Mostrando postagens com marcador romance. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador romance. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 31 de maio de 2018

lidos/assistidos em maio

things fall apart (chinua achebe)
livro desse autor nigeriano importante, teórico literário e tal. conta sobre uma aldeia igbo, foco em um cara chamado okonkwo. seu pai não gostava de trabalhar, morreu de doença, pesava sobre ele como um lembrete do que ele era no fundo. okonkwo fica responsável por um jovem de outra aldeia que recebem pra compensar a morte de uma moça, mas mais pra frente o mata. bate nas esposas e nos filhos, é raivoso, etc. mata alguém sem querer com uma flecha, acho, e se exila por alguns anos na aldeia de onde sua mãe viera. chegam os brancos com a religião cristã e mais coisas passam a despedaçar. é bem sobre isso, sobre coisas que já estavam desmoronando serem intensificadas com a colonização ocidental. no final ele se suicida e termina de um jeito chocante, o branco refletindo que daria um bom trecho pro livro sobre aquela região, aquela conquista. achei um pouco maçante o desenvolvimento do livro, mas o contexto todo é bem pesado. mais que uma resposta aos cânones, tem a ver com devolver a história a um lugar que não teve direito a ela.

beginners (2010)
tem o cara de perfect sense. o pai dele se assume gay com uns 70 anos, depois da mãe morrer. depois de pouco tempo descobre que tá com câncer e morre. o cara trabalha como ilustrador, tá meio deprimido, cuida do cachorro do pai (que não consegue ficar sozinho). conhece uma mulher numa festa à fantasia que os amigos o levam, ela é atriz e não fica muito em nenhuma cidade. os dois têm costume de deixar pessoas e por isso são "iniciantes" na coisa do relacionamento. legal as partes com imagens e ele narrando algo como "these are the stars in 1970. this is the president. this is the couples", etc.

frank (2014)
banda de gente doida, o principal sendo um cara que usa o tempo todo uma cabeça de sei lá o quê. um tecladista entra no grupo e acaba manipulando as coisas do jeito que acha que vai dar certo, com youtube e internet, mas só estraga tudo. no fim consegue reuni-los de volta, o cara já sem a cabeçona que usava (porque foi atropelado e ela quebrou). baseado em coisa real, um tal de chris sievey que tinha esse personagem chamado frank sidebottom, cabeça parecida com a do filme e tal. mudava a personalidade e tudo. filme sem muita graça, levemente interessante.

léon (1994)
assassino profissional que acaba tendo que cuidar de uma menina cuja família era vizinha dele, mas foi morta por policiais corruptos envolvidos com tráfico de drogas. ela vira sua aprendiz, finge que é sua filha ou amante, etc. ele se afeiçoa à menina, diz que todo o dinheiro que fez com seu trabalho vai ficar pra ela, percebe que sua vida não tinha sentido antes. finalmente vendo a referência de "this is from mathilda". legal.

out of africa (1985)
dinamarquesa se casa com um amigo pra poder ser baronesa e ter uma fazenda na áfrica (no quênia). plantam café apesar de não ser terra pra isso, ela faz o que quer com os "nativos dela", etc. se apaixona por um explorador e tal. filme longo demais, nenhuma novidade sobre a visão imperialista.

guerra e spray (banksy)
fernanda disse que tinha dois livros em casa e me deu um deles. artes de banksy que é difícil de não ler/falar bansky, uns textos, legal. humor ácido e grafite massa.

preconceito linguístico (marcos bagno)
livro pra tratar sobre isso, questões de ensino, etc. fiz uma resenha pra aula de introdução aos estudos da linguagem, então nem vou me aprofundar aqui.

chappie (2015)
filme de robô com yolandi visser e ninja, dev patel e hugh jackman. engenheiro criador de androides que substituem policiais na áfrica do sul aperfeiçoa as coisas pra fazer um robô capaz de ter emoções e etc igual a seres humanos. criminosos (die antwoord) sequestram o cara e ficam com o robô, yolandi põe nome de chappie, trata ele como filho. umas perseguições entre criminosos, depois um outro engenheiro querendo acabar com as coisas do primeiro pra poder ganhar espaço na empresa com seu projeto maior e mais violento. chappie precisa de outro corpo porque a bateria dele já tava no fim e não dava pra trocar, descobre um jeito de transmitir consciência e faz isso com o criador também, de uma forma inexplicável e do nada. bem bestinha.

frango com ameixas (marjane satrapi)
história de como o tio-avô da autora morreu. era músico mas a esposa quebrou o instrumento dele, não encontrou nenhum tão bom quanto o que tinha, observou que era infeliz e decidiu morrer – levou 8 dias pra falecer. frango com ameixas era a comida preferida dele. interessante o que acontece, as questões, o anjo da morte que aparece, etc. fala de quando a mãe dele morreu, que antes tinha ficado acamada e pediu a ele que parasse de pedir a deus que ela não morresse porque era a única coisa que a impedia disso. triste e me fez pensar em coisas que ouvi dizerem.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

lidos/assistidos em abril

the lovely bones (2009)
já tinha visto mas não lembrava de tudo. saoirse ronan é muito perfeitinha, chega a ser estranho. decepcionada com o final que o assassino levou, podia ter sofrido bem mais, nem preso foi. e a menina prefere beijar o garoto que fazer algo contra o cara...? sei lá esse negócio de perdão, viu. mas ok, interessante até. bem irreal as cenas do "céu" e tudo mas não me incomodou, esperava isso mesmo. agoniazinha da situação toda.

otherlife (2017)
droga de pingar no olho que dá experiência de muito tempo em pouco tempo e claro que vira black mirror numa hora. um cara usa uma amostra sem teste e se estrebucha todo, a mulher responsável é "condenada" a viver um ano dentro da coisa. passa o tempo mas recomeça, e aí ela percebe que tá num lugar real isolada. não entendi quando troca de um pra outro. perseguição pra recuperar um negócio que a mulher fez pro irmão que tá em coma; no final ele só queria morrer em paz. me identifico. achei meio filme de larissa.

apocalypse now redux (1979)
explosões e mortes e absurdos. this is the end, my only friend. coronel-tenente ou sei lá doido que pensa em surfar durante batalha e gosta do cheiro de napalm pela manhã, gente se drogando pra suportar, cara enlouquecido no meio de nativos. o coração das trevas só que vietnã. review/comentários relevantes aqui e aqui. nem vou falar muito sobre porque estudar isso em TL e fazer resenha dessas coisas já fez dar o que tinha que dar.

o coração das trevas (joseph conrad)
rt a última frase. resenha aqui.

kimi no na wa (2016)
troca de corpo e incongruência no tempo inesperada. me perguntei mesmo porque não ligaram um pro outro antes, mas entendi. só fica estranho como não perceberam as datas na escola ou nos celulares, sei lá. será que aconteceu de verdade uma queda de meteorito em algum lugar e destruiu gente? não imaginava que faziam um tipo de sakê mastigando e cuspindo o negocinho. só em filme essa coisa de jovens explodindo o lugar que distribui energia e repassando comunicado em postes alto-falantes (ou, pelo menos, difícil de imaginar possibilidade). legal sobre a hora dourada/mágica. emocionei que ele escreveu "te amo" em vez do nome; talita disse que faria muito e eu provavelmente também. já tava angustiada deles não se falarem no final, porque pareceu aquele outro filme japonês que vi. reconheci o intérprete da música tema mas não lembro onde ouvi radwimps antes, talvez trilha sonora de anime mesmo.

la battaglia di algeri (1966)
sobre a guerra de independência da argélia. batalha de alger, a capital, várias estratégias dos "rebeldes", questão da mídia, segregação e outros assuntos. bacana o filme, diretor comunista e tal. li ensaio de edward said sobre ele. parece que um personagem é interpretado pela pessoa real que participou das coisas. resenha aqui.

l'avenir (2016)
chato. professora de filosofia com mãe deprimida que uma hora morre. o marido tem amante e decide ir embora. ela fica com a gata da mãe, visita fazenda onde ex-aluno mora, a gata se aventura pelo mato. o neto nasce e a filha chora.

meursault, contra-investigação (kamel daoud)
livro pra dar identidade e história ao árabe morto por meursault em o estrangeiro. o irmão mais novo vai contando, questionando, provocando. fala da guerra de independência da argélia, de ter matado um francês, da maneira como foi afetado por tudo. interessante e bacana que existe, mas não achei aquelas coisas. li o contraponto antes como sugestão de elena, pra não ir com a ideia de que uma obra depende da outra. umas falas boas.

Anotaste bem? O meu irmão chamava-se Moussa. Tinha um nome. Mas permanecerá o árabe, e para sempre. O último da lista, excluído do inventário do teu Robinson. Estranho, não? Desde há séculos, o colono aumenta a sua fortuna dando nomes àquilo de que se apropria e retirando-os ao que o incomoda.
(...) O último dia da vida de um homem não existe. Fora dos livros que narram, nenhuma salvação, apenas bolas de sabão que rebentam. É o que melhor prova a nossa condição absurda, caro amigo: ninguém tem direito a um último dia, somente a uma interrupção acidental da vida.
(...) Mas não, ele não o nomeou, porque, desse modo, o meu irmão teria colocado um problema de consciência ao assassino: não se mata facilmente um homem quando ele tem um nome.
(...) Para mim, a religião é um transporte coletivo que não utilizo. Gosto de me aproximar desse Deus, se for preciso a pé, mas não em viagem organizada. Detesto as sextas-feiras, creio que desde a Independência. Serei crente? Resolvi a questão do céu através de uma evidência: entre todos aqueles que se entretêm a falar sobre a minha condição – grupos de anjos, de deuses, de diabos ou de livros –, soube, muito jovem, que eu era o único a conhecer a dor, a obrigação da morte, do trabalho e da doença. Sou o único a pagar as facturas de eletricidade e a ser comido pelos vermes no fim. Portanto, rua! Para começar, detesto as religiões e a submissão. Ocorre a alguém correr atrás de um pai que quase nunca pôs o pé na terra e que nunca teve de conhecer a fome ou o esforço para ganhar a vida?

o estrangeiro (albert camus)
já sabia tanto sobre a história que não foi nada inesperado. matou por causa do sol e do sal, foi julgado pela insensibilidade no velório da mãe, ninguém se importou com o árabe. gente em TL dizendo que tem a ver com existencialismo, angústia do ser, nada faz sentido e não importa quem seja; várias coisas a serem analisadas sob a ótica da experiência imperial francesa. vou estudar mais disso então nem vou comentar muito, mas dá certo incômodo de ler, toda hora falando de coisa física e o protagonista indiferente a tudo. talvez proposital. irônico ter que fazer essa leitura bem quando me sinto angustiada em existir.

sábado, 31 de março de 2018

lidos/assistidos em março

vendo vozes (oliver sacks)
tava na lista de quero ler e surpreendentemente foi uma das primeiras leituras solicitadas na faculdade. é sobre surdez, mas vai bem além disso – língua, linguagem, pensamento, aprendizagem, cultura surda, ativismo… muito massa e interessante, aprendi bastante. várias coisas que eu nunca tinha considerado, eventos incríveis através da história, coisas péssimas cuja influência persiste até hoje. lá vai resumão: os surdos receberam maior atenção pela primeira vez no século 18, com um abade francês que se preocupava com a questão de não serem capazes de se confessar nem de ouvir a palavra de deus. ele percebeu que se comunicavam por sinais e se dedicou a ensinar a gramática francesa a essas pessoas, pensando que faltava algo em sua linguagem (o que não era bem verdade), no que chamou de “sinais metódicos”. até então, esses surdos viviam como marginais, pobres andarilhos, cujos direitos humanos fundamentais eram negados; trinta anos depois já existiam 21 escolas para surdos na europa, com muitos alunos se tornando filósofos e educadores. tem aí uma perspectiva iluminista de universalidade, levar o conhecimento para todos e tal. já no século 19, um surdo que havia sido aluno de uma dessas escolas foi para os estados unidos e co-fundou o american asylum for the deaf, que mais tarde se tornaria a primeira instituição de ensino superior para surdos no país, a gallaudet university. a língua de sinais americana derivou-se da francesa, portanto (acho que o mesmo aqui, na verdade, porque quem sugeriu a criação de uma escola para surdos no brasil foi um ex-aluno dos métodos do abade também). lá pra 1870 surge a figura de alexander graham bell, que desfaz o trabalho de um século em poucas décadas – inventor do telefone, popularizou o ensino oralista nos estados unidos e influenciou a decisão tomada em 1880 num congresso de educadores de surdos: abolir o uso da língua de sinais nas escolas. fala-se bastante sobre como o ensino oral significa deterioração no aproveitamento educacional e na instrução de surdos, não só pelo tempo enorme gasto ensinando crianças a falar mas também pela menor exposição ao aprendizado “incidental” que ocorre fora da escola. imensamente importante que crianças surdas tenham língua de sinais como primeira aquisição, já que é sua língua natural – bebês são capazes de fazer o sinal pra “leite” com 4 meses de idade… terríveis consequências quando existe privação de linguagem – (...) ser deficiente na linguagem, para um ser humano, é uma das calamidades mais terríveis, porque é apenas por meio da língua que entramos plenamente em nosso estado e cultura humanos, que nos comunicamos livremente com nossos semelhantes, adquirimos e compartilhamos informações. Se não pudermos fazer isso, ficaremos incapacitados e isolados, de um modo bizarro. (...) E, de fato, podemos ser tão pouco capazes de realizar nossas capacidades intelectuais que pareceremos deficientes mentais. não só isso, mas a língua atua como intermediadora do pensamento abstrato – Falamos não apenas para dizer a outras pessoas o que pensamos, mas para dizer a nós mesmos o que pensamos. A fala é uma parte do pensamento. muitos casos de surdos que levam décadas até receberem abordagens adequadas e adquirirem consciência de seus próprios pensamentos, do conceito de passado e futuro, várias coisas absurdas – a língua transforma a experiência. a influência do fator emocional nessa aprendizagem, a necessidade de transação com outra pessoa para desenvolver linguagem, a existência fantástica de comunidades bilíngues inclusivas, a visão de mundo totalmente diferente que línguas de sinais possibilitam a quem as utiliza, o embate entre deficiência e cultura… só nos anos 60 a língua de sinais foi reconhecida como língua de verdade, estudada por um linguista – o que possibilitou um resgate, mas que tem se dado a passos lentos; tem muitos fonoaudiólogos que proíbem surdos de gesticular, pais que não admitem que os filhos não pertençam a seu mundo, gente que discrimina… tantas questões. muito o que pensar!

uma era de ouro (tahmima anam)
história que se passa durante o período da guerra de independência de bangladesh, que antes era paquistão oriental e eu não sabia (pensava até que bangladesh era cidade indiana). no caso, o paquistão ocidental ocupa o país por 9 meses tentando unificar, apesar de cada um estar de um lado da índia. única parte interessante é isso, na real… narração arrastada, romance desnecessário, protagonista sem graça. umas reações incomuns às coisas, sem tentar agradar – talvez isso seja inovador, mas nada que me tenha feito gostar mais da leitura. ela é viúva, os filhos vão morar com o tio porque não tinha como cuidar deles, ela rouba uma joia de um velho pretendente e constrói uma casa pra alugar, recupera as crianças. os filhos são estudantes, comunistas, apoiam a independência de bangla. tem a questão das línguas, urdu e bengali… os que invadiram o país massacrando tinham preconceito com hindus também. ruinzão as torturas de guerra e tudo o mais, acampamentos de refugiados, cidades abarrotadas de gente, agoniante. nojentinho o breve relacionamento; no final o cara se entrega fingindo ser o filho procurado dela, já que sabia que ela faria qualquer coisa pra não perder os filhos de novo.


Quando me ordenais que cante, meu coraçãoparece se romper de orgulho.Olho vosso rosto e sinto nos lábioso sabor molhado das minhas lágrimas.Minha adoração abre suas asascomo um pássaro alegre a voar sobre os mares.Somente assim, minha voz, é que a vós me entrego.Ébrio da alegria sublime de cantar,esqueço-me a mim mesmo e vos chamo de amante,a vós, que sois senhora de mim.Vós me fizeste parte do que é eterno, porque assim o quiseste.

Ela se lembrou de um verso de Ghalib. Zindagi yun bhi guzar hi jaati. A vida teria seguido seu curso previsível, teria continuado como sempre, não fosse o amor. Tudo nela agora estava diferente.


byōsoku go senchimētoru (2007)
primeiro filme do netflix que baixei pra  ver e que merda, escolhi justamente o que falava de relacionamento à distância e era triste. a chain of short stories about their distance – no primeiro conta como esse casal de amigos se conheceu na escola, crianças, e antes de começar o ensino médio a menina se muda da cidade. trocam cartas e uma hora o menino vai de trem visitá-la, atrasa um monte por causa do clima de neve, senti a angústia junto. fiquei pensando se no japão deixam de verdade adolescentes irem sozinhos buscar amigos nas estações ou ficarem andando na rua deserta tarde da noite. passam poucas horas juntos mas rola romance e começam a namorar. o segundo é quando o menino se muda também, tem uma garota nova que se apaixona por ele; nada acontece, ela percebe que ele tá sempre olhando pra “coisas longínquas”, não pra ela. tão escolhendo carreira (estranho esse processo no japão) e essa menina não quer nada, mas aprende indiretamente com ele a ir fazendo o que der. numa hora diz algo como “você é tão gentil comigo que me dá vontade de chorar”; parece que filmes japoneses tem o costume de dizer umas coisas assim, sei lá, mais reais (pra mim, pelo menos). na última parte já cresceram, ele tá trabalhando muito e o relacionamento já não existe. quer dizer, sei nem se o que ele se refere de ter durado três anos é com a menina do começo ou outra pessoa, porque não reconheci o nome e os detalhes da aparência que mostram. a do começo parece que vai se casar… o cara tá triste e se demite, percebe que a vida não tá fazendo sentido; não por causa do término, mas só isso mesmo. claro que chorei. não entendo por que falam os nomes diferente do que aparece na legenda. e supostamente cinco centímetros por segundo é a velocidade que leva pras pétalas de cerejeira caírem no chão.

suffragette (2015)
filme sobre o movimento da classe operária feminina britânica que lutou pelo voto pras mulheres. absurdo a repressão e o tempo que levou, pior ainda pensar que tem muita coisa pra mudar no mundo ainda. merda o cara dando o garotinho pra adoção porque supostamente não podia ser pai e mãe dele sozinho, sendo que tem tanta mulher que faz isso... não deve ser real essa parte da maud watts mas bem capaz de ter acontecido, triste pensar. me pergunto se seria capaz de fazer greve de fome, se participaria de ativismos assim em outras épocas. bem merda também que acaba sendo uma conquista de uma pequena parcela das mulheres; tem nem personagem negra, por exemplo. apesar disso é massa pensar o que significou, o que temos hoje e devemos às sufragistas. chorei em vários pontos porque sou besta e qualquer coisinha relacionada a minorias me abala forte.

coraline (2009)
não lembrava se já tinha assistido isso antes e muito capaz que sim, porque é reconhecível muita coisa. bizarrinho, negócio meio pesadeloso, mas ok. coraline chata, irritante como fala e age… me incomodava quando começava a comer alguma coisa e largava um monte. o nome é como inverter as primeiras vogais de caroline mesmo, né? só penso em cora coralina, mas nem sei se é nome real ou inventado.

equals (2015)
achei ruim, mas pelo menos tem kristen. engraçado ela fazer filme de futuro fictício onde humanos não têm emoção, considerando o que falam da falta de expressão dela (na real eu gosto das caras que ela faz). parece tão lésbica, podia muito bem ser casal homossexual os protagonistas. acho besta a cara daquele ator, não sei, talvez por lembrar do filme lá que ele é zumbi... e bem nada a ver e esquisito de pensar essa realidade, mas falando assim pareço meu pai que despreza todo filme que tem coisa impossível. pensei que seria um romeu e julieta distópico, com suicídio e tudo, desperdício aí. em vários momentos quis mandar gente ir se f*der. como ninguém percebeu que de noite ela ia pro apartamento dele? e queria saber de onde vinha as comidas, pra quem ficava esse trabalho. doido pensar na tensão sexual e ninguém tendo ideia de como funciona isso. bem desumanizador esse negócio de não ter sentimentos, né.

13th (2016)
documentário sobre o encarceramento em massa nos estados unidos desde os anos 70 e sua ligação histórica com a escravidão e a exclusão da comunidade negra. 2 milhões de detentos nos eua, 25% da população carcerária do mundo inteiro – como pode? não imaginava que existia uma emenda na lei americana que coloca prisioneiros no nível de escravos, nem que sentenças são determinadas previamente e que quase não tem julgamentos; absurdo demais. isso de prenderem ex-escravos por qualquer coisinha após a abolição, segregação racial, crack, guerra às drogas, stand your ground, 3 strikes, campanhas políticas, policiais assassinos, véi! tanta coisa colocando negros como o alvo, genocídio mesmo, além de outras poc e imigrantes. muita merda no mundo, angústia no peito e lágrimas nos olhos. muita coisa pra ser arrumada. mostra o black lives matter, pelo menos uma esperançazinha no final.

the black panthers: vanguard of the revolution (2015)
documentário que conta a história de um dos movimentos mais relevantes do século 20, os panteras negras. vi logo em seguida desse último então algumas coisas já sabia, certas figuras que são estatística dessa política criminal horrível… na verdade esses dois filmes passaram em sessões de cinema no iel, mas eu não quis ficar até de tarde pra assistir lá. legal saber melhor como isso funcionou – essa questão de policiais abusarem de violência nas capturas motivou um grupo de negros a sair armado pra ficar por perto quando alguém era detido, só pra supervisionar que nada passasse dos limites (e pra intimidar também). foi ganhando popularidade e se espalhou pelos eua inteiro, criou um programa de sobrevivência que dava café da manhã pra crianças, vendeu jornais pra caramba, mais tarde registrou muita gente pra votar. vários símbolos e líderes; bacana o nome huey e os dentes desse cara. bem merda a violência, mortes, injustiça e tudo. show por ter ido contra o governo americano, ter unido tanta gente, pela resistência, reafirmação e tal. gente estilosa. power to the people… mesmo tendo se dividido e depois acabado, as lutas continuam atuais e necessárias. parafraseando, pode-se prender revolucionários mas não pode-se deter uma revolução.

into the wild (2007)
massa. filme que a gente assiste em dia triste e fala umas coisas que dá vontade de chorar. vontade de ir viver sozinha também, longe desse negócio todo de carreira e família, pensamentos de nada fazer sentido e impossível ficar bom. não sabia que tinha kristen. me pergunto se dá pra fazer esse tipo de coisa e se manter vegano; deve ser complicado em lugares tipo alaska e tal. dá pra arrumar empregos sem identidade e tudo? trabalhar quando precisa juntar dinheiro e ir fazendo o que dá, parece bom. não lembrava que era daí a frase happiness only real when shared. essa necessidade do outro… pra validar tudo, poder afirmar que a gente existe. meio desesperador. ficava sempre pensando como seria se fosse mulher fazendo isso tudo, apesar de ter uma ideia pelo filme wild que vi ano passado com talita. o senhorzinho do monte da salvação parecia real, não ator; será? enfim, gostei e alguma hora vou querer voltar e rever, ou então ler.

the butterflies of zagorsk (1990)
documentário sobre os surdocegos da escola fundada por lev vygostky, na rússia. absurdo e incrível; o método foi pioneiro nos anos 70, em um contexto de união soviética que procurava valorizar a todos e não ver ninguém como incapaz (apesar de os estudos desse psicólogo levarem o nome de defectologia). pra quem perde a visão e/ou a audição na infância ou adolescência ainda dá pra compreender como se dá o aprendizado de novas formas de comunicação, mas e quem nasce assim? aquilo de surdez pré-linguística e pós-linguística de que oliver sacks fala em vendo vozes… vi sobre helen keller e haben girma também, e a última oraliza perfeitamente pois tem audição residual, diferente de helen, que tem “sotaque de surdo” (e haben fala high-pitched porque provavelmente consegue ouvir melhor nessa frequência, o que a permite controlar sua fala). os sinais ensinados em zagorsk são o alfabeto manual soletrado, o que me parece bem complicado de fazer, mas entendível já que se usa apenas uma mão… impressionante a rapidez em que gesticulam. inacreditável tudo; eleonora se emociona e disse que chora o filme todo. legal de existir.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

lidos em dezembro

depois de séculos consegui terminar família schürmann - um mundo de aventuras, de heloisa schürmann, sobre a viagem de dois anos e meio que fizeram em seu veleiro seguindo a rota de fernão de magalhães, português pioneiro em circum-navegar o globo terrestre. aprendi várias coisas, por exemplo, que tem um lago num país da micronésia onde existem águas-vivas inofensivas, que aliá é como se chama a fêmea do elefante e que ovos de avestruz aguentam até 600kg sobre eles. pesquisei bastante sobre o que falavam, os lugares e culturas, e foi legal de conhecer um pouquinho de tanto. heloisa me lembra muito nazira, a professora de química do colégio, e era engraçado imaginar as reações dela dentro das diversas situações relatadas no livro. também pude enxergar na escrita um humorzinho bem parecido com o meu no começo do blog. mencionou várias vezes pigafetta, cronista oficial da esquadra de magalhães, comparando-se a ele e fazendo correspondência entre seu laptop e a pena e tinta dele... na época da viagem apareciam no fantástico. teve uma hora que estavam numa reserva na áfrica do sul e dei risada do que escreveu: Passamos por um Kraal (vila tradicional dos habitantes nativos da área, os Zulus). Os moradores da vila mostraram algumas tradições de sua cultura. O curandeiro da tribo fumava seu comprido cachimbo com um estranho fumo: maconha. 

desde que terminei a lista de leitura da unicamp tenho lido apenas as coisas paradas comigo, e neste mês comecei por um leão em família, de luiz puntel (daquela coleção vagalume). é sobre um menino que encontra um leão que supostamente caiu de um vagão de trem e leva-o pra casa, mais tarde tendo que fugir porque alguém parecia querer matá-lo e não sei o que mais. não gostei nadinha, achei muito besta e ordinário. qualquer pessoa escreveria de um jeito mais agradável.

depois li vito grandam - uma história de vôos, do ziraldo, e me surpreendi demais. é sobre um menino de 17 anos que começa a analisar sua relação com o tio três anos mais velho, victor, e alguns detalhes de sua vida que o conduziram até o primeiro plano da narrativa. ele fala sobre sua escrita enquanto faz isso e achei bastante original, bonito mesmo. vito grandam é como ele escrevera "victor grandão" quando criança, sendo depois o nome usado pelo tio ao voar de asa-delta – e é assim mesmo que meu irmão trocava o aumentativo nas palavras quando tava começando a escrever... gostei de ter lido e esqueci de marcar trechos, mas tudo bem porque é curtinho e posso reler em breve.

li os melhores poemas de mário quintana, que encontrei uma vez no ponto de ônibus em frente ao poli e tá todo destruído (mas com todas as páginas). não gostei muito da poesia de mário quintana não, nada de especial. só anotei alguns melhorzinhos: noturno, presença, sempre, operação alma e envelhecer.

aí li macunaíma, de mário de andrade, e até que me diverti. é bem bizarro e nonsense (vi em algum lugar uma comparação com o guia do mochileiro das galáxias, mas sem a ficção científica), cheio de bagunça e brincadeiras – tanto no sentido que tô acostumada quanto como sinônimo de sexo, usado no livro inteiro. várias vezes macunaíma foge pelos estados do brasil como se corresse por um mapa estendido no chão, coisa que contribui pra não-regionalização da história, presente também na utilização de trocentos nomes de frutas, peixes e tudo quanto é coisa. também tem uns mitos e origens de expressões inventadas (talvez nem tanto), como "vá tomar banho" pros europeus que não estavam acostumados com o compromisso diário de quem vive nos trópicos...

li então o livro do riso e do esquecimento, de milan kundera. É um romance que se refere ao riso e ao esquecimento, que diz respeito ao esquecimento e a Praga, que fala de Praga e anjos. tem várias narrativas sobre situações diversas – um homem envergonhado por seu passado com uma mulher feia perseguido pelo estado repressor; um casal que tem sua liberdade reconquistada após uma visita de mamãe e da amiga entusiasta de 3-ways; duas estudantes que engendram a discussão do riso diabólico e angelical; uma viúva que tenta recuperar cartas e diários abandonados em praga, de onde fugiu; um estudante que se envolve com uma mulher casada do interior, admira poetas nacionais e carrega sua litost (estado atormentador nascido do espetáculo de nossa própria miséria repentinamente descoberta); a retomada da personagem da viúva numa busca de livrar-se do peso que carrega; um homem que encontra harmonia na incompreensão de sua "parceira" e pensa sobre no começo da vida erótica do homem há excitação sem prazer, e no final há prazer sem excitação. tem várias partes onde o autor descreve experiências próprias após a invasão russa da república tcheca, além de falar bastante sobre as coisas que está criando ao escrever. achei bom, meio filosófico como a insustentável leveza do ser (ele até menciona essa ideia na segunda parte de tamina). e percebo que anoto umas coisas que posso querer pensar sobre depois, não necessariamente que me impressionam.

Foi como um despertador que a tirasse de um sonho. E, nesse momento, como ela se abraçasse com Eva (assim como quem dorme, ao ser acordado, se abraça ao travesseiro, para esconder-se da luz perturbadora do dia), Eva perguntou-lhe: Combinado? E ela assentiu, com um gesto que indicava que estava de acordo, e apertou seus lábios contra os de Eva. Sempre a amara, porém, pela primeira vez, amava-a com todos os sentidos, por ela mesma, por seu corpo e por sua pele, e embriagava-se com esse amor carnal como se fosse uma revelação súbita.
Ela quer ter esses diários para que a frágil estrutura dos acontecimentos, tal como a construiu em seu diário, possa receber paredes e tornar-se a casa onde ela poderá morar. Porque, se o edifício vacilante das lembranças cai como uma tenda mal levantada, não vai sobrar nada de Tamina a não ser o presente, esse ponto invisível, esse nada que avança lentamente em direção à morte.
Eles iniciaram uma conversa. O que intrigava Tamina eram as suas perguntas. Não o conteúdo delas, mas o simples fato de ele as fazer. Meu Deus, havia tanto tempo que não lhe perguntavam nada! Tinha a impressão de que havia uma eternidade! Só seu marido lhe fazia perguntas sem cessar, porque o amor é uma interrogação contínua. É, não conheço definição melhor do amor.
(...) No barro úmido sem mato e sem árvores, acossados por baixo pela cor ocre e amarela e, do alto, por nuvens cinza e pesadas, eles caminhavam lado a lado, calçados com botas de borracha que afundavam na lama e deslizavam. Estavam sós no mundo, cheios de angústia, de amor e de inquietação desesperada um pelo outro.
A mulher que ele mais amou no mundo (ele tinha na época trinta anos) lhe dizia (ele ficava quase desesperado quando ouvia isto) que ela só se prendia à vida por um fio muito fino. Sim, ela queria viver, a vida lhe proporcionava uma alegria imensa, mas ela sabia ao mesmo tempo que esse quero viver era tecido com fios de teia de aranha. Bastava tão pouco, tão infinitamente pouco, para se encontrar do outro lado da fronteira além da qual nada mais tinha sentido: o amor, as convicções, a fé, a História. Todo o mistério da vida humana consistia no fato de que ela se desenrola em proximidade imediata e mesmo em contato direto com essa fronteira, que ela não fica separada desta por quilômetros, mas apenas por um milímetro.
O olhar do homem já foi descrito muitas vezes. Ele pousa friamente sobre a mulher, ao que parece, como se a medisse, a pesasse, a avaliasse, a escolhesse, ou seja, como se a transformasse em coisa.
O que não se sabe tão bem é que a mulher não está inteiramente desarmada contra esse olhar. Se ela é transformada em coisa, então ela observa o homem com o olhar de uma coisa. É como se o martelo tivesse de repente olhos e observasse fixamente o pedreiro que se serve dele para fixar um prego. O pedreiro vê o olhar mau do martelo, perde a segurança e dá uma martelada no próprio dedo.
O pedreiro é o senhor do martelo, porém é o martelo que leva vantagem sobre o pedreiro, porque a ferramenta sabe exatamente como deve ser manejada, enquanto aquele que a maneja só pode sabê-lo mais ou menos.
O poder de olhar transforma o martelo em ser vivo, mas o bravo pedreiro tem de sustentar seu olhar insolente e, com a mão firme, transformá-lo novamente em coisa. Dizem que a mulher vive assim um movimento cósmico para cima e para baixo: a elevação da coisa tornada criatura e a queda da criatura tornada coisa.

comecei a ler elogio da loucura também, que felipe me deu, mas tava chatão e acho que vou abandonar.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

lidos/assistidos em novembro

nesse mês terminei de ler o cortiço, de aluísio azevedo, coisa que nem pretendia... mas fiquei olhando a lista de leitura da unicamp, faltando só esse unzinho, e aproveitei que tinha tempo ainda (mentira, foi só uma desculpa pra não estudar sem deixar de estudar). tive que renovar duas vezes o empréstimo na biblioteca, mas não achei tão ruim – nem lembrava de bertoleza se matando com a faca de peixe, que aconteceu literalmente na última página. enfim, aquilo tudo que já ouvi mil vezes: o cortiço sendo o real protagonista, o meio determinando como as pessoas agiam, a galera sendo corrompida, tudo bem escrachado e animalizado. teve sexo lésbico e não lembrava de gláucia contando... tinha outra descrição que me chamou atenção antes mas esqueci de anotar. a seguinte é só um exemplo.

E com um arranco de besta-fera caíram ambos prostrados, arquejando. Ela tinha a boca aberta, a língua fora, os braços duros, os dedos inteiriçados, e o corpo todo a tremer-lhe da cabeça aos pés, continuamente, como se estivesse morrendo; ao passo que ele, de súbito arremessado longe da vida por aquela explosão inesperada dos seus sentidos, deixava-se mergulhar numa embriaguez deliciosa, através da qual o mundo inteiro e todo o seu passado fugiam como sombras fátuas. E, sem consciência de nada que o cercava, nem memória de si próprio, sem olhos, sem tino, sem ouvidos, apenas conservava em todo o seu ser uma impressão bem clara, viva, inextinguível: o atrito daquela carne quente e palpitante, que ele em delírio apertou contra o corpo, e que ele ainda sentia latejar-lhe debaixo das mãos, e que ele continuava a comprimir maquinalmente, como a criança que, já dormindo, afaga ainda as tetas em que matou ao mesmo tempo a fome e a sede com que veio ao mundo.

assisti bem sem atenção um filme ruim que larissa colocou no netflix, chamado sacrifice (2016). bizarrinho.

vi män som hattar kvinnor (2009), porque decidi que vou assistir os filmes que tenho baixados antes de outros... e gostei da versão sueca, me pareceu mais explicada e entendível – apesar de preferir a lisbeth de rooney mara à de noomi rapace (que, inclusive, faz as irmãs gêmeas de um filme que larissa gostou e sobre o qual falei há um tempo atrás).

li alguns livros curtos: um conto de natal (charles dickens), amores diversos (vários autores), olhar de descoberta (vários autores) e histórias para ler sem pressa (mamede mustafa jarouche). o primeiro achei bacana, história conhecidíssima, massa a narrativa de dickens mas nada encantador, sei lá. os dois seguintes são parte da uma coleçãozinha, larissa deixou comigo porque eu queria ler numa época, mas achei bem dispensáveis (o primeiro é de poemas e o outro de contos/crônicas). só gostei mesmo desse poema e o primeiro conto de olhar de descoberta é sobre amizade mas tem muita cara de amor homossexual. o último obtive na feira de troca de livros da biblioteca, peguei por serem histórias árabes... mas esperava mais, achei bem rasas. continuo preferindo malba tahan.

avancei na leitura de família schürmann mas só termino em dezembro, então deixa pra lá.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

lidos em agosto

no comecinho do mês terminei cyrano de bergerac, de edmond rostand, que tava na minha estante há anos desde que comprei no sebo. é uma peça teatral sobre esse herói um tanto quanto pitoresco, com um nariz enorme, muito valente e talentoso. ele acaba cedendo seu dom de escrita a cristiano, que está apaixonado por roxane, prima dele – a quem também ama, mas considera-se sem chances por causa de sua feiura. achei muito massa as coisas que ele compunha e falava se passando por cristiano, como se criasse tudo mas, na verdade, expressando o que sentia. os dois acabam partindo para um combate, no qual cristiano falece; anos mais tarde, roxane fica sabendo do combinado entre eles, quando cyrano está morrendo, e lamenta por um amor duas vezes perdido. achei bastante dinâmico e surpreendente, além de que não esperava que o protagonista tivesse existido de verdade!

em agosto levei meu irmão na biblioteca pela primeira vez, e enquanto fazia companhia a ele na seção infantil li ou isto ou aquilo, da cecília meireles. são vários poemas criativos ilustrados pelo traço lindão de odilon moraes. foi gostosinho de ler; acho que fui conhecer pela jotapluftz há um tempo atrás.

finalmente li coração, cabeça e estômago, de camilo castelo branco. o narrador, silvestre da silva, começa se apaixonando a torto e a direito, sem obter sucesso em nenhum relacionamento; em seguida se dedica ao intelecto, escrevendo para um jornal sobre a sociedade hipócrita de onde vivia, o que (quase?) o coloca na prisão; por último se rende às coisas do corpo, buscando paz e satisfação, e acaba se casando e engordando muito, até adoecer. na verdade existe um editor, amigo de silvestre, que reuniu seus escritos e de vez em quando faz críticas e comentários à narrativa, supostamente deixada para servir de guia para os jovens. os seguintes trechos são todos da parte do estômago, o único que mais me chamou a atenção.

O amor inventou-o depois o estragamento dos bons costumes gregos e romanos, como coisa necessária e acirrante aos paladares botos dos filhos viciosos das cidades.
Ainda agora nas aldeias, afastadas dos focos da corrupção, coisa que eu nunca ouvi dizer é: A Maria do Ribeiro ama o Antônio da Capela." Lá não se diz ama; é querem-se. Querem-se" é outra coisa; é amalgamarem-se num só ser, em uma só vontade, numa identidade de alma e corpo tal, e tão uma que nem sequer cogitam se há desgraça com força de desuni-los aquém da morte. E para lá da sepultura ainda eles têm como segura a vida imortal em união de penas ou glórias.

O amor dispensa-se onde está a profunda estima. Lá nesses consórcios bem-aventurados que florescem obscuros nas gargantas das serranias e nas selvas que bordam as margens dos rios não há tempo nem ocasião de discutirem sutilezas do coração. Crê-se ali que o vínculo é eterno e o sacramento do matrimônio uma religião, ou o dogma mais sacratíssimo dela. Pode ser que nem isto mesmo pensem: o que eles deveras sabem é que são felizes.
(...) As minhas meditações eram pachorrentas, terra a terra, sem enlevos que me deslocassem da felicidade do momento para me transportarem ao passado, onde estava a saudade, ou ao futuro donde me podia estar mentindo a esperança.
Que a saudade, para além dos trinta anos, é uma enchente de lágrimas que desdobra o peito daqueles mesmos que se não sentem viver no coração.
E a esperança é uma virgem de encantos doidos, a qual vos não deixa gozar os encantos doutra virgem que vos alinda os bens presentes.
Cabeça e coração senti sem vida,
No estômago busquei uma alma nova
E encontrá-la pensei... Crença perdida!
Mulher aos pés o coração me sova;
Foge ao mundo a razão espavorida;
E por muito comer eu desço à cova!

teve americanazine na biblioteca e li mais zines lá do que já li em toda minha vida, provavelmente. gostei bastante; tem uma infinidade de temas, tudo muito criativo. tirei foto de uma poesia que achei engraçadíssima no meio de tantos poemas existencialistas: ela se chama toda vez que eu chego em casa e é de jeison placinsch.

estava olhando um filme
quando percebi algo
fora da televisão se mexer
se mexer não, pular e sumir
passou um tempo e nada aconteceu
até vir voando na minha cara
uma coisa que eu já sabia ser uma
barata, barata, baratina
nisso dei um golpe de ninja pro lado
e liguei a luz
mas não consegui ver pra onde ela foi
puxei um colchão pra cada lado
mais as madeirinhas que sustentam eles
e nada
nem um sinal daquela filha da puta
então decidi puxar de volta
e vi uma coisinha correndo embaixo
AHA!!!
dessa vez não iria fugir
quero dormir sozinho hoje
então me estiquei
botei eles pro lugar
e vi a pontinha da bunda dela tentando
escapar, mas nem conseguiu
finalmente botei tudo no lugar
e senti que precisava falar pra vocês
sobre este belo ocorrido
e na metade disso veio voando
mais uma na minha direção
vingança?
só pode
o mais bizarro é que nesses
quase cinco anos que moro aqui
lembro de ter visto só duas baratas
até hoje
e agora, até agora,
uma e trinta e cinco da manhã,
essa última já foi a quarta
que matei.

depois li três contos de sagarana, de guimarães rosa (aqui tem resumos/análises massa). primeiro, o burrinho pedrês (vídeo): sete-de-ouros, burrinho velho mas experiente, é necessário para fazer uma travessia de bois de um major bastante influente, uma vez que alguns cavalos haviam debandado na noite anterior. os vaqueiros não se empolgam muito em ter esse tipo de montaria, mas prosseguem, e no caminho de volta ficam num impasse ao encontrar o ribeirão cheio. decidem deixar o animal ir primeiro – O burrinho é quem vai resolver: se ele entrar n'água, os cavalos acompanham, e nós podemos seguir sem susto. Burro não se mete em lugar de onde ele não sabe sair! no entanto, os cavalos e vaqueiros não suportam a correnteza e são afogados, enquanto sete-de-ouros vai pisando onde conhece e nadando quando deveria. apenas dois homens se salvam, um agarrado ao rabo do burro e outro montado nele, adormecido de bêbado e mais tarde sendo deixado na varanda da fazenda, sem se dar conta do episódio.

(...) E, com isso, deixaram todos de caber no dia, que rodou e se foi, redondo e repleto, com a tarde a cair rente, uma tarde triste de tempo frio.

Enquanto isso tudo, na coberta do Reynéro, ali perto, afrouxadas as barrigueiras e tirados os freios, os cavalos descansavam. Longe dos outros, deixado num extremo, no canto mais escuro e esquerdo do telheiro, Sete-de-Ouros estava. Só e sério. Sem desperdício, sem desnorteio, cumpridor de obrigação, aproveitava para encher, mais um trecho, a infinda linguiça da vida. 

segundo, a volta do marido pródigo: lalino salãthiel era um trabalhador preguiçoso e irresponsável que decide abandonar seus serviços e se mudar para o rio de janeiro, em busca da boa-vida; deixa sua esposa maria rita, sem nem avisá-la, e vende sua viola a um espanhol que morava por perto. ele retorna depois de um tempo, desiludido, e descobre que maria rita está com o espanhol; passa então a trabalhar como cabo eleitoral para um major e vai conseguindo as coisas com malemolência e despojamento. no final ele consegue derrotar o adversário político e, de quebra, expulsar a colônia espanhola do local, reconquistando sua esposa.

por último, sarapalha, sobre esse lugar assolado pela malária, onde não resta quase ninguém – dois primos, ribeiro e argemiro, passam seus dias a esperar a morte, conversando sentados num cocho em companhia de um cachorro abatido. a esposa do primeiro tinha fugido com um vaqueiro há algum tempo, e ele pede para que o primo reconte a história do diabo que fugiu com uma moça, para aliviar. argemiro era apaixonado pela esposa do primo e acaba revelando isso, embora alegue que jamais pensara em desrespeitar ribeiro; ele se sente traído até pelo último companheiro e, ofendido, o expulsa. argemiro é tomado pela febre enquanto vai embora.

— Conta o resto da estória...
— ..."Então, a moça, que não sabia que o moço-bonito era o capeta, ajuntou suas roupinhas melhores numa trouxa, e foi com ele na canoa, descendo o rio..."
— A moça que eu estou vendo agora é uma só, Primo... Olha!... É bonita, muito bonita. É a sezão. Mas não quero... Bem que o doutor, quando pegou a febre e estava variando, disse... você lembra?... disse que a maleita era uma mulher de muita lindeza, que morava de-noite nesses brejos, e na hora da gente tremer era quem vinha... e ninguém não via que era ela quem estava mesmo beijando a gente... Mas, acaba de contar a estória, Primo...

além disso, li um pouco de poemas negros, de jorge de lima, e de o universo numa casca de noz, de stephen hawking. este tô ouvindo em audiobook sempre que tenho uma louça monstruosa pra lavar ou coisa do tipo. esse mês não foi grande coisa no quesito leituras, devia ter lido bem mais, considerando os planos pros livros obrigatórios, mas claramente sou incapaz de ter qualquer disciplina a longo prazo. uma desculpa possível é que fiquei doente...

domingo, 30 de julho de 2017

lidos em julho

dia 12 terminei minha vida de menina, de helena morley. demorei quase um mês pra ler, porque não conseguia me concentrar e me dedicar (e também porque é um pouco enjoativo, sendo um diário)... são relatos do cotidiano da autora quando adolescente (pseudônimo de alice dayrell) no interior de minas gerais, durante os anos de 1893, 1894 e 1895. é descrito como "livro que nasceu clássico" por alexandre eulálio, que faz a introdução – É mesmo raro o sabor dessa prosa coloquial, cheia de chiste e tão próxima, em pitoresco, desatavio e naturalidade, da sua fonte popular. começou a escrever por recomendação da escola e incentivo de seu pai; em suas descrições percebe-se as peculiaridades de uma diamantina no limiar do urbano e do rural, com a presença da mineração e da decadência econômica. Voltada para o encanto da vida livre do pequeno núcleo aberto para o campo, a jovem Helena, familiar a todas as classes sociais daquele âmbito, estava colocada num invejável ponto de observação. Assim o seu depoimento transcende o plano apenas biográfico ou geográfico para valorizar-se de um ponto de vista tanto psicológico quanto social. no começo eu me confundia no mundaréu de pessoas sobre as quais ela falava, mas fui acostumando, até porque ela repete as mesmas coisas frequentemente (eu faço igual quando escrevo em diário). achei legal ter esse vislumbre de épocas onde tudo era diferente. muitos ex-escravos estão em seus relatos e, apesar de ela dizer não fazer diferença entre ninguém, percebe-se traços de racismo solidificados por entre a sociedade. gostei da expressão "fazer castelos", que ela usa muito, e quer dizer ficar imaginando coisas, sonhando acordado. penso que ela pode ter trocado o nome com uma tia, irmã de seu pai, e com quem tem o gênio muito parecido, segundo ele (a autora escreve o nome da tia como alice).

Nós, meninas, fomos proibidas de confessar com Senhor Bispo, porque ele pergunta muita coisa que a gente não entende e meu pai disse que é um absurdo mamãe nos deixar confessar com um velho já caduco. Ele está muito velhinho. Como no Palácio há muitos padres, mamãe escolheu para nós o Padre Florêncio. Ele é muito bom e dá penitência pequena, mas a gente sai cansada do confessionário de tanta história de santo que ele aproveita para contar e aconselhar a gente a imitar. Como se isso dependesse da gente. Eu regulo por mim; tenho inveja das pessoas boas e santas mas não posso deixar de ser o que sou.
(...) Certa hora eu perguntei: "Vocês não pensam para que a gente vive? Não era melhor Deus não ter criado o mundo? A vida é só de trabalho. A gente trabalha, come, trabalha de novo, dorme e no fim não sabe se ainda vai parar no inferno. Eu não sei mesmo para que se vive". Mamãe disse: "Que horror, minha filha! Para que você passou tanto tempo no Catecismo, para agora vir me dizer que não sabe para que a gente vive? Não estudou lá todos os dias que a gente vive para amar e servir a Deus na terra e gozar dele no céu?". Eu respondi: "Estudei, mamãe, mas já vi que só a família de vovó e poucos outros podem viver só para amar a Deus na terra e esperar gozar da presença dele no céu. Se a senhora soubesse como eu tenho sofrido com essa história de amar a Deus, até tinha pena de mim. Não há uma vez que me confesse que eu não diga ao padre que eu penso que não amo a Deus, porque só lembro de Deus na hora do aperto. Padre Neves diz que não acredita e que sabe que eu amo a Deus porque não faço percado mortal. Eu respondo que é porque nada é pecado para ele. Todos os pecados que eu conto horrorizada, às vezes ele até me desculpa. Os furtos que eu e Luisinha fazíamos das frutas de que vovó fazia tanto gosto, que eu até esperava ir para o inferno, quando eu contava a Padre Neves ele dizia: 'Tirar de sua avó não é pecado'. Eu pensava que era pecado e furtava e depois tinha medo do inferno; de ofender a Deus não me passava pela cabeça". Mamãe respondeu: "É porque você vive sempre de cabeça em pé e não procura pensar. Quem pensa tem que ter amor a Deus. Eu o amo acima de tudo". Renato parou com o alçapão e disse: "Sabem o que eu já estive pensando? Não há esse negócio de céu nem de inferno nada; isso tudo é conversa de padre. Eu penso que a vida é como um punhado de fubá que se põe na palma da mão; quando se assopra vai embora e não fica nada. Nós também depois de mortos a terra come; não tem nenhuma alma". Mamãe ficou horrorizada e perguntou: "A quem você saiu com essas ideias? Estou pasma do que você disse! Como um menino de sua idade pode ter essas ideias tão hereges! Valha-me Deus, que castigo! Que fiz eu a Deus para ter um filho assim? Virgem Santa! Agora vou viver só por sua conta, meu filho". Mamãe contou a história de uma mulher que tinha um filho assim e fez penitência de rasgar o corpo com um prego para Deus perdoar-lhe. Deus perdoou e ele se ordenou e foi um padre muito santo. Renato fazendo o alçapão, sem levantar a cabeça, disse: "Mas a senhora não precisa rasgar seu corpo com prego que eu não vou ser padre. Pau que nasce torto não se conserta".
Ficamos todas as primas tristes de ver a maldade que nossos irmãos fizeram de lavar os pés na água do Pau de Frutas, que é a que vem para a gente beber na cidade. Beatriz até chorou de pensar que o pai dela estava bebendo daquela água na cidade. Minhas tias a consolaram dizendo que até chegar cá já estava limpa. Estivemos sabendo também que morreu um burro dentro do rego e ficou lá até apodrecer. Eu acho aquela água muito porca. Se eu pensasse não bebia dela nunca. Mas a gente faz tudo é sem pensar, graças a Deus.
Hoje temos rido com ele a não mais poder. Ele foi convidado para o baile de ontem na União Operária e a viúva também ia. Ele foi ao dicionário, tirou umas palavras, fez uma frase e levou a Sérgio para ver se estava boa para ele dizer à viúva. A frase era: "Sinto-me compungido de não ter podido até então tirá-lo para uma valsa". Sérgio disse: "Se ela é mulher, você não deve dizer tirá-lo, mas tirá-la". Ele corrigiu, ficou decorando a frase e meteu o papel no bolso.
Hoje Sérgio perguntou se ele tinha dito a frase com desembaraço e ele respondeu: "Qual o quê! Quando eu cheguei perto dela para falar, ela, antes de eu começar, levantou, enfiou o braço no meu e saímos dançando. Eu fiquei mudo, porque só tinha na cabeça aquelas palavras que ela não me deixou falar".
Meu pai é muito querido na família. Todos gostam dele e dizem que ele é muito bom marido e um homem muito bom. Eu gosto muito disso, mas fico admirada de todo o mundo só falar que meu pai é bom marido e nunca ninguém dizer que mamãe é boa mulher. No entanto, no fundo do meu coração, eu acho que só Nossa Senhora pode ser melhor que mamãe.

também li, em ebook, edda em prosa - gylfaginning e skáldskaparmál (de snorri sturluson). o autor defendia a teoria de que reis e figuras históricas eram invocados em combates e venerados até serem lembrados apenas como divindades, e faz paralelos desses deuses com personalidades troianas e com o cristianismo. acho engraçado os absurdos: uma vaca lambe um bloco de gelo e dali saiu o homem que seria avô de odin; heimdallr, o guardião dos deuses na bifröst, é filho de nove damas, todas irmãs; com angrboda, uma gigante, loki teve como filhos o lobo fenrir (que matará odin no ragnarök), a serpente jörmungandr (que circunda toda a terra mordendo sua própria cauda) e hel (que tem poder sobre o nono mundo e reparte as moradas entre os mortos de doença ou idade avançada); loki se transforma em égua para atrair um cavalo que ajudava um gigante (para atrapalhá-lo) e acaba tendo "certas relações" com ele, mais tarde dando à luz a um potro cinza de oito patas; a baba que corre da boca de fenrir, preso por um grilhão feito de seis coisas "inexistentes" (o ruído de um gato ao andar, a barba de uma mulher, as raízes de uma montanha, os tendões de um urso, a respiração de um peixe e o cuspe de um pássaro), forma um rio chamado ván; um navio chamado skídbladnir é grande o suficiente para todos os æsir embarcarem nele, mas quando não há motivo para usá-lo no mar pode ser dobrado como um guardanapo e guardado num bolso... mas é massa reconhecer referências/inspirações de outras obras: freyja tem um colar chamado brísingr, como a espada/feitiço de eragon; heimdallr tem o gjallarhorn, como a banda finlandesa que fala sueco; angrboda, gigante mãe dos filhos sinistros de loki, é o nome da filha de floki e helga em vikings; der ring des nibelungen, ópera alemã, se inspirou numa história do edda bastante parecida com lotr, que por sua vez tem muitos nomes de anões citados aqui. no que diz respeito aos paralelos e comparações, o autor diz que o longo conto do ragnarök são as guerras dos troianos:

Quando se diz que Öku-Thor usou como isca uma cabeça de boi e fisgou a Serpente de Midgard, mas que a serpente manteve sua vida e afundou no mar, então esta é uma outra versão da história em que Heitor matou Volukrontes, um famoso herói, na presença de Aquiles, e isso chamou o último para ele com a cabeça da presa, na qual foi comparada a cabeça de um boi, que Öku-Thor tinha arrancado. Quando Aquiles foi tragado para este perigo, por conta de sua ousadia, foi a salvação de sua vida que ele fugiu dos golpes fatais de Heitor, embora ele fosse ferido. Também é dito que Heitor travou a guerra tão poderosamente, e que sua raiva era tão grande quando ele avistou Aquiles, que nada era tão forte que poderia ficar diante dele. Quando ele errou Aquiles, que havia fugido, ele acalmou sua ira matando o campeão chamado Roddros. Mas os Æsir dizem que quando Öku-Thor errou a serpente, ele matou o gigante Hymir. No Ragnarök, a Serpente de Midgard veio de repente para cima de Thor e jorrou veneno sobre ele, e, portanto, o matou. Mas os Æsir não poderiam se decidir para dizer que este tinha sido o destino de Öku-Thor, que alguém ficou em cima dele morto, embora isso tivesse acontecido assim. Eles se precipitaram sobre sagas antigas mais do que era verdade quando disseram que a Serpente de Midgard teve sua morte, e eles adicionaram isto na história, Aquiles colheu a fama da morte de Heitor, embora ele jazesse morto no mesmo campo de batalha. (...)

também gostei de alguns aspectos que desconhecia: os dois corvos de odin são pensamento (huginn) e memória (muninn); comparam o choro de todos os seres e coisas por baldr, para que ele fosse trazido de volta de hel, a como "essas coisas choram quando saem do frio para o calor"; terremotos são atribuídos a loki se contorcendo contra o veneno de cobra que cai em seu rosto onde foi acorrentado pelos æsir; no ragnarök será terminado um navio chamado de naglfar, que é feito de unhas não cortadas de homens mortos. foi uma leitura válida.

recebi minhas compras do amazon day e li jumanji (de chris van allsburg) e elefante (de bartolomeu campos de queirós), ambos muito bonitos em suas ilustrações e muito únicos em suas breves histórias. (não vou escrever sobre eles porque posso pegá-los na estante e ler em poucos minutos, então né. única coisa é que confundi jumanji com zathura, só pra depois descobrir que o segundo é sequência e tem livro do mesmo autor.)

depois resolvi participar da maratona literária de inverno, que inicialmente era do dia 16 ao dia 30, mas depois acrescentaram seis dias... fizeram três níveis diferentes (iniciante, intermediário e hardcore) e tinha três desafios pra cada – escolhi o intermediário e encaixei quatro livros nos desafios:

• livro com a capa azul → família schürmann - um mundo de aventuras (heloisa schürmann)
• livro com menos de 200 páginas/escrito por uma mulher → uma duas (eliane brum)
• livro que você comprou pela capa → cyrano de bergerac (edmond rostand)
• livro sem saber a sinopse ou do que se trata/nacional → caminhos cruzados (érico veríssimo)


no domingo que a maratona começou eu tava revendo colegas em outra cidade, então li pouquinho, 30% e alguma coisa de uma duas, de eliane brum (que terminei dia 18). tinha montado um cronograma mostrando onde eu deveria estar em cada leitura a cada dia para ler tudo em tempo; comecei atrasando um dia mas ok. trata-se da história da relação nada saudável entre duas mulheres, mãe e filha, que se sobrepõem à medida que a narrativa submerge nelas – não existe clareza entre o bem e o mal, o certo e o errado, o real e o fictício. ambas são personagens únicas, apresentando um nível de frieza incomparável. livro visceral, intenso e doloroso, me incomodava e não me deixava ficar muito tempo sem pensar nele e querer concluir de vez. o final não é muito definido, dando a entender que foi só ficção pra exorcizar demônios e se abrigar nas possibilidades que a literatura oferece. gostei bastante do estilo; foi o encerramento da experiência com o kindle unlimited.

Finalmente o grito preso ali se solta. E ela sente que nunca mais o grito cessará, que aquele grito é para sempre, é um grito para toda a vida e para além da vida. Porque agora ela alcança a inteireza do horror. E gritos são coisas que não podem ser ditas. Não há como escapar da carne da mãe. O útero é para sempre.
Sempre tive medo de escrever. Da hora de tornar meu sangue símbolo do sangue. Tinha medo por causa da dor desconhecida que talvez viesse, que eu quase podia tocar como certeza. Ainda que eu sangre com sangue, este ritual eu conheço. Ele faz de mim o pouco que tenho de mim. É uma constituição. Me constituo eu pelos cortes em mim. As palavras, não. O que elas farão de mim?
As palavras que rastejam de mim como vermes gordos de hemácias me fazem desconfiar de que não há um sujeito que diz, não há eu. Então, quem fala? De quem são as palavras que me constrangem?
A luta de classes de Marx não é uma luta, é apenas uma divisão entre os que podem fazer perguntas e os que só estão autorizados a dar respostas.
Como sempre, esquece onde está enquanto escreve. A escrita é um lugar que ela pode habitar. É reconfortante escrever sobre a vida dos outros. Esta é a melhor parte de ser jornalista. Poder escrever sobre uma realidade que não precisa virar ficção para ser pronunciada.
Eu sentava na outra ponta da mesa de fórmica da cozinha e ficava olhando-o comer. Ele mastigava muitas e muitas vezes cada bocado e um dia me explicou que era preciso mastigar 98 vezes de cada vez, para ajudar o estômago na digestão da comida e manter a saúde. Fiquei aliviada. Então era por isso que ele não conversava comigo. Eu nem mesmo queria que ele falasse. Não sei se foi aí que começou, mas sempre tive medo das palavras. Das pronunciadas. Preferia ficar ali, compartilhando o silêncio do meu pai.
Minha cabeça se esvaziou. Mais tarde eu intuiria que aquilo era felicidade.
Vivia em mim e seguia a rotina dos dias como uma sonâmbula com os dois olhos abertos só pra dentro. Quem perdeu muito sabe que há um certo alívio em não esperar nada de bom, em não desejar nada.
Tinham me contado que os escritores eram uma espécie de deuses. Eles criavam um mundo em que podiam viver e escapavam deste pela porta dos fundos. Me preparei a vida inteira para ser deus. E só o que faço agora é desinventar a mim mesma. Acho que é isso. A realidade é uma ficção. E ao escrever eu vou quebrando essa criatura esculpida com amor e desespero. É o contrário. É preciso destruir a forma humana que está ali para alcançar a pedra.
Sim, porque eu só sei escrever a mão. E acho que há mais coragem em escrever a mão, sopesando cada letra, que exige esforço e não aparece e desaparece numa tela como se as palavras pudessem simplesmente surgir ou simplesmente ser eliminadas sem que se pague um preço por isso.
Não lembro quem disse, mas isso é um filho. "Aquele que entra em minha casa e não veio de fora".
Se sabemos o que esperar, até mesmo a dor pode ser confortadora. E eu descubro que o pior caminho é melhor que o desconhecido.
Sempre me surpreende o interesse de qualquer homem por mim. Me excita e me ofende ao mesmo tempo.
Dou um sorriso tímido e saio quase correndo, como se fosse uma menina. Nem me lembro de perguntar seu nome. Melhor assim. Os nomes nos ancoram a uma identidade. E o melhor daquele encontro é que ele era fluido, não tinha ficado impresso em lugar algum. Sem nomes, sem registro.
Eu preciso muito de fronteiras e nunca entendi aqueles jargões publicitários de uma vida sem limites. Para mim, a liberdade sempre esteve ligada à capacidade de erguer muros cada vez mais altos.
O branco, ela pensa, não é a soma de todas as cores, mas a ausência de todos os sentimentos. O branco não tem dor nem medo nem vilania. Por isso é a cor da paz, porque é uma soma que subtrai o humano.
Você também não é normal, Laura. Herdou os meus genes deformados e lembra o que não deveria. Eu a salvei, mas a salvei de mim mesma. Fui ao mesmo tempo sua assassina e sua heroína. E acredito que é isso que todas as mães são em alguma medida. Sua Noviça Rebelde não existe. Lembre-se, ela era uma madrasta. Em algum momento, os filhos já tinham matado a mãe verdadeira. Mas ninguém nunca quis saber o que aconteceu com ela. Será que os tumores que tomam conta de mim são aqueles bebês todos que matei e que voltaram para se vingar? Tenho medo, mas se for isso não vou reclamar, porque agora eles podem, e eu não. Estou velha e já não posso afogar ninguém.
A única palavra que eu quis escrever, nascida do meu desejo. Sim, porque você não nasceu porque o seu pai se enfiou dentro do meu corpo paralisado. Você nasceu quando olhou para mim, e eu me vi no seu olhar. E desejei que você vivesse. Você é tudo o que eu sinto de vivo em mim agora que morro.
Pego as mãos da minha mãe, cada vez mais diferentes das minhas agora que a doença a molda à sua imagem e semelhança. O câncer é como uma possessão alienígena de dentro para fora. De fato, não. É uma possessão do corpo pelo próprio corpo. O câncer é tão da minha mãe como as células sadias que fracassam em defendê-la da mutação de suas irmãs. É um filme de terror, filmado por dentro. Uma ficção científica que não é ficção. Fico fascinada com a quantidade de horror que a normalidade nos assegura dia após dia. Para que inventar zumbis e aliens vindos do espaço se existe o câncer?
Abraço meu corpo e choro embrulhada em mim como o tatu-bola da minha infância. Sou um quadro de solidão e desamparo no quarto de hospital. Uma mulher adulta em posição fetal quando a mulher que lhe deu à luz acaba de deixar este mundo. Partiu levando com ela seu útero.
Nenhuma vida se completa. Isso ela agora sabe. Como a mãe, ela também vai esperar que algo se complete, mas a vida seguirá até o fim em aberto, inconclusa. A vida humana é a única que acaba sem um fim, porque é a única que o espera.
Descubro que escrevi sobre a impossibilidade da literatura. O fracasso previamente assumido de tentar transformar vida em palavra. O que mais importa é o que não pode ser escrito, o que grita sem voz e sem corpo entre as linhas. O para sempre indizível.

o próximo livro que separei pra ler foi caminhos cruzados, mas tive tanta dificuldade e falta de ânimo que nem continuei nutrindo esperanças de concluir com sucesso a maratona. fui ler sejamos todos feministas, de chimamanda ngozi adichie, que baixei no kindle há algum tempo atrás por ser um ebook gratuito na amazon. é a transcrição de uma palestra que a escritora fez num evento do TEDx, sobre sua experiência como mulher e como feminista. sempre massa esse tipo de discussão, embora ainda tenha muita coisa confusa na minha cabeça a respeito de gênero e etc (como que seja opressão, não identidade). dá pra ler rapidinho e em seguida assisti a uma palestra a qual ela se refere no começo do ebook, the danger of a single story, que achei incrível.

Se repetimos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal. Se só os meninos são escolhidos como monitores da classe, então em algum momento nós todos vamos achar, mesmo que inconscientemente, que só um menino pode ser o monitor da classe. Se só os homens ocupam cargos de chefia nas empresas, começamos a achar "normal" que esses cargos de chefia só sejam ocupados por homens.
Então, de uma forma literal, os homens governam o mundo. Isso fazia sentido há mil anos. Os seres humanos viviam num mundo onde a força física era o atributo mais importante para a sobrevivência; quanto mais forte a pessoa, mais chances ela tinha de liderar. E os homens, de uma maneira geral, são fisicamente mais fortes. Hoje, vivemos num mundo completamente diferente. A pessoa mais qualificada para liderar não é a pessoa fisicamente mais forte. É a mais inteligente, a mais culta, a mais criativa, a mais inovadora. E não existem hormônios para esses atributos. Tanto um homem como uma mulher podem ser inteligentes, inovadores, criativos. Nós evoluímos. Mas nossas ideias de gênero ainda deixam a desejar.
O que me impressiona – em relação a ela e a várias outras amigas americanas – é o quanto essas mulheres investem em ser "queridas", como foram criadas para acreditar que ser benquista é muito importante. E isso não inclui demonstrar raiva ou ser agressiva, tampouco discordar. (...) Se, por um lado, perdemos muito tempo dizendo às meninas que elas não podem sentir raiva ou ser agressivas ou duras, por outro, elogiamos ou perdoamos meninos pelas mesmas razões.
O modo como criamos nossos filhos homens é nocivo: nossa definição de masculinidade é muito estreita. Abafamos a humanidade que existe nos meninos, enclausurando-os numa jaula pequena e resistente.
Nós policiamos nossas meninas. Elogiamos a virgindade delas, mas não a dos meninos (e me pergunto como isso pode funcionar, já que a perda da virgindade é um processo que normalmente envolve duas pessoas).
E se criássemos nossas crianças ressaltando seus talentos, e não seu gênero? E se focássemos em seus interesses, sem considerar gênero?
A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura.

dia 30 reli é apenas o vértice do mundo interior, de agnieszka piksa, que luiz tinha me mostrado no comecinho do cv2 e descobri que yuri tinha quando fui na casa dele com aldivo após a peça do guto (eita quanta gente mencionada). é uma zine distribuída na 31ª bienal de sp, queria muito ter porque acho muito foda. tem muitas colagens e desenhos, fala sobre várias coisas muito interessantes (as que mais gosto são essas que anotei – o mais próximo possível de como tava na zine, por sinal). o nome em inglês é it's just the spin of inner life, além de que vi escrito vórtice (em vez de vértice) em algum lugar, o que me faz pensar que talvez trocaram uma letra aí, porque faz mais sentido se comparado com spin, né...

O processo da vida
quando penso nesta vida, cara...
– quero dizer...
primeiro, éramos espermatozóides...
depois entramos na célula, e de certo modo já não éramos mais espermatozóides
começamos a nos desenvolver como embriões...
depois disso, saímos do corpo da mãe de forma realmente apocalíptica, e nos tornamos crianças... e mais tarde humanos adultos
em cada uma dessas etapas, fomos transformados completamente, existindo em cada fase como seres totalmente diferentes
nós não nos lembrávamos do estado anterior de nós mesmos e não podíamos prever o que vai vir depois
muito provavelmente tínhamos certeza de que o fim daquela fase era o fim da nossa existência.
não podemos nem mesmo afirmar que era ainda o mesmo nós passando por todas essas fases!
então, como podemos acreditar que esta vida é a última vida e que a morte é mesmo o fim?
Carta de um deus
neste sonho, recebo resposta email dele.
obrigado por enviar seu currículo geral, o sr. deus apressia sua sinceridade, considerando seus erros. nós apoiamos os erros, porque erros também são uma forma de entender as coisas.
e pouco mais tarde, seus delegados vêm com a proposta:
nosso consórcio está satisfeito com sua proposta de projeto – você trabalhará no estabelecimento da embaixada do céu
no mundo subterrâneo, isto é, no inferno. logo, assinamos o acordo com os parceiros de negócio do outro lado do rio estige – o acordo tem muitas páginas, procedimentos complicados de visto são garantidos para todos os candidatos à viagem... /lista de pecados, lista de benfeitorias, confirmação das desflorações cometidas, exame de pensamentos sujos, relatório do nível dos bônus cármicos, sofrimentos antecipados, facadas nas costas, ações equivocadas, sedimentação de boas intenções, scan da aura.../ assim como o rigoroso controle de fronteira de ambos os lados do rio subterrâneo e punições drásticas por tentativas de emigração ilegal
eu, como diplomata pela minha natureza profunda, acordo me sentindo muito feliz, com uma visão de uma futura união democrática entre o céu e o inferno. embora ainda não tenho certeza do que meu empregador diria sobre isso...
Justiça para os aliens
na maioria dos filmes de ficção científica, não há justiça alguma. quero dizer: por que os aliens sempre têm de ser perversos e maus, inimigos dos seres humanos? na maioria dos filmes, eles são normalmente representados como predadores, animais, feras primitivas que apenas se empenham em obter carne humana e destruição... embora sejam ao mesmo tempo cultos o bastante para consequirem construir e pilotar espaçonaves de alta tecnologia, máquinas do tempo etc, que estão muito além ds nossa imaginação tecnológica e científica. isto não é um paradoxo? que estariam eles interessados em carne humana e em fazer-nos sofrer, quando podem fazer muitas outras coisas legais e civilizadas como voar para qualquer lugar do espaço, teleportarem-se daqui para acolá, jogarem mortal kombat com robôs etc? se fossem tão civilizados, por que obedeceriam a instintos primitivos tão baixos e básicos? na verdade, isto cheira realmente a projeção dos seres humanos. imagine, por exemplo, se agentes de alguma cultura alienígena do espaço sideral aparecessem amanhã diante de nós. o que aconteceria? graças à imagem de um alien, como um de nossos piores inimigos, que foi implementada na consciência coletiva graças a filmes sci-fi populares/comerciais, a população da terra provavelmente saudaria esses agentes com armas, facas e bombas. em lugar de flores e uma taça de vinho, e isto não é justo, a existência de culturas alienígenas ainda não foi confirmada, mas este fato nos autoriza a projetar todo o nosso ódio e necessidade natural pela incorreção nesse espaço vazio? o que isto nos diz sobre nós, humanos? parece que o pensamento sobre o "inimigo desconhecido" nos leva a conhecer melhor nossas próprias partes vergonhosas. Quem produziu essas imagens de aliens senão nossa própria mente, ao tentar se ver livre de suas próprias partes vergonhosas. depois que contei isto a um amigo que é cartunista, ele tirou uma boa conclusão, mencionando o filme solaris, dirigido por andrei tarkovski a partir do livro de stanislaw lem. nesse filme, astronautas estão tentando se comunicar com um planeta alienígena, que na verdade é um grande organismo consciente... mas toda tentativa de abordá-lo desperta e materializa os elementos mais baixos e subliminares de seu próprio subconsciente, obrigando-os a encará-los e a lidar com eles. meu amigo cartunista disse: – sim, este é o filme que vamos mostrar a eles primeiro quando nos visitarem.
Aliens do espaço sideral, quem quer que sejam, peço desculpas a vocês diante da raça humana.
(15/03/2016)

nesse dia também terminei caminhos cruzados, de érico veríssimo. no começo eu não conseguia ler sem ser tomada por um sono insuportável, então não engatei na leitura até passar da metade. é "um livro de protesto que marca a inconformidade ante as desigualdades, injustiças e absurdos da sociedade burguesa" – são vários personagens inseridos em núcleos completamente diferentes, cujos caminhos se cruzam de alguma maneira durante os cinco dias de que tratam a história e exibem diferentes perspectivas sobre os eventos. é assim:

• teotônio leitão leiria, rico que se considera merecedor de uma noite com uma prostituta (cacilda), demite gente de sua empresa sempre que alguém influente pede emprego pra outra pessoa e critica os novos-ricos;
• dodó leitão leiria, sua esposa, senhorinha empertigada em ser devota de santa teresinha e ajudar os pobrezinhos, adorando aparecer no jornal como grande figura da caridade;
• vera leitão leiria, filha única do casal, é apaixonada por chinita e despreza o advogado armênio, que não desiste de cortejá-la;
• virgínia madeira, só faz desdenhar seu marido, seu filho e suas criadas, convencida de que sua vida é insuportável e alimentando um amante platônico com quem troca olhares todo dia às cinco horas;
• noel, filho de virgínia, é extremamente inseguro por causa da falta de afeto dos pais e se refugia em mundos paralelos criados a partir de livros e histórias, sendo trazido à realidade pela mão da amiga fernanda;
• zé maria pedrosa, coronel, ganha na loteria e se muda de jacarecanga para porto alegre, onde constrói um palacete, arruma uma amásia e gasta sem limites para se exibir, além de pensar sempre no amigo que o criticava na cidadezinha ("Quero só ver a cara do Madruga!");
• chinita, filha de zé maria, vive num mundinho próprio onde finge ser atriz de hollywood e leva a vida como se tudo fosse parte de um filme;
• maria luísa, esposa de zé maria, que só sabe lamentar-se de absolutamente tudo e se ausentar de qualquer decisão, pensando na antiga vida em jacarecanga e em como tudo mudou pra pior (me fazia pensar sempre na senhora de longa jornada noite adentro);
• salustiano, passa uma noite com cacilda mas é namorado de chinita, não faz nada da vida além de receber uma mesada gorda e desfrutar de seus privilégios;
• joão benévolo, desempregado, vive numa fantasia com suas leituras onde esquece das precariedades pelas quais passa com sua esposa e filho, recebe diariamente a visita do ex-noivo de sua esposa, que permanece "esperando" a hora certa pra recuperá-la;
• fernanda, filha mais velha de dona eudóxia, trabalha para leitão leiria e cuida da casa, sendo uma segunda mãe para o irmão, além de ser amiga fiel de noel desde a infância de ambos;
• pedrinho, irmão de fernanda, adolescente que se apaixona pela "mulher à-toa" com quem teve sua primeira relação sexual (cacilda) e junta trocados que recebe da irmã para poder comprar um colar e presenteá-la;
• maximiliano, tuberculoso desenganado, cuja morte é aguardada com ansiedade por sua esposa, para que ela possa buscar trabalho e uma melhora de vida para os filhos;
• clarimundo, professor, só se importa com a ciência e corrige quem fala errado, colocando-se num patamar superior a tudo e todos.


gostei bastante da narrativa do autor e achei muito engenhosa a construção da história. tatiana feltrin disse que foi um dos primeiros livros a conter um romance lésbico, apesar de nada passar de um beijo desesperado interpretado como diversão por chinita. no final noel e fernanda confessam amar um ao outro, sem precisar de palavras; dodó recebe a atenção especial do jornal no dia de seu aniversário; chinita cai nos encantos de salu e descobre o mundo de prazer que reside no sexo (a primeira vez que eles fizeram foi bem horrível, eu gostava do nome salu mas depois dessa não engoli mais seu personagem); maximiliano morre em decorrência de dona dodó ter se esquecido de mandar que o levassem para o hospital; o "amante" de dona virgínia é assassinado pelo esposo da mulher com quem ele tinha um caso e ela se sente traída, por algum motivo; maria luísa recebe uma carta anônima de leitão leiria denunciando que seu marido tem uma amante, mas nem se surpreende já que o pessimismo é parte dela; joão benévolo desfalece na rua depois de um dia sem se alimentar, procurando emprego, e as pessoas que o cercam e o recolhem julgam que o ocorrido foi por conta de bebida. a obra termina com clarimundo escrevendo o antelóquio (prefácio) de seu livro, o homem de sírio, entidade que observa a terra desde essa estrela e supostamente tem visões reveladoras acerca da vida no nosso planeta – ele se convence de que a vida é monótona e não tem nada de romântico, mencionando o que enxerga de seus vizinhos pela janela. é ótimo porque muitos núcleos da história estão ali, à sua vista, mas a distância que mantém de tudo faz com que ele pense que não há nada a acontecer.

vou mostrar só a parte de julho da MLI aqui, mesmo. ainda tenho que ler dois livros, supostamente, mas tô sem vontade. quero me dedicar aos livros da lista de leitura da unicamp. mas ok, é isso.