domingo, 30 de julho de 2017

lidos em julho

dia 12 terminei minha vida de menina, de helena morley. demorei quase um mês pra ler, porque não conseguia me concentrar e me dedicar (e também porque é um pouco enjoativo, sendo um diário)... são relatos do cotidiano da autora quando adolescente (pseudônimo de alice dayrell) no interior de minas gerais, durante os anos de 1893, 1894 e 1895. é descrito como "livro que nasceu clássico" por alexandre eulálio, que faz a introdução – É mesmo raro o sabor dessa prosa coloquial, cheia de chiste e tão próxima, em pitoresco, desatavio e naturalidade, da sua fonte popular. começou a escrever por recomendação da escola e incentivo de seu pai; em suas descrições percebe-se as peculiaridades de uma diamantina no limiar do urbano e do rural, com a presença da mineração e da decadência econômica. Voltada para o encanto da vida livre do pequeno núcleo aberto para o campo, a jovem Helena, familiar a todas as classes sociais daquele âmbito, estava colocada num invejável ponto de observação. Assim o seu depoimento transcende o plano apenas biográfico ou geográfico para valorizar-se de um ponto de vista tanto psicológico quanto social. no começo eu me confundia no mundaréu de pessoas sobre as quais ela falava, mas fui acostumando, até porque ela repete as mesmas coisas frequentemente (eu faço igual quando escrevo em diário). achei legal ter esse vislumbre de épocas onde tudo era diferente. muitos ex-escravos estão em seus relatos e, apesar de ela dizer não fazer diferença entre ninguém, percebe-se traços de racismo solidificados por entre a sociedade. gostei da expressão "fazer castelos", que ela usa muito, e quer dizer ficar imaginando coisas, sonhando acordado. penso que ela pode ter trocado o nome com uma tia, irmã de seu pai, e com quem tem o gênio muito parecido, segundo ele (a autora escreve o nome da tia como alice).

Nós, meninas, fomos proibidas de confessar com Senhor Bispo, porque ele pergunta muita coisa que a gente não entende e meu pai disse que é um absurdo mamãe nos deixar confessar com um velho já caduco. Ele está muito velhinho. Como no Palácio há muitos padres, mamãe escolheu para nós o Padre Florêncio. Ele é muito bom e dá penitência pequena, mas a gente sai cansada do confessionário de tanta história de santo que ele aproveita para contar e aconselhar a gente a imitar. Como se isso dependesse da gente. Eu regulo por mim; tenho inveja das pessoas boas e santas mas não posso deixar de ser o que sou.
(...) Certa hora eu perguntei: "Vocês não pensam para que a gente vive? Não era melhor Deus não ter criado o mundo? A vida é só de trabalho. A gente trabalha, come, trabalha de novo, dorme e no fim não sabe se ainda vai parar no inferno. Eu não sei mesmo para que se vive". Mamãe disse: "Que horror, minha filha! Para que você passou tanto tempo no Catecismo, para agora vir me dizer que não sabe para que a gente vive? Não estudou lá todos os dias que a gente vive para amar e servir a Deus na terra e gozar dele no céu?". Eu respondi: "Estudei, mamãe, mas já vi que só a família de vovó e poucos outros podem viver só para amar a Deus na terra e esperar gozar da presença dele no céu. Se a senhora soubesse como eu tenho sofrido com essa história de amar a Deus, até tinha pena de mim. Não há uma vez que me confesse que eu não diga ao padre que eu penso que não amo a Deus, porque só lembro de Deus na hora do aperto. Padre Neves diz que não acredita e que sabe que eu amo a Deus porque não faço percado mortal. Eu respondo que é porque nada é pecado para ele. Todos os pecados que eu conto horrorizada, às vezes ele até me desculpa. Os furtos que eu e Luisinha fazíamos das frutas de que vovó fazia tanto gosto, que eu até esperava ir para o inferno, quando eu contava a Padre Neves ele dizia: 'Tirar de sua avó não é pecado'. Eu pensava que era pecado e furtava e depois tinha medo do inferno; de ofender a Deus não me passava pela cabeça". Mamãe respondeu: "É porque você vive sempre de cabeça em pé e não procura pensar. Quem pensa tem que ter amor a Deus. Eu o amo acima de tudo". Renato parou com o alçapão e disse: "Sabem o que eu já estive pensando? Não há esse negócio de céu nem de inferno nada; isso tudo é conversa de padre. Eu penso que a vida é como um punhado de fubá que se põe na palma da mão; quando se assopra vai embora e não fica nada. Nós também depois de mortos a terra come; não tem nenhuma alma". Mamãe ficou horrorizada e perguntou: "A quem você saiu com essas ideias? Estou pasma do que você disse! Como um menino de sua idade pode ter essas ideias tão hereges! Valha-me Deus, que castigo! Que fiz eu a Deus para ter um filho assim? Virgem Santa! Agora vou viver só por sua conta, meu filho". Mamãe contou a história de uma mulher que tinha um filho assim e fez penitência de rasgar o corpo com um prego para Deus perdoar-lhe. Deus perdoou e ele se ordenou e foi um padre muito santo. Renato fazendo o alçapão, sem levantar a cabeça, disse: "Mas a senhora não precisa rasgar seu corpo com prego que eu não vou ser padre. Pau que nasce torto não se conserta".
Ficamos todas as primas tristes de ver a maldade que nossos irmãos fizeram de lavar os pés na água do Pau de Frutas, que é a que vem para a gente beber na cidade. Beatriz até chorou de pensar que o pai dela estava bebendo daquela água na cidade. Minhas tias a consolaram dizendo que até chegar cá já estava limpa. Estivemos sabendo também que morreu um burro dentro do rego e ficou lá até apodrecer. Eu acho aquela água muito porca. Se eu pensasse não bebia dela nunca. Mas a gente faz tudo é sem pensar, graças a Deus.
Hoje temos rido com ele a não mais poder. Ele foi convidado para o baile de ontem na União Operária e a viúva também ia. Ele foi ao dicionário, tirou umas palavras, fez uma frase e levou a Sérgio para ver se estava boa para ele dizer à viúva. A frase era: "Sinto-me compungido de não ter podido até então tirá-lo para uma valsa". Sérgio disse: "Se ela é mulher, você não deve dizer tirá-lo, mas tirá-la". Ele corrigiu, ficou decorando a frase e meteu o papel no bolso.
Hoje Sérgio perguntou se ele tinha dito a frase com desembaraço e ele respondeu: "Qual o quê! Quando eu cheguei perto dela para falar, ela, antes de eu começar, levantou, enfiou o braço no meu e saímos dançando. Eu fiquei mudo, porque só tinha na cabeça aquelas palavras que ela não me deixou falar".
Meu pai é muito querido na família. Todos gostam dele e dizem que ele é muito bom marido e um homem muito bom. Eu gosto muito disso, mas fico admirada de todo o mundo só falar que meu pai é bom marido e nunca ninguém dizer que mamãe é boa mulher. No entanto, no fundo do meu coração, eu acho que só Nossa Senhora pode ser melhor que mamãe.

também li, em ebook, edda em prosa - gylfaginning e skáldskaparmál (de snorri sturluson). o autor defendia a teoria de que reis e figuras históricas eram invocados em combates e venerados até serem lembrados apenas como divindades, e faz paralelos desses deuses com personalidades troianas e com o cristianismo. acho engraçado os absurdos: uma vaca lambe um bloco de gelo e dali saiu o homem que seria avô de odin; heimdallr, o guardião dos deuses na bifröst, é filho de nove damas, todas irmãs; com angrboda, uma gigante, loki teve como filhos o lobo fenrir (que matará odin no ragnarök), a serpente jörmungandr (que circunda toda a terra mordendo sua própria cauda) e hel (que tem poder sobre o nono mundo e reparte as moradas entre os mortos de doença ou idade avançada); loki se transforma em égua para atrair um cavalo que ajudava um gigante (para atrapalhá-lo) e acaba tendo "certas relações" com ele, mais tarde dando à luz a um potro cinza de oito patas; a baba que corre da boca de fenrir, preso por um grilhão feito de seis coisas "inexistentes" (o ruído de um gato ao andar, a barba de uma mulher, as raízes de uma montanha, os tendões de um urso, a respiração de um peixe e o cuspe de um pássaro), forma um rio chamado ván; um navio chamado skídbladnir é grande o suficiente para todos os æsir embarcarem nele, mas quando não há motivo para usá-lo no mar pode ser dobrado como um guardanapo e guardado num bolso... mas é massa reconhecer referências/inspirações de outras obras: freyja tem um colar chamado brísingr, como a espada/feitiço de eragon; heimdallr tem o gjallarhorn, como a banda finlandesa que fala sueco; angrboda, gigante mãe dos filhos sinistros de loki, é o nome da filha de floki e helga em vikings; der ring des nibelungen, ópera alemã, se inspirou numa história do edda bastante parecida com lotr, que por sua vez tem muitos nomes de anões citados aqui. no que diz respeito aos paralelos e comparações, o autor diz que o longo conto do ragnarök são as guerras dos troianos:

Quando se diz que Öku-Thor usou como isca uma cabeça de boi e fisgou a Serpente de Midgard, mas que a serpente manteve sua vida e afundou no mar, então esta é uma outra versão da história em que Heitor matou Volukrontes, um famoso herói, na presença de Aquiles, e isso chamou o último para ele com a cabeça da presa, na qual foi comparada a cabeça de um boi, que Öku-Thor tinha arrancado. Quando Aquiles foi tragado para este perigo, por conta de sua ousadia, foi a salvação de sua vida que ele fugiu dos golpes fatais de Heitor, embora ele fosse ferido. Também é dito que Heitor travou a guerra tão poderosamente, e que sua raiva era tão grande quando ele avistou Aquiles, que nada era tão forte que poderia ficar diante dele. Quando ele errou Aquiles, que havia fugido, ele acalmou sua ira matando o campeão chamado Roddros. Mas os Æsir dizem que quando Öku-Thor errou a serpente, ele matou o gigante Hymir. No Ragnarök, a Serpente de Midgard veio de repente para cima de Thor e jorrou veneno sobre ele, e, portanto, o matou. Mas os Æsir não poderiam se decidir para dizer que este tinha sido o destino de Öku-Thor, que alguém ficou em cima dele morto, embora isso tivesse acontecido assim. Eles se precipitaram sobre sagas antigas mais do que era verdade quando disseram que a Serpente de Midgard teve sua morte, e eles adicionaram isto na história, Aquiles colheu a fama da morte de Heitor, embora ele jazesse morto no mesmo campo de batalha. (...)

também gostei de alguns aspectos que desconhecia: os dois corvos de odin são pensamento (huginn) e memória (muninn); comparam o choro de todos os seres e coisas por baldr, para que ele fosse trazido de volta de hel, a como "essas coisas choram quando saem do frio para o calor"; terremotos são atribuídos a loki se contorcendo contra o veneno de cobra que cai em seu rosto onde foi acorrentado pelos æsir; no ragnarök será terminado um navio chamado de naglfar, que é feito de unhas não cortadas de homens mortos. foi uma leitura válida.

recebi minhas compras do amazon day e li jumanji (de chris van allsburg) e elefante (de bartolomeu campos de queirós), ambos muito bonitos em suas ilustrações e muito únicos em suas breves histórias. (não vou escrever sobre eles porque posso pegá-los na estante e ler em poucos minutos, então né. única coisa é que confundi jumanji com zathura, só pra depois descobrir que o segundo é sequência e tem livro do mesmo autor.)

depois resolvi participar da maratona literária de inverno, que inicialmente era do dia 16 ao dia 30, mas depois acrescentaram seis dias... fizeram três níveis diferentes (iniciante, intermediário e hardcore) e tinha três desafios pra cada  escolhi o intermediário e encaixei quatro livros nos desafios:

• livro com a capa azul → família schürmann - um mundo de aventuras (heloisa schürmann)
• livro com menos de 200 páginas/escrito por uma mulher → uma duas (eliane brum)
• livro que você comprou pela capa → cyrano de bergerac (edmond rostand)
• livro sem saber a sinopse ou do que se trata/nacional → caminhos cruzados (érico veríssimo)


no domingo que a maratona começou eu tava revendo colegas em outra cidade, então li pouquinho, 30% e alguma coisa de uma duas, de eliane brum (que terminei dia 18). tinha montado um cronograma mostrando onde eu deveria estar em cada leitura a cada dia para ler tudo em tempo; comecei atrasando um dia mas ok. trata-se da história da relação nada saudável entre duas mulheres, mãe e filha, que se sobrepõem à medida que a narrativa submerge nelas – não existe clareza entre o bem e o mal, o certo e o errado, o real e o fictício. ambas são personagens únicas, apresentando um nível de frieza incomparável. livro visceral, intenso e doloroso, me incomodava e não me deixava ficar muito tempo sem pensar nele e querer concluir de vez. o final não é muito definido, dando a entender que foi só ficção pra exorcizar demônios e se abrigar nas possibilidades que a literatura oferece. gostei bastante do estilo; foi o encerramento da experiência com o kindle unlimited.

Finalmente o grito preso ali se solta. E ela sente que nunca mais o grito cessará, que aquele grito é para sempre, é um grito para toda a vida e para além da vida. Porque agora ela alcança a inteireza do horror. E gritos são coisas que não podem ser ditas. Não há como escapar da carne da mãe. O útero é para sempre.
Sempre tive medo de escrever. Da hora de tornar meu sangue símbolo do sangue. Tinha medo por causa da dor desconhecida que talvez viesse, que eu quase podia tocar como certeza. Ainda que eu sangre com sangue, este ritual eu conheço. Ele faz de mim o pouco que tenho de mim. É uma constituição. Me constituo eu pelos cortes em mim. As palavras, não. O que elas farão de mim?
As palavras que rastejam de mim como vermes gordos de hemácias me fazem desconfiar de que não há um sujeito que diz, não há eu. Então, quem fala? De quem são as palavras que me constrangem?
A luta de classes de Marx não é uma luta, é apenas uma divisão entre os que podem fazer perguntas e os que só estão autorizados a dar respostas.
Como sempre, esquece onde está enquanto escreve. A escrita é um lugar que ela pode habitar. É reconfortante escrever sobre a vida dos outros. Esta é a melhor parte de ser jornalista. Poder escrever sobre uma realidade que não precisa virar ficção para ser pronunciada.
Eu sentava na outra ponta da mesa de fórmica da cozinha e ficava olhando-o comer. Ele mastigava muitas e muitas vezes cada bocado e um dia me explicou que era preciso mastigar 98 vezes de cada vez, para ajudar o estômago na digestão da comida e manter a saúde. Fiquei aliviada. Então era por isso que ele não conversava comigo. Eu nem mesmo queria que ele falasse. Não sei se foi aí que começou, mas sempre tive medo das palavras. Das pronunciadas. Preferia ficar ali, compartilhando o silêncio do meu pai.
Minha cabeça se esvaziou. Mais tarde eu intuiria que aquilo era felicidade.
Vivia em mim e seguia a rotina dos dias como uma sonâmbula com os dois olhos abertos só pra dentro. Quem perdeu muito sabe que há um certo alívio em não esperar nada de bom, em não desejar nada.
Tinham me contado que os escritores eram uma espécie de deuses. Eles criavam um mundo em que podiam viver e escapavam deste pela porta dos fundos. Me preparei a vida inteira para ser deus. E só o que faço agora é desinventar a mim mesma. Acho que é isso. A realidade é uma ficção. E ao escrever eu vou quebrando essa criatura esculpida com amor e desespero. É o contrário. É preciso destruir a forma humana que está ali para alcançar a pedra.
Sim, porque eu só sei escrever a mão. E acho que há mais coragem em escrever a mão, sopesando cada letra, que exige esforço e não aparece e desaparece numa tela como se as palavras pudessem simplesmente surgir ou simplesmente ser eliminadas sem que se pague um preço por isso.
Não lembro quem disse, mas isso é um filho. "Aquele que entra em minha casa e não veio de fora".
Se sabemos o que esperar, até mesmo a dor pode ser confortadora. E eu descubro que o pior caminho é melhor que o desconhecido.
Sempre me surpreende o interesse de qualquer homem por mim. Me excita e me ofende ao mesmo tempo.
Dou um sorriso tímido e saio quase correndo, como se fosse uma menina. Nem me lembro de perguntar seu nome. Melhor assim. Os nomes nos ancoram a uma identidade. E o melhor daquele encontro é que ele era fluido, não tinha ficado impresso em lugar algum. Sem nomes, sem registro.
Eu preciso muito de fronteiras e nunca entendi aqueles jargões publicitários de uma vida sem limites. Para mim, a liberdade sempre esteve ligada à capacidade de erguer muros cada vez mais altos.
O branco, ela pensa, não é a soma de todas as cores, mas a ausência de todos os sentimentos. O branco não tem dor nem medo nem vilania. Por isso é a cor da paz, porque é uma soma que subtrai o humano.
Você também não é normal, Laura. Herdou os meus genes deformados e lembra o que não deveria. Eu a salvei, mas a salvei de mim mesma. Fui ao mesmo tempo sua assassina e sua heroína. E acredito que é isso que todas as mães são em alguma medida. Sua Noviça Rebelde não existe. Lembre-se, ela era uma madrasta. Em algum momento, os filhos já tinham matado a mãe verdadeira. Mas ninguém nunca quis saber o que aconteceu com ela. Será que os tumores que tomam conta de mim são aqueles bebês todos que matei e que voltaram para se vingar? Tenho medo, mas se for isso não vou reclamar, porque agora eles podem, e eu não. Estou velha e já não posso afogar ninguém.
A única palavra que eu quis escrever, nascida do meu desejo. Sim, porque você não nasceu porque o seu pai se enfiou dentro do meu corpo paralisado. Você nasceu quando olhou para mim, e eu me vi no seu olhar. E desejei que você vivesse. Você é tudo o que eu sinto de vivo em mim agora que morro.
Pego as mãos da minha mãe, cada vez mais diferentes das minhas agora que a doença a molda à sua imagem e semelhança. O câncer é como uma possessão alienígena de dentro para fora. De fato, não. É uma possessão do corpo pelo próprio corpo. O câncer é tão da minha mãe como as células sadias que fracassam em defendê-la da mutação de suas irmãs. É um filme de terror, filmado por dentro. Uma ficção científica que não é ficção. Fico fascinada com a quantidade de horror que a normalidade nos assegura dia após dia. Para que inventar zumbis e aliens vindos do espaço se existe o câncer?
Abraço meu corpo e choro embrulhada em mim como o tatu-bola da minha infância. Sou um quadro de solidão e desamparo no quarto de hospital. Uma mulher adulta em posição fetal quando a mulher que lhe deu à luz acaba de deixar este mundo. Partiu levando com ela seu útero.
Nenhuma vida se completa. Isso ela agora sabe. Como a mãe, ela também vai esperar que algo se complete, mas a vida seguirá até o fim em aberto, inconclusa. A vida humana é a única que acaba sem um fim, porque é a única que o espera.
Descubro que escrevi sobre a impossibilidade da literatura. O fracasso previamente assumido de tentar transformar vida em palavra. O que mais importa é o que não pode ser escrito, o que grita sem voz e sem corpo entre as linhas. O para sempre indizível.

o próximo livro que separei pra ler foi caminhos cruzados, mas tive tanta dificuldade e falta de ânimo que nem continuei nutrindo esperanças de concluir com sucesso a maratona. fui ler sejamos todos feministas, de chimamanda ngozi adichie, que baixei no kindle há algum tempo atrás por ser um ebook gratuito na amazon. é a transcrição de uma palestra que a escritora fez num evento do TEDx, sobre sua experiência como mulher e como feminista. sempre massa esse tipo de discussão, embora ainda tenha muita coisa confusa na minha cabeça a respeito de gênero e etc (como que seja opressão, não identidade). dá pra ler rapidinho e em seguida assisti a uma palestra a qual ela se refere no começo do ebook, the danger of a single story, que achei incrível.

Se repetimos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal. Se só os meninos são escolhidos como monitores da classe, então em algum momento nós todos vamos achar, mesmo que inconscientemente, que só um menino pode ser o monitor da classe. Se só os homens ocupam cargos de chefia nas empresas, começamos a achar "normal" que esses cargos de chefia só sejam ocupados por homens.
Então, de uma forma literal, os homens governam o mundo. Isso fazia sentido há mil anos. Os seres humanos viviam num mundo onde a força física era o atributo mais importante para a sobrevivência; quanto mais forte a pessoa, mais chances ela tinha de liderar. E os homens, de uma maneira geral, são fisicamente mais fortes. Hoje, vivemos num mundo completamente diferente. A pessoa mais qualificada para liderar não é a pessoa fisicamente mais forte. É a mais inteligente, a mais culta, a mais criativa, a mais inovadora. E não existem hormônios para esses atributos. Tanto um homem como uma mulher podem ser inteligentes, inovadores, criativos. Nós evoluímos. Mas nossas ideias de gênero ainda deixam a desejar.
O que me impressiona – em relação a ela e a várias outras amigas americanas – é o quanto essas mulheres investem em ser "queridas", como foram criadas para acreditar que ser benquista é muito importante. E isso não inclui demonstrar raiva ou ser agressiva, tampouco discordar. (...) Se, por um lado, perdemos muito tempo dizendo às meninas que elas não podem sentir raiva ou ser agressivas ou duras, por outro, elogiamos ou perdoamos meninos pelas mesmas razões.
O modo como criamos nossos filhos homens é nocivo: nossa definição de masculinidade é muito estreita. Abafamos a humanidade que existe nos meninos, enclausurando-os numa jaula pequena e resistente.
Nós policiamos nossas meninas. Elogiamos a virgindade delas, mas não a dos meninos (e me pergunto como isso pode funcionar, já que a perda da virgindade é um processo que normalmente envolve duas pessoas).
E se criássemos nossas crianças ressaltando seus talentos, e não seu gênero? E se focássemos em seus interesses, sem considerar gênero?
A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura.

dia 30 reli é apenas o vértice do mundo interior, de agnieszka piksa, que luiz tinha me mostrado no comecinho do cv2 e descobri que yuri tinha quando fui na casa dele com aldivo após a peça do guto (eita quanta gente mencionada). é uma zine distribuída na 31ª bienal de sp, queria muito ter porque acho muito foda. tem muitas colagens e desenhos, fala sobre várias coisas muito interessantes (as que mais gosto são essas que anotei – o mais próximo possível de como tava na zine, por sinal). o nome em inglês é it's just the spin of inner life, além de que vi escrito vórtice (em vez de vértice) em algum lugar, o que me faz pensar que talvez trocaram uma letra aí, porque faz mais sentido se comparado com spin, né...

O processo da vida
quando penso nesta vida, cara...
– quero dizer...
primeiro, éramos espermatozóides...
depois entramos na célula, e de certo modo já não éramos mais espermatozóides
começamos a nos desenvolver como embriões...
depois disso, saímos do corpo da mãe de forma realmente apocalíptica, e nos tornamos crianças... e mais tarde humanos adultos
em cada uma dessas etapas, fomos transformados completamente, existindo em cada fase como seres totalmente diferentes
nós não nos lembrávamos do estado anterior de nós mesmos e não podíamos prever o que vai vir depois
muito provavelmente tínhamos certeza de que o fim daquela fase era o fim da nossa existência.
não podemos nem mesmo afirmar que era ainda o mesmo nós passando por todas essas fases!
então, como podemos acreditar que esta vida é a última vida e que a morte é mesmo o fim?
Carta de um deus
neste sonho, recebo resposta email dele.
obrigado por enviar seu currículo geral, o sr. deus apressia sua sinceridade, considerando seus erros. nós apoiamos os erros, porque erros também são uma forma de entender as coisas.
e pouco mais tarde, seus delegados vêm com a proposta:
nosso consórcio está satisfeito com sua proposta de projeto – você trabalhará no estabelecimento da embaixada do céu
no mundo subterrâneo, isto é, no inferno. logo, assinamos o acordo com os parceiros de negócio do outro lado do rio estige – o acordo tem muitas páginas, procedimentos complicados de visto são garantidos para todos os candidatos à viagem... /lista de pecados, lista de benfeitorias, confirmação das desflorações cometidas, exame de pensamentos sujos, relatório do nível dos bônus cármicos, sofrimentos antecipados, facadas nas costas, ações equivocadas, sedimentação de boas intenções, scan da aura.../ assim como o rigoroso controle de fronteira de ambos os lados do rio subterrâneo e punições drásticas por tentativas de emigração ilegal
eu, como diplomata pela minha natureza profunda, acordo me sentindo muito feliz, com uma visão de uma futura união democrática entre o céu e o inferno. embora ainda não tenho certeza do que meu empregador diria sobre isso...
Justiça para os aliens
na maioria dos filmes de ficção científica, não há justiça alguma. quero dizer: por que os aliens sempre têm de ser perversos e maus, inimigos dos seres humanos? na maioria dos filmes, eles são normalmente representados como predadores, animais, feras primitivas que apenas se empenham em obter carne humana e destruição... embora sejam ao mesmo tempo cultos o bastante para consequirem construir e pilotar espaçonaves de alta tecnologia, máquinas do tempo etc, que estão muito além ds nossa imaginação tecnológica e científica. isto não é um paradoxo? que estariam eles interessados em carne humana e em fazer-nos sofrer, quando podem fazer muitas outras coisas legais e civilizadas como voar para qualquer lugar do espaço, teleportarem-se daqui para acolá, jogarem mortal kombat com robôs etc? se fossem tão civilizados, por que obedeceriam a instintos primitivos tão baixos e básicos? na verdade, isto cheira realmente a projeção dos seres humanos. imagine, por exemplo, se agentes de alguma cultura alienígena do espaço sideral aparecessem amanhã diante de nós. o que aconteceria? graças à imagem de um alien, como um de nossos piores inimigos, que foi implementada na consciência coletiva graças a filmes sci-fi populares/comerciais, a população da terra provavelmente saudaria esses agentes com armas, facas e bombas. em lugar de flores e uma taça de vinho, e isto não é justo, a existência de culturas alienígenas ainda não foi confirmada, mas este fato nos autoriza a projetar todo o nosso ódio e necessidade natural pela incorreção nesse espaço vazio? o que isto nos diz sobre nós, humanos? parece que o pensamento sobre o "inimigo desconhecido" nos leva a conhecer melhor nossas próprias partes vergonhosas. Quem produziu essas imagens de aliens senão nossa própria mente, ao tentar se ver livre de suas próprias partes vergonhosas. depois que contei isto a um amigo que é cartunista, ele tirou uma boa conclusão, mencionando o filme solaris, dirigido por andrei tarkovski a partir do livro de stanislaw lem. nesse filme, astronautas estão tentando se comunicar com um planeta alienígena, que na verdade é um grande organismo consciente... mas toda tentativa de abordá-lo desperta e materializa os elementos mais baixos e subliminares de seu próprio subconsciente, obrigando-os a encará-los e a lidar com eles. meu amigo cartunista disse: – sim, este é o filme que vamos mostrar a eles primeiro quando nos visitarem.
Aliens do espaço sideral, quem quer que sejam, peço desculpas a vocês diante da raça humana.
(15/03/2016)

nesse dia também terminei caminhos cruzados, de érico veríssimo. no começo eu não conseguia ler sem ser tomada por um sono insuportável, então não engatei na leitura até passar da metade. é "um livro de protesto que marca a inconformidade ante as desigualdades, injustiças e absurdos da sociedade burguesa" – são vários personagens inseridos em núcleos completamente diferentes, cujos caminhos se cruzam de alguma maneira durante os cinco dias de que tratam a história e exibem diferentes perspectivas sobre os eventos. é assim:

teotônio leitão leiria, rico que se considera merecedor de uma noite com uma prostituta (cacilda), demite gente de sua empresa sempre que alguém influente pede emprego pra outra pessoa e critica os novos-ricos;
dodó leitão leiria, sua esposa, senhorinha empertigada em ser devota de santa teresinha e ajudar os pobrezinhos, adorando aparecer no jornal como grande figura da caridade;
vera leitão leiria, filha única do casal, é apaixonada por chinita e despreza o advogado armênio, que não desiste de cortejá-la;
virgínia madeira, só faz desdenhar seu marido, seu filho e suas criadas, convencida de que sua vida é insuportável e alimentando um amante platônico com quem troca olhares todo dia às cinco horas;
noel, filho de virgínia, é extremamente inseguro por causa da falta de afeto dos pais e se refugia em mundos paralelos criados a partir de livros e histórias, sendo trazido à realidade pela mão da amiga fernanda;
zé maria pedrosa, coronel, ganha na loteria e se muda de jacarecanga para porto alegre, onde constrói um palacete, arruma uma amásia e gasta sem limites para se exibir, além de pensar sempre no amigo que o criticava na cidadezinha ("Quero só ver a cara do Madruga!");
chinita, filha de zé maria, vive num mundinho próprio onde finge ser atriz de hollywood e leva a vida como se tudo fosse parte de um filme;
maria luísa, esposa de zé maria, que só sabe lamentar-se de absolutamente tudo e se ausentar de qualquer decisão, pensando na antiga vida em jacarecanga e em como tudo mudou pra pior (me fazia pensar sempre na senhora de longa jornada noite adentro);
salustiano, passa uma noite com cacilda mas é namorado de chinita, não faz nada da vida além de receber uma mesada gorda e desfrutar de seus privilégios;
joão benévolo, desempregado, vive numa fantasia com suas leituras onde esquece das precariedades pelas quais passa com sua esposa e filho, recebe diariamente a visita do ex-noivo de sua esposa, que permanece "esperando" a hora certa pra recuperá-la;
fernanda, filha mais velha de dona eudóxia, trabalha para leitão leiria e cuida da casa, sendo uma segunda mãe para o irmão, além de ser amiga fiel de noel desde a infância de ambos;
pedrinho, irmão de fernanda, adolescente que se apaixona pela "mulher à-toa" com quem teve sua primeira relação sexual (cacilda) e junta trocados que recebe da irmã para poder comprar um colar e presenteá-la;
maximiliano, tuberculoso desenganado, cuja morte é aguardada com ansiedade por sua esposa, para que ela possa buscar trabalho e uma melhora de vida para os filhos;
clarimundo, professor, só se importa com a ciência e corrige quem fala errado, colocando-se num patamar superior a tudo e todos.


gostei bastante da narrativa do autor e achei muito engenhosa a construção da história. tatiana feltrin disse que foi um dos primeiros livros a conter um romance lésbico, apesar de nada passar de um beijo desesperado interpretado como diversão por chinita. no final noel e fernanda confessam amar um ao outro, sem precisar de palavras; dodó recebe a atenção especial do jornal no dia de seu aniversário; chinita cai nos encantos de salu e descobre o mundo de prazer que reside no sexo (a primeira vez que eles fizeram foi bem horrível, eu gostava do nome salu mas depois dessa não engoli mais seu personagem); maximiliano morre em decorrência de dona dodó ter se esquecido de mandar que o levassem para o hospital; o "amante" de dona virgínia é assassinado pelo esposo da mulher com quem ele tinha um caso e ela se sente traída, por algum motivo; maria luísa recebe uma carta anônima de leitão leiria denunciando que seu marido tem uma amante, mas nem se surpreende já que o pessimismo é parte dela; joão benévolo desfalece na rua depois de um dia sem se alimentar, procurando emprego, e as pessoas que o cercam e o recolhem julgam que o ocorrido foi por conta de bebida. a obra termina com clarimundo escrevendo o antelóquio (prefácio) de seu livro, o homem de sírio, entidade que observa a terra desde essa estrela e supostamente tem visões reveladoras acerca da vida no nosso planeta – ele se convence de que a vida é monótona e não tem nada de romântico, mencionando o que enxerga de seus vizinhos pela janela. é ótimo porque muitos núcleos da história estão ali, à sua vista, mas a distância que mantém de tudo faz com que ele pense que não há nada a acontecer.

vou mostrar só a parte de julho da MLI aqui, mesmo. ainda tenho que ler dois livros, supostamente, mas tô sem vontade. quero me dedicar aos livros da lista de leitura da unicamp. mas ok, é isso.

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