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sábado, 31 de março de 2018

lidos/assistidos em março

vendo vozes (oliver sacks)
tava na lista de quero ler e surpreendentemente foi uma das primeiras leituras solicitadas na faculdade. é sobre surdez, mas vai bem além disso – língua, linguagem, pensamento, aprendizagem, cultura surda, ativismo… muito massa e interessante, aprendi bastante. várias coisas que eu nunca tinha considerado, eventos incríveis através da história, coisas péssimas cuja influência persiste até hoje. lá vai resumão: os surdos receberam maior atenção pela primeira vez no século 18, com um abade francês que se preocupava com a questão de não serem capazes de se confessar nem de ouvir a palavra de deus. ele percebeu que se comunicavam por sinais e se dedicou a ensinar a gramática francesa a essas pessoas, pensando que faltava algo em sua linguagem (o que não era bem verdade), no que chamou de “sinais metódicos”. até então, esses surdos viviam como marginais, pobres andarilhos, cujos direitos humanos fundamentais eram negados; trinta anos depois já existiam 21 escolas para surdos na europa, com muitos alunos se tornando filósofos e educadores. tem aí uma perspectiva iluminista de universalidade, levar o conhecimento para todos e tal. já no século 19, um surdo que havia sido aluno de uma dessas escolas foi para os estados unidos e co-fundou o american asylum for the deaf, que mais tarde se tornaria a primeira instituição de ensino superior para surdos no país, a gallaudet university. a língua de sinais americana derivou-se da francesa, portanto (acho que o mesmo aqui, na verdade, porque quem sugeriu a criação de uma escola para surdos no brasil foi um ex-aluno dos métodos do abade também). lá pra 1870 surge a figura de alexander graham bell, que desfaz o trabalho de um século em poucas décadas – inventor do telefone, popularizou o ensino oralista nos estados unidos e influenciou a decisão tomada em 1880 num congresso de educadores de surdos: abolir o uso da língua de sinais nas escolas. fala-se bastante sobre como o ensino oral significa deterioração no aproveitamento educacional e na instrução de surdos, não só pelo tempo enorme gasto ensinando crianças a falar mas também pela menor exposição ao aprendizado “incidental” que ocorre fora da escola. imensamente importante que crianças surdas tenham língua de sinais como primeira aquisição, já que é sua língua natural – bebês são capazes de fazer o sinal pra “leite” com 4 meses de idade… terríveis consequências quando existe privação de linguagem – (...) ser deficiente na linguagem, para um ser humano, é uma das calamidades mais terríveis, porque é apenas por meio da língua que entramos plenamente em nosso estado e cultura humanos, que nos comunicamos livremente com nossos semelhantes, adquirimos e compartilhamos informações. Se não pudermos fazer isso, ficaremos incapacitados e isolados, de um modo bizarro. (...) E, de fato, podemos ser tão pouco capazes de realizar nossas capacidades intelectuais que pareceremos deficientes mentais. não só isso, mas a língua atua como intermediadora do pensamento abstrato – Falamos não apenas para dizer a outras pessoas o que pensamos, mas para dizer a nós mesmos o que pensamos. A fala é uma parte do pensamento. muitos casos de surdos que levam décadas até receberem abordagens adequadas e adquirirem consciência de seus próprios pensamentos, do conceito de passado e futuro, várias coisas absurdas – a língua transforma a experiência. a influência do fator emocional nessa aprendizagem, a necessidade de transação com outra pessoa para desenvolver linguagem, a existência fantástica de comunidades bilíngues inclusivas, a visão de mundo totalmente diferente que línguas de sinais possibilitam a quem as utiliza, o embate entre deficiência e cultura… só nos anos 60 a língua de sinais foi reconhecida como língua de verdade, estudada por um linguista – o que possibilitou um resgate, mas que tem se dado a passos lentos; tem muitos fonoaudiólogos que proíbem surdos de gesticular, pais que não admitem que os filhos não pertençam a seu mundo, gente que discrimina… tantas questões. muito o que pensar!

uma era de ouro (tahmima anam)
história que se passa durante o período da guerra de independência de bangladesh, que antes era paquistão oriental e eu não sabia (pensava até que bangladesh era cidade indiana). no caso, o paquistão ocidental ocupa o país por 9 meses tentando unificar, apesar de cada um estar de um lado da índia. única parte interessante é isso, na real… narração arrastada, romance desnecessário, protagonista sem graça. umas reações incomuns às coisas, sem tentar agradar – talvez isso seja inovador, mas nada que me tenha feito gostar mais da leitura. ela é viúva, os filhos vão morar com o tio porque não tinha como cuidar deles, ela rouba uma joia de um velho pretendente e constrói uma casa pra alugar, recupera as crianças. os filhos são estudantes, comunistas, apoiam a independência de bangla. tem a questão das línguas, urdu e bengali… os que invadiram o país massacrando tinham preconceito com hindus também. ruinzão as torturas de guerra e tudo o mais, acampamentos de refugiados, cidades abarrotadas de gente, agoniante. nojentinho o breve relacionamento; no final o cara se entrega fingindo ser o filho procurado dela, já que sabia que ela faria qualquer coisa pra não perder os filhos de novo.


Quando me ordenais que cante, meu coraçãoparece se romper de orgulho.Olho vosso rosto e sinto nos lábioso sabor molhado das minhas lágrimas.Minha adoração abre suas asascomo um pássaro alegre a voar sobre os mares.Somente assim, minha voz, é que a vós me entrego.Ébrio da alegria sublime de cantar,esqueço-me a mim mesmo e vos chamo de amante,a vós, que sois senhora de mim.Vós me fizeste parte do que é eterno, porque assim o quiseste.

Ela se lembrou de um verso de Ghalib. Zindagi yun bhi guzar hi jaati. A vida teria seguido seu curso previsível, teria continuado como sempre, não fosse o amor. Tudo nela agora estava diferente.


byōsoku go senchimētoru (2007)
primeiro filme do netflix que baixei pra  ver e que merda, escolhi justamente o que falava de relacionamento à distância e era triste. a chain of short stories about their distance – no primeiro conta como esse casal de amigos se conheceu na escola, crianças, e antes de começar o ensino médio a menina se muda da cidade. trocam cartas e uma hora o menino vai de trem visitá-la, atrasa um monte por causa do clima de neve, senti a angústia junto. fiquei pensando se no japão deixam de verdade adolescentes irem sozinhos buscar amigos nas estações ou ficarem andando na rua deserta tarde da noite. passam poucas horas juntos mas rola romance e começam a namorar. o segundo é quando o menino se muda também, tem uma garota nova que se apaixona por ele; nada acontece, ela percebe que ele tá sempre olhando pra “coisas longínquas”, não pra ela. tão escolhendo carreira (estranho esse processo no japão) e essa menina não quer nada, mas aprende indiretamente com ele a ir fazendo o que der. numa hora diz algo como “você é tão gentil comigo que me dá vontade de chorar”; parece que filmes japoneses tem o costume de dizer umas coisas assim, sei lá, mais reais (pra mim, pelo menos). na última parte já cresceram, ele tá trabalhando muito e o relacionamento já não existe. quer dizer, sei nem se o que ele se refere de ter durado três anos é com a menina do começo ou outra pessoa, porque não reconheci o nome e os detalhes da aparência que mostram. a do começo parece que vai se casar… o cara tá triste e se demite, percebe que a vida não tá fazendo sentido; não por causa do término, mas só isso mesmo. claro que chorei. não entendo por que falam os nomes diferente do que aparece na legenda. e supostamente cinco centímetros por segundo é a velocidade que leva pras pétalas de cerejeira caírem no chão.

suffragette (2015)
filme sobre o movimento da classe operária feminina britânica que lutou pelo voto pras mulheres. absurdo a repressão e o tempo que levou, pior ainda pensar que tem muita coisa pra mudar no mundo ainda. merda o cara dando o garotinho pra adoção porque supostamente não podia ser pai e mãe dele sozinho, sendo que tem tanta mulher que faz isso... não deve ser real essa parte da maud watts mas bem capaz de ter acontecido, triste pensar. me pergunto se seria capaz de fazer greve de fome, se participaria de ativismos assim em outras épocas. bem merda também que acaba sendo uma conquista de uma pequena parcela das mulheres; tem nem personagem negra, por exemplo. apesar disso é massa pensar o que significou, o que temos hoje e devemos às sufragistas. chorei em vários pontos porque sou besta e qualquer coisinha relacionada a minorias me abala forte.

coraline (2009)
não lembrava se já tinha assistido isso antes e muito capaz que sim, porque é reconhecível muita coisa. bizarrinho, negócio meio pesadeloso, mas ok. coraline chata, irritante como fala e age… me incomodava quando começava a comer alguma coisa e largava um monte. o nome é como inverter as primeiras vogais de caroline mesmo, né? só penso em cora coralina, mas nem sei se é nome real ou inventado.

equals (2015)
achei ruim, mas pelo menos tem kristen. engraçado ela fazer filme de futuro fictício onde humanos não têm emoção, considerando o que falam da falta de expressão dela (na real eu gosto das caras que ela faz). parece tão lésbica, podia muito bem ser casal homossexual os protagonistas. acho besta a cara daquele ator, não sei, talvez por lembrar do filme lá que ele é zumbi... e bem nada a ver e esquisito de pensar essa realidade, mas falando assim pareço meu pai que despreza todo filme que tem coisa impossível. pensei que seria um romeu e julieta distópico, com suicídio e tudo, desperdício aí. em vários momentos quis mandar gente ir se f*der. como ninguém percebeu que de noite ela ia pro apartamento dele? e queria saber de onde vinha as comidas, pra quem ficava esse trabalho. doido pensar na tensão sexual e ninguém tendo ideia de como funciona isso. bem desumanizador esse negócio de não ter sentimentos, né.

13th (2016)
documentário sobre o encarceramento em massa nos estados unidos desde os anos 70 e sua ligação histórica com a escravidão e a exclusão da comunidade negra. 2 milhões de detentos nos eua, 25% da população carcerária do mundo inteiro – como pode? não imaginava que existia uma emenda na lei americana que coloca prisioneiros no nível de escravos, nem que sentenças são determinadas previamente e que quase não tem julgamentos; absurdo demais. isso de prenderem ex-escravos por qualquer coisinha após a abolição, segregação racial, crack, guerra às drogas, stand your ground, 3 strikes, campanhas políticas, policiais assassinos, véi! tanta coisa colocando negros como o alvo, genocídio mesmo, além de outras poc e imigrantes. muita merda no mundo, angústia no peito e lágrimas nos olhos. muita coisa pra ser arrumada. mostra o black lives matter, pelo menos uma esperançazinha no final.

the black panthers: vanguard of the revolution (2015)
documentário que conta a história de um dos movimentos mais relevantes do século 20, os panteras negras. vi logo em seguida desse último então algumas coisas já sabia, certas figuras que são estatística dessa política criminal horrível… na verdade esses dois filmes passaram em sessões de cinema no iel, mas eu não quis ficar até de tarde pra assistir lá. legal saber melhor como isso funcionou – essa questão de policiais abusarem de violência nas capturas motivou um grupo de negros a sair armado pra ficar por perto quando alguém era detido, só pra supervisionar que nada passasse dos limites (e pra intimidar também). foi ganhando popularidade e se espalhou pelos eua inteiro, criou um programa de sobrevivência que dava café da manhã pra crianças, vendeu jornais pra caramba, mais tarde registrou muita gente pra votar. vários símbolos e líderes; bacana o nome huey e os dentes desse cara. bem merda a violência, mortes, injustiça e tudo. show por ter ido contra o governo americano, ter unido tanta gente, pela resistência, reafirmação e tal. gente estilosa. power to the people… mesmo tendo se dividido e depois acabado, as lutas continuam atuais e necessárias. parafraseando, pode-se prender revolucionários mas não pode-se deter uma revolução.

into the wild (2007)
massa. filme que a gente assiste em dia triste e fala umas coisas que dá vontade de chorar. vontade de ir viver sozinha também, longe desse negócio todo de carreira e família, pensamentos de nada fazer sentido e impossível ficar bom. não sabia que tinha kristen. me pergunto se dá pra fazer esse tipo de coisa e se manter vegano; deve ser complicado em lugares tipo alaska e tal. dá pra arrumar empregos sem identidade e tudo? trabalhar quando precisa juntar dinheiro e ir fazendo o que dá, parece bom. não lembrava que era daí a frase happiness only real when shared. essa necessidade do outro… pra validar tudo, poder afirmar que a gente existe. meio desesperador. ficava sempre pensando como seria se fosse mulher fazendo isso tudo, apesar de ter uma ideia pelo filme wild que vi ano passado com talita. o senhorzinho do monte da salvação parecia real, não ator; será? enfim, gostei e alguma hora vou querer voltar e rever, ou então ler.

the butterflies of zagorsk (1990)
documentário sobre os surdocegos da escola fundada por lev vygostky, na rússia. absurdo e incrível; o método foi pioneiro nos anos 70, em um contexto de união soviética que procurava valorizar a todos e não ver ninguém como incapaz (apesar de os estudos desse psicólogo levarem o nome de defectologia). pra quem perde a visão e/ou a audição na infância ou adolescência ainda dá pra compreender como se dá o aprendizado de novas formas de comunicação, mas e quem nasce assim? aquilo de surdez pré-linguística e pós-linguística de que oliver sacks fala em vendo vozes… vi sobre helen keller e haben girma também, e a última oraliza perfeitamente pois tem audição residual, diferente de helen, que tem “sotaque de surdo” (e haben fala high-pitched porque provavelmente consegue ouvir melhor nessa frequência, o que a permite controlar sua fala). os sinais ensinados em zagorsk são o alfabeto manual soletrado, o que me parece bem complicado de fazer, mas entendível já que se usa apenas uma mão… impressionante a rapidez em que gesticulam. inacreditável tudo; eleonora se emociona e disse que chora o filme todo. legal de existir.

sábado, 30 de setembro de 2017

lidos/assistidos em setembro

neste mês eu li a incrível quantidade de 0 livros! avancei pouquíssimas páginas em leituras pro vestibular (o que, no caso, diminuiu mesmo, porque desisti da usp) e não li ebook nenhum (porque meu celular quebrou). em compensação minha vida foi bem incrível, então tudo bem.

quanto a filmes, assisti alguns e vou falar deles bem por cima. dois com larissa: pitch perfect 2 (2015), que nem prestei atenção no que ela não pedia, e personal shopper (2016) de novo, porque indiquei e ela quis assistir. vi megamind (2010) na tv, porque o começo me chamou a atenção com um conceito tratado numa aula de geografia – sem o bem não teria porque o mal existir e vice-versa (achei bacana, engraçadinho e tal). com talita vi três e meio: american beauty (1999), finalmente e por indicação dela, que gostei bastante da construção e desenrolar da história; wild (2014), que tava na lista de indicados pelos professores do descomplica e foi massa pelo realismo inesperado; dois contos de relatos salvajes (2014), que ela indicou também e terminei depois (achei bem bom e surpreendente); e perfect sense (2011), que foi bom de reassistir pra renovar a gratidão por ter todos os sentidos. também vimos um curta lançado no ccl: bastidores (2017), com gente daqui da região no elenco, alguns conhecidos (longe de ser perfeito mas foi divertido).

quarta-feira, 31 de maio de 2017

lidos em maio

depois de um atraso enorme dos correios recebi click, da samanta flôor. é uma HQ sobre essa menininha que encontra uma câmera guardada no sótão e sai fotografando tudo, sem perceber que o que é vivo vai morrendo e o que é morto vai "despertando". tem também um moço que faz retratos e passa a enxergar apenas caveiras nos rostos das pessoas – ele até que consegue sucesso com isso, mas quando a garota o encontra não dá muito certo. matheus gostou bastante quando leu e saiu fotografando também, apesar de ter ficado apreensivo de que fosse acontecer algo sobrenatural. além disso a samanta mandou três, zine que conta um pouco sobre a infância dela e dos irmãos nos anos 80, e fiquei feliz porque eu queria ele também mas tinha ficado receosa de gastar (ela só escreveu "obrigada, stephanie!" na primeira página de click, então acho que só vale para os realmente comprados).


pelo kindle unlimited li salt, de nayyirah waheed. são poemas curtos e muito impactantes sobre uma variedade de temas, mas principalmente questões negras e a vida das mulheres. são simples e diretos como socos no estômago; penso que na mesma linha dos poemas da rupi kaur, que tem sido popular por esses tempos. gostei de tantos que isso aqui vai ficar imenso, mas vale a pena.

there
are feelings.
you haven't felt yet.
give them time.
they are almost here.
– fresh
when you are struggling
in your
writing (art).
it usually means
you
are hearing one thing.
but
writing (creating) another.
– honest | risk
my heart is in my mind. i think this is why i am an artist.
i don't pay attention to the
world ending.
it has ended for me
many times
and began again in the morning.
[sobre não conseguir se interessar em se inteirar sobre as bostas acontecendo no brasil e no mundo...]
you
see your face.
you
see a flaw.
how. if you are the only one who has this face.
– the beauty construct
we lay
in our country.
love makes us a homeland.
– bed
you travel
to lush looted countries.
parts of earth laying on their sides.
barely breathing.
hot with rust, infection, and tourist anemia.
you and your camera arrive.
start tearing at bodies
with
your lust.
it's harmless.
appreciating culture.
sharing.
honoring clothing.
the way certain skin exists.
oh
you've sold those photographs.
the ones you were so excited about.
the one you 'caught' with children being children.
the one with the woman you thought so 'beautiful.'
you and your camera
eat
as much as one stomach and three sd cards can hold.
get on a plane
and
leave with the belief
that your eyes are
clean.
honest.
artistic.
– photography | the gaze
[essa é um tapaço na cara. pensei até em aldivo e fotos de mendigos na rua.]
my whole life
i have
ate my tongue.
ate my tongue.
ate my tongue.
i am so full of my tongue
you would think speaking is easy.
but it is not.
– for we who keep our lives in our mouths
i will tell you, my daughter
of your worth
not your beauty
every day. (your beauty is a given. every being is born beautiful.)
knowing your worth
can save your life.
raising you on beauty alone
you will be starved.
you will be raw.
you will be weak.
an easy stomach.
always in need of someone telling you how beautiful you are.
– emotional nutrition
getting yourself together.
what about undoing yourself.
– the fix
racism is a translucent skin.
it defends itself
by
attacking itself.
– reverse racism
[porra, perfeito.]
you.
not wanting me.
was
the beginning of me
wanting myself.
thank you.
– the hurt
be insecure
in peace.
allow yourself
lowness.
know that it is
only
a
country
on
the way to who you are.
– travelling
if
we.
are
with child.
and
you believe that fatherhood
begins
when my body pours a baby into your hands.
not before.
you do not deserve this child.
you are a coward.
– you are a father the moment you enter me
i lost a whole continent.
a whole continent from my memory.
unlike all other hyphenated americans
my hyphen is made of blood. feces. bone.
when africa says hello
my mouth is a heartbreak.
because i have nothing in my tongue
to answer her.
i do not know how to say hello to my mother.
– african american ii
[pesado demais.]
i want to see
brown and black folks
photographed
by
brown and black eyes.
– eyes
listen to my poems.
but
do not look for me.
look for you.
– you
and what if i write of you.
is that more love than you can handle.
when i am afraid to speak
is when i speak.
that is when it is most important.
– the freedom in fear
something as simple as
the
sun
asking me
out.
– the perfect date
i do not expect my child's respect.
just because i have given birth to their life.
does not mean they owe me.
anything.
what i want most is to look into my child's eyes
and
see
that i have given birth
to
a
heart.
have
honored.
held and fed.
someone's heart.
from the moment we first met.
and they love me for this.
– first
i loved you
because
it was easier
than
loving myself.
– runaway
[doeu.]
remember.
you were a writer
before
you ever
put
word to paper.
just because you were not writing
externally.
does not mean you were not writing
internally.
– stories
knowing your power
is what creates
humility.
not knowing your power
is what creates
insecurity.
– ego
if i have never seen you cry.
if you do not cry.
if you do not value or respect the needs of your water.
you and i cannot form.
if you cannot allow your own being
to wash over you.
how will mine ever make it past your skin.
– available
[opa, relatable de novo.]
a lie
is
simply a lie.
it draws its strength from belief.
stop believing
in
what hurts you.
– power
do you think
calling me 'angry'
is an insult.
every time you call me 'angry'
i hear your voice salt with guilt
and
i laugh.
look how easy it is to reveal you.
– anger is a healthy and natural response to oppression
it's not about making you uncomfortable.
it's about making me comfortable.
– reparations
[bem simples.]
you ask
your heart
why it is always hurting.
it says
'this is the only thing you will allow me to say to you.
the only feeling you are willing to feel.'
'i love myself.'
the
quietest.
simplest.
most
powerful.
revolution.
ever.
– ism
her love.
was the only medicine.
the only
medicine.
that ever worked. and this is why
she left.
she
wanted yours to work.
too.
– healer
[(suspiro)]
i have lost millions and millions
of words to fear.
tell me that is not violence.
– the deaths
for me
there is no other.
because there is no default.
everyone
is
a variation of life.
– the human being | the human gender | the human sex
[foda.]

depois li os meninos morenos, do ziraldo. são memórias de sua infância despertadas após uma viagem à guatemala, onde conheceu o poeta de origem maia humberto ak'abal (que tem alguns poemas inseridos no livro também). sua poesia trata de seu pueblo e dos meninos cuja identidade tanto se assemelha aos meninos de ziraldo, além de que são "filhos da mesma floresta". foi uma delícia de leitura: pequenos trechos, desenhos e poemas que puxam um sorrisinho que vem lá da alma. bastante simples e curto mas, como fez salt, dá brecha a vários pensamentos que perduram. a seguir os muitos pedaços que me chamaram atenção.

Eles transferiram as cores de seus pássaros e de suas flores para suas roupas e para seus enfeites. Creio que uma menina cor de terra desses lugares jamais perguntou à sua mãe qual cor combinava com outra. Ali, todas as cores combinam.
Era pouco mais do que um córrego, com belos remansos escondidos entre bambuzais, onde os meninos nadavam escondidos e morriam de esquistossomose, pois achávamos engraçadinhos os caramujos que vinham colados em nossas canelas quando saíamos da água.
[risos de desespero.] 
AQUELA GOTA D'ÁGUA
Aquela gota
que se desprendia do teto
da minha infância -
a única que ficava
depois da chuva -
continua pingando
na minha memória.
Quando nós chegamos na porteira, quem primeiro nos viu foi o Zulu. Ele veio correndo, todo feliz, abanando o rabo, nervoso, pulando sobre a gente, pulando no colo do meu pai, derrubando eu e meu irmão, fazendo a festa de quem não sabe o que é guardar rancor.
Antes dos seis anos de idade, nossa memória não consegue guardar as coisas com muita nitidez. Tudo parece se confundir com os sonhos, são como fotografias fora de foco.
Eu ventava!
A gente precisava conversar muito com os pais e com os avós, fazer perguntas, ir atrás das respostas.
O trem fazia manobras em frente de casa. Ia e vinha, dava apitos curtos, soltava fumaça como se respirasse seu cansaço. Seus ruídos cadenciados ficaram gravados na memória como o tema musical de um filme inesquecível.
Meu segundo irmão havia nascido. Meu avô havia feito o parto. Ele foi o homem mais habilidoso que jamais conheci.
[essa coisa do avô foi bastante pertinente pra mim, já que li num dia em que só tinha a gente na chácara com a vó e o vô. ele fez críticas à reforma da casa do tio joão, comentando como ele sabe o jeito certo e outros acontecidos relacionados.]
Foi cheia de adjetivos inadequados a noite que está na minha memória com todos os seus detalhes: o cerimonial do nascimento do meu segundo irmão. Mesmo assim continuei, por muito tempo, acreditando que as crianças chegavam à vida trazidas no bico de uma cegonha. Até o dia em que, diante de alguém tentando me contar mais uma vez a velha história, ouvi meu estabanado avô berrar: "Que cegonha, coisa nenhuma! Conta a verdade  pro menino! No país que tem passarinho de tudo quanto é jeito voando nessas matas, o povo vem inventar uma desgraça duma ave que nunca voou por aqui!". Eu perguntei, então, que passarinho era o portador dos bebês. O velho ferreiro berrou mais alto: "O passarinho é o que entrou na barriga da sua mãe, sô, um homem dest'amanho!".
Conto isso para lembrar minha mãe explicando para as amigas, com o maior bom humor, o que acontecia com seus meninos morenos quando chegava o verão cheio de sol: "Meus meninos estão tão queimadinhos que dá pra riscar as paredes com eles!". Às vezes ela nem explicava se era parede, muro ou calçada. Dizia apenas: "Eles estão riscando!".
A descoberta é esta: os negros têm a nuca igual a de um número dois. Os árabes, igual a de um número um.
[procurei imagens depois (o que não adiantou muito) e constatei que é verdade, por mais curioso que seja.] 
NA POÇA
Na poça
havia muitas estrelas;
pedi a meu pai
que as tirasse dali.
Ele removeu a água
gota a gota
e pôs as estrelas
nas minhas mãos.
Ao amanhecer
eu queria saber se era verdade
que ele as havia tirado da poça.
E era verdade, na poça
só restava o céu.
O GALO
Este galo já está velho,
amanhã já não o deixaremos cantar.
No dia seguinte
o galo amanheceu morto.
Eu creio que ele escutou
o que se disse na casa
e, de noite,
morreu de tristeza.
OVELHAS
O céu
é uma grande planura.
Ali, pastam ovelhas
lanosas e gordas,
brancas,
cinzentas,
negras.
Elas caminham sobre o céu,
por isso
não vemos suas patas.
Já o carrapato a gente deixava alguns passeando pelo corpo antes de ir dormir para, depois, ficar com o dedo passando o carrapato, preso ao corpo, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, até achar que era hora de arrancá-lo da pele e ficar com saudade da intimidade perdida.
[risos de desespero².] 
CADA UM COM SUA SOMBRA
Amanhece.
O sol come a neblina
e começa a pintar
caminhos,
árvores,
casinhas,
bichos,
gente...
E pra cada um
faz uma sombra.
NO CHÃO
A lua
busca algum buraquinho
nas casas de pau a pique,
entra
e se senta no chão.
Cada nome pronunciado significava aprovação. Ouvido seu nome, o menino ou a menina abandonava o pátio e subia para a varanda que o circundava. E se postava ali, olhando os náufragos que ainda restavam, boiando perigosamente no mar de tijolos crus do pátio.
Todas as comidas feitas de véspera, as camas desfeitas, a casa sem varrer, nem brincar, nem falar alto, ruído nenhum. Qualquer barulho aumentaria a dor nas chagas de Cristo. Era sexta-feira da Paixão e meu pai, cedinho, nos acordava e, bem baixinho, explicava pra gente como devíamos agir naquele dia e dissertava sobre o que era respeito, e a gente achava sensacional o desafio de ficar quietinho um dia inteiro.
A gente não estudava. Não tinha tempo. A gente brincava. Quando chegava, porém, a época das provas, tome angústia. A noite inteira acordado, o abajur aceso sobre o livro de Ciências, a lista dos pontos, os pés dentro de uma bacia de água para não dormir (como fazia Machado de Assis, coisa que a gente aprendeu lendo e não estudando).
GUARDABARRANCA
Guardabarranca:
teu canto é como
um rolar de pedrinhas
caindo na água do rio.
ÀS VEZES, RIOS
Se tem água
são rios.
Se não,
são caminhos.
Queria fazer um filme com os meus meninos morenos! Em vez de neve, meu filme teria o nevoeiro das manhãs de inverno do vale onde nasceu minha cidade; em vez de febre do feno, a revoada das folhinhas de samambaia da época das queimadas, que se desfaziam em cinzas quando tocadas; em vez de um louco na motocicleta, atravessando a cidade como um bólido, meu filme teria os cavalinhos do João Bobo, com ele montado em pelo e gritando sai da frente, sai da frente, e sumindo no fim da rua. E teria a doida que respondia com pedradas quando os meninos a chamavam de Bodoque de Banda, porque ela andava meio torta; ela no lugar do louco gritando, no alto da árvore, que queria una donna. E botaria no filme, também, um ditador que amava as crianças e as saudava em belos cartazes e que tinha inventado um outro feriado, dois dias antes do Grande Feriado Nacional. Nesse dia todos os meninos morenos marchavam ao sol do meio-dia e desmaiavam na hora dos discursos cívicos. De desnutrição. No Dia da Raça. Finalmente, o cenário seria um quadro que descobri de Portinari (que, ao longo da vida, pintou seu Amarcord).
[alex comentou uma vez sobre fellini, não lembro em que ocasião (pesquisei e foi quando mostrei vídeo de viagem de dani&paulo à itália; comentou que gostava do cara e tinha visto amarcord e um outro filme). ainda não assisti nada dele mas lembro de ter anotado esse aí.] 
O prefixo do jornal da Fox misturava uma quantidade infinita de cenas, todos os assuntos possíveis, rodando freneticamente na tela. Minha mãe dizia que a cabeça do seu filho parecia com aquela cena. "Esse menino tem cabeça de Fox!"
A LUA
A Lua
triste na sua solidão,
a despeito de viver
entre estrelas,
balangando no céu,
deseja
desesperadamente
estar na Terra.
Se deita no fundo
de qualquer poça.
O rádio começou a tocar a Tannenbaum  hoje eu sei que a canção se chamava assim  e era a canção mais linda que eu tinha ouvido até então. Vi os olhos do meu pai brilhando contra a luz da Lua, e ele falou para quem quisesse escutar, ele que era marrom-escuro, muito marrom mesmo, bonito, e estava mais bonito ainda naquele momento, e ele falou: "Esta música me dá uma saudade imensa de uma coisa que eu não vivi".

eu pretendia terminar mayombe no primeiro mês do kindle unlimited mas percebe-se a falha catastrófica. pelo menos li coisas bacanas, além de umas histórias daquele livro encantamento – contos de fada, fantasma e magia pro meu irmão e dois contos, a queda da casa de usher (edgar allan poe) e you were perfectly fine (dorothy parker). esse do poe li porque ia ter uma peça de teatro baseada nele na biblioteca municipal; li em voz alta, pois queria que minha mãe também soubesse, e achei muito bom. a eloquência do autor nas palavras e na condução da história me desencorajam a ler os originais em inglês, mas tudo bem – afinal, tenho em casa um livro inteiro me esperando. sobre a peça: era composta por alunos do colégio antares, acho que do 5º ano, e dentre as pessoas que foram assistir nós éramos os únicos sem parentesco com eles. tinha aquilo de vários atores fazendo o mesmo personagem, o que acho massa pra conseguir passar várias nuances; houve uma adaptação pra que durasse uns 10 minutos e não foi lá aquelas coisas, mas dá pra dar um desconto pelo entusiasmo da professora e pela dedicação dos bichinhos. o outro conto eu li porque tava procurando saber sobre a autora, de quem john green citou uma frase ("what the fresh hell is this?") num vídeo do vlogbrothers. aparentemente ela é bem famosa nos estados unidos; li alguns poemas também e percebe-se temas como depressão, amor e etc, além de algum desdém. bacaninha.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

memoria rota

ok, é isso. a única pessoa pra quem pretendo escrever aqui sou eu mesma – isso vai ser uma tentativa de fixar melhor as coisas que leio e assisto, por isso vou registrar detalhes de mais pra alguém que poderia querer acompanhar sem receber spoilers. queria começar a escrever sobre tudo e ia fazer isso num caderninho/sketchbook, mas pensei melhor e acho que eu acabaria postergando por causa do esforço de escrever à mão o tempo todo. num blog é mais prático e mais fácil de encontrar as coisas, afinal. e já dizia (mais ou menos) algum escritor que vi no listography (ou talvez outra rede) de alguém e não consigo encontrar agora, "writing makes you a better reader, reading makes you a better writer".