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terça-feira, 30 de junho de 2020

lidos (5) e assistidos (8) em junho

morella (edgar allan poe)
o cara que narra, claro, e fala dessa mulher com quem se casou. nada de amor ou paixão, mas a erudição dela o impressionava. ela tinha um fascínio pelo místico, literatura alemã antiga e sei lá mais o quê, uns temas de identidade. e o cara passa a odiá-la, fica na esperança de que ela morra, e quando finalmente tá pra morrer ela diz que vai viver através da criança deles. e essa criança nasce assim que ela morre, e cresce prematuramente com uma mente afiada que nem a mãe, uma maturidade e seriedade que não combinam com a idade, e o cara nunca dá nome pra menina. até que ele vai batizá-la e pensa em mil nomes mas o que sai da boca é "morella", e assim ela morre. uns negócios meio perturbadores parecendo possessão. gostei, curto esse, mas teve esse thriller e horror massa.

elektra (2005)
claro que iam usar algum misticismo oriental pra reviver elektra e ensinar umas lutas a ela. coisa de não precisar ver pra enxergar, se mover mais rápido que a luz e umas baboseiras parecidas. mas o líder manda ela embora, e então ela começa a trabalhar como assassina de aluguel, porque "é nisso que eu sou boa". mandam ela pra uma casona numa ilha e lá ela conhece uma menina de 13 anos, abby, e o pai dela, mark. logo em seguida recebe os detalhes do trabalho da vez: matar os dois. claro que ela não consegue e entra num negócio de ajudá-los a fugir, e tem os caras do mal que caminham esquisito e sorriem que nem bestas. um deles tem tatuagens de bichos e os bichos saem dele pra vigiar ou atacar os outros. outra é uma mulher que tira a vida das coisas, inimiga da greta thunberg, e ela beija (!) elektra pra imobilizá-la. uma coisa de elektra se ver na menina abby, que na real tá sendo perseguida porque é um prodígio e o lado ruim a quer, coisa das mães terem sido morta quando eram pequenas. uma luta besta num labirinto, o cara ruim jogado no poço e elektra revivendo abby. mas vai embora no final porque tem que ter a tensão de "vamos nos encontrar de novo". muuuuito ruim, hein. cansada desse tipo de filme há muito tempo.

mad max 2: the road warrior (1982)
muitíssimo melhor que o primeiro. as coisas "ruins" é engraçado, dá pra ver que é o que era possível fazer na época. tem aquele ator com a cara compridona que faz wo die grüne ameisen trüamen, ele tem um veículozinho que voa. max passa por uma armadilha dele e o acorrenta, leva ele junto. max tem um cachorro; tem uma hora que come uma lata de comida patêzuda e dá o resto pro cão, e o cara tenta pegar os restos. foi acorrentado porque dizia que tinha uma fortaleza de petróleo ali por perto, e max chega lá resgatando um homem que era um deles. umas pessoas vestidas de branco, loiras... do outro lado tem os doidos da estrada, um de moicano e sobrancelha feita com um loirinho na garupa da moto, bem bestão. estupram a mulher que tava com o cara e a matam. o líderzão desses, mascarado musculoso seminu, faz uma oferta de deixarem eles em paz se cederem a fortaleza. tem uma criança dentre os "bons" que é toda guerreira, usa um bumerangue assassino (mata o loirinho do cara feio!), só responde grunhindo. muito videogame esses personagens. dão gasolina pra max ir buscar um caminhão que ele diz ter visto na estrada e que daria pra eles levarem a bomba de gasolina que têm, e volta todo estrupiado mas consegue. ia se mandar mas o atacam de novo, matam o cachorro, o carro explode. volta rastejando pra fortaleza e se junta, quer pilotar o caminhão ainda, pra despistar enquanto os outros se espalham e vão correndo. querem ir pra um lugar que acham que é um paraíso, ao norte. bem boa a perseguição e luta na estrada, vi bastante coisa do mad max de 2015 já aqui. no fim tinha areia dentro, só, e o narrador era a criança fãzinha dele. o da cara comprida não morre nunca, o de moicano fica numa coleira de corrente de castigo... gosto dos carros que são só esqueletos.

speak (2004)
kristen stewart com 14 anos de idade sendo personagem principal, melinda. já tinha assistido mas nunca fiz review, lembrava bem mas chorei igual. ela tinha três amigas mas depois de chamar a polícia numa festa durante as férias se dissolveram. fez isso porque um garoto mais velho fica com ela e a estupra no carro dele. o pior é que uma das amigas tá namorando ele agora. ela fala francês e ajuda uma estudante intercambista, tá se preparando pra ir estudar na frança. as outras não aparecem tanto, mas uma chega a ser ok com ela na aula de artes. o professor é até legal, dá um tema pra cada aluno trabalhar ao longo do semestre, ir desenvolvendo arte sobre. o de melinda é "árvore". tem uma cena boa dele revoltado com a escola por cortarem o orçamento pras artes e o terem repreendido por dar muitas notas altas. loirinha tagarela no ônibus que quer ser popular e dá um fora de amizade em melinda por ela ser muito deprimida; professora de inglês de cabelo desgrenhado e toda doida que melinda vai meio que virando; professor de história fascista do caralho, "mr. neck" ainda por cima. fica implicando com melinda, pede uma redação pra ela recuperar as notas baixas que ele tá dando pra ela mas a reprime quando em vez de apresentar oralmente ela pede pro colega falar sobre o direito de não fazer isso e distribui cópias pra sala. sobre as sufragistas... a legenda era péssima, toda hora errando coisa, deixaram "sufrajettes" véi. ela constrói umas artes legais, tipo um bicho com os ossos do peru de ação de graças rodeado por garfos de plástico, uma tela com uma árvore atingida por um raio. no final mostra pro professor, que vai sair da escola, a salinha escondida que apropriou e encheu de coisa, várias árvores. ele chora! eventualmente ela contou pra amiga sobre o estuprador, ela não acredita de início, o cara a confronta no quartinho e ela o machuca com spray de pimenta ou sei lá. várias meninas abrem a porta e o pressionam. termina com ela finalmente falando pra mãe o que aconteceu. pais meio bestinhas os dela, a mãe nem se liga nela. gosto do filme. parece que é independente, adaptação de livro.

pétala (olívia pilar)
duas meninas bissexuais que estão juntas há 2 anos, sem serem exclusivas nem nomear propriamente o que são. bruna se prepara pra dizer à pétala que quer dar um passo adiante, e quer se desculpar por definir as coisas no começo (na única vez que pétala viu os pais dela, bruna a apresentou como uma amiga). pétala diz que por ter ficado em silêncio consentiu, também decidiu, e que ela não devia se responsabilizar tanto pelas coisas. se encontram num café de esquina em belo horizonte, rua movimentada, lugar onde se beijaram pela primeira vez. pétala tem uma situação mais delicada com os pais, bruna conversa com o irmão mais novo dj... a primeira faz arquitetura e a outra química, pétala muito segura de si e bruna mais incerta e receosa, se segurando no que conhece, pedindo o mesmo café sempre. conto curtinho, vai intercalando a cena no café e as lembranças de bruna. não sou muito de romance em livro mesmo, viu, mas não foi ruim; a escrita é boa. representatividade negra e lgbt.

cloudburst (2011)
não esperava que fosse ser tão levinho e engraçado! um casal de lésbicas de uns 80 anos, cabelinhos brancos e tudo: uma gordinha cega (dotty) e a outra butchzinha marrenta e pervertida (stella). primeiro dotty cai da cama enquanto stella brinca provocando ela com um vibrador, e volta do hospital com uma prescrição de repouso por várias semanas. a neta de dotty aparece pedindo pra ela assinar um papel, dizendo que é tipo um atestado de que stella não tinha sido responsável por machucá-la, mas no final a gente fica sabendo que era um negócio passando as coisas pro nome dela... a neta é tão besta que nem admite pra si mesma que a avó tem um relacionamento lésbico, apesar delas estarem juntas há 31 anos já. stella briga com ela mas acaba que levam dotty pra um asilo, do qual stella a resgata muito artimanhosamente, se passando por paciente e tudo. descobrem de alguma forma que a neta fez aqueles anúncios de procurados pra elas, então decidem ir pro canadá pra se casarem, e no caminho dão carona pra um tal de prentice, jovenzito dançarino tentando visitar a mãe doente. começam essa roadtrip toda torta, stella sempre muito arrogante e arrumando problema, prentice cuidando delas, dotty a voz da razão. muito engraçado quando eles se dividem pra "despistar" (coisa de stella) e têm que passar na fronteira do canadá; com dotty dá tudo certo mas com stella vira uma confusão de revista corporal completa. a piada que ela faz depois, quando prentice diz que quer "leave it all behind" ahsuhus véi. única coisa ruim, mas que é claramente apelação de filme de humor, é dotty deitando na cama com o pai de prentice pelado e o pinto dele indo parar na cara dela de um jeito nada a ver. e ela caga no bidê dele kkkk no final prentice faz um discurso legal sobre o amor delas, mas a neta interrompe o casamento e tem que ser casadas às pressas por prentice quando dotty sente que vai morrer. e morre :( poxa. mas curti o filme, surpreendente, tava precisando. vi talita e eu em dotty e stella no começo, afinal... somos um casal de velhas, é isso.

ralph breaks the internet (2018)
ralph e venellope amiguinhos etc, bebendo num bar até, ok. chega uma tomada nova no negócio e é wi-fi, mas o bichinho que controla tudo passa uma fita pra ninguém entrar. só que aí uma menina tá jogando o jogo de venellope e quebra o volantinho tentando assumir o controle da personagem dela, que tava indo por um atalho novo que ralph fez (porque venellope disse que já conhecia tudo no jogo, etc e tal). e aí as crianças usam os iphones pra buscar outro na internet, mas só tem um, no ebay (que específico)... e o dono do fliperama não pode comprar porque é muito caro, então claro que ralph e venellope se metem no wi-fi pra buscarem o negócio eles mesmos. legalzinho como construíram a internet: cada pessoa tem um avatarzinho de cabeça quadrada que fica andando por aí e jogando coraçõezinhos nas coisas que dá pra curtir. nem sei como é o ebay mas quando acham o volante funciona que nem um leilão, e eles se divertindo em falar números cada vez maiores acabam comprando o negócio por $24.001,00. primeiro "clicam" num anúncio de "ganhe dinheiro jogando!" e vão pro site caindo aos pedaços do brother, e precisam pegar o carro de uma tal shank, de um jogo, pra resgatar o dinheiro. quase conseguem, venellope pilotando muito, e no fim shank os orienta a ir pra uma tal de yesss, de uma variação do youtube. aliás, MUITOS anúncios hein, trocentas marcas de sites aparecendo, mas pra yesss talvez seria caro demais trabalhar com uma plataforma real como o youtube. ralph faz (mentirosamente) um bocadão de vídeos virais pra ganhar curtidas e conseguir dinheiro, mas venellope ficou encantada com o mundo de shank e quer voltar lá, mas não tem coragem de contar pra ele. conflitos, um vírus pra estragar o jogo e trazer ela de volta trapaceiramente, destruição na internet e um apaziguamento mentiroso depois, e ralph volta pro fliperama tendo comprado o volante, enquanto venellope fica no jogo de shank, felizes. lesbian energy essa shank, hein. muito bom o movimento aleatório de arregaçar as mangas que ela faz enquanto conversa com venellope!

berenice (edgar allan poe)
não entendi nada, ainda mais com talita lendo e eu deitada com sono. berenice era uma prima do cara, antes toda iluminada e descomplicada, enérgica, enquanto ele era esquisito e indisposto. ela adoece gravemente e ele oferece pra casar com ela, por algum motivo, e claro que cria uma obsessão pelos dentes da mulher. ela morre, supostamente, mas depois vão atrás dele na biblioteca e vêem uma pá num canto e ele todo sujo, e os dentes de berenice numa caixa... sem ele ter se dado conta. e ainda tava viva, a coitada. creepy.

a streetcar named desire (1951)
blanche vai visitar a irmã stella onde ela mora, em new orleans. parece que faz tempo que elas não se vêem, algo sobre stella ter deixado a casa dos pais de um jeito meio rancoroso, "abandono". blanche era professora de inglês e aparece dizendo que teve que se afastar no meio do ano letivo por causa dos nervos dela, porque não tá bem e precisa de companhia. mais tarde revela que perdeu a propriedade da família, que precisou do dinheiro pra pagar pelos funerais e enterros dos pais e talvez outros familiares que morreram. blanche é muito teatral e mórbida, um pouco delirante, sente a morte se aproximando dela. uma senhora mexicana oferecendo flores aparece duas vezes, e ela foge dizendo "agora não", assustada. o marido de stella é stanley kowalski, marlon brando (que voz feia, aliás), um idiota nojento e violento que quebra tudo e grita com elas. mas sempre stella volta pra ele abraçando e chorando depois de dois minutos. e ainda tá grávida... ele não confia em blanche, exige que ela mostre papeis comprovando a perda da propriedade, se preocupa porque por um tal código napoleônico "tudo que pertence à esposa pertence ao marido e vice-versa". um dos amigos com quem stanley joga pôquer é mitch, o mais decente, que se aborrece com as atitudes dele e enxerga blanche como especial. começam um romancinho, mas depois de um tempo stanley descobre umas coisas dela e conta pra ele, o que estraga tudo. blanche ficou um tempo recebendo gente num hotel antes de vir pra casa deles, ganhou má-fama na cidade e tudo, mas quando confrontada ela diz que era pra se sentir viva, menos solitária, já que a juventude se esvaía. quando era jovem teve um esposo que se matou, também, depois dela ter dito que perdera o respeito por ele. gosto de como a voz dela engrossa e ela fica sombria quando fala sobre o que teve que fazer no passado, música acompanhando, parecia coisa de edgar allan poe. numa discussão stanley a agride e ela fica pior ainda nas ilusões, até que no final chamam gente de um hospício ou sei lá pra levá-la embora. a coisa do "bonde chamado desejo" é porque blanche tem que pegar ele pra chegar na casa de stella, e no final ela fala sobre a morte ser o oposto do desejo. muitos problemas de machismo e preconceitos, mas achei mais interessante do que esperava. essa coisa dos anos 50 de atuações dramáticas, o jeito de falar sulista e cantado de blanche... ela é vivien leigh, afinal, scarlett o'hara de e o vento levou. acabei pesquisando sobre pra saber mais do tal racismo que não percebi quando carol me emprestou o filme, uma década atrás, dizendo o quanto amava a história.

el abrazo de la serpiente (2015)
duas histórias: a de theodor von martius, um etnógrafo alemão que esteve na amazônia por muito tempo, e a de richard schultes, décadas mais tarde, indo atrás de uma flor sagrada orientado pelos trabalhos do outro. os dois pedem ajuda de karamakate, um indígena cujo povo foi todo dizimado, e que vive isolado. outros povos o chamam de "movedor de mundos" ou algo assim. theodor precisa dele pra chegar onde supostamente o povo dele ainda vive, pra usar a tal flor pra curar a enfermidade que contraiu. o cara já tem a companhia de outro indígena, manduca, que entende que a única chance que os indígenas têm de continuar existindo é educando os brancos, os aceitando e falando com eles. karamakate não gosta muito deles mas acaba ajudando, caçoando do branco de vez em quando. não esperava ouvir alemão nesse filme, que aliás tem muitas línguas! os três passam pela aldeia de uns amigos de theodor, que pegam a bússola dele, ao que ele reage mal (é rude com um menino e fica bravo, dizendo que se usarem ela vão perder o conhecimento que tem sobre localização espacial... mas acho que não seria tão definitivo assim, né, se é uma bússola só e nem sabem como utilizar. deve ser mais o fascínio por uma coisa curiosa, mesmo. aliás, que incrível isso de saber se orientar pelas estrelas, saber quando as águas pedem pra remar o barco, conhecer os rios e a floresta... que riqueza). passam por um lugar onde um jesuíta catequiza rigorosamente indígenas crianças (ele os proíbe de falar suas próprias línguas e dá nomes espanhóis a eles), e acabam libertando eles e fugindo. no fim a comunidade de karamakate foi corrompida, cultivam a tal planta em vez de deixá-la nascer, estão viciados em coisas de branco. então ele destrói a planta toda e abandona theodor, que aparentemente morre, e seus estudos são mandados pra alemanha por manduca. depois viram um livro, e é o que richard usa pra buscar a flor, e nessa pede ajuda de karamakate mais velho, esquecido. ele diz ter se tornado um chullachaqui, que é esse duplo que toda pessoa tem, mas é vazio e oco, sem memória. quando jovem disse a theodor que a foto que ele tinha tirado dele era seu chullachaqui. interessante isso. depois com richard chegam a parar no mesmo lugar onde o jesuíta tava, e dessa vez tá muito pior: um português louco, canibal e estuprador, comandando um bocado de seguidores indígenas num delírio coletivo. e ao longo da jornada repetida karamakate vai recobrando as lembranças, mas dessa vez leva o cara à última flor, e a prepara pra ele consumir, apesar de ter sido ameaçado de morte. diz ser essa a missão dele, e que já se encontraram antes, não só há 40 anos mas desde o começo dos tempos, como se aquela fosse uma segunda chance. única cena colorida do filme é a viagem do cara, umas visões de padrões de desenho, karamakate jovem explodindo em luz. acaba com richard acordando sozinho. achei muito bom, esse jeito de falar da questão indígena, a narração. li sobre e o diretor diz ter dado total liberdade pros indígenas participarem atrás das câmeras também, na construção da história e do jeito de contá-la, que pediram licença pra floresta e seguiram o funcionamento de lá, e que por isso correu tudo certo e não tiveram acidentes ou problemas. que bonito. quero que a casa do mato veja, quero manter comigo e rever, revisitar.

born with it (2015)
quis assistir depois de ver @shimabukkake compartilhando que teria exibição desse filme seguido de discussão com uma etnóloga negra e okinawana. perdi a conexão de internet e não consegui ver a conversa toda quando voltou, porque tiraram do ar, mas aparentemente vão colocar de novo na próxima semana. o filme é um curta, na verdade, de 17 minutos, e é sobre esse menino de 10 anos chamado keisuke que entra numa escola nova em algum lugar no interior do japão. a mãe é japonesa mas o pai era negro (ele diz que morreu), e quando ele chega se apresentando pra classe as crianças se surpreendem por ele falar japonês. "nihonjin dakara desu", né, mas o preconceito é tanto que chegam a espalhar que ele tem aids e por isso tem a pele escura. um menininho dá atenção pra ele e brincam juntos, mas keisuke se machuca; depois eles acham sangue no outro, bem após ele ter dito que aids só passava pelo sangue e que ele não precisava usar máscara. o pior é que eles vão pesquisar na internet sobre a doença e só tem foto de pessoas negras, africanas, onde a aids dizimou feio. keisuke foge, conversa com a mãe mas acha que ela não entende por ser branca, vão ao médico pra conferir os exames dele. a mãe conta o que o pai costumava dizer e o orienta a lutar as próprias batalhas, e termina com ele voltando pra escola e indo encarar uma classe de alunos chocados na janela. uma representação forte essa, da infância, né... o próprio médico diz que no interior era mais punk (antes eles moravam em tóquio). acho que devia ter uma conversa partindo dos representantes da escola, ainda mais com uma acusação tão grave quando a que fizeram. o diretor do curta é um americano de pais nigerianos que mora no japão há muitos anos, e a discussão tinha um cantor-compositor negro-japonês e um autor e ativista, além da etnóloga. o cantor falou que era muito comum as pessoas se surpreenderem ao vê-lo e que ele não se importava, porque sempre usava isso como oportunidade de conscientização. massa. dois fenótipos fortes juntos, muito marcante, afinal. muito importante de se trabalhar, também.

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a primeira vez de natan & lino (henri b. neto)
ok, não gosto mesmo de ya. mas nesse vi muito mais defeitos que em pétala, por exemplo. a história é contada em formato de diário, com lino escrevendo, e marquei várias palavras que não tinham nada a ver, eram muito literárias ou sei lá, ou então uns tempos verbais estranhos (tipo uma hora que ele fala sobre ter ficado em pé o dia inteiro "no sebo que trabalhava" quando podia ser muito bem "trabalho", já que tinha acontecido dias antes). uns personagens bem tumblrzinho, tipo a amiga com um quarto cheio de suculentas e pallets e fridas kahlos e livros de harry potter, ou então o próprio lino sendo um grande leitor ou parando a pegação pra ir escrever no diário. e aliás, essa entrada foi tão longa que seria totalmente irreal ele ter se ausentado por todo o tempo que levaria pra escrever aquilo. não sei, se fosse outra a conversa dele com o próprio diário eu talvez teria engolido melhor. se ele não contasse o que aconteceu reproduzindo os diálogos com travessão e tudo... mas enfim, a questão de que tudo se resolve na conversa e que intimidade é mais importante que atração ou sei lá em qualquer namoro, foi bom. ah, véi, a amiga era assexual birromântica e os meninos eram alossexuais, e nem sei o que é isso (pesquisei, é o oposto de assexual). natan pan, lino bi. óia só. ainda nos desagrados, essa coisa de que a primeira noite ia definir todo o resto do relacionamento, umas coisas de referenciação que ficam meio capengas ("meu namorado" quando ficaria melhor dizer o nome, "a plataforma de streaming" pra netflix, natan lembrar bem da mãe e sentir tanta falta sendo que tinha dito que tinha 3 anos na foto de meses antes dela morrer, "imputar discriminações para toda a comunidade", referências de bruxa má do oeste e meg cabot, "apoiando o queixo no punho de suas mãos", ele não gosta de whatsapp porque odeia as "etiquetas sociais que o aplicativo de mensagens meio que criou no inconsciente geral"... aiai. o autor é youtuber e tem uma série com esses personagens. ok, não é pra mim.

the deep (rivers solomon with daveed diggs, william hutson & jonathan snipes)
mesmo já sabendo o que esperar dessa novela por ter visto comentários de outros leitores, a força que ela tem foi igualmente avassaladora. é sobre esse povo chamado wajinru, originado das mulheres africanas grávidas jogadas dos navios que transportavam escravos para as américas. assim como dentro do útero, seus bebês nasceram com a capacidade de respirar debaixo d'água, e com o cuidado de grandes baleias eles foram crescendo nas profundezas do oceano, protegidos da superfície. toda a história de como surgiram é tão cheia de dor e trauma que se estabelece apenas um deles para recordar todo o passado, de modo que os outros possam viver sem (literalmente) serem afundados pelo sofrimento. fora o "historiador", os demais wajinru têm uma memória de curto prazo, apesar de manterem no corpo as sensações e instintos trazidos pelas experiências. yetu é uma historiadora e a personagem principal, que há vinte anos se vê cada vez mais consumida pelo peso do passado e do presente, esvaziada de si mesma para dar lugar a toda a sua história. depois de várias situações de quase-morte (algumas autoinflingidas), yetu retorna a seu povo para a cerimônia anual em que o responsável pelas memórias as transmite a todos e os guia através delas. mas assim que yetu se esvazia, assim que sua mente recobra o silêncio e a calma tão inalcancáveis, ela foge numa tentativa desesperada de se salvar. por três semanas yetu se recupera das feridas físicas e mentais numa pequena piscina na superfície, desconectada do oceano, onde conhece alguns humanos ("duas-pernas"). por causa dos resíduos do passado que permanecem nela, yetu sabe reconhecer e falar sua língua, e assim troca longas conversas com oori, uma pescadora marcada pela perda de todo o seu povo. através dela yetu é levada a repensar a importância de conhecer sua história, de preservar memórias, e por fim retorna aos wajinru, que estão à beira de provocar uma tempestade capaz de engolir o mundo. mas dessa vez yetu não remove as lembranças de cada wajinru, mas os ensina a conviver com elas, reconhecendo a necessidade de se apoiarem para que consigam viver. é linda a maneira como esse livro trata do trauma intergeracional da áfrica diaspórica, com tantas analogias sensíveis, tanta potência. incrível como a dor e a ira dos wajinru têm a capacidade de impactar o mundo todo, como yetu sente na pele essa energia devastadora, como oori recorda como se respira debaixo d'água através da lembrança que yetu a transmite, como ela afunda nas profundezas dessa vez por um convite, como isso cria algo novo. a tortura de yetu em se sentir fraca como historiadora, o esgotamento de carregar esse fardo... e a solução em se dividir tudo, a reinterpretação através de diferentes perspectivas! mais massa ainda porque isso foi escrito por rivers solomon, mas veio inspirado pela música desse grupo de rap experimental chamado clipping., que antes já tinha sido inspirado pela música eletrônica de drexcyia, como um jogo de telefone sem fio em que as coisas se recriam e se enriquecem. muito especial a maneira como os historiadores do passado se referem a si mesmos como "nós", essa percepção de coletividade e unidade que clipping. também usa. e os wajinru têm os dois sexos! podem escolher entre apresentar um, ambos ou nenhum. o próprio relacionamento de yetu com oori, basha e ephras... todo mundo tem que ler isso.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

lidos em dezembro

depois de séculos consegui terminar família schürmann - um mundo de aventuras, de heloisa schürmann, sobre a viagem de dois anos e meio que fizeram em seu veleiro seguindo a rota de fernão de magalhães, português pioneiro em circum-navegar o globo terrestre. aprendi várias coisas, por exemplo, que tem um lago num país da micronésia onde existem águas-vivas inofensivas, que aliá é como se chama a fêmea do elefante e que ovos de avestruz aguentam até 600kg sobre eles. pesquisei bastante sobre o que falavam, os lugares e culturas, e foi legal de conhecer um pouquinho de tanto. heloisa me lembra muito nazira, a professora de química do colégio, e era engraçado imaginar as reações dela dentro das diversas situações relatadas no livro. também pude enxergar na escrita um humorzinho bem parecido com o meu no começo do blog. mencionou várias vezes pigafetta, cronista oficial da esquadra de magalhães, comparando-se a ele e fazendo correspondência entre seu laptop e a pena e tinta dele... na época da viagem apareciam no fantástico. teve uma hora que estavam numa reserva na áfrica do sul e dei risada do que escreveu: Passamos por um Kraal (vila tradicional dos habitantes nativos da área, os Zulus). Os moradores da vila mostraram algumas tradições de sua cultura. O curandeiro da tribo fumava seu comprido cachimbo com um estranho fumo: maconha. 

desde que terminei a lista de leitura da unicamp tenho lido apenas as coisas paradas comigo, e neste mês comecei por um leão em família, de luiz puntel (daquela coleção vagalume). é sobre um menino que encontra um leão que supostamente caiu de um vagão de trem e leva-o pra casa, mais tarde tendo que fugir porque alguém parecia querer matá-lo e não sei o que mais. não gostei nadinha, achei muito besta e ordinário. qualquer pessoa escreveria de um jeito mais agradável.

depois li vito grandam - uma história de vôos, do ziraldo, e me surpreendi demais. é sobre um menino de 17 anos que começa a analisar sua relação com o tio três anos mais velho, victor, e alguns detalhes de sua vida que o conduziram até o primeiro plano da narrativa. ele fala sobre sua escrita enquanto faz isso e achei bastante original, bonito mesmo. vito grandam é como ele escrevera "victor grandão" quando criança, sendo depois o nome usado pelo tio ao voar de asa-delta – e é assim mesmo que meu irmão trocava o aumentativo nas palavras quando tava começando a escrever... gostei de ter lido e esqueci de marcar trechos, mas tudo bem porque é curtinho e posso reler em breve.

li os melhores poemas de mário quintana, que encontrei uma vez no ponto de ônibus em frente ao poli e tá todo destruído (mas com todas as páginas). não gostei muito da poesia de mário quintana não, nada de especial. só anotei alguns melhorzinhos: noturno, presença, sempre, operação alma e envelhecer.

aí li macunaíma, de mário de andrade, e até que me diverti. é bem bizarro e nonsense (vi em algum lugar uma comparação com o guia do mochileiro das galáxias, mas sem a ficção científica), cheio de bagunça e brincadeiras – tanto no sentido que tô acostumada quanto como sinônimo de sexo, usado no livro inteiro. várias vezes macunaíma foge pelos estados do brasil como se corresse por um mapa estendido no chão, coisa que contribui pra não-regionalização da história, presente também na utilização de trocentos nomes de frutas, peixes e tudo quanto é coisa. também tem uns mitos e origens de expressões inventadas (talvez nem tanto), como "vá tomar banho" pros europeus que não estavam acostumados com o compromisso diário de quem vive nos trópicos...

li então o livro do riso e do esquecimento, de milan kundera. É um romance que se refere ao riso e ao esquecimento, que diz respeito ao esquecimento e a Praga, que fala de Praga e anjos. tem várias narrativas sobre situações diversas – um homem envergonhado por seu passado com uma mulher feia perseguido pelo estado repressor; um casal que tem sua liberdade reconquistada após uma visita de mamãe e da amiga entusiasta de 3-ways; duas estudantes que engendram a discussão do riso diabólico e angelical; uma viúva que tenta recuperar cartas e diários abandonados em praga, de onde fugiu; um estudante que se envolve com uma mulher casada do interior, admira poetas nacionais e carrega sua litost (estado atormentador nascido do espetáculo de nossa própria miséria repentinamente descoberta); a retomada da personagem da viúva numa busca de livrar-se do peso que carrega; um homem que encontra harmonia na incompreensão de sua "parceira" e pensa sobre no começo da vida erótica do homem há excitação sem prazer, e no final há prazer sem excitação. tem várias partes onde o autor descreve experiências próprias após a invasão russa da república tcheca, além de falar bastante sobre as coisas que está criando ao escrever. achei bom, meio filosófico como a insustentável leveza do ser (ele até menciona essa ideia na segunda parte de tamina). e percebo que anoto umas coisas que posso querer pensar sobre depois, não necessariamente que me impressionam.

Foi como um despertador que a tirasse de um sonho. E, nesse momento, como ela se abraçasse com Eva (assim como quem dorme, ao ser acordado, se abraça ao travesseiro, para esconder-se da luz perturbadora do dia), Eva perguntou-lhe: Combinado? E ela assentiu, com um gesto que indicava que estava de acordo, e apertou seus lábios contra os de Eva. Sempre a amara, porém, pela primeira vez, amava-a com todos os sentidos, por ela mesma, por seu corpo e por sua pele, e embriagava-se com esse amor carnal como se fosse uma revelação súbita.
Ela quer ter esses diários para que a frágil estrutura dos acontecimentos, tal como a construiu em seu diário, possa receber paredes e tornar-se a casa onde ela poderá morar. Porque, se o edifício vacilante das lembranças cai como uma tenda mal levantada, não vai sobrar nada de Tamina a não ser o presente, esse ponto invisível, esse nada que avança lentamente em direção à morte.
Eles iniciaram uma conversa. O que intrigava Tamina eram as suas perguntas. Não o conteúdo delas, mas o simples fato de ele as fazer. Meu Deus, havia tanto tempo que não lhe perguntavam nada! Tinha a impressão de que havia uma eternidade! Só seu marido lhe fazia perguntas sem cessar, porque o amor é uma interrogação contínua. É, não conheço definição melhor do amor.
(...) No barro úmido sem mato e sem árvores, acossados por baixo pela cor ocre e amarela e, do alto, por nuvens cinza e pesadas, eles caminhavam lado a lado, calçados com botas de borracha que afundavam na lama e deslizavam. Estavam sós no mundo, cheios de angústia, de amor e de inquietação desesperada um pelo outro.
A mulher que ele mais amou no mundo (ele tinha na época trinta anos) lhe dizia (ele ficava quase desesperado quando ouvia isto) que ela só se prendia à vida por um fio muito fino. Sim, ela queria viver, a vida lhe proporcionava uma alegria imensa, mas ela sabia ao mesmo tempo que esse quero viver era tecido com fios de teia de aranha. Bastava tão pouco, tão infinitamente pouco, para se encontrar do outro lado da fronteira além da qual nada mais tinha sentido: o amor, as convicções, a fé, a História. Todo o mistério da vida humana consistia no fato de que ela se desenrola em proximidade imediata e mesmo em contato direto com essa fronteira, que ela não fica separada desta por quilômetros, mas apenas por um milímetro.
O olhar do homem já foi descrito muitas vezes. Ele pousa friamente sobre a mulher, ao que parece, como se a medisse, a pesasse, a avaliasse, a escolhesse, ou seja, como se a transformasse em coisa.
O que não se sabe tão bem é que a mulher não está inteiramente desarmada contra esse olhar. Se ela é transformada em coisa, então ela observa o homem com o olhar de uma coisa. É como se o martelo tivesse de repente olhos e observasse fixamente o pedreiro que se serve dele para fixar um prego. O pedreiro vê o olhar mau do martelo, perde a segurança e dá uma martelada no próprio dedo.
O pedreiro é o senhor do martelo, porém é o martelo que leva vantagem sobre o pedreiro, porque a ferramenta sabe exatamente como deve ser manejada, enquanto aquele que a maneja só pode sabê-lo mais ou menos.
O poder de olhar transforma o martelo em ser vivo, mas o bravo pedreiro tem de sustentar seu olhar insolente e, com a mão firme, transformá-lo novamente em coisa. Dizem que a mulher vive assim um movimento cósmico para cima e para baixo: a elevação da coisa tornada criatura e a queda da criatura tornada coisa.

comecei a ler elogio da loucura também, que felipe me deu, mas tava chatão e acho que vou abandonar.

domingo, 30 de julho de 2017

lidos em julho

dia 12 terminei minha vida de menina, de helena morley. demorei quase um mês pra ler, porque não conseguia me concentrar e me dedicar (e também porque é um pouco enjoativo, sendo um diário)... são relatos do cotidiano da autora quando adolescente (pseudônimo de alice dayrell) no interior de minas gerais, durante os anos de 1893, 1894 e 1895. é descrito como "livro que nasceu clássico" por alexandre eulálio, que faz a introdução – É mesmo raro o sabor dessa prosa coloquial, cheia de chiste e tão próxima, em pitoresco, desatavio e naturalidade, da sua fonte popular. começou a escrever por recomendação da escola e incentivo de seu pai; em suas descrições percebe-se as peculiaridades de uma diamantina no limiar do urbano e do rural, com a presença da mineração e da decadência econômica. Voltada para o encanto da vida livre do pequeno núcleo aberto para o campo, a jovem Helena, familiar a todas as classes sociais daquele âmbito, estava colocada num invejável ponto de observação. Assim o seu depoimento transcende o plano apenas biográfico ou geográfico para valorizar-se de um ponto de vista tanto psicológico quanto social. no começo eu me confundia no mundaréu de pessoas sobre as quais ela falava, mas fui acostumando, até porque ela repete as mesmas coisas frequentemente (eu faço igual quando escrevo em diário). achei legal ter esse vislumbre de épocas onde tudo era diferente. muitos ex-escravos estão em seus relatos e, apesar de ela dizer não fazer diferença entre ninguém, percebe-se traços de racismo solidificados por entre a sociedade. gostei da expressão "fazer castelos", que ela usa muito, e quer dizer ficar imaginando coisas, sonhando acordado. penso que ela pode ter trocado o nome com uma tia, irmã de seu pai, e com quem tem o gênio muito parecido, segundo ele (a autora escreve o nome da tia como alice).

Nós, meninas, fomos proibidas de confessar com Senhor Bispo, porque ele pergunta muita coisa que a gente não entende e meu pai disse que é um absurdo mamãe nos deixar confessar com um velho já caduco. Ele está muito velhinho. Como no Palácio há muitos padres, mamãe escolheu para nós o Padre Florêncio. Ele é muito bom e dá penitência pequena, mas a gente sai cansada do confessionário de tanta história de santo que ele aproveita para contar e aconselhar a gente a imitar. Como se isso dependesse da gente. Eu regulo por mim; tenho inveja das pessoas boas e santas mas não posso deixar de ser o que sou.
(...) Certa hora eu perguntei: "Vocês não pensam para que a gente vive? Não era melhor Deus não ter criado o mundo? A vida é só de trabalho. A gente trabalha, come, trabalha de novo, dorme e no fim não sabe se ainda vai parar no inferno. Eu não sei mesmo para que se vive". Mamãe disse: "Que horror, minha filha! Para que você passou tanto tempo no Catecismo, para agora vir me dizer que não sabe para que a gente vive? Não estudou lá todos os dias que a gente vive para amar e servir a Deus na terra e gozar dele no céu?". Eu respondi: "Estudei, mamãe, mas já vi que só a família de vovó e poucos outros podem viver só para amar a Deus na terra e esperar gozar da presença dele no céu. Se a senhora soubesse como eu tenho sofrido com essa história de amar a Deus, até tinha pena de mim. Não há uma vez que me confesse que eu não diga ao padre que eu penso que não amo a Deus, porque só lembro de Deus na hora do aperto. Padre Neves diz que não acredita e que sabe que eu amo a Deus porque não faço percado mortal. Eu respondo que é porque nada é pecado para ele. Todos os pecados que eu conto horrorizada, às vezes ele até me desculpa. Os furtos que eu e Luisinha fazíamos das frutas de que vovó fazia tanto gosto, que eu até esperava ir para o inferno, quando eu contava a Padre Neves ele dizia: 'Tirar de sua avó não é pecado'. Eu pensava que era pecado e furtava e depois tinha medo do inferno; de ofender a Deus não me passava pela cabeça". Mamãe respondeu: "É porque você vive sempre de cabeça em pé e não procura pensar. Quem pensa tem que ter amor a Deus. Eu o amo acima de tudo". Renato parou com o alçapão e disse: "Sabem o que eu já estive pensando? Não há esse negócio de céu nem de inferno nada; isso tudo é conversa de padre. Eu penso que a vida é como um punhado de fubá que se põe na palma da mão; quando se assopra vai embora e não fica nada. Nós também depois de mortos a terra come; não tem nenhuma alma". Mamãe ficou horrorizada e perguntou: "A quem você saiu com essas ideias? Estou pasma do que você disse! Como um menino de sua idade pode ter essas ideias tão hereges! Valha-me Deus, que castigo! Que fiz eu a Deus para ter um filho assim? Virgem Santa! Agora vou viver só por sua conta, meu filho". Mamãe contou a história de uma mulher que tinha um filho assim e fez penitência de rasgar o corpo com um prego para Deus perdoar-lhe. Deus perdoou e ele se ordenou e foi um padre muito santo. Renato fazendo o alçapão, sem levantar a cabeça, disse: "Mas a senhora não precisa rasgar seu corpo com prego que eu não vou ser padre. Pau que nasce torto não se conserta".
Ficamos todas as primas tristes de ver a maldade que nossos irmãos fizeram de lavar os pés na água do Pau de Frutas, que é a que vem para a gente beber na cidade. Beatriz até chorou de pensar que o pai dela estava bebendo daquela água na cidade. Minhas tias a consolaram dizendo que até chegar cá já estava limpa. Estivemos sabendo também que morreu um burro dentro do rego e ficou lá até apodrecer. Eu acho aquela água muito porca. Se eu pensasse não bebia dela nunca. Mas a gente faz tudo é sem pensar, graças a Deus.
Hoje temos rido com ele a não mais poder. Ele foi convidado para o baile de ontem na União Operária e a viúva também ia. Ele foi ao dicionário, tirou umas palavras, fez uma frase e levou a Sérgio para ver se estava boa para ele dizer à viúva. A frase era: "Sinto-me compungido de não ter podido até então tirá-lo para uma valsa". Sérgio disse: "Se ela é mulher, você não deve dizer tirá-lo, mas tirá-la". Ele corrigiu, ficou decorando a frase e meteu o papel no bolso.
Hoje Sérgio perguntou se ele tinha dito a frase com desembaraço e ele respondeu: "Qual o quê! Quando eu cheguei perto dela para falar, ela, antes de eu começar, levantou, enfiou o braço no meu e saímos dançando. Eu fiquei mudo, porque só tinha na cabeça aquelas palavras que ela não me deixou falar".
Meu pai é muito querido na família. Todos gostam dele e dizem que ele é muito bom marido e um homem muito bom. Eu gosto muito disso, mas fico admirada de todo o mundo só falar que meu pai é bom marido e nunca ninguém dizer que mamãe é boa mulher. No entanto, no fundo do meu coração, eu acho que só Nossa Senhora pode ser melhor que mamãe.

também li, em ebook, edda em prosa - gylfaginning e skáldskaparmál (de snorri sturluson). o autor defendia a teoria de que reis e figuras históricas eram invocados em combates e venerados até serem lembrados apenas como divindades, e faz paralelos desses deuses com personalidades troianas e com o cristianismo. acho engraçado os absurdos: uma vaca lambe um bloco de gelo e dali saiu o homem que seria avô de odin; heimdallr, o guardião dos deuses na bifröst, é filho de nove damas, todas irmãs; com angrboda, uma gigante, loki teve como filhos o lobo fenrir (que matará odin no ragnarök), a serpente jörmungandr (que circunda toda a terra mordendo sua própria cauda) e hel (que tem poder sobre o nono mundo e reparte as moradas entre os mortos de doença ou idade avançada); loki se transforma em égua para atrair um cavalo que ajudava um gigante (para atrapalhá-lo) e acaba tendo "certas relações" com ele, mais tarde dando à luz a um potro cinza de oito patas; a baba que corre da boca de fenrir, preso por um grilhão feito de seis coisas "inexistentes" (o ruído de um gato ao andar, a barba de uma mulher, as raízes de uma montanha, os tendões de um urso, a respiração de um peixe e o cuspe de um pássaro), forma um rio chamado ván; um navio chamado skídbladnir é grande o suficiente para todos os æsir embarcarem nele, mas quando não há motivo para usá-lo no mar pode ser dobrado como um guardanapo e guardado num bolso... mas é massa reconhecer referências/inspirações de outras obras: freyja tem um colar chamado brísingr, como a espada/feitiço de eragon; heimdallr tem o gjallarhorn, como a banda finlandesa que fala sueco; angrboda, gigante mãe dos filhos sinistros de loki, é o nome da filha de floki e helga em vikings; der ring des nibelungen, ópera alemã, se inspirou numa história do edda bastante parecida com lotr, que por sua vez tem muitos nomes de anões citados aqui. no que diz respeito aos paralelos e comparações, o autor diz que o longo conto do ragnarök são as guerras dos troianos:

Quando se diz que Öku-Thor usou como isca uma cabeça de boi e fisgou a Serpente de Midgard, mas que a serpente manteve sua vida e afundou no mar, então esta é uma outra versão da história em que Heitor matou Volukrontes, um famoso herói, na presença de Aquiles, e isso chamou o último para ele com a cabeça da presa, na qual foi comparada a cabeça de um boi, que Öku-Thor tinha arrancado. Quando Aquiles foi tragado para este perigo, por conta de sua ousadia, foi a salvação de sua vida que ele fugiu dos golpes fatais de Heitor, embora ele fosse ferido. Também é dito que Heitor travou a guerra tão poderosamente, e que sua raiva era tão grande quando ele avistou Aquiles, que nada era tão forte que poderia ficar diante dele. Quando ele errou Aquiles, que havia fugido, ele acalmou sua ira matando o campeão chamado Roddros. Mas os Æsir dizem que quando Öku-Thor errou a serpente, ele matou o gigante Hymir. No Ragnarök, a Serpente de Midgard veio de repente para cima de Thor e jorrou veneno sobre ele, e, portanto, o matou. Mas os Æsir não poderiam se decidir para dizer que este tinha sido o destino de Öku-Thor, que alguém ficou em cima dele morto, embora isso tivesse acontecido assim. Eles se precipitaram sobre sagas antigas mais do que era verdade quando disseram que a Serpente de Midgard teve sua morte, e eles adicionaram isto na história, Aquiles colheu a fama da morte de Heitor, embora ele jazesse morto no mesmo campo de batalha. (...)

também gostei de alguns aspectos que desconhecia: os dois corvos de odin são pensamento (huginn) e memória (muninn); comparam o choro de todos os seres e coisas por baldr, para que ele fosse trazido de volta de hel, a como "essas coisas choram quando saem do frio para o calor"; terremotos são atribuídos a loki se contorcendo contra o veneno de cobra que cai em seu rosto onde foi acorrentado pelos æsir; no ragnarök será terminado um navio chamado de naglfar, que é feito de unhas não cortadas de homens mortos. foi uma leitura válida.

recebi minhas compras do amazon day e li jumanji (de chris van allsburg) e elefante (de bartolomeu campos de queirós), ambos muito bonitos em suas ilustrações e muito únicos em suas breves histórias. (não vou escrever sobre eles porque posso pegá-los na estante e ler em poucos minutos, então né. única coisa é que confundi jumanji com zathura, só pra depois descobrir que o segundo é sequência e tem livro do mesmo autor.)

depois resolvi participar da maratona literária de inverno, que inicialmente era do dia 16 ao dia 30, mas depois acrescentaram seis dias... fizeram três níveis diferentes (iniciante, intermediário e hardcore) e tinha três desafios pra cada – escolhi o intermediário e encaixei quatro livros nos desafios:

• livro com a capa azul → família schürmann - um mundo de aventuras (heloisa schürmann)
• livro com menos de 200 páginas/escrito por uma mulher → uma duas (eliane brum)
• livro que você comprou pela capa → cyrano de bergerac (edmond rostand)
• livro sem saber a sinopse ou do que se trata/nacional → caminhos cruzados (érico veríssimo)


no domingo que a maratona começou eu tava revendo colegas em outra cidade, então li pouquinho, 30% e alguma coisa de uma duas, de eliane brum (que terminei dia 18). tinha montado um cronograma mostrando onde eu deveria estar em cada leitura a cada dia para ler tudo em tempo; comecei atrasando um dia mas ok. trata-se da história da relação nada saudável entre duas mulheres, mãe e filha, que se sobrepõem à medida que a narrativa submerge nelas – não existe clareza entre o bem e o mal, o certo e o errado, o real e o fictício. ambas são personagens únicas, apresentando um nível de frieza incomparável. livro visceral, intenso e doloroso, me incomodava e não me deixava ficar muito tempo sem pensar nele e querer concluir de vez. o final não é muito definido, dando a entender que foi só ficção pra exorcizar demônios e se abrigar nas possibilidades que a literatura oferece. gostei bastante do estilo; foi o encerramento da experiência com o kindle unlimited.

Finalmente o grito preso ali se solta. E ela sente que nunca mais o grito cessará, que aquele grito é para sempre, é um grito para toda a vida e para além da vida. Porque agora ela alcança a inteireza do horror. E gritos são coisas que não podem ser ditas. Não há como escapar da carne da mãe. O útero é para sempre.
Sempre tive medo de escrever. Da hora de tornar meu sangue símbolo do sangue. Tinha medo por causa da dor desconhecida que talvez viesse, que eu quase podia tocar como certeza. Ainda que eu sangre com sangue, este ritual eu conheço. Ele faz de mim o pouco que tenho de mim. É uma constituição. Me constituo eu pelos cortes em mim. As palavras, não. O que elas farão de mim?
As palavras que rastejam de mim como vermes gordos de hemácias me fazem desconfiar de que não há um sujeito que diz, não há eu. Então, quem fala? De quem são as palavras que me constrangem?
A luta de classes de Marx não é uma luta, é apenas uma divisão entre os que podem fazer perguntas e os que só estão autorizados a dar respostas.
Como sempre, esquece onde está enquanto escreve. A escrita é um lugar que ela pode habitar. É reconfortante escrever sobre a vida dos outros. Esta é a melhor parte de ser jornalista. Poder escrever sobre uma realidade que não precisa virar ficção para ser pronunciada.
Eu sentava na outra ponta da mesa de fórmica da cozinha e ficava olhando-o comer. Ele mastigava muitas e muitas vezes cada bocado e um dia me explicou que era preciso mastigar 98 vezes de cada vez, para ajudar o estômago na digestão da comida e manter a saúde. Fiquei aliviada. Então era por isso que ele não conversava comigo. Eu nem mesmo queria que ele falasse. Não sei se foi aí que começou, mas sempre tive medo das palavras. Das pronunciadas. Preferia ficar ali, compartilhando o silêncio do meu pai.
Minha cabeça se esvaziou. Mais tarde eu intuiria que aquilo era felicidade.
Vivia em mim e seguia a rotina dos dias como uma sonâmbula com os dois olhos abertos só pra dentro. Quem perdeu muito sabe que há um certo alívio em não esperar nada de bom, em não desejar nada.
Tinham me contado que os escritores eram uma espécie de deuses. Eles criavam um mundo em que podiam viver e escapavam deste pela porta dos fundos. Me preparei a vida inteira para ser deus. E só o que faço agora é desinventar a mim mesma. Acho que é isso. A realidade é uma ficção. E ao escrever eu vou quebrando essa criatura esculpida com amor e desespero. É o contrário. É preciso destruir a forma humana que está ali para alcançar a pedra.
Sim, porque eu só sei escrever a mão. E acho que há mais coragem em escrever a mão, sopesando cada letra, que exige esforço e não aparece e desaparece numa tela como se as palavras pudessem simplesmente surgir ou simplesmente ser eliminadas sem que se pague um preço por isso.
Não lembro quem disse, mas isso é um filho. "Aquele que entra em minha casa e não veio de fora".
Se sabemos o que esperar, até mesmo a dor pode ser confortadora. E eu descubro que o pior caminho é melhor que o desconhecido.
Sempre me surpreende o interesse de qualquer homem por mim. Me excita e me ofende ao mesmo tempo.
Dou um sorriso tímido e saio quase correndo, como se fosse uma menina. Nem me lembro de perguntar seu nome. Melhor assim. Os nomes nos ancoram a uma identidade. E o melhor daquele encontro é que ele era fluido, não tinha ficado impresso em lugar algum. Sem nomes, sem registro.
Eu preciso muito de fronteiras e nunca entendi aqueles jargões publicitários de uma vida sem limites. Para mim, a liberdade sempre esteve ligada à capacidade de erguer muros cada vez mais altos.
O branco, ela pensa, não é a soma de todas as cores, mas a ausência de todos os sentimentos. O branco não tem dor nem medo nem vilania. Por isso é a cor da paz, porque é uma soma que subtrai o humano.
Você também não é normal, Laura. Herdou os meus genes deformados e lembra o que não deveria. Eu a salvei, mas a salvei de mim mesma. Fui ao mesmo tempo sua assassina e sua heroína. E acredito que é isso que todas as mães são em alguma medida. Sua Noviça Rebelde não existe. Lembre-se, ela era uma madrasta. Em algum momento, os filhos já tinham matado a mãe verdadeira. Mas ninguém nunca quis saber o que aconteceu com ela. Será que os tumores que tomam conta de mim são aqueles bebês todos que matei e que voltaram para se vingar? Tenho medo, mas se for isso não vou reclamar, porque agora eles podem, e eu não. Estou velha e já não posso afogar ninguém.
A única palavra que eu quis escrever, nascida do meu desejo. Sim, porque você não nasceu porque o seu pai se enfiou dentro do meu corpo paralisado. Você nasceu quando olhou para mim, e eu me vi no seu olhar. E desejei que você vivesse. Você é tudo o que eu sinto de vivo em mim agora que morro.
Pego as mãos da minha mãe, cada vez mais diferentes das minhas agora que a doença a molda à sua imagem e semelhança. O câncer é como uma possessão alienígena de dentro para fora. De fato, não. É uma possessão do corpo pelo próprio corpo. O câncer é tão da minha mãe como as células sadias que fracassam em defendê-la da mutação de suas irmãs. É um filme de terror, filmado por dentro. Uma ficção científica que não é ficção. Fico fascinada com a quantidade de horror que a normalidade nos assegura dia após dia. Para que inventar zumbis e aliens vindos do espaço se existe o câncer?
Abraço meu corpo e choro embrulhada em mim como o tatu-bola da minha infância. Sou um quadro de solidão e desamparo no quarto de hospital. Uma mulher adulta em posição fetal quando a mulher que lhe deu à luz acaba de deixar este mundo. Partiu levando com ela seu útero.
Nenhuma vida se completa. Isso ela agora sabe. Como a mãe, ela também vai esperar que algo se complete, mas a vida seguirá até o fim em aberto, inconclusa. A vida humana é a única que acaba sem um fim, porque é a única que o espera.
Descubro que escrevi sobre a impossibilidade da literatura. O fracasso previamente assumido de tentar transformar vida em palavra. O que mais importa é o que não pode ser escrito, o que grita sem voz e sem corpo entre as linhas. O para sempre indizível.

o próximo livro que separei pra ler foi caminhos cruzados, mas tive tanta dificuldade e falta de ânimo que nem continuei nutrindo esperanças de concluir com sucesso a maratona. fui ler sejamos todos feministas, de chimamanda ngozi adichie, que baixei no kindle há algum tempo atrás por ser um ebook gratuito na amazon. é a transcrição de uma palestra que a escritora fez num evento do TEDx, sobre sua experiência como mulher e como feminista. sempre massa esse tipo de discussão, embora ainda tenha muita coisa confusa na minha cabeça a respeito de gênero e etc (como que seja opressão, não identidade). dá pra ler rapidinho e em seguida assisti a uma palestra a qual ela se refere no começo do ebook, the danger of a single story, que achei incrível.

Se repetimos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal. Se só os meninos são escolhidos como monitores da classe, então em algum momento nós todos vamos achar, mesmo que inconscientemente, que só um menino pode ser o monitor da classe. Se só os homens ocupam cargos de chefia nas empresas, começamos a achar "normal" que esses cargos de chefia só sejam ocupados por homens.
Então, de uma forma literal, os homens governam o mundo. Isso fazia sentido há mil anos. Os seres humanos viviam num mundo onde a força física era o atributo mais importante para a sobrevivência; quanto mais forte a pessoa, mais chances ela tinha de liderar. E os homens, de uma maneira geral, são fisicamente mais fortes. Hoje, vivemos num mundo completamente diferente. A pessoa mais qualificada para liderar não é a pessoa fisicamente mais forte. É a mais inteligente, a mais culta, a mais criativa, a mais inovadora. E não existem hormônios para esses atributos. Tanto um homem como uma mulher podem ser inteligentes, inovadores, criativos. Nós evoluímos. Mas nossas ideias de gênero ainda deixam a desejar.
O que me impressiona – em relação a ela e a várias outras amigas americanas – é o quanto essas mulheres investem em ser "queridas", como foram criadas para acreditar que ser benquista é muito importante. E isso não inclui demonstrar raiva ou ser agressiva, tampouco discordar. (...) Se, por um lado, perdemos muito tempo dizendo às meninas que elas não podem sentir raiva ou ser agressivas ou duras, por outro, elogiamos ou perdoamos meninos pelas mesmas razões.
O modo como criamos nossos filhos homens é nocivo: nossa definição de masculinidade é muito estreita. Abafamos a humanidade que existe nos meninos, enclausurando-os numa jaula pequena e resistente.
Nós policiamos nossas meninas. Elogiamos a virgindade delas, mas não a dos meninos (e me pergunto como isso pode funcionar, já que a perda da virgindade é um processo que normalmente envolve duas pessoas).
E se criássemos nossas crianças ressaltando seus talentos, e não seu gênero? E se focássemos em seus interesses, sem considerar gênero?
A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura.

dia 30 reli é apenas o vértice do mundo interior, de agnieszka piksa, que luiz tinha me mostrado no comecinho do cv2 e descobri que yuri tinha quando fui na casa dele com aldivo após a peça do guto (eita quanta gente mencionada). é uma zine distribuída na 31ª bienal de sp, queria muito ter porque acho muito foda. tem muitas colagens e desenhos, fala sobre várias coisas muito interessantes (as que mais gosto são essas que anotei – o mais próximo possível de como tava na zine, por sinal). o nome em inglês é it's just the spin of inner life, além de que vi escrito vórtice (em vez de vértice) em algum lugar, o que me faz pensar que talvez trocaram uma letra aí, porque faz mais sentido se comparado com spin, né...

O processo da vida
quando penso nesta vida, cara...
– quero dizer...
primeiro, éramos espermatozóides...
depois entramos na célula, e de certo modo já não éramos mais espermatozóides
começamos a nos desenvolver como embriões...
depois disso, saímos do corpo da mãe de forma realmente apocalíptica, e nos tornamos crianças... e mais tarde humanos adultos
em cada uma dessas etapas, fomos transformados completamente, existindo em cada fase como seres totalmente diferentes
nós não nos lembrávamos do estado anterior de nós mesmos e não podíamos prever o que vai vir depois
muito provavelmente tínhamos certeza de que o fim daquela fase era o fim da nossa existência.
não podemos nem mesmo afirmar que era ainda o mesmo nós passando por todas essas fases!
então, como podemos acreditar que esta vida é a última vida e que a morte é mesmo o fim?
Carta de um deus
neste sonho, recebo resposta email dele.
obrigado por enviar seu currículo geral, o sr. deus apressia sua sinceridade, considerando seus erros. nós apoiamos os erros, porque erros também são uma forma de entender as coisas.
e pouco mais tarde, seus delegados vêm com a proposta:
nosso consórcio está satisfeito com sua proposta de projeto – você trabalhará no estabelecimento da embaixada do céu
no mundo subterrâneo, isto é, no inferno. logo, assinamos o acordo com os parceiros de negócio do outro lado do rio estige – o acordo tem muitas páginas, procedimentos complicados de visto são garantidos para todos os candidatos à viagem... /lista de pecados, lista de benfeitorias, confirmação das desflorações cometidas, exame de pensamentos sujos, relatório do nível dos bônus cármicos, sofrimentos antecipados, facadas nas costas, ações equivocadas, sedimentação de boas intenções, scan da aura.../ assim como o rigoroso controle de fronteira de ambos os lados do rio subterrâneo e punições drásticas por tentativas de emigração ilegal
eu, como diplomata pela minha natureza profunda, acordo me sentindo muito feliz, com uma visão de uma futura união democrática entre o céu e o inferno. embora ainda não tenho certeza do que meu empregador diria sobre isso...
Justiça para os aliens
na maioria dos filmes de ficção científica, não há justiça alguma. quero dizer: por que os aliens sempre têm de ser perversos e maus, inimigos dos seres humanos? na maioria dos filmes, eles são normalmente representados como predadores, animais, feras primitivas que apenas se empenham em obter carne humana e destruição... embora sejam ao mesmo tempo cultos o bastante para consequirem construir e pilotar espaçonaves de alta tecnologia, máquinas do tempo etc, que estão muito além ds nossa imaginação tecnológica e científica. isto não é um paradoxo? que estariam eles interessados em carne humana e em fazer-nos sofrer, quando podem fazer muitas outras coisas legais e civilizadas como voar para qualquer lugar do espaço, teleportarem-se daqui para acolá, jogarem mortal kombat com robôs etc? se fossem tão civilizados, por que obedeceriam a instintos primitivos tão baixos e básicos? na verdade, isto cheira realmente a projeção dos seres humanos. imagine, por exemplo, se agentes de alguma cultura alienígena do espaço sideral aparecessem amanhã diante de nós. o que aconteceria? graças à imagem de um alien, como um de nossos piores inimigos, que foi implementada na consciência coletiva graças a filmes sci-fi populares/comerciais, a população da terra provavelmente saudaria esses agentes com armas, facas e bombas. em lugar de flores e uma taça de vinho, e isto não é justo, a existência de culturas alienígenas ainda não foi confirmada, mas este fato nos autoriza a projetar todo o nosso ódio e necessidade natural pela incorreção nesse espaço vazio? o que isto nos diz sobre nós, humanos? parece que o pensamento sobre o "inimigo desconhecido" nos leva a conhecer melhor nossas próprias partes vergonhosas. Quem produziu essas imagens de aliens senão nossa própria mente, ao tentar se ver livre de suas próprias partes vergonhosas. depois que contei isto a um amigo que é cartunista, ele tirou uma boa conclusão, mencionando o filme solaris, dirigido por andrei tarkovski a partir do livro de stanislaw lem. nesse filme, astronautas estão tentando se comunicar com um planeta alienígena, que na verdade é um grande organismo consciente... mas toda tentativa de abordá-lo desperta e materializa os elementos mais baixos e subliminares de seu próprio subconsciente, obrigando-os a encará-los e a lidar com eles. meu amigo cartunista disse: – sim, este é o filme que vamos mostrar a eles primeiro quando nos visitarem.
Aliens do espaço sideral, quem quer que sejam, peço desculpas a vocês diante da raça humana.
(15/03/2016)

nesse dia também terminei caminhos cruzados, de érico veríssimo. no começo eu não conseguia ler sem ser tomada por um sono insuportável, então não engatei na leitura até passar da metade. é "um livro de protesto que marca a inconformidade ante as desigualdades, injustiças e absurdos da sociedade burguesa" – são vários personagens inseridos em núcleos completamente diferentes, cujos caminhos se cruzam de alguma maneira durante os cinco dias de que tratam a história e exibem diferentes perspectivas sobre os eventos. é assim:

• teotônio leitão leiria, rico que se considera merecedor de uma noite com uma prostituta (cacilda), demite gente de sua empresa sempre que alguém influente pede emprego pra outra pessoa e critica os novos-ricos;
• dodó leitão leiria, sua esposa, senhorinha empertigada em ser devota de santa teresinha e ajudar os pobrezinhos, adorando aparecer no jornal como grande figura da caridade;
• vera leitão leiria, filha única do casal, é apaixonada por chinita e despreza o advogado armênio, que não desiste de cortejá-la;
• virgínia madeira, só faz desdenhar seu marido, seu filho e suas criadas, convencida de que sua vida é insuportável e alimentando um amante platônico com quem troca olhares todo dia às cinco horas;
• noel, filho de virgínia, é extremamente inseguro por causa da falta de afeto dos pais e se refugia em mundos paralelos criados a partir de livros e histórias, sendo trazido à realidade pela mão da amiga fernanda;
• zé maria pedrosa, coronel, ganha na loteria e se muda de jacarecanga para porto alegre, onde constrói um palacete, arruma uma amásia e gasta sem limites para se exibir, além de pensar sempre no amigo que o criticava na cidadezinha ("Quero só ver a cara do Madruga!");
• chinita, filha de zé maria, vive num mundinho próprio onde finge ser atriz de hollywood e leva a vida como se tudo fosse parte de um filme;
• maria luísa, esposa de zé maria, que só sabe lamentar-se de absolutamente tudo e se ausentar de qualquer decisão, pensando na antiga vida em jacarecanga e em como tudo mudou pra pior (me fazia pensar sempre na senhora de longa jornada noite adentro);
• salustiano, passa uma noite com cacilda mas é namorado de chinita, não faz nada da vida além de receber uma mesada gorda e desfrutar de seus privilégios;
• joão benévolo, desempregado, vive numa fantasia com suas leituras onde esquece das precariedades pelas quais passa com sua esposa e filho, recebe diariamente a visita do ex-noivo de sua esposa, que permanece "esperando" a hora certa pra recuperá-la;
• fernanda, filha mais velha de dona eudóxia, trabalha para leitão leiria e cuida da casa, sendo uma segunda mãe para o irmão, além de ser amiga fiel de noel desde a infância de ambos;
• pedrinho, irmão de fernanda, adolescente que se apaixona pela "mulher à-toa" com quem teve sua primeira relação sexual (cacilda) e junta trocados que recebe da irmã para poder comprar um colar e presenteá-la;
• maximiliano, tuberculoso desenganado, cuja morte é aguardada com ansiedade por sua esposa, para que ela possa buscar trabalho e uma melhora de vida para os filhos;
• clarimundo, professor, só se importa com a ciência e corrige quem fala errado, colocando-se num patamar superior a tudo e todos.


gostei bastante da narrativa do autor e achei muito engenhosa a construção da história. tatiana feltrin disse que foi um dos primeiros livros a conter um romance lésbico, apesar de nada passar de um beijo desesperado interpretado como diversão por chinita. no final noel e fernanda confessam amar um ao outro, sem precisar de palavras; dodó recebe a atenção especial do jornal no dia de seu aniversário; chinita cai nos encantos de salu e descobre o mundo de prazer que reside no sexo (a primeira vez que eles fizeram foi bem horrível, eu gostava do nome salu mas depois dessa não engoli mais seu personagem); maximiliano morre em decorrência de dona dodó ter se esquecido de mandar que o levassem para o hospital; o "amante" de dona virgínia é assassinado pelo esposo da mulher com quem ele tinha um caso e ela se sente traída, por algum motivo; maria luísa recebe uma carta anônima de leitão leiria denunciando que seu marido tem uma amante, mas nem se surpreende já que o pessimismo é parte dela; joão benévolo desfalece na rua depois de um dia sem se alimentar, procurando emprego, e as pessoas que o cercam e o recolhem julgam que o ocorrido foi por conta de bebida. a obra termina com clarimundo escrevendo o antelóquio (prefácio) de seu livro, o homem de sírio, entidade que observa a terra desde essa estrela e supostamente tem visões reveladoras acerca da vida no nosso planeta – ele se convence de que a vida é monótona e não tem nada de romântico, mencionando o que enxerga de seus vizinhos pela janela. é ótimo porque muitos núcleos da história estão ali, à sua vista, mas a distância que mantém de tudo faz com que ele pense que não há nada a acontecer.

vou mostrar só a parte de julho da MLI aqui, mesmo. ainda tenho que ler dois livros, supostamente, mas tô sem vontade. quero me dedicar aos livros da lista de leitura da unicamp. mas ok, é isso.