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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

lidos (3) e assistidos (2) em agosto

macanudo #2 (liniers)
livro de tirinhas que mariana trouxe já faz tempo. tinha lido um pedaço já, terminei só agora. tem umas engraçadas, criativas, fofas, bobinhas... não é muito consistente, nem todas achei boas sacadas. algumas vezes me perguntei sobre a tradução, já que o original é em espanhol. dava pra fazer um trabalho em cima, hein, qualquer hora vou olhar isso. no geral é uma leitura boa pra passar o tempo, nada de mais. podia botar aqui minhas preferidas mas vai dar um trabalho de achar... mas é fácil de reler, também, então pronto.

rafiki (2018)
aquele filme queniano lésbico que pensei em passar na times, mas desisti porque nem tem tanto inglês assim, falam mais suahíli. vi com talita porque tava disponível no "cinema #emcasacomsesc" (acabei de ver que tem as duas irenes lá! que morgana do literalmente vlogando participou na produção, se não me engano. show). gosto muito das cores, das decorações caprichadas nas casas... sofá, pano que separa cômodos, coberta de oncinha, paredes. me parece uma coisa bem áfrica, né, e acho massa pensar em outras estéticas. a história parte de kena, que mora com a mãe e trabalha na vendinha do pai, que é candidato a algum cargo político na cidade. ela tem dois amigos, blacksta e um outro gratuitamente homofóbico, e eles costumam se reunir na lanchonete de uma senhora fofoqueira. um dia ziki chama a atenção de kena, e elas vão se aproximando apesar da outra ser filha do rival político do pai dela. muito estilosa, essa ziki, viu. gosto de como kena se veste, me identifico. as duas se paqueram e começam a namorar em segredo, nesse romeu e julieta lésbico moderno. foda ouvir o pastor pregando na igreja contra o "homossexualismo" e ziki querendo pegar na mão de kena. elas ficam juntas numa kombi abandonada perto do campo de futebol, bem style, bonito o romance. mas as pessoas começam a estranhar e um dia pegam as duas juntas lá, e as agridem pesadamente. cenas fortes, véi. que horror. acaba que ziki desencanta e trata aquilo tudo como uma brincadeira, impossível de ser real, e é mandada pra londres pra estudar, enquanto kena fica pra se tornar médica. no fim contam pra ela que ziki voltou, anos passados, e a última cena é kena numa colina perto de onde ziki morava, sentindo uma mão no ombro e se virando sorrindo. achei bonito, apesar de muito triste, também. muito doce as partes delas começando a se paquerar, os beijos tímidos, o deslumbramento. fiquei sentida. acho kena bem bonita, também. massa ter filmes assim, quero ver mais. "rafiki" quer dizer "amigas". parece que foi proibido/banido no país :( lá é foda em questão de homofobia, criminalidade.

la importancia de llamarse ernesto (oscar wilde)
um dos livrinhos lá da casa do mato; peguei em algum momento de querer distrair do mundo. é uma peça em três atos, sobre esse tal jack (apelido de john) que diz se chamar ernest pra conquistar a mulher em quem é interessado, e pra outro grupo de conhecidos diz ter um irmão mais novo chamado ernest, que usa como desculpa pra se sair quando der vontade. no primeiro ato ele se declara pra essa tal gwendolen, que por algum motivo diz só poder amar um homem chamado ernest (ele até testa perguntar sobre seu próprio nome, só pra ouvi-la rejeitando totalmente), e conta pro amigo algernon que diz ter um irmão fictício que usa em benefício próprio; algernon também tem uma história dessas, algo sobre "bunbury", pra poder se retirar pro campo (se passa entre londres e o condado de hertfordshire). jack tem uma pupila, cecily, que ama o tal ernest, coitada. no segundo ato algernon aparece na casa dela fingindo ser ele, e os dois trocam declarações e já combinam o casamento (essa menina é meio doida, inventou toda uma história com ernest, um noivado de tempos, uma briguinha pra depois reatarem...); engraçado que jack chega contando que o irmão morreu, todo de luto, só pro amigo se revelar dali a pouco. no terceiro ato tem uma reviravolta ainda maior: gwendolen conhece cecily, ambas revelam estar comprometidas com um tal de ernest, gwendolen não sabia de nada do suposto irmão mais velho dele... quando jack aparece cecily fala que é o tutor dela, e quando algy aparece gwendolen diz que ele é seu primo (assim que jack a conhece, aliás). confessam as mentiras, os dois prestes a serem rebatizados pelo padre ou sei lá do lugar, mas ainda vem coisa: a mãe de gwendolen, lady bracknell, reconhece a governanta de cecily, miss prism, porque 28 anos atrás ela trabalhava pra família dela e saiu com um livro e um bebê, o filho da irmã de lady bracknell, que se perderam (ela inverteu as bolsas, algo besta do tipo). e assim se dão conta de que o bebê era jack, que foi mesmo criado pelo avô ou sei lá de cecily, adotado. ou seja, ele é o irmão mais velho de algernon mesmo, e se chama ernest, por ser primogênito (mesmo nome do pai). ôxe, hein. no fim os casais ficam juntos, só não entendi porque cecily não reclama do nome real de algernon não ser ernest (ela também veio com esse papo). no prólogo explicam mais sobre o título, que faz mais sentido em inglês (the importance of being earnest), pela sonoridade do adjetivo earnest e do nome ernest... uma crítica sobre a sociedade da época (1895, mais ou menos), essa coisa de honestidade, aparências, bobageiras. foi legal, esperava menos.

gräns (2018)
comecei aqui a missão de assistir filmes que me interessam logo após ter visto alguém falar sobre ou qualquer coisa do tipo. nesse caso foi puiupo que tweetou sobre filmes com os designs favoritos de monstros/criaturas dela, e por pouco não via border (o título em inglês), mas lembrei que tinha na plataforma do sesc onde vimos rafiki. filme sueco categorizado como romance e fantasia, mas só fui ver isso depois de ter começado a assistir (faz sentido) (esse pôster é tão bonito). a protagonista é tina, que trabalha supervisionando as pessoas que chegam em um porto na suécia. ela tem uma espécie de sexto sentido que a permite farejar emoções nas pessoas, e a partir disso aponta quem está transportando algo ilegal. o que ela sabe é que foi atingida por um raio quando criança, e por isso tem essa habilidade, mas além de tudo ela tem uma aparência que a wikipédia descreve como "neanderthal"; numa hora ela diz que é uma deformidade cromossômica (acho que já vi ou li sobre). quando ela pega um cara com um cartão de memória com pornografia infantil as autoridades pedem ajuda dela pra prosseguir a investigação. um dia passa um cara na fronteira que a intriga demais, mas não acham nada de anormal com ele. ele sorri de um jeito tenso e parece muito com ela, fisicamente. em outro momento ela pede pra revistá-lo por completo, e descobrem que ele tem genitália feminina e uma cicatriz no cóccix, o que deixa tina constrangida. ela também tem uma cicatriz assim, porque caiu numa pedra quando criança, segundo o pai. ela acaba indo atrás dele e eles se aproximam, porque ela se sente diferente e atraída; ela até o convida a ficar na casa de hóspedes que tem junto à dela (tina mora com um cara que tem cachorras de competição, mas não se interessa em se envolver sexualmente com ele, porque a machuca). os dois tem medo de tempestade, e numa conversa depois de um beijo vore diz que o que eles têm não é uma deformidade, que ela não deveria escutar os humanos. eles transam e tina o penetra, surpresa em ter um pênis ereto (parece um clitóris comprido), e vore diz que ela é um troll. só que aí ela encontra um bebê na geladeira dele (ele sempre tá com uma barrigona e numa noite deu à luz!) e fica sabendo que aquilo é um hiisi, um embrião não fertilizado que morre em pouco tempo e é fisicamente maleável. turns out que vore é o traficante de bebês ligado ao caso de pornografia infantil, porque ele tem essa ideia de estimular a maldade e o corrompimento moral entre os humanos como vingança pelo que fizeram com os trolls (o que ele faz é trocar bebês humanos por esses hiisi, que saem dele regularmente). what! tina discorda com isso e o denuncia pra polícia, certamente omitindo as partes fantásticas, mas ele pula no mar, de algemas, e desaparece. ela põe o pai na parede e ele revela que a adotou depois que seus pais morreram no hospital psiquiátrico onde faziam torturas e experimentos neles. what!! o nome real de tina é reva, que ela acha lindo (concordo). revolta. termina com ela recebendo uma caixona onde tem um bebê troll e um cartão postal da finlândia, onde vore disse haver uma colônia de trolls em segredo. what!!! achei esse filme incrível, inesperadíssimo e muito diferente. vi com talita e carol, que ficou meio estranhada, mas acho que curtiram. palavras suecas que lembro e reconheci: helvete e flicka.

por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça (reni eddo-lodge)
tava lendo esse há alguns meses, já. demorei porque por um tempo fiquei mal demais pra pegar em leituras pesadas. quando voltei li alguns trechos pra talita, sobre feminismo negro e outras partes que me chamaram a atenção. cada capítulo foca num âmbito, contando histórias, falando sobre o sistema, sobre privilégio branco, sobre feminismo e sobre raça e classe. muito completo e bem escrito, com alguns relatos pessoais e mais pontuais, já que a escritora é jornalista. ela fala da grã-bretanha e usa muitos detalhes históricos, mas tudo reverbera aqui no brasil e no mundo também (interessante pensar as diferenças e semelhanças entre esse livro e pequeno manual antirracista). o único problema foram as inúmeras vezes em que tinha algo errado com a tradução/edição: vários trechos esquisitos, erros de escrita e etc, uma pena. quem escreve o prefácio é a gabi do canal de pretas, gosto dela. "Eu parei de falar sobre raça com pessoas brancas porque eu não acredito que desistir é um sinal de fraqueza. Às vezes é sobre autopreservação." muito doloroso, mas absurdamente importante e necessário. massa que ficou esses dias gratuito pra baixar, porque conversa com muita coisa que vem acontecendo agora, que vem sido falado nas manifestações. aprendi e refleti sobre muita coisa, mas sei que ainda tenho muito o que pensar e voltar e fazer. alguns dos destaques que eu fiz:

A jornada para entender o racismo estrutural ainda exige que as pessoas de cor priorizem os sentimentos brancos. Mesmo que eles consigam te ouvir, eles não estão realmente escutando. (...) Quem realmente gostaria de ser alertado sobre um sistema estrutural que o beneficia à custa de outros?

Eu não posso ter uma conversa com as pessoas sobre detalhes de um problema se elas sequer reconhecem que o problema existe. Pior ainda é a pessoa branca que pode estar disposta a considerar a possibilidade do racismo dito, mas que pensa que entramos nessa conversa como iguais. Nós não entramos.

Diante de um esquecimento coletivo, precisamos lutar para lembrar.

uma definição para racismo institucional:

(...) racismo institucional, explicou o relatório, é “o fracasso coletivo de uma organização em fornecer um serviço adequado e profissional às pessoas por causa de sua cor, cultura ou origem étnica. Pode ser visto ou detectado em processos, atitudes e comportamentos que resultam em discriminação por preconceito inconsciente, ignorância, falta de pensamento e estereotipagem racistas que prejudicam as minorias étnicas.”

Dizemos a nós mesmos que pessoas boas não podem ser racistas. Parece que pensamos que o verdadeiro racismo só existe nos corações das pessoas más. Dizemos a nós mesmos que o racismo é sobre valores morais, quando, em vez disso, é sobre a estratégia de sobrevivência do poder sistêmico.

É muito provável que homens brancos altamente qualificados e bem remunerados sejam patrões, chefes, CEOs, professores-chefes ou vice-reitores em universidades. Eles são quase certamente pessoas em posições que influenciam a vida de outras. Eles são quase certamente o tipo de pessoas que estabelecem culturas organizacionais. É improvável que eles se gabem de suas políticas com colegas ou conhecidos por causa do estigma social de estarem associados a visões racistas. Porém, o racismo deles é encoberto.

sobre não ver raça e sobre o padrão ser branco:

Não ver raça pouco faz para desconstruir estruturas racistas ou melhorar materialmente as condições às quais as pessoas de cor estão sujeitas diariamente. Para desmantelar estruturas injustas e racistas, precisamos ver raça. Precisamos ver quem se beneficia de sua raça, quem é desproporcionalmente impactado por estereótipos negativos sobre sua raça e a quem o poder e o privilégio são concedidos – merecidos ou não – por causa de sua raça, sua classe e seu gênero. Ver raça é essencial para mudar o sistema.

O neutro é branco. O padrão é branco. Porque nós nascemos em um roteiro já escrito que nos diz o que esperar de estranhos devido à sua cor de pele, sotaques e status social, toda a humanidade é codificada como branca. A negritude, no entanto, é considerada a “outra” e, portanto, de se suspeitar. Aqueles que são codificados como uma ameaça em nossa representação coletiva da humanidade não são brancos.

(...) privilégio branco é a ausência das consequências negativas do racismo. Uma ausência de discriminação estrutural, uma ausência da sua raça sendo vista como um problema em primeiro lugar, uma ausência de “menos chances de sucesso por causa da minha raça”. É uma ausência de olhares engraçados direcionados a você porque acredita-se que você esteja no lugar errado; uma ausência de expectativas culturais; uma ausência da violência promulgada em seus antepassados por causa da cor de suas peles; uma ausência de uma vida inteira de marginalização sutil e divisória – exclusão da narrativa de ser humano.

a diferença entre racismo e preconceito (muito massa pra se entender por que não existe racismo reverso):

Existe uma diferença entre racismo e preconceito. Existe uma definição não-atribuída de racismo que o define como preconceito mais poder. Os desfavorecidos pelo racismo podem certamente ser cruéis, vingativos e preconceituosos. Todo mundo tem a capacidade de ser desagradável com outras pessoas, de julgá-las antes de conhecê-las. Entretanto, simplesmente não há pessoas negras o suficiente em posições de poder para promulgar o racismo contra pessoas brancas no tipo de grande escala que atualmente opera contra pessoas negras. Os negros estão super-representados nos lugares e espaços onde o preconceito poderia realmente ter efeito? A resposta é quase sempre não.

essa fala famosa de martin luther king jr. que me faz pensar em performative allyship e etc:

Martin Luther King Jr. também refletiu: “Primeiro, devo confessar que, nos últimos anos, tenho sido gravemente desapontado com os moderados brancos. Cheguei quase à lamentável conclusão de que o grande obstáculo dos negros no caminho da liberdade não é o Conselheiro do Cidadão Branco ou o Ku Klux Klanner, mas o moderado branco que se dedica mais à ‘ordem’ do que à justiça; que prefere uma paz negativa, que é a ausência de tensão, à uma paz positiva que é a presença da justiça; que constantemente diz: ‘Eu concordo com você no objetivo que você procura, mas não posso concordar com seus métodos diretos’; que, paternalisticamente, sente que pode definir o tempo de liberdade de outro homem; que vive pelo mito do tempo e que constantemente aconselha o negro a esperar até uma ‘estação mais conveniente’.” (...) “A compreensão superficial das pessoas de boa vontade é mais frustrante do que a incompreensão absoluta das pessoas de má vontade. A aceitação indiferente é muito mais desconcertante do que a rejeição total.”

sobre relacionamentos inter-raciais e adoção transracial! putz:

Agora, quando vejo um casal inter-racial, me sinto desconfortável, embora esteja em um relacionamento interracial. Quando vejo um pai branco com um mestiço, penso: ‘Esse filho vai ter o que precisa?’. Porque não tive o que eu precisava. Acho que, para pessoas brancas que estão em relacionamentos inter-raciais, ou que têm filhos mestiços, ou que adotam transracialmente, a única maneira de isso funcionar é se eles realmente se comprometerem em ser antirracistas. Ser humilde e aprender que eles são racistas, mesmo quando pensam que não são.” (...) pais brancos que adotam filhos de cor assumem uma nova responsabilidade de serem conscientes em relação à raça. Eles embarcam em uma jornada muito nova de autodescoberta e têm o dever de não mais se comprometer com as políticas limitantes da neutralidade racial. Eles têm esse dever porque uma criança negra não pode ser sobrecarregada com a responsabilidade de enfrentar os preconceitos do mundo por conta própria. Nem todos os pais brancos dedicam tempo para aprender.

sobre monumentos históricos! foda:

Um debate nacional sobre se a estátua deveria cair se seguiu. Os estudantes negros que se manifestaram foram acusados de serem antidemocráticos. “Cecil Rhodes era um racista”, dizia uma manchete, “mas você não pode apagá-lo da história.” Essa foi uma conclusão estranha a ser tirada, porque fazer campanha para derrubar uma estátua não é o mesmo que deletar o nome de Cecil Rhodes dos livros de história. A campanha Rhodes Must Fall não queria que Rhodes fosse apagado da história. Em vez disso, eles estavam questionando se ele deveria ser tão abertamente celebrado. Os oponentes da campanha – que incluíam Lord Patten, o chanceler da Universidade de Oxford – disseram que, ao exercer seu direito democrático de protestar, os estudantes estavam na verdade interferindo na liberdade de expressão. Ao fazer um barulho, interrompendo o cotidiano e apontando o problema, eles se tornaram o problema. De alguma forma, não era crível que Lorde Patten simplesmente quisesse um debate livre e justo e uma troca saudável de ideias em seu campus. Parecia que ele só queria o silêncio, o tipo de paz forçada que fervia de ressentimento, do tipo que requer que alguns sofram para que outros se sintam confortáveis.

sobre vitimização branca:

Para as pessoas que se opõem ao antirracismo com base na liberdade de expressão, a oposição a disparidades raciais grosseiras é uma questão de “ofensa”, em vez das condições materiais altamente desiguais que as pessoas afetadas por ela carregam como fardo. Estar em uma posição em que suas vidas são tão confortáveis que eles realmente não têm nada material para se opor, os falsos defensores do “discurso livre” gastam todo seu tempo livre injuriando contra a “cultura ofensiva”. Quando focam em ofensas, ao invés de sua própria cumplicidade em um sistema drasticamente injusto, eles transferem, com sucesso, a responsabilidade de consertar o sistema dos beneficiados por ele para aqueles mais inclinados a perder por causa dele. Combater o racismo passa de conversas sobre justiça para conversas sobre sensibilidade. Aqueles que são repetidamente atingidos pelas tendências do racismo de impedir suas chances de vida são aconselhados a endurecer e a ficarem mais fortes.

sobre personagens negros, véi! é isso:

É no cinema, na televisão e nos livros que vemos as manifestações mais potentes do branco como a suposição padrão. Um personagem não pode simplesmente ser negro sem um aviso prévio para um assumido público branco. Personagens negros como protagonistas são considerados como não-identificáveis (com exceção de um punhado de estrelas hollywoodianas notáveis). Quando o casting para filmes e para a TV dá um passo fora da branquitude, fãs repetidamente revelam seu lado obscuro, expressando sua irritação, desgosto e decepção. O medo de personagens negros é o medo de um planeta negro.

(...) As pessoas brancas estão tão acostumadas a ver um reflexo de si mesmas em todas as representações da humanidade, em todos os momentos, que só percebem quando isso é tirado delas.

sobre minoria modelo! véi. hermione:

Hermione, negra ou mestiça, suportando insultos cuspidos de “sangue-ruim” de seus colegas, afastada de seus pais, dita que é especial e parte de uma raça completamente diferente, pode estar muito interessada em assimilar, em ser aceita. Não é de se admirar que ela tenha tentado tanto. Não é de admirar que ela tenha feito o dever de casa de seus amigos e tenha sido a primeira a levantar a mão na aula. Ela era a minoria-modelo. Uma Hermione negra ou mestiça movimentando-se para libertar elfos domésticos, depois de seis ou sete anos sofrendo insultos raciais, pode não ter coragem de desafiar seus colegas, e em vez disso poderia ter se agarrado a algo que ela sentia que realmente poderia mudar.

sobre a tarefa de educar:

Um século depois, em 1984, a feminista negra, ativista e poeta Audre Lorde escreveu em Sister Outsider: Essays and Speeches: “As mulheres de hoje ainda estão sendo convocadas a atravessar a lacuna da ignorância masculina e educar os homens quanto à nossa existência e nossa necessidades. Essa é uma ferramenta antiga e primária de todos os opressores para manter os oprimidos ocupados com as preocupações do mestre. Agora ouvimos dizer que é tarefa das mulheres de cor educar as mulheres brancas – diante de uma tremenda resistência – em relação à nossa existência, nossas diferenças, nossos papéis relativos à nossa sobrevivência conjunta. Isto é um desvio de energias e uma repetição trágica do pensamento patriarcal racista.”

sobre a necessidade do feminismo negro:

bell hooks se apresentou em 1981, escrevendo em Ain’t I a Woman: Black Women and Feminism: “O processo começa com a aceitação da mulher individual de que… as mulheres, sem exceção, são socializadas para serem racistas, classistas e sexistas, em graus variados, e nos rotular de feministas não muda o fato de que devemos conscientemente trabalhar para nos livrar do legado da socialização negativa. É óbvio que muitas mulheres se apropriaram do feminismo para servir a seus próprios fins, especialmente aquelas mulheres brancas que estiveram na vanguarda do movimento; mas, em vez de me resignar a essa apropriação, escolho reapropriar o termo ‘feminismo’, para me concentrar no fato de que ser ‘feminista’, em qualquer sentido autêntico do termo, é querer, para todas as pessoas, mulher e homem, a libertação do machismo, padrões de gênero, dominação e opressão.”

O feminismo branco em si não é particularmente ameaçador. Torna-se um problema quando suas ideias dominam – representadas como universais, para serem aplicadas a todas as mulheres. É um problema porque consideramos a humanidade através do prisma da branquitude. É inevitável que o feminismo não ficasse imune a isso. Consequentemente, o feminismo branco reforça sua posição quando aqueles que o desafiam são considerados causadores de problemas. Quando escrevo sobre o feminismo branco, não estou reduzindo as mulheres brancas à cor de sua pele. A branquitude é uma posição política, e desafiá-la em espaços feministas não é um olho por olho porque o preconceito precisa de poder para ser eficaz. (...) Quando as feministas brancas ignoram a raça, elas inicialmente não estão vindo de um lugar de malícia – embora a oposição delas possa muito rapidamente evoluir ao ponto de espumar quando suas políticas são desafiadas. Em vez disso, aprendi que elas vêm de um lugar muito parecido com o meu. Nós todos crescemos em um mundo dominado por brancos. Este é o contexto no qual as feministas brancas estão trabalhando, beneficiando e reproduzindo um sistema que elas mal percebem. No entanto, suas habilidades de análise crítica são muito boas em identificar sistemas exclusivos, como gênero, dos quais elas não se beneficiam.

sobre o que o feminismo deve ser:

O feminismo não é sobre igualdade e, certamente, não é sobre deslizar silenciosamente para um mundo de trabalho criado por e para os homens. O feminismo, no seu melhor, é um movimento que trabalha para libertar todas as pessoas que foram marginalizadas econômica, social e culturalmente por um sistema ideológico que foi projetado para que elas fracassem. Isso significa pessoas com deficiência, negros, trans, mulheres e pessoas não-binárias, pessoas LGB e pessoas da classe trabalhadora. (...) Além das exigências óbvias – o fim da violência sexual, o fim do hiato salarial – o feminismo deve estar consciente da classe e ciente da cultura limitante da binariedade de gênero. É necessário que ele reconheça que as pessoas com deficiência não são inerentemente defeituosas, mas sim que as pessoas sem deficiência falharam na criação de um mundo físico que serve a todos. O feminismo precisa exigir moradias acessíveis, decentes e seguras e uma renda básica universal. Ele deve exigir pagamento para mães em tempo integral e creches gratuitas para mães que trabalham fora. Deve reconhecer que vivemos em um mundo em que as mulheres são constantemente instigadas a serem cobiçadas, mas punem as profissionais do sexo por usarem essa situação para ganhar a vida. O feminismo precisa reconhecer completamente que a sexualidade é fluida, e precisamos sonhar com um mundo onde as pessoas não sejam violentamente policiadas por transgredirem os rígidos papéis sociais de gênero. O feminismo precisa reivindicar um mundo no qual a história racista é reconhecida e explicada, na qual as reparações são distribuídas, nas quais a raça é completamente desconstruída.

A igualdade é boa como uma demanda transitória, mas é desonesto não reconhecê-la pelo que é – o caminho mais fácil. Há uma diferença entre dizer “queremos ser incluídas” e dizer “queremos reconstruir seu sistema exclusivo”. A primeira é mais prontamente aceita no mainstream.

sobre mulheres negras raivosas e emasculação (!):

Que mulheres negras raivosas parecem emascular homens é sexista porque faz suposições sobre as
características dos homens que inevitavelmente limitam o escopo de sua humanidade. Para acreditar na emasculação, você tem que acreditar que a masculinidade é sobre poder, força e domínio. Esses traços supostamente deveriam ser grandes nos homens, mas são muito pouco atraentes nas mulheres. Especialmente nas negras raivosas.

sobre mobilidade social:

Mudar de classe exige um mínimo de sucesso e, se você não é branco, o sucesso é uma faca de dois gumes. Mesmo se você trabalhar muito e se ver no seu melhor, haverá um debate sobre se isso aconteceu por causa de sua raça, ou apesar disso.

e por fim, sobre o papel de cada um na luta antirracista:

O trabalho antirracista – a logística, a estratégia, a organização – precisa ser liderado por aqueles no cume da injustiça. Entretanto, também acredito que os brancos que reconhecem o racismo têm um papel extremamente importante. Essa parte não pode ser feita enquanto sentem culpa deliberadamente. (...) Pessoas brancas, vocês precisam falar com outras pessoas brancas sobre raça. Sim, vocês podem ser taxados como radicais, mas têm muito menos a perder. Conversem com outras pessoas brancas que confiam em você. Conversem com pessoas brancas nas áreas de sua vida nas quais você tem influência. Se vocês se sentirem sobrecarregados por seu privilégio não merecido, tentem usá-lo para algo e usem-no onde for necessário. Mas não sejam antirracistas em prol de uma audiência. Ser branco e antirracista em sua vida privada ou profissional, onde há muito poucos elogios a serem encontrados, é muito mais difícil, mas, em última análise, mais significativo.

Se você está enojado com o que vê, e sente o fogo correndo em suas veias, então depende de você. Você não precisa ser o líder de um movimento global ou um nome de peso. Pode ser tão em pequena escala quanto diminuir as relações de poder distorcidas em seu local de trabalho. Pode ser transmitindo conhecimento e habilidades para aqueles que não teriam acesso a eles de outra forma. Pode ser de forma criativa. Pode ser informal. Pode ser o seu trabalho. Não importa o que seja, contanto que você esteja fazendo alguma coisa.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

lidos em outubro

nesse mês li demais pra compensar o que não li anteriormente, mas não de propósito, na verdade; apenas foi o que funcionava melhor pra me tirar da agonia dos dias.

primeiro terminei de ler sermões de quarta-feira de cinza, do padre antonio vieira, cuja introdução, intitulada a arte de morrer (por alcir pécora), diz assim: Vieira propõe que a verdadeira substância do que vive não é dada pelo tempo "presente", mas pelo "passado" e pelo "futuro". O "presente" seria um estado de aparência e engano entre um estado essencial revelado no "passado" e confirmado no "futuro". (...) O intervalo da vida terrena entre ambos pode ser representado por um movimento circular cujo princípio e cujo fim são idênticos. Afastar-se de um é aproximar-se do mesmo, aparentando outro. A existência circular do homem, diversamente da de Deus que é sempre idêntica ao seu próprio Ser, é ser e não ser: falso avanço, quando faz supor que se distancia e muda em relação a sua essência original, e, entretanto, avanço real e verdadeiro, porque o fim de que se aproxima é efetivamente a essência que a existência oculta. (...) Na "3ª regra" desse "segundo modo", lê-se: "[...] considerar, como se estivesse em artigo de morte, a forma e a medida que então queria ter adotado no modo da eleição presente, e conduzindo-me por ela, aja com inteira determinação". E na 4ª se estabelece que, "[...] cuidando e considerando como estarei no dia do juízo, pensar como então queria ter deliberado acerca da presente coisa, e a conduta que então queria ter tido, e tomá-la agora, para que assim encontre inteiro prazer e gozo". (...) No primeiro sermão, livra-o das penas eternas que fazem justiça às faltas cometidas em vida; no segundo, livra-o do transe terrível da hora última; no terceiro, enfim, livra-o das atribulações sem fim dos negócios do mundo. Por outro lado, em termos positivos, esse terceiro sermão acentua a "quietação" proporcionada pela morte; o segundo ressalta a eficácia dos preparativos para dominar o medo implicado nela; o primeiro torna-a condição do conhecimento dos limites e da destinação da vida humana. achei bacana até, a lógica dada pras coisas, apesar de obviamente não pensar em seguir qualquer coisa religiosa. pra mim essas foram as partes mais relevantes do primeiro sermão (talvez tenha exagerado nas marcações):

O pó levantado, como vão, quis fazer distinções de pó a pó: e porque não pôde distinguir a substância, pôs a diferença nas cores. Porém a morte como vingadora de todos os agravos da natureza a todas essas cores faz da mesma cor, para que não distinga a vaidade, e a fortuna os que fez iguais a razão.
Nas tuas ruínas vês o que foste, nos teus oráculos lês o que hás de ser; e se queres fazer verdadeiro juízo de ti mesma, pelo que foste e pelo que hás de ser, estima o que és.
Se quereis ver o futuro, lede as histórias, e olhai para o passado: se quereis ver o passado, lede as profecias, e olhai para o futuro. E quem quiser ver o presente para onde há de olhar? Não o disse Salomão, mas eu o direi. Digo que olhe juntamente para um e para outro espelho. Olhai para o passado e para o futuro, e vereis o presente. A razão ou consequência é manifesta. Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é o futuro do passado e o mesmo presente é o passado do futuro.
Comecemos de hoje em diante a viver, como quereríamos ter vivido na hora da morte. Vive assim como quiseras ter vivido quando morras. Oh que consolação tão grande será então a nossa, se o fizermos assim! E pelo contrário, que desconsolação tão irremediável, e tão desesperada, se nos deixarmos levar da corrente, quando nos acharmos onde ela nos leva!

do segundo:

Sê desde logo o pó que és, e não temerás depois ser o pó que hás de ser. Sabeis, Senhores, por que tememos o pó que havemos de ser? É porque não queremos ser o pó que somos. Sou pó, e hei de ser pó; pois antes de ser o pó que hei de ser, quero ser o pó que sou. Já que hei de ser pó por força quero ser pó por vontade. Não é melhor que faça desde logo a razão o que depois há de fazer a natureza? Se a natureza me há de resolver em pó, eu quero-me resolver a ser pó; e faça a razão por remédio, o que há de fazer a natureza sem remédio. Não sei se entendestes todos a metáfora? Quer dizer mais claramente, que o remédio único contra a morte é acabar a vida antes de morrer.
Bem creio eu que haverá não poucos que quiseram antes trocados esses termos, e poder nascer duas vezes, para escolher nascimento. Mas Deus que nos fez para a eternidade e não para o tempo, para a verdade, e não para a vaidade, deixou o nascer à natureza, e o morrer à eleição. No nascer, em que todos somos iguais, não pode haver erro, e por isso basta nascer uma vez; no morrer, em que o erro ou acerto importa tudo, e há de durar para sempre, era justo que o homem pudesse morrer duas vezes, para eleger a morte que mais quisesse, e para aprender, morrendo, a saber morrer.
Não morras no tempo que não é teu (...). Mas qual é o tempo meu, em que é bem que morra, e qual o tempo não meu, em que é bem que não morra? O tempo meu é o tempo antes da morte; o tempo não meu é o tempo depois da morte. E guardar ou esperar a morte para o tempo depois da morte, que não é tempo meu, é ignorância, é loucura, é estultícia, como a deste néscio: Stulte; mas antecipar a morte, e morrer antes de se acabar a vida, que é o tempo meu, esse é o prudente, e o sábio, e o bem entendido morrer. (...)
(...) E que quer dizer: eu vivo, mas já não sou eu? (...) Todas as cousas deste mundo são para mim, como para os mortos; nem as sinto, nem me dão cuidado, nem faço mais caso delas, como se não foram; porque se elas ainda são, eu já não sou. Considerai as imunidades dos mortos, e vereis o descanso de que gozam, e os trabalhos de que se livram os que antecipam a morte. (...) Entre os mortos livre. Livre dos cuidados do mundo, porque já está fora do mundo. Livre de emulações e invejas, porque a ninguém faz oposição. Livre de esperanças e temores, porque nenhuma cousa deseja. Livre de contingências e mudanças, porque se isentou da jurisdição da fortuna. Livre dos homens, que é a mais dificultosa liberdade, porque se descativou de si mesmo. Livre, finalmente, de todos os pesares, moléstias e inquietações da vida, porque já é morto.

e do terceiro:

(...) El-rei Ezequias mandou queimar os livros de Salomão, porque o povo recorrendo às virtudes das ervas, em suas enfermidades deixava de acudir a Deus, que é a verdadeira raiz da saúde. Assim o refere Eusébio Cesariense. Mas enquanto duraram os mesmos livros, nem aos enfermos particulares, nem ao mesmo Salomão aproveitou aquela grande ciência médica; até quando? Até que as próprias doenças os sujeitaram ao médico universal, que, sem aforismos, nem receitas, cura em um momento a todas, que é a morte. (...) Morrestes; acabaram-se todas as moléstias e aflições que martirizam um corpo humano; e até o temor da mesma morte se acabou, porque os mortos já não podem morrer.
(...) El-rei Antígono vendo que seu filho pelo ser se ensoberbecia, com que lhe abateria os fumos? (...) Não sabes, filho (lhe disse), que o nosso reino, e o reinar, não é outra cousa que um cativeiro honrado? Os reis são senhores de todos, mas também cativos de todos. A todos mandam como reis, e de todos são julgados como réus. Como o rei é a alma do reino, tem obrigação de viver em todos os seus vassalos, e padecer neles, e com eles quanto eles padecem. Se não padece assim, não é rei; e se padece, que maior martírio? Há-se de matar e morrer, para que eles vivam: há-se de cansar, para que eles descansem; e há de velar, para que eles durmam, sendo mais quieto e sossegado o sono do cavador sobre cortiça que o do rei debaixo de céus de brocado. (...)
(...) Quando eu jazer na sepultura, diz Davi, dormirei e descansarei em paz para isso mesmo, in idipsum. Que quer dizer para isso mesmo? Não se podia significar mais admiravelmente a diferença do sono, do descanso, e da paz dos mortos em comparação dos vivos. Os vivos dormimos, descansamos, e temos paz, mas não para isso mesmo; porque dormimos para acordar, descansamos para tornar a cansar, e temos paz para tornar outra vez à guerra: pelo contrário, os mortos dormem, descansam e estão em paz para isso mesmo: In pace in idipsum dormiam et requiescam. Dormem para isso mesmo: porque dormem, não para acordar, senão para dormir; descansam para isso mesmo; porque descansam, não para tornar a cansar, senão para descansar; e gozam a paz para isso mesmo, porque não gozam a paz para tornar à guerra, senão para lograr perpétua, e quietamente: Requiescat in pace.
(...) Três razões teve Deus para antecipar ou apressar a morte àquele moço: a primeira, porque lhe agradou a sua alma e a quis levar para si: Placita enim erat Deo anima illius: a segunda, porque o quis livrar das ocasiões da maldade: Properavit educere illum de medio iniquitatum: A terceira, porque o quis fortificar: Quare munierit illum Dominus. Aqui reparo. Se Deus lhe tirou a vida para o fortificar, que fortificação é esta, e contra quem? O contra quem são os vícios e pecados: a fortificação é aquela onde a morte defende os que matou, que é a sepultura. O homem vivo, com todas as portas dos sentidos abertas, é como a praça sem fortificação, que pode ser acometida, e entrada por toda a parte: porém o morto, com as mesmas portas cerradas, e cerrado ele dentro da sepultura, não há castelo tão forte, nem fortaleza tão inexpugnável a todo o inimigo; porque nem pode ser vencida do pecado, nem ainda acometida. (...)
(...) Quem vive em Deus, não vive em si; quem vive com Cristo, não vive com o mundo: e quem não vive em si, nem com o mundo, este verdadeiramente vive como morto. O morto tem olhos, e não vê; tem ouvidos, e não ouve; tem língua, e não fala; tem coração, e não deseja: e posto que o morto-vivo pode desejar, falar, ouvir e ver; nem vê o que não é lícito que se veja, nem ouve o que não é lícito que se ouça, nem fala o que não convém que se fale, nem deseja o que não convém que se deseje; porque é morto às paixões e aos apetites; e posto que viva ao sentimento, não vive à sensualidade. Isto é viver em Deus, e não em si. E que é viver com Cristo, e não com o mundo? É estar morto a tudo o que o mundo ama, a tudo o que o mundo estima, a tudo o que o mundo venera, a tudo o que o mundo adora, a tudo o que chama honra, a tudo o que chama interesse, a tudo o que chama boa ou má fortuna; porque tudo o que é próspero, ou adverso, alto ou baixo, precioso ou vil, pesado na balança da morte viva, é vaidade, é fumo, é vento, é sombra, é nada. E a todos os que assim vivem ou viverem, podemos dizer como S. Paulo: Mortui estis.

em seguida li o bem amado, de dias gomes, que achei engraçado e bem construído: odorico paraguaçu era um coronel bastante influente na cidade baiana de sucupira, bem pacata e pacífica, e aproveita o ensejo da morte de um velho pescador para discursar a respeito da vergonha que era precisar deslocar os mortos para a cidade vizinha. ele promete construir um cemitério se fosse eleito como prefeito e, quando consegue, faz uso de verbas destinadas a outras obras para construir o campo-santo. no entanto, passa-se um ano e nenhuma morte – a frustração de odorico faz com que ele praticamente encomende um enfermo, primo de uma moradora, mas o sujeito acaba melhorando com os ares locais e até se enamora com a moça. então é chamado um "fazedor de defuntos", cangaceiro natural de sucupira, que recebe a posição de delegado com a esperança de criar conflitos – o que também não acontece, uma vez que zeca diabo tem a intenção de se regenerar e aprende leis com o jornalista que faz oposição ao prefeito, neco pereira. então odorico arma mais uma situação: dá trela ao ciúme do marido de dulcineia, sua secretaria e amante, mas joga-o pra cima do jornalista e oferece até um revólver; a mulher é morta e o homem preso, proibido de conversar com a imprensa. quando a necrópole parece praticamente inaugurada, no velório de dulcineia, chega um tio com o testamento do pai dela, declarando sua vontade em ter toda a família enterrada na cidade de jaguatirica. odorico surta, se nega a obedecer, faz guarda ao caixão da morta, demite o delegado num acesso e recebe a notícia de que dirceu (marido da finada) contou tudo a neco – zeca acaba por matar o prefeito, pois traidor não merece viver, tanto mais traidor de moça donzela. a história termina, ironicamente, com neco pereira fazendo discurso no enterro de odorico, que acaba por ser o primeiro hóspede de seu "sonho".

então li sonetos de camões, de (óbvio) luís de camões, apesar de apenas 14 dos 55 contidos no livro serem pedidos pela unicamp (e mais outros 6 que tive que ler na internet). além de sonetos o livro contém redondilhas e mais uns negócios, e os elementos que permeiam as obras são os seguintes: instabilidade dos sentimentos e da realidade; ideal de perfeição física e moral; desconcerto do mundo; amor platônico; perda da amada; a própria atividade poética. achei massa, gosto de camões. alguns preferidos:

Tanto de meu estado me acho incerto
que, em vivo ardor, tremendo estou de frio,
sem causa, juntamente choro e rio;
o mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando;
num'hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar um'hora.
Se me pergunta alguém porque assi ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.
–
Que de tanta estranheza sois ao mundo,
que não é de estranhar, Dama excelente,
que quem vos fez fizesse céu e estrelas.
–
Vossos olhos, Senhora, que competem
co Sol em fermosura e claridade,
enchem os meus de tal suavidade
que em lágrimas, de vê-los, se derretem.
Meus sentidos vencidos se sometem
assi cegos a tanta divindade
e da triste prisão, da escuridade,
cheios de medo, por fugir remetem.
–
Quando o sol encoberto vai mostrando
ao mundo a luz quieta e duvidosa,
ao longo de ũa praia deleitosa,
vou na minha inimiga imaginando.
Aqui a vi os cabelos concertando;
ali, co a mão na face, tão fermosa;
aqui, falando alegre, ali cuidosa;
agora estando queda, agora andando.
Aqui esteve sentada, ali me viu,
erguendo aqueles olhos tão isentos;
aqui movida um pouco, ali segura;
aqui se entristeceu, ali se riu...
enfim, nestes cansados pensamentos,
passo esta vida vã, que sempre dura.

também acabei lendo sagarana (de guimarães rosa) inteiro, apesar de só o último conto importar agora. prossegui a leitura com duelo, que conta a história de turíbio todo e cassiano gomes – este o amante da esposa daquele, descoberto num retorno da pesca adiantado. turíbio é bom atirador e vai até a casa de cassiano para matá-lo, mas acaba que o morto é levindo gomes, irmão do outro, e nisso turíbio sai da cidadezinha e se inicia uma perseguição por entre os povoados da região, durando meses. cassiano abandona a causa, relembrado de seu problema cardíaco, e turíbio passa para terras paulistas e lá fica; mas, quando o médico anuncia que cassiano tem poucos meses de vida, ele se despede de todos com o intuito de pegar o inimigo antes de partir. não vai muito longe, piorando e se assentando num povoadinho, onde conhece um homem, de apelido vinte-e-um, que se torna seu compadre e recebe seu dinheiro para ajudar a família; cassiano morre e deixa tudo para ele. sabendo da notícia turíbio retorna e acaba dividindo estrada com vinte-e-um, que o mata: Peço perdão a Deus e ao senhor, mas não tem outro jeito, porque eu prometi ao meu compadre Cassiano, lá no Mosquito, na horinha mesma d'ele fechar os olhos...

o segundo conto, chamado minha gente, trata desse homem que vai visitar a fazenda de seu tio e acaba reacendendo a paixão por uma prima que já namorou, maria irma; ela o provoca e faz rodeios nas falas mas nunca cede aos seus apelos. ele toma conhecimento de um rapaz que a emprestava livros, ramiro, mas maria irma anuncia que ele era noivo de uma amiga, armanda. o primo, enciumado, tenta traçar um plano para atraí-la e visita outra fazenda, onde mora outra namorada de brinquedo de outros tempos – coisa que não afeta nada, o que faz com que ele vá embora pra outra cidade, triste. mais tarde recebe uma carta do tio, com notícias de que seu partido ganhara as eleições, e outra de um amigo louco por xadrez, terminando uma partida começada na viagem. resolve revisitar os parentes, querendo mostrar à prima que não gostava mais dela, e é então que ela o apresenta a armanda, de quem fica noivo, enquanto maria irma fica com ramiro: tudo se desdobrando conforme os planos da moça. me chamou atenção pelos pedaços que enfiei na minha vidinha...

Dormi mal, acordei de saudades, corri para junto de Maria Irma.
— Que tal, a Aldinha? — perguntou.
— Que tal você e eu, Maria Irma?
(...) E desesperava, ao sentir que eu acumulara comigo tanto amor que estava inútil, sem ter onde pousar.
Mais sofri, todavia, porque lua havia, uma lua onde cabiam todos os devaneios e em que podia beber qualquer imaginação.
— Prefiro caminhar. Quer? — perguntou-me Armanda.
Quis. Andamos. Calados. Crescia em mim uma coisa definitiva, assim com a impressão de já conhecê-la, desde muito, muito tempo. Nossas mãos se encontraram, de repente, e eu senti que ela também estremeceu.

depois vem são marcos, que é sobre esse homem muito crente em superstições, mas não em feitiçaria. ele tinha o costume de, todo domingo, visitar uma mata riquíssima em fauna e flora, e no caminho insultava e caçoava do negro joão mangolô, mestre das artes de despacho, atraso, telequinese, vidro moído, vuduísmo, amarramento e desamarração de seu povoado. numa dessas viagens ele encontra um colega que acaba contando uma história envolvendo a oração de são marcos, supostamente muito perigosa, mas com a qual o narrador até brinca. acontece que, subitamente, ele perde a visão enquanto descansa no mato – se machuca muito, quase se perde, mas lembra da reza-brava e é tomado por uma energia ao proferi-la. ele sai em disparada para a casa do feiticeiro, se atraca com ele e quase o esganava quando voltou a enxergar, só pra ver que era trabalho de mangolô: Não quis matar, não quis ofender... Amarrei só esta tirinha de pano preto nas vistas do retrato, p'ra Sinhô passar uns tempos sem poder enxergar... Olho que deve de ficar fechado, p'ra não precisar de ver negro feio... o narrador estende a bandeira branca, alegando que tem santo bom, e propõe que não tivessem briga, indo embora depois de deixar uma nota de dez mil-réis.

o próximo conto é corpo fechado, que começa com um tal de manuel fulô contando sobre os malfeitores do povoado para o doutor, seu amigo. ele descobre que fulô está noivo, coisa que não parecia de grande importância para ele – cuja maior paixão é sua mula, beija-flor –, mas targino, o sujeito mais intimidador do momento, anuncia que deseja passar uma noite com sua noiva antes do casamento e que, se fulô tivesse algo contra, o mataria. manuel fica desconjuntado mas acaba recebendo uma proposta do feiticeiro antonico: ele fecharia/blindaria seu corpo em troca da mula. os dois tinham um impasse pois fulô queria a sela mexicana de antonico, que queria a mula de fulô; o trato é feito, não obstante, e os tiros de targino não fazem nada contra manuel, que o mata com um canivete e passa a representar a figura de valentão no lugar dele.

depois vem conversa de bois, contanto um caso, a partir do relato de uma irara, sobre esse carro de bois levando rapadura e um defunto para um arraial. seu guia é um menino, filho do defunto (que quando vivo era doente e inválido) e o condutor é uma espécie de padrasto dele (pois é o companheiro de sua mãe), mas muito cruel e insensível com a criança, que caminha triste. os bois têm consciência e conversam entre si sobre sua vida e o que percebem dos homens, chegando num ponto em que seus pensamentos se misturam com os do menino e incitam vingança – eles fazem com que o menino grite, assustando os animais, que fazem pular o carro e derrubam o carreiro, que é atropelado pela roda. apesar do desespero do menino o resto do trajeto se torna mais leve com dois defuntos.

— Podemos pensar como o homem e como os bois. Mas é melhor não pensar como o homem...
— É porque temos de viver perto do homem, temos de trabalhar... Como os homens... Por que é que tivemos de aprender a pensar?...
— É engraçado: podemos espiar os homens, os bois outros...
— Pior, pior... Começamos a olhar o medo... o medo grande... e a pressa... O medo é uma pressa que vem de todos os lados, uma pressa sem caminho... É ruim ser boi-de-carro. É ruim viver perto dos homens... As coisas ruins são do homem: tristeza, fome, calor – tudo, pensando, é pior...
— Mas, pensar no capinzal, na água fresca, no sono à sombra, é bom... É melhor do que comer sem pensar. Quando voltarmos, de noite, no pasto, ainda haverá boas touceiras do roxo-miúdo, que não secaram... E mesmo o catingueiro-branco está com as moitas só comidas a meia altura... É bonito poder pensar, mas só nas coisas bonitas...
— Que é que está fazendo o carro?
— O carro vem andando, sempre atrás de nós.
— Onde está o homem-do-pau-comprido?
— O homem-do-pau-comprido-com-o-marimbondo-na-ponta está trepado no chifre do carro...
— E o bezerro-de-homem-que-caminha-sempre-na-frente-dos-bois?
— O bezerro-de-homem-que-caminha-adiante vai caminhando devagar... Ele está babando água dos olhos...

e, por último, a hora e a vez de augusto matraga (que foi uma releitura) – o protagonista é esse bandoleiro que não quer saber de trabalhar e só faz maltratar os outros e desprezar a esposa e a filha, até que sua família vai morar em outro sítio e seus homens passam pro lado de outro major. quando tenta confrontá-los é violentado até quase morrer, salvo por um casal de negros que morava ao pé do barranco do qual ele se jogou. envergonhado e arrependido, nhô augusto decide se redimir e parte para outro povoado com os velhos, assim que se recupera, e lá passa a trabalhar dia e noite para todos, se lembrando sempre que vai para o céu nem que seja a porrete. numa ocasião surge um bando de jagunços no local e augusto os hospeda e se amiga com o líder, que percebe que matraga nem sempre fora daquele jeito e o convida para se juntar ao grupo. ele recusa mas, tempos mais tarde, parte com um jumento para outro canto e topa com o bando, porém se coloca contra o jagunço para defender uma família. eles lutam até a morte, terminando contentes e amigos assim mesmo, e augusto matraga abençoa sua filha e parte conformado de que este fora o desígnio divino para ele.

E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso acontecido, não senhor.
E isso foi pensado muito ligeiro, porque já ele enrolava a palha, com uma pressa medonha, como se não tivesse curtido tantos anos de abstenção. Tirou tragadas, soltou muitas fumaças, e sentiu o corpo se desmanchar, dando na fraqueza, mas com uma tremura gostosa, que vinha até ao mais dentro, parecendo que a gente ia virar uma chuvinha fina.
A lâmina de Nhô Augusto talhara de baixo para cima, do púbis à boca-do-estômago, e um mundo de cobras sangrentas saltou para o ar livre, enquanto seu Joãozinho Bem-Bem caía ajoelhado, recolhendo os seus recheios nas mãos.

eu gostei bastante dos contos e do estilo de guimarães rosa, quero ler mais obras dele no futuro. não achei a linguagem tão difícil quanto como ouvi dizerem, apenas bastante diversa e dinâmica (são marcos foi o pior nesse aspecto pois tinha muita descrição de árvores e animais). meus preferidos foram sarapalha e conversa de bois, e o que menos gostei foi a volta do marido pródigo. (vídeo massa sobre tudo aqui.)

em seguida terminei poemas negros, de jorge de lima, que não me agradou por inteiro mas foi uma leitura tranquila. vê-se a homenagem feita às crenças e mitologias negras, retratando grande sincretismo religioso por meio de um "africanismo de adoção", além da denúncia da desigualdade social e dos problemas do povo. um que achei muito forte é intitulado Foi mudando, mudando:

Tempos e tempos passarram
por sobre teu ser.
Da era cristã de 1500
até estes tempos severos de hoje,
quem foi que formou de novo teu ventre,
teus olhos, tua alma?
Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão?
Os modos de rir, o jeito de andar,
pele,
gozo,
coração...
Negro, índio ou cristão?
Quem foi que te deu esta sabedoria,
mais dengo e alvura,
cabelo escorrido, tristeza do mundo,
desgosto da vida, orgulho de branco, algemas, resgates, alforrias?
Foi negro, foi índio ou foi cristão?
Quem foi que mudou teu leite,
teu sangue, teus pés,
teu modo de amar,
teus santos, teus ódios,
teu fogo,
teu suor,
tua espuma,
tua saliva, teus abraços, teus suspiros, tuas comidas,
tua língua?
Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão?

Olá! Negro também é muito bom e mais popular um pouco (abaixo um trecho).

Apanhavas com vontade de cantar,
choravas com vontade de sorrir,
com vontade de fazer mandinga para o branco ficar bom,
para o chicote doer menos,
para o dia acabar e negro dormir!
Não basta iluminares hoje as noites dos brancos com teus jazzes,
com tuas danças, com tuas gargalhadas!
Olá, Negro! O dia está nascendo!
O dia está nascendo ou será a tua gargalhada que vem vindo?

agora um trecho aleatório...

Eu sou um corpo distraído.
Bóiam os meus olhos pelas superfícies.
Mas os meus olhos correm mais perigo
do que se andassem em acrobacias contemplativas
pulando no céu alto, perto das estrelas.

...e pedaços de Invenção de Orfeu, aparentemente a obra-prima do autor:

Sonâmbulas as flores
conservam pelo dia
as noites.
Os ouvidos das pétalas,
e seus lábios de olor
recordam-se
transidos e orvalhados,
indiferentes, frios,
tão frios.
Jamais os dias quentes
poderão aquecer-lhes
os seus sangues noturnos
tão frios.
Agora nos jardins
espalham
nos silêncios intactos
suas presenças frias,
tão frias.
São beijadas, porém
volvidas
à lembrança das noites
permanecem veladas
e frias.
–
Não há na vida amor que em vão termine
nem vão esquecimento que o destine.
–
Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.
–
A estepe e a noite de deitaram juntas,
paralelas as asas sobre as asas,
ambas com as solidões, ambas defuntas,
e entre elas, sós, ardentes como brasas,
espreitando à direita e à esquerda o estrito
espaço ínfimo que entre as duas corre,
correm cruciados como o imenso grito,
imenso grito mudo de quem morre,
os olhos renegados de quem está
esperando, esperando. Que esperando?
Entre a estepe e a noite olham olhos, rente
às trevas opressoras, olhos que a
estepe e a noite juntas se estreitando
apagam misericordiosamente.

esse último se chama Poemas da vicissitude e é o canto V (achei bonito, identifico coisas). tem mais coisa que salvei por ser mais romântico (ou não)...





certo. não vou acabar mais nada esse mês então é isso.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

lidos em agosto

no comecinho do mês terminei cyrano de bergerac, de edmond rostand, que tava na minha estante há anos desde que comprei no sebo. é uma peça teatral sobre esse herói um tanto quanto pitoresco, com um nariz enorme, muito valente e talentoso. ele acaba cedendo seu dom de escrita a cristiano, que está apaixonado por roxane, prima dele – a quem também ama, mas considera-se sem chances por causa de sua feiura. achei muito massa as coisas que ele compunha e falava se passando por cristiano, como se criasse tudo mas, na verdade, expressando o que sentia. os dois acabam partindo para um combate, no qual cristiano falece; anos mais tarde, roxane fica sabendo do combinado entre eles, quando cyrano está morrendo, e lamenta por um amor duas vezes perdido. achei bastante dinâmico e surpreendente, além de que não esperava que o protagonista tivesse existido de verdade!

em agosto levei meu irmão na biblioteca pela primeira vez, e enquanto fazia companhia a ele na seção infantil li ou isto ou aquilo, da cecília meireles. são vários poemas criativos ilustrados pelo traço lindão de odilon moraes. foi gostosinho de ler; acho que fui conhecer pela jotapluftz há um tempo atrás.

finalmente li coração, cabeça e estômago, de camilo castelo branco. o narrador, silvestre da silva, começa se apaixonando a torto e a direito, sem obter sucesso em nenhum relacionamento; em seguida se dedica ao intelecto, escrevendo para um jornal sobre a sociedade hipócrita de onde vivia, o que (quase?) o coloca na prisão; por último se rende às coisas do corpo, buscando paz e satisfação, e acaba se casando e engordando muito, até adoecer. na verdade existe um editor, amigo de silvestre, que reuniu seus escritos e de vez em quando faz críticas e comentários à narrativa, supostamente deixada para servir de guia para os jovens. os seguintes trechos são todos da parte do estômago, o único que mais me chamou a atenção.

O amor inventou-o depois o estragamento dos bons costumes gregos e romanos, como coisa necessária e acirrante aos paladares botos dos filhos viciosos das cidades.
Ainda agora nas aldeias, afastadas dos focos da corrupção, coisa que eu nunca ouvi dizer é: A Maria do Ribeiro ama o Antônio da Capela." Lá não se diz ama; é querem-se. Querem-se" é outra coisa; é amalgamarem-se num só ser, em uma só vontade, numa identidade de alma e corpo tal, e tão uma que nem sequer cogitam se há desgraça com força de desuni-los aquém da morte. E para lá da sepultura ainda eles têm como segura a vida imortal em união de penas ou glórias.

O amor dispensa-se onde está a profunda estima. Lá nesses consórcios bem-aventurados que florescem obscuros nas gargantas das serranias e nas selvas que bordam as margens dos rios não há tempo nem ocasião de discutirem sutilezas do coração. Crê-se ali que o vínculo é eterno e o sacramento do matrimônio uma religião, ou o dogma mais sacratíssimo dela. Pode ser que nem isto mesmo pensem: o que eles deveras sabem é que são felizes.
(...) As minhas meditações eram pachorrentas, terra a terra, sem enlevos que me deslocassem da felicidade do momento para me transportarem ao passado, onde estava a saudade, ou ao futuro donde me podia estar mentindo a esperança.
Que a saudade, para além dos trinta anos, é uma enchente de lágrimas que desdobra o peito daqueles mesmos que se não sentem viver no coração.
E a esperança é uma virgem de encantos doidos, a qual vos não deixa gozar os encantos doutra virgem que vos alinda os bens presentes.
Cabeça e coração senti sem vida,
No estômago busquei uma alma nova
E encontrá-la pensei... Crença perdida!
Mulher aos pés o coração me sova;
Foge ao mundo a razão espavorida;
E por muito comer eu desço à cova!

teve americanazine na biblioteca e li mais zines lá do que já li em toda minha vida, provavelmente. gostei bastante; tem uma infinidade de temas, tudo muito criativo. tirei foto de uma poesia que achei engraçadíssima no meio de tantos poemas existencialistas: ela se chama toda vez que eu chego em casa e é de jeison placinsch.

estava olhando um filme
quando percebi algo
fora da televisão se mexer
se mexer não, pular e sumir
passou um tempo e nada aconteceu
até vir voando na minha cara
uma coisa que eu já sabia ser uma
barata, barata, baratina
nisso dei um golpe de ninja pro lado
e liguei a luz
mas não consegui ver pra onde ela foi
puxei um colchão pra cada lado
mais as madeirinhas que sustentam eles
e nada
nem um sinal daquela filha da puta
então decidi puxar de volta
e vi uma coisinha correndo embaixo
AHA!!!
dessa vez não iria fugir
quero dormir sozinho hoje
então me estiquei
botei eles pro lugar
e vi a pontinha da bunda dela tentando
escapar, mas nem conseguiu
finalmente botei tudo no lugar
e senti que precisava falar pra vocês
sobre este belo ocorrido
e na metade disso veio voando
mais uma na minha direção
vingança?
só pode
o mais bizarro é que nesses
quase cinco anos que moro aqui
lembro de ter visto só duas baratas
até hoje
e agora, até agora,
uma e trinta e cinco da manhã,
essa última já foi a quarta
que matei.

depois li três contos de sagarana, de guimarães rosa (aqui tem resumos/análises massa). primeiro, o burrinho pedrês (vídeo): sete-de-ouros, burrinho velho mas experiente, é necessário para fazer uma travessia de bois de um major bastante influente, uma vez que alguns cavalos haviam debandado na noite anterior. os vaqueiros não se empolgam muito em ter esse tipo de montaria, mas prosseguem, e no caminho de volta ficam num impasse ao encontrar o ribeirão cheio. decidem deixar o animal ir primeiro – O burrinho é quem vai resolver: se ele entrar n'água, os cavalos acompanham, e nós podemos seguir sem susto. Burro não se mete em lugar de onde ele não sabe sair! no entanto, os cavalos e vaqueiros não suportam a correnteza e são afogados, enquanto sete-de-ouros vai pisando onde conhece e nadando quando deveria. apenas dois homens se salvam, um agarrado ao rabo do burro e outro montado nele, adormecido de bêbado e mais tarde sendo deixado na varanda da fazenda, sem se dar conta do episódio.

(...) E, com isso, deixaram todos de caber no dia, que rodou e se foi, redondo e repleto, com a tarde a cair rente, uma tarde triste de tempo frio.

Enquanto isso tudo, na coberta do Reynéro, ali perto, afrouxadas as barrigueiras e tirados os freios, os cavalos descansavam. Longe dos outros, deixado num extremo, no canto mais escuro e esquerdo do telheiro, Sete-de-Ouros estava. Só e sério. Sem desperdício, sem desnorteio, cumpridor de obrigação, aproveitava para encher, mais um trecho, a infinda linguiça da vida. 

segundo, a volta do marido pródigo: lalino salãthiel era um trabalhador preguiçoso e irresponsável que decide abandonar seus serviços e se mudar para o rio de janeiro, em busca da boa-vida; deixa sua esposa maria rita, sem nem avisá-la, e vende sua viola a um espanhol que morava por perto. ele retorna depois de um tempo, desiludido, e descobre que maria rita está com o espanhol; passa então a trabalhar como cabo eleitoral para um major e vai conseguindo as coisas com malemolência e despojamento. no final ele consegue derrotar o adversário político e, de quebra, expulsar a colônia espanhola do local, reconquistando sua esposa.

por último, sarapalha, sobre esse lugar assolado pela malária, onde não resta quase ninguém – dois primos, ribeiro e argemiro, passam seus dias a esperar a morte, conversando sentados num cocho em companhia de um cachorro abatido. a esposa do primeiro tinha fugido com um vaqueiro há algum tempo, e ele pede para que o primo reconte a história do diabo que fugiu com uma moça, para aliviar. argemiro era apaixonado pela esposa do primo e acaba revelando isso, embora alegue que jamais pensara em desrespeitar ribeiro; ele se sente traído até pelo último companheiro e, ofendido, o expulsa. argemiro é tomado pela febre enquanto vai embora.

— Conta o resto da estória...
— ..."Então, a moça, que não sabia que o moço-bonito era o capeta, ajuntou suas roupinhas melhores numa trouxa, e foi com ele na canoa, descendo o rio..."
— A moça que eu estou vendo agora é uma só, Primo... Olha!... É bonita, muito bonita. É a sezão. Mas não quero... Bem que o doutor, quando pegou a febre e estava variando, disse... você lembra?... disse que a maleita era uma mulher de muita lindeza, que morava de-noite nesses brejos, e na hora da gente tremer era quem vinha... e ninguém não via que era ela quem estava mesmo beijando a gente... Mas, acaba de contar a estória, Primo...

além disso, li um pouco de poemas negros, de jorge de lima, e de o universo numa casca de noz, de stephen hawking. este tô ouvindo em audiobook sempre que tenho uma louça monstruosa pra lavar ou coisa do tipo. esse mês não foi grande coisa no quesito leituras, devia ter lido bem mais, considerando os planos pros livros obrigatórios, mas claramente sou incapaz de ter qualquer disciplina a longo prazo. uma desculpa possível é que fiquei doente...