver comigo correr perigo morrer comigo
sei que às vezes minhas palavras cortam
e nosso passado talvez não seja mais
tão limpo e puro como um comercial de sabão em pó
mas acho que nosso domingos ainda provam
que somos uma dupla melhor do que Sandy & Júnior
talvez você goste de mim pelo que sou
talvez eu não precise aprender esperanto
para te convencer a papear comigo mais uma noite
talvez você queira me ouvir tagarelas madrugadas afora
talvez você queira me levar na mala
das curvas de Santos, Marília, Natal e Rio Claro
dentre todos esses talvez
as duas únicas certezas são que ainda quero
escrever para você e segurar sua mão
depois de mais um dia de trabalho
é certo que você não gosta dos meus poemas
e talvez esse poema não devesse existir.
uma respiração dolorida –
ou talvez três anos de cumplicidade
valem mais do que um beijo
e coisas literárias
no fundo eu sempre fujo da autobiografia
no entanto, hoje não quero fugir de você
das pipocas e das pizzas no Macunaíma
hoje não posso esquecer do que sinto
por você.

Diálogos desconexos de duas pessoas que ainda estão conectadas

gatos vira-latas subindo a ladeira de casa. o sol escaldante de almas desérticas. prosa poética cabe em uma xícara de chá? estamos surdos por causa das buzinas no trânsito infernal de são paulo. axilas úmidas, testa brilhando, pequeno ataque cardíaco ao te encontrar subindo e descendo a francisco glicério em busca de um hambúrguer de soja. desvio o olhar – ainda não perdi esse hábito –, tua boca deve estar úmida.

inaugurei meu apartamento semana passada, minhas costas têm 40 anos, só dancei por 15 minutos. que dia é hoje? setembro não chove, agosto passou muito rápido. há quantos anos não nos vemos. você juntou as tralhas, senhora duas caras? deve estar ouvindo norah jones todos os dias.

meu relógio quebrou, o ônibus 600 ainda passa por aqui? mas espera aí, você mal falou de você. preciso ir, parar no próximo bar para vomitar pensamentos em um guardanapo sujo, mais sujo que a minha mão que segura o corrimão do ônibus, o salgado, amarra o sapato e depois rói as unhas cheias de bactérias. preciso beber cerveja glacial, que continua sendo barata assim como eu continuo sendo pobre. hoje é terça-feira, detesto terças-feiras. estamos falando demais – ainda não perdemos esse hábito.

até logo, me telefona quando puder, a gente toma um café. pode ser um chá? não temos mais tempo para prosas poéticas. minha gastrite não me deixa. continuo vomitando, mas venci a depressão. você não está entendendo nada do que eu digo, eu quero ir embora.

aperto de mão leve para disfarçar um coração apertado. nossa ligação é um axioma. teu tênis de andar de skate faz barulho no asfalto. ou esse barulho vem do meu coração? (ou do estômago?)

Matrioskas

minha avó disse uma vez
que os fios que ligam nós
mulheres são ancestrais
não sei se é verdade mas

sei que daria metade
do meu cordão umbilical
para ter a Frida Kahlo
na árvore da minha família

embora eu me esforce
para recuperar
nossa história
ainda sei que falta

especialmente do que vem
de mim e do suor que dedico
tentando me manter respirando
tentando construir uma história

nos escombros do mundo
não sei se o que sobra
do meu corpo é carne ou
coisas que me impuseram

Os últimos latidos

Se minhas rugas puderem aparecer, gostaria que o meu corpo repousasse em uma casa de vó, cheia de cachorros lambendo a própria bunda, lambendo o meu rosto. Também quero chás, água morna e sem gosto, paredes descascadas. Antes de dormir, os pés no chão.
Estou viva.