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sábado, 30 de novembro de 2019

lidos (3) e assistidos (6) em novembro

als wir träumten (2015)
único filme da mini-mostra em comemoração aos 30 anos da queda do muro de berlim que vi. norma que montou, esse foi o último dia/filme de 3. baseado num livro de mesmo nome, que ela disse gostar muito. sobre a juventude de um grupo de amigos nos tempos seguintes à queda do muro, em leipzig (norma estudou lá, acho que é de lá também). muita doideira, carros roubados, direção alcoolizada, destruição de coisas. uns se envolvem com drogas, um vendendo e outro se viciando (esse morre). o principalzinho fica preso por uns meses, intencionalmente, pra ver se melhorava as coisas pra mãe e pra vida. apanhou feio de uma gangue (skinheads?) de gente otária, só porque gostava da namoradinha de um. "Sternchen", estrelinha. reconheci várias coisas em alemão, mas não dava pra anotar tudo. quem sabe assistindo de novo. mas a música tema é muito boa!

paprika (2006)
vi de novo com talita pra poder fazer review. um aparelho que pode ver os sonhos das pessoas, controlar, sei lá. paprika é essa mulher que consegue entrar nos sonhos, conversar, fazer qualquer coisa. depois de um tempo de filme dá pra entender que ela é a cientista séria da empresa que fabrica esse aparelho, mas ainda não sei por que ela tem essa capacidade extra. um dos caras que trabalhava no negócio rouba ele e usa pra criar um sonho/delírio coletivo absurdo. difícil dizer o sentido das coisas nesse filme. o gordão que gosta da mulher (paprika) também cai no sono infinito nesse sonho doido. a cidade toda um caos. no fim é o velho nojento diretor da empresa que tá tramando coisa, usa outro cientista do grupo pra conseguir as coisas, cena agoniante dele arrancando a "roupa" de paprika da mulher, rasgando a pele dela pregada como borboleta numa mesa. tudo muito surreal. gosto da trilha sonora, pra variar. massa e confuso os encontros virtuais (?) do policial com paprika no barzinho. e no fim ele perseguindo a si próprio, suicídio ou ele matando o amigo, etc.

die legende von paul und paula (1975)
esses dois moram na mesma rua, um de frente pro outro, em prédios. paula trabalha um bocado, tem uma filha criança e um filho menorzinho. não tem marido, não sei por quê. um dia sai pra curtir de noite e vê paul no clube. acho que ele tá com a mulher e dança com ela, ou com outra pessoa, e um velho feio com paula. mas no final, indo embora, o próprio velho troca e eles saem juntos. ficam de amor e sexo e se vêem de vez em quando. paula toda dramática, emocionada num concerto de cordas, aplaudindo antes de terminar e tudo. numa vez prepara toda uma recepção pra paul na casa dela, junta camas, enche de comida... nojentinho aquela mistura de comida e sexo, mas é breve. alguma coisa sobre a família dela ser meio doidinha, ter coisa de barco, sei lá. o filho pequeno morre atropelado, se não me engano. em algum momento ela engravida e o médico diz que ela pode morrer se tiver o filho, mas ela não se importa. por quê, véi? sério que precisa de uma criança no romance? claro que ela morre e o cara fica com os filhos que sobraram, né. o ator que faz paul é ulrich velho em dark!

einheit spd-kpd (1946)
sei lá, alguma coisa sobre a união dessas duas coisas na alemanha. dois partidos, um comunista e outro socialista. curtinho, uns 15 minutos, vi errado esperando que fosse die mauer.

die mauer (1990)
sobre a queda do muro de berlim. foi o segundo filme da mini-mostra. umas movimentações ao redor do muro, gente levando pedaço de recordação (aquela história de que tio jr. tem um, mas nunca se sabe da veracidade). turistas virando o ano novo lá. gente subindo de um jeito confuso, como se fosse só um degrauzão num pedaço. e as máquinas tirando as placas inteiras, como que já pensando em botar em museu. interessante, doido de pensar. ficou 30 anos de pé, né.

wer die erde liebt (1973)
pelo que eu entendi é um documentário sobre um tal festival da juventude da alemanha soviética que aconteceu nesse ano em berlim oriental. angela davis tava lá, jovem, altona né. falou em alemão no microfone. mensagens de incentivo e inspiração, felicidade pelo socialismo e sei lá. um bocado de apresentações musicais, gente com cara de hippie, falas anti-imperialistas. reconheci frases como "Frieden für alle", "Solidarität mit dem Vietnamesischen Volk", "Revolutionares Völke der Welt", "Die Jugend der DDR grüßt" e "Die Jugend der Welt". umas músicas/gritos tipo "Wir, wir, wir! Und zusammen!" e "Solidarität / Das ist unser Lied". num momentinho breve, em que se via a multidão filmada de cima, achei uma bandeira do brasil dançando lá no meio.

read this outside (joseph kendrick)
li duas vezes, a segunda traduzindo (revisão de talita). planos de alguma hora fazer uma versão em português. mas na verdade nem tudo é bom: tem uma página inteira sobre steve roggenbuck e outra sobre durianriders, e atualmente os dois foram acusados de abuso ou coisa pior. bom as partes sobre a vida de joseph, como a viagem de bicicleta em que acampou na floresta. excesso de falação sobre lil b the based god, mas engraçado. difícil entender se a tradução devia ser informal ou não muito, porque joseph faz umas frases tão bem feitinhas... caça-palavras que na verdade tem os opostos das palavras que ele coloca na lista de encontrar, que são coisas ruins. não esperava que todos os livros que ele recomenda no "further reading" teriam traduções em português. coisa de budismo e mindfullness. coisa de anotar sonho pra ter sonho lúcido, uns melhores momentos também. tô voltando a anotar, deu uma reanimada.

1984 (george orwell)
demorei pra ler por causa da faculdade e da vida, mas puta merda, que livro bom. já tinha certas espectativas por ser o que é, mas superou demais, nunca que eu poderia esperar qualquer coisa daquilo. tudo muito perfeito, bem pensado, meticulosamente planejado. é o extremo da distopia; não tem como qualquer outra coisa ser mais absurdamente completo do que 1984. anotei tanta citação que deu quase outro livro, mas por elas dá pra ter uma noção do que é essa história. o livro de o'brien, véi, come pode. o fim é muito bom também. acho que não vou esquecer de nada desse livro. foi massa ler em inglês também, bem tranquilo, gostei bastante do ritmo.

"Don't you see that the whole aim of Newspeak is to narrow the range of thought? In the end we shall make thoughtcrime literally impossible, because there will be no words in which to express it. (...) Every year fewer and fewer words, and the range of consciousness always a little smaller. Even now, of course, there's no reason or excuse for committing thoughtcrime. It's merely a question of self-discipline, reality-control. But in the end there won't be any need for that. The Revolution will be complete when the language is perfect. (...)"
"Even the literature of the Party will change. Even the slogans will change. How could you have a slogan like 'freedom is slavery' when the concept of freedom has been abolished? The whole climate of thought will be different. In fact there will be no thought, as we understand it now. Orthodoxy means not thinking—not needing to think. Orthodoxy is unconsciousness."
Quickly, with an occasional crackle of twigs, they threaded their way back to the clearing. When they were once inside the ring of saplings she turned and faced him. They were both breathing fast, but the smile had reappeared round the corners of her mouth. She stook looking at him for an instant, then felt at the zipper of her overalls. And, yes! It was almost as in his dream. Almost as swiftly as he had imagined it, she had torn her clothes off, and when she flung them aside it was with that same magnificent gesture by which a whole civilization seemed to be annihilated. (...)
"Listen. The more men you've had, the more I love you. Do you understand that?"

"Yes, perfectly."

"I hate purity. I hate goodness. I don't want any virtue to exist anywhere. I want everyone to be corrupt to the bones."
"Well, then, I ought to suit you, dear. I'm corrupt to the bones."
"You like doing this? I don't mean simply me; I mean the thing in itself?"
"I adore it."
That was above all what he wanted to hear. Not merely the love of one person, but the animal instinct, the simple undifferentiated desire: that was the force that would tear the Party to pieces.
(...) In the old days, he thought, a man looked at a girl's body and saw that it was desirable, and that was the end of the story. But you could not have pure love or lust nowadays. No emotion was pure, because everything was mixed up with fear and hatred. Their embrace had been a battle, the climax a victory. It was a blow struck against the Party. It was a political act.
She began to enlarge upon the subject. With Julia, everything came back to her own sexuality. As soon as this was touched upon in any way she was capable of great acuteness. Unlike Winston, she had grasped the inner meaning of the Party's sexual puritanism. It was not merely that the sex instinct created a world of its own which was outside the Party's control and which therefore had to be destroyed if possible. What was more important was that sexual privation induced hysteria, which was desirable because it could be transformed into war fever and leader worship. The way she put it was: "When you make love you're using up energy; and afterwards you feel happy and don't give a damn for anything. They can't bear you to feel like that. They want you to be bursting with energy all the time. All this marching up and down and cheering and waving flags is simply sex gone sour. If you're happy inside yourself, why should you get excited about Big Brother and the Three-Year Plans and the Two Minutes Hate and all the rest of their bloody rot?" That was very true, he thought. There was a direct, intimate connection between chastity and political orthodoxy. For how could the fear, the hatred, and the lunatic credulity which the Party needed in its members be kept at the right pitch except by bottling down some powerful instinct and using it as a driving force? The sex impulse was dangerous to the Party, and the Party had turned it to account. They had played a similar trick with the instinct of parenthood. The family could not actually be abolished, and, indeed, people were encouraged to be fond of their children in almost the old-fashioned way. The children, on the other hand, were sistematically turned against their parents and taught to spy on them and report their deviations. The family had become in effect an extension of the Thought Police. It was a device by means of which everyone could be surrounded night and day by informers who knew him intimately.
(...) From the moment when the machine first made its appearance it was clear to all thinking people that the need for human drudgery, and therefore to a great extent for human inequality, had disappeared. If the machine were used deliberately for that end, hunger, overwork, dirt, illiteracy, and disease could be eliminated within a few generations. And in fact, without being used for any such purpose, but by a sort of automatic process—by producing wealth which it was sometimes impossible not to distribute—the machine did raise the living standards of the average human being very greatly over a period of about fifty years at the end of the nineteenth and the beginning of the twentieth centuries.But it was also clear that an all-round increase in wealth threatened the destruction—indeed, in some sense was the destruction—of a hierarchical society. In a world in which everyone worked short hours, had enough to eat, lived in a house with a bathroom and a refrigerator, and possessed a motorcar or even an airplane, the most obvious and perhaps the most important form of inequality would already have disappeared. If it once became general, wealth would confer no distinction. It was possible, no doubt, to imagine a society in which wealth, in the sense of personal possessions and luxuries, should be evenly distributed, while power remained in the hands of a small privileged caste. But in practice such a society could not long remain stable. For if leisure and security were enjoyed by all alike, the great mass of human beings who are normally stupefied by poverty would become literate and would learn to think for themselves; and when once they had done this, they would sooner or later realize that the privileged minority had no function, and they would sweep it away. In the long run, a hierarchical society was only possible on a basis of poverty and ignorance.
(...) And at the same time the consciousness of being at war, and therefore in danger, makes the handing-over of all power to a small caste seem the natural, unavoidable condition of survival.War, it will be seen, not only accomplishes the necessary destruction, but accomplishes it in a psychologically acceptable way. In principle it would be quite simple to waste the surplus labor of the world by building temples and pyramids, by digging holes and filling them up again, or even by producing vast quantities of good and then setting fire to them. But this would provide only the economic and not the emotional basis for a hierarchical society. (...)
(...) The problem is the same for all three superstates. It is absolutely necessary to their structure that there should be no contact with foreigners except, to a limited extent, with war prisoners and colored slaves. Even the official ally of the moment is always regarded with the darkest suspicion. War prisoners apart, the average citizen of Oceania never sets eyes on a citizen of either Eurasia or Eastasia, and he is forbidden the knowledge of foreign languages. If he were allowed contact with foreigners he would discover that they are creatures similar to himself and that most of what he has been told about them is lies. The sealed world in which he lives would be broken, and the fear, hatred, and self-righteousness on which his morale depends might evaporate. It is therefore realized on all sides that however often Persia, or Egypt, or Java, or Ceylon may change hands, the main frontiers must never be crossed by anything except bombs.
(...) The best books, he perceived, are those that tell you what you know already. (...)
In principle, membership in these three groups is not hereditary. The child of Inner Party parents is in theory not born into the Inner Party. Admission to either branch of the Party is by examination, taken at the age of sixteen. Nor is there any racial discrimination, or any marked domination of one province by another. Jews, Negroes, South Americans of pure Indian blood are to be found in the highest ranks of the Party, and the administrator of any area are always drawn from the inhabitants of that area. In no part of Oceania do the inhabitants have the feeling that they are a colonial population ruled from a distant capital. Oceania has no capital, and its titular head is a person whose whereabouts nobody knows. Except that English is its chief lingua franca and Newspeak its official language, it is not centralized in any way. Its rulers are not held together by blood ties but by adherence to a common doctrine. (...)
The alteration of the past is necessary for two reasons, one of which is subsidiary and, so to speak, precautionary. The subsidiary reason is that the Party member, like the proletarian, tolerates present-day conditions partly because he has no standards of comparison. He must be cut off from the past, just as he must be cut off from foreign countries, because it is necessary for him to believe that he is better off than his ancestors and that the average level of material comfort is constantly rising. But by far the more important reason for the readjustment of the past is the need to safeguard the infallibility of the Party. It is not merely that speeches, statistics, and records of every kind must be constantly brought up to dat in order to show that the predictions of the Party were in all cases right. It is also that no change of doctrine or in political alignment can ever be admitted. For to change one's mind, or even one's policy, is a confession of weakness. (...)
The mutability of the past is the central tenet of Ingsoc. Past events, it is argued, have no objective existence, but survive only in written records and in human memories. The past is whatever the records and the memories agree upon. And since the Party is in full control of all records, and in equally in full control of the minds of its members, it follows that the past is whatever the Party chooses to make it. It also follows that though the past is alterable, it never has been altered in any specific instance. For when it has been re-created in whatever shape is needed at the moment, then this new version is the past, and no different past can ever have existed. This holds good even when, as often happens, the same event has to be altered out of recognition several times in the course of a year. At all times the Party is in possession of absolute truth, and clearly the absolute can never have been different from what it is now. It will be seen that the control of the past depends above all on the training of memory. To make sure that all written records agree with the orthodoxy of the moment is merely a mechanical act. But it is also necessary to remember that events happened in the desired manner. And if it is necessary to rearrange one's memories or to tamper with written records, then it is necessary to forget that one has done so. The trick of doing this can be learned like any other mental technique. It is learned by the majority of Party members, and certainly by all who are intelligent as well as orthodox. In Oldspeak it is called, quite frankly, "reality control." In Newspeak it is called doublethink, although doublethink comprises much else as well.
"But how can you stop people remembering things?" cried Winston, again momentarily forgetting the dial. "It is involuntary. It is outside oneself. How can you control memory? You have not controlled mine!"

O'Brien's manner grew stern again. He laid his hand on the dial. "On the contrary," he said, "you have not controlled it. That is what has brought you here. You are here because you have failed in humility, in self-discipline. You would not make the act of submission which is the price of sanity. You preferred to be a lunatic, a minority of one. Only the disciplined mind can see reality, Winston. You believe that reality is something objective, external, existing in its own right. You also believe that the nature of reality is self-evident. When you delude yourself into thinking that you see something, you assume that everyone else sees the same thing as you. But I tell you, Winston, that reality is not external. Reality exists in the human minds, and nowhere else. Not in the individual mind, which can make mistakes, and in any case soon perishes; only in the mind of the Party, which is collective and immortal. Whatever the Party holds to be truth is truth. It is impossible to see reality except by looking through the eyes of the Party. That is the fact that you have got to relearn, Winston. It needs an act of self-destruction, an effort of the will. You must humble yourself before you can become sane."
O'Brien smiled slightly. "You are a flaw in the pattern, Winston. You are a stain that must be wiped out. Did I not tell you just now that we are different from the persecutors of the past? We are not content with negative obedience, not even with the most abject submission. When finally you surrender to us, it must be of your own free will. We do not destroy the heretic because he resists us; so long as he resists us we never destroy him. We convert him, we capture his inner mind, we reshape him. We burn all evil and all illusion out of him; we bring him over to our side, not in appearance, but genuinely, heart and soul. We make him one of ourselves before we kill him. It is intolerable to us that an erroneous thought should exist anywhere in the world, however secret and powerless it may be. Even in the instant of death we cannot permit any deviation. In the old days the heretic walked to the stake still a heretic, proclaiming his heresy, exulting it. Even the victim of the Russian purges could carry rebellion locked up in his skull as he walked down the passage waiting for the bullet. But we make the brain perfect before we blow it out. The command of the old despotisms was 'Thou shalt not.' The command of the totalitarians was 'Thou shalt.' Our command is 'Thou art.' No one whom we bring to this place ever stands out against us. Everyone is washed clean. (...)

hamoni (monge han)
dá pra ler no perfil dele. sobre a avó coreana, quando ela tava morrendo. fala de como ela era o centro da família, dos impasses pelas línguas diferentes, do quanto se sentiu enxergado na última vez que se olharam. ele tem essa coisa de desenhar três olhos, só um aberto, e quando a pessoa tá morrendo os outros abrem; interessante, queria saber se tem alguma crença envolvida ou é só artístico. bem bonito o quadrinho, triste. curtinho.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

lidos (5) e assistidos (6) em outubro

the good place S02 (2017-2018)
resolvemos terminar de ver the good place e até que foi melhor do que a gente esperava. começa com tudo recomeçando, eleanor recebendo o próprio bilhete e tentando entender o que é chidi. ele tá tendo que escolher entre duas mulheres que supostamente poderiam igualmente ser sua alma gêmea. tahani tá com um cara baixinho que mora numa casa minúscula. jason tá de alma gêmea com um monge igual jianyu, que não deixa ele sozinho nunca. queriam que eleanor causasse na festa de boas vindas mas quem faz isso é tahani. de alguma forma eles se reúnem todos em pouquíssimo tempo e eleanor descobre que é o bad place, e michael recomeça de novo, sem shawn saber (ele não tinha permitido mais que duas tentativas). isso acontece centas de vezes. vicky, que era a eleanor de verdade antes, tá insatisfeita com os papéis menores que recebe, e ameaça de contar dos inúmeros reboots que michael fez se ele não deixar ela no controle a partir da coisa seguinte. mas acaba que ele conta pros humanos dessa situação, pedindo ajuda, e eles se unem. eleanor fica sabendo por mindy que já ficou com chidi numas vezes e fica com "efeito verônica" (passa a imaginar eles juntos e começa a gostar dele, sendo que antes não tinham nada). michael começa a tomar aulas de ética com eles, sofre uma crise existencial huahs, aprende umas coisas humanas. jason e tahani dormem juntos e passam a namorar, tendo janet como terapeuta de casal, mas aí ela começa a dar defeito e descobrem que é por causa do que teve com jason no passado, que ela não pode mentir (fingir estar ok com o relacionamento dele e tahani). ela cria um tal de derek pra ser o namorado de consolo dela, todo bestão, e depois de resolverem tudo mandam ele com cocaína pra mindy haush. shawn aparece pra elogiar michael e diz que vão adotar o plano de tortura dele, e seguindo umas coisas que michael deixa passar enquanto age como demônio ruinzão os humanos se juntam a ele pra tentar ir pro good place, mas ele nunca soube como. tahani quer "falar com o gerente" e resolvem fazer isso mesmo, ir até a juíza do universo pra apresentarem o caso e ver o que ela acha. os humanos (exceto eleanor, mas ela finge que não) falham no teste que ela dá a eles e são condenados ao bad place mesmo, mas michael argumenta que o sistema de pontos deve estar corrompido e propõe que recomecem a linha do tempo deles, salvando-os da morte e vendo se melhorariam dali em diante. eleanor melhora por uns meses, preocupada com o mundo, mas perde o entusiasmo, e michael secretamente vai encontrá-la tentando fazer com que os quatro se encontrem de novo.

the good place S03 (2018-2019)
michael vai pra terra inúmeras vezes, pra interferir um pouco em cada um dos quatro humanos, até que se encontrem. chidi começa um estudo com uma neurocienstista legal, simone, pra saber o impacto de experiências de quase morte na tomada de decisões das vítimas (só os quatro participam, parece). ele começa a dar aula de ética pra eles também, porque eleanor queria ser uma pessoa melhor, mas não vejo muito sentido nisso. chidi começa a namorar simone. ah, aquele demônio (o diabo?) trevor aparece pra ser parte do estudo também, e tenta afastá-los dizendo que a amizade deles pode interferir, tentando fazer tahani e jason ficarem, sendo animado exagerado, mas acaba que não consegue. a juíza descobre e quer terminar o experimento, mas michael e janet fogem pra terra. bobeira isso que ela não pode fazer nada (ou só não faz nada), e que ela não sabe das coisas antes mesmo sendo a poderosa juíza do universo. um monte de interferência dos dois até que os humanos os descobrem, eles revelam a realidade, explicam como funciona o tempo (jeremy bearimy, o pingo do i sendo terças-feiras e julho, acho, e nunca haushus). todos passam um tempo fazendo algo separados – chidi doido fazendo chili com doces e falando de consequencialismo e niilismo, tahani se casando com jason pra dar seu dinheiro a ele e doando um bocado pra gente na rua, eleanor devolvendo a carteira e os cacareco de um cara. ela descobre que a mãe não morreu, mas sim fingiu ter morrido pra não pagar um dívida, e que agora tá bem mais responsável; se sente mal por não ter recebido as partes boas mas depois fica ok. simulador de realidade virtual de janet onde chidi tenta terminar com simone e eleanor dá em cima dela hsuhs. tahani faz as pazes com a irmã, que também tem complexo com os pais e a coisa da competição entre elas. todos vão até o canadá pra que michael e janet conheçam doug forcett, aquele cara que acertou uns 90% de como o pós-vida realmente funcionava, mas o esforço exagerado dele em ganhar pontos positivos faz dele uma pessoa miserável. os demônios vão pra terra atrás deles e eles brigam, janet toda lutadora, e no fim vão os seis pro vácuo de janet. os humanos ficam todos com a aparência dela huahs. michael e ela vão falar com os contabilizadores de pontos e vêem que faz centenas de anos que ninguém vai pro good place, e acha que o bad place tá trapaceando algo, mas na real é que as coisas só foram ficando mais e mais complicadas e praticamente nenhum ponto positivo fica integral, sempre tem desconto de mil coisas ruins relacionadas. ihop e tahani com um bicho verde lesmento que alteram a realidade pra parecer uma echarpe, mas ela não pode tocar haush. a juíza vai à terra e vê como é tudo horrível mesmo, e decidem refazer o experimento do bairro de michael com novos participantes. jason começa a namorar janet e eleanor, chidi. um romancezinho desnecessário até terem que apagar as memórias de chidi porque escolheram simone pro novo experimento, e ele pode arruinar tudo. eleanor como arquiteta porque michael tá tendo crise de pânico.

ideias para adiar o fim do mundo (ailton krenak)
livro que esse pensador indígena lançou nesse ano, compilando umas falas que ele fez em eventos. comprei pra dar pra tati e pra casa do mato, já que ela e rômulo sempre falam dele. li antes de entregar a ela porque é curtinho. gostei de ele ter dito umas coisas meio pró-apocalipse, de querer que acabe o mundo mesmo, apesar do título. ele também diz o que acha que ajudaria a melhorar, mas no geral foram coisas importantes de lembrar e pensar. destaquei vários trechos e eles resumem bem do que se trata:

A ideia de que os brancos europeus podiam sair colonizando o resto do mundo estava sustentada na premissa de que havia uma humanidade esclarecida que precisava ir ao encontro da humanidade obscurecida, trazendo-a para essa luz incrível. Esse chamado para o seio da civilização sempre foi justificado pela noção de que existe um jeito de estar aqui na Terra, uma certa verdade, ou uma concepção de verdade, que guiou muitas escolhas feitas em diferentes períodos da história. (p.11)
Por que nos causa desconforto a sensação de estar caindo? A gente não fez outra coisa nos últimos tempos senão despencar. Cair, cair, cair. Então por que estamos grilados agora com a queda? Vamos aproveitar toda a nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas coloridos. Vamos pensar no espaço não como um lugar confinado, mas como o cosmos onde a gente pode despencar em paraquedas coloridos. (p.30)
(...) se nós imprimimos no planeta Terra uma marca tão pesada que até caracteriza uma era, que pode permanecer mesmo depois de já não estarmos aqui, pois estamos exaurindo as fontes da vida que nos possibilitam prosperar e sentir que estávamos em casa, sentir até, em alguns períodos, que tínhamos uma casa comum que podia ser cuidada por todos, é por estarmos mais uma vez diante do dilema a que já aludi: excluímos da vida, localmente, as formas de organização que não estão integradas ao mundo da mercadoria, pondo em risco todas as outras formas de viver – pelo menos as que fomos animados a pensar como possíveis, em que havia corresponsabilidade com os lugares onde vivemos e o respeito pelo direito à vida dos seres, e não só dessa abstração que nos permitimos constituir como 'uma' humanidade, que exclui todas as outras e todos os outros seres. (p.47)
Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista. Do nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe, a Terra, resulta que ela está nos deixando órfãos, não só aos que em diferente graduação são chamados de índios, indígenas ou povos indígenas, mas a todos. (p.49)
Se já houve outras configurações da Terra, inclusive sem a gente aqui, por que é que nos apegamos tanto a esse retrato com a gente aqui? (...) Essa configuração mental é mais do que uma ideologia, é uma construção do imaginário coletivo – várias gerações se sucedendo, camadas de desejos, projeções, visões, períodos inteiros de ciclos de vida dos nossos ancestrais que herdamos e fomos burilando, retocando, até chegar à imagem com a qual nos sentimos identificados. (...) O fim do mundo talvez seja uma breve interrupção de um estado de prazer extasiante que a gente não quer perder. (p.58)
De que lugar se projetam os paraquedas? Do lugar onde são possíveis as visões e o sonho. (...) Não o sonho comumente referenciado de quando se está cochilando ou que a gente banaliza "estou sonhando com o meu próximo emprego, com o próximo carro", mas que é uma experiência transcendente na qual o casulo do humano implode, se abrindo para outras visões da vida não limitada. Talvez seja outra palavra para o que costumamos chamar de natureza. Não é nomeada porque só conseguimos nomear o que experimentamos. O sonho como experiência de pessoas iniciadas numa tradição para sonhar. (...) São lugares com conexão com o mundo que partilhamos; não é um mundo paralelo, mas que tem uma potência diferente. (p.65)
Quando, por vezes, me falam em imaginar outro mundo possível, é no sentido de reordenamento das relações e dos espaços, de novos entendimentos sobre como podemos nos relacionar com aquilo que se admite ser a natureza, como se a gente não fosse natureza. (p.67)

allure (2017)
aquela atriz de thirteen e across the universe. tilera revolts mas trabalha de faxineira pra uma empresa e com o pai. vai limpar a casa de uma mulher e ela tem uma filha de 16 anos que toca piano. se interessa por ela, aproveita que ela tem um pôster do nirvana pra falar disso, fica dizendo que tá feliz em ver ela quando vai lá. um dia a mãe da menina (eva) diz a ela que pretende se mudar com o parceiro, e eva não gosta nem quer. laura (a faxineira) consola a menina e diz que ela pode ir morar com ela, e aí começa um negócio doido de laura ser extremamente dependente e controladora. a polícia até procura por eva e laura tranca a menina num quarto porque achou que ela não ligou pro fato de que laura podia ir presa se descobrissem que ela tava lá, porque ela comentou que talvez devesse avisar a mãe que tava bem. laura fica forçando um romance que a coitada nem quer, mas mesmo com os exageros dela eva não consegue ir embora, deve sentir que laura precisa mais dela do que ela de laura. a menina não consegue transar, fica assustada, claro, e laura se prostitui igual no começo da história, mas apanha de um cara que ela tinha humilhado. ela mente e diz que foi o pai, que ele voltou a tocá-la, e bota eva contra ele. o pai até pede perdão pelo que fazia, mostra que se preocupa com laura, mas ela só fode tudo. maltrata o irmão cadeirante também, não quer que eva tenha banda com ele nem sejam amigos, super possessiva e violenta. no final eva se aproveita de um apagão numa piscina que elas tavam e foge, de maiô na neve. termina com laura falando pro pai que tá sozinha e que tá ok com isso, que vai tentar continuar assim e que precisa de distância das pessoas. bom de ser lésbico mas não focado em romance; ficamos refletindo sobre qual seriam os problemas da mulher e tal, se seria a mesma coisa contar a história com um homem no papel dela. doideira.

green book (2018)
um descendente de italianos que trabalha tipo de segurança num bar é contratado por um músico pra ser motorista dele. o músico (don) é negro e o cara (tony) já começa o filme jogando no lixo uns copos de vidro que dois encanadores negros usaram na casa dele depois de um conserto, mas com o músico ele foi bem melhor do que isso fez esperar. tony é nojentão e todo bruto, come se lambuzando enquanto dirige, e vai amolecendo don, que era todo boas maneiras e frescuras chiques. negócio de kfc ser de gente negra e ele nem conhecer. ao longo da tour os dois se aproximam, um aprende com o outro, e no final é massa que don dirige na neve pra conseguir que tony chegue em tempo pro natal com a família, e depois ainda aparece pra passar a ceia junto. todo mundo dando boas-vindas e sendo legal, dá uma esperançazinha. tem umas coisas que metem don em problema, tipo ficar de paquera com outro cara num lugar de piscinas e saunas e nudez. tony ajudando oferecendo dinheiro pra policiais e don ofendido, mas é o que dá pra fazer. eles vão presos uma hora por alguma explosão impulsiva de tony, e don tira eles de lá fazendo uma ligação (também humilhante) pro governador. ah, don toca piano, muito bonito, por sinal. uma bosta que nos lugares que ele toca só tem branco ruim; numa vez ele tava indo pro banheiro dentro da casa e o cara falou que pra ele era lá fora (ele preferiu voltar pro hotel e usar lá). o ápice foi num lugar em cujo restaurante ele não podia comer por causa de uma merda de tradição; tony dá um soco no cara e eles desistem do show lá, porque pelo amor de deus. triste as apresentações em que don tá com machucados na cara de ter apanhado. muito bom que depois dessa do restaurante eles saem pra comer num barzinho simples, mas que tem um pianinho e uns músicos (e muita gente negra); ele começa a tocar lá e fica bem mais feliz e as pessoas admiradas. tudo isso inspirado em história real, uma amizade que foi até os dois morrerem. green book é um livrinho de viagem com lugares "black people-friendly" pra eles pararem.

tamagotchi (2019)
curta lésbico produzido pelas meninas do canal amena, com íris amiga de talita sendo protagonista. um cenário meio futurista, as pessoas fazendo dinheiro vendendo dados, uns números aparecendo em volta das pessoas tipo black mirror. íris (não lembro o nome da personagem) decide desligar o wi-fi e ficar longe da internet um pouco, e logo conhece uma tal de ágata que fica de romancezinho com ela. diálogos irreais e não espontâneos como sempre, do tipo "você quer me perguntar algo?" e a resposta ser "o que você queria ser quando crescesse?" e "você já se apaixonou?"... no fim a mulher some, era só uma funcionária de uma empresa que precisava fazer a menina voltar pra internet, voltar a ficar mal e tomar remédio, dar lucro pra outra empresa. esperava mais. íris tava ok atuando, boa até. de novo ansiosa, que nem aquele curta de camie.

beloved (jaeliu)
manhwa yuri que achei num app que baixei. sobre essa oftalmologista de 34 anos que se envolve com uma menina numa festa, e no outro dia de manhã olhando as coisas dela descobre que ela tem 16 anos. todo lugar que tem o manhwa avisa que a idade de consentimento na china é 14 anos, o que não faz ser menos bizarro, né. acaba que as duas voltam a se ver, a menina nem tem família direito (ou não se preocupam), vai morar com a doutora e tudo. ela tem um amigo gay, também médico, cuja família espera que fique com ela e tal. parece que ela ainda tava tentando superar o término com outra mulher, mais uma médica do mesmo hospital, mó grey's anatomy. muito bonito o traço e as cores, pintado como aquarela. levemente sensual. diz que tá terminado com 18 capítulos mas nenhum lugar passa do 16...

maunder (paula puiupo)
quadrinho que puiupo publicou por essa editora da letônia. uma avó barbiezinha gigante, uma pessoinha com rabinho construindo uma máquina de não sei o quê. conversam sobre acessar o passado, aceitar a realidade. eventually everything will grow out of proportion and merge. even individuality. that's the first thing that goes, really. bonito, uns contornos coloridos como se fosse holográfico ou sei lá, legal o jeito que ela fez. meio sem sentido como sempre, mas gostei. não sabia, mas parece que "maunder" é inglês e significa zombar, falar aereamente, proceder com indiferença, vaguear, divagar.

limite (juarez machado)
carolzinha chegou com esse livro falando que tinha comprado num sebo. nem tem o título na capa, só o nome do autor e da livraria, mas no skoob achei assim, "limite". só tem ilustrações, nas páginas da direita; sobre um homenzinho preso dentro de um quadrinho e tentando sair. atira um canhão e a bola cai no pé dele, bota fogo na bordinha e a fumaça forma uma tempestade, uma fada aparece mas diminui o tamanho do quadrado em vez de resolver. ele se sentindo preso, sonhando com estar livre. até que pinta tudo de preto e sai pela luz da lanterna, só pra ver que tava num quadrado maiorzão. engraçado ele tirando um bocado de ferramentas do nada. uns pézão, mãozona.

split (2016)
finalmente; julia disse que ia ver e fomos junto, apesar de eu estar atrasada em coisas da faculdade. começa com uma menina aparentemente deslocada das outras numa festa de aniversário. o pai de uma delas vai levar elas pras suas casas, mas parando no mercado vem um homem e ataca ele, assume o cara e as sequestra. a menina deslocada (casey) é a mais esperta e calma, observadora; quando ele pega uma delas pra fazer sei lá o que casey diz pra ela se mijar, e com isso a menina consegue se livrar. o cara aparece de outros jeitos, com outras roupas, falando diferente, e logo casey se toca que ele tem alguma coisa (não sei se ela entende totalmente, mas ele tem transtorno dissociativo de identidade). ele vai numa terapeuta e tal, muito boa por sinal, porque sabe que aconteceu alguma mudança nas identidades que dominam, e que outras tão no controle (umas não tão seguras). a questão toda é que eles (os alters) sentem que tem uma nova chegando, algo avassalador e sobrenatural, e precisam das jovens como sacrifícios. eles seguem uma ideia de que quem nunca sofreu nada é impuro, tem que morrer mesmo, e no final é isso que salva casey de ser morta/comida junto com as outras – ela tem cicatrizes de abuso do tio, pelo jeito. não dá pra entender se no fim ela se recusa a ir embora com o tio ou se consegue contar pra policial o que acontece. achei o filme muito bom, apesar dos possíveis problemas que pode relacionar a quem tem o transtorno; acabei voltando a ver um bocado de coisa sobre isso, aqueles vídeos que eu via há anos atrás e tal. chega fiz um trabalho sobre.

esôfago (lana maciel)
livro de poemas que emprestei de mateus (*zênite) sem planejar, só porque uma amiga dela tava devolvendo na mesma hora que a gente tava conversando sobre escrever e poesia. foi bom, melhor do que esperava, até. umas coisas suicidas (talita comentou da contradição de ela falar "venci a depressão" em um poema e ter outro que diz "se minhas rugas puderem aparecer", tipo, se ela conseguir envelhecer sem morrer antes... mas o primeiro pode ser a outra pessoa do poema que falou. enfim), outras parecendo lésbicas. me fez lembrar umas escritas naquela revista que tijn me deu; preciso reler e fazer review. a escritora é conhecida de zênite, e talita reconheceu ela quando o perfil dela apareceu pra mim no facebook. tem uma que fala de "pizzas no macunaíma"; me pergunto se é aquela pizzaria de onde pedimos pizza no fim das reformas da casa do mato. abaixo umas poesias que gostei; cansei de editar infinitamente o negócio de formatar como citação pra ficar bonitinho, vai ficar que nem texto mesmo.

Corpo

tenho os olhos em órbita
pareço estar perdida
enxergo por dentro
o que não entendo por fora

tenho as mãos delicadamente calejadas
a linha do coração é quebrada
mas a linha da vida é contínua
faço cartografia das dores que vivi

tenho o intestino preso
por mentiras e jabuticabas
tenho o intestino preso
porque às vezes me falta
fibra para enfrentar a vida.

A náusea da criação

eu me sinto aqui
com as mãos espalmadas
mostrando as unhas roídas
faço poemas mentais
penso sobre o ritmo
dos astros
e a falta de direção
da minha vida
penso sobre as putas
e o dinheiro que gasto
com roupas livros e comida
à toa
penso sobre as viagens
que planejo e nunca faço
penso sobre o uso dos porquês
e sobre como minha letra fica feia
quando escrevo com pressa
ou escrevo para você
penso que não sei ser prolixa
porque tudo é um tiro
não sou uma dama que finge
sapateio no meio da rua
às três da tarde quando
o sol queima as patas caninas
e os pés dos mendigos
penso que nunca consigo falar
devagar e de maneira organizada
porque penso rápido demais e
abraço o mundo
com inúmeros braços curtos
imitango uma frágil barata.

Meet me in...

se existe reencarnação
quero estar contigo
nas próximas vidas
talvez desejar isso gere um carma
ou mais músicas melodramáticas
mas eu não me importo de passar
mais uma noite ouvindo Belchior
esperando que você realmente queira
viver comigo correr perigo morrer comigo
sei que às vezes minhas palavras cortam
e nosso passado talvez não seja mais
tão limpo e puro como um comercial de sabão em pó
mas acho que nosso domingos ainda provam
que somos uma dupla melhor do que Sandy & Júnior
talvez você goste de mim pelo que sou
talvez eu não precise aprender esperanto
para te convencer a papear comigo mais uma noite
talvez você queira me ouvir tagarelas madrugadas afora
talvez você queira me levar na mala
das curvas de Santos, Marília, Natal e Rio Claro
dentre todos esses talvez
as duas únicas certezas são que ainda quero
escrever para você e segurar sua mão
depois de mais um dia de trabalho
é certo que você não gosta dos meus poemas
e talvez esse poema não devesse existir.
uma respiração dolorida –
ou talvez três anos de cumplicidade
valem mais do que um beijo
e coisas literárias
no fundo eu sempre fujo da autobiografia
no entanto, hoje não quero fugir de você
das pipocas e das pizzas no Macunaíma
hoje não posso esquecer do que sinto
por você.

Diálogos desconexos de duas pessoas que ainda estão conectadas

gatos vira-latas subindo a ladeira de casa. o sol escaldante de almas desérticas. prosa poética cabe em uma xícara de chá? estamos surdos por causa das buzinas no trânsito infernal de são paulo. axilas úmidas, testa brilhando, pequeno ataque cardíaco ao te encontrar subindo e descendo a francisco glicério em busca de um hambúrguer de soja. desvio o olhar – ainda não perdi esse hábito –, tua boca deve estar úmida.

inaugurei meu apartamento semana passada, minhas costas têm 40 anos, só dancei por 15 minutos. que dia é hoje? setembro não chove, agosto passou muito rápido. há quantos anos não nos vemos. você juntou as tralhas, senhora duas caras? deve estar ouvindo norah jones todos os dias.

meu relógio quebrou, o ônibus 600 ainda passa por aqui? mas espera aí, você mal falou de você. preciso ir, parar no próximo bar para vomitar pensamentos em um guardanapo sujo, mais sujo que a minha mão que segura o corrimão do ônibus, o salgado, amarra o sapato e depois rói as unhas cheias de bactérias. preciso beber cerveja glacial, que continua sendo barata assim como eu continuo sendo pobre. hoje é terça-feira, detesto terças-feiras. estamos falando demais – ainda não perdemos esse hábito.

até logo, me telefona quando puder, a gente toma um café. pode ser um chá? não temos mais tempo para prosas poéticas. minha gastrite não me deixa. continuo vomitando, mas venci a depressão. você não está entendendo nada do que eu digo, eu quero ir embora.

aperto de mão leve para disfarçar um coração apertado. nossa ligação é um axioma. teu tênis de andar de skate faz barulho no asfalto. ou esse barulho vem do meu coração? (ou do estômago?)

Matrioskas

minha avó disse uma vez
que os fios que ligam nós
mulheres são ancestrais
não sei se é verdade mas

sei que daria metade
do meu cordão umbilical
para ter a Frida Kahlo
na árvore da minha família

embora eu me esforce
para recuperar
nossa história
ainda sei que falta

especialmente do que vem
de mim e do suor que dedico
tentando me manter respirando
tentando construir uma história

nos escombros do mundo
não sei se o que sobra
do meu corpo é carne ou
coisas que me impuseram

Os últimos latidos

Se minhas rugas puderem aparecer, gostaria que o meu corpo repousasse em uma casa de vó, cheia de cachorros lambendo a própria bunda, lambendo o meu rosto. Também quero chás, água morna e sem gosto, paredes descascadas. Antes de dormir, os pés no chão.
Estou viva.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

assistidos em janeiro

the hitchhiker's guide to the galaxy (2005)
bem bostinha. poucas coisas engraçadas de verdade, ênfase desnecessária nos golfinhos no começo (com direito a música), desvio total pra criar romance com trillian... marvin não era quadrado e cinza como imaginava, zaphod parecia o cara de nickelback. não tem enredo nenhum, é só um amontoado de coisas nonsense jogadas de qualquer jeito. já sabia das críticas mas esperava mais.

another (2012)
o live-action é do mesmo ano que o anime e cada mídia consegue modificar as coisas de um jeito. não lembro mais como é no mangá mas sei que prefiro o final original, apesar de ainda gostar do anime. achei o filme ruinzinho e fraco, malfeito, uns efeitos bizarros. a primeira morte, do guarda-chuva, chega a ser engraçada porque dá pra perceber claramente que usaram um robô esquisito. alteraram como as mortes aconteciam também, encurtaram pedaços e inventaram umas coisas. só quem conhece a história vai se interessar, acho. esperava mais (2).

black mirror S04 (2017)
gostei bastante dessa temporada. uss callister tem a atriz que faz a mãe de how i met your mother como principal; massa eles pilotando em direção ao buraco de minhoca/atualização dizendo "espero que a gente morra", mas pensei que se excluiriam mesmo em vez de ficar no jogo pela nuvem, meio ruim pensar na eternidade dos coitados. arkangel é previsível nas possibilidades de dar merda, muito azar a mãe olhando justo nas piores horas. tenso que o implante não é removível; imaginei como seria isso de transmitir o que uma pessoa vê e que seria diferente, 3Dzão talvez, e seria show se desse pra fotografar. me pergunto se não dava pro menino avisar ela que a mãe tinha ameaçado e vigiava ainda; se fosse eu, tentava. não esperava a violência no final e fiquei pensando se a menina organizava as próprias coisas o bastante pra saber as prioridades do que levar pra fugir de casa. um pouco de medo de carona com caminhão mas ok. crocodile eu não entendi porque tem esse nome mas dá pra ficar pensando. show que foi na islândia e reconheci logo; o cabelo da mulher parecia o meu mal-cortado. absurdo que ela escolhe fazer toda aquela carnificina em vez de deixar o cara mandar uma carta; show que pegaram pelo bichinho que ela esqueceu. hang the dj achei muito bom, não esperava nem um pouco o jeito que terminou, raro um final feliz. bizarro o personagem do ator que faz athelstan em vikings e inesperado ter a música de the smiths depois. talita tinha percebido que não faziam nada no lugar, que todos eram magros porque no tempo livre faziam exercícios e etc, mas não pensei em simulações e coisas virtuais tipo o primeiro episódio. bacana que pelo menos um dos relacionamentos foi lésbico; triste pensar nessas coisas de quanto tempo duram. metalhead não tem explicação nenhuma e pouquíssimas falas, parece que foi tentativa de fazer um episódio assim mesmo e trabalhado no terror. interessante o aspecto do monocromático, a musiquinha agoniante; me lembrava lars von trier de alguma forma. não achei ruim mas fico sem entender aquilo tudo. essas coisas de gente sobrevivendo a coisas perigosonas me fazem pensar que eu jamais iria longe num mundo assim. black museum foi show, pesadíssimo, praticamente três episódios em um e cheio de referências à própria série. o nome do museu me fez pensar em gente negra, mas era mais a questão de black mirror mesmo (apesar de não deixar de ter a ver com o primeiro). angustiante demais todas as situações, o ponto em que as coisas chegaram. não sei se seria permitido acontecer isso de usar a pessoa virtual e tudo, acho que teriam noção de que são capazes de sentir igual... pareceu um bom final de série. melhor parte foi assistir com talita e poder parar pra conversar e pensar sobre cada episódio.

vips (2010)
é sobre esse cara que é piloto e vai assumindo umas identidades diferentes toda hora. baseado em história real, mas não sei se o estelionatário também perdia a noção do que era invenção da mente dele ou não; coisa de transtorno de personalidade mesmo. wagner moura jovem emo... bem irreal. vários pedaços difíceis de entender com criminosos falando espanhol. não achei grande coisa mas não lembrava disso das personalidades tão fortes, apesar de ter lido sinopse um tempo atrás. bacana a coisa de pilotar, me pergunto como ele sabia tanto mesmo com um pai piloto inventado (o que dá sentido à roupinha e chapéu constantes). triste pelo coqueiro que arrancaram só por causa que tava na frente da placa da gol.

kaze tachinu (2013)
menino míope que não pode ser piloto decide construir aeronaves. sonha sempre com esse engenheiro italiano, caproni, que o motiva a ir em frente (diz que "aviões são lindos sonhos amaldiçoados, esperando que o céu os engula"). repete algumas vezes a frase "le vent se lève, il faut tenter de vivre" – que é parte de um poema de um filósofo francês. filmes do studio ghibli têm sempre umas texturas brilhosas, as coisas volumosas de um jeito específico, as mulheres principais com a mesma cara. acho massa a animação de um pedaço onde o protagonista (jiro) trabalha numa daquelas escrivaninhas inclinadas, meio mal sentado na cadeira, os olhos com zoom pelo óculos. jiro tá construindo coisas pra usarem na segunda guerra mundial, ao lado da alemanha; é sobre uma pessoa real mesmo, embora baseado numa biografia ficcionalizada. caproni diz que um artista é criativo por 10 anos apenas. tem romance também, com uma menina que ajudou depois de um terremoto (o grande sismo de kantou) e jamais esqueceu, depois se reencontram mas ela tá morrendo de tuberculose.  uma hora ele vai pra casa e fica trabalhando numa mesinha do lado dela, que tá deitada pra dormir, e ficam de mãos dadas... bonitinho, faria muito. demorei pra terminar, não dava muita vontade de ver direto nem foi o melhor deles que vi, mas bacana.
mosquiteirão da zorra.
earthlings (2007)
documentário sobre a dependência humana nos animais, dividido em tópicos como pets, comida, roupas, testes... dificílimo de assistir, chorei bastante e mantive as mãos cobrindo o rosto na maior parte do tempo. tenho certeza que se as pessoas assistissem repensariam tudo e passariam pro vegetarianismo/veganismo; mal consegui olhar pra carne que minha mãe trouxe do mercado no outro dia. é narrado pelo joaquin phoenix, de signs e her, que é vegano há muito tempo – "virei vegano aos três anos, quando vi uns pescadores destriparem peixes e perguntei à minha mãe, chorando, por que ela não tinha me contado de onde vinha a carne". até na questão da religião e gente que usa o argumento de que "deus deu entendimento pro homem então temos o direito de fazer isso", não consigo conceber um criador que tá de boa com essa situação; em outros tempos, quando as próprias pessoas cuidavam da produção de sua comida e tudo era mais próximo, até ok, mas hoje em dia... f*da. me parece um documentário que chamariam de sensacionalista ou exagerado, mas mesmo que não seja tudo igual é mostrado não dá pra negar que essas coisas acontecem. mas é tanto absurdo, não faz sentido que tão pouca gente pare pra refletir seus comportamentos; espero muito que isso continue mudando. tem umas falas bem boas no filme, como de que na questão dos animais todos os homens são nazistas (abaixo) e de que testes em animais só mostram resultados válidos pra animais, que é uma ofensa à ciência verdadeira. essas partes que copiei são da introdução.

Nobel Prize winner Isaac Bashevis Singer wrote in his bestselling novel 'Enemies, A Love Story’ the following: “As often has Herman had witnessed the slaughter of animals and fish, he always had the same thought: in their behavior toward creatures, all men were Nazis. The smugness with which man could do with other species as he pleased exemplified the most extreme racist theories, the principle that might is right”.
The comparison here to the holocaust is both intentional and obvious: one group of living beings anguishes beneath the hands of another. Though some will argue the suffering of animals cannot possibly compare with that of former Jews or slaves, there is, in fact, a parallel. And for the prisoners and victims of this mass murder, their holocaust is far from over.
In his book ‘The Outermost House’ author Henry Beston wrote: “We need another and a wiser and perhaps a more mystical concept of animals. Remote from universal nature, and living by complicated artifice, man in civilization surveys the creatures through the glass of his knowledge and sees thereby a feather magnified and the whole image in distortion. We patronize them for their incompleteness, for their tragic fate of having taken form so far below ourselves. And therein we err, and greatly err. For the animal shall not be measured by man. In a world older and more complete than ours they move finished and complete, gifted with extensions of the senses we have lost or never attained, living by voices we shall never hear. They are not brethren; they are not underlings; they are other nations, caught with ourselves in the net of life and time, fellow prisoners of the splendor and travail of the earth”.

food choices (2016)
esse documentário traz várias questões relacionadas à alimentação e saúde, defendendo uma dieta à base de plantas. acho interessante que comentaram, já que não é muito discutido, isso de que ao longo da história o ser humano se comportava como caçador-coletor, mas que esses coletores eram mulheres – o que liga essa questão ao machismo, já que quem caçava recebia a glória em vez de quem providenciava a base feita de vegetais e etc. bastante coisa que eu já sei, mas interessante ver especialistas falando sobre: as pessoas comem proteína em excesso, o que sobrecarrega órgãos e promove o risco de doenças; a proporção de ômega 3 e 6 tá muito acima do recomendado e pílulas de ômega 3 são tentativas de diminuir essa anormalidade obtendo lucros; a pecuária extensiva pode dar uma criação mais "humana" mas não muda o fato de que as mortes continuam inumanas (além de que o gado alimentado por grama produz mais metano que aquele alimentado por grãos, e obviamente exige mais espaço)... tem uma mulher que conta que tinha depressão, tentou suicídio, e depois conheceu o veganismo e decidiu nunca mais colocar dentro do corpo dela o sofrimento de outros animais, massa. falam de veganos acima do peso e que o que faz diferença de verdade é cortar "calorias vazias", que seriam os óleos vegetais, gorduras, açúcares e comidas processadas; que se continuar do jeito que tá, em 2048 os peixes comerciais estarão todos extintos; que precisamos parar de ser tão egoístas e olhar como nossas escolhas afetam aqueles ao nosso redor e principalmente as gerações futuras. e é isso, véi.

mudando a vida de geral que vê, né...
GAWI (2015)
curta bem curto sobre "uma menina presa em um estado de paralisia do sono (que) mergulha nas texturas dos sonhos". bacana os barulhos e o traço/animação mas nada de mais. a pessoa que postou chama de "student film", na verdade. deu um pouco de medinho, ainda mais se tratando de paralisia do sono, mas não tem susto.

e cabelo massa.
the true cost (2015)
esse é sobre a indústria da moda, bem bom. "roupas são a pele que a gente escolhe". falam que as pessoas pensam em comer alimentos orgânicos para não ingerir tantos químicos mas não param pra pensar que é a mesma coisa com roupas, que a pele é o maior órgão do corpo, etc. que a indústria têxtil é a segunda mais poluente, só atrás do petróleo; que só olham para o produto final, sem ver o custo verdadeiro que essa produção envolve; mostram as péssimas condições de trabalho e vida de indianos e cambojanos (em sua maior parte, mulheres) empregados de fábricas de tecido, gente que não tem escolha a não ser trabalhar nisso recebendo pouquíssimo... horrível. é absolutamente necessário que o sistema mude como um todo. tô ficando triste vendo esses documentários, meio que perdendo a pouca esperança no mundo; certo medo de continuar vivendo e do que vou ver no futuro.

janghwa, hongryeon (2003)
a tale of two sisters, em inglês, é um filme coreano de drama/suspense. já começa com a menina mais velha parecendo olhar direto pra câmera e dando disfarçadinha. na verdade começa com ela num hospital psiquiátrico, um médico pedindo pra ela contar sobre "aquele dia"... não entendi de primeira quem era a pessoa porque tava de cabeça abaixada, cabelo escorrido na cara. ela vive protegendo a irmã mais nova, que parece até infantil demais. têm uma madrasta que detestam, as trata mal e questiona se estão loucas mais de uma vez. a mãe morreu... vão vendo umas assombrações e não sei quem é a pessoa com distúrbios, primeiro parecia a irmã mais nova, depois a madrasta, depois a tia que vai jantar lá, depois o pai; no final é a garota mais velha mesmo. a mais nova morreu e a madrasta nem tá na casa com ela e o pai, ela que tem alucinações e personifica as outras duas. tenso, tinha apreensão de olhar pra tela nos pedaços que tinha possível susto. termina com a menina sendo levada à clínica, lembrando do que aconteceu pra mãe e a irmã morrerem – o pai aparentemente se casa com a mulher lá, a mãe deprimida se enforca dentro do armário, a menina mais nova encontra o corpo, fica chacoalhando tentando revivê-la e acaba fazendo o armário cair em cima dela. todo mundo na casa ouve o barulho mas ninguém vai olhar, ninguém tá com pressa, absurdo a filmagem de todo mundo virando o rosto mas ficando imóvel. quase o filme inteiro sem entender nada, mas interessante, e não me lembro de ter visto um filme coreano antes.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

lidos em dezembro

depois de séculos consegui terminar família schürmann - um mundo de aventuras, de heloisa schürmann, sobre a viagem de dois anos e meio que fizeram em seu veleiro seguindo a rota de fernão de magalhães, português pioneiro em circum-navegar o globo terrestre. aprendi várias coisas, por exemplo, que tem um lago num país da micronésia onde existem águas-vivas inofensivas, que aliá é como se chama a fêmea do elefante e que ovos de avestruz aguentam até 600kg sobre eles. pesquisei bastante sobre o que falavam, os lugares e culturas, e foi legal de conhecer um pouquinho de tanto. heloisa me lembra muito nazira, a professora de química do colégio, e era engraçado imaginar as reações dela dentro das diversas situações relatadas no livro. também pude enxergar na escrita um humorzinho bem parecido com o meu no começo do blog. mencionou várias vezes pigafetta, cronista oficial da esquadra de magalhães, comparando-se a ele e fazendo correspondência entre seu laptop e a pena e tinta dele... na época da viagem apareciam no fantástico. teve uma hora que estavam numa reserva na áfrica do sul e dei risada do que escreveu: Passamos por um Kraal (vila tradicional dos habitantes nativos da área, os Zulus). Os moradores da vila mostraram algumas tradições de sua cultura. O curandeiro da tribo fumava seu comprido cachimbo com um estranho fumo: maconha. 

desde que terminei a lista de leitura da unicamp tenho lido apenas as coisas paradas comigo, e neste mês comecei por um leão em família, de luiz puntel (daquela coleção vagalume). é sobre um menino que encontra um leão que supostamente caiu de um vagão de trem e leva-o pra casa, mais tarde tendo que fugir porque alguém parecia querer matá-lo e não sei o que mais. não gostei nadinha, achei muito besta e ordinário. qualquer pessoa escreveria de um jeito mais agradável.

depois li vito grandam - uma história de vôos, do ziraldo, e me surpreendi demais. é sobre um menino de 17 anos que começa a analisar sua relação com o tio três anos mais velho, victor, e alguns detalhes de sua vida que o conduziram até o primeiro plano da narrativa. ele fala sobre sua escrita enquanto faz isso e achei bastante original, bonito mesmo. vito grandam é como ele escrevera "victor grandão" quando criança, sendo depois o nome usado pelo tio ao voar de asa-delta – e é assim mesmo que meu irmão trocava o aumentativo nas palavras quando tava começando a escrever... gostei de ter lido e esqueci de marcar trechos, mas tudo bem porque é curtinho e posso reler em breve.

li os melhores poemas de mário quintana, que encontrei uma vez no ponto de ônibus em frente ao poli e tá todo destruído (mas com todas as páginas). não gostei muito da poesia de mário quintana não, nada de especial. só anotei alguns melhorzinhos: noturno, presença, sempre, operação alma e envelhecer.

aí li macunaíma, de mário de andrade, e até que me diverti. é bem bizarro e nonsense (vi em algum lugar uma comparação com o guia do mochileiro das galáxias, mas sem a ficção científica), cheio de bagunça e brincadeiras – tanto no sentido que tô acostumada quanto como sinônimo de sexo, usado no livro inteiro. várias vezes macunaíma foge pelos estados do brasil como se corresse por um mapa estendido no chão, coisa que contribui pra não-regionalização da história, presente também na utilização de trocentos nomes de frutas, peixes e tudo quanto é coisa. também tem uns mitos e origens de expressões inventadas (talvez nem tanto), como "vá tomar banho" pros europeus que não estavam acostumados com o compromisso diário de quem vive nos trópicos...

li então o livro do riso e do esquecimento, de milan kundera. É um romance que se refere ao riso e ao esquecimento, que diz respeito ao esquecimento e a Praga, que fala de Praga e anjos. tem várias narrativas sobre situações diversas – um homem envergonhado por seu passado com uma mulher feia perseguido pelo estado repressor; um casal que tem sua liberdade reconquistada após uma visita de mamãe e da amiga entusiasta de 3-ways; duas estudantes que engendram a discussão do riso diabólico e angelical; uma viúva que tenta recuperar cartas e diários abandonados em praga, de onde fugiu; um estudante que se envolve com uma mulher casada do interior, admira poetas nacionais e carrega sua litost (estado atormentador nascido do espetáculo de nossa própria miséria repentinamente descoberta); a retomada da personagem da viúva numa busca de livrar-se do peso que carrega; um homem que encontra harmonia na incompreensão de sua "parceira" e pensa sobre no começo da vida erótica do homem há excitação sem prazer, e no final há prazer sem excitação. tem várias partes onde o autor descreve experiências próprias após a invasão russa da república tcheca, além de falar bastante sobre as coisas que está criando ao escrever. achei bom, meio filosófico como a insustentável leveza do ser (ele até menciona essa ideia na segunda parte de tamina). e percebo que anoto umas coisas que posso querer pensar sobre depois, não necessariamente que me impressionam.

Foi como um despertador que a tirasse de um sonho. E, nesse momento, como ela se abraçasse com Eva (assim como quem dorme, ao ser acordado, se abraça ao travesseiro, para esconder-se da luz perturbadora do dia), Eva perguntou-lhe: Combinado? E ela assentiu, com um gesto que indicava que estava de acordo, e apertou seus lábios contra os de Eva. Sempre a amara, porém, pela primeira vez, amava-a com todos os sentidos, por ela mesma, por seu corpo e por sua pele, e embriagava-se com esse amor carnal como se fosse uma revelação súbita.
Ela quer ter esses diários para que a frágil estrutura dos acontecimentos, tal como a construiu em seu diário, possa receber paredes e tornar-se a casa onde ela poderá morar. Porque, se o edifício vacilante das lembranças cai como uma tenda mal levantada, não vai sobrar nada de Tamina a não ser o presente, esse ponto invisível, esse nada que avança lentamente em direção à morte.
Eles iniciaram uma conversa. O que intrigava Tamina eram as suas perguntas. Não o conteúdo delas, mas o simples fato de ele as fazer. Meu Deus, havia tanto tempo que não lhe perguntavam nada! Tinha a impressão de que havia uma eternidade! Só seu marido lhe fazia perguntas sem cessar, porque o amor é uma interrogação contínua. É, não conheço definição melhor do amor.
(...) No barro úmido sem mato e sem árvores, acossados por baixo pela cor ocre e amarela e, do alto, por nuvens cinza e pesadas, eles caminhavam lado a lado, calçados com botas de borracha que afundavam na lama e deslizavam. Estavam sós no mundo, cheios de angústia, de amor e de inquietação desesperada um pelo outro.
A mulher que ele mais amou no mundo (ele tinha na época trinta anos) lhe dizia (ele ficava quase desesperado quando ouvia isto) que ela só se prendia à vida por um fio muito fino. Sim, ela queria viver, a vida lhe proporcionava uma alegria imensa, mas ela sabia ao mesmo tempo que esse quero viver era tecido com fios de teia de aranha. Bastava tão pouco, tão infinitamente pouco, para se encontrar do outro lado da fronteira além da qual nada mais tinha sentido: o amor, as convicções, a fé, a História. Todo o mistério da vida humana consistia no fato de que ela se desenrola em proximidade imediata e mesmo em contato direto com essa fronteira, que ela não fica separada desta por quilômetros, mas apenas por um milímetro.
O olhar do homem já foi descrito muitas vezes. Ele pousa friamente sobre a mulher, ao que parece, como se a medisse, a pesasse, a avaliasse, a escolhesse, ou seja, como se a transformasse em coisa.
O que não se sabe tão bem é que a mulher não está inteiramente desarmada contra esse olhar. Se ela é transformada em coisa, então ela observa o homem com o olhar de uma coisa. É como se o martelo tivesse de repente olhos e observasse fixamente o pedreiro que se serve dele para fixar um prego. O pedreiro vê o olhar mau do martelo, perde a segurança e dá uma martelada no próprio dedo.
O pedreiro é o senhor do martelo, porém é o martelo que leva vantagem sobre o pedreiro, porque a ferramenta sabe exatamente como deve ser manejada, enquanto aquele que a maneja só pode sabê-lo mais ou menos.
O poder de olhar transforma o martelo em ser vivo, mas o bravo pedreiro tem de sustentar seu olhar insolente e, com a mão firme, transformá-lo novamente em coisa. Dizem que a mulher vive assim um movimento cósmico para cima e para baixo: a elevação da coisa tornada criatura e a queda da criatura tornada coisa.

comecei a ler elogio da loucura também, que felipe me deu, mas tava chatão e acho que vou abandonar.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

lidos/assistidos em novembro

nesse mês terminei de ler o cortiço, de aluísio azevedo, coisa que nem pretendia... mas fiquei olhando a lista de leitura da unicamp, faltando só esse unzinho, e aproveitei que tinha tempo ainda (mentira, foi só uma desculpa pra não estudar sem deixar de estudar). tive que renovar duas vezes o empréstimo na biblioteca, mas não achei tão ruim – nem lembrava de bertoleza se matando com a faca de peixe, que aconteceu literalmente na última página. enfim, aquilo tudo que já ouvi mil vezes: o cortiço sendo o real protagonista, o meio determinando como as pessoas agiam, a galera sendo corrompida, tudo bem escrachado e animalizado. teve sexo lésbico e não lembrava de gláucia contando... tinha outra descrição que me chamou atenção antes mas esqueci de anotar. a seguinte é só um exemplo.

E com um arranco de besta-fera caíram ambos prostrados, arquejando. Ela tinha a boca aberta, a língua fora, os braços duros, os dedos inteiriçados, e o corpo todo a tremer-lhe da cabeça aos pés, continuamente, como se estivesse morrendo; ao passo que ele, de súbito arremessado longe da vida por aquela explosão inesperada dos seus sentidos, deixava-se mergulhar numa embriaguez deliciosa, através da qual o mundo inteiro e todo o seu passado fugiam como sombras fátuas. E, sem consciência de nada que o cercava, nem memória de si próprio, sem olhos, sem tino, sem ouvidos, apenas conservava em todo o seu ser uma impressão bem clara, viva, inextinguível: o atrito daquela carne quente e palpitante, que ele em delírio apertou contra o corpo, e que ele ainda sentia latejar-lhe debaixo das mãos, e que ele continuava a comprimir maquinalmente, como a criança que, já dormindo, afaga ainda as tetas em que matou ao mesmo tempo a fome e a sede com que veio ao mundo.

assisti bem sem atenção um filme ruim que larissa colocou no netflix, chamado sacrifice (2016). bizarrinho.

vi män som hattar kvinnor (2009), porque decidi que vou assistir os filmes que tenho baixados antes de outros... e gostei da versão sueca, me pareceu mais explicada e entendível – apesar de preferir a lisbeth de rooney mara à de noomi rapace (que, inclusive, faz as irmãs gêmeas de um filme que larissa gostou e sobre o qual falei há um tempo atrás).

li alguns livros curtos: um conto de natal (charles dickens), amores diversos (vários autores), olhar de descoberta (vários autores) e histórias para ler sem pressa (mamede mustafa jarouche). o primeiro achei bacana, história conhecidíssima, massa a narrativa de dickens mas nada encantador, sei lá. os dois seguintes são parte da uma coleçãozinha, larissa deixou comigo porque eu queria ler numa época, mas achei bem dispensáveis (o primeiro é de poemas e o outro de contos/crônicas). só gostei mesmo desse poema e o primeiro conto de olhar de descoberta é sobre amizade mas tem muita cara de amor homossexual. o último obtive na feira de troca de livros da biblioteca, peguei por serem histórias árabes... mas esperava mais, achei bem rasas. continuo preferindo malba tahan.

avancei na leitura de família schürmann mas só termino em dezembro, então deixa pra lá.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

assistido em outubro

a única coisa que vi neste mês foi o documentário she's beautiful when she's angry (2014) ao longo de três dias, enquanto fazia pausas pra jantar. gostei de conhecer melhor como se organizou o movimento feminista, as histórias das mulheres por trás dessa luta e as questões levantadas desde então. é incrível ver o quanto devemos a liberdade de hoje a esse movimento e um pouco triste pensar que ainda falta tanta coisa.

ó pra isso, hein

aquilo de supostamente toda mulher ser, no mínimo, bi... hehe

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

lidos em outubro

nesse mês li demais pra compensar o que não li anteriormente, mas não de propósito, na verdade; apenas foi o que funcionava melhor pra me tirar da agonia dos dias.

primeiro terminei de ler sermões de quarta-feira de cinza, do padre antonio vieira, cuja introdução, intitulada a arte de morrer (por alcir pécora), diz assim: Vieira propõe que a verdadeira substância do que vive não é dada pelo tempo "presente", mas pelo "passado" e pelo "futuro". O "presente" seria um estado de aparência e engano entre um estado essencial revelado no "passado" e confirmado no "futuro". (...) O intervalo da vida terrena entre ambos pode ser representado por um movimento circular cujo princípio e cujo fim são idênticos. Afastar-se de um é aproximar-se do mesmo, aparentando outro. A existência circular do homem, diversamente da de Deus que é sempre idêntica ao seu próprio Ser, é ser e não ser: falso avanço, quando faz supor que se distancia e muda em relação a sua essência original, e, entretanto, avanço real e verdadeiro, porque o fim de que se aproxima é efetivamente a essência que a existência oculta. (...) Na "3ª regra" desse "segundo modo", lê-se: "[...] considerar, como se estivesse em artigo de morte, a forma e a medida que então queria ter adotado no modo da eleição presente, e conduzindo-me por ela, aja com inteira determinação". E na 4ª se estabelece que, "[...] cuidando e considerando como estarei no dia do juízo, pensar como então queria ter deliberado acerca da presente coisa, e a conduta que então queria ter tido, e tomá-la agora, para que assim encontre inteiro prazer e gozo". (...) No primeiro sermão, livra-o das penas eternas que fazem justiça às faltas cometidas em vida; no segundo, livra-o do transe terrível da hora última; no terceiro, enfim, livra-o das atribulações sem fim dos negócios do mundo. Por outro lado, em termos positivos, esse terceiro sermão acentua a "quietação" proporcionada pela morte; o segundo ressalta a eficácia dos preparativos para dominar o medo implicado nela; o primeiro torna-a condição do conhecimento dos limites e da destinação da vida humana. achei bacana até, a lógica dada pras coisas, apesar de obviamente não pensar em seguir qualquer coisa religiosa. pra mim essas foram as partes mais relevantes do primeiro sermão (talvez tenha exagerado nas marcações):

O pó levantado, como vão, quis fazer distinções de pó a pó: e porque não pôde distinguir a substância, pôs a diferença nas cores. Porém a morte como vingadora de todos os agravos da natureza a todas essas cores faz da mesma cor, para que não distinga a vaidade, e a fortuna os que fez iguais a razão.
Nas tuas ruínas vês o que foste, nos teus oráculos lês o que hás de ser; e se queres fazer verdadeiro juízo de ti mesma, pelo que foste e pelo que hás de ser, estima o que és.
Se quereis ver o futuro, lede as histórias, e olhai para o passado: se quereis ver o passado, lede as profecias, e olhai para o futuro. E quem quiser ver o presente para onde há de olhar? Não o disse Salomão, mas eu o direi. Digo que olhe juntamente para um e para outro espelho. Olhai para o passado e para o futuro, e vereis o presente. A razão ou consequência é manifesta. Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é o futuro do passado e o mesmo presente é o passado do futuro.
Comecemos de hoje em diante a viver, como quereríamos ter vivido na hora da morte. Vive assim como quiseras ter vivido quando morras. Oh que consolação tão grande será então a nossa, se o fizermos assim! E pelo contrário, que desconsolação tão irremediável, e tão desesperada, se nos deixarmos levar da corrente, quando nos acharmos onde ela nos leva!

do segundo:

Sê desde logo o pó que és, e não temerás depois ser o pó que hás de ser. Sabeis, Senhores, por que tememos o pó que havemos de ser? É porque não queremos ser o pó que somos. Sou pó, e hei de ser pó; pois antes de ser o pó que hei de ser, quero ser o pó que sou. Já que hei de ser pó por força quero ser pó por vontade. Não é melhor que faça desde logo a razão o que depois há de fazer a natureza? Se a natureza me há de resolver em pó, eu quero-me resolver a ser pó; e faça a razão por remédio, o que há de fazer a natureza sem remédio. Não sei se entendestes todos a metáfora? Quer dizer mais claramente, que o remédio único contra a morte é acabar a vida antes de morrer.
Bem creio eu que haverá não poucos que quiseram antes trocados esses termos, e poder nascer duas vezes, para escolher nascimento. Mas Deus que nos fez para a eternidade e não para o tempo, para a verdade, e não para a vaidade, deixou o nascer à natureza, e o morrer à eleição. No nascer, em que todos somos iguais, não pode haver erro, e por isso basta nascer uma vez; no morrer, em que o erro ou acerto importa tudo, e há de durar para sempre, era justo que o homem pudesse morrer duas vezes, para eleger a morte que mais quisesse, e para aprender, morrendo, a saber morrer.
Não morras no tempo que não é teu (...). Mas qual é o tempo meu, em que é bem que morra, e qual o tempo não meu, em que é bem que não morra? O tempo meu é o tempo antes da morte; o tempo não meu é o tempo depois da morte. E guardar ou esperar a morte para o tempo depois da morte, que não é tempo meu, é ignorância, é loucura, é estultícia, como a deste néscio: Stulte; mas antecipar a morte, e morrer antes de se acabar a vida, que é o tempo meu, esse é o prudente, e o sábio, e o bem entendido morrer. (...)
(...) E que quer dizer: eu vivo, mas já não sou eu? (...) Todas as cousas deste mundo são para mim, como para os mortos; nem as sinto, nem me dão cuidado, nem faço mais caso delas, como se não foram; porque se elas ainda são, eu já não sou. Considerai as imunidades dos mortos, e vereis o descanso de que gozam, e os trabalhos de que se livram os que antecipam a morte. (...) Entre os mortos livre. Livre dos cuidados do mundo, porque já está fora do mundo. Livre de emulações e invejas, porque a ninguém faz oposição. Livre de esperanças e temores, porque nenhuma cousa deseja. Livre de contingências e mudanças, porque se isentou da jurisdição da fortuna. Livre dos homens, que é a mais dificultosa liberdade, porque se descativou de si mesmo. Livre, finalmente, de todos os pesares, moléstias e inquietações da vida, porque já é morto.

e do terceiro:

(...) El-rei Ezequias mandou queimar os livros de Salomão, porque o povo recorrendo às virtudes das ervas, em suas enfermidades deixava de acudir a Deus, que é a verdadeira raiz da saúde. Assim o refere Eusébio Cesariense. Mas enquanto duraram os mesmos livros, nem aos enfermos particulares, nem ao mesmo Salomão aproveitou aquela grande ciência médica; até quando? Até que as próprias doenças os sujeitaram ao médico universal, que, sem aforismos, nem receitas, cura em um momento a todas, que é a morte. (...) Morrestes; acabaram-se todas as moléstias e aflições que martirizam um corpo humano; e até o temor da mesma morte se acabou, porque os mortos já não podem morrer.
(...) El-rei Antígono vendo que seu filho pelo ser se ensoberbecia, com que lhe abateria os fumos? (...) Não sabes, filho (lhe disse), que o nosso reino, e o reinar, não é outra cousa que um cativeiro honrado? Os reis são senhores de todos, mas também cativos de todos. A todos mandam como reis, e de todos são julgados como réus. Como o rei é a alma do reino, tem obrigação de viver em todos os seus vassalos, e padecer neles, e com eles quanto eles padecem. Se não padece assim, não é rei; e se padece, que maior martírio? Há-se de matar e morrer, para que eles vivam: há-se de cansar, para que eles descansem; e há de velar, para que eles durmam, sendo mais quieto e sossegado o sono do cavador sobre cortiça que o do rei debaixo de céus de brocado. (...)
(...) Quando eu jazer na sepultura, diz Davi, dormirei e descansarei em paz para isso mesmo, in idipsum. Que quer dizer para isso mesmo? Não se podia significar mais admiravelmente a diferença do sono, do descanso, e da paz dos mortos em comparação dos vivos. Os vivos dormimos, descansamos, e temos paz, mas não para isso mesmo; porque dormimos para acordar, descansamos para tornar a cansar, e temos paz para tornar outra vez à guerra: pelo contrário, os mortos dormem, descansam e estão em paz para isso mesmo: In pace in idipsum dormiam et requiescam. Dormem para isso mesmo: porque dormem, não para acordar, senão para dormir; descansam para isso mesmo; porque descansam, não para tornar a cansar, senão para descansar; e gozam a paz para isso mesmo, porque não gozam a paz para tornar à guerra, senão para lograr perpétua, e quietamente: Requiescat in pace.
(...) Três razões teve Deus para antecipar ou apressar a morte àquele moço: a primeira, porque lhe agradou a sua alma e a quis levar para si: Placita enim erat Deo anima illius: a segunda, porque o quis livrar das ocasiões da maldade: Properavit educere illum de medio iniquitatum: A terceira, porque o quis fortificar: Quare munierit illum Dominus. Aqui reparo. Se Deus lhe tirou a vida para o fortificar, que fortificação é esta, e contra quem? O contra quem são os vícios e pecados: a fortificação é aquela onde a morte defende os que matou, que é a sepultura. O homem vivo, com todas as portas dos sentidos abertas, é como a praça sem fortificação, que pode ser acometida, e entrada por toda a parte: porém o morto, com as mesmas portas cerradas, e cerrado ele dentro da sepultura, não há castelo tão forte, nem fortaleza tão inexpugnável a todo o inimigo; porque nem pode ser vencida do pecado, nem ainda acometida. (...)
(...) Quem vive em Deus, não vive em si; quem vive com Cristo, não vive com o mundo: e quem não vive em si, nem com o mundo, este verdadeiramente vive como morto. O morto tem olhos, e não vê; tem ouvidos, e não ouve; tem língua, e não fala; tem coração, e não deseja: e posto que o morto-vivo pode desejar, falar, ouvir e ver; nem vê o que não é lícito que se veja, nem ouve o que não é lícito que se ouça, nem fala o que não convém que se fale, nem deseja o que não convém que se deseje; porque é morto às paixões e aos apetites; e posto que viva ao sentimento, não vive à sensualidade. Isto é viver em Deus, e não em si. E que é viver com Cristo, e não com o mundo? É estar morto a tudo o que o mundo ama, a tudo o que o mundo estima, a tudo o que o mundo venera, a tudo o que o mundo adora, a tudo o que chama honra, a tudo o que chama interesse, a tudo o que chama boa ou má fortuna; porque tudo o que é próspero, ou adverso, alto ou baixo, precioso ou vil, pesado na balança da morte viva, é vaidade, é fumo, é vento, é sombra, é nada. E a todos os que assim vivem ou viverem, podemos dizer como S. Paulo: Mortui estis.

em seguida li o bem amado, de dias gomes, que achei engraçado e bem construído: odorico paraguaçu era um coronel bastante influente na cidade baiana de sucupira, bem pacata e pacífica, e aproveita o ensejo da morte de um velho pescador para discursar a respeito da vergonha que era precisar deslocar os mortos para a cidade vizinha. ele promete construir um cemitério se fosse eleito como prefeito e, quando consegue, faz uso de verbas destinadas a outras obras para construir o campo-santo. no entanto, passa-se um ano e nenhuma morte – a frustração de odorico faz com que ele praticamente encomende um enfermo, primo de uma moradora, mas o sujeito acaba melhorando com os ares locais e até se enamora com a moça. então é chamado um "fazedor de defuntos", cangaceiro natural de sucupira, que recebe a posição de delegado com a esperança de criar conflitos – o que também não acontece, uma vez que zeca diabo tem a intenção de se regenerar e aprende leis com o jornalista que faz oposição ao prefeito, neco pereira. então odorico arma mais uma situação: dá trela ao ciúme do marido de dulcineia, sua secretaria e amante, mas joga-o pra cima do jornalista e oferece até um revólver; a mulher é morta e o homem preso, proibido de conversar com a imprensa. quando a necrópole parece praticamente inaugurada, no velório de dulcineia, chega um tio com o testamento do pai dela, declarando sua vontade em ter toda a família enterrada na cidade de jaguatirica. odorico surta, se nega a obedecer, faz guarda ao caixão da morta, demite o delegado num acesso e recebe a notícia de que dirceu (marido da finada) contou tudo a neco – zeca acaba por matar o prefeito, pois traidor não merece viver, tanto mais traidor de moça donzela. a história termina, ironicamente, com neco pereira fazendo discurso no enterro de odorico, que acaba por ser o primeiro hóspede de seu "sonho".

então li sonetos de camões, de (óbvio) luís de camões, apesar de apenas 14 dos 55 contidos no livro serem pedidos pela unicamp (e mais outros 6 que tive que ler na internet). além de sonetos o livro contém redondilhas e mais uns negócios, e os elementos que permeiam as obras são os seguintes: instabilidade dos sentimentos e da realidade; ideal de perfeição física e moral; desconcerto do mundo; amor platônico; perda da amada; a própria atividade poética. achei massa, gosto de camões. alguns preferidos:

Tanto de meu estado me acho incerto
que, em vivo ardor, tremendo estou de frio,
sem causa, juntamente choro e rio;
o mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando;
num'hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar um'hora.
Se me pergunta alguém porque assi ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.
–
Que de tanta estranheza sois ao mundo,
que não é de estranhar, Dama excelente,
que quem vos fez fizesse céu e estrelas.
–
Vossos olhos, Senhora, que competem
co Sol em fermosura e claridade,
enchem os meus de tal suavidade
que em lágrimas, de vê-los, se derretem.
Meus sentidos vencidos se sometem
assi cegos a tanta divindade
e da triste prisão, da escuridade,
cheios de medo, por fugir remetem.
–
Quando o sol encoberto vai mostrando
ao mundo a luz quieta e duvidosa,
ao longo de ũa praia deleitosa,
vou na minha inimiga imaginando.
Aqui a vi os cabelos concertando;
ali, co a mão na face, tão fermosa;
aqui, falando alegre, ali cuidosa;
agora estando queda, agora andando.
Aqui esteve sentada, ali me viu,
erguendo aqueles olhos tão isentos;
aqui movida um pouco, ali segura;
aqui se entristeceu, ali se riu...
enfim, nestes cansados pensamentos,
passo esta vida vã, que sempre dura.

também acabei lendo sagarana (de guimarães rosa) inteiro, apesar de só o último conto importar agora. prossegui a leitura com duelo, que conta a história de turíbio todo e cassiano gomes – este o amante da esposa daquele, descoberto num retorno da pesca adiantado. turíbio é bom atirador e vai até a casa de cassiano para matá-lo, mas acaba que o morto é levindo gomes, irmão do outro, e nisso turíbio sai da cidadezinha e se inicia uma perseguição por entre os povoados da região, durando meses. cassiano abandona a causa, relembrado de seu problema cardíaco, e turíbio passa para terras paulistas e lá fica; mas, quando o médico anuncia que cassiano tem poucos meses de vida, ele se despede de todos com o intuito de pegar o inimigo antes de partir. não vai muito longe, piorando e se assentando num povoadinho, onde conhece um homem, de apelido vinte-e-um, que se torna seu compadre e recebe seu dinheiro para ajudar a família; cassiano morre e deixa tudo para ele. sabendo da notícia turíbio retorna e acaba dividindo estrada com vinte-e-um, que o mata: Peço perdão a Deus e ao senhor, mas não tem outro jeito, porque eu prometi ao meu compadre Cassiano, lá no Mosquito, na horinha mesma d'ele fechar os olhos...

o segundo conto, chamado minha gente, trata desse homem que vai visitar a fazenda de seu tio e acaba reacendendo a paixão por uma prima que já namorou, maria irma; ela o provoca e faz rodeios nas falas mas nunca cede aos seus apelos. ele toma conhecimento de um rapaz que a emprestava livros, ramiro, mas maria irma anuncia que ele era noivo de uma amiga, armanda. o primo, enciumado, tenta traçar um plano para atraí-la e visita outra fazenda, onde mora outra namorada de brinquedo de outros tempos – coisa que não afeta nada, o que faz com que ele vá embora pra outra cidade, triste. mais tarde recebe uma carta do tio, com notícias de que seu partido ganhara as eleições, e outra de um amigo louco por xadrez, terminando uma partida começada na viagem. resolve revisitar os parentes, querendo mostrar à prima que não gostava mais dela, e é então que ela o apresenta a armanda, de quem fica noivo, enquanto maria irma fica com ramiro: tudo se desdobrando conforme os planos da moça. me chamou atenção pelos pedaços que enfiei na minha vidinha...

Dormi mal, acordei de saudades, corri para junto de Maria Irma.
— Que tal, a Aldinha? — perguntou.
— Que tal você e eu, Maria Irma?
(...) E desesperava, ao sentir que eu acumulara comigo tanto amor que estava inútil, sem ter onde pousar.
Mais sofri, todavia, porque lua havia, uma lua onde cabiam todos os devaneios e em que podia beber qualquer imaginação.
— Prefiro caminhar. Quer? — perguntou-me Armanda.
Quis. Andamos. Calados. Crescia em mim uma coisa definitiva, assim com a impressão de já conhecê-la, desde muito, muito tempo. Nossas mãos se encontraram, de repente, e eu senti que ela também estremeceu.

depois vem são marcos, que é sobre esse homem muito crente em superstições, mas não em feitiçaria. ele tinha o costume de, todo domingo, visitar uma mata riquíssima em fauna e flora, e no caminho insultava e caçoava do negro joão mangolô, mestre das artes de despacho, atraso, telequinese, vidro moído, vuduísmo, amarramento e desamarração de seu povoado. numa dessas viagens ele encontra um colega que acaba contando uma história envolvendo a oração de são marcos, supostamente muito perigosa, mas com a qual o narrador até brinca. acontece que, subitamente, ele perde a visão enquanto descansa no mato – se machuca muito, quase se perde, mas lembra da reza-brava e é tomado por uma energia ao proferi-la. ele sai em disparada para a casa do feiticeiro, se atraca com ele e quase o esganava quando voltou a enxergar, só pra ver que era trabalho de mangolô: Não quis matar, não quis ofender... Amarrei só esta tirinha de pano preto nas vistas do retrato, p'ra Sinhô passar uns tempos sem poder enxergar... Olho que deve de ficar fechado, p'ra não precisar de ver negro feio... o narrador estende a bandeira branca, alegando que tem santo bom, e propõe que não tivessem briga, indo embora depois de deixar uma nota de dez mil-réis.

o próximo conto é corpo fechado, que começa com um tal de manuel fulô contando sobre os malfeitores do povoado para o doutor, seu amigo. ele descobre que fulô está noivo, coisa que não parecia de grande importância para ele – cuja maior paixão é sua mula, beija-flor –, mas targino, o sujeito mais intimidador do momento, anuncia que deseja passar uma noite com sua noiva antes do casamento e que, se fulô tivesse algo contra, o mataria. manuel fica desconjuntado mas acaba recebendo uma proposta do feiticeiro antonico: ele fecharia/blindaria seu corpo em troca da mula. os dois tinham um impasse pois fulô queria a sela mexicana de antonico, que queria a mula de fulô; o trato é feito, não obstante, e os tiros de targino não fazem nada contra manuel, que o mata com um canivete e passa a representar a figura de valentão no lugar dele.

depois vem conversa de bois, contanto um caso, a partir do relato de uma irara, sobre esse carro de bois levando rapadura e um defunto para um arraial. seu guia é um menino, filho do defunto (que quando vivo era doente e inválido) e o condutor é uma espécie de padrasto dele (pois é o companheiro de sua mãe), mas muito cruel e insensível com a criança, que caminha triste. os bois têm consciência e conversam entre si sobre sua vida e o que percebem dos homens, chegando num ponto em que seus pensamentos se misturam com os do menino e incitam vingança – eles fazem com que o menino grite, assustando os animais, que fazem pular o carro e derrubam o carreiro, que é atropelado pela roda. apesar do desespero do menino o resto do trajeto se torna mais leve com dois defuntos.

— Podemos pensar como o homem e como os bois. Mas é melhor não pensar como o homem...
— É porque temos de viver perto do homem, temos de trabalhar... Como os homens... Por que é que tivemos de aprender a pensar?...
— É engraçado: podemos espiar os homens, os bois outros...
— Pior, pior... Começamos a olhar o medo... o medo grande... e a pressa... O medo é uma pressa que vem de todos os lados, uma pressa sem caminho... É ruim ser boi-de-carro. É ruim viver perto dos homens... As coisas ruins são do homem: tristeza, fome, calor – tudo, pensando, é pior...
— Mas, pensar no capinzal, na água fresca, no sono à sombra, é bom... É melhor do que comer sem pensar. Quando voltarmos, de noite, no pasto, ainda haverá boas touceiras do roxo-miúdo, que não secaram... E mesmo o catingueiro-branco está com as moitas só comidas a meia altura... É bonito poder pensar, mas só nas coisas bonitas...
— Que é que está fazendo o carro?
— O carro vem andando, sempre atrás de nós.
— Onde está o homem-do-pau-comprido?
— O homem-do-pau-comprido-com-o-marimbondo-na-ponta está trepado no chifre do carro...
— E o bezerro-de-homem-que-caminha-sempre-na-frente-dos-bois?
— O bezerro-de-homem-que-caminha-adiante vai caminhando devagar... Ele está babando água dos olhos...

e, por último, a hora e a vez de augusto matraga (que foi uma releitura) – o protagonista é esse bandoleiro que não quer saber de trabalhar e só faz maltratar os outros e desprezar a esposa e a filha, até que sua família vai morar em outro sítio e seus homens passam pro lado de outro major. quando tenta confrontá-los é violentado até quase morrer, salvo por um casal de negros que morava ao pé do barranco do qual ele se jogou. envergonhado e arrependido, nhô augusto decide se redimir e parte para outro povoado com os velhos, assim que se recupera, e lá passa a trabalhar dia e noite para todos, se lembrando sempre que vai para o céu nem que seja a porrete. numa ocasião surge um bando de jagunços no local e augusto os hospeda e se amiga com o líder, que percebe que matraga nem sempre fora daquele jeito e o convida para se juntar ao grupo. ele recusa mas, tempos mais tarde, parte com um jumento para outro canto e topa com o bando, porém se coloca contra o jagunço para defender uma família. eles lutam até a morte, terminando contentes e amigos assim mesmo, e augusto matraga abençoa sua filha e parte conformado de que este fora o desígnio divino para ele.

E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso acontecido, não senhor.
E isso foi pensado muito ligeiro, porque já ele enrolava a palha, com uma pressa medonha, como se não tivesse curtido tantos anos de abstenção. Tirou tragadas, soltou muitas fumaças, e sentiu o corpo se desmanchar, dando na fraqueza, mas com uma tremura gostosa, que vinha até ao mais dentro, parecendo que a gente ia virar uma chuvinha fina.
A lâmina de Nhô Augusto talhara de baixo para cima, do púbis à boca-do-estômago, e um mundo de cobras sangrentas saltou para o ar livre, enquanto seu Joãozinho Bem-Bem caía ajoelhado, recolhendo os seus recheios nas mãos.

eu gostei bastante dos contos e do estilo de guimarães rosa, quero ler mais obras dele no futuro. não achei a linguagem tão difícil quanto como ouvi dizerem, apenas bastante diversa e dinâmica (são marcos foi o pior nesse aspecto pois tinha muita descrição de árvores e animais). meus preferidos foram sarapalha e conversa de bois, e o que menos gostei foi a volta do marido pródigo. (vídeo massa sobre tudo aqui.)

em seguida terminei poemas negros, de jorge de lima, que não me agradou por inteiro mas foi uma leitura tranquila. vê-se a homenagem feita às crenças e mitologias negras, retratando grande sincretismo religioso por meio de um "africanismo de adoção", além da denúncia da desigualdade social e dos problemas do povo. um que achei muito forte é intitulado Foi mudando, mudando:

Tempos e tempos passarram
por sobre teu ser.
Da era cristã de 1500
até estes tempos severos de hoje,
quem foi que formou de novo teu ventre,
teus olhos, tua alma?
Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão?
Os modos de rir, o jeito de andar,
pele,
gozo,
coração...
Negro, índio ou cristão?
Quem foi que te deu esta sabedoria,
mais dengo e alvura,
cabelo escorrido, tristeza do mundo,
desgosto da vida, orgulho de branco, algemas, resgates, alforrias?
Foi negro, foi índio ou foi cristão?
Quem foi que mudou teu leite,
teu sangue, teus pés,
teu modo de amar,
teus santos, teus ódios,
teu fogo,
teu suor,
tua espuma,
tua saliva, teus abraços, teus suspiros, tuas comidas,
tua língua?
Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão?

Olá! Negro também é muito bom e mais popular um pouco (abaixo um trecho).

Apanhavas com vontade de cantar,
choravas com vontade de sorrir,
com vontade de fazer mandinga para o branco ficar bom,
para o chicote doer menos,
para o dia acabar e negro dormir!
Não basta iluminares hoje as noites dos brancos com teus jazzes,
com tuas danças, com tuas gargalhadas!
Olá, Negro! O dia está nascendo!
O dia está nascendo ou será a tua gargalhada que vem vindo?

agora um trecho aleatório...

Eu sou um corpo distraído.
Bóiam os meus olhos pelas superfícies.
Mas os meus olhos correm mais perigo
do que se andassem em acrobacias contemplativas
pulando no céu alto, perto das estrelas.

...e pedaços de Invenção de Orfeu, aparentemente a obra-prima do autor:

Sonâmbulas as flores
conservam pelo dia
as noites.
Os ouvidos das pétalas,
e seus lábios de olor
recordam-se
transidos e orvalhados,
indiferentes, frios,
tão frios.
Jamais os dias quentes
poderão aquecer-lhes
os seus sangues noturnos
tão frios.
Agora nos jardins
espalham
nos silêncios intactos
suas presenças frias,
tão frias.
São beijadas, porém
volvidas
à lembrança das noites
permanecem veladas
e frias.
–
Não há na vida amor que em vão termine
nem vão esquecimento que o destine.
–
Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.
–
A estepe e a noite de deitaram juntas,
paralelas as asas sobre as asas,
ambas com as solidões, ambas defuntas,
e entre elas, sós, ardentes como brasas,
espreitando à direita e à esquerda o estrito
espaço ínfimo que entre as duas corre,
correm cruciados como o imenso grito,
imenso grito mudo de quem morre,
os olhos renegados de quem está
esperando, esperando. Que esperando?
Entre a estepe e a noite olham olhos, rente
às trevas opressoras, olhos que a
estepe e a noite juntas se estreitando
apagam misericordiosamente.

esse último se chama Poemas da vicissitude e é o canto V (achei bonito, identifico coisas). tem mais coisa que salvei por ser mais romântico (ou não)...





certo. não vou acabar mais nada esse mês então é isso.