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quinta-feira, 31 de outubro de 2019

lidos (5) e assistidos (6) em outubro

the good place S02 (2017-2018)
resolvemos terminar de ver the good place e até que foi melhor do que a gente esperava. começa com tudo recomeçando, eleanor recebendo o próprio bilhete e tentando entender o que é chidi. ele tá tendo que escolher entre duas mulheres que supostamente poderiam igualmente ser sua alma gêmea. tahani tá com um cara baixinho que mora numa casa minúscula. jason tá de alma gêmea com um monge igual jianyu, que não deixa ele sozinho nunca. queriam que eleanor causasse na festa de boas vindas mas quem faz isso é tahani. de alguma forma eles se reúnem todos em pouquíssimo tempo e eleanor descobre que é o bad place, e michael recomeça de novo, sem shawn saber (ele não tinha permitido mais que duas tentativas). isso acontece centas de vezes. vicky, que era a eleanor de verdade antes, tá insatisfeita com os papéis menores que recebe, e ameaça de contar dos inúmeros reboots que michael fez se ele não deixar ela no controle a partir da coisa seguinte. mas acaba que ele conta pros humanos dessa situação, pedindo ajuda, e eles se unem. eleanor fica sabendo por mindy que já ficou com chidi numas vezes e fica com "efeito verônica" (passa a imaginar eles juntos e começa a gostar dele, sendo que antes não tinham nada). michael começa a tomar aulas de ética com eles, sofre uma crise existencial huahs, aprende umas coisas humanas. jason e tahani dormem juntos e passam a namorar, tendo janet como terapeuta de casal, mas aí ela começa a dar defeito e descobrem que é por causa do que teve com jason no passado, que ela não pode mentir (fingir estar ok com o relacionamento dele e tahani). ela cria um tal de derek pra ser o namorado de consolo dela, todo bestão, e depois de resolverem tudo mandam ele com cocaína pra mindy haush. shawn aparece pra elogiar michael e diz que vão adotar o plano de tortura dele, e seguindo umas coisas que michael deixa passar enquanto age como demônio ruinzão os humanos se juntam a ele pra tentar ir pro good place, mas ele nunca soube como. tahani quer "falar com o gerente" e resolvem fazer isso mesmo, ir até a juíza do universo pra apresentarem o caso e ver o que ela acha. os humanos (exceto eleanor, mas ela finge que não) falham no teste que ela dá a eles e são condenados ao bad place mesmo, mas michael argumenta que o sistema de pontos deve estar corrompido e propõe que recomecem a linha do tempo deles, salvando-os da morte e vendo se melhorariam dali em diante. eleanor melhora por uns meses, preocupada com o mundo, mas perde o entusiasmo, e michael secretamente vai encontrá-la tentando fazer com que os quatro se encontrem de novo.

the good place S03 (2018-2019)
michael vai pra terra inúmeras vezes, pra interferir um pouco em cada um dos quatro humanos, até que se encontrem. chidi começa um estudo com uma neurocienstista legal, simone, pra saber o impacto de experiências de quase morte na tomada de decisões das vítimas (só os quatro participam, parece). ele começa a dar aula de ética pra eles também, porque eleanor queria ser uma pessoa melhor, mas não vejo muito sentido nisso. chidi começa a namorar simone. ah, aquele demônio (o diabo?) trevor aparece pra ser parte do estudo também, e tenta afastá-los dizendo que a amizade deles pode interferir, tentando fazer tahani e jason ficarem, sendo animado exagerado, mas acaba que não consegue. a juíza descobre e quer terminar o experimento, mas michael e janet fogem pra terra. bobeira isso que ela não pode fazer nada (ou só não faz nada), e que ela não sabe das coisas antes mesmo sendo a poderosa juíza do universo. um monte de interferência dos dois até que os humanos os descobrem, eles revelam a realidade, explicam como funciona o tempo (jeremy bearimy, o pingo do i sendo terças-feiras e julho, acho, e nunca haushus). todos passam um tempo fazendo algo separados – chidi doido fazendo chili com doces e falando de consequencialismo e niilismo, tahani se casando com jason pra dar seu dinheiro a ele e doando um bocado pra gente na rua, eleanor devolvendo a carteira e os cacareco de um cara. ela descobre que a mãe não morreu, mas sim fingiu ter morrido pra não pagar um dívida, e que agora tá bem mais responsável; se sente mal por não ter recebido as partes boas mas depois fica ok. simulador de realidade virtual de janet onde chidi tenta terminar com simone e eleanor dá em cima dela hsuhs. tahani faz as pazes com a irmã, que também tem complexo com os pais e a coisa da competição entre elas. todos vão até o canadá pra que michael e janet conheçam doug forcett, aquele cara que acertou uns 90% de como o pós-vida realmente funcionava, mas o esforço exagerado dele em ganhar pontos positivos faz dele uma pessoa miserável. os demônios vão pra terra atrás deles e eles brigam, janet toda lutadora, e no fim vão os seis pro vácuo de janet. os humanos ficam todos com a aparência dela huahs. michael e ela vão falar com os contabilizadores de pontos e vêem que faz centenas de anos que ninguém vai pro good place, e acha que o bad place tá trapaceando algo, mas na real é que as coisas só foram ficando mais e mais complicadas e praticamente nenhum ponto positivo fica integral, sempre tem desconto de mil coisas ruins relacionadas. ihop e tahani com um bicho verde lesmento que alteram a realidade pra parecer uma echarpe, mas ela não pode tocar haush. a juíza vai à terra e vê como é tudo horrível mesmo, e decidem refazer o experimento do bairro de michael com novos participantes. jason começa a namorar janet e eleanor, chidi. um romancezinho desnecessário até terem que apagar as memórias de chidi porque escolheram simone pro novo experimento, e ele pode arruinar tudo. eleanor como arquiteta porque michael tá tendo crise de pânico.

ideias para adiar o fim do mundo (ailton krenak)
livro que esse pensador indígena lançou nesse ano, compilando umas falas que ele fez em eventos. comprei pra dar pra tati e pra casa do mato, já que ela e rômulo sempre falam dele. li antes de entregar a ela porque é curtinho. gostei de ele ter dito umas coisas meio pró-apocalipse, de querer que acabe o mundo mesmo, apesar do título. ele também diz o que acha que ajudaria a melhorar, mas no geral foram coisas importantes de lembrar e pensar. destaquei vários trechos e eles resumem bem do que se trata:

A ideia de que os brancos europeus podiam sair colonizando o resto do mundo estava sustentada na premissa de que havia uma humanidade esclarecida que precisava ir ao encontro da humanidade obscurecida, trazendo-a para essa luz incrível. Esse chamado para o seio da civilização sempre foi justificado pela noção de que existe um jeito de estar aqui na Terra, uma certa verdade, ou uma concepção de verdade, que guiou muitas escolhas feitas em diferentes períodos da história. (p.11)
Por que nos causa desconforto a sensação de estar caindo? A gente não fez outra coisa nos últimos tempos senão despencar. Cair, cair, cair. Então por que estamos grilados agora com a queda? Vamos aproveitar toda a nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas coloridos. Vamos pensar no espaço não como um lugar confinado, mas como o cosmos onde a gente pode despencar em paraquedas coloridos. (p.30)
(...) se nós imprimimos no planeta Terra uma marca tão pesada que até caracteriza uma era, que pode permanecer mesmo depois de já não estarmos aqui, pois estamos exaurindo as fontes da vida que nos possibilitam prosperar e sentir que estávamos em casa, sentir até, em alguns períodos, que tínhamos uma casa comum que podia ser cuidada por todos, é por estarmos mais uma vez diante do dilema a que já aludi: excluímos da vida, localmente, as formas de organização que não estão integradas ao mundo da mercadoria, pondo em risco todas as outras formas de viver – pelo menos as que fomos animados a pensar como possíveis, em que havia corresponsabilidade com os lugares onde vivemos e o respeito pelo direito à vida dos seres, e não só dessa abstração que nos permitimos constituir como 'uma' humanidade, que exclui todas as outras e todos os outros seres. (p.47)
Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista. Do nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe, a Terra, resulta que ela está nos deixando órfãos, não só aos que em diferente graduação são chamados de índios, indígenas ou povos indígenas, mas a todos. (p.49)
Se já houve outras configurações da Terra, inclusive sem a gente aqui, por que é que nos apegamos tanto a esse retrato com a gente aqui? (...) Essa configuração mental é mais do que uma ideologia, é uma construção do imaginário coletivo – várias gerações se sucedendo, camadas de desejos, projeções, visões, períodos inteiros de ciclos de vida dos nossos ancestrais que herdamos e fomos burilando, retocando, até chegar à imagem com a qual nos sentimos identificados. (...) O fim do mundo talvez seja uma breve interrupção de um estado de prazer extasiante que a gente não quer perder. (p.58)
De que lugar se projetam os paraquedas? Do lugar onde são possíveis as visões e o sonho. (...) Não o sonho comumente referenciado de quando se está cochilando ou que a gente banaliza "estou sonhando com o meu próximo emprego, com o próximo carro", mas que é uma experiência transcendente na qual o casulo do humano implode, se abrindo para outras visões da vida não limitada. Talvez seja outra palavra para o que costumamos chamar de natureza. Não é nomeada porque só conseguimos nomear o que experimentamos. O sonho como experiência de pessoas iniciadas numa tradição para sonhar. (...) São lugares com conexão com o mundo que partilhamos; não é um mundo paralelo, mas que tem uma potência diferente. (p.65)
Quando, por vezes, me falam em imaginar outro mundo possível, é no sentido de reordenamento das relações e dos espaços, de novos entendimentos sobre como podemos nos relacionar com aquilo que se admite ser a natureza, como se a gente não fosse natureza. (p.67)

allure (2017)
aquela atriz de thirteen e across the universe. tilera revolts mas trabalha de faxineira pra uma empresa e com o pai. vai limpar a casa de uma mulher e ela tem uma filha de 16 anos que toca piano. se interessa por ela, aproveita que ela tem um pôster do nirvana pra falar disso, fica dizendo que tá feliz em ver ela quando vai lá. um dia a mãe da menina (eva) diz a ela que pretende se mudar com o parceiro, e eva não gosta nem quer. laura (a faxineira) consola a menina e diz que ela pode ir morar com ela, e aí começa um negócio doido de laura ser extremamente dependente e controladora. a polícia até procura por eva e laura tranca a menina num quarto porque achou que ela não ligou pro fato de que laura podia ir presa se descobrissem que ela tava lá, porque ela comentou que talvez devesse avisar a mãe que tava bem. laura fica forçando um romance que a coitada nem quer, mas mesmo com os exageros dela eva não consegue ir embora, deve sentir que laura precisa mais dela do que ela de laura. a menina não consegue transar, fica assustada, claro, e laura se prostitui igual no começo da história, mas apanha de um cara que ela tinha humilhado. ela mente e diz que foi o pai, que ele voltou a tocá-la, e bota eva contra ele. o pai até pede perdão pelo que fazia, mostra que se preocupa com laura, mas ela só fode tudo. maltrata o irmão cadeirante também, não quer que eva tenha banda com ele nem sejam amigos, super possessiva e violenta. no final eva se aproveita de um apagão numa piscina que elas tavam e foge, de maiô na neve. termina com laura falando pro pai que tá sozinha e que tá ok com isso, que vai tentar continuar assim e que precisa de distância das pessoas. bom de ser lésbico mas não focado em romance; ficamos refletindo sobre qual seriam os problemas da mulher e tal, se seria a mesma coisa contar a história com um homem no papel dela. doideira.

green book (2018)
um descendente de italianos que trabalha tipo de segurança num bar é contratado por um músico pra ser motorista dele. o músico (don) é negro e o cara (tony) já começa o filme jogando no lixo uns copos de vidro que dois encanadores negros usaram na casa dele depois de um conserto, mas com o músico ele foi bem melhor do que isso fez esperar. tony é nojentão e todo bruto, come se lambuzando enquanto dirige, e vai amolecendo don, que era todo boas maneiras e frescuras chiques. negócio de kfc ser de gente negra e ele nem conhecer. ao longo da tour os dois se aproximam, um aprende com o outro, e no final é massa que don dirige na neve pra conseguir que tony chegue em tempo pro natal com a família, e depois ainda aparece pra passar a ceia junto. todo mundo dando boas-vindas e sendo legal, dá uma esperançazinha. tem umas coisas que metem don em problema, tipo ficar de paquera com outro cara num lugar de piscinas e saunas e nudez. tony ajudando oferecendo dinheiro pra policiais e don ofendido, mas é o que dá pra fazer. eles vão presos uma hora por alguma explosão impulsiva de tony, e don tira eles de lá fazendo uma ligação (também humilhante) pro governador. ah, don toca piano, muito bonito, por sinal. uma bosta que nos lugares que ele toca só tem branco ruim; numa vez ele tava indo pro banheiro dentro da casa e o cara falou que pra ele era lá fora (ele preferiu voltar pro hotel e usar lá). o ápice foi num lugar em cujo restaurante ele não podia comer por causa de uma merda de tradição; tony dá um soco no cara e eles desistem do show lá, porque pelo amor de deus. triste as apresentações em que don tá com machucados na cara de ter apanhado. muito bom que depois dessa do restaurante eles saem pra comer num barzinho simples, mas que tem um pianinho e uns músicos (e muita gente negra); ele começa a tocar lá e fica bem mais feliz e as pessoas admiradas. tudo isso inspirado em história real, uma amizade que foi até os dois morrerem. green book é um livrinho de viagem com lugares "black people-friendly" pra eles pararem.

tamagotchi (2019)
curta lésbico produzido pelas meninas do canal amena, com íris amiga de talita sendo protagonista. um cenário meio futurista, as pessoas fazendo dinheiro vendendo dados, uns números aparecendo em volta das pessoas tipo black mirror. íris (não lembro o nome da personagem) decide desligar o wi-fi e ficar longe da internet um pouco, e logo conhece uma tal de ágata que fica de romancezinho com ela. diálogos irreais e não espontâneos como sempre, do tipo "você quer me perguntar algo?" e a resposta ser "o que você queria ser quando crescesse?" e "você já se apaixonou?"... no fim a mulher some, era só uma funcionária de uma empresa que precisava fazer a menina voltar pra internet, voltar a ficar mal e tomar remédio, dar lucro pra outra empresa. esperava mais. íris tava ok atuando, boa até. de novo ansiosa, que nem aquele curta de camie.

beloved (jaeliu)
manhwa yuri que achei num app que baixei. sobre essa oftalmologista de 34 anos que se envolve com uma menina numa festa, e no outro dia de manhã olhando as coisas dela descobre que ela tem 16 anos. todo lugar que tem o manhwa avisa que a idade de consentimento na china é 14 anos, o que não faz ser menos bizarro, né. acaba que as duas voltam a se ver, a menina nem tem família direito (ou não se preocupam), vai morar com a doutora e tudo. ela tem um amigo gay, também médico, cuja família espera que fique com ela e tal. parece que ela ainda tava tentando superar o término com outra mulher, mais uma médica do mesmo hospital, mó grey's anatomy. muito bonito o traço e as cores, pintado como aquarela. levemente sensual. diz que tá terminado com 18 capítulos mas nenhum lugar passa do 16...

maunder (paula puiupo)
quadrinho que puiupo publicou por essa editora da letônia. uma avó barbiezinha gigante, uma pessoinha com rabinho construindo uma máquina de não sei o quê. conversam sobre acessar o passado, aceitar a realidade. eventually everything will grow out of proportion and merge. even individuality. that's the first thing that goes, really. bonito, uns contornos coloridos como se fosse holográfico ou sei lá, legal o jeito que ela fez. meio sem sentido como sempre, mas gostei. não sabia, mas parece que "maunder" é inglês e significa zombar, falar aereamente, proceder com indiferença, vaguear, divagar.

limite (juarez machado)
carolzinha chegou com esse livro falando que tinha comprado num sebo. nem tem o título na capa, só o nome do autor e da livraria, mas no skoob achei assim, "limite". só tem ilustrações, nas páginas da direita; sobre um homenzinho preso dentro de um quadrinho e tentando sair. atira um canhão e a bola cai no pé dele, bota fogo na bordinha e a fumaça forma uma tempestade, uma fada aparece mas diminui o tamanho do quadrado em vez de resolver. ele se sentindo preso, sonhando com estar livre. até que pinta tudo de preto e sai pela luz da lanterna, só pra ver que tava num quadrado maiorzão. engraçado ele tirando um bocado de ferramentas do nada. uns pézão, mãozona.

split (2016)
finalmente; julia disse que ia ver e fomos junto, apesar de eu estar atrasada em coisas da faculdade. começa com uma menina aparentemente deslocada das outras numa festa de aniversário. o pai de uma delas vai levar elas pras suas casas, mas parando no mercado vem um homem e ataca ele, assume o cara e as sequestra. a menina deslocada (casey) é a mais esperta e calma, observadora; quando ele pega uma delas pra fazer sei lá o que casey diz pra ela se mijar, e com isso a menina consegue se livrar. o cara aparece de outros jeitos, com outras roupas, falando diferente, e logo casey se toca que ele tem alguma coisa (não sei se ela entende totalmente, mas ele tem transtorno dissociativo de identidade). ele vai numa terapeuta e tal, muito boa por sinal, porque sabe que aconteceu alguma mudança nas identidades que dominam, e que outras tão no controle (umas não tão seguras). a questão toda é que eles (os alters) sentem que tem uma nova chegando, algo avassalador e sobrenatural, e precisam das jovens como sacrifícios. eles seguem uma ideia de que quem nunca sofreu nada é impuro, tem que morrer mesmo, e no final é isso que salva casey de ser morta/comida junto com as outras – ela tem cicatrizes de abuso do tio, pelo jeito. não dá pra entender se no fim ela se recusa a ir embora com o tio ou se consegue contar pra policial o que acontece. achei o filme muito bom, apesar dos possíveis problemas que pode relacionar a quem tem o transtorno; acabei voltando a ver um bocado de coisa sobre isso, aqueles vídeos que eu via há anos atrás e tal. chega fiz um trabalho sobre.

esôfago (lana maciel)
livro de poemas que emprestei de mateus (*zênite) sem planejar, só porque uma amiga dela tava devolvendo na mesma hora que a gente tava conversando sobre escrever e poesia. foi bom, melhor do que esperava, até. umas coisas suicidas (talita comentou da contradição de ela falar "venci a depressão" em um poema e ter outro que diz "se minhas rugas puderem aparecer", tipo, se ela conseguir envelhecer sem morrer antes... mas o primeiro pode ser a outra pessoa do poema que falou. enfim), outras parecendo lésbicas. me fez lembrar umas escritas naquela revista que tijn me deu; preciso reler e fazer review. a escritora é conhecida de zênite, e talita reconheceu ela quando o perfil dela apareceu pra mim no facebook. tem uma que fala de "pizzas no macunaíma"; me pergunto se é aquela pizzaria de onde pedimos pizza no fim das reformas da casa do mato. abaixo umas poesias que gostei; cansei de editar infinitamente o negócio de formatar como citação pra ficar bonitinho, vai ficar que nem texto mesmo.

Corpo

tenho os olhos em órbita
pareço estar perdida
enxergo por dentro
o que não entendo por fora

tenho as mãos delicadamente calejadas
a linha do coração é quebrada
mas a linha da vida é contínua
faço cartografia das dores que vivi

tenho o intestino preso
por mentiras e jabuticabas
tenho o intestino preso
porque às vezes me falta
fibra para enfrentar a vida.

A náusea da criação

eu me sinto aqui
com as mãos espalmadas
mostrando as unhas roídas
faço poemas mentais
penso sobre o ritmo
dos astros
e a falta de direção
da minha vida
penso sobre as putas
e o dinheiro que gasto
com roupas livros e comida
à toa
penso sobre as viagens
que planejo e nunca faço
penso sobre o uso dos porquês
e sobre como minha letra fica feia
quando escrevo com pressa
ou escrevo para você
penso que não sei ser prolixa
porque tudo é um tiro
não sou uma dama que finge
sapateio no meio da rua
às três da tarde quando
o sol queima as patas caninas
e os pés dos mendigos
penso que nunca consigo falar
devagar e de maneira organizada
porque penso rápido demais e
abraço o mundo
com inúmeros braços curtos
imitango uma frágil barata.

Meet me in...

se existe reencarnação
quero estar contigo
nas próximas vidas
talvez desejar isso gere um carma
ou mais músicas melodramáticas
mas eu não me importo de passar
mais uma noite ouvindo Belchior
esperando que você realmente queira
viver comigo correr perigo morrer comigo
sei que às vezes minhas palavras cortam
e nosso passado talvez não seja mais
tão limpo e puro como um comercial de sabão em pó
mas acho que nosso domingos ainda provam
que somos uma dupla melhor do que Sandy & Júnior
talvez você goste de mim pelo que sou
talvez eu não precise aprender esperanto
para te convencer a papear comigo mais uma noite
talvez você queira me ouvir tagarelas madrugadas afora
talvez você queira me levar na mala
das curvas de Santos, Marília, Natal e Rio Claro
dentre todos esses talvez
as duas únicas certezas são que ainda quero
escrever para você e segurar sua mão
depois de mais um dia de trabalho
é certo que você não gosta dos meus poemas
e talvez esse poema não devesse existir.
uma respiração dolorida –
ou talvez três anos de cumplicidade
valem mais do que um beijo
e coisas literárias
no fundo eu sempre fujo da autobiografia
no entanto, hoje não quero fugir de você
das pipocas e das pizzas no Macunaíma
hoje não posso esquecer do que sinto
por você.

Diálogos desconexos de duas pessoas que ainda estão conectadas

gatos vira-latas subindo a ladeira de casa. o sol escaldante de almas desérticas. prosa poética cabe em uma xícara de chá? estamos surdos por causa das buzinas no trânsito infernal de são paulo. axilas úmidas, testa brilhando, pequeno ataque cardíaco ao te encontrar subindo e descendo a francisco glicério em busca de um hambúrguer de soja. desvio o olhar – ainda não perdi esse hábito –, tua boca deve estar úmida.

inaugurei meu apartamento semana passada, minhas costas têm 40 anos, só dancei por 15 minutos. que dia é hoje? setembro não chove, agosto passou muito rápido. há quantos anos não nos vemos. você juntou as tralhas, senhora duas caras? deve estar ouvindo norah jones todos os dias.

meu relógio quebrou, o ônibus 600 ainda passa por aqui? mas espera aí, você mal falou de você. preciso ir, parar no próximo bar para vomitar pensamentos em um guardanapo sujo, mais sujo que a minha mão que segura o corrimão do ônibus, o salgado, amarra o sapato e depois rói as unhas cheias de bactérias. preciso beber cerveja glacial, que continua sendo barata assim como eu continuo sendo pobre. hoje é terça-feira, detesto terças-feiras. estamos falando demais – ainda não perdemos esse hábito.

até logo, me telefona quando puder, a gente toma um café. pode ser um chá? não temos mais tempo para prosas poéticas. minha gastrite não me deixa. continuo vomitando, mas venci a depressão. você não está entendendo nada do que eu digo, eu quero ir embora.

aperto de mão leve para disfarçar um coração apertado. nossa ligação é um axioma. teu tênis de andar de skate faz barulho no asfalto. ou esse barulho vem do meu coração? (ou do estômago?)

Matrioskas

minha avó disse uma vez
que os fios que ligam nós
mulheres são ancestrais
não sei se é verdade mas

sei que daria metade
do meu cordão umbilical
para ter a Frida Kahlo
na árvore da minha família

embora eu me esforce
para recuperar
nossa história
ainda sei que falta

especialmente do que vem
de mim e do suor que dedico
tentando me manter respirando
tentando construir uma história

nos escombros do mundo
não sei se o que sobra
do meu corpo é carne ou
coisas que me impuseram

Os últimos latidos

Se minhas rugas puderem aparecer, gostaria que o meu corpo repousasse em uma casa de vó, cheia de cachorros lambendo a própria bunda, lambendo o meu rosto. Também quero chás, água morna e sem gosto, paredes descascadas. Antes de dormir, os pés no chão.
Estou viva.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

lidos em dezembro

depois de séculos consegui terminar família schürmann - um mundo de aventuras, de heloisa schürmann, sobre a viagem de dois anos e meio que fizeram em seu veleiro seguindo a rota de fernão de magalhães, português pioneiro em circum-navegar o globo terrestre. aprendi várias coisas, por exemplo, que tem um lago num país da micronésia onde existem águas-vivas inofensivas, que aliá é como se chama a fêmea do elefante e que ovos de avestruz aguentam até 600kg sobre eles. pesquisei bastante sobre o que falavam, os lugares e culturas, e foi legal de conhecer um pouquinho de tanto. heloisa me lembra muito nazira, a professora de química do colégio, e era engraçado imaginar as reações dela dentro das diversas situações relatadas no livro. também pude enxergar na escrita um humorzinho bem parecido com o meu no começo do blog. mencionou várias vezes pigafetta, cronista oficial da esquadra de magalhães, comparando-se a ele e fazendo correspondência entre seu laptop e a pena e tinta dele... na época da viagem apareciam no fantástico. teve uma hora que estavam numa reserva na áfrica do sul e dei risada do que escreveu: Passamos por um Kraal (vila tradicional dos habitantes nativos da área, os Zulus). Os moradores da vila mostraram algumas tradições de sua cultura. O curandeiro da tribo fumava seu comprido cachimbo com um estranho fumo: maconha. 

desde que terminei a lista de leitura da unicamp tenho lido apenas as coisas paradas comigo, e neste mês comecei por um leão em família, de luiz puntel (daquela coleção vagalume). é sobre um menino que encontra um leão que supostamente caiu de um vagão de trem e leva-o pra casa, mais tarde tendo que fugir porque alguém parecia querer matá-lo e não sei o que mais. não gostei nadinha, achei muito besta e ordinário. qualquer pessoa escreveria de um jeito mais agradável.

depois li vito grandam - uma história de vôos, do ziraldo, e me surpreendi demais. é sobre um menino de 17 anos que começa a analisar sua relação com o tio três anos mais velho, victor, e alguns detalhes de sua vida que o conduziram até o primeiro plano da narrativa. ele fala sobre sua escrita enquanto faz isso e achei bastante original, bonito mesmo. vito grandam é como ele escrevera "victor grandão" quando criança, sendo depois o nome usado pelo tio ao voar de asa-delta – e é assim mesmo que meu irmão trocava o aumentativo nas palavras quando tava começando a escrever... gostei de ter lido e esqueci de marcar trechos, mas tudo bem porque é curtinho e posso reler em breve.

li os melhores poemas de mário quintana, que encontrei uma vez no ponto de ônibus em frente ao poli e tá todo destruído (mas com todas as páginas). não gostei muito da poesia de mário quintana não, nada de especial. só anotei alguns melhorzinhos: noturno, presença, sempre, operação alma e envelhecer.

aí li macunaíma, de mário de andrade, e até que me diverti. é bem bizarro e nonsense (vi em algum lugar uma comparação com o guia do mochileiro das galáxias, mas sem a ficção científica), cheio de bagunça e brincadeiras – tanto no sentido que tô acostumada quanto como sinônimo de sexo, usado no livro inteiro. várias vezes macunaíma foge pelos estados do brasil como se corresse por um mapa estendido no chão, coisa que contribui pra não-regionalização da história, presente também na utilização de trocentos nomes de frutas, peixes e tudo quanto é coisa. também tem uns mitos e origens de expressões inventadas (talvez nem tanto), como "vá tomar banho" pros europeus que não estavam acostumados com o compromisso diário de quem vive nos trópicos...

li então o livro do riso e do esquecimento, de milan kundera. É um romance que se refere ao riso e ao esquecimento, que diz respeito ao esquecimento e a Praga, que fala de Praga e anjos. tem várias narrativas sobre situações diversas – um homem envergonhado por seu passado com uma mulher feia perseguido pelo estado repressor; um casal que tem sua liberdade reconquistada após uma visita de mamãe e da amiga entusiasta de 3-ways; duas estudantes que engendram a discussão do riso diabólico e angelical; uma viúva que tenta recuperar cartas e diários abandonados em praga, de onde fugiu; um estudante que se envolve com uma mulher casada do interior, admira poetas nacionais e carrega sua litost (estado atormentador nascido do espetáculo de nossa própria miséria repentinamente descoberta); a retomada da personagem da viúva numa busca de livrar-se do peso que carrega; um homem que encontra harmonia na incompreensão de sua "parceira" e pensa sobre no começo da vida erótica do homem há excitação sem prazer, e no final há prazer sem excitação. tem várias partes onde o autor descreve experiências próprias após a invasão russa da república tcheca, além de falar bastante sobre as coisas que está criando ao escrever. achei bom, meio filosófico como a insustentável leveza do ser (ele até menciona essa ideia na segunda parte de tamina). e percebo que anoto umas coisas que posso querer pensar sobre depois, não necessariamente que me impressionam.

Foi como um despertador que a tirasse de um sonho. E, nesse momento, como ela se abraçasse com Eva (assim como quem dorme, ao ser acordado, se abraça ao travesseiro, para esconder-se da luz perturbadora do dia), Eva perguntou-lhe: Combinado? E ela assentiu, com um gesto que indicava que estava de acordo, e apertou seus lábios contra os de Eva. Sempre a amara, porém, pela primeira vez, amava-a com todos os sentidos, por ela mesma, por seu corpo e por sua pele, e embriagava-se com esse amor carnal como se fosse uma revelação súbita.
Ela quer ter esses diários para que a frágil estrutura dos acontecimentos, tal como a construiu em seu diário, possa receber paredes e tornar-se a casa onde ela poderá morar. Porque, se o edifício vacilante das lembranças cai como uma tenda mal levantada, não vai sobrar nada de Tamina a não ser o presente, esse ponto invisível, esse nada que avança lentamente em direção à morte.
Eles iniciaram uma conversa. O que intrigava Tamina eram as suas perguntas. Não o conteúdo delas, mas o simples fato de ele as fazer. Meu Deus, havia tanto tempo que não lhe perguntavam nada! Tinha a impressão de que havia uma eternidade! Só seu marido lhe fazia perguntas sem cessar, porque o amor é uma interrogação contínua. É, não conheço definição melhor do amor.
(...) No barro úmido sem mato e sem árvores, acossados por baixo pela cor ocre e amarela e, do alto, por nuvens cinza e pesadas, eles caminhavam lado a lado, calçados com botas de borracha que afundavam na lama e deslizavam. Estavam sós no mundo, cheios de angústia, de amor e de inquietação desesperada um pelo outro.
A mulher que ele mais amou no mundo (ele tinha na época trinta anos) lhe dizia (ele ficava quase desesperado quando ouvia isto) que ela só se prendia à vida por um fio muito fino. Sim, ela queria viver, a vida lhe proporcionava uma alegria imensa, mas ela sabia ao mesmo tempo que esse quero viver era tecido com fios de teia de aranha. Bastava tão pouco, tão infinitamente pouco, para se encontrar do outro lado da fronteira além da qual nada mais tinha sentido: o amor, as convicções, a fé, a História. Todo o mistério da vida humana consistia no fato de que ela se desenrola em proximidade imediata e mesmo em contato direto com essa fronteira, que ela não fica separada desta por quilômetros, mas apenas por um milímetro.
O olhar do homem já foi descrito muitas vezes. Ele pousa friamente sobre a mulher, ao que parece, como se a medisse, a pesasse, a avaliasse, a escolhesse, ou seja, como se a transformasse em coisa.
O que não se sabe tão bem é que a mulher não está inteiramente desarmada contra esse olhar. Se ela é transformada em coisa, então ela observa o homem com o olhar de uma coisa. É como se o martelo tivesse de repente olhos e observasse fixamente o pedreiro que se serve dele para fixar um prego. O pedreiro vê o olhar mau do martelo, perde a segurança e dá uma martelada no próprio dedo.
O pedreiro é o senhor do martelo, porém é o martelo que leva vantagem sobre o pedreiro, porque a ferramenta sabe exatamente como deve ser manejada, enquanto aquele que a maneja só pode sabê-lo mais ou menos.
O poder de olhar transforma o martelo em ser vivo, mas o bravo pedreiro tem de sustentar seu olhar insolente e, com a mão firme, transformá-lo novamente em coisa. Dizem que a mulher vive assim um movimento cósmico para cima e para baixo: a elevação da coisa tornada criatura e a queda da criatura tornada coisa.

comecei a ler elogio da loucura também, que felipe me deu, mas tava chatão e acho que vou abandonar.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

lidos/assistidos em novembro

nesse mês terminei de ler o cortiço, de aluísio azevedo, coisa que nem pretendia... mas fiquei olhando a lista de leitura da unicamp, faltando só esse unzinho, e aproveitei que tinha tempo ainda (mentira, foi só uma desculpa pra não estudar sem deixar de estudar). tive que renovar duas vezes o empréstimo na biblioteca, mas não achei tão ruim – nem lembrava de bertoleza se matando com a faca de peixe, que aconteceu literalmente na última página. enfim, aquilo tudo que já ouvi mil vezes: o cortiço sendo o real protagonista, o meio determinando como as pessoas agiam, a galera sendo corrompida, tudo bem escrachado e animalizado. teve sexo lésbico e não lembrava de gláucia contando... tinha outra descrição que me chamou atenção antes mas esqueci de anotar. a seguinte é só um exemplo.

E com um arranco de besta-fera caíram ambos prostrados, arquejando. Ela tinha a boca aberta, a língua fora, os braços duros, os dedos inteiriçados, e o corpo todo a tremer-lhe da cabeça aos pés, continuamente, como se estivesse morrendo; ao passo que ele, de súbito arremessado longe da vida por aquela explosão inesperada dos seus sentidos, deixava-se mergulhar numa embriaguez deliciosa, através da qual o mundo inteiro e todo o seu passado fugiam como sombras fátuas. E, sem consciência de nada que o cercava, nem memória de si próprio, sem olhos, sem tino, sem ouvidos, apenas conservava em todo o seu ser uma impressão bem clara, viva, inextinguível: o atrito daquela carne quente e palpitante, que ele em delírio apertou contra o corpo, e que ele ainda sentia latejar-lhe debaixo das mãos, e que ele continuava a comprimir maquinalmente, como a criança que, já dormindo, afaga ainda as tetas em que matou ao mesmo tempo a fome e a sede com que veio ao mundo.

assisti bem sem atenção um filme ruim que larissa colocou no netflix, chamado sacrifice (2016). bizarrinho.

vi män som hattar kvinnor (2009), porque decidi que vou assistir os filmes que tenho baixados antes de outros... e gostei da versão sueca, me pareceu mais explicada e entendível – apesar de preferir a lisbeth de rooney mara à de noomi rapace (que, inclusive, faz as irmãs gêmeas de um filme que larissa gostou e sobre o qual falei há um tempo atrás).

li alguns livros curtos: um conto de natal (charles dickens), amores diversos (vários autores), olhar de descoberta (vários autores) e histórias para ler sem pressa (mamede mustafa jarouche). o primeiro achei bacana, história conhecidíssima, massa a narrativa de dickens mas nada encantador, sei lá. os dois seguintes são parte da uma coleçãozinha, larissa deixou comigo porque eu queria ler numa época, mas achei bem dispensáveis (o primeiro é de poemas e o outro de contos/crônicas). só gostei mesmo desse poema e o primeiro conto de olhar de descoberta é sobre amizade mas tem muita cara de amor homossexual. o último obtive na feira de troca de livros da biblioteca, peguei por serem histórias árabes... mas esperava mais, achei bem rasas. continuo preferindo malba tahan.

avancei na leitura de família schürmann mas só termino em dezembro, então deixa pra lá.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

lidos em outubro

nesse mês li demais pra compensar o que não li anteriormente, mas não de propósito, na verdade; apenas foi o que funcionava melhor pra me tirar da agonia dos dias.

primeiro terminei de ler sermões de quarta-feira de cinza, do padre antonio vieira, cuja introdução, intitulada a arte de morrer (por alcir pécora), diz assim: Vieira propõe que a verdadeira substância do que vive não é dada pelo tempo "presente", mas pelo "passado" e pelo "futuro". O "presente" seria um estado de aparência e engano entre um estado essencial revelado no "passado" e confirmado no "futuro". (...) O intervalo da vida terrena entre ambos pode ser representado por um movimento circular cujo princípio e cujo fim são idênticos. Afastar-se de um é aproximar-se do mesmo, aparentando outro. A existência circular do homem, diversamente da de Deus que é sempre idêntica ao seu próprio Ser, é ser e não ser: falso avanço, quando faz supor que se distancia e muda em relação a sua essência original, e, entretanto, avanço real e verdadeiro, porque o fim de que se aproxima é efetivamente a essência que a existência oculta. (...) Na "3ª regra" desse "segundo modo", lê-se: "[...] considerar, como se estivesse em artigo de morte, a forma e a medida que então queria ter adotado no modo da eleição presente, e conduzindo-me por ela, aja com inteira determinação". E na 4ª se estabelece que, "[...] cuidando e considerando como estarei no dia do juízo, pensar como então queria ter deliberado acerca da presente coisa, e a conduta que então queria ter tido, e tomá-la agora, para que assim encontre inteiro prazer e gozo". (...) No primeiro sermão, livra-o das penas eternas que fazem justiça às faltas cometidas em vida; no segundo, livra-o do transe terrível da hora última; no terceiro, enfim, livra-o das atribulações sem fim dos negócios do mundo. Por outro lado, em termos positivos, esse terceiro sermão acentua a "quietação" proporcionada pela morte; o segundo ressalta a eficácia dos preparativos para dominar o medo implicado nela; o primeiro torna-a condição do conhecimento dos limites e da destinação da vida humana. achei bacana até, a lógica dada pras coisas, apesar de obviamente não pensar em seguir qualquer coisa religiosa. pra mim essas foram as partes mais relevantes do primeiro sermão (talvez tenha exagerado nas marcações):

O pó levantado, como vão, quis fazer distinções de pó a pó: e porque não pôde distinguir a substância, pôs a diferença nas cores. Porém a morte como vingadora de todos os agravos da natureza a todas essas cores faz da mesma cor, para que não distinga a vaidade, e a fortuna os que fez iguais a razão.
Nas tuas ruínas vês o que foste, nos teus oráculos lês o que hás de ser; e se queres fazer verdadeiro juízo de ti mesma, pelo que foste e pelo que hás de ser, estima o que és.
Se quereis ver o futuro, lede as histórias, e olhai para o passado: se quereis ver o passado, lede as profecias, e olhai para o futuro. E quem quiser ver o presente para onde há de olhar? Não o disse Salomão, mas eu o direi. Digo que olhe juntamente para um e para outro espelho. Olhai para o passado e para o futuro, e vereis o presente. A razão ou consequência é manifesta. Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é o futuro do passado e o mesmo presente é o passado do futuro.
Comecemos de hoje em diante a viver, como quereríamos ter vivido na hora da morte. Vive assim como quiseras ter vivido quando morras. Oh que consolação tão grande será então a nossa, se o fizermos assim! E pelo contrário, que desconsolação tão irremediável, e tão desesperada, se nos deixarmos levar da corrente, quando nos acharmos onde ela nos leva!

do segundo:

Sê desde logo o pó que és, e não temerás depois ser o pó que hás de ser. Sabeis, Senhores, por que tememos o pó que havemos de ser? É porque não queremos ser o pó que somos. Sou pó, e hei de ser pó; pois antes de ser o pó que hei de ser, quero ser o pó que sou. Já que hei de ser pó por força quero ser pó por vontade. Não é melhor que faça desde logo a razão o que depois há de fazer a natureza? Se a natureza me há de resolver em pó, eu quero-me resolver a ser pó; e faça a razão por remédio, o que há de fazer a natureza sem remédio. Não sei se entendestes todos a metáfora? Quer dizer mais claramente, que o remédio único contra a morte é acabar a vida antes de morrer.
Bem creio eu que haverá não poucos que quiseram antes trocados esses termos, e poder nascer duas vezes, para escolher nascimento. Mas Deus que nos fez para a eternidade e não para o tempo, para a verdade, e não para a vaidade, deixou o nascer à natureza, e o morrer à eleição. No nascer, em que todos somos iguais, não pode haver erro, e por isso basta nascer uma vez; no morrer, em que o erro ou acerto importa tudo, e há de durar para sempre, era justo que o homem pudesse morrer duas vezes, para eleger a morte que mais quisesse, e para aprender, morrendo, a saber morrer.
Não morras no tempo que não é teu (...). Mas qual é o tempo meu, em que é bem que morra, e qual o tempo não meu, em que é bem que não morra? O tempo meu é o tempo antes da morte; o tempo não meu é o tempo depois da morte. E guardar ou esperar a morte para o tempo depois da morte, que não é tempo meu, é ignorância, é loucura, é estultícia, como a deste néscio: Stulte; mas antecipar a morte, e morrer antes de se acabar a vida, que é o tempo meu, esse é o prudente, e o sábio, e o bem entendido morrer. (...)
(...) E que quer dizer: eu vivo, mas já não sou eu? (...) Todas as cousas deste mundo são para mim, como para os mortos; nem as sinto, nem me dão cuidado, nem faço mais caso delas, como se não foram; porque se elas ainda são, eu já não sou. Considerai as imunidades dos mortos, e vereis o descanso de que gozam, e os trabalhos de que se livram os que antecipam a morte. (...) Entre os mortos livre. Livre dos cuidados do mundo, porque já está fora do mundo. Livre de emulações e invejas, porque a ninguém faz oposição. Livre de esperanças e temores, porque nenhuma cousa deseja. Livre de contingências e mudanças, porque se isentou da jurisdição da fortuna. Livre dos homens, que é a mais dificultosa liberdade, porque se descativou de si mesmo. Livre, finalmente, de todos os pesares, moléstias e inquietações da vida, porque já é morto.

e do terceiro:

(...) El-rei Ezequias mandou queimar os livros de Salomão, porque o povo recorrendo às virtudes das ervas, em suas enfermidades deixava de acudir a Deus, que é a verdadeira raiz da saúde. Assim o refere Eusébio Cesariense. Mas enquanto duraram os mesmos livros, nem aos enfermos particulares, nem ao mesmo Salomão aproveitou aquela grande ciência médica; até quando? Até que as próprias doenças os sujeitaram ao médico universal, que, sem aforismos, nem receitas, cura em um momento a todas, que é a morte. (...) Morrestes; acabaram-se todas as moléstias e aflições que martirizam um corpo humano; e até o temor da mesma morte se acabou, porque os mortos já não podem morrer.
(...) El-rei Antígono vendo que seu filho pelo ser se ensoberbecia, com que lhe abateria os fumos? (...) Não sabes, filho (lhe disse), que o nosso reino, e o reinar, não é outra cousa que um cativeiro honrado? Os reis são senhores de todos, mas também cativos de todos. A todos mandam como reis, e de todos são julgados como réus. Como o rei é a alma do reino, tem obrigação de viver em todos os seus vassalos, e padecer neles, e com eles quanto eles padecem. Se não padece assim, não é rei; e se padece, que maior martírio? Há-se de matar e morrer, para que eles vivam: há-se de cansar, para que eles descansem; e há de velar, para que eles durmam, sendo mais quieto e sossegado o sono do cavador sobre cortiça que o do rei debaixo de céus de brocado. (...)
(...) Quando eu jazer na sepultura, diz Davi, dormirei e descansarei em paz para isso mesmo, in idipsum. Que quer dizer para isso mesmo? Não se podia significar mais admiravelmente a diferença do sono, do descanso, e da paz dos mortos em comparação dos vivos. Os vivos dormimos, descansamos, e temos paz, mas não para isso mesmo; porque dormimos para acordar, descansamos para tornar a cansar, e temos paz para tornar outra vez à guerra: pelo contrário, os mortos dormem, descansam e estão em paz para isso mesmo: In pace in idipsum dormiam et requiescam. Dormem para isso mesmo: porque dormem, não para acordar, senão para dormir; descansam para isso mesmo; porque descansam, não para tornar a cansar, senão para descansar; e gozam a paz para isso mesmo, porque não gozam a paz para tornar à guerra, senão para lograr perpétua, e quietamente: Requiescat in pace.
(...) Três razões teve Deus para antecipar ou apressar a morte àquele moço: a primeira, porque lhe agradou a sua alma e a quis levar para si: Placita enim erat Deo anima illius: a segunda, porque o quis livrar das ocasiões da maldade: Properavit educere illum de medio iniquitatum: A terceira, porque o quis fortificar: Quare munierit illum Dominus. Aqui reparo. Se Deus lhe tirou a vida para o fortificar, que fortificação é esta, e contra quem? O contra quem são os vícios e pecados: a fortificação é aquela onde a morte defende os que matou, que é a sepultura. O homem vivo, com todas as portas dos sentidos abertas, é como a praça sem fortificação, que pode ser acometida, e entrada por toda a parte: porém o morto, com as mesmas portas cerradas, e cerrado ele dentro da sepultura, não há castelo tão forte, nem fortaleza tão inexpugnável a todo o inimigo; porque nem pode ser vencida do pecado, nem ainda acometida. (...)
(...) Quem vive em Deus, não vive em si; quem vive com Cristo, não vive com o mundo: e quem não vive em si, nem com o mundo, este verdadeiramente vive como morto. O morto tem olhos, e não vê; tem ouvidos, e não ouve; tem língua, e não fala; tem coração, e não deseja: e posto que o morto-vivo pode desejar, falar, ouvir e ver; nem vê o que não é lícito que se veja, nem ouve o que não é lícito que se ouça, nem fala o que não convém que se fale, nem deseja o que não convém que se deseje; porque é morto às paixões e aos apetites; e posto que viva ao sentimento, não vive à sensualidade. Isto é viver em Deus, e não em si. E que é viver com Cristo, e não com o mundo? É estar morto a tudo o que o mundo ama, a tudo o que o mundo estima, a tudo o que o mundo venera, a tudo o que o mundo adora, a tudo o que chama honra, a tudo o que chama interesse, a tudo o que chama boa ou má fortuna; porque tudo o que é próspero, ou adverso, alto ou baixo, precioso ou vil, pesado na balança da morte viva, é vaidade, é fumo, é vento, é sombra, é nada. E a todos os que assim vivem ou viverem, podemos dizer como S. Paulo: Mortui estis.

em seguida li o bem amado, de dias gomes, que achei engraçado e bem construído: odorico paraguaçu era um coronel bastante influente na cidade baiana de sucupira, bem pacata e pacífica, e aproveita o ensejo da morte de um velho pescador para discursar a respeito da vergonha que era precisar deslocar os mortos para a cidade vizinha. ele promete construir um cemitério se fosse eleito como prefeito e, quando consegue, faz uso de verbas destinadas a outras obras para construir o campo-santo. no entanto, passa-se um ano e nenhuma morte – a frustração de odorico faz com que ele praticamente encomende um enfermo, primo de uma moradora, mas o sujeito acaba melhorando com os ares locais e até se enamora com a moça. então é chamado um "fazedor de defuntos", cangaceiro natural de sucupira, que recebe a posição de delegado com a esperança de criar conflitos – o que também não acontece, uma vez que zeca diabo tem a intenção de se regenerar e aprende leis com o jornalista que faz oposição ao prefeito, neco pereira. então odorico arma mais uma situação: dá trela ao ciúme do marido de dulcineia, sua secretaria e amante, mas joga-o pra cima do jornalista e oferece até um revólver; a mulher é morta e o homem preso, proibido de conversar com a imprensa. quando a necrópole parece praticamente inaugurada, no velório de dulcineia, chega um tio com o testamento do pai dela, declarando sua vontade em ter toda a família enterrada na cidade de jaguatirica. odorico surta, se nega a obedecer, faz guarda ao caixão da morta, demite o delegado num acesso e recebe a notícia de que dirceu (marido da finada) contou tudo a neco – zeca acaba por matar o prefeito, pois traidor não merece viver, tanto mais traidor de moça donzela. a história termina, ironicamente, com neco pereira fazendo discurso no enterro de odorico, que acaba por ser o primeiro hóspede de seu "sonho".

então li sonetos de camões, de (óbvio) luís de camões, apesar de apenas 14 dos 55 contidos no livro serem pedidos pela unicamp (e mais outros 6 que tive que ler na internet). além de sonetos o livro contém redondilhas e mais uns negócios, e os elementos que permeiam as obras são os seguintes: instabilidade dos sentimentos e da realidade; ideal de perfeição física e moral; desconcerto do mundo; amor platônico; perda da amada; a própria atividade poética. achei massa, gosto de camões. alguns preferidos:

Tanto de meu estado me acho incerto
que, em vivo ardor, tremendo estou de frio,
sem causa, juntamente choro e rio;
o mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando;
num'hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar um'hora.
Se me pergunta alguém porque assi ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.
–
Que de tanta estranheza sois ao mundo,
que não é de estranhar, Dama excelente,
que quem vos fez fizesse céu e estrelas.
–
Vossos olhos, Senhora, que competem
co Sol em fermosura e claridade,
enchem os meus de tal suavidade
que em lágrimas, de vê-los, se derretem.
Meus sentidos vencidos se sometem
assi cegos a tanta divindade
e da triste prisão, da escuridade,
cheios de medo, por fugir remetem.
–
Quando o sol encoberto vai mostrando
ao mundo a luz quieta e duvidosa,
ao longo de ũa praia deleitosa,
vou na minha inimiga imaginando.
Aqui a vi os cabelos concertando;
ali, co a mão na face, tão fermosa;
aqui, falando alegre, ali cuidosa;
agora estando queda, agora andando.
Aqui esteve sentada, ali me viu,
erguendo aqueles olhos tão isentos;
aqui movida um pouco, ali segura;
aqui se entristeceu, ali se riu...
enfim, nestes cansados pensamentos,
passo esta vida vã, que sempre dura.

também acabei lendo sagarana (de guimarães rosa) inteiro, apesar de só o último conto importar agora. prossegui a leitura com duelo, que conta a história de turíbio todo e cassiano gomes – este o amante da esposa daquele, descoberto num retorno da pesca adiantado. turíbio é bom atirador e vai até a casa de cassiano para matá-lo, mas acaba que o morto é levindo gomes, irmão do outro, e nisso turíbio sai da cidadezinha e se inicia uma perseguição por entre os povoados da região, durando meses. cassiano abandona a causa, relembrado de seu problema cardíaco, e turíbio passa para terras paulistas e lá fica; mas, quando o médico anuncia que cassiano tem poucos meses de vida, ele se despede de todos com o intuito de pegar o inimigo antes de partir. não vai muito longe, piorando e se assentando num povoadinho, onde conhece um homem, de apelido vinte-e-um, que se torna seu compadre e recebe seu dinheiro para ajudar a família; cassiano morre e deixa tudo para ele. sabendo da notícia turíbio retorna e acaba dividindo estrada com vinte-e-um, que o mata: Peço perdão a Deus e ao senhor, mas não tem outro jeito, porque eu prometi ao meu compadre Cassiano, lá no Mosquito, na horinha mesma d'ele fechar os olhos...

o segundo conto, chamado minha gente, trata desse homem que vai visitar a fazenda de seu tio e acaba reacendendo a paixão por uma prima que já namorou, maria irma; ela o provoca e faz rodeios nas falas mas nunca cede aos seus apelos. ele toma conhecimento de um rapaz que a emprestava livros, ramiro, mas maria irma anuncia que ele era noivo de uma amiga, armanda. o primo, enciumado, tenta traçar um plano para atraí-la e visita outra fazenda, onde mora outra namorada de brinquedo de outros tempos – coisa que não afeta nada, o que faz com que ele vá embora pra outra cidade, triste. mais tarde recebe uma carta do tio, com notícias de que seu partido ganhara as eleições, e outra de um amigo louco por xadrez, terminando uma partida começada na viagem. resolve revisitar os parentes, querendo mostrar à prima que não gostava mais dela, e é então que ela o apresenta a armanda, de quem fica noivo, enquanto maria irma fica com ramiro: tudo se desdobrando conforme os planos da moça. me chamou atenção pelos pedaços que enfiei na minha vidinha...

Dormi mal, acordei de saudades, corri para junto de Maria Irma.
— Que tal, a Aldinha? — perguntou.
— Que tal você e eu, Maria Irma?
(...) E desesperava, ao sentir que eu acumulara comigo tanto amor que estava inútil, sem ter onde pousar.
Mais sofri, todavia, porque lua havia, uma lua onde cabiam todos os devaneios e em que podia beber qualquer imaginação.
— Prefiro caminhar. Quer? — perguntou-me Armanda.
Quis. Andamos. Calados. Crescia em mim uma coisa definitiva, assim com a impressão de já conhecê-la, desde muito, muito tempo. Nossas mãos se encontraram, de repente, e eu senti que ela também estremeceu.

depois vem são marcos, que é sobre esse homem muito crente em superstições, mas não em feitiçaria. ele tinha o costume de, todo domingo, visitar uma mata riquíssima em fauna e flora, e no caminho insultava e caçoava do negro joão mangolô, mestre das artes de despacho, atraso, telequinese, vidro moído, vuduísmo, amarramento e desamarração de seu povoado. numa dessas viagens ele encontra um colega que acaba contando uma história envolvendo a oração de são marcos, supostamente muito perigosa, mas com a qual o narrador até brinca. acontece que, subitamente, ele perde a visão enquanto descansa no mato – se machuca muito, quase se perde, mas lembra da reza-brava e é tomado por uma energia ao proferi-la. ele sai em disparada para a casa do feiticeiro, se atraca com ele e quase o esganava quando voltou a enxergar, só pra ver que era trabalho de mangolô: Não quis matar, não quis ofender... Amarrei só esta tirinha de pano preto nas vistas do retrato, p'ra Sinhô passar uns tempos sem poder enxergar... Olho que deve de ficar fechado, p'ra não precisar de ver negro feio... o narrador estende a bandeira branca, alegando que tem santo bom, e propõe que não tivessem briga, indo embora depois de deixar uma nota de dez mil-réis.

o próximo conto é corpo fechado, que começa com um tal de manuel fulô contando sobre os malfeitores do povoado para o doutor, seu amigo. ele descobre que fulô está noivo, coisa que não parecia de grande importância para ele – cuja maior paixão é sua mula, beija-flor –, mas targino, o sujeito mais intimidador do momento, anuncia que deseja passar uma noite com sua noiva antes do casamento e que, se fulô tivesse algo contra, o mataria. manuel fica desconjuntado mas acaba recebendo uma proposta do feiticeiro antonico: ele fecharia/blindaria seu corpo em troca da mula. os dois tinham um impasse pois fulô queria a sela mexicana de antonico, que queria a mula de fulô; o trato é feito, não obstante, e os tiros de targino não fazem nada contra manuel, que o mata com um canivete e passa a representar a figura de valentão no lugar dele.

depois vem conversa de bois, contanto um caso, a partir do relato de uma irara, sobre esse carro de bois levando rapadura e um defunto para um arraial. seu guia é um menino, filho do defunto (que quando vivo era doente e inválido) e o condutor é uma espécie de padrasto dele (pois é o companheiro de sua mãe), mas muito cruel e insensível com a criança, que caminha triste. os bois têm consciência e conversam entre si sobre sua vida e o que percebem dos homens, chegando num ponto em que seus pensamentos se misturam com os do menino e incitam vingança – eles fazem com que o menino grite, assustando os animais, que fazem pular o carro e derrubam o carreiro, que é atropelado pela roda. apesar do desespero do menino o resto do trajeto se torna mais leve com dois defuntos.

— Podemos pensar como o homem e como os bois. Mas é melhor não pensar como o homem...
— É porque temos de viver perto do homem, temos de trabalhar... Como os homens... Por que é que tivemos de aprender a pensar?...
— É engraçado: podemos espiar os homens, os bois outros...
— Pior, pior... Começamos a olhar o medo... o medo grande... e a pressa... O medo é uma pressa que vem de todos os lados, uma pressa sem caminho... É ruim ser boi-de-carro. É ruim viver perto dos homens... As coisas ruins são do homem: tristeza, fome, calor – tudo, pensando, é pior...
— Mas, pensar no capinzal, na água fresca, no sono à sombra, é bom... É melhor do que comer sem pensar. Quando voltarmos, de noite, no pasto, ainda haverá boas touceiras do roxo-miúdo, que não secaram... E mesmo o catingueiro-branco está com as moitas só comidas a meia altura... É bonito poder pensar, mas só nas coisas bonitas...
— Que é que está fazendo o carro?
— O carro vem andando, sempre atrás de nós.
— Onde está o homem-do-pau-comprido?
— O homem-do-pau-comprido-com-o-marimbondo-na-ponta está trepado no chifre do carro...
— E o bezerro-de-homem-que-caminha-sempre-na-frente-dos-bois?
— O bezerro-de-homem-que-caminha-adiante vai caminhando devagar... Ele está babando água dos olhos...

e, por último, a hora e a vez de augusto matraga (que foi uma releitura) – o protagonista é esse bandoleiro que não quer saber de trabalhar e só faz maltratar os outros e desprezar a esposa e a filha, até que sua família vai morar em outro sítio e seus homens passam pro lado de outro major. quando tenta confrontá-los é violentado até quase morrer, salvo por um casal de negros que morava ao pé do barranco do qual ele se jogou. envergonhado e arrependido, nhô augusto decide se redimir e parte para outro povoado com os velhos, assim que se recupera, e lá passa a trabalhar dia e noite para todos, se lembrando sempre que vai para o céu nem que seja a porrete. numa ocasião surge um bando de jagunços no local e augusto os hospeda e se amiga com o líder, que percebe que matraga nem sempre fora daquele jeito e o convida para se juntar ao grupo. ele recusa mas, tempos mais tarde, parte com um jumento para outro canto e topa com o bando, porém se coloca contra o jagunço para defender uma família. eles lutam até a morte, terminando contentes e amigos assim mesmo, e augusto matraga abençoa sua filha e parte conformado de que este fora o desígnio divino para ele.

E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso acontecido, não senhor.
E isso foi pensado muito ligeiro, porque já ele enrolava a palha, com uma pressa medonha, como se não tivesse curtido tantos anos de abstenção. Tirou tragadas, soltou muitas fumaças, e sentiu o corpo se desmanchar, dando na fraqueza, mas com uma tremura gostosa, que vinha até ao mais dentro, parecendo que a gente ia virar uma chuvinha fina.
A lâmina de Nhô Augusto talhara de baixo para cima, do púbis à boca-do-estômago, e um mundo de cobras sangrentas saltou para o ar livre, enquanto seu Joãozinho Bem-Bem caía ajoelhado, recolhendo os seus recheios nas mãos.

eu gostei bastante dos contos e do estilo de guimarães rosa, quero ler mais obras dele no futuro. não achei a linguagem tão difícil quanto como ouvi dizerem, apenas bastante diversa e dinâmica (são marcos foi o pior nesse aspecto pois tinha muita descrição de árvores e animais). meus preferidos foram sarapalha e conversa de bois, e o que menos gostei foi a volta do marido pródigo. (vídeo massa sobre tudo aqui.)

em seguida terminei poemas negros, de jorge de lima, que não me agradou por inteiro mas foi uma leitura tranquila. vê-se a homenagem feita às crenças e mitologias negras, retratando grande sincretismo religioso por meio de um "africanismo de adoção", além da denúncia da desigualdade social e dos problemas do povo. um que achei muito forte é intitulado Foi mudando, mudando:

Tempos e tempos passarram
por sobre teu ser.
Da era cristã de 1500
até estes tempos severos de hoje,
quem foi que formou de novo teu ventre,
teus olhos, tua alma?
Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão?
Os modos de rir, o jeito de andar,
pele,
gozo,
coração...
Negro, índio ou cristão?
Quem foi que te deu esta sabedoria,
mais dengo e alvura,
cabelo escorrido, tristeza do mundo,
desgosto da vida, orgulho de branco, algemas, resgates, alforrias?
Foi negro, foi índio ou foi cristão?
Quem foi que mudou teu leite,
teu sangue, teus pés,
teu modo de amar,
teus santos, teus ódios,
teu fogo,
teu suor,
tua espuma,
tua saliva, teus abraços, teus suspiros, tuas comidas,
tua língua?
Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão?

Olá! Negro também é muito bom e mais popular um pouco (abaixo um trecho).

Apanhavas com vontade de cantar,
choravas com vontade de sorrir,
com vontade de fazer mandinga para o branco ficar bom,
para o chicote doer menos,
para o dia acabar e negro dormir!
Não basta iluminares hoje as noites dos brancos com teus jazzes,
com tuas danças, com tuas gargalhadas!
Olá, Negro! O dia está nascendo!
O dia está nascendo ou será a tua gargalhada que vem vindo?

agora um trecho aleatório...

Eu sou um corpo distraído.
Bóiam os meus olhos pelas superfícies.
Mas os meus olhos correm mais perigo
do que se andassem em acrobacias contemplativas
pulando no céu alto, perto das estrelas.

...e pedaços de Invenção de Orfeu, aparentemente a obra-prima do autor:

Sonâmbulas as flores
conservam pelo dia
as noites.
Os ouvidos das pétalas,
e seus lábios de olor
recordam-se
transidos e orvalhados,
indiferentes, frios,
tão frios.
Jamais os dias quentes
poderão aquecer-lhes
os seus sangues noturnos
tão frios.
Agora nos jardins
espalham
nos silêncios intactos
suas presenças frias,
tão frias.
São beijadas, porém
volvidas
à lembrança das noites
permanecem veladas
e frias.
–
Não há na vida amor que em vão termine
nem vão esquecimento que o destine.
–
Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.
–
A estepe e a noite de deitaram juntas,
paralelas as asas sobre as asas,
ambas com as solidões, ambas defuntas,
e entre elas, sós, ardentes como brasas,
espreitando à direita e à esquerda o estrito
espaço ínfimo que entre as duas corre,
correm cruciados como o imenso grito,
imenso grito mudo de quem morre,
os olhos renegados de quem está
esperando, esperando. Que esperando?
Entre a estepe e a noite olham olhos, rente
às trevas opressoras, olhos que a
estepe e a noite juntas se estreitando
apagam misericordiosamente.

esse último se chama Poemas da vicissitude e é o canto V (achei bonito, identifico coisas). tem mais coisa que salvei por ser mais romântico (ou não)...





certo. não vou acabar mais nada esse mês então é isso.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

lidos em agosto

no comecinho do mês terminei cyrano de bergerac, de edmond rostand, que tava na minha estante há anos desde que comprei no sebo. é uma peça teatral sobre esse herói um tanto quanto pitoresco, com um nariz enorme, muito valente e talentoso. ele acaba cedendo seu dom de escrita a cristiano, que está apaixonado por roxane, prima dele – a quem também ama, mas considera-se sem chances por causa de sua feiura. achei muito massa as coisas que ele compunha e falava se passando por cristiano, como se criasse tudo mas, na verdade, expressando o que sentia. os dois acabam partindo para um combate, no qual cristiano falece; anos mais tarde, roxane fica sabendo do combinado entre eles, quando cyrano está morrendo, e lamenta por um amor duas vezes perdido. achei bastante dinâmico e surpreendente, além de que não esperava que o protagonista tivesse existido de verdade!

em agosto levei meu irmão na biblioteca pela primeira vez, e enquanto fazia companhia a ele na seção infantil li ou isto ou aquilo, da cecília meireles. são vários poemas criativos ilustrados pelo traço lindão de odilon moraes. foi gostosinho de ler; acho que fui conhecer pela jotapluftz há um tempo atrás.

finalmente li coração, cabeça e estômago, de camilo castelo branco. o narrador, silvestre da silva, começa se apaixonando a torto e a direito, sem obter sucesso em nenhum relacionamento; em seguida se dedica ao intelecto, escrevendo para um jornal sobre a sociedade hipócrita de onde vivia, o que (quase?) o coloca na prisão; por último se rende às coisas do corpo, buscando paz e satisfação, e acaba se casando e engordando muito, até adoecer. na verdade existe um editor, amigo de silvestre, que reuniu seus escritos e de vez em quando faz críticas e comentários à narrativa, supostamente deixada para servir de guia para os jovens. os seguintes trechos são todos da parte do estômago, o único que mais me chamou a atenção.

O amor inventou-o depois o estragamento dos bons costumes gregos e romanos, como coisa necessária e acirrante aos paladares botos dos filhos viciosos das cidades.
Ainda agora nas aldeias, afastadas dos focos da corrupção, coisa que eu nunca ouvi dizer é: A Maria do Ribeiro ama o Antônio da Capela." Lá não se diz ama; é querem-se. Querem-se" é outra coisa; é amalgamarem-se num só ser, em uma só vontade, numa identidade de alma e corpo tal, e tão uma que nem sequer cogitam se há desgraça com força de desuni-los aquém da morte. E para lá da sepultura ainda eles têm como segura a vida imortal em união de penas ou glórias.

O amor dispensa-se onde está a profunda estima. Lá nesses consórcios bem-aventurados que florescem obscuros nas gargantas das serranias e nas selvas que bordam as margens dos rios não há tempo nem ocasião de discutirem sutilezas do coração. Crê-se ali que o vínculo é eterno e o sacramento do matrimônio uma religião, ou o dogma mais sacratíssimo dela. Pode ser que nem isto mesmo pensem: o que eles deveras sabem é que são felizes.
(...) As minhas meditações eram pachorrentas, terra a terra, sem enlevos que me deslocassem da felicidade do momento para me transportarem ao passado, onde estava a saudade, ou ao futuro donde me podia estar mentindo a esperança.
Que a saudade, para além dos trinta anos, é uma enchente de lágrimas que desdobra o peito daqueles mesmos que se não sentem viver no coração.
E a esperança é uma virgem de encantos doidos, a qual vos não deixa gozar os encantos doutra virgem que vos alinda os bens presentes.
Cabeça e coração senti sem vida,
No estômago busquei uma alma nova
E encontrá-la pensei... Crença perdida!
Mulher aos pés o coração me sova;
Foge ao mundo a razão espavorida;
E por muito comer eu desço à cova!

teve americanazine na biblioteca e li mais zines lá do que já li em toda minha vida, provavelmente. gostei bastante; tem uma infinidade de temas, tudo muito criativo. tirei foto de uma poesia que achei engraçadíssima no meio de tantos poemas existencialistas: ela se chama toda vez que eu chego em casa e é de jeison placinsch.

estava olhando um filme
quando percebi algo
fora da televisão se mexer
se mexer não, pular e sumir
passou um tempo e nada aconteceu
até vir voando na minha cara
uma coisa que eu já sabia ser uma
barata, barata, baratina
nisso dei um golpe de ninja pro lado
e liguei a luz
mas não consegui ver pra onde ela foi
puxei um colchão pra cada lado
mais as madeirinhas que sustentam eles
e nada
nem um sinal daquela filha da puta
então decidi puxar de volta
e vi uma coisinha correndo embaixo
AHA!!!
dessa vez não iria fugir
quero dormir sozinho hoje
então me estiquei
botei eles pro lugar
e vi a pontinha da bunda dela tentando
escapar, mas nem conseguiu
finalmente botei tudo no lugar
e senti que precisava falar pra vocês
sobre este belo ocorrido
e na metade disso veio voando
mais uma na minha direção
vingança?
só pode
o mais bizarro é que nesses
quase cinco anos que moro aqui
lembro de ter visto só duas baratas
até hoje
e agora, até agora,
uma e trinta e cinco da manhã,
essa última já foi a quarta
que matei.

depois li três contos de sagarana, de guimarães rosa (aqui tem resumos/análises massa). primeiro, o burrinho pedrês (vídeo): sete-de-ouros, burrinho velho mas experiente, é necessário para fazer uma travessia de bois de um major bastante influente, uma vez que alguns cavalos haviam debandado na noite anterior. os vaqueiros não se empolgam muito em ter esse tipo de montaria, mas prosseguem, e no caminho de volta ficam num impasse ao encontrar o ribeirão cheio. decidem deixar o animal ir primeiro – O burrinho é quem vai resolver: se ele entrar n'água, os cavalos acompanham, e nós podemos seguir sem susto. Burro não se mete em lugar de onde ele não sabe sair! no entanto, os cavalos e vaqueiros não suportam a correnteza e são afogados, enquanto sete-de-ouros vai pisando onde conhece e nadando quando deveria. apenas dois homens se salvam, um agarrado ao rabo do burro e outro montado nele, adormecido de bêbado e mais tarde sendo deixado na varanda da fazenda, sem se dar conta do episódio.

(...) E, com isso, deixaram todos de caber no dia, que rodou e se foi, redondo e repleto, com a tarde a cair rente, uma tarde triste de tempo frio.

Enquanto isso tudo, na coberta do Reynéro, ali perto, afrouxadas as barrigueiras e tirados os freios, os cavalos descansavam. Longe dos outros, deixado num extremo, no canto mais escuro e esquerdo do telheiro, Sete-de-Ouros estava. Só e sério. Sem desperdício, sem desnorteio, cumpridor de obrigação, aproveitava para encher, mais um trecho, a infinda linguiça da vida. 

segundo, a volta do marido pródigo: lalino salãthiel era um trabalhador preguiçoso e irresponsável que decide abandonar seus serviços e se mudar para o rio de janeiro, em busca da boa-vida; deixa sua esposa maria rita, sem nem avisá-la, e vende sua viola a um espanhol que morava por perto. ele retorna depois de um tempo, desiludido, e descobre que maria rita está com o espanhol; passa então a trabalhar como cabo eleitoral para um major e vai conseguindo as coisas com malemolência e despojamento. no final ele consegue derrotar o adversário político e, de quebra, expulsar a colônia espanhola do local, reconquistando sua esposa.

por último, sarapalha, sobre esse lugar assolado pela malária, onde não resta quase ninguém – dois primos, ribeiro e argemiro, passam seus dias a esperar a morte, conversando sentados num cocho em companhia de um cachorro abatido. a esposa do primeiro tinha fugido com um vaqueiro há algum tempo, e ele pede para que o primo reconte a história do diabo que fugiu com uma moça, para aliviar. argemiro era apaixonado pela esposa do primo e acaba revelando isso, embora alegue que jamais pensara em desrespeitar ribeiro; ele se sente traído até pelo último companheiro e, ofendido, o expulsa. argemiro é tomado pela febre enquanto vai embora.

— Conta o resto da estória...
— ..."Então, a moça, que não sabia que o moço-bonito era o capeta, ajuntou suas roupinhas melhores numa trouxa, e foi com ele na canoa, descendo o rio..."
— A moça que eu estou vendo agora é uma só, Primo... Olha!... É bonita, muito bonita. É a sezão. Mas não quero... Bem que o doutor, quando pegou a febre e estava variando, disse... você lembra?... disse que a maleita era uma mulher de muita lindeza, que morava de-noite nesses brejos, e na hora da gente tremer era quem vinha... e ninguém não via que era ela quem estava mesmo beijando a gente... Mas, acaba de contar a estória, Primo...

além disso, li um pouco de poemas negros, de jorge de lima, e de o universo numa casca de noz, de stephen hawking. este tô ouvindo em audiobook sempre que tenho uma louça monstruosa pra lavar ou coisa do tipo. esse mês não foi grande coisa no quesito leituras, devia ter lido bem mais, considerando os planos pros livros obrigatórios, mas claramente sou incapaz de ter qualquer disciplina a longo prazo. uma desculpa possível é que fiquei doente...