macanudo #2 (liniers)
livro de tirinhas que mariana trouxe já faz tempo. tinha lido um pedaço já, terminei só agora. tem umas engraçadas, criativas, fofas, bobinhas... não é muito consistente, nem todas achei boas sacadas. algumas vezes me perguntei sobre a tradução, já que o original é em espanhol. dava pra fazer um trabalho em cima, hein, qualquer hora vou olhar isso. no geral é uma leitura boa pra passar o tempo, nada de mais. podia botar aqui minhas preferidas mas vai dar um trabalho de achar... mas é fácil de reler, também, então pronto.
rafiki (2018)
aquele filme queniano lésbico que pensei em passar na times, mas desisti porque nem tem tanto inglês assim, falam mais suahíli. vi com talita porque tava disponível no "cinema #emcasacomsesc" (acabei de ver que tem as duas irenes lá! que morgana do literalmente vlogando participou na produção, se não me engano. show). gosto muito das cores, das decorações caprichadas nas casas... sofá, pano que separa cômodos, coberta de oncinha, paredes. me parece uma coisa bem áfrica, né, e acho massa pensar em outras estéticas. a história parte de kena, que mora com a mãe e trabalha na vendinha do pai, que é candidato a algum cargo político na cidade. ela tem dois amigos, blacksta e um outro gratuitamente homofóbico, e eles costumam se reunir na lanchonete de uma senhora fofoqueira. um dia ziki chama a atenção de kena, e elas vão se aproximando apesar da outra ser filha do rival político do pai dela. muito estilosa, essa ziki, viu. gosto de como kena se veste, me identifico. as duas se paqueram e começam a namorar em segredo, nesse romeu e julieta lésbico moderno. foda ouvir o pastor pregando na igreja contra o "homossexualismo" e ziki querendo pegar na mão de kena. elas ficam juntas numa kombi abandonada perto do campo de futebol, bem style, bonito o romance. mas as pessoas começam a estranhar e um dia pegam as duas juntas lá, e as agridem pesadamente. cenas fortes, véi. que horror. acaba que ziki desencanta e trata aquilo tudo como uma brincadeira, impossível de ser real, e é mandada pra londres pra estudar, enquanto kena fica pra se tornar médica. no fim contam pra ela que ziki voltou, anos passados, e a última cena é kena numa colina perto de onde ziki morava, sentindo uma mão no ombro e se virando sorrindo. achei bonito, apesar de muito triste, também. muito doce as partes delas começando a se paquerar, os beijos tímidos, o deslumbramento. fiquei sentida. acho kena bem bonita, também. massa ter filmes assim, quero ver mais. "rafiki" quer dizer "amigas". parece que foi proibido/banido no país :( lá é foda em questão de homofobia, criminalidade.
um dos livrinhos lá da casa do mato; peguei em algum momento de querer distrair do mundo. é uma peça em três atos, sobre esse tal jack (apelido de john) que diz se chamar ernest pra conquistar a mulher em quem é interessado, e pra outro grupo de conhecidos diz ter um irmão mais novo chamado ernest, que usa como desculpa pra se sair quando der vontade. no primeiro ato ele se declara pra essa tal gwendolen, que por algum motivo diz só poder amar um homem chamado ernest (ele até testa perguntar sobre seu próprio nome, só pra ouvi-la rejeitando totalmente), e conta pro amigo algernon que diz ter um irmão fictício que usa em benefício próprio; algernon também tem uma história dessas, algo sobre "bunbury", pra poder se retirar pro campo (se passa entre londres e o condado de hertfordshire). jack tem uma pupila, cecily, que ama o tal ernest, coitada. no segundo ato algernon aparece na casa dela fingindo ser ele, e os dois trocam declarações e já combinam o casamento (essa menina é meio doida, inventou toda uma história com ernest, um noivado de tempos, uma briguinha pra depois reatarem...); engraçado que jack chega contando que o irmão morreu, todo de luto, só pro amigo se revelar dali a pouco. no terceiro ato tem uma reviravolta ainda maior: gwendolen conhece cecily, ambas revelam estar comprometidas com um tal de ernest, gwendolen não sabia de nada do suposto irmão mais velho dele... quando jack aparece cecily fala que é o tutor dela, e quando algy aparece gwendolen diz que ele é seu primo (assim que jack a conhece, aliás). confessam as mentiras, os dois prestes a serem rebatizados pelo padre ou sei lá do lugar, mas ainda vem coisa: a mãe de gwendolen, lady bracknell, reconhece a governanta de cecily, miss prism, porque 28 anos atrás ela trabalhava pra família dela e saiu com um livro e um bebê, o filho da irmã de lady bracknell, que se perderam (ela inverteu as bolsas, algo besta do tipo). e assim se dão conta de que o bebê era jack, que foi mesmo criado pelo avô ou sei lá de cecily, adotado. ou seja, ele é o irmão mais velho de algernon mesmo, e se chama ernest, por ser primogênito (mesmo nome do pai). ôxe, hein. no fim os casais ficam juntos, só não entendi porque cecily não reclama do nome real de algernon não ser ernest (ela também veio com esse papo). no prólogo explicam mais sobre o título, que faz mais sentido em inglês (the importance of being earnest), pela sonoridade do adjetivo earnest e do nome ernest... uma crítica sobre a sociedade da época (1895, mais ou menos), essa coisa de honestidade, aparências, bobageiras. foi legal, esperava menos.
gräns (2018)
comecei aqui a missão de assistir filmes que me interessam logo após ter visto alguém falar sobre ou qualquer coisa do tipo. nesse caso foi puiupo que tweetou sobre filmes com os designs favoritos de monstros/criaturas dela, e por pouco não via border (o título em inglês), mas lembrei que tinha na plataforma do sesc onde vimos rafiki. filme sueco categorizado como romance e fantasia, mas só fui ver isso depois de ter começado a assistir (faz sentido) (esse pôster é tão bonito). a protagonista é tina, que trabalha supervisionando as pessoas que chegam em um porto na suécia. ela tem uma espécie de sexto sentido que a permite farejar emoções nas pessoas, e a partir disso aponta quem está transportando algo ilegal. o que ela sabe é que foi atingida por um raio quando criança, e por isso tem essa habilidade, mas além de tudo ela tem uma aparência que a wikipédia descreve como "neanderthal"; numa hora ela diz que é uma deformidade cromossômica (acho que já vi ou li sobre). quando ela pega um cara com um cartão de memória com pornografia infantil as autoridades pedem ajuda dela pra prosseguir a investigação. um dia passa um cara na fronteira que a intriga demais, mas não acham nada de anormal com ele. ele sorri de um jeito tenso e parece muito com ela, fisicamente. em outro momento ela pede pra revistá-lo por completo, e descobrem que ele tem genitália feminina e uma cicatriz no cóccix, o que deixa tina constrangida. ela também tem uma cicatriz assim, porque caiu numa pedra quando criança, segundo o pai. ela acaba indo atrás dele e eles se aproximam, porque ela se sente diferente e atraída; ela até o convida a ficar na casa de hóspedes que tem junto à dela (tina mora com um cara que tem cachorras de competição, mas não se interessa em se envolver sexualmente com ele, porque a machuca). os dois tem medo de tempestade, e numa conversa depois de um beijo vore diz que o que eles têm não é uma deformidade, que ela não deveria escutar os humanos. eles transam e tina o penetra, surpresa em ter um pênis ereto (parece um clitóris comprido), e vore diz que ela é um troll. só que aí ela encontra um bebê na geladeira dele (ele sempre tá com uma barrigona e numa noite deu à luz!) e fica sabendo que aquilo é um hiisi, um embrião não fertilizado que morre em pouco tempo e é fisicamente maleável. turns out que vore é o traficante de bebês ligado ao caso de pornografia infantil, porque ele tem essa ideia de estimular a maldade e o corrompimento moral entre os humanos como vingança pelo que fizeram com os trolls (o que ele faz é trocar bebês humanos por esses hiisi, que saem dele regularmente). what! tina discorda com isso e o denuncia pra polícia, certamente omitindo as partes fantásticas, mas ele pula no mar, de algemas, e desaparece. ela põe o pai na parede e ele revela que a adotou depois que seus pais morreram no hospital psiquiátrico onde faziam torturas e experimentos neles. what!! o nome real de tina é reva, que ela acha lindo (concordo). revolta. termina com ela recebendo uma caixona onde tem um bebê troll e um cartão postal da finlândia, onde vore disse haver uma colônia de trolls em segredo. what!!! achei esse filme incrível, inesperadíssimo e muito diferente. vi com talita e carol, que ficou meio estranhada, mas acho que curtiram. palavras suecas que lembro e reconheci: helvete e flicka.
por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça (reni eddo-lodge)
tava lendo esse há alguns meses, já. demorei porque por um tempo fiquei mal demais pra pegar em leituras pesadas. quando voltei li alguns trechos pra talita, sobre feminismo negro e outras partes que me chamaram a atenção. cada capítulo foca num âmbito, contando histórias, falando sobre o sistema, sobre privilégio branco, sobre feminismo e sobre raça e classe. muito completo e bem escrito, com alguns relatos pessoais e mais pontuais, já que a escritora é jornalista. ela fala da grã-bretanha e usa muitos detalhes históricos, mas tudo reverbera aqui no brasil e no mundo também (interessante pensar as diferenças e semelhanças entre esse livro e pequeno manual antirracista). o único problema foram as inúmeras vezes em que tinha algo errado com a tradução/edição: vários trechos esquisitos, erros de escrita e etc, uma pena. quem escreve o prefácio é a gabi do canal de pretas, gosto dela. "Eu parei de falar sobre raça com pessoas brancas porque eu não acredito que desistir é um sinal de fraqueza. Às vezes é sobre autopreservação." muito doloroso, mas absurdamente importante e necessário. massa que ficou esses dias gratuito pra baixar, porque conversa com muita coisa que vem acontecendo agora, que vem sido falado nas manifestações. aprendi e refleti sobre muita coisa, mas sei que ainda tenho muito o que pensar e voltar e fazer. alguns dos destaques que eu fiz:
A jornada para entender o racismo estrutural ainda exige que as pessoas de cor priorizem os sentimentos brancos. Mesmo que eles consigam te ouvir, eles não estão realmente escutando. (...) Quem realmente gostaria de ser alertado sobre um sistema estrutural que o beneficia à custa de outros?
gräns (2018)
comecei aqui a missão de assistir filmes que me interessam logo após ter visto alguém falar sobre ou qualquer coisa do tipo. nesse caso foi puiupo que tweetou sobre filmes com os designs favoritos de monstros/criaturas dela, e por pouco não via border (o título em inglês), mas lembrei que tinha na plataforma do sesc onde vimos rafiki. filme sueco categorizado como romance e fantasia, mas só fui ver isso depois de ter começado a assistir (faz sentido) (esse pôster é tão bonito). a protagonista é tina, que trabalha supervisionando as pessoas que chegam em um porto na suécia. ela tem uma espécie de sexto sentido que a permite farejar emoções nas pessoas, e a partir disso aponta quem está transportando algo ilegal. o que ela sabe é que foi atingida por um raio quando criança, e por isso tem essa habilidade, mas além de tudo ela tem uma aparência que a wikipédia descreve como "neanderthal"; numa hora ela diz que é uma deformidade cromossômica (acho que já vi ou li sobre). quando ela pega um cara com um cartão de memória com pornografia infantil as autoridades pedem ajuda dela pra prosseguir a investigação. um dia passa um cara na fronteira que a intriga demais, mas não acham nada de anormal com ele. ele sorri de um jeito tenso e parece muito com ela, fisicamente. em outro momento ela pede pra revistá-lo por completo, e descobrem que ele tem genitália feminina e uma cicatriz no cóccix, o que deixa tina constrangida. ela também tem uma cicatriz assim, porque caiu numa pedra quando criança, segundo o pai. ela acaba indo atrás dele e eles se aproximam, porque ela se sente diferente e atraída; ela até o convida a ficar na casa de hóspedes que tem junto à dela (tina mora com um cara que tem cachorras de competição, mas não se interessa em se envolver sexualmente com ele, porque a machuca). os dois tem medo de tempestade, e numa conversa depois de um beijo vore diz que o que eles têm não é uma deformidade, que ela não deveria escutar os humanos. eles transam e tina o penetra, surpresa em ter um pênis ereto (parece um clitóris comprido), e vore diz que ela é um troll. só que aí ela encontra um bebê na geladeira dele (ele sempre tá com uma barrigona e numa noite deu à luz!) e fica sabendo que aquilo é um hiisi, um embrião não fertilizado que morre em pouco tempo e é fisicamente maleável. turns out que vore é o traficante de bebês ligado ao caso de pornografia infantil, porque ele tem essa ideia de estimular a maldade e o corrompimento moral entre os humanos como vingança pelo que fizeram com os trolls (o que ele faz é trocar bebês humanos por esses hiisi, que saem dele regularmente). what! tina discorda com isso e o denuncia pra polícia, certamente omitindo as partes fantásticas, mas ele pula no mar, de algemas, e desaparece. ela põe o pai na parede e ele revela que a adotou depois que seus pais morreram no hospital psiquiátrico onde faziam torturas e experimentos neles. what!! o nome real de tina é reva, que ela acha lindo (concordo). revolta. termina com ela recebendo uma caixona onde tem um bebê troll e um cartão postal da finlândia, onde vore disse haver uma colônia de trolls em segredo. what!!! achei esse filme incrível, inesperadíssimo e muito diferente. vi com talita e carol, que ficou meio estranhada, mas acho que curtiram. palavras suecas que lembro e reconheci: helvete e flicka.
por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça (reni eddo-lodge)
tava lendo esse há alguns meses, já. demorei porque por um tempo fiquei mal demais pra pegar em leituras pesadas. quando voltei li alguns trechos pra talita, sobre feminismo negro e outras partes que me chamaram a atenção. cada capítulo foca num âmbito, contando histórias, falando sobre o sistema, sobre privilégio branco, sobre feminismo e sobre raça e classe. muito completo e bem escrito, com alguns relatos pessoais e mais pontuais, já que a escritora é jornalista. ela fala da grã-bretanha e usa muitos detalhes históricos, mas tudo reverbera aqui no brasil e no mundo também (interessante pensar as diferenças e semelhanças entre esse livro e pequeno manual antirracista). o único problema foram as inúmeras vezes em que tinha algo errado com a tradução/edição: vários trechos esquisitos, erros de escrita e etc, uma pena. quem escreve o prefácio é a gabi do canal de pretas, gosto dela. "Eu parei de falar sobre raça com pessoas brancas porque eu não acredito que desistir é um sinal de fraqueza. Às vezes é sobre autopreservação." muito doloroso, mas absurdamente importante e necessário. massa que ficou esses dias gratuito pra baixar, porque conversa com muita coisa que vem acontecendo agora, que vem sido falado nas manifestações. aprendi e refleti sobre muita coisa, mas sei que ainda tenho muito o que pensar e voltar e fazer. alguns dos destaques que eu fiz:
A jornada para entender o racismo estrutural ainda exige que as pessoas de cor priorizem os sentimentos brancos. Mesmo que eles consigam te ouvir, eles não estão realmente escutando. (...) Quem realmente gostaria de ser alertado sobre um sistema estrutural que o beneficia à custa de outros?
Eu não posso ter uma conversa com as pessoas sobre detalhes de um problema se elas sequer reconhecem que o problema existe. Pior ainda é a pessoa branca que pode estar disposta a considerar a possibilidade do racismo dito, mas que pensa que entramos nessa conversa como iguais. Nós não entramos.
Diante de um esquecimento coletivo, precisamos lutar para lembrar.
uma definição para racismo institucional:
(...) racismo institucional, explicou o relatório, é “o fracasso coletivo de uma organização em fornecer um serviço adequado e profissional às pessoas por causa de sua cor, cultura ou origem étnica. Pode ser visto ou detectado em processos, atitudes e comportamentos que resultam em discriminação por preconceito inconsciente, ignorância, falta de pensamento e estereotipagem racistas que prejudicam as minorias étnicas.”
Dizemos a nós mesmos que pessoas boas não podem ser racistas. Parece que pensamos que o verdadeiro racismo só existe nos corações das pessoas más. Dizemos a nós mesmos que o racismo é sobre valores morais, quando, em vez disso, é sobre a estratégia de sobrevivência do poder sistêmico.
É muito provável que homens brancos altamente qualificados e bem remunerados sejam patrões, chefes, CEOs, professores-chefes ou vice-reitores em universidades. Eles são quase certamente pessoas em posições que influenciam a vida de outras. Eles são quase certamente o tipo de pessoas que estabelecem culturas organizacionais. É improvável que eles se gabem de suas políticas com colegas ou conhecidos por causa do estigma social de estarem associados a visões racistas. Porém, o racismo deles é encoberto.
sobre não ver raça e sobre o padrão ser branco:
Não ver raça pouco faz para desconstruir estruturas racistas ou melhorar materialmente as condições às quais as pessoas de cor estão sujeitas diariamente. Para desmantelar estruturas injustas e racistas, precisamos ver raça. Precisamos ver quem se beneficia de sua raça, quem é desproporcionalmente impactado por estereótipos negativos sobre sua raça e a quem o poder e o privilégio são concedidos – merecidos ou não – por causa de sua raça, sua classe e seu gênero. Ver raça é essencial para mudar o sistema.
O neutro é branco. O padrão é branco. Porque nós nascemos em um roteiro já escrito que nos diz o que esperar de estranhos devido à sua cor de pele, sotaques e status social, toda a humanidade é codificada como branca. A negritude, no entanto, é considerada a “outra” e, portanto, de se suspeitar. Aqueles que são codificados como uma ameaça em nossa representação coletiva da humanidade não são brancos.
(...) privilégio branco é a ausência das consequências negativas do racismo. Uma ausência de discriminação estrutural, uma ausência da sua raça sendo vista como um problema em primeiro lugar, uma ausência de “menos chances de sucesso por causa da minha raça”. É uma ausência de olhares engraçados direcionados a você porque acredita-se que você esteja no lugar errado; uma ausência de expectativas culturais; uma ausência da violência promulgada em seus antepassados por causa da cor de suas peles; uma ausência de uma vida inteira de marginalização sutil e divisória – exclusão da narrativa de ser humano.
a diferença entre racismo e preconceito (muito massa pra se entender por que não existe racismo reverso):
Existe uma diferença entre racismo e preconceito. Existe uma definição não-atribuída de racismo que o define como preconceito mais poder. Os desfavorecidos pelo racismo podem certamente ser cruéis, vingativos e preconceituosos. Todo mundo tem a capacidade de ser desagradável com outras pessoas, de julgá-las antes de conhecê-las. Entretanto, simplesmente não há pessoas negras o suficiente em posições de poder para promulgar o racismo contra pessoas brancas no tipo de grande escala que atualmente opera contra pessoas negras. Os negros estão super-representados nos lugares e espaços onde o preconceito poderia realmente ter efeito? A resposta é quase sempre não.
essa fala famosa de martin luther king jr. que me faz pensar em performative allyship e etc:
Martin Luther King Jr. também refletiu: “Primeiro, devo confessar que, nos últimos anos, tenho sido gravemente desapontado com os moderados brancos. Cheguei quase à lamentável conclusão de que o grande obstáculo dos negros no caminho da liberdade não é o Conselheiro do Cidadão Branco ou o Ku Klux Klanner, mas o moderado branco que se dedica mais à ‘ordem’ do que à justiça; que prefere uma paz negativa, que é a ausência de tensão, à uma paz positiva que é a presença da justiça; que constantemente diz: ‘Eu concordo com você no objetivo que você procura, mas não posso concordar com seus métodos diretos’; que, paternalisticamente, sente que pode definir o tempo de liberdade de outro homem; que vive pelo mito do tempo e que constantemente aconselha o negro a esperar até uma ‘estação mais conveniente’.” (...) “A compreensão superficial das pessoas de boa vontade é mais frustrante do que a incompreensão absoluta das pessoas de má vontade. A aceitação indiferente é muito mais desconcertante do que a rejeição total.”
sobre relacionamentos inter-raciais e adoção transracial! putz:
Agora, quando vejo um casal inter-racial, me sinto desconfortável, embora esteja em um relacionamento interracial. Quando vejo um pai branco com um mestiço, penso: ‘Esse filho vai ter o que precisa?’. Porque não tive o que eu precisava. Acho que, para pessoas brancas que estão em relacionamentos inter-raciais, ou que têm filhos mestiços, ou que adotam transracialmente, a única maneira de isso funcionar é se eles realmente se comprometerem em ser antirracistas. Ser humilde e aprender que eles são racistas, mesmo quando pensam que não são.” (...) pais brancos que adotam filhos de cor assumem uma nova responsabilidade de serem conscientes em relação à raça. Eles embarcam em uma jornada muito nova de autodescoberta e têm o dever de não mais se comprometer com as políticas limitantes da neutralidade racial. Eles têm esse dever porque uma criança negra não pode ser sobrecarregada com a responsabilidade de enfrentar os preconceitos do mundo por conta própria. Nem todos os pais brancos dedicam tempo para aprender.
sobre monumentos históricos! foda:
Um debate nacional sobre se a estátua deveria cair se seguiu. Os estudantes negros que se manifestaram foram acusados de serem antidemocráticos. “Cecil Rhodes era um racista”, dizia uma manchete, “mas você não pode apagá-lo da história.” Essa foi uma conclusão estranha a ser tirada, porque fazer campanha para derrubar uma estátua não é o mesmo que deletar o nome de Cecil Rhodes dos livros de história. A campanha Rhodes Must Fall não queria que Rhodes fosse apagado da história. Em vez disso, eles estavam questionando se ele deveria ser tão abertamente celebrado. Os oponentes da campanha – que incluíam Lord Patten, o chanceler da Universidade de Oxford – disseram que, ao exercer seu direito democrático de protestar, os estudantes estavam na verdade interferindo na liberdade de expressão. Ao fazer um barulho, interrompendo o cotidiano e apontando o problema, eles se tornaram o problema. De alguma forma, não era crível que Lorde Patten simplesmente quisesse um debate livre e justo e uma troca saudável de ideias em seu campus. Parecia que ele só queria o silêncio, o tipo de paz forçada que fervia de ressentimento, do tipo que requer que alguns sofram para que outros se sintam confortáveis.
sobre vitimização branca:
Para as pessoas que se opõem ao antirracismo com base na liberdade de expressão, a oposição a disparidades raciais grosseiras é uma questão de “ofensa”, em vez das condições materiais altamente desiguais que as pessoas afetadas por ela carregam como fardo. Estar em uma posição em que suas vidas são tão confortáveis que eles realmente não têm nada material para se opor, os falsos defensores do “discurso livre” gastam todo seu tempo livre injuriando contra a “cultura ofensiva”. Quando focam em ofensas, ao invés de sua própria cumplicidade em um sistema drasticamente injusto, eles transferem, com sucesso, a responsabilidade de consertar o sistema dos beneficiados por ele para aqueles mais inclinados a perder por causa dele. Combater o racismo passa de conversas sobre justiça para conversas sobre sensibilidade. Aqueles que são repetidamente atingidos pelas tendências do racismo de impedir suas chances de vida são aconselhados a endurecer e a ficarem mais fortes.
sobre personagens negros, véi! é isso:
É no cinema, na televisão e nos livros que vemos as manifestações mais potentes do branco como a suposição padrão. Um personagem não pode simplesmente ser negro sem um aviso prévio para um assumido público branco. Personagens negros como protagonistas são considerados como não-identificáveis (com exceção de um punhado de estrelas hollywoodianas notáveis). Quando o casting para filmes e para a TV dá um passo fora da branquitude, fãs repetidamente revelam seu lado obscuro, expressando sua irritação, desgosto e decepção. O medo de personagens negros é o medo de um planeta negro.
(...) As pessoas brancas estão tão acostumadas a ver um reflexo de si mesmas em todas as representações da humanidade, em todos os momentos, que só percebem quando isso é tirado delas.
sobre minoria modelo! véi. hermione:
Hermione, negra ou mestiça, suportando insultos cuspidos de “sangue-ruim” de seus colegas, afastada de seus pais, dita que é especial e parte de uma raça completamente diferente, pode estar muito interessada em assimilar, em ser aceita. Não é de se admirar que ela tenha tentado tanto. Não é de admirar que ela tenha feito o dever de casa de seus amigos e tenha sido a primeira a levantar a mão na aula. Ela era a minoria-modelo. Uma Hermione negra ou mestiça movimentando-se para libertar elfos domésticos, depois de seis ou sete anos sofrendo insultos raciais, pode não ter coragem de desafiar seus colegas, e em vez disso poderia ter se agarrado a algo que ela sentia que realmente poderia mudar.
sobre a tarefa de educar:
Um século depois, em 1984, a feminista negra, ativista e poeta Audre Lorde escreveu em Sister Outsider: Essays and Speeches: “As mulheres de hoje ainda estão sendo convocadas a atravessar a lacuna da ignorância masculina e educar os homens quanto à nossa existência e nossa necessidades. Essa é uma ferramenta antiga e primária de todos os opressores para manter os oprimidos ocupados com as preocupações do mestre. Agora ouvimos dizer que é tarefa das mulheres de cor educar as mulheres brancas – diante de uma tremenda resistência – em relação à nossa existência, nossas diferenças, nossos papéis relativos à nossa sobrevivência conjunta. Isto é um desvio de energias e uma repetição trágica do pensamento patriarcal racista.”
sobre a necessidade do feminismo negro:
bell hooks se apresentou em 1981, escrevendo em Ain’t I a Woman: Black Women and Feminism: “O processo começa com a aceitação da mulher individual de que… as mulheres, sem exceção, são socializadas para serem racistas, classistas e sexistas, em graus variados, e nos rotular de feministas não muda o fato de que devemos conscientemente trabalhar para nos livrar do legado da socialização negativa. É óbvio que muitas mulheres se apropriaram do feminismo para servir a seus próprios fins, especialmente aquelas mulheres brancas que estiveram na vanguarda do movimento; mas, em vez de me resignar a essa apropriação, escolho reapropriar o termo ‘feminismo’, para me concentrar no fato de que ser ‘feminista’, em qualquer sentido autêntico do termo, é querer, para todas as pessoas, mulher e homem, a libertação do machismo, padrões de gênero, dominação e opressão.”
O feminismo branco em si não é particularmente ameaçador. Torna-se um problema quando suas ideias dominam – representadas como universais, para serem aplicadas a todas as mulheres. É um problema porque consideramos a humanidade através do prisma da branquitude. É inevitável que o feminismo não ficasse imune a isso. Consequentemente, o feminismo branco reforça sua posição quando aqueles que o desafiam são considerados causadores de problemas. Quando escrevo sobre o feminismo branco, não estou reduzindo as mulheres brancas à cor de sua pele. A branquitude é uma posição política, e desafiá-la em espaços feministas não é um olho por olho porque o preconceito precisa de poder para ser eficaz. (...) Quando as feministas brancas ignoram a raça, elas inicialmente não estão vindo de um lugar de malícia – embora a oposição delas possa muito rapidamente evoluir ao ponto de espumar quando suas políticas são desafiadas. Em vez disso, aprendi que elas vêm de um lugar muito parecido com o meu. Nós todos crescemos em um mundo dominado por brancos. Este é o contexto no qual as feministas brancas estão trabalhando, beneficiando e reproduzindo um sistema que elas mal percebem. No entanto, suas habilidades de análise crítica são muito boas em identificar sistemas exclusivos, como gênero, dos quais elas não se beneficiam.
sobre o que o feminismo deve ser:
O feminismo não é sobre igualdade e, certamente, não é sobre deslizar silenciosamente para um mundo de trabalho criado por e para os homens. O feminismo, no seu melhor, é um movimento que trabalha para libertar todas as pessoas que foram marginalizadas econômica, social e culturalmente por um sistema ideológico que foi projetado para que elas fracassem. Isso significa pessoas com deficiência, negros, trans, mulheres e pessoas não-binárias, pessoas LGB e pessoas da classe trabalhadora. (...) Além das exigências óbvias – o fim da violência sexual, o fim do hiato salarial – o feminismo deve estar consciente da classe e ciente da cultura limitante da binariedade de gênero. É necessário que ele reconheça que as pessoas com deficiência não são inerentemente defeituosas, mas sim que as pessoas sem deficiência falharam na criação de um mundo físico que serve a todos. O feminismo precisa exigir moradias acessíveis, decentes e seguras e uma renda básica universal. Ele deve exigir pagamento para mães em tempo integral e creches gratuitas para mães que trabalham fora. Deve reconhecer que vivemos em um mundo em que as mulheres são constantemente instigadas a serem cobiçadas, mas punem as profissionais do sexo por usarem essa situação para ganhar a vida. O feminismo precisa reconhecer completamente que a sexualidade é fluida, e precisamos sonhar com um mundo onde as pessoas não sejam violentamente policiadas por transgredirem os rígidos papéis sociais de gênero. O feminismo precisa reivindicar um mundo no qual a história racista é reconhecida e explicada, na qual as reparações são distribuídas, nas quais a raça é completamente desconstruída.
A igualdade é boa como uma demanda transitória, mas é desonesto não reconhecê-la pelo que é – o caminho mais fácil. Há uma diferença entre dizer “queremos ser incluídas” e dizer “queremos reconstruir seu sistema exclusivo”. A primeira é mais prontamente aceita no mainstream.
sobre mulheres negras raivosas e emasculação (!):
Que mulheres negras raivosas parecem emascular homens é sexista porque faz suposições sobre as
características dos homens que inevitavelmente limitam o escopo de sua humanidade. Para acreditar na emasculação, você tem que acreditar que a masculinidade é sobre poder, força e domínio. Esses traços supostamente deveriam ser grandes nos homens, mas são muito pouco atraentes nas mulheres. Especialmente nas negras raivosas.
sobre mobilidade social:
Mudar de classe exige um mínimo de sucesso e, se você não é branco, o sucesso é uma faca de dois gumes. Mesmo se você trabalhar muito e se ver no seu melhor, haverá um debate sobre se isso aconteceu por causa de sua raça, ou apesar disso.
e por fim, sobre o papel de cada um na luta antirracista:
O trabalho antirracista – a logística, a estratégia, a organização – precisa ser liderado por aqueles no cume da injustiça. Entretanto, também acredito que os brancos que reconhecem o racismo têm um papel extremamente importante. Essa parte não pode ser feita enquanto sentem culpa deliberadamente. (...) Pessoas brancas, vocês precisam falar com outras pessoas brancas sobre raça. Sim, vocês podem ser taxados como radicais, mas têm muito menos a perder. Conversem com outras pessoas brancas que confiam em você. Conversem com pessoas brancas nas áreas de sua vida nas quais você tem influência. Se vocês se sentirem sobrecarregados por seu privilégio não merecido, tentem usá-lo para algo e usem-no onde for necessário. Mas não sejam antirracistas em prol de uma audiência. Ser branco e antirracista em sua vida privada ou profissional, onde há muito poucos elogios a serem encontrados, é muito mais difícil, mas, em última análise, mais significativo.
Se você está enojado com o que vê, e sente o fogo correndo em suas veias, então depende de você. Você não precisa ser o líder de um movimento global ou um nome de peso. Pode ser tão em pequena escala quanto diminuir as relações de poder distorcidas em seu local de trabalho. Pode ser transmitindo conhecimento e habilidades para aqueles que não teriam acesso a eles de outra forma. Pode ser de forma criativa. Pode ser informal. Pode ser o seu trabalho. Não importa o que seja, contanto que você esteja fazendo alguma coisa.
