quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

lidos em dezembro

depois de séculos consegui terminar família schürmann - um mundo de aventuras, de heloisa schürmann, sobre a viagem de dois anos e meio que fizeram em seu veleiro seguindo a rota de fernão de magalhães, português pioneiro em circum-navegar o globo terrestre. aprendi várias coisas, por exemplo, que tem um lago num país da micronésia onde existem águas-vivas inofensivas, que aliá é como se chama a fêmea do elefante e que ovos de avestruz aguentam até 600kg sobre eles. pesquisei bastante sobre o que falavam, os lugares e culturas, e foi legal de conhecer um pouquinho de tanto. heloisa me lembra muito nazira, a professora de química do colégio, e era engraçado imaginar as reações dela dentro das diversas situações relatadas no livro. também pude enxergar na escrita um humorzinho bem parecido com o meu no começo do blog. mencionou várias vezes pigafetta, cronista oficial da esquadra de magalhães, comparando-se a ele e fazendo correspondência entre seu laptop e a pena e tinta dele... na época da viagem apareciam no fantástico. teve uma hora que estavam numa reserva na áfrica do sul e dei risada do que escreveu: Passamos por um Kraal (vila tradicional dos habitantes nativos da área, os Zulus). Os moradores da vila mostraram algumas tradições de sua cultura. O curandeiro da tribo fumava seu comprido cachimbo com um estranho fumo: maconha. 

desde que terminei a lista de leitura da unicamp tenho lido apenas as coisas paradas comigo, e neste mês comecei por um leão em família, de luiz puntel (daquela coleção vagalume). é sobre um menino que encontra um leão que supostamente caiu de um vagão de trem e leva-o pra casa, mais tarde tendo que fugir porque alguém parecia querer matá-lo e não sei o que mais. não gostei nadinha, achei muito besta e ordinário. qualquer pessoa escreveria de um jeito mais agradável.

depois li vito grandam - uma história de vôos, do ziraldo, e me surpreendi demais. é sobre um menino de 17 anos que começa a analisar sua relação com o tio três anos mais velho, victor, e alguns detalhes de sua vida que o conduziram até o primeiro plano da narrativa. ele fala sobre sua escrita enquanto faz isso e achei bastante original, bonito mesmo. vito grandam é como ele escrevera "victor grandão" quando criança, sendo depois o nome usado pelo tio ao voar de asa-delta – e é assim mesmo que meu irmão trocava o aumentativo nas palavras quando tava começando a escrever... gostei de ter lido e esqueci de marcar trechos, mas tudo bem porque é curtinho e posso reler em breve.

li os melhores poemas de mário quintana, que encontrei uma vez no ponto de ônibus em frente ao poli e tá todo destruído (mas com todas as páginas). não gostei muito da poesia de mário quintana não, nada de especial. só anotei alguns melhorzinhos: noturno, presença, sempre, operação alma e envelhecer.

aí li macunaíma, de mário de andrade, e até que me diverti. é bem bizarro e nonsense (vi em algum lugar uma comparação com o guia do mochileiro das galáxias, mas sem a ficção científica), cheio de bagunça e brincadeiras – tanto no sentido que tô acostumada quanto como sinônimo de sexo, usado no livro inteiro. várias vezes macunaíma foge pelos estados do brasil como se corresse por um mapa estendido no chão, coisa que contribui pra não-regionalização da história, presente também na utilização de trocentos nomes de frutas, peixes e tudo quanto é coisa. também tem uns mitos e origens de expressões inventadas (talvez nem tanto), como "vá tomar banho" pros europeus que não estavam acostumados com o compromisso diário de quem vive nos trópicos...

li então o livro do riso e do esquecimento, de milan kundera. É um romance que se refere ao riso e ao esquecimento, que diz respeito ao esquecimento e a Praga, que fala de Praga e anjos. tem várias narrativas sobre situações diversas – um homem envergonhado por seu passado com uma mulher feia perseguido pelo estado repressor; um casal que tem sua liberdade reconquistada após uma visita de mamãe e da amiga entusiasta de 3-ways; duas estudantes que engendram a discussão do riso diabólico e angelical; uma viúva que tenta recuperar cartas e diários abandonados em praga, de onde fugiu; um estudante que se envolve com uma mulher casada do interior, admira poetas nacionais e carrega sua litost (estado atormentador nascido do espetáculo de nossa própria miséria repentinamente descoberta); a retomada da personagem da viúva numa busca de livrar-se do peso que carrega; um homem que encontra harmonia na incompreensão de sua "parceira" e pensa sobre no começo da vida erótica do homem há excitação sem prazer, e no final há prazer sem excitação. tem várias partes onde o autor descreve experiências próprias após a invasão russa da república tcheca, além de falar bastante sobre as coisas que está criando ao escrever. achei bom, meio filosófico como a insustentável leveza do ser (ele até menciona essa ideia na segunda parte de tamina). e percebo que anoto umas coisas que posso querer pensar sobre depois, não necessariamente que me impressionam.

Foi como um despertador que a tirasse de um sonho. E, nesse momento, como ela se abraçasse com Eva (assim como quem dorme, ao ser acordado, se abraça ao travesseiro, para esconder-se da luz perturbadora do dia), Eva perguntou-lhe: Combinado? E ela assentiu, com um gesto que indicava que estava de acordo, e apertou seus lábios contra os de Eva. Sempre a amara, porém, pela primeira vez, amava-a com todos os sentidos, por ela mesma, por seu corpo e por sua pele, e embriagava-se com esse amor carnal como se fosse uma revelação súbita.
Ela quer ter esses diários para que a frágil estrutura dos acontecimentos, tal como a construiu em seu diário, possa receber paredes e tornar-se a casa onde ela poderá morar. Porque, se o edifício vacilante das lembranças cai como uma tenda mal levantada, não vai sobrar nada de Tamina a não ser o presente, esse ponto invisível, esse nada que avança lentamente em direção à morte.
Eles iniciaram uma conversa. O que intrigava Tamina eram as suas perguntas. Não o conteúdo delas, mas o simples fato de ele as fazer. Meu Deus, havia tanto tempo que não lhe perguntavam nada! Tinha a impressão de que havia uma eternidade! Só seu marido lhe fazia perguntas sem cessar, porque o amor é uma interrogação contínua. É, não conheço definição melhor do amor.
(...) No barro úmido sem mato e sem árvores, acossados por baixo pela cor ocre e amarela e, do alto, por nuvens cinza e pesadas, eles caminhavam lado a lado, calçados com botas de borracha que afundavam na lama e deslizavam. Estavam sós no mundo, cheios de angústia, de amor e de inquietação desesperada um pelo outro.
A mulher que ele mais amou no mundo (ele tinha na época trinta anos) lhe dizia (ele ficava quase desesperado quando ouvia isto) que ela só se prendia à vida por um fio muito fino. Sim, ela queria viver, a vida lhe proporcionava uma alegria imensa, mas ela sabia ao mesmo tempo que esse quero viver era tecido com fios de teia de aranha. Bastava tão pouco, tão infinitamente pouco, para se encontrar do outro lado da fronteira além da qual nada mais tinha sentido: o amor, as convicções, a fé, a História. Todo o mistério da vida humana consistia no fato de que ela se desenrola em proximidade imediata e mesmo em contato direto com essa fronteira, que ela não fica separada desta por quilômetros, mas apenas por um milímetro.
O olhar do homem já foi descrito muitas vezes. Ele pousa friamente sobre a mulher, ao que parece, como se a medisse, a pesasse, a avaliasse, a escolhesse, ou seja, como se a transformasse em coisa.
O que não se sabe tão bem é que a mulher não está inteiramente desarmada contra esse olhar. Se ela é transformada em coisa, então ela observa o homem com o olhar de uma coisa. É como se o martelo tivesse de repente olhos e observasse fixamente o pedreiro que se serve dele para fixar um prego. O pedreiro vê o olhar mau do martelo, perde a segurança e dá uma martelada no próprio dedo.
O pedreiro é o senhor do martelo, porém é o martelo que leva vantagem sobre o pedreiro, porque a ferramenta sabe exatamente como deve ser manejada, enquanto aquele que a maneja só pode sabê-lo mais ou menos.
O poder de olhar transforma o martelo em ser vivo, mas o bravo pedreiro tem de sustentar seu olhar insolente e, com a mão firme, transformá-lo novamente em coisa. Dizem que a mulher vive assim um movimento cósmico para cima e para baixo: a elevação da coisa tornada criatura e a queda da criatura tornada coisa.

comecei a ler elogio da loucura também, que felipe me deu, mas tava chatão e acho que vou abandonar.

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