no comecinho do mês terminei cyrano de bergerac, de edmond rostand, que tava na minha estante há anos desde que comprei no sebo. é uma peça teatral sobre esse herói um tanto quanto pitoresco, com um nariz enorme, muito valente e talentoso. ele acaba cedendo seu dom de escrita a cristiano, que está apaixonado por roxane, prima dele – a quem também ama, mas considera-se sem chances por causa de sua feiura. achei muito massa as coisas que ele compunha e falava se passando por cristiano, como se criasse tudo mas, na verdade, expressando o que sentia. os dois acabam partindo para um combate, no qual cristiano falece; anos mais tarde, roxane fica sabendo do combinado entre eles, quando cyrano está morrendo, e lamenta por um amor duas vezes perdido. achei bastante dinâmico e surpreendente, além de que não esperava que o protagonista tivesse existido de verdade!
em agosto levei meu irmão na biblioteca pela primeira vez, e enquanto fazia companhia a ele na seção infantil li ou isto ou aquilo, da cecília meireles. são vários poemas criativos ilustrados pelo traço lindão de odilon moraes. foi gostosinho de ler; acho que fui conhecer pela jotapluftz há um tempo atrás.
finalmente li coração, cabeça e estômago, de camilo castelo branco. o narrador, silvestre da silva, começa se apaixonando a torto e a direito, sem obter sucesso em nenhum relacionamento; em seguida se dedica ao intelecto, escrevendo para um jornal sobre a sociedade hipócrita de onde vivia, o que (quase?) o coloca na prisão; por último se rende às coisas do corpo, buscando paz e satisfação, e acaba se casando e engordando muito, até adoecer. na verdade existe um editor, amigo de silvestre, que reuniu seus escritos e de vez em quando faz críticas e comentários à narrativa, supostamente deixada para servir de guia para os jovens. os seguintes trechos são todos da parte do estômago, o único que mais me chamou a atenção.
O amor inventou-o depois o estragamento dos bons costumes gregos e romanos, como coisa necessária e acirrante aos paladares botos dos filhos viciosos das cidades.Ainda agora nas aldeias, afastadas dos focos da corrupção, coisa que eu nunca ouvi dizer é: A Maria do Ribeiro ama o Antônio da Capela." Lá não se diz ama; é querem-se. Querem-se" é outra coisa; é amalgamarem-se num só ser, em uma só vontade, numa identidade de alma e corpo tal, e tão uma que nem sequer cogitam se há desgraça com força de desuni-los aquém da morte. E para lá da sepultura ainda eles têm como segura a vida imortal em união de penas ou glórias.
O amor dispensa-se onde está a profunda estima. Lá nesses consórcios bem-aventurados que florescem obscuros nas gargantas das serranias e nas selvas que bordam as margens dos rios não há tempo nem ocasião de discutirem sutilezas do coração. Crê-se ali que o vínculo é eterno e o sacramento do matrimônio uma religião, ou o dogma mais sacratíssimo dela. Pode ser que nem isto mesmo pensem: o que eles deveras sabem é que são felizes.
(...) As minhas meditações eram pachorrentas, terra a terra, sem enlevos que me deslocassem da felicidade do momento para me transportarem ao passado, onde estava a saudade, ou ao futuro donde me podia estar mentindo a esperança.Que a saudade, para além dos trinta anos, é uma enchente de lágrimas que desdobra o peito daqueles mesmos que se não sentem viver no coração.E a esperança é uma virgem de encantos doidos, a qual vos não deixa gozar os encantos doutra virgem que vos alinda os bens presentes.
Cabeça e coração senti sem vida,No estômago busquei uma alma novaE encontrá-la pensei... Crença perdida!Mulher aos pés o coração me sova;Foge ao mundo a razão espavorida;E por muito comer eu desço à cova!
teve americanazine na biblioteca e li mais zines lá do que já li em toda minha vida, provavelmente. gostei bastante; tem uma infinidade de temas, tudo muito criativo. tirei foto de uma poesia que achei engraçadíssima no meio de tantos poemas existencialistas: ela se chama toda vez que eu chego em casa e é de jeison placinsch.
estava olhando um filmequando percebi algofora da televisão se mexerse mexer não, pular e sumir
passou um tempo e nada aconteceuaté vir voando na minha carauma coisa que eu já sabia ser umabarata, barata, baratina
nisso dei um golpe de ninja pro ladoe liguei a luzmas não consegui ver pra onde ela foipuxei um colchão pra cada ladomais as madeirinhas que sustentam elese nadanem um sinal daquela filha da puta
então decidi puxar de voltae vi uma coisinha correndo embaixoAHA!!!
dessa vez não iria fugirquero dormir sozinho hoje
então me estiquei
botei eles pro lugar
e vi a pontinha da bunda dela tentando
escapar, mas nem conseguiu
finalmente botei tudo no lugare senti que precisava falar pra vocêssobre este belo ocorridoe na metade disso veio voandomais uma na minha direção
vingança?só pode
o mais bizarro é que nessesquase cinco anos que moro aquilembro de ter visto só duas baratasaté hojee agora, até agora,uma e trinta e cinco da manhã,essa última já foi a quartaque matei.
depois li três contos de sagarana, de guimarães rosa (aqui tem resumos/análises massa). primeiro, o burrinho pedrês (vídeo): sete-de-ouros, burrinho velho mas experiente, é necessário para fazer uma travessia de bois de um major bastante influente, uma vez que alguns cavalos haviam debandado na noite anterior. os vaqueiros não se empolgam muito em ter esse tipo de montaria, mas prosseguem, e no caminho de volta ficam num impasse ao encontrar o ribeirão cheio. decidem deixar o animal ir primeiro – O burrinho é quem vai resolver: se ele entrar n'água, os cavalos acompanham, e nós podemos seguir sem susto. Burro não se mete em lugar de onde ele não sabe sair! no entanto, os cavalos e vaqueiros não suportam a correnteza e são afogados, enquanto sete-de-ouros vai pisando onde conhece e nadando quando deveria. apenas dois homens se salvam, um agarrado ao rabo do burro e outro montado nele, adormecido de bêbado e mais tarde sendo deixado na varanda da fazenda, sem se dar conta do episódio.
(...) E, com isso, deixaram todos de caber no dia, que rodou e se foi, redondo e repleto, com a tarde a cair rente, uma tarde triste de tempo frio.
Enquanto isso tudo, na coberta do Reynéro, ali perto, afrouxadas as barrigueiras e tirados os freios, os cavalos descansavam. Longe dos outros, deixado num extremo, no canto mais escuro e esquerdo do telheiro, Sete-de-Ouros estava. Só e sério. Sem desperdício, sem desnorteio, cumpridor de obrigação, aproveitava para encher, mais um trecho, a infinda linguiça da vida.
segundo, a volta do marido pródigo: lalino salãthiel era um trabalhador preguiçoso e irresponsável que decide abandonar seus serviços e se mudar para o rio de janeiro, em busca da boa-vida; deixa sua esposa maria rita, sem nem avisá-la, e vende sua viola a um espanhol que morava por perto. ele retorna depois de um tempo, desiludido, e descobre que maria rita está com o espanhol; passa então a trabalhar como cabo eleitoral para um major e vai conseguindo as coisas com malemolência e despojamento. no final ele consegue derrotar o adversário político e, de quebra, expulsar a colônia espanhola do local, reconquistando sua esposa.
por último, sarapalha, sobre esse lugar assolado pela malária, onde não resta quase ninguém – dois primos, ribeiro e argemiro, passam seus dias a esperar a morte, conversando sentados num cocho em companhia de um cachorro abatido. a esposa do primeiro tinha fugido com um vaqueiro há algum tempo, e ele pede para que o primo reconte a história do diabo que fugiu com uma moça, para aliviar. argemiro era apaixonado pela esposa do primo e acaba revelando isso, embora alegue que jamais pensara em desrespeitar ribeiro; ele se sente traído até pelo último companheiro e, ofendido, o expulsa. argemiro é tomado pela febre enquanto vai embora.
— Conta o resto da estória...
— ..."Então, a moça, que não sabia que o moço-bonito era o capeta, ajuntou suas roupinhas melhores numa trouxa, e foi com ele na canoa, descendo o rio..."
— A moça que eu estou vendo agora é uma só, Primo... Olha!... É bonita, muito bonita. É a sezão. Mas não quero... Bem que o doutor, quando pegou a febre e estava variando, disse... você lembra?... disse que a maleita era uma mulher de muita lindeza, que morava de-noite nesses brejos, e na hora da gente tremer era quem vinha... e ninguém não via que era ela quem estava mesmo beijando a gente... Mas, acaba de contar a estória, Primo...
além disso, li um pouco de poemas negros, de jorge de lima, e de o universo numa casca de noz, de stephen hawking. este tô ouvindo em audiobook sempre que tenho uma louça monstruosa pra lavar ou coisa do tipo. esse mês não foi grande coisa no quesito leituras, devia ter lido bem mais, considerando os planos pros livros obrigatórios, mas claramente sou incapaz de ter qualquer disciplina a longo prazo. uma desculpa possível é que fiquei doente...
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