quinta-feira, 31 de agosto de 2017

assistidos em agosto

dia 1º já terminei the handmaid's tale e MEU DEUS, não sei nem por onde começar, sei nem se sou capaz de falar alguma coisa à altura. a história se passa num futuro onde a maioria das pessoas é estéril em decorrência de químicos nos alimentos e doenças, o que faz com que uma religião fundamentalista tome o poder e passe a regular tudo de forma bizarra – as mulheres férteis são feitas de servas para a elite, sendo submetidas a rituais de estupro para dar filhos àquelas famílias e perdendo qualquer direito de serem pessoas. acompanhamos offred ("of fred") e a perda de sua filha e marido, as tentativas de encontrar alguma saída nesse regime, o sofrimento de ser impotente e etc. homossexuais, médicos que faziam abortos e pessoas de outras religiões são brutalmente mortas. é aterrorizante porque parece muito possível, não parece que estamos longe de algo assim; outro dia mesmo eu vi qualquer coisa no facebook sobre estudos mostrando que a fertilidade de homens de não sei onde caiu pela metade... além de tudo a filmagem é maravilhosa. quero ler o livro agora e sei que vai ter continuação da série.

depois assisti silence (2016), filme tratando de jesuítas portugueses tentando difundir o catolicismo pelo japão que baniu essa religião. massa demais a coisa de supostamente não serem capazes de conceber uma crença que não envolvesse a natureza e coisas visíveis... sinto que o filme quer mostrar que, apesar de tudo, os missionários não abandonaram sua causa, mas ao mesmo tempo dá pra absorver grandes críticas à igreja católica. meio maçante o filme, ritmo lento, mas acho que é tudo parte desse negócio de silêncio, introspecção, filosofia budista... foi baseado num livro, aliás.

vi, em dois dias, todos os 100 episódios de the lizzie bennet diaries, webserie de 2012 em forma de vlog cujo produtor executivo é o hank green (!). é uma adaptação de pride and prejudice pros dias atuais de forma muito cômica e criativa. vários personagens tem suas próprias redes sociais, lydia bennet tem até o próprio canal em contraponto ao da irmã, e desenvolveram-na de forma incrível. trocaram o negócio de casamento por emprego e achei genial! até charlotte tem mais espaço, conseguiram abordar muita coisa. com certeza devia ser mais conhecido.

reassisti hotarubi no mori e (2011) porque tava com vontade de chorar. chorei.

assisti a um ted da amanda palmer chamado the art of asking, que me deixou ouvindo as músicas dela por um tempinho. gostei do que ela abordou e desse pensamento, adotaria pra vida se fosse artista.

vi a season 2 de mr. robot, puramente porque fiquei usando o capuz do meu moletom nos dias de friozão e me senti muito elliot alderson. precisava fazer um resumo de todas as temporadas porque tem coisa demais e é confuso pra caramba, mas não tô muito com vontade. mas eu gostei, me surpreendeu também, logo sai a 3ª e pretendo ver.

minha mãe coisou um mês grátis de netflix e aproveitei pra ver to the bone (2017), cujo trailer eu vi há algum tempo e me interessei. é sobre uma jovem com anorexia que vai pra uma casa de recuperação onde tem várias outras pessoas com problemas similares. gostei do filme, não é exatamente sobre recuperação mas sim sobre o processo pra começar. teve uma cena que achei bonitona, massa tudo. a música também é boa, e curti essa também. tem outra onde a mãe dela quer tratá-la como um bebê porque sente que algum problema nessa fase acarretou os problemas alimentares posteriores, e é tão triste. ela diz que aceita se a filha quiser morrer mesmo e chorei demais.

larissa me recomendou what happened to monday (2017), também do netflix, e assisti... mas achei bem bosta. noomi rapace faz 7 irmãs gêmeas nessa sociedade onde não pode existir mais de um filho por casal, e cada dia da semana é uma que sai pro mundo. logicamente acabam descobrindo e elas têm que fugir, várias morrem, acaba que era tudo conspiração de uma que queria existir sozinha. não gostei de nada e achei uma perda de tempo, no geral.

vi um curta sobre mulheres carecas chamado omg she's bald: the power of a woman with a shaved head (2017), porque tava na pira de ver tudo quanto é vídeo falando desse assunto. bacana ver a gama de significados que isso traz, apesar de minhas maiores motivações serem ter agonia de meu cabelo e querer saber o formato da minha cabeça.

assisti the matrix (1999), que eu não tenho certeza de já ter visto, mas no filmow marquei que sim e até dei 4 estrelas. é legal, meio absurdo, alegoria de platão ou jesus e aquela coisa toda. gostaria de ver as sequências em breve.

nos dias adoentados vi uns vídeos aleatórios do broadly/vice e o documentário she is my son: afghanistan's bacha posh, when girls become boys (2016). nunca que eu ia imaginar que em alguma parte do mundo as pessoas forçassem meninas a fingirem ser homens pra benefício de suas famílias, me surpreendi bastante. muitos questionamentos brotando de abolição de gênero, transexualidade como sintoma desse sistema, desvínculo de estereótipos, sexualidade...

vi também um mini-doc sobre o processo artístico do jim carrey após o suicídio de sua namorada, chamado i needed color (2017). não sabia que ele se envolvia com arte nem nada dessa história, mas achei massa e bem real o que ele fala.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

lidos em agosto

no comecinho do mês terminei cyrano de bergerac, de edmond rostand, que tava na minha estante há anos desde que comprei no sebo. é uma peça teatral sobre esse herói um tanto quanto pitoresco, com um nariz enorme, muito valente e talentoso. ele acaba cedendo seu dom de escrita a cristiano, que está apaixonado por roxane, prima dele – a quem também ama, mas considera-se sem chances por causa de sua feiura. achei muito massa as coisas que ele compunha e falava se passando por cristiano, como se criasse tudo mas, na verdade, expressando o que sentia. os dois acabam partindo para um combate, no qual cristiano falece; anos mais tarde, roxane fica sabendo do combinado entre eles, quando cyrano está morrendo, e lamenta por um amor duas vezes perdido. achei bastante dinâmico e surpreendente, além de que não esperava que o protagonista tivesse existido de verdade!

em agosto levei meu irmão na biblioteca pela primeira vez, e enquanto fazia companhia a ele na seção infantil li ou isto ou aquilo, da cecília meireles. são vários poemas criativos ilustrados pelo traço lindão de odilon moraes. foi gostosinho de ler; acho que fui conhecer pela jotapluftz há um tempo atrás.

finalmente li coração, cabeça e estômago, de camilo castelo branco. o narrador, silvestre da silva, começa se apaixonando a torto e a direito, sem obter sucesso em nenhum relacionamento; em seguida se dedica ao intelecto, escrevendo para um jornal sobre a sociedade hipócrita de onde vivia, o que (quase?) o coloca na prisão; por último se rende às coisas do corpo, buscando paz e satisfação, e acaba se casando e engordando muito, até adoecer. na verdade existe um editor, amigo de silvestre, que reuniu seus escritos e de vez em quando faz críticas e comentários à narrativa, supostamente deixada para servir de guia para os jovens. os seguintes trechos são todos da parte do estômago, o único que mais me chamou a atenção.

O amor inventou-o depois o estragamento dos bons costumes gregos e romanos, como coisa necessária e acirrante aos paladares botos dos filhos viciosos das cidades.
Ainda agora nas aldeias, afastadas dos focos da corrupção, coisa que eu nunca ouvi dizer é: A Maria do Ribeiro ama o Antônio da Capela." Lá não se diz ama; é querem-se. Querem-se" é outra coisa; é amalgamarem-se num só ser, em uma só vontade, numa identidade de alma e corpo tal, e tão uma que nem sequer cogitam se há desgraça com força de desuni-los aquém da morte. E para lá da sepultura ainda eles têm como segura a vida imortal em união de penas ou glórias.

O amor dispensa-se onde está a profunda estima. Lá nesses consórcios bem-aventurados que florescem obscuros nas gargantas das serranias e nas selvas que bordam as margens dos rios não há tempo nem ocasião de discutirem sutilezas do coração. Crê-se ali que o vínculo é eterno e o sacramento do matrimônio uma religião, ou o dogma mais sacratíssimo dela. Pode ser que nem isto mesmo pensem: o que eles deveras sabem é que são felizes.
(...) As minhas meditações eram pachorrentas, terra a terra, sem enlevos que me deslocassem da felicidade do momento para me transportarem ao passado, onde estava a saudade, ou ao futuro donde me podia estar mentindo a esperança.
Que a saudade, para além dos trinta anos, é uma enchente de lágrimas que desdobra o peito daqueles mesmos que se não sentem viver no coração.
E a esperança é uma virgem de encantos doidos, a qual vos não deixa gozar os encantos doutra virgem que vos alinda os bens presentes.
Cabeça e coração senti sem vida,
No estômago busquei uma alma nova
E encontrá-la pensei... Crença perdida!
Mulher aos pés o coração me sova;
Foge ao mundo a razão espavorida;
E por muito comer eu desço à cova!

teve americanazine na biblioteca e li mais zines lá do que já li em toda minha vida, provavelmente. gostei bastante; tem uma infinidade de temas, tudo muito criativo. tirei foto de uma poesia que achei engraçadíssima no meio de tantos poemas existencialistas: ela se chama toda vez que eu chego em casa e é de jeison placinsch.

estava olhando um filme
quando percebi algo
fora da televisão se mexer
se mexer não, pular e sumir
passou um tempo e nada aconteceu
até vir voando na minha cara
uma coisa que eu já sabia ser uma
barata, barata, baratina
nisso dei um golpe de ninja pro lado
e liguei a luz
mas não consegui ver pra onde ela foi
puxei um colchão pra cada lado
mais as madeirinhas que sustentam eles
e nada
nem um sinal daquela filha da puta
então decidi puxar de volta
e vi uma coisinha correndo embaixo
AHA!!!
dessa vez não iria fugir
quero dormir sozinho hoje
então me estiquei
botei eles pro lugar
e vi a pontinha da bunda dela tentando
escapar, mas nem conseguiu
finalmente botei tudo no lugar
e senti que precisava falar pra vocês
sobre este belo ocorrido
e na metade disso veio voando
mais uma na minha direção
vingança?
só pode
o mais bizarro é que nesses
quase cinco anos que moro aqui
lembro de ter visto só duas baratas
até hoje
e agora, até agora,
uma e trinta e cinco da manhã,
essa última já foi a quarta
que matei.

depois li três contos de sagarana, de guimarães rosa (aqui tem resumos/análises massa). primeiro, o burrinho pedrês (vídeo): sete-de-ouros, burrinho velho mas experiente, é necessário para fazer uma travessia de bois de um major bastante influente, uma vez que alguns cavalos haviam debandado na noite anterior. os vaqueiros não se empolgam muito em ter esse tipo de montaria, mas prosseguem, e no caminho de volta ficam num impasse ao encontrar o ribeirão cheio. decidem deixar o animal ir primeiro – O burrinho é quem vai resolver: se ele entrar n'água, os cavalos acompanham, e nós podemos seguir sem susto. Burro não se mete em lugar de onde ele não sabe sair! no entanto, os cavalos e vaqueiros não suportam a correnteza e são afogados, enquanto sete-de-ouros vai pisando onde conhece e nadando quando deveria. apenas dois homens se salvam, um agarrado ao rabo do burro e outro montado nele, adormecido de bêbado e mais tarde sendo deixado na varanda da fazenda, sem se dar conta do episódio.

(...) E, com isso, deixaram todos de caber no dia, que rodou e se foi, redondo e repleto, com a tarde a cair rente, uma tarde triste de tempo frio.

Enquanto isso tudo, na coberta do Reynéro, ali perto, afrouxadas as barrigueiras e tirados os freios, os cavalos descansavam. Longe dos outros, deixado num extremo, no canto mais escuro e esquerdo do telheiro, Sete-de-Ouros estava. Só e sério. Sem desperdício, sem desnorteio, cumpridor de obrigação, aproveitava para encher, mais um trecho, a infinda linguiça da vida. 

segundo, a volta do marido pródigo: lalino salãthiel era um trabalhador preguiçoso e irresponsável que decide abandonar seus serviços e se mudar para o rio de janeiro, em busca da boa-vida; deixa sua esposa maria rita, sem nem avisá-la, e vende sua viola a um espanhol que morava por perto. ele retorna depois de um tempo, desiludido, e descobre que maria rita está com o espanhol; passa então a trabalhar como cabo eleitoral para um major e vai conseguindo as coisas com malemolência e despojamento. no final ele consegue derrotar o adversário político e, de quebra, expulsar a colônia espanhola do local, reconquistando sua esposa.

por último, sarapalha, sobre esse lugar assolado pela malária, onde não resta quase ninguém – dois primos, ribeiro e argemiro, passam seus dias a esperar a morte, conversando sentados num cocho em companhia de um cachorro abatido. a esposa do primeiro tinha fugido com um vaqueiro há algum tempo, e ele pede para que o primo reconte a história do diabo que fugiu com uma moça, para aliviar. argemiro era apaixonado pela esposa do primo e acaba revelando isso, embora alegue que jamais pensara em desrespeitar ribeiro; ele se sente traído até pelo último companheiro e, ofendido, o expulsa. argemiro é tomado pela febre enquanto vai embora.

— Conta o resto da estória...
— ..."Então, a moça, que não sabia que o moço-bonito era o capeta, ajuntou suas roupinhas melhores numa trouxa, e foi com ele na canoa, descendo o rio..."
— A moça que eu estou vendo agora é uma só, Primo... Olha!... É bonita, muito bonita. É a sezão. Mas não quero... Bem que o doutor, quando pegou a febre e estava variando, disse... você lembra?... disse que a maleita era uma mulher de muita lindeza, que morava de-noite nesses brejos, e na hora da gente tremer era quem vinha... e ninguém não via que era ela quem estava mesmo beijando a gente... Mas, acaba de contar a estória, Primo...

além disso, li um pouco de poemas negros, de jorge de lima, e de o universo numa casca de noz, de stephen hawking. este tô ouvindo em audiobook sempre que tenho uma louça monstruosa pra lavar ou coisa do tipo. esse mês não foi grande coisa no quesito leituras, devia ter lido bem mais, considerando os planos pros livros obrigatórios, mas claramente sou incapaz de ter qualquer disciplina a longo prazo. uma desculpa possível é que fiquei doente...