terça-feira, 30 de junho de 2020

lidos (5) e assistidos (8) em junho

morella (edgar allan poe)
o cara que narra, claro, e fala dessa mulher com quem se casou. nada de amor ou paixão, mas a erudição dela o impressionava. ela tinha um fascínio pelo místico, literatura alemã antiga e sei lá mais o quê, uns temas de identidade. e o cara passa a odiá-la, fica na esperança de que ela morra, e quando finalmente tá pra morrer ela diz que vai viver através da criança deles. e essa criança nasce assim que ela morre, e cresce prematuramente com uma mente afiada que nem a mãe, uma maturidade e seriedade que não combinam com a idade, e o cara nunca dá nome pra menina. até que ele vai batizá-la e pensa em mil nomes mas o que sai da boca é "morella", e assim ela morre. uns negócios meio perturbadores parecendo possessão. gostei, curto esse, mas teve esse thriller e horror massa.

elektra (2005)
claro que iam usar algum misticismo oriental pra reviver elektra e ensinar umas lutas a ela. coisa de não precisar ver pra enxergar, se mover mais rápido que a luz e umas baboseiras parecidas. mas o líder manda ela embora, e então ela começa a trabalhar como assassina de aluguel, porque "é nisso que eu sou boa". mandam ela pra uma casona numa ilha e lá ela conhece uma menina de 13 anos, abby, e o pai dela, mark. logo em seguida recebe os detalhes do trabalho da vez: matar os dois. claro que ela não consegue e entra num negócio de ajudá-los a fugir, e tem os caras do mal que caminham esquisito e sorriem que nem bestas. um deles tem tatuagens de bichos e os bichos saem dele pra vigiar ou atacar os outros. outra é uma mulher que tira a vida das coisas, inimiga da greta thunberg, e ela beija (!) elektra pra imobilizá-la. uma coisa de elektra se ver na menina abby, que na real tá sendo perseguida porque é um prodígio e o lado ruim a quer, coisa das mães terem sido morta quando eram pequenas. uma luta besta num labirinto, o cara ruim jogado no poço e elektra revivendo abby. mas vai embora no final porque tem que ter a tensão de "vamos nos encontrar de novo". muuuuito ruim, hein. cansada desse tipo de filme há muito tempo.

mad max 2: the road warrior (1982)
muitíssimo melhor que o primeiro. as coisas "ruins" é engraçado, dá pra ver que é o que era possível fazer na época. tem aquele ator com a cara compridona que faz wo die grüne ameisen trüamen, ele tem um veículozinho que voa. max passa por uma armadilha dele e o acorrenta, leva ele junto. max tem um cachorro; tem uma hora que come uma lata de comida patêzuda e dá o resto pro cão, e o cara tenta pegar os restos. foi acorrentado porque dizia que tinha uma fortaleza de petróleo ali por perto, e max chega lá resgatando um homem que era um deles. umas pessoas vestidas de branco, loiras... do outro lado tem os doidos da estrada, um de moicano e sobrancelha feita com um loirinho na garupa da moto, bem bestão. estupram a mulher que tava com o cara e a matam. o líderzão desses, mascarado musculoso seminu, faz uma oferta de deixarem eles em paz se cederem a fortaleza. tem uma criança dentre os "bons" que é toda guerreira, usa um bumerangue assassino (mata o loirinho do cara feio!), só responde grunhindo. muito videogame esses personagens. dão gasolina pra max ir buscar um caminhão que ele diz ter visto na estrada e que daria pra eles levarem a bomba de gasolina que têm, e volta todo estrupiado mas consegue. ia se mandar mas o atacam de novo, matam o cachorro, o carro explode. volta rastejando pra fortaleza e se junta, quer pilotar o caminhão ainda, pra despistar enquanto os outros se espalham e vão correndo. querem ir pra um lugar que acham que é um paraíso, ao norte. bem boa a perseguição e luta na estrada, vi bastante coisa do mad max de 2015 já aqui. no fim tinha areia dentro, só, e o narrador era a criança fãzinha dele. o da cara comprida não morre nunca, o de moicano fica numa coleira de corrente de castigo... gosto dos carros que são só esqueletos.

speak (2004)
kristen stewart com 14 anos de idade sendo personagem principal, melinda. já tinha assistido mas nunca fiz review, lembrava bem mas chorei igual. ela tinha três amigas mas depois de chamar a polícia numa festa durante as férias se dissolveram. fez isso porque um garoto mais velho fica com ela e a estupra no carro dele. o pior é que uma das amigas tá namorando ele agora. ela fala francês e ajuda uma estudante intercambista, tá se preparando pra ir estudar na frança. as outras não aparecem tanto, mas uma chega a ser ok com ela na aula de artes. o professor é até legal, dá um tema pra cada aluno trabalhar ao longo do semestre, ir desenvolvendo arte sobre. o de melinda é "árvore". tem uma cena boa dele revoltado com a escola por cortarem o orçamento pras artes e o terem repreendido por dar muitas notas altas. loirinha tagarela no ônibus que quer ser popular e dá um fora de amizade em melinda por ela ser muito deprimida; professora de inglês de cabelo desgrenhado e toda doida que melinda vai meio que virando; professor de história fascista do caralho, "mr. neck" ainda por cima. fica implicando com melinda, pede uma redação pra ela recuperar as notas baixas que ele tá dando pra ela mas a reprime quando em vez de apresentar oralmente ela pede pro colega falar sobre o direito de não fazer isso e distribui cópias pra sala. sobre as sufragistas... a legenda era péssima, toda hora errando coisa, deixaram "sufrajettes" véi. ela constrói umas artes legais, tipo um bicho com os ossos do peru de ação de graças rodeado por garfos de plástico, uma tela com uma árvore atingida por um raio. no final mostra pro professor, que vai sair da escola, a salinha escondida que apropriou e encheu de coisa, várias árvores. ele chora! eventualmente ela contou pra amiga sobre o estuprador, ela não acredita de início, o cara a confronta no quartinho e ela o machuca com spray de pimenta ou sei lá. várias meninas abrem a porta e o pressionam. termina com ela finalmente falando pra mãe o que aconteceu. pais meio bestinhas os dela, a mãe nem se liga nela. gosto do filme. parece que é independente, adaptação de livro.

pétala (olívia pilar)
duas meninas bissexuais que estão juntas há 2 anos, sem serem exclusivas nem nomear propriamente o que são. bruna se prepara pra dizer à pétala que quer dar um passo adiante, e quer se desculpar por definir as coisas no começo (na única vez que pétala viu os pais dela, bruna a apresentou como uma amiga). pétala diz que por ter ficado em silêncio consentiu, também decidiu, e que ela não devia se responsabilizar tanto pelas coisas. se encontram num café de esquina em belo horizonte, rua movimentada, lugar onde se beijaram pela primeira vez. pétala tem uma situação mais delicada com os pais, bruna conversa com o irmão mais novo dj... a primeira faz arquitetura e a outra química, pétala muito segura de si e bruna mais incerta e receosa, se segurando no que conhece, pedindo o mesmo café sempre. conto curtinho, vai intercalando a cena no café e as lembranças de bruna. não sou muito de romance em livro mesmo, viu, mas não foi ruim; a escrita é boa. representatividade negra e lgbt.

cloudburst (2011)
não esperava que fosse ser tão levinho e engraçado! um casal de lésbicas de uns 80 anos, cabelinhos brancos e tudo: uma gordinha cega (dotty) e a outra butchzinha marrenta e pervertida (stella). primeiro dotty cai da cama enquanto stella brinca provocando ela com um vibrador, e volta do hospital com uma prescrição de repouso por várias semanas. a neta de dotty aparece pedindo pra ela assinar um papel, dizendo que é tipo um atestado de que stella não tinha sido responsável por machucá-la, mas no final a gente fica sabendo que era um negócio passando as coisas pro nome dela... a neta é tão besta que nem admite pra si mesma que a avó tem um relacionamento lésbico, apesar delas estarem juntas há 31 anos já. stella briga com ela mas acaba que levam dotty pra um asilo, do qual stella a resgata muito artimanhosamente, se passando por paciente e tudo. descobrem de alguma forma que a neta fez aqueles anúncios de procurados pra elas, então decidem ir pro canadá pra se casarem, e no caminho dão carona pra um tal de prentice, jovenzito dançarino tentando visitar a mãe doente. começam essa roadtrip toda torta, stella sempre muito arrogante e arrumando problema, prentice cuidando delas, dotty a voz da razão. muito engraçado quando eles se dividem pra "despistar" (coisa de stella) e têm que passar na fronteira do canadá; com dotty dá tudo certo mas com stella vira uma confusão de revista corporal completa. a piada que ela faz depois, quando prentice diz que quer "leave it all behind" ahsuhus véi. única coisa ruim, mas que é claramente apelação de filme de humor, é dotty deitando na cama com o pai de prentice pelado e o pinto dele indo parar na cara dela de um jeito nada a ver. e ela caga no bidê dele kkkk no final prentice faz um discurso legal sobre o amor delas, mas a neta interrompe o casamento e tem que ser casadas às pressas por prentice quando dotty sente que vai morrer. e morre :( poxa. mas curti o filme, surpreendente, tava precisando. vi talita e eu em dotty e stella no começo, afinal... somos um casal de velhas, é isso.

ralph breaks the internet (2018)
ralph e venellope amiguinhos etc, bebendo num bar até, ok. chega uma tomada nova no negócio e é wi-fi, mas o bichinho que controla tudo passa uma fita pra ninguém entrar. só que aí uma menina tá jogando o jogo de venellope e quebra o volantinho tentando assumir o controle da personagem dela, que tava indo por um atalho novo que ralph fez (porque venellope disse que já conhecia tudo no jogo, etc e tal). e aí as crianças usam os iphones pra buscar outro na internet, mas só tem um, no ebay (que específico)... e o dono do fliperama não pode comprar porque é muito caro, então claro que ralph e venellope se metem no wi-fi pra buscarem o negócio eles mesmos. legalzinho como construíram a internet: cada pessoa tem um avatarzinho de cabeça quadrada que fica andando por aí e jogando coraçõezinhos nas coisas que dá pra curtir. nem sei como é o ebay mas quando acham o volante funciona que nem um leilão, e eles se divertindo em falar números cada vez maiores acabam comprando o negócio por $24.001,00. primeiro "clicam" num anúncio de "ganhe dinheiro jogando!" e vão pro site caindo aos pedaços do brother, e precisam pegar o carro de uma tal shank, de um jogo, pra resgatar o dinheiro. quase conseguem, venellope pilotando muito, e no fim shank os orienta a ir pra uma tal de yesss, de uma variação do youtube. aliás, MUITOS anúncios hein, trocentas marcas de sites aparecendo, mas pra yesss talvez seria caro demais trabalhar com uma plataforma real como o youtube. ralph faz (mentirosamente) um bocadão de vídeos virais pra ganhar curtidas e conseguir dinheiro, mas venellope ficou encantada com o mundo de shank e quer voltar lá, mas não tem coragem de contar pra ele. conflitos, um vírus pra estragar o jogo e trazer ela de volta trapaceiramente, destruição na internet e um apaziguamento mentiroso depois, e ralph volta pro fliperama tendo comprado o volante, enquanto venellope fica no jogo de shank, felizes. lesbian energy essa shank, hein. muito bom o movimento aleatório de arregaçar as mangas que ela faz enquanto conversa com venellope!

berenice (edgar allan poe)
não entendi nada, ainda mais com talita lendo e eu deitada com sono. berenice era uma prima do cara, antes toda iluminada e descomplicada, enérgica, enquanto ele era esquisito e indisposto. ela adoece gravemente e ele oferece pra casar com ela, por algum motivo, e claro que cria uma obsessão pelos dentes da mulher. ela morre, supostamente, mas depois vão atrás dele na biblioteca e vêem uma pá num canto e ele todo sujo, e os dentes de berenice numa caixa... sem ele ter se dado conta. e ainda tava viva, a coitada. creepy.

a streetcar named desire (1951)
blanche vai visitar a irmã stella onde ela mora, em new orleans. parece que faz tempo que elas não se vêem, algo sobre stella ter deixado a casa dos pais de um jeito meio rancoroso, "abandono". blanche era professora de inglês e aparece dizendo que teve que se afastar no meio do ano letivo por causa dos nervos dela, porque não tá bem e precisa de companhia. mais tarde revela que perdeu a propriedade da família, que precisou do dinheiro pra pagar pelos funerais e enterros dos pais e talvez outros familiares que morreram. blanche é muito teatral e mórbida, um pouco delirante, sente a morte se aproximando dela. uma senhora mexicana oferecendo flores aparece duas vezes, e ela foge dizendo "agora não", assustada. o marido de stella é stanley kowalski, marlon brando (que voz feia, aliás), um idiota nojento e violento que quebra tudo e grita com elas. mas sempre stella volta pra ele abraçando e chorando depois de dois minutos. e ainda tá grávida... ele não confia em blanche, exige que ela mostre papeis comprovando a perda da propriedade, se preocupa porque por um tal código napoleônico "tudo que pertence à esposa pertence ao marido e vice-versa". um dos amigos com quem stanley joga pôquer é mitch, o mais decente, que se aborrece com as atitudes dele e enxerga blanche como especial. começam um romancinho, mas depois de um tempo stanley descobre umas coisas dela e conta pra ele, o que estraga tudo. blanche ficou um tempo recebendo gente num hotel antes de vir pra casa deles, ganhou má-fama na cidade e tudo, mas quando confrontada ela diz que era pra se sentir viva, menos solitária, já que a juventude se esvaía. quando era jovem teve um esposo que se matou, também, depois dela ter dito que perdera o respeito por ele. gosto de como a voz dela engrossa e ela fica sombria quando fala sobre o que teve que fazer no passado, música acompanhando, parecia coisa de edgar allan poe. numa discussão stanley a agride e ela fica pior ainda nas ilusões, até que no final chamam gente de um hospício ou sei lá pra levá-la embora. a coisa do "bonde chamado desejo" é porque blanche tem que pegar ele pra chegar na casa de stella, e no final ela fala sobre a morte ser o oposto do desejo. muitos problemas de machismo e preconceitos, mas achei mais interessante do que esperava. essa coisa dos anos 50 de atuações dramáticas, o jeito de falar sulista e cantado de blanche... ela é vivien leigh, afinal, scarlett o'hara de e o vento levou. acabei pesquisando sobre pra saber mais do tal racismo que não percebi quando carol me emprestou o filme, uma década atrás, dizendo o quanto amava a história.

el abrazo de la serpiente (2015)
duas histórias: a de theodor von martius, um etnógrafo alemão que esteve na amazônia por muito tempo, e a de richard schultes, décadas mais tarde, indo atrás de uma flor sagrada orientado pelos trabalhos do outro. os dois pedem ajuda de karamakate, um indígena cujo povo foi todo dizimado, e que vive isolado. outros povos o chamam de "movedor de mundos" ou algo assim. theodor precisa dele pra chegar onde supostamente o povo dele ainda vive, pra usar a tal flor pra curar a enfermidade que contraiu. o cara já tem a companhia de outro indígena, manduca, que entende que a única chance que os indígenas têm de continuar existindo é educando os brancos, os aceitando e falando com eles. karamakate não gosta muito deles mas acaba ajudando, caçoando do branco de vez em quando. não esperava ouvir alemão nesse filme, que aliás tem muitas línguas! os três passam pela aldeia de uns amigos de theodor, que pegam a bússola dele, ao que ele reage mal (é rude com um menino e fica bravo, dizendo que se usarem ela vão perder o conhecimento que tem sobre localização espacial... mas acho que não seria tão definitivo assim, né, se é uma bússola só e nem sabem como utilizar. deve ser mais o fascínio por uma coisa curiosa, mesmo. aliás, que incrível isso de saber se orientar pelas estrelas, saber quando as águas pedem pra remar o barco, conhecer os rios e a floresta... que riqueza). passam por um lugar onde um jesuíta catequiza rigorosamente indígenas crianças (ele os proíbe de falar suas próprias línguas e dá nomes espanhóis a eles), e acabam libertando eles e fugindo. no fim a comunidade de karamakate foi corrompida, cultivam a tal planta em vez de deixá-la nascer, estão viciados em coisas de branco. então ele destrói a planta toda e abandona theodor, que aparentemente morre, e seus estudos são mandados pra alemanha por manduca. depois viram um livro, e é o que richard usa pra buscar a flor, e nessa pede ajuda de karamakate mais velho, esquecido. ele diz ter se tornado um chullachaqui, que é esse duplo que toda pessoa tem, mas é vazio e oco, sem memória. quando jovem disse a theodor que a foto que ele tinha tirado dele era seu chullachaqui. interessante isso. depois com richard chegam a parar no mesmo lugar onde o jesuíta tava, e dessa vez tá muito pior: um português louco, canibal e estuprador, comandando um bocado de seguidores indígenas num delírio coletivo. e ao longo da jornada repetida karamakate vai recobrando as lembranças, mas dessa vez leva o cara à última flor, e a prepara pra ele consumir, apesar de ter sido ameaçado de morte. diz ser essa a missão dele, e que já se encontraram antes, não só há 40 anos mas desde o começo dos tempos, como se aquela fosse uma segunda chance. única cena colorida do filme é a viagem do cara, umas visões de padrões de desenho, karamakate jovem explodindo em luz. acaba com richard acordando sozinho. achei muito bom, esse jeito de falar da questão indígena, a narração. li sobre e o diretor diz ter dado total liberdade pros indígenas participarem atrás das câmeras também, na construção da história e do jeito de contá-la, que pediram licença pra floresta e seguiram o funcionamento de lá, e que por isso correu tudo certo e não tiveram acidentes ou problemas. que bonito. quero que a casa do mato veja, quero manter comigo e rever, revisitar.

born with it (2015)
quis assistir depois de ver @shimabukkake compartilhando que teria exibição desse filme seguido de discussão com uma etnóloga negra e okinawana. perdi a conexão de internet e não consegui ver a conversa toda quando voltou, porque tiraram do ar, mas aparentemente vão colocar de novo na próxima semana. o filme é um curta, na verdade, de 17 minutos, e é sobre esse menino de 10 anos chamado keisuke que entra numa escola nova em algum lugar no interior do japão. a mãe é japonesa mas o pai era negro (ele diz que morreu), e quando ele chega se apresentando pra classe as crianças se surpreendem por ele falar japonês. "nihonjin dakara desu", né, mas o preconceito é tanto que chegam a espalhar que ele tem aids e por isso tem a pele escura. um menininho dá atenção pra ele e brincam juntos, mas keisuke se machuca; depois eles acham sangue no outro, bem após ele ter dito que aids só passava pelo sangue e que ele não precisava usar máscara. o pior é que eles vão pesquisar na internet sobre a doença e só tem foto de pessoas negras, africanas, onde a aids dizimou feio. keisuke foge, conversa com a mãe mas acha que ela não entende por ser branca, vão ao médico pra conferir os exames dele. a mãe conta o que o pai costumava dizer e o orienta a lutar as próprias batalhas, e termina com ele voltando pra escola e indo encarar uma classe de alunos chocados na janela. uma representação forte essa, da infância, né... o próprio médico diz que no interior era mais punk (antes eles moravam em tóquio). acho que devia ter uma conversa partindo dos representantes da escola, ainda mais com uma acusação tão grave quando a que fizeram. o diretor do curta é um americano de pais nigerianos que mora no japão há muitos anos, e a discussão tinha um cantor-compositor negro-japonês e um autor e ativista, além da etnóloga. o cantor falou que era muito comum as pessoas se surpreenderem ao vê-lo e que ele não se importava, porque sempre usava isso como oportunidade de conscientização. massa. dois fenótipos fortes juntos, muito marcante, afinal. muito importante de se trabalhar, também.

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a primeira vez de natan & lino (henri b. neto)
ok, não gosto mesmo de ya. mas nesse vi muito mais defeitos que em pétala, por exemplo. a história é contada em formato de diário, com lino escrevendo, e marquei várias palavras que não tinham nada a ver, eram muito literárias ou sei lá, ou então uns tempos verbais estranhos (tipo uma hora que ele fala sobre ter ficado em pé o dia inteiro "no sebo que trabalhava" quando podia ser muito bem "trabalho", já que tinha acontecido dias antes). uns personagens bem tumblrzinho, tipo a amiga com um quarto cheio de suculentas e pallets e fridas kahlos e livros de harry potter, ou então o próprio lino sendo um grande leitor ou parando a pegação pra ir escrever no diário. e aliás, essa entrada foi tão longa que seria totalmente irreal ele ter se ausentado por todo o tempo que levaria pra escrever aquilo. não sei, se fosse outra a conversa dele com o próprio diário eu talvez teria engolido melhor. se ele não contasse o que aconteceu reproduzindo os diálogos com travessão e tudo... mas enfim, a questão de que tudo se resolve na conversa e que intimidade é mais importante que atração ou sei lá em qualquer namoro, foi bom. ah, véi, a amiga era assexual birromântica e os meninos eram alossexuais, e nem sei o que é isso (pesquisei, é o oposto de assexual). natan pan, lino bi. óia só. ainda nos desagrados, essa coisa de que a primeira noite ia definir todo o resto do relacionamento, umas coisas de referenciação que ficam meio capengas ("meu namorado" quando ficaria melhor dizer o nome, "a plataforma de streaming" pra netflix, natan lembrar bem da mãe e sentir tanta falta sendo que tinha dito que tinha 3 anos na foto de meses antes dela morrer, "imputar discriminações para toda a comunidade", referências de bruxa má do oeste e meg cabot, "apoiando o queixo no punho de suas mãos", ele não gosta de whatsapp porque odeia as "etiquetas sociais que o aplicativo de mensagens meio que criou no inconsciente geral"... aiai. o autor é youtuber e tem uma série com esses personagens. ok, não é pra mim.

the deep (rivers solomon with daveed diggs, william hutson & jonathan snipes)
mesmo já sabendo o que esperar dessa novela por ter visto comentários de outros leitores, a força que ela tem foi igualmente avassaladora. é sobre esse povo chamado wajinru, originado das mulheres africanas grávidas jogadas dos navios que transportavam escravos para as américas. assim como dentro do útero, seus bebês nasceram com a capacidade de respirar debaixo d'água, e com o cuidado de grandes baleias eles foram crescendo nas profundezas do oceano, protegidos da superfície. toda a história de como surgiram é tão cheia de dor e trauma que se estabelece apenas um deles para recordar todo o passado, de modo que os outros possam viver sem (literalmente) serem afundados pelo sofrimento. fora o "historiador", os demais wajinru têm uma memória de curto prazo, apesar de manterem no corpo as sensações e instintos trazidos pelas experiências. yetu é uma historiadora e a personagem principal, que há vinte anos se vê cada vez mais consumida pelo peso do passado e do presente, esvaziada de si mesma para dar lugar a toda a sua história. depois de várias situações de quase-morte (algumas autoinflingidas), yetu retorna a seu povo para a cerimônia anual em que o responsável pelas memórias as transmite a todos e os guia através delas. mas assim que yetu se esvazia, assim que sua mente recobra o silêncio e a calma tão inalcancáveis, ela foge numa tentativa desesperada de se salvar. por três semanas yetu se recupera das feridas físicas e mentais numa pequena piscina na superfície, desconectada do oceano, onde conhece alguns humanos ("duas-pernas"). por causa dos resíduos do passado que permanecem nela, yetu sabe reconhecer e falar sua língua, e assim troca longas conversas com oori, uma pescadora marcada pela perda de todo o seu povo. através dela yetu é levada a repensar a importância de conhecer sua história, de preservar memórias, e por fim retorna aos wajinru, que estão à beira de provocar uma tempestade capaz de engolir o mundo. mas dessa vez yetu não remove as lembranças de cada wajinru, mas os ensina a conviver com elas, reconhecendo a necessidade de se apoiarem para que consigam viver. é linda a maneira como esse livro trata do trauma intergeracional da áfrica diaspórica, com tantas analogias sensíveis, tanta potência. incrível como a dor e a ira dos wajinru têm a capacidade de impactar o mundo todo, como yetu sente na pele essa energia devastadora, como oori recorda como se respira debaixo d'água através da lembrança que yetu a transmite, como ela afunda nas profundezas dessa vez por um convite, como isso cria algo novo. a tortura de yetu em se sentir fraca como historiadora, o esgotamento de carregar esse fardo... e a solução em se dividir tudo, a reinterpretação através de diferentes perspectivas! mais massa ainda porque isso foi escrito por rivers solomon, mas veio inspirado pela música desse grupo de rap experimental chamado clipping., que antes já tinha sido inspirado pela música eletrônica de drexcyia, como um jogo de telefone sem fio em que as coisas se recriam e se enriquecem. muito especial a maneira como os historiadores do passado se referem a si mesmos como "nós", essa percepção de coletividade e unidade que clipping. também usa. e os wajinru têm os dois sexos! podem escolher entre apresentar um, ambos ou nenhum. o próprio relacionamento de yetu com oori, basha e ephras... todo mundo tem que ler isso.

domingo, 31 de maio de 2020

lidos (6) e assistidos (6) em maio

mc jess (2018)
o melhor do festival. mc jess é jéssica, que trabalha vendendo fones de ouvido no trem e mora na favela. já começa com jess recebendo sexo oral de uma menina que não dá pra saber se é namorada real, ainda mais porque ela diz que vai precisar ficar um tempo quieta porque "tão começando a reparar". jess visita os pais no aniversário da mãe e almoçam juntos, a irmãzinha contando de um exorcismo que o pai fez e ela foi junto. questão de minutos pro pai jogar na cara de jess que ela não estuda, só quer saber de fazer música e não trabalhar. massa como passa pra ela contando pra paquerinha sobre o almoço, terminando a história da discussão. a menina incentiva ela a ir num evento de slam que ela viu no facebook (legal isso de mostrar algo que viu e lembrou dela, bem real) e ela vai, fala de ser sapatão, de evangelho, ser negra. a poesia termina com ela encarando a câmera, e passa pro formato documentário dela falando o que aquilo significa pra ela. muito bom o que ela diz, que o jovem que escreve passou por muitas escolhas até chegar lá, negando o crime, as drogas, sobrevivendo. a narrativa de jess misturava mulheres falando sobre escrever e recitar em slam, show demais. gostei de como é a filmagem também, essas coisas cotidianas tipo ela botando miojo pra ferver. a poesia que jess já faz chamando as pessoas pra comprar o que ela vende... fiquei pensando sobre como esses trabalhadores informais tão nessa pandemia. foda.

para costurar folhas secas (2017)
duas mulheres negras, aparentemente namoradas. a mais alta entrega um dvd pra outra e é pariah! surpresa. de mãos dadas rodando e filmando, "você é a mulher mais linda que eu já vi" e a outra "eu sei disso!", e apesar de parecer forçado não achei ruim. elas caminham pela cidade, acho que são paulo, e perto do fim se beijam perto de luedji luna tocando no meio de uma caçadona. nessa hora nalu e mari se amaram. são abordadas por um cara trans vestido que nem evangélico e segurando uma bíblia com um arco-íris na capa, e fala extasiado umas palavras poéticas. se despedem onde começou, algo parecendo uma estação, e já tão sérias e tristes. a que recebeu o filme joga ele numa lixeira quando vai embora (não deixei de pensar "poxa vida"). sinto que não captei tudo tão bem, por causa de atenção mesmo, mas dá pra assistir no youtube.

o enterro prematuro (edgar allan poe)
esse conto foi diferente. o narrador não começou falando de si mesmo, e sim desse assunto de enterro de gente que na verdade tá viva. deu vários exemplos conhecidos, que não sei se são reais, tipo um de uma mulher que foi enterrada e o ex resgatou porque ele foi abrir o caixão pra pegar o cabelo dela e ela despertou. até que chega no relato do próprio narrador, que começa com ele falando que tinha catalepsia, uma doença em que a pessoa às vezes cai numa parálise dos músculos que pode durar muitas horas. segundo quem tá narrando, pode demorar até dias pra pessoa voltar ao normal, e a preocupação dele era ter um episódio longe da família e dos amigos, que são as pessoas que sabem da condição dele, e ser dado como morto e enterrado antes da hora. ele se preocupa muito com isso e fica meio obcecado, mandando reformar o mausoléu da família pra ser possível de abrir de dentro, botando uma corda dentro do caixão que dá num sino do lado de fora, usando um caixão confortável, abastecendo o negócio de água e comida, deixando chegar ar e luz... doideira, claro, e aí acontece dele entrar em estado cataléptico e despertar num lugar que não é a cova que ele preparou pra si mesmo. ele começa a ficar desesperado mas logo ouve uma voz chamando ele e alguém tocando seu braço, e no fim ele só tava em alguma caverna onde tinha chegado numa escalada com amigos. depois disso ele se livra do fascínio com a morte e deixa de pensar tanto sobre esse medo que ele diz ser, indiscutivelmente, o maior de todos os possíveis (nada a ver isso aí), e acaba que essas apreensões dele "haviam sido menos a consequência do que a causa" da doença dele, e o cara se cura. como assim um final "feliz"? ok né, inesperado.

o encontro marcado (edgar allan poe)
achei que começou bem, um cenário diferente. um cara numa gôndola nas águas de veneza, que tavam completamente negras por causa da escuridão da noite. do nada um grito e luzes de tochas, gente indo ver, e o que aconteceu foi que uma criança caiu de uma janela pro rio. a mãe tá na beira do canal parecendo uma estátua, pálida e com um semblante sólido, como descreve o narrador. ela é uma marquesa muito respeitada e admirada na itália. um cara mergulha e salva a criança, levando-a à mulher, e alguém pega logo e leva ela pra dentro. a mulher recobra a cor e diz a ele "venceste — uma hora após o raiar do dia — encontrar-nos-emos — que seja!"... o narrador oferece uma carona pro cara, todo encharcado, porque já se conheciam, e ele convida o outro a visitá-lo em sua casa cedíssimo no próximo dia. ele vai e descreve o monte de coisas que o amigo tem na casa, muitas pinturas e vasos e esculturas, vitrais nas janelas, mil estímulos visuais, e mesmo assim nada conseguia prender o olhar. o rosto desse cara também é descrito assim, olhos cativantes, cabelos pretos e maxilar divino, mas "não exibia qualquer expressão decididamente determinante a ficar gravada na memória; uma fisionomia vista e instantaneamente esquecida — mas esquecida com um desejo vago e incessante de trazer de volta à lembrança". o cara-narrador descobre um poema que o cara-amigo tinha escrito, falando de como uma mulher era antes sua vida e agora ele vivia como que num sonho, sem propósito, e no fim ele (o amigo) morre assim que o dia nasce com a taça de veneno que tomou. em seguida a notícia de que a marquesa também morreu, e o encontro marcado era entre esses dois, então, romeu e julieta repaginado. essa atmosfera de sonho, bem assim de ver coisas fascinantes mas nunca segurar a atenção numa só, achei massa. só não entendi o papel da criança nisso tudo.

silêncio: uma fábula (edgar allan poe)
procurei uma leitura de algum dos contos que ainda não lemos e essa foi a primeira que tava igual à tradução do livro que eu tenho. um demônio contando a história pra um cara, que diz achar ela uma das mais bonitas ou algo assim. o demônio descreve um lugar inóspito, um rio cor de açafrão cercado por um deserto, nenúfares na água, uma floresta sombria, bem essa atmosfera tensa (e ainda teve essa música do vídeo, né). uma pedra onde se lê "desolação", um cara vestido de grego que senta nela e fica parecendo aflito. começa uma tempestade e o homem levanta a cabeça pra dar atenção, e o demônio amaldiçoa o lugar com a maldição do silêncio, e a palavra na pedra passa a ser essa. o homem se desespera com tudo mudo e foge. fim. ôxe. não gostei não, não peguei nada de especial.

babyji (abha dawesar)
dentre 3 livros de autoras indianas que eu podia ter escolhido pra asian readathon eu peguei esse porque o clube lesbos curitiba ia promover uma discussão online, e foi de longe a pior escolha. não teve uma parte boa esse livro, sério, é péssimo. a protagonista se chama anamika, uma estudante de 16 anos que se acha a cereja do bolo e age como se fosse a pessoa mais inteligente e madura do mundo. já nas primeiras páginas essa mulher encontra ela na escola que tá tentando matricular o filho de 5 anos e chama anamika pra um café gelado na manhã seguinte (quê?), e elas começam a ter um caso. no mesmo dia anamika vê uma mulher da comunidade humilde perto de onde mora e dali a pouco ela vira criada da família, e claro que a menina aproveita a posição de superioridade pra provocá-la e seduzi-la. sendo a melhor aluna da sala e monitora da escola, anamika abusa da posição de poder que tem pra "inspecionar" o uniforme curto da colega sheela, e daí pra diante fica forçando as coisas com ela pra ter um terceiro caso. a coitada é abusada no ônibus e um dia na casa dela anamika a penetra violentamente mesmo sheela tendo dito que não queria. aí anamika fala pra si mesma que não foi estupro, que só forçou sheela a acelerar algo que já queria fazer, que ela não deveria ser tão dura consigo mesma, mas com qualquer outra coisa ela é adulta e responsável, né. sheela diz que overreacted, véi, sério? ela chama a criada de rani, que é um nome genérico, e nem se importa em perguntar o nome real da coitada. dorme com ela todas as noites quando rani passa a morar na casa dela, depois do marido tê-la agredido. várias vezes anamika a trata como uma posse, fala que ela é um brinquedo, usa ela pra "compensar os espaços vazios que a outra deixou"... forçou sexo na primeira vez também. porra. como se não bastasse, o pai do melhor amigo também se atrai por ela e fica provocando com palavras, tocando intimamente, dá um beijo. não é nem um pouco realista a maneira como todas as pessoas se atraem por ela, como os adultos a consideram madura ou como ela consegue manipular todos e conseguir o que bem quiser. esse pai do amigo dá lolita pra ela ler e ela se imagina como humbert humbert, véi, e sheela como a ninfeta dela. chega a falar que se identifica com ele e tudo. tem um colega na classe dela de uma casta inferior que fica xingando ela, que é brahmin, e mesmo ele tendo arranjado de explodirem uma bomba nela e deixado uma camisinha usada na carteira de sheela, anamika ainda tenta protegê-lo e fazer acordos pra "salvá-lo", porque "um bom líder não rejeita as ovelhas negras". a única coisa que coloca a história na realidade é uma tal de mandal comission que dava mais cadeiras pra estudantes de castas inferiores nas universidades, e anamika se mostra contra isso. tem brahmins se incendiando em protesto, mas ela também acha isso idiota e fútil. eu comecei a grifar as coisas bizarras que ela falava mas chegou num ponto que quase toda página era uma merda tremenda. zero simpatia pela personagem principal, zero aprofundamento nem desenvolvimento de qualquer personagem, zero enredo também, porque todo conflitinho é resolvido como se não fosse nada. sempre a mesma coisa, ela falando dos estudos, fugindo de noite da casa dos pais, blá blá blá. esse é aquele tipo de livro que pode muito ser pego pra representar lesbianidade ou sei lá e vai ser muito prejudicial, sabe? ela objetifica demais todas as mulheres, imagina até as professoras nuas, sente ciúme das "amantes" e fica querendo controlar como elas se portam e vestem, considera os colegas imaturos, repudia a mulher adulta por beber cerveja e fumar maconha uma vez (!!!), fica mudando de humor o tempo todo e fazendo birra, fica se perguntando sobre o sentido da vida e quer a "verdade" (???), fica poetizando física, se exibe falando das leituras (kundera, dostoievsky, "eu tento evitar bestsellers", AFF). uma mísera coisinha sobre binariedade ser construto ocidental, que as coisas não eram só preto no branco.

território do brincar (2015) 
outro documentário que analuísa precisava ver pra uma disciplina, mas dormiu a maior parte do tempo. esse é mais baraka, só umas filmagens de crianças brincando e fazendo brinquedos, sem narração ou conversa. uma hora tem um menino mais crescido falando de imitar pássaros, de como fica feliz quando consegue pegar um pássaro, mas acho que só. vários lugares diferentes, de uma aldeia indígena até um condomínio chique com cara de filme, apesar desse último ser o que menos aparece. absurda a criatividade surpreendente das crianças, brinquedos simples ou então construídos com o que cada um tem. umas coisas chocantes de uns menininhos usando chumbo pra fazer um barquinho ou então usando um facão enorme pra cortar madeira e montar uma carrocinha. meninos do mangue, matando pássaro e pegando calango. aqueles pensamentos e sentimentos sobre a presença/falta de independência e estímulo, de criatividade mesmo. muito bom e gostoso de ver. pipas, fantasias, gororobas de comer de mentira, casinhas em miniatura, histórias de dar medo em volta de uma fogueira de noite. muita riqueza na infância e no mundo enorme que é o brasil.

the first grader (2010)
uma nova política de educação gratuita para todos no quênia e kimani ng'ang'a maruge, um senhor de 84 anos, aparecendo na escola porque quer aprender a ler. uma multidão pra matricular os filhos, 200 alunos em 50 carteiras, e o velho insiste indo lá mais de uma vez. primeiro não tinha os dois cadernos e o lápis apontado, depois faltava o uniforme, mas na terceira não tinha desculpa e a professora jane não resistiu. algumas coisas trazem flashes de lembranças pra ele, e não deve ter tido uma em que eu não chorei. fiquei mal pensando no quanto o ser humano é perverso e o quanto as minorias sofreram na mão dos brancos, sentindo vontade de não existir. muita violência, os britânicos queimando casas e assassinando mulheres e crianças, torturando os rebeldes brutalmente. maruge, que era quicuio, foi parte da resistência, os mau mau. viu a mulher e o filho bebê serem mortos na sua frente, teve o ouvido furado por um lápis, foi chicoteado pendurado de cabeça pra baixo. ele queria aprender a ler porque tem uma carta, e no final ele acaba pedindo pra professora ler pra ele (e eu já tava pensando que era porque ele tinha sentido que ia morrer, mas não). era o governo reconhecendo a luta dele e reconhecendo o direito dele de receber uma indenização em compensação pelo tempo que foi prisioneiro em diversos campos de concentração ao longo de uma década ou mais. várias ameaças a ele e à professora, o dono ou sei lá da escola fazendo com que jane fosse transferida, os pais reclamando e celebrando a nova professora mas sendo recebidos por uma rebelião das criancinhas que espantou ela huash. maruge animadão com o alfabeto, bom com os números, inspiração que ganhou fama e foi parar no guinness book e na onu. morreu em 2009, com 89 ou 90 anos.

euphoria season 1 (2019)
me surpreendeu a ponto de eu reassistir tudo com as meninas depois de terminar de ver com talita. trilha sonora forte, cores e luzes, cada episódio se aprofundando em um personagem do núcleo central. rue narrando sempre, como se soubesse de tudo, o que me fez pensar no final (depois de ver pela segunda vez) que é porque ela pode ter morrido. quando criança ela foi diagnosticada com um bocado de coisa, toc e ansiedade principalmente, e já passou a tomar muitos remédios. quando o pai adoeceu de câncer ela começou a pegar comprimidos dele e foi virando vício. a série começa com ela saindo do centro religioso de reabilitação, toda cética e correndo pra se drogar de novo. teve overdose no verão, a irmã mais nova encontrou ela caída dura no próprio vômito, pesadão. falta às reuniões com os narcóticos anônimos e suborna um cara pra conseguir certificado de que foi, pra mentir pra mãe. pede pra amiga lexi mijar num pote de tylenol pra ela amarrar na coxa e fingir que é a própria urina quando a mãe quer fazer teste. o dealer dela é fez, personagem muito bom, todo brisadão mas querido. tem um irmão ajudante mó criança mas todo gângster, engraçado que nem explica. eles cuidam da vô acamada, em aparelhos. uma vez rue tá lá quando o fornecedor dele chega, cara invocadíssimo, que acaba drogando rue com fentanil e tirando dinheiro de fez de propósito. nessa rue fica malzona e jules faz ela prometer que vai parar de se drogar, porque não quer ser amiga de alguém que pode morrer assim. jules é nova na cidade, toda sailor moon, estilosa e criativa. loira altona, mas trans. o pai dela parece bem bacana. o episódio sobre a infância e juventude dela deve ser o mais chocante pra mim, com aquela música ainda. jules fica se encontrando com caras mais velhos em hotéis de estrada só pra ser comida, numa brisa de conquistar homens pra conquistar feminilidade e então destrui-la. gosto tanto da cena em que ela fala sobre ser trans, ir subindo de nível, fazer isso. chorei largado. a questão é que o pai de nate fica com ela numa dessas, mark de grey's anatomy!, e ele tem uma coleção de gravações de encontros assim. mas o cara é um magnata da cidade, todo reputação e essa merda, então tem que manter a aparência. nate é um cuzão líder do time de futebol americano, e a namorada é maddy, líder de torcida. quando criança ele descobriu os dvds pornô do pai e desde então vive nessa paranoia, além da pressão enorme de ser o filho perfeito do cara dono de meia cidade. ele se passa por outra pessoa e começa a conversar com jules, que fica toda apaixonadinha, só pra depois a ameaçar usando os nudes que ela mesmo mandou pra ele. e não dá pra saber o quanto ele realmente se sente amaldiçoado pelo mesmo gosto do pai ou só é doentio demais, mesmo. e o próprio pai dele fica todo deprimente com essa questão de nate ter tanto ódio dentro de si, chega a implorar pra jules não contar pra ninguém sobre eles quando a vê no parque de diversões da cidade. e rue tá gostando dela, mas jules fica agindo de um jeito muito egocêntrico. no final ela vai pra ny sozinha quando rue dá pra trás e achei muito simbólico, como se rue tivesse testando o que nate disse sobre jules ir embora assim que possível, e vendo o quanto a própria melhora vai ter que ser uma jornada individual de rue. gostei dela ter reconhecido isso e ficado, mas AQUELA CENA FINAL MARAVILHOSA tem tanta cara de morte. mas pode ser uma morte dessa velha rue, coisa de transformação mesmo, né. fez dizendo "till then"... putz, será que vai ser morto pelo chefão que viu sangue no dinheiro que arrumou? a mãe de rue se engraçando com o pai de jules... lexi personagem tão bacana. cassie pô, quanta merda na vida hein. mãe depressiva e alcólatra, pai viciado, namorado que parecia legal mas foi ruim, aborto. anna que jules conhece e fica em ny é aquela atriz não-binária de trinkets. maddy também, véi, nate agredindo ela toda hora, a coitada é muito forte e merece muito mais que isso. latina ela. aaah e tem kat ainda! makeover de dominatrix, toda ryca, e cadê os pais dessas crianças pra perceber tudo o que acontece? massa que ela se liga nos vacilos e fica com o carinha que gosta dela desde antes. talita não gosta que não falam sobre umas coisas óbvias, tipo raça, apesar de tratar de bipolaridade e depressão. gosto do fato dos personagens terem várias facetas, de não dar pra acusar todo mundo 100% e tal. queria ser como rue fisicamente.

little fires everywhere (celeste ng)
tinha escrito e perdi tudo por causa de internet não funcionando e pc travando, mas como já escrevi demais sobre isso por enquanto vou só copiar o que botei no caderno de leituras que comecei:

otouto no otto (gengoroh tagame)
mangá curtinho de gengoroh tagame, 'o marido do meu irmão'. yaichi vive no japão com a filhinha kana e eles são surpreendidos pela visita de mike, canadense que foi casado com o irmão gêmeo falecido de yaichi, ryouji. ele visita o japão porque tinha prometido ir com o marido um dia. ao longo das três semanas que mike passa com eles yaichi vai repensando e lidando com seus próprios preconceitos, e passa a entender melhor e fazer as pazes com essa parte da vida do irmão de que não fez parte. coisa de ryouji ter contado casualmente quando ainda era jovens e yaichi não ter nunca tocado no assunto, essa questão de fingir que não existe. o irmão era a única família ainda viva e mesmo assim ficaram um tempão sem se falar, depois que ele foi estudar e viver no canadá. triste. achei massa que mostra essa transformação em yaichi, que acaba vendo na própria vida aspectos igualmente não-convencionais (pai solo, divorciado) que também não merecem ser invalidados ou discriminados. a mãe chega a visitar kana, vai numa viagem com eles também, boa convivência. uma boa abordagem de uma perspectiva diferente. um pouco repetitivo as conversas sobre refeição e o próprio foco que a comida recebe toda hora, "quer x?", "então vamos comer!", mas nada de mais. kana toda animada em ter um tio canadense. esquisito ela tocando os músculos do peitoral de mike, peludo. umas coisas extras no mangá com ele explicando sobre casamento homossexual, bandeiras lgbt e tal, legal (fiquei chocada que falam logo da bandeira dos furry e de bdsm ahushs). descobri que também tem uma live-action em 3 episódios, com atores bem iguais aos personagens (exceto que mike é gordo, e não musculoso, mas prefiro assim. até yaichi era super musculoso no mangá, pra que isso).

little fires everywhere (2020)
fiquei um tempo sem querer continuar, mas vi o resto de uma vez antes da live da asian readathon pra discutir a série. estranhamento com essa mia, fazendo careta e reagindo a tudo, ameaçando chorar toda hora. no livro mia é tão quieta, misteriosa, fala só o necessário e o importante. meio querendo não ver pra não estragar. coisa de mãe e filha bem cinema, "i love you so much" em batidas na parede, blábláblá. JACKSON AVERY como joe ryan, ok. esses pesadelos de mia distorcem demais, véi. sifudê os comentários ridículos de elena sobre ações afirmativas pra entrar na universidade. pearl muito baba ovo de elena, mostrando até os poemas... nem parece que tem moody. negócio de entrar no ferro velho juntos e aff mia GRITANDO com pearl. ok, a pegada é muito mais sobre racismo. no livro não falam da cor delas, né. fizeram izzy lésbica, hum. "not your puppet" na testa, show. elena tem dia certo pra transar kkkk mas qual é essa de mia transar "com quem quer, quando quer"... isso de pauline ser parceira dela, pegou meio mal hein. odeio essa abertura. a maleta de comida de elena é igual o coiso de transportar órgãos de grey's anatomy, avery que trouxe né. wtf esse book club e mia se metendo, ficando pra beber e conversar com elena depois?? "parts of us that we're afraid to look at". em série eles têm que pegar o que era narração e botar na boca dos personagens pra gente poder ter acesso, né. nem sempre fica bom. "so much in common" só porque bryan e pearl são negros -_- mia indo atrás de may ling e se oferecendo pra fotografar o aniversário, véi... bebe já invade a casa assim?? raiva de como mia dá pala dos sentimentos sempre. horrível os peitos de bojo enormes. bryan muito mais legal, educando lexie o tempo todo, tentando na real porque ela só fala bosta, né. lexie tem muita cara de criança, véi, até estranho ela ser a mais velha e transar. izzy super cara de bebê também. putz os 70 centavos que negaram pra bebe mas deixaram izzy passar... mais essa agora, mia vendendo a única pintura de pauline que tem pra pagar advogado pra bebe, tudo diferente. elena investigando bebe... que beijo FEIO de pearl e trip, eca. um cheque pra bebe ficar quieta, putz. que história é essa de trip brochar e ser cuzão com pearl na primeira vez, merda. "you didn't make good choices, you had good choices" woah. e já tão uma contra a outra explicitamente. annasophia robb fazendo elena jovem! muita cara de alien né. essas boquinhas sem lábio... izzy alfinetando elena com mia no ny times, boa. mia super dura com lexie e izzy. massa o banheiro no meio dos quartos pra compartilhar. suborno com cupcakes, elena, really? então o amigo em ny é ex de elena. segura: "you're still the same sad person living a sad life. you stuck to your plan. it's not my job to make your life bearable"! mudaram a atriz de mia sendo que na foto e nos pesadelos é a mais velha, oxe. um tempão mostrando a gravidez não esperada de izzy, a mãe de elena mandando um "you're acting as if it's a choice". fizeram a foto da mulher/aranha ser um autoretrato, monstro, deusa, mãe, poder. e foda também, isso de planejar a vida inteira, ficar infeliz, não ter saída. um compromisso com você de um passadão. ~amiga~ de izzy no armário, literalmente. levando lição de mia sobre a arte com as bonecas, show. "is fighting for another person's child worth losing your own?", ameaçou mermo. todo mundo tem apelido e elena só não usa com izzy... pô. "linda is not going to lose her baby. because people like bebe chow don't win" :( bill ficando como bonzinho porque não perguntou do que mia fez. se mandando pra "comprar chupeta" kkk. massa também: "you're not an exception because you want to be" sobre izzy e a arte dela. "you don't get to challenge people and not let them challenge you back". outro: "if we can't say it with words we find another way. we're artists. there's always another way" :') PUTA MERDA elena que conta dos ryans pra pearl. elena cortou izzy das fotos de natal, véi, que pesado. na corte, "SE ELA ERA PERFEITA POR QUE VOCÊ MUDOU O NOME?", PORRA. achei meio simples a conversa entre mia e pearl e como se resolvem. izzy vai tacar fogo em tudo, ta chorando e impulsiva, mas TODOS OS FILHOS CONVERSANDO e então ELES QUE INCENDEIAM! massa essa mudança, mais sentido. e no fim elena pro policial "i did it", YES YOU DID BITCH. uma faísca de mudança, quem sabe. "was i the bird or was i the cage?" vocalizado como poema. o melhor foram esses finais repensados, mas a sutileza do livro é muito única. acho que se não tivesse lido ia ter gostado mais do dramalhão da série.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

lidos (18) e assistidos (9) de abril

cowspiracy: the sustainability secret (2014)
tô falando que todo documentário tem um loiro alto de coque samurai e boné apresentando. era o mesmo que o de what the health, mas esse aqui veio antes, né. leonardo dicaprio veio antes de joaquin phoenix, então. gostei mais desse, pareceu mais convincente, realista, não sei. contou melhor as coisas. teve uma (1) analogia com indústria do tabaco, ahush. esse trata mais da sustentabilidade, então a história do cara no começo é que ele sempre se preocupou com reciclagem, usar bicicleta sempre que podia, economizar energia e água, mas só depois de adulto descobriu que o consumo de carne é o grande vilão de tudo (no outro ele conta que sempre prestou atenção no que comia pra ser saudável e descobriu tarde que o consumo de carne fode tudo). voltam a falar do montão de cocô produzido pelo gado de corte e leiteiro, mas aqui tratam mais do oceano e das zonas mortas por causa disso. falam da pesca, que mesmo as que se dizem "sustentáveis" pescam 5kg de peixes que nem são o alvo pra cada 1kg do peixe que eles querem. e que depois de esgotar uma espécie eles passam pra próxima, e nem dá tempo do ecossistema se recuperar, porque obviamente leva tempo pra rolar reprodução e tudo o mais. uma coisa que também apareceu no outro documentário é aquilo das empresas grandes em defesa das florestas e etc não tratarem da dieta – nem o greenpeace faz isso, e a questão é que se tocarem no assunto da carne vão perder um público enorme de apoiadores, porque é uma coisa vista como radical demais. precisam de dinheiro de patrocínio, então não fazem nada que provoque a perda do lucro, mesmo que isso signifique cuidar de problemas mais "superficiais". foda né, velho, como o dinheiro determina como o mundo gira... fiquei pensando em chernobyl e no que tá acontecendo agora, com a pandemia do corona vírus, que também tem a ver com um começo abafado por causa de lucro e apoios, sei lá. tem que acontecer essas merdas gigantescas pra que as coisas mudem de fato. o que faria as pessoas pararem de consumir carne senão algo enorme e gravíssimo? no documentário falam sobre a pecuária extensiva nem ser tão melhor assim, porque por ser mais "natural" o animal vive mais tempo, consome mais recursos, libera mais metano e tudo o mais. e falam do tanto de espaço pra pasto que precisaria ter pra alimentar o que os eua consomem de carne, que já seria a américa do norte inteira até o começo da américa do sul, só pra lá. tipo, por que partir da demanda em vez de fazer menos, fazer o que é sensato e mandar as pessoas se acostumarem a comer menos? o documentário não foi tanto de bad mas eu ainda fico triste pensando que é tão difícil acreditar em mudanças. nem com organizações mundiais de saúde mandando as pessoas ficarem em casa por causa da pandemia as pessoas ficam, sabe, imagina parar de comer carne... dá muito pra imaginar uma história distópica em que o governo precisa inventar uma mentira cabeluda pra que as pessoas tenham medo e aí sigam. enfim, teve uns donos de fábrica e fazenda de laticínios comentando que não é sustentável, que logo serão substituídos por leite de soja, de amêndoas, por sucos mesmo... não tratou tanto da questão de saúde no consumo, mas da sustentabilidade. e isso é massa, acho que vou mais pelo lado de viver de maneira equilibrada no planeta do que pela saúde individual e tal. vou mandar pra minha mãe ver. ah, tem a parte que falam do brasil, de ativistas sendo mortos, de gente que é perseguida e processada pela indústria da carne, que é a mais poderosa do mercado. uma mulher chefe de alguma instituição que não trata da agropecuária quando a pergunta é geral, mas quando o cara parte direto a isso ela fala sobre, assim meio hesitante e triste. vontade de chorar.

os fatos do caso do sr. valdemar (edgar allan poe)
tá ficando melhor, my boy edgar. nesse tem um cara que faz mesmerismo (que parece ter a ver com hipnotismo usado pra cura) que quer testar isso em alguém que esteja "in articulo mortis", que é termo médico pra na hora da morte. ele lembra desse sr. valdemar que ele conhecia e já tinha mesmerizado antes, e que agora tava numa fase terminal da doença. ele entra em contato pedindo pra ele o chamar quando estivesse há 24 horas de morrer, e o sr. valdemar fala pra ele ir na hora porque os médicos deram mais um dia de vida pra ele, apenas. lá o cara só começa os trabalhos quatro horas antes do suposto último momento, o que o senhor diz ser muito tarde, mas acaba que ele consegue ter sucesso em coisa que antes sabia que falhava com o velho. o cara faz umas perguntas pra ele às vezes e as respostas são sempre mórbidas, que ele tá dormindo, morrendo, dormindo. passa do prazo que os médicos deram, todos ficam admirados, mas daí a resposta à pergunta é que ele tá morto, e o cara descreve o som da voz como "áspero, alquebrado e sepulcral", como se viesse de muito longe, além de passar a sensação de um material gelatinoso ao tato (ok né). um estudante que ele chamou pra observar chega a desmair com isso, mas o tempo vai passando e eles mantém o velho assim por seis meses (!). ah, na hora que ele fala esquisito ele também tinha ficado branco e as manchas que tinha haviam sumido, além da boca ter se escancarado mostrando a língua inchada e escura. aí o mesmerizador e os médicos decidem acordar o sr. valdemar depois de tanto lenga-lenga e quando o fazem ele vai recuperando a aparência doentia e dali um minuto se decompõe todo na cama, mortinho da silva. talita achou que foi óbvio demais, que nada aconteceu, mas achei bom – a hipnose segurou o corpo lá, ué, apesar do velho ter morrido, e na hora que o acordaram nem tinha mais corpo pra estar lá, por isso ele se desfaz numa nojeira asquerosa e podre. massa, ashush. pensando agora, no pedido do velho ("pelo amor de Deus! — rápido! — rápido! — ponha-me para dormir — ou, rápido! — acorde-me! — rápido! — afirmo que estou morto!") talvez o acordar queria dizer matá-lo do mesmo jeito, mas meio que assassinando, sem tirar ele do transe.

o coração denunciador (edgar allan poe)
nesse o cara é completamente pirado mesmo. diz que não é louco, que prosseguiu com a maior cautela e precaução, e que foi o olho azul-claro e com catarata do velho que o fez decidir que ia matar o coitado. ele fica olhando o homem dormir de soslaio na porta do quarto por um tempão até atacá-lo e matá-lo de fato, e no processo ouviu a velocidade dos batimentos do velho ir aumentando cada vez mais. aí o cara enterra o velo no chão, classic já esse tipo de coisa, e depois dele terminar vem a polícia inspecionar a casa porque vizinhos ouviram gritos de noite. ficou lá papeando, todo convencido e confiante, até começar a ouvir o barulho do coração do velho de novo. não aguenta e admite o crime. talita comentou uma coisa que é fato: nunca tem o depois das conclusões pra gente ver, nesses contos. dá pra imaginar que naquela época foi surpreendente e marcante sim, mas muita coisa já virou enredo de filme e o escambau hoje em dia. e dá pra ir reconhecendo os padrões, aquilo do narrador se defender, se apresentar mostrando suas qualidades e falando do temperamento, etc. e sempre acaba assim que a coisa acaba de acontecer, puf. não lembrava direito desse, apesar de já ter lido. não é dos melhores.

uma descida no maelström (edgar allan poe)
um velho contando uma história que aconteceu com ele enquanto andam por umas montanhas na noruega. do topo de uma podem ver o mar e as várias ilhas por ali, e tem um redemoinho que surge em intervalos constantes e que determina toda a dinâmica dos pescadores e navegadores que passam por lá. a história é que uma vez o cara tava com os dois irmãos no barco, pescando, e eles iam perto do redemoinho porque conseguiam pegar muito mais peixe em pouco tempo. mas parece que o relógio que usam falha e eles são pegos no redemoinho, que é um negócio absurdo de fundo e veloz, e nessa só o cara contando o episódio sobreviveu. diz que foi assim que os cabelos embranqueceram, todos de uma vez. talvez o sal da água, sei lá. umas coisas de força propulsora ou energia centrípeta, não sei mais, mas ele descobre como se equilibrar enquanto giram e tal. longo, confuso. não curti muito não, mas o desenho é massa. me lembrou esse de paola rodrigues.

ensimesmada (flavushh)
um dos maiores quadrinhos de flavushh, que ela liberou pra ler/baixar de graça recentemente e coloquei no kindle. tem umas frases muito boas e relatable, do tipo "quero arrancar minha pele toda agora depois meus ossos" ou "me esconder para sempre e nunca mais acordar eu não quero estar aqui amanhã eu não quero amanhã". outras frases verdadeiríssimas como "ok vai passar nada é tão ruim quanto parece tem certas coisas na vida que você precisa fazer ok eu estou bem. não estou na verdade mas não importa" (rindo de desespero). essa menina parece ser uma princesa e os pais são grudados feito gêmeos siameses. tá na hora dela passar por esse ritual também, que supostamente é motivo de honra, mas ela não tá feliz nem quer isso. "me dizem que muitas matariam para estar em meu lugar e queria tanto que matassem de fato". ela monta num bicho e passa por um portal, e lá encontra uma menina igualzinha ela mesma. conversam por dias, ficam de romance, brigam; no fim ela mata a outra mas abraça o corpo. questão de se sentir perdida, não se entender. total. gosto muito dos desenhos dela, super simples e com essa estética "feia" que é única, na real. elementos de quadrinho sem quadrinho, uma das maiores inspirações pra mim, com certeza. foi a primeira coisa que li no kindle!

perfeito a trilha ali, a fala e os olharzinhos

speech sounds (octavia e. butler)
conto que faz parte de um projeto da editora morro branco chamado cápsula, em que liberam contos assim pra baixar de graça. tem um outro da ursula le guin lá também que quero ler. mas procurei em inglês porque imaginei que seria fácil de achar, pra aproveitar que era pequeno, e pra usar o kindle. a história se passa num futuro apocalíptico onde as pessoas perderam a linguagem por causa de uma doença tensa. "language was always lost or severely impaired. it was never regained. often there was also paralysis, intellectual impairment, death." e nem a memória ficava intacta, "she had a houseful of books that she could neither read nor bring herself to use as fuel. and she had a memory that would not bring back to her much of what she had read before." a principal da história até podia falar, meio assim sem sentido, mas não podia ler, e o cara que ela encontra podia ler mas não falar. "the illness had played with them, taking away, she suspected, what each valued most." no começo ela tá num ônibus tentando ir pra onde a família do irmão vivia, e começa uma briga que faz tudo parar. "loss of verbal language had spawned a whole new set of obscene gestures." aparece esse cara vestido de policial que resolve as coisas e chama ela pro carro dele. se comunicam com gestos e suposições e logo tão transando felizes. ela até desiste de tentar chegar no irmão pra não ter certeza da morte dele e poder continuar tendo família, já que "the illness had stripped her, killing her children one by one, killing her husband, her sister, her parents". no fim eles vão ajudar uma mulher e duas crianças fugindo de um cara e o homem leva um tiro e morre. mas a protagonista salva as crianças e descobre que elas falam normal, e aí conversam. massa esse fio de esperança no final, que não dá pra saber se foi real mesmo ou só delírio. muito bom uma história de ficção científica envolvendo linguagem, muito interessante! e octavia butler escreve muito bem, pô. gostei que esse foi meu primeiro contato com ela.

now she did not have to go to pasadena. now she could go on having a brother there and two nephews – three right-handed males. now she did not have to find out for certain whether she was as alone as she feared. now she was not alone.

rye glanced at the dead murderer. to her shame, she thought she could understand some of the passions that must have driven him, whomever he was. anger, frustration, hopelessness, insane jealousy... how many more of him where there – people willing to destroy what they could not have?

amoras (emicida)
livrinho infantil gratuito pra baixar na quarentena. sobre emicida mostrar amoras pra filha e dizer que as mais pretinhas são as mais doces, e daí ela fala "que bom, porque eu sou pretinha também". fofinho, pena que no kindle é tudo preto e branco. mas tem uma versão animada que resume bem. tem essa parte legal também de que martin luther king jr. choraria ao ouvir a menina, zumbi dos palmares diria que nada foi em vão... que o pensamento infantil é puro como obatalá, criador do mundo. que a gente chora ao nascer porque se afasta de alá. massa de existir, tão simples.

vampires suck (2010)
vimos twilight pra prestar atenção nuns detalhes, apesar de acelerado umas partes, pra depois ver isso. ideia de talita, julia se juntou e eu só fui. já tinha visto pedaços mas não ligo muito pra esse tipo de filme/humor... umas besteiras e exageros de briga e tudo. não sei nem o que falar sobre. tali gosta de bella (é outro nome, mas não lembro) sai do carro do pai com um vaso de cacto enorme em vez do pequeno do original. pai de jacob cadeirante mas às vezes anda. "um dos jonas brothers" em vez de "vampiro" naquela hora do "eu sei o que você é". ator artificialzão da zorra. a menina é bem bonita, até. patinete de shopping na floresta haush. eles vão até sei lá que filme nesse, não só crepúsculo. no fim os volturi ganham o baile de formatura, cujo tema era vampiros. daqueles filmes que me deixam sentindo que eu podia estar gastando minha vida com outra coisa.

tarja branca (2014)
nalu tinha que ver pra uma disciplina e decidimos ver todas juntas. gostei bastante, achei tocante, interessante. mas não perfeito, porque é sobre brincar e tem uma coisa de ressaltar a infância que me deixa um pouco desconfortável. pensando sobre como fui ruim com matheus naquela época de cuidar dele. também é sobre trabalhar com o que a gente gosta, ter coragem de fazer isso, e depois de vermos rendeu uma discussão interessante (aquilo de que trabalho nunca vai ser prazer, que ter uma "paixão" é outra forma do capitalismo te explorar, já que você vai ficar workaholic e render mais). questão de brincar sendo adulto pra poder ser feliz, de como o mundo vai pedindo seriedade em tudo e a gente perde essa essência. teve umas falas boas que eu já esqueci porque tô fazendo essa review em maio... estragando tudo. mas tudo bem porque gostaria de rever, tem no youtube. ah, tarja branca é um remédio proposto por um artista todo doido que aparece, umas pílulas pra se curar do mundo. oposição a tarja preta, né. tudo aquilo de ser criativo, original, e como a sociedade atual massacra isso. uma senhora sentada numa calçada falando coisas boas. sempre a questão da educação como possibilidade de transformação. e eu fiquei mexida porque já tava nos pensamentos de identidade, por que eu sou assim e não assado, como mariana e carol chegaram nos livros que leram, quem passou pela vida delas e as construiu... e o documentário pegou bem nisso. nossa, a música também, cultura popular! gente que dedica a vida a festivais de rua, essas coisas bem tradicionais mesmo. e lembrei também de como foi o carnaval de 2019, o quão forte foi presenciar o maracatu e estar lá junto. massa.

o vilarejo (raphael montes)
uma coleção de contos que se passam nessa vila em algum lugar da europa (não é explícito, mas mencionam 'ir para as américas' e os personagens chamam helga, ivan, mikhail, etc). cada um dos 7 contos corresponde a um dos reis demônios do inferno, um pra cada pecado capital: asmodeus pra luxúria, belzebu pra gula, mammon pra ganância, belphegor pra preguiça, satan pra ira, leviathan pra inveja e lúcifer pra soberba. dá pra ler em qualquer ordem mas tudo se encaixa de alguma forma, com os mesmos personagens e eventos em comum. o autor alega ser só um tradutor de uns cadernos escritos por uma senhora que morreu numa língua que não existe mais, o que é interessante (o prólogo e o posfácio fazendo parte da história também e tal). no fim a velha que morreu era uma moradora da vila que foi embora antes de todos morrerem de frio e fome. já escrevia quando era jovem, junto com a irmã gêmea e uma amiga. no conto que ela aparece ela mata o namorado da irmã mais velha pra ele não ficar com ninguém e faz parecer que a irmã gêmea fez por vingança de supostos abusos, e que se matou em seguida. no primeiro conto uma mãe mata e cozinha os filho tudo e uns moradores pra se alimentar enquanto o marido tá caçando. tem um que uma avó é obcecada por dinheiro e neglicencia a neta pra economizar, e acaba sendo alimentada por ela com moedas e morrendo. em um conto um cara preguiçoso escraviza duas irmãs negras pra fazer seus trabalhos de ferreiro, e em outro o pai delas se vinga da mulher que o acolheu mas foi passando a tratar ele mal. loucura o que um cara estupra uma menina recorrentemente e depois de crescida ela volta e o beija mordendo só pra passar lepra e deixar o cara morrer. no fim satan aparece de fato, como "um homem de muitos nomes", pra dizer que só fez fornecer a possibilidade das coisas, mas que as pessoas eram ruins mesmo e tudo aconteceu por isso. uma leitura sangrenta bacana pra um clima frio, sei lá, mas não gostei tanto do estilo de escrita. uma impressão de coisa meio bobinha, apesar da construção criativa. como se fosse meio prepotente, contando a história e no fim revelando a conclusão chocante, ohh. não sei explicar bem. mas é isso, nada de mais.

bloodchild (octavia e. butler)
conto gratuito pra baixar no kindle, em inglês mesmo. sobre os terrans, que eram habitantes da terra e fugiram pra outro planeta, e vivem entre os tlics. pelas descrições de "muitos membros" e "olhos amarelos" imagino que sejam algo entre uma cobra e uma centopeia, bem grandes. vivem muito mais que humanos, também. e o acordo entre as raças foi de uns humanos hospedarem as larvas dos tlics, que são parasitas, pra eles poderem continuar vivendo e os terrans terem onde viver. coisa sobre escravização na terra, e por ser octavia butler acabo colocando os personagens como negros. because your people arrived, we are relearning what it means to be a healthy, thriving people. and your ancestors, fleeing from their homeworld, from their own kind who would have killed or enslaved them–they survived because of us. we saw them as people and gave them the preserve when they still tried to kill us as worms. todos tomam ovos estéreis pra prolongar a vida, de um tlic meio que ligado à família. às vezes eles são picados, também, mas não machuca, anestesia. o narrador foi prometido pra uma tlic, e a questão é que aparece um n'tlic (que entendi ser um terran desligado do tlic que o implantou por algum motivo) e t'gatoi (a tlic "do" principal) tem que remover as larvas dele, e é super nojento e doloroso. dizem que se fosse a tlic do cara fazendo não seria assim. massa demais que a autora tirou inspiração das larvas parasitas de uma mosca que vive na amazônia pra criar uma história de "gravidez masculina", porque geralmente os hospedeiros são homens (tem algo de mulheres darem tlics melhores, mas eles entenderem que elas já têm a responsabilidade de gerar a própria raça. tem uma provocação de que elas geram a própria raça sim, mas pros tlics usarem seus filhos depois). muito interessante, uma perspectiva de aliens e vida no espaço totalmente nova. questões de escolhas ou a falta delas, retribuição... punkzera, curtindo muito a autora. gosto como ela fala sobre o processo da escrita depois dos contos; fez também em speech soundswhen i have to deal with something that disturbs me as much as the botfly did, i write about it. i sort out my problems by writing about them. se liga nas citações:

one of my earliest memories is of my mother stretched alongside t'gatoi, talking about things i could not understand, picking me up from the floor and laughing as she sat me on one of t'gatoi's segments. she ate her share of eggs then. i wondered when she had stopped, and why.

she had bonesribs, a long spine, a skull, four sets of limb bones per segment. but when she moved that way, twisting, hurling herself into controlled falls, landing running, she seemed not only boneless, but aquaticsomething swimming through air as though it were water.

she found the first grub. it was fat and deep red with his bloodboth inside and out.
at this stage, it would eat any flesh except his mother's.
there was always a grace period between the time the host sickened and the time the grubs began to eat him.

and the thing she held...
it was limbless and boneless at this stage, perhaps fifteen centimeters long and two thick, blind and slimy with blood. it was like a large worm.

i had been told all my life that this was a good and necessary thing tlic and terran did togethera kind of birth. i had believed it until now. i knew birth was painful and bloody, no matter what. but this was something else, something worse. and i wasn't ready to see it. maybe i never would be. yet i couldn't not see it. closing my eyes didn't help.

after that he concentrated on getting his share of every egg that came into the house and on looking out for me in a way that made me all but hate him–a way that clearly said, as long as i was all right, he was safe from the tlic.

"i don't want to be a host animal," i said. "not even yours."

it took her a long time to answer. "we use almost no host animals these days," she said. "you know that."
"you use us."
"we do. we wait long years for you and teach you and join our families to yours." she moved restlessly. "you know you aren't animals to us."

why else had i been given a whole egg to eat while the rest of the family was left to share one? why else had my mother kept looking at me as though i were going away from her, going where she could not follow? did t'gatoi imagine i hadn't known?

"terrans should be protected from seeing."
i didn't like the sound of thatand i doubted that it was possible. "not protected," i said. "shown. shown when we're young kids, and shown more than once. gatoi, no terran ever sees a birth that goes right. all we see is n'tlic—pain and terror and maybe death."


cápsula (amanda miranda, fernanda garcia, grazi fonseca, ing lee, marco sem s, monge man, nicholas steinmetz, puiupo e tais koshino)
comprei porque fizeram promoção de combo, cápsula + aquele calendário do ano do rato + um print de uma das ilustrações dele. esperava que fosse muito maior, tanto a hq quanto o calendário (que é só um quadradinho minúsculo... pena. bonito pelo menos, não tem cara de calendário então dá pra usar como decoração). esses nove artistas contando suas histórias que buscam homenagear akira e se inspiram no mangá de alguma forma. puiupo mesmo chegou fazendo umas moto empinada com gente com cara de logo de posto de gasolina, criticando o governo e a ideologia de "produzir até morrer". achei estranho a frase que ela fez em português com estrutura de inglês, tipo tradução literal de "be supposed to", mas agora tô me perguntando se não foi de propósito. ing lee faz uma narrativa ambientada numa bh futurística, "cápsula" como o nome de um complexo de apartamentos daqueles minúsculos, que só cabe a pessoa deitada pra dormir; bem massa, gostei dos personagens e do humor, enfrentamento de um cuzão de patinete. o defeitinho desse foi gráfico: os três sentados numa ponte e na mesma orientação vistos de trás e de frente. amanda (ex-paschoal) miranda compõe umas imagens grotescas enquanto se passa uma conversa sobre medo de altura (muito bom o "pra mim é mais tipo / tem mais a ver com estar próxima a beiradas / parece que elas me chamam"). legal a parte de tais koshino também, umas coisas de tudo caminhando pra ser uno, conhecimento compartilhado/distribuído (marco sem s fala disso também, retoma akira bastante, e só lembrei aqui essa coisa de "de onde vem o conhecimento" e etc. me intriga bastante); a de d0rts (que eu nunca tinha visto pelo nome, nicholas, e nem conhecia direito além das interações com puiupo); a da menina que fez umas coisas aparentemente abstratas mas que faziam sentido, as bolas e telas se mesclando, virando outra coisa. escolhi pra ser o livro que me faria sorrir pro desafio de maratona, e cheguei a rir com ing lee, pelo menos. apesar de tudo ser meio pesado tava satisfeita de finalmente ter, também.

los once (miguel jiménez, josé luis jiménez & andrés cruz)
sobre os dois dias de cerco do palácio da justiça da colômbia, em bogotá, em novembro de 1985, quando guerrilheiros o ocuparam e foram atacados por forças militares. a história é contada pela perspectiva de uma mãe/avó que cuida da neta e espera o retorno do filho, que trabalha no palácio. todos esses personagens são ratos, morando em buracos e trabalhando sob o palácio. os militares são cachorros ou javalis, algum bichão intimidador misturado. e tem pombas, uma cruz no chapéuzinho. começa o ataque e os ratos do palácio tentam fugir, coisas desabando, esconderijo. pombas chegam e levam pra um lugar melhor, mas logo vem um bichão e mata uma. a avó esperou e esperou, ouviu noticiário e viu coisa na tv de humanos, nada do filho voltar. no fim não tem mais ela, a netinha triste leva uma rosa pra praça do palácio, onde mais um monte de ratos se reúnem. uma inscrição no edifício dizendo com uma mensagem de santander para o povo, "las armas os han dado la independencia, las leyes os darán la libertad". parece que os fatos nunca foram esclarecidos e que existem várias versões, mas os 'onze' do título fazem referência a essas pessoas que desapareceram no incidente e eram só trabalhadores da cafeteria ou visitantes. nessa matéria diz que um senador lá disse ter escrito tudo que aconteceu, mas só podem ler quando ele morrer... pesado essas coisas, um negócio meio ditadura, né, ninguém punido nem esclarecido. massa a estrutura intercalando cenas da avó e dos onze, e forte esse negócio da representação dos personagens como animais, cada um representando uma coisa (que nem maus). os guerrilheiros tinham uma bandeira esquisita de uma pomba com umas armas cruzadas, então acho que pegou referência disso também.

o amanhã não está à venda (ailton krenak)
ensaio do krenak que a companhia das letras lançou como ebook gratuito. bem curtinho, uma reunião de três falas dele pra meios diferentes. sobre a pandemia e a sociedade atualmente, uns retornos aos temas que ele trata em ideias para adiar o fim do mundo e tal. gosto de como ele fala de outras formas de existência no mundo, quando questiona o que chamamos de humanidade, quando diz "eu não percebo que exista algo que não seja natureza. tudo é natureza. o cosmos é natureza. tudo em que eu consigo pensar é natureza". vários destaques, todos os perfis de leitores que tô seguindo postando um trecho diferente. os mais relevantes pra mim foram esses daqui de baixo. ah, e que bom que ele comenta como dizer é fazer! "é uma declaração insensata, não tem sentido que alguém em sã consciência faça uma comunicação pública dizendo "alguns vão morrer". é uma banalização da vida, mas também é uma banalização do poder da palavra. pois alguém que fala isso está pronunciando uma condenação, tanto de alguém em idade avançada, como de seus filhos, netos e de todas as pessoas que têm afeto uns com outros." semântica e pragmática, pô. li em voz alta pra carol de manhã e foi um bom começo de dia.

temos que abandonar o antropocentrismo; há muita vida além da gente, não fazemos falta na biodiversidade. pelo contrário. desde pequenos, aprendemos que há listas de espécies em extinção. enquanto essas listas aumentam, os humanos proliferam, destruindo florestas, rios e animais. somos piores que a covid-19. esse pacote chamado de humanidade vai sendo descolado de maneira absoluta desse organismo que é a terra, vivendo numa abstração civilizatória que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos.

"filho, silêncio". a terra está falando isso para a humanidade. e ela é tão maravilhosa que não dá uma ordem. ela simplesmente está pedindo: "silêncio". esse é também o significado do recolhimento.

governos burros acham que a economia não pode parar. mas a economia é uma atividade que os humanos inventaram e que depende de nós. se os humanos estão em risco, qualquer atividade humana deixa de ter importância. dizer que a economia é mais importante é como dizer que o navio importa mais que a tripulação.

em artigo que li sobre a pandemia, o sociólogo italiano domenico de masi cita a obra profética a peste, de albert camus: a peste pode vir e ir embora sem que o coração do homem seja modificado. (...) tomara que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu nada a morte de milhares pessoas no mundo todo.


carta a francisco (ana paula tavares)
não peguei muito bem, bastante poético. ela se dirige ao pai e fala de um deserto, de esperar as flores que explodem com o mínimo de água. ela fala de uma "gente do norte" que fragmentou o sul, mudou o curso dos rios, levou o sal, não se importou com "princípios cristãos e humanitários". diz que é uma carta de guerra. "dizem-me, pai, que és bom e atento e que sem romperes com o passado e a tradição andas à procura de todas as verdades, as que existem para lá das autoridades dos príncipes e das palavras dos homens. (...) dizem-me os mais-velhos que a tua voz é maior que o vento, é uma voz do infinito e consegue articular as coisas mais difíceis de dizer para que perdure eco dos ecos nas montanhas e nos desertos." antes da carta tem duas citações pesadonas, uma de um general alemão falando que acreditava que a tribo herero devia ser exterminada e outra de um chefe herero dizendo que viaja para o céu num carro de bois. lembrei agora do que emicida fala no filme invisível, amarelo, sobre princesas puxando carros de bois... coisas que a escravidão fez. ela fala mesmo de "tropas imperiais, anjos da morte e da desgraça saíram de berlim para condenar ao deserto e à agua envenenada todos os herero e os nama" e depois pede ao pai, "associa campo de concentração e morte lenta pela fome e a corda." nossa. fortíssimo. a escritora é angolana, tá numa agenda de carol com a proposta de 'literatura africana em movimento', da tag. tem ele todo aqui, é bem curtinho, fui relendo pra entender melhor e agora já senti tudo. uma denúncia e chamada pro não esquecimento. triste, profundo e importante.

o prémio (ungulani ba ka khosa)
outro da agenda da tag de carol. começa com uma descrição de uma mulher suando numa cama, as pernas abertas, gemidos, e já pensei que era sexo. mas o marido entra no quarto pra falar com ela, então é parto, na verdade. ele pergunta se ela já quer ir pro hospital mas ela sempre recusa, perguntando as horas. na primeira vez era dezessete e trinta, depois vinte e duas... no fim ela concorda e levam um tempo pra descer os dois andares até a rua, ela vomita algumas vezes. o quarto era descrito como inundado de suor, o chão como um lago, ilhotas onde pisar. ela tem o bebê e a primeira coisa que quer saber quando recobra a consciência é onde tá o prêmio, que aparentemente era um enxoval. mas a enfermeira responde que valia só pros bebês nascidos nas primeiras horas do dia tal, e ela deu à luz às vinte e três e cinquenta e cinco. véi. que pesado. a mulher até volta a desmair depois dessa. que horror, deve acontecer de fato, né? ungulani ba ka khosa é de moçambique. massa isso do suor inundando, os delírios da mulher observando as paredes. baratas fornicando, aranhas. triste.

taare zameen par (2007)
filme que carol tinha que ver pro estágio. indiano, "como estrelas na terra". sobre esse menino de uns 8 ou 9 anos de idade, ishaan, que leva muita reclamação na escola porque não aprende, repete erros, tem dificuldade. a cabeça nas nuvens, todo imaginativo e distraído; desenha e pinta bastante, constrói coisas e tal. quando a escola diz que ele vai repetir o 3º ano (acho que pela segunda vez) o pai manda ele pra um internato, e isso destrói o bichinho total. fica totalmente apático, muito depressivo, não dá atenção pra nada e tá sempre assustado em interações. e no internato os professores são ruins igual a escola, rígidos e inflexíveis, até aparecer um substituto de artes, que já chega num número musical vestido de palhaço e tocando flauta. ah, a gente não esperava que o filme fosse ser um musical, mas talvez seja bem comum em filmes da índia mesmo. e o professor fica muito tocado, chora o tempo todo, fica pensativo contemplando as coisas e os alunos de uma escola especial em que trabalha. ele olha os cadernos de ishaan, cheios de correções em vermelho e comentários de "ruim", e visita os pais dele pra mostrar os padrões dos "erros", de uma forma bem linguística, inclusive. vê as pinturas e tudo o que ele costumava fazer e se impressiona demais com a capacidade intelectual e criativa do menino, e diz pros pais que pelo que dá pra ver ishaan tem dislexia. muito boa a cena do professor dando a caixa de brinquedo em japonês pro pai ler e repreendendo ele, num paralelo ao que ishaan sofre. horrível as atitudes do pai, que acha que se importa; o professor acaba com ele falando de um povo que dirige insultos a uma árvore quando precisa que ela morra. e dá uma aula falando dos grandes nomes que foram crianças/jovens com problemas de aprendizado tradicional, e começa a ajudar ishaan de um jeito ótimo. fonética na associação de letras e fonemas, arte na caligrafia, escadas na matemática, várias coisas. e no fim faz um festival de arte em que todo mundo participa, até os professores ranzinzas, e claro que ishaan ganha e chora emocionado abraçando o professor. lindo fim com ele sorrindo e correndo pra um abraço, voando. no começo senti que era meio brega, essa coisa de músicas e ser super demorado (tem quase 3h), mas fez todo o sentido pra se sensibilizar e resolver depois. aquela coisa de questionar o quanto a gente tá viciado em um esquema de contar histórias no cinema, moldado pelo eixo eua-europa. muito bom! chega chorei. essa representação de um homem sensível, também, massa demais. o jeito que ele aborda os pais e até o diretor da escola pra tratar o assunto... premiado, parece. vi aqui que o ator do professor de artes é diretor do filme.

a máquina do tempo (h.g. wells)
planejei terminar os livros que comecei e tô empacada e o primeiro foi esse. devo ter começado em janeiro ou até antes de viajar, não lembro. não sei se fui com muita expectativa, mas logo no começo já desanimei e tava achando chato, por isso fui postergando. no começo tem esse grupo de homens de várias profissões juntos (um médico, um psicólogo, um jornalista), e um deles (o jornalista?) tá narrando. eles tinham o costume de se reunir com esse inventor ou sei lá que passa a ser chamado de "viajante do tempo" quando aparece esbaforido, sujo e ferido, e começa a relatar sua viagem depois de um banho e uma refeição. acontece que ele vai pro ano 800 mil e tanto, o que já é absurdo demais pra uma viagenzinha primeira, e lembrando que é de 1800 e pouco esse livro. lá os supostos decendentes dos humanos são pálidos, pequenos, magros, bestas. não fazem nada além de se entreter com bobeirinha, perdem o interesse rápido, dormem juntos num abrigo, temem o escuro. e no escuro tem outras criaturas humanóides, que primeiro o cara compara a gorilas na aparência, mas são branco-doente e tem olhões pra ver no escuro. o viajante faz uams teorias péssimas e não esclaresce nada, o que é o pior ainda; teve oportunidade de descobrir mais mas voltou pra trás que nem um idiota. ficou com uma namoradinha ou sei lá, carrapato, visitou um museu decadente e recuperou a máquina do tempo por sorte. em vez de voltar foi mais pro futuro ainda, viu uns caranguejo gigante, viu o sol morrendo, quase morreu também por ser trouxa. zero simpatia por esse personagem. prepotente e a zorra. várias coisas não respondidas, a única coisa que eu gostei foi que h.g. wells admite, num prefácio de uma edição antiga, que deixou a desejar mesmo, porque na época ainda era amador.

vó, a senhora é lésbica? (2018)
primeiro curta do festival online de curtas sapatão do clube lesbos, que mari se inscreveu pra vermos todas. baseado no conto de natalia borges polesso, autora daquele livro de contos lésbicos chamado amora. começa com uma criança fazendo essa pergunta durante o jantar, e só volta pra mesma cena no final. mostra a neta joana com 10 anos vendo a avó recebendo uma mulher sempre, e ela olhando meio confusa. no jantar joana tá lá com 18 anos, e nessa idade ela comeceu a namorar uma menina da faculdade. ceninha delas na biblioteca, mãozinha dada, beijo entre as prateleiras. agonia leve, até, mas pesada na cena delas juntas rindo no gramado. no fim ela fala que quer apresentar uma pessoa pra avó depois daquilo no jantar, e diz que é a namorada. sorriem. bacana pensar outras histórias assim, mulheres adultas e idosas. esperança, né.

o som e a fúria (william faulkner)
comecei isso em, o quê, dezembro?, e só terminei agora. e falhando ainda, porque tinha feito uma daquelas listinhas de tantas páginas por dia pra acabar até tal dia e não segui, só sentei pra terminar mesmo porque queria ficar livre desses livros começados pra participar da asian readathon em maio. o pior é o começo, porque é benjy que narra, e ele tem alguma deficiência intelectual que deixa tudo extremamente confuso. nessa época fui fazendo anotações dos personagens que apareciam, mas só fui rever quando acabei o livro, e lá tinha até o cara da gravata vermelha do circo com quem quentin foge. isso de o quentin e a quentin também só dá pra entender na terceira parte, com jason narrando. a segunda é do quentin e também tem muito fluxo de consciência, mas gostei bastante das coisas que ele fala. acho que tatiana feltrin ou esse cara diz que é de onde as pessoas tiram as citações bonitas mesmo, como aquela do pai dando o relógio esperando que ajude quentin a esquecer do tempo. a confirmação do suicídio dele só vem em alguma outra parte, também, porque ele só planeja com os ferros de passar e fica um tempão com a menininha italiana. a parte do jason só passei raiva, claro, porque ele é um idiota gigantesco. racista e machista pra caramba, paranóico e só ruim, mesmo. a última parte é com um narrador em terceira pessoa, o que ajuda a clarificar várias coisas. mas sei lá, vi essas duas reviews que eu mencionei e mais essa e não sinto tanto que o livro é difícil como eles falam, só diferente, incomum. talita comentou que jamais daria o som e a fúria como uma recomendação casual, mas concordamos que cai muito bem pra quem esteja procurando algo desafiador pra ler. no final foi massa conectar as partes e encaixar os pedaços, apesar de eu achar exagerado o que essas pessoas dizem de ser incrivelmente recompensador e sei lá o quê, vale a pena o custo-benefício. fiquei é com vontade de começar a reler na mesma hora, pra ver com olhos diferentes a doideira de benji e de quentin, pelo menos. jason não releria não. queria ter riscado o livro antes, também. e no fim ainda tem um apêndice falando da família, do passado e do futuro. com o cara empolgadão com o livro fiquei sabendo que o autor usou esse universo em outros livros, interessante. pensei no título como os gritos de benji e tem isso mesmo, tirado de shakespeare, coisa sobre a vida ser só "uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria". comparando com a máquina do tempo, que era o outro livro começado há anos que eu tava lendo, e com o vilarejo, que eu senti fraco no jeito de narrar, o som e a fúria é bem especial na escrita também. e serviu pra proposta, né. enfim, ok, concordo que é único e gostei de ter lido, blá blá blá. fim!

eu sou a próxima (2017)
dessa vez o curta foi documentário. lançado um ano após a morte de luana barbosa, lésbica violentada por policiais que morreu cinco dias depois em decorrência do espancamento. feita pelo coletiva (no feminino) luana barbosa, com mulheres dando voz à histórias de mulheres que foram expulsas de casa, violentadas, abusadas ou mortas por esse sistema bizarro. muito visceral, elas todas nuas ou de sutiã, preto e branco, falando olhando pra câmera. a transmissão tava com o áudio atrasado, mas isso não diminuiu o impacto. no final elas revelam as identidades reais, e uma delas era uma professora de história que contou a história de uma aluna de 14 anos que faltava à escola porque morava na rua e se prostituía. falam sobre não querer ser homem, sobre nem existir nas estatísticas. foda demais. me emocionei e pensei sobre os privilégios que a gente tem. "eu sou a próxima" é um título tão forte quanto o documentário.

o barril de amontillado (edgar allan poe)
na minha cabeça o barril de amontillado ia ser um lugar onde o cara ia meter o amigo. não lembrava que era mais um conto de gente emparedada, apesar de nesse ser um pouco diferente – o cara fecha o acesso a uma câmarazinha e o amigo fica lá dentro preso por correntes. bêbados os dois, tudo doido, isso de descer infinitamente até chegar num depósito de bebidas. nada de mais, mas curto. simples.

yacunã tuxá - mulher indígena e artista em salvador (2019)
sobre essa menina yacunã tuxá, estudante de letras na ufba, indígena da etnia tuxá do interior da bahia, sapatão e artista/ilustradora. diz que esse nome foi dado pelos encantados (massa esse título) e significa algo como "vinda da terra". ela fala sobre como a arte foi o lugar que ela achou pra se expressar e se colocar no mundo, onde ela podia encontrar a cara dela representada, e que é isso que ela busca com o que produz. aparece bastante o instagram dela. fala do processo de se assumir lésbica, de ter tentado namorar homens, e que os encantados a aceitam como ela é. questões de ser referência pros outros, e lembrei de como eu me sentia sendo professora de tanta gente, mostrando que todo espaço pode ser ocupado por pessoas lgbt e não conformistas de gênero. legal a estrutura dela falando e umas fotos passando, ela por onde passei com talita na ufba, o gramado onde fumam maconha uahsu, ela com outras mulheres pregando um lambe-lambe de noite. "em cima do medo, coragem", uma frase da vó dela. a vó e a mãe indígenas, no finalzinho a mãe cantando com um chocalho mais animada que ela. massa, tão sorridente, boas energias. dá pra assistir aqui por enquanto.

julieta paredes encontra pavio - uma breve introdução ao feminismo comunitário (2017)
essa julieta paredes, que foi uma das fundadoras do movimento feminista comunitário na bolívia, explicando suas visões e conceitos numa vinda ao brasil. faz todo o sentido o feminismo ter essa carga política, sei lá, acho que é aquilo de tudo estar integrado, feminismo e racismo e veganismo, por exemplo, as lutas contra inúmeras opressões. ela fala sobre o patriarcado não oprimir só mulheres mas homens e a natureza também, sobre como os homens deveriam apoiar as mulheres e cuidar das coisas pra que elas pudessem se reunir pra discutir o ativismo. que o machismo é uma atitude individual, mas que o patriarcado é o sistema. que não dá pra só exigir do estado as políticas públicas pra lutar contra o sistema, e que é por isso que muitas mulheres pisam na universidade. sobre o problema que é o capitalismo, sobre a luta contra o colonialismo ser a chave de tudo. bem massa. queria que as meninas ficassem imitando e zoando menos o espanhol.

úrsula (maria firmina dos reis)
bem romantismo mesmo, né, essa coisa super dramática nas falas, pensamentos trágicos, extremismo suicida, geral morrendo. "agora, decidireis da minha sorte,: feliz, ou desgraçado, úrsula, só vós sereis o meu amor". trágico, hein. o cara pedindo pra ela jurar que é dele, dizer que o ama, negócio manipulador e dependente da zorra. "depois de tão longo e apurado sofrimento, depois de ter esgotado até as fezes o meu cálix de amargura, votei ódio àquela que me fora tão cara" ahush até as fezes, véi, apareceu duas vezes essa expressão. umas perguntas que a gente já sabe responder, do tipo "mas em quem empregar esse amor, que devia ser puro como a luz do dia, ardente como o fogo de madeira resinosa?!", e coisas de não falar quem é que faz ou sente tal coisa, usar "alguém" e depois "era fulano, como o leitor perspicaz tê-lo-á já adivinhado" aushs. triste as partes de túlio e susana sobre a escravidão, como quando ele "obteve pois por dinheiro aquilo que deus lhe dera, como a todos os viventes" (e problemático a gratidão eterna que ele sente pelo cara que deu o dinheiro a ele, né). susana conta como era a vida dela antes de a levarem da família, descreve as atrocidades nos navios negreiros: "para caber a mercadoria humana no porão, fomos amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como os animais ferozes das nossas matas". a alma nas prisões do corpo, o narrador mesmo se perguntando quando os homens amarão o próximo como a si mesmos... umas coisas de deus na natureza, amor à solidão porque "aí despe-se-nos o coração do orgulho da sociedade, que o embota, que o apodrece". e o tio  fernando terrível, que assassinou o pai de úrsula, abreviou a vida já nas últimas da mãe dela, torturou susana e deixou ela morrer, atirou em túlio e matou tancredo, pra depois úrsula morrer de loucura também. "úrsula sorria, afagando invisível sombra, mas esse sorriso era débil e vaporoso – era o derradeiro esforço de uma alma, que está prestes a quebrar as prisões do corpo". que é isso. esses posicionamentos de vírgula me fez pensar se tem algo a ver com aquilo de separar oração principal e subordinada do alemão. no fim fernando se arrepende no mosteiro, mas merece não. exigiu as coisas como se o mundo todo fosse dele, "mulher altiva, hás de pertencer-me ou então o inferno, a desesperação, a morte serão o resultado da intensa paixão que ateaste em meu peito". o narrador diz que ele era otelo em seu ciúme, preciso ler alguma hora, já que baixei um bocado de coisa de shakespeare que a l&pm botou de graça. "as almas generosas são sempre irmãs."

a máscara da morte vermelha (edgar allan poe)
esse é muito corona vírus. uma doença que faz com que a pessoa sangre pelos poros e morra em meia hora, avassaladora, e um príncipe que chama mil amigos pra fortaleza dele e isola tudo. chama músicos e "bufões" pra entretê-los, etc e tal. passa seis ou sete meses e tem um baile de máscaras, que se espalha por sete salões, cada um de uma cor por causa dos vitrais através dos quais a luz do fogo entra. um salão de veludo negro cujas janelas são de vidro vermelho, e ninguém se atreve a pisar lá porque é muito tenebroso. lá dentro um relógio tenso cujas badaladas silenciam até à música a cada hora anunciada. quando dá meia-noite as pessoas notam alguém que não reconheciam, de fantasia vermelha como sangue, e máscara parecia o rosto de um cadáver. todo mundo chocado e amedrontado de chegar perto, mas o príncipe corre atrás do indivíduo com uma adaga, só pra cair morto assim que se encontram. era a morte vermelha em si. aí todo mundo começa a morrer horrivelmente, "e as trevas e a dissolução e a morte vermelha estenderam seus ilimitados domínios sobre eles todos". tenso pensar o quanto isso pode se aplicar ao que a gente tá vivendo. bem curto, bom que é terceira pessoa. novidades entre os que já lemos. e eu confundi o coração denunciador com esse porque misturava, imaginava o barulho do relógio como as batidas do coração, alguém mascarado de vermelho auhshs.

o segredo dos lírios (2012)
três mães falando sobre a descoberta da sexualidade das filhas lésbicas. uma reagiu mal e mostra se arrepender, e fala que de lá pra cá mudou e aprendeu muito; outra toda tranquila, tratando com normalidade e pedindo que a filha compartilhasse tudo com ela; outra aparentemente bem jovem, que diz que desde que a filha era bebê já sabia que ela seria lésbica (como???). massa essa perspectiva, e três experiências diferentes também. tranquilinho, foi pouca coisa pra um dia de curta mas bom o sentimento que deixou. termina com as filhas aparecendo pra dar abraço nas mães. dá pra assistir aqui. ah, esse título me fez esperar algo completamente diferente do curta, também; super cara de que vai ser ficção e dar agonia haush. mas não, ok. não explicam o porquê desse título também.