depois de um atraso enorme dos correios recebi click, da samanta flôor. é uma HQ sobre essa menininha que encontra uma câmera guardada no sótão e sai fotografando tudo, sem perceber que o que é vivo vai morrendo e o que é morto vai "despertando". tem também um moço que faz retratos e passa a enxergar apenas caveiras nos rostos das pessoas – ele até que consegue sucesso com isso, mas quando a garota o encontra não dá muito certo. matheus gostou bastante quando leu e saiu fotografando também, apesar de ter ficado apreensivo de que fosse acontecer algo sobrenatural. além disso a samanta mandou três, zine que conta um pouco sobre a infância dela e dos irmãos nos anos 80, e fiquei feliz porque eu queria ele também mas tinha ficado receosa de gastar (ela só escreveu "obrigada, stephanie!" na primeira página de click, então acho que só vale para os realmente comprados).
pelo kindle unlimited li salt, de nayyirah waheed. são poemas curtos e muito impactantes sobre uma variedade de temas, mas principalmente questões negras e a vida das mulheres. são simples e diretos como socos no estômago; penso que na mesma linha dos poemas da rupi kaur, que tem sido popular por esses tempos. gostei de tantos que isso aqui vai ficar imenso, mas vale a pena.
there
are feelings.
you haven't felt yet.
give them time.
they are almost here.
– fresh
when you are struggling
in your
writing (art).
it usually means
you
are hearing one thing.
but
writing (creating) another.
– honest | risk
my heart is in my mind. i think this is why i am an artist.
i don't pay attention to the[sobre não conseguir se interessar em se inteirar sobre as bostas acontecendo no brasil e no mundo...]
world ending.
it has ended for me
many times
and began again in the morning.
you
see your face.
you
see a flaw.
how. if you are the only one who has this face.
– the beauty construct
we lay
in our country.
love makes us a homeland.
– bed
you travel[essa é um tapaço na cara. pensei até em aldivo e fotos de mendigos na rua.]
to lush looted countries.
parts of earth laying on their sides.
barely breathing.
hot with rust, infection, and tourist anemia.
you and your camera arrive.
start tearing at bodies
with
your lust.
it's harmless.
appreciating culture.
sharing.
honoring clothing.
the way certain skin exists.
oh
you've sold those photographs.
the ones you were so excited about.
the one you 'caught' with children being children.
the one with the woman you thought so 'beautiful.'
you and your camera
eat
as much as one stomach and three sd cards can hold.
get on a plane
and
leave with the belief
that your eyes are
clean.
honest.
artistic.
– photography | the gaze
my whole life
i have
ate my tongue.
ate my tongue.
ate my tongue.
i am so full of my tongue
you would think speaking is easy.
but it is not.
– for we who keep our lives in our mouths
i will tell you, my daughter
of your worth
not your beauty
every day. (your beauty is a given. every being is born beautiful.)
knowing your worth
can save your life.
raising you on beauty alone
you will be starved.
you will be raw.
you will be weak.
an easy stomach.
always in need of someone telling you how beautiful you are.
– emotional nutrition
getting yourself together.
what about undoing yourself.
– the fix
racism is a translucent skin.[porra, perfeito.]
it defends itself
by
attacking itself.
– reverse racism
you.
not wanting me.
was
the beginning of me
wanting myself.
thank you.
– the hurt
be insecure
in peace.
allow yourself
lowness.
know that it is
only
a
country
on
the way to who you are.
– travelling
if
we.
are
with child.
and
you believe that fatherhood
begins
when my body pours a baby into your hands.
not before.
you do not deserve this child.
you are a coward.
– you are a father the moment you enter me
i lost a whole continent.[pesado demais.]
a whole continent from my memory.
unlike all other hyphenated americans
my hyphen is made of blood. feces. bone.
when africa says hello
my mouth is a heartbreak.
because i have nothing in my tongue
to answer her.
i do not know how to say hello to my mother.
– african american ii
i want to see
brown and black folks
photographed
by
brown and black eyes.
– eyes
listen to my poems.
but
do not look for me.
look for you.
– you
and what if i write of you.
is that more love than you can handle.
when i am afraid to speak
is when i speak.
that is when it is most important.
– the freedom in fear
something as simple as
the
sun
asking me
out.
– the perfect date
i do not expect my child's respect.
just because i have given birth to their life.
does not mean they owe me.
anything.
what i want most is to look into my child's eyes
and
see
that i have given birth
to
a
heart.
have
honored.
held and fed.
someone's heart.
from the moment we first met.
and they love me for this.
– first
i loved you[doeu.]
because
it was easier
than
loving myself.
– runaway
remember.
you were a writer
before
you ever
put
word to paper.
just because you were not writing
externally.
does not mean you were not writing
internally.
– stories
knowing your power
is what creates
humility.
not knowing your power
is what creates
insecurity.
– ego
if i have never seen you cry.[opa, relatable de novo.]
if you do not cry.
if you do not value or respect the needs of your water.
you and i cannot form.
if you cannot allow your own being
to wash over you.
how will mine ever make it past your skin.
– available
a lie
is
simply a lie.
it draws its strength from belief.
stop believing
in
what hurts you.
– power
do you think
calling me 'angry'
is an insult.
every time you call me 'angry'
i hear your voice salt with guilt
and
i laugh.
look how easy it is to reveal you.
– anger is a healthy and natural response to oppression
it's not about making you uncomfortable.[bem simples.]
it's about making me comfortable.
– reparations
you ask
your heart
why it is always hurting.
it says
'this is the only thing you will allow me to say to you.
the only feeling you are willing to feel.'
'i love myself.'
the
quietest.
simplest.
most
powerful.
revolution.
ever.
– ism
her love.[(suspiro)]
was the only medicine.
the only
medicine.
that ever worked. and this is why
she left.
she
wanted yours to work.
too.
– healer
i have lost millions and millions
of words to fear.
tell me that is not violence.
– the deaths
for me[foda.]
there is no other.
because there is no default.
everyone
is
a variation of life.
– the human being | the human gender | the human sex
depois li os meninos morenos, do ziraldo. são memórias de sua infância despertadas após uma viagem à guatemala, onde conheceu o poeta de origem maia humberto ak'abal (que tem alguns poemas inseridos no livro também). sua poesia trata de seu pueblo e dos meninos cuja identidade tanto se assemelha aos meninos de ziraldo, além de que são "filhos da mesma floresta". foi uma delícia de leitura: pequenos trechos, desenhos e poemas que puxam um sorrisinho que vem lá da alma. bastante simples e curto mas, como fez salt, dá brecha a vários pensamentos que perduram. a seguir os muitos pedaços que me chamaram atenção.
Eles transferiram as cores de seus pássaros e de suas flores para suas roupas e para seus enfeites. Creio que uma menina cor de terra desses lugares jamais perguntou à sua mãe qual cor combinava com outra. Ali, todas as cores combinam.
Era pouco mais do que um córrego, com belos remansos escondidos entre bambuzais, onde os meninos nadavam escondidos e morriam de esquistossomose, pois achávamos engraçadinhos os caramujos que vinham colados em nossas canelas quando saíamos da água.[risos de desespero.]
AQUELA GOTA D'ÁGUA
Aquela gota
que se desprendia do teto
da minha infância -
a única que ficava
depois da chuva -
continua pingando
na minha memória.
Quando nós chegamos na porteira, quem primeiro nos viu foi o Zulu. Ele veio correndo, todo feliz, abanando o rabo, nervoso, pulando sobre a gente, pulando no colo do meu pai, derrubando eu e meu irmão, fazendo a festa de quem não sabe o que é guardar rancor.
Antes dos seis anos de idade, nossa memória não consegue guardar as coisas com muita nitidez. Tudo parece se confundir com os sonhos, são como fotografias fora de foco.
Eu ventava!
A gente precisava conversar muito com os pais e com os avós, fazer perguntas, ir atrás das respostas.
O trem fazia manobras em frente de casa. Ia e vinha, dava apitos curtos, soltava fumaça como se respirasse seu cansaço. Seus ruídos cadenciados ficaram gravados na memória como o tema musical de um filme inesquecível.
Meu segundo irmão havia nascido. Meu avô havia feito o parto. Ele foi o homem mais habilidoso que jamais conheci.[essa coisa do avô foi bastante pertinente pra mim, já que li num dia em que só tinha a gente na chácara com a vó e o vô. ele fez críticas à reforma da casa do tio joão, comentando como ele sabe o jeito certo e outros acontecidos relacionados.]
Foi cheia de adjetivos inadequados a noite que está na minha memória com todos os seus detalhes: o cerimonial do nascimento do meu segundo irmão. Mesmo assim continuei, por muito tempo, acreditando que as crianças chegavam à vida trazidas no bico de uma cegonha. Até o dia em que, diante de alguém tentando me contar mais uma vez a velha história, ouvi meu estabanado avô berrar: "Que cegonha, coisa nenhuma! Conta a verdade pro menino! No país que tem passarinho de tudo quanto é jeito voando nessas matas, o povo vem inventar uma desgraça duma ave que nunca voou por aqui!". Eu perguntei, então, que passarinho era o portador dos bebês. O velho ferreiro berrou mais alto: "O passarinho é o que entrou na barriga da sua mãe, sô, um homem dest'amanho!".
Conto isso para lembrar minha mãe explicando para as amigas, com o maior bom humor, o que acontecia com seus meninos morenos quando chegava o verão cheio de sol: "Meus meninos estão tão queimadinhos que dá pra riscar as paredes com eles!". Às vezes ela nem explicava se era parede, muro ou calçada. Dizia apenas: "Eles estão riscando!".
A descoberta é esta: os negros têm a nuca igual a de um número dois. Os árabes, igual a de um número um.[procurei imagens depois (o que não adiantou muito) e constatei que é verdade, por mais curioso que seja.]
NA POÇA
Na poça
havia muitas estrelas;
pedi a meu pai
que as tirasse dali.
Ele removeu a água
gota a gota
e pôs as estrelas
nas minhas mãos.
Ao amanhecer
eu queria saber se era verdade
que ele as havia tirado da poça.
E era verdade, na poça
só restava o céu.
O GALO
Este galo já está velho,
amanhã já não o deixaremos cantar.
No dia seguinte
o galo amanheceu morto.
Eu creio que ele escutou
o que se disse na casa
e, de noite,
morreu de tristeza.
OVELHAS
O céu
é uma grande planura.
Ali, pastam ovelhas
lanosas e gordas,
brancas,
cinzentas,
negras.
Elas caminham sobre o céu,
por isso
não vemos suas patas.
Já o carrapato a gente deixava alguns passeando pelo corpo antes de ir dormir para, depois, ficar com o dedo passando o carrapato, preso ao corpo, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, até achar que era hora de arrancá-lo da pele e ficar com saudade da intimidade perdida.[risos de desespero².]
CADA UM COM SUA SOMBRA
Amanhece.
O sol come a neblina
e começa a pintar
caminhos,
árvores,
casinhas,
bichos,
gente...
E pra cada um
faz uma sombra.
NO CHÃO
A lua
busca algum buraquinho
nas casas de pau a pique,
entra
e se senta no chão.
Cada nome pronunciado significava aprovação. Ouvido seu nome, o menino ou a menina abandonava o pátio e subia para a varanda que o circundava. E se postava ali, olhando os náufragos que ainda restavam, boiando perigosamente no mar de tijolos crus do pátio.
Todas as comidas feitas de véspera, as camas desfeitas, a casa sem varrer, nem brincar, nem falar alto, ruído nenhum. Qualquer barulho aumentaria a dor nas chagas de Cristo. Era sexta-feira da Paixão e meu pai, cedinho, nos acordava e, bem baixinho, explicava pra gente como devíamos agir naquele dia e dissertava sobre o que era respeito, e a gente achava sensacional o desafio de ficar quietinho um dia inteiro.
A gente não estudava. Não tinha tempo. A gente brincava. Quando chegava, porém, a época das provas, tome angústia. A noite inteira acordado, o abajur aceso sobre o livro de Ciências, a lista dos pontos, os pés dentro de uma bacia de água para não dormir (como fazia Machado de Assis, coisa que a gente aprendeu lendo e não estudando).
GUARDABARRANCA
Guardabarranca:
teu canto é como
um rolar de pedrinhas
caindo na água do rio.
ÀS VEZES, RIOS
Se tem água
são rios.
Se não,
são caminhos.
Queria fazer um filme com os meus meninos morenos! Em vez de neve, meu filme teria o nevoeiro das manhãs de inverno do vale onde nasceu minha cidade; em vez de febre do feno, a revoada das folhinhas de samambaia da época das queimadas, que se desfaziam em cinzas quando tocadas; em vez de um louco na motocicleta, atravessando a cidade como um bólido, meu filme teria os cavalinhos do João Bobo, com ele montado em pelo e gritando sai da frente, sai da frente, e sumindo no fim da rua. E teria a doida que respondia com pedradas quando os meninos a chamavam de Bodoque de Banda, porque ela andava meio torta; ela no lugar do louco gritando, no alto da árvore, que queria una donna. E botaria no filme, também, um ditador que amava as crianças e as saudava em belos cartazes e que tinha inventado um outro feriado, dois dias antes do Grande Feriado Nacional. Nesse dia todos os meninos morenos marchavam ao sol do meio-dia e desmaiavam na hora dos discursos cívicos. De desnutrição. No Dia da Raça. Finalmente, o cenário seria um quadro que descobri de Portinari (que, ao longo da vida, pintou seu Amarcord).[alex comentou uma vez sobre fellini, não lembro em que ocasião (pesquisei e foi quando mostrei vídeo de viagem de dani&paulo à itália; comentou que gostava do cara e tinha visto amarcord e um outro filme). ainda não assisti nada dele mas lembro de ter anotado esse aí.]
O prefixo do jornal da Fox misturava uma quantidade infinita de cenas, todos os assuntos possíveis, rodando freneticamente na tela. Minha mãe dizia que a cabeça do seu filho parecia com aquela cena. "Esse menino tem cabeça de Fox!"
A LUA
A Lua
triste na sua solidão,
a despeito de viver
entre estrelas,
balangando no céu,
deseja
desesperadamente
estar na Terra.
Se deita no fundo
de qualquer poça.
O rádio começou a tocar a Tannenbaum – hoje eu sei que a canção se chamava assim – e era a canção mais linda que eu tinha ouvido até então. Vi os olhos do meu pai brilhando contra a luz da Lua, e ele falou para quem quisesse escutar, ele que era marrom-escuro, muito marrom mesmo, bonito, e estava mais bonito ainda naquele momento, e ele falou: "Esta música me dá uma saudade imensa de uma coisa que eu não vivi".
eu pretendia terminar mayombe no primeiro mês do kindle unlimited mas percebe-se a falha catastrófica. pelo menos li coisas bacanas, além de umas histórias daquele livro encantamento – contos de fada, fantasma e magia pro meu irmão e dois contos, a queda da casa de usher (edgar allan poe) e you were perfectly fine (dorothy parker). esse do poe li porque ia ter uma peça de teatro baseada nele na biblioteca municipal; li em voz alta, pois queria que minha mãe também soubesse, e achei muito bom. a eloquência do autor nas palavras e na condução da história me desencorajam a ler os originais em inglês, mas tudo bem – afinal, tenho em casa um livro inteiro me esperando. sobre a peça: era composta por alunos do colégio antares, acho que do 5º ano, e dentre as pessoas que foram assistir nós éramos os únicos sem parentesco com eles. tinha aquilo de vários atores fazendo o mesmo personagem, o que acho massa pra conseguir passar várias nuances; houve uma adaptação pra que durasse uns 10 minutos e não foi lá aquelas coisas, mas dá pra dar um desconto pelo entusiasmo da professora e pela dedicação dos bichinhos. o outro conto eu li porque tava procurando saber sobre a autora, de quem john green citou uma frase ("what the fresh hell is this?") num vídeo do vlogbrothers. aparentemente ela é bem famosa nos estados unidos; li alguns poemas também e percebe-se temas como depressão, amor e etc, além de algum desdém. bacaninha.
Nenhum comentário:
Postar um comentário