morella (edgar allan poe)
o cara que narra, claro, e fala dessa mulher com quem se casou. nada de amor ou paixão, mas a erudição dela o impressionava. ela tinha um fascínio pelo místico, literatura alemã antiga e sei lá mais o quê, uns temas de identidade. e o cara passa a odiá-la, fica na esperança de que ela morra, e quando finalmente tá pra morrer ela diz que vai viver através da criança deles. e essa criança nasce assim que ela morre, e cresce prematuramente com uma mente afiada que nem a mãe, uma maturidade e seriedade que não combinam com a idade, e o cara nunca dá nome pra menina. até que ele vai batizá-la e pensa em mil nomes mas o que sai da boca é "morella", e assim ela morre. uns negócios meio perturbadores parecendo possessão. gostei, curto esse, mas teve esse thriller e horror massa.
elektra (2005)
claro que iam usar algum misticismo oriental pra reviver elektra e ensinar umas lutas a ela. coisa de não precisar ver pra enxergar, se mover mais rápido que a luz e umas baboseiras parecidas. mas o líder manda ela embora, e então ela começa a trabalhar como assassina de aluguel, porque "é nisso que eu sou boa". mandam ela pra uma casona numa ilha e lá ela conhece uma menina de 13 anos, abby, e o pai dela, mark. logo em seguida recebe os detalhes do trabalho da vez: matar os dois. claro que ela não consegue e entra num negócio de ajudá-los a fugir, e tem os caras do mal que caminham esquisito e sorriem que nem bestas. um deles tem tatuagens de bichos e os bichos saem dele pra vigiar ou atacar os outros. outra é uma mulher que tira a vida das coisas, inimiga da greta thunberg, e ela beija (!) elektra pra imobilizá-la. uma coisa de elektra se ver na menina abby, que na real tá sendo perseguida porque é um prodígio e o lado ruim a quer, coisa das mães terem sido morta quando eram pequenas. uma luta besta num labirinto, o cara ruim jogado no poço e elektra revivendo abby. mas vai embora no final porque tem que ter a tensão de "vamos nos encontrar de novo". muuuuito ruim, hein. cansada desse tipo de filme há muito tempo.
mad max 2: the road warrior (1982)
muitíssimo melhor que o primeiro. as coisas "ruins" é engraçado, dá pra ver que é o que era possível fazer na época. tem aquele ator com a cara compridona que faz wo die grüne ameisen trüamen, ele tem um veículozinho que voa. max passa por uma armadilha dele e o acorrenta, leva ele junto. max tem um cachorro; tem uma hora que come uma lata de comida patêzuda e dá o resto pro cão, e o cara tenta pegar os restos. foi acorrentado porque dizia que tinha uma fortaleza de petróleo ali por perto, e max chega lá resgatando um homem que era um deles. umas pessoas vestidas de branco, loiras... do outro lado tem os doidos da estrada, um de moicano e sobrancelha feita com um loirinho na garupa da moto, bem bestão. estupram a mulher que tava com o cara e a matam. o líderzão desses, mascarado musculoso seminu, faz uma oferta de deixarem eles em paz se cederem a fortaleza. tem uma criança dentre os "bons" que é toda guerreira, usa um bumerangue assassino (mata o loirinho do cara feio!), só responde grunhindo. muito videogame esses personagens. dão gasolina pra max ir buscar um caminhão que ele diz ter visto na estrada e que daria pra eles levarem a bomba de gasolina que têm, e volta todo estrupiado mas consegue. ia se mandar mas o atacam de novo, matam o cachorro, o carro explode. volta rastejando pra fortaleza e se junta, quer pilotar o caminhão ainda, pra despistar enquanto os outros se espalham e vão correndo. querem ir pra um lugar que acham que é um paraíso, ao norte. bem boa a perseguição e luta na estrada, vi bastante coisa do mad max de 2015 já aqui. no fim tinha areia dentro, só, e o narrador era a criança fãzinha dele. o da cara comprida não morre nunca, o de moicano fica numa coleira de corrente de castigo... gosto dos carros que são só esqueletos.
speak (2004)
kristen stewart com 14 anos de idade sendo personagem principal, melinda. já tinha assistido mas nunca fiz review, lembrava bem mas chorei igual. ela tinha três amigas mas depois de chamar a polícia numa festa durante as férias se dissolveram. fez isso porque um garoto mais velho fica com ela e a estupra no carro dele. o pior é que uma das amigas tá namorando ele agora. ela fala francês e ajuda uma estudante intercambista, tá se preparando pra ir estudar na frança. as outras não aparecem tanto, mas uma chega a ser ok com ela na aula de artes. o professor é até legal, dá um tema pra cada aluno trabalhar ao longo do semestre, ir desenvolvendo arte sobre. o de melinda é "árvore". tem uma cena boa dele revoltado com a escola por cortarem o orçamento pras artes e o terem repreendido por dar muitas notas altas. loirinha tagarela no ônibus que quer ser popular e dá um fora de amizade em melinda por ela ser muito deprimida; professora de inglês de cabelo desgrenhado e toda doida que melinda vai meio que virando; professor de história fascista do caralho, "mr. neck" ainda por cima. fica implicando com melinda, pede uma redação pra ela recuperar as notas baixas que ele tá dando pra ela mas a reprime quando em vez de apresentar oralmente ela pede pro colega falar sobre o direito de não fazer isso e distribui cópias pra sala. sobre as sufragistas... a legenda era péssima, toda hora errando coisa, deixaram "sufrajettes" véi. ela constrói umas artes legais, tipo um bicho com os ossos do peru de ação de graças rodeado por garfos de plástico, uma tela com uma árvore atingida por um raio. no final mostra pro professor, que vai sair da escola, a salinha escondida que apropriou e encheu de coisa, várias árvores. ele chora! eventualmente ela contou pra amiga sobre o estuprador, ela não acredita de início, o cara a confronta no quartinho e ela o machuca com spray de pimenta ou sei lá. várias meninas abrem a porta e o pressionam. termina com ela finalmente falando pra mãe o que aconteceu. pais meio bestinhas os dela, a mãe nem se liga nela. gosto do filme. parece que é independente, adaptação de livro.
pétala (olívia pilar)
duas meninas bissexuais que estão juntas há 2 anos, sem serem exclusivas nem nomear propriamente o que são. bruna se prepara pra dizer à pétala que quer dar um passo adiante, e quer se desculpar por definir as coisas no começo (na única vez que pétala viu os pais dela, bruna a apresentou como uma amiga). pétala diz que por ter ficado em silêncio consentiu, também decidiu, e que ela não devia se responsabilizar tanto pelas coisas. se encontram num café de esquina em belo horizonte, rua movimentada, lugar onde se beijaram pela primeira vez. pétala tem uma situação mais delicada com os pais, bruna conversa com o irmão mais novo dj... a primeira faz arquitetura e a outra química, pétala muito segura de si e bruna mais incerta e receosa, se segurando no que conhece, pedindo o mesmo café sempre. conto curtinho, vai intercalando a cena no café e as lembranças de bruna. não sou muito de romance em livro mesmo, viu, mas não foi ruim; a escrita é boa. representatividade negra e lgbt.
cloudburst (2011)
não esperava que fosse ser tão levinho e engraçado! um casal de lésbicas de uns 80 anos, cabelinhos brancos e tudo: uma gordinha cega (dotty) e a outra butchzinha marrenta e pervertida (stella). primeiro dotty cai da cama enquanto stella brinca provocando ela com um vibrador, e volta do hospital com uma prescrição de repouso por várias semanas. a neta de dotty aparece pedindo pra ela assinar um papel, dizendo que é tipo um atestado de que stella não tinha sido responsável por machucá-la, mas no final a gente fica sabendo que era um negócio passando as coisas pro nome dela... a neta é tão besta que nem admite pra si mesma que a avó tem um relacionamento lésbico, apesar delas estarem juntas há 31 anos já. stella briga com ela mas acaba que levam dotty pra um asilo, do qual stella a resgata muito artimanhosamente, se passando por paciente e tudo. descobrem de alguma forma que a neta fez aqueles anúncios de procurados pra elas, então decidem ir pro canadá pra se casarem, e no caminho dão carona pra um tal de prentice, jovenzito dançarino tentando visitar a mãe doente. começam essa roadtrip toda torta, stella sempre muito arrogante e arrumando problema, prentice cuidando delas, dotty a voz da razão. muito engraçado quando eles se dividem pra "despistar" (coisa de stella) e têm que passar na fronteira do canadá; com dotty dá tudo certo mas com stella vira uma confusão de revista corporal completa. a piada que ela faz depois, quando prentice diz que quer "leave it all behind" ahsuhus véi. única coisa ruim, mas que é claramente apelação de filme de humor, é dotty deitando na cama com o pai de prentice pelado e o pinto dele indo parar na cara dela de um jeito nada a ver. e ela caga no bidê dele kkkk no final prentice faz um discurso legal sobre o amor delas, mas a neta interrompe o casamento e tem que ser casadas às pressas por prentice quando dotty sente que vai morrer. e morre :( poxa. mas curti o filme, surpreendente, tava precisando. vi talita e eu em dotty e stella no começo, afinal... somos um casal de velhas, é isso.
ralph breaks the internet (2018)
ralph e venellope amiguinhos etc, bebendo num bar até, ok. chega uma tomada nova no negócio e é wi-fi, mas o bichinho que controla tudo passa uma fita pra ninguém entrar. só que aí uma menina tá jogando o jogo de venellope e quebra o volantinho tentando assumir o controle da personagem dela, que tava indo por um atalho novo que ralph fez (porque venellope disse que já conhecia tudo no jogo, etc e tal). e aí as crianças usam os iphones pra buscar outro na internet, mas só tem um, no ebay (que específico)... e o dono do fliperama não pode comprar porque é muito caro, então claro que ralph e venellope se metem no wi-fi pra buscarem o negócio eles mesmos. legalzinho como construíram a internet: cada pessoa tem um avatarzinho de cabeça quadrada que fica andando por aí e jogando coraçõezinhos nas coisas que dá pra curtir. nem sei como é o ebay mas quando acham o volante funciona que nem um leilão, e eles se divertindo em falar números cada vez maiores acabam comprando o negócio por $24.001,00. primeiro "clicam" num anúncio de "ganhe dinheiro jogando!" e vão pro site caindo aos pedaços do brother, e precisam pegar o carro de uma tal shank, de um jogo, pra resgatar o dinheiro. quase conseguem, venellope pilotando muito, e no fim shank os orienta a ir pra uma tal de yesss, de uma variação do youtube. aliás, MUITOS anúncios hein, trocentas marcas de sites aparecendo, mas pra yesss talvez seria caro demais trabalhar com uma plataforma real como o youtube. ralph faz (mentirosamente) um bocadão de vídeos virais pra ganhar curtidas e conseguir dinheiro, mas venellope ficou encantada com o mundo de shank e quer voltar lá, mas não tem coragem de contar pra ele. conflitos, um vírus pra estragar o jogo e trazer ela de volta trapaceiramente, destruição na internet e um apaziguamento mentiroso depois, e ralph volta pro fliperama tendo comprado o volante, enquanto venellope fica no jogo de shank, felizes. lesbian energy essa shank, hein. muito bom o movimento aleatório de arregaçar as mangas que ela faz enquanto conversa com venellope!
berenice (edgar allan poe)
não entendi nada, ainda mais com talita lendo e eu deitada com sono. berenice era uma prima do cara, antes toda iluminada e descomplicada, enérgica, enquanto ele era esquisito e indisposto. ela adoece gravemente e ele oferece pra casar com ela, por algum motivo, e claro que cria uma obsessão pelos dentes da mulher. ela morre, supostamente, mas depois vão atrás dele na biblioteca e vêem uma pá num canto e ele todo sujo, e os dentes de berenice numa caixa... sem ele ter se dado conta. e ainda tava viva, a coitada. creepy.
a streetcar named desire (1951)
blanche vai visitar a irmã stella onde ela mora, em new orleans. parece que faz tempo que elas não se vêem, algo sobre stella ter deixado a casa dos pais de um jeito meio rancoroso, "abandono". blanche era professora de inglês e aparece dizendo que teve que se afastar no meio do ano letivo por causa dos nervos dela, porque não tá bem e precisa de companhia. mais tarde revela que perdeu a propriedade da família, que precisou do dinheiro pra pagar pelos funerais e enterros dos pais e talvez outros familiares que morreram. blanche é muito teatral e mórbida, um pouco delirante, sente a morte se aproximando dela. uma senhora mexicana oferecendo flores aparece duas vezes, e ela foge dizendo "agora não", assustada. o marido de stella é stanley kowalski, marlon brando (que voz feia, aliás), um idiota nojento e violento que quebra tudo e grita com elas. mas sempre stella volta pra ele abraçando e chorando depois de dois minutos. e ainda tá grávida... ele não confia em blanche, exige que ela mostre papeis comprovando a perda da propriedade, se preocupa porque por um tal código napoleônico "tudo que pertence à esposa pertence ao marido e vice-versa". um dos amigos com quem stanley joga pôquer é mitch, o mais decente, que se aborrece com as atitudes dele e enxerga blanche como especial. começam um romancinho, mas depois de um tempo stanley descobre umas coisas dela e conta pra ele, o que estraga tudo. blanche ficou um tempo recebendo gente num hotel antes de vir pra casa deles, ganhou má-fama na cidade e tudo, mas quando confrontada ela diz que era pra se sentir viva, menos solitária, já que a juventude se esvaía. quando era jovem teve um esposo que se matou, também, depois dela ter dito que perdera o respeito por ele. gosto de como a voz dela engrossa e ela fica sombria quando fala sobre o que teve que fazer no passado, música acompanhando, parecia coisa de edgar allan poe. numa discussão stanley a agride e ela fica pior ainda nas ilusões, até que no final chamam gente de um hospício ou sei lá pra levá-la embora. a coisa do "bonde chamado desejo" é porque blanche tem que pegar ele pra chegar na casa de stella, e no final ela fala sobre a morte ser o oposto do desejo. muitos problemas de machismo e preconceitos, mas achei mais interessante do que esperava. essa coisa dos anos 50 de atuações dramáticas, o jeito de falar sulista e cantado de blanche... ela é vivien leigh, afinal, scarlett o'hara de e o vento levou. acabei pesquisando sobre pra saber mais do tal racismo que não percebi quando carol me emprestou o filme, uma década atrás, dizendo o quanto amava a história.
el abrazo de la serpiente (2015)
duas histórias: a de theodor von martius, um etnógrafo alemão que esteve na amazônia por muito tempo, e a de richard schultes, décadas mais tarde, indo atrás de uma flor sagrada orientado pelos trabalhos do outro. os dois pedem ajuda de karamakate, um indígena cujo povo foi todo dizimado, e que vive isolado. outros povos o chamam de "movedor de mundos" ou algo assim. theodor precisa dele pra chegar onde supostamente o povo dele ainda vive, pra usar a tal flor pra curar a enfermidade que contraiu. o cara já tem a companhia de outro indígena, manduca, que entende que a única chance que os indígenas têm de continuar existindo é educando os brancos, os aceitando e falando com eles. karamakate não gosta muito deles mas acaba ajudando, caçoando do branco de vez em quando. não esperava ouvir alemão nesse filme, que aliás tem muitas línguas! os três passam pela aldeia de uns amigos de theodor, que pegam a bússola dele, ao que ele reage mal (é rude com um menino e fica bravo, dizendo que se usarem ela vão perder o conhecimento que tem sobre localização espacial... mas acho que não seria tão definitivo assim, né, se é uma bússola só e nem sabem como utilizar. deve ser mais o fascínio por uma coisa curiosa, mesmo. aliás, que incrível isso de saber se orientar pelas estrelas, saber quando as águas pedem pra remar o barco, conhecer os rios e a floresta... que riqueza). passam por um lugar onde um jesuíta catequiza rigorosamente indígenas crianças (ele os proíbe de falar suas próprias línguas e dá nomes espanhóis a eles), e acabam libertando eles e fugindo. no fim a comunidade de karamakate foi corrompida, cultivam a tal planta em vez de deixá-la nascer, estão viciados em coisas de branco. então ele destrói a planta toda e abandona theodor, que aparentemente morre, e seus estudos são mandados pra alemanha por manduca. depois viram um livro, e é o que richard usa pra buscar a flor, e nessa pede ajuda de karamakate mais velho, esquecido. ele diz ter se tornado um chullachaqui, que é esse duplo que toda pessoa tem, mas é vazio e oco, sem memória. quando jovem disse a theodor que a foto que ele tinha tirado dele era seu chullachaqui. interessante isso. depois com richard chegam a parar no mesmo lugar onde o jesuíta tava, e dessa vez tá muito pior: um português louco, canibal e estuprador, comandando um bocado de seguidores indígenas num delírio coletivo. e ao longo da jornada repetida karamakate vai recobrando as lembranças, mas dessa vez leva o cara à última flor, e a prepara pra ele consumir, apesar de ter sido ameaçado de morte. diz ser essa a missão dele, e que já se encontraram antes, não só há 40 anos mas desde o começo dos tempos, como se aquela fosse uma segunda chance. única cena colorida do filme é a viagem do cara, umas visões de padrões de desenho, karamakate jovem explodindo em luz. acaba com richard acordando sozinho. achei muito bom, esse jeito de falar da questão indígena, a narração. li sobre e o diretor diz ter dado total liberdade pros indígenas participarem atrás das câmeras também, na construção da história e do jeito de contá-la, que pediram licença pra floresta e seguiram o funcionamento de lá, e que por isso correu tudo certo e não tiveram acidentes ou problemas. que bonito. quero que a casa do mato veja, quero manter comigo e rever, revisitar.
born with it (2015)
quis assistir depois de ver @shimabukkake compartilhando que teria exibição desse filme seguido de discussão com uma etnóloga negra e okinawana. perdi a conexão de internet e não consegui ver a conversa toda quando voltou, porque tiraram do ar, mas aparentemente vão colocar de novo na próxima semana. o filme é um curta, na verdade, de 17 minutos, e é sobre esse menino de 10 anos chamado keisuke que entra numa escola nova em algum lugar no interior do japão. a mãe é japonesa mas o pai era negro (ele diz que morreu), e quando ele chega se apresentando pra classe as crianças se surpreendem por ele falar japonês. "nihonjin dakara desu", né, mas o preconceito é tanto que chegam a espalhar que ele tem aids e por isso tem a pele escura. um menininho dá atenção pra ele e brincam juntos, mas keisuke se machuca; depois eles acham sangue no outro, bem após ele ter dito que aids só passava pelo sangue e que ele não precisava usar máscara. o pior é que eles vão pesquisar na internet sobre a doença e só tem foto de pessoas negras, africanas, onde a aids dizimou feio. keisuke foge, conversa com a mãe mas acha que ela não entende por ser branca, vão ao médico pra conferir os exames dele. a mãe conta o que o pai costumava dizer e o orienta a lutar as próprias batalhas, e termina com ele voltando pra escola e indo encarar uma classe de alunos chocados na janela. uma representação forte essa, da infância, né... o próprio médico diz que no interior era mais punk (antes eles moravam em tóquio). acho que devia ter uma conversa partindo dos representantes da escola, ainda mais com uma acusação tão grave quando a que fizeram. o diretor do curta é um americano de pais nigerianos que mora no japão há muitos anos, e a discussão tinha um cantor-compositor negro-japonês e um autor e ativista, além da etnóloga. o cantor falou que era muito comum as pessoas se surpreenderem ao vê-lo e que ele não se importava, porque sempre usava isso como oportunidade de conscientização. massa. dois fenótipos fortes juntos, muito marcante, afinal. muito importante de se trabalhar, também.
a primeira vez de natan & lino (henri b. neto)
ok, não gosto mesmo de ya. mas nesse vi muito mais defeitos que em pétala, por exemplo. a história é contada em formato de diário, com lino escrevendo, e marquei várias palavras que não tinham nada a ver, eram muito literárias ou sei lá, ou então uns tempos verbais estranhos (tipo uma hora que ele fala sobre ter ficado em pé o dia inteiro "no sebo que trabalhava" quando podia ser muito bem "trabalho", já que tinha acontecido dias antes). uns personagens bem tumblrzinho, tipo a amiga com um quarto cheio de suculentas e pallets e fridas kahlos e livros de harry potter, ou então o próprio lino sendo um grande leitor ou parando a pegação pra ir escrever no diário. e aliás, essa entrada foi tão longa que seria totalmente irreal ele ter se ausentado por todo o tempo que levaria pra escrever aquilo. não sei, se fosse outra a conversa dele com o próprio diário eu talvez teria engolido melhor. se ele não contasse o que aconteceu reproduzindo os diálogos com travessão e tudo... mas enfim, a questão de que tudo se resolve na conversa e que intimidade é mais importante que atração ou sei lá em qualquer namoro, foi bom. ah, véi, a amiga era assexual birromântica e os meninos eram alossexuais, e nem sei o que é isso (pesquisei, é o oposto de assexual). natan pan, lino bi. óia só. ainda nos desagrados, essa coisa de que a primeira noite ia definir todo o resto do relacionamento, umas coisas de referenciação que ficam meio capengas ("meu namorado" quando ficaria melhor dizer o nome, "a plataforma de streaming" pra netflix, natan lembrar bem da mãe e sentir tanta falta sendo que tinha dito que tinha 3 anos na foto de meses antes dela morrer, "imputar discriminações para toda a comunidade", referências de bruxa má do oeste e meg cabot, "apoiando o queixo no punho de suas mãos", ele não gosta de whatsapp porque odeia as "etiquetas sociais que o aplicativo de mensagens meio que criou no inconsciente geral"... aiai. o autor é youtuber e tem uma série com esses personagens. ok, não é pra mim.
the deep (rivers solomon with daveed diggs, william hutson & jonathan snipes)
mesmo já sabendo o que esperar dessa novela por ter visto comentários de outros leitores, a força que ela tem foi igualmente avassaladora. é sobre esse povo chamado wajinru, originado das mulheres africanas grávidas jogadas dos navios que transportavam escravos para as américas. assim como dentro do útero, seus bebês nasceram com a capacidade de respirar debaixo d'água, e com o cuidado de grandes baleias eles foram crescendo nas profundezas do oceano, protegidos da superfície. toda a história de como surgiram é tão cheia de dor e trauma que se estabelece apenas um deles para recordar todo o passado, de modo que os outros possam viver sem (literalmente) serem afundados pelo sofrimento. fora o "historiador", os demais wajinru têm uma memória de curto prazo, apesar de manterem no corpo as sensações e instintos trazidos pelas experiências. yetu é uma historiadora e a personagem principal, que há vinte anos se vê cada vez mais consumida pelo peso do passado e do presente, esvaziada de si mesma para dar lugar a toda a sua história. depois de várias situações de quase-morte (algumas autoinflingidas), yetu retorna a seu povo para a cerimônia anual em que o responsável pelas memórias as transmite a todos e os guia através delas. mas assim que yetu se esvazia, assim que sua mente recobra o silêncio e a calma tão inalcancáveis, ela foge numa tentativa desesperada de se salvar. por três semanas yetu se recupera das feridas físicas e mentais numa pequena piscina na superfície, desconectada do oceano, onde conhece alguns humanos ("duas-pernas"). por causa dos resíduos do passado que permanecem nela, yetu sabe reconhecer e falar sua língua, e assim troca longas conversas com oori, uma pescadora marcada pela perda de todo o seu povo. através dela yetu é levada a repensar a importância de conhecer sua história, de preservar memórias, e por fim retorna aos wajinru, que estão à beira de provocar uma tempestade capaz de engolir o mundo. mas dessa vez yetu não remove as lembranças de cada wajinru, mas os ensina a conviver com elas, reconhecendo a necessidade de se apoiarem para que consigam viver. é linda a maneira como esse livro trata do trauma intergeracional da áfrica diaspórica, com tantas analogias sensíveis, tanta potência. incrível como a dor e a ira dos wajinru têm a capacidade de impactar o mundo todo, como yetu sente na pele essa energia devastadora, como oori recorda como se respira debaixo d'água através da lembrança que yetu a transmite, como ela afunda nas profundezas dessa vez por um convite, como isso cria algo novo. a tortura de yetu em se sentir fraca como historiadora, o esgotamento de carregar esse fardo... e a solução em se dividir tudo, a reinterpretação através de diferentes perspectivas! mais massa ainda porque isso foi escrito por rivers solomon, mas veio inspirado pela música desse grupo de rap experimental chamado clipping., que antes já tinha sido inspirado pela música eletrônica de drexcyia, como um jogo de telefone sem fio em que as coisas se recriam e se enriquecem. muito especial a maneira como os historiadores do passado se referem a si mesmos como "nós", essa percepção de coletividade e unidade que clipping. também usa. e os wajinru têm os dois sexos! podem escolher entre apresentar um, ambos ou nenhum. o próprio relacionamento de yetu com oori, basha e ephras... todo mundo tem que ler isso.


