segunda-feira, 31 de agosto de 2020

lidos (3) e assistidos (2) em agosto

macanudo #2 (liniers)
livro de tirinhas que mariana trouxe já faz tempo. tinha lido um pedaço já, terminei só agora. tem umas engraçadas, criativas, fofas, bobinhas... não é muito consistente, nem todas achei boas sacadas. algumas vezes me perguntei sobre a tradução, já que o original é em espanhol. dava pra fazer um trabalho em cima, hein, qualquer hora vou olhar isso. no geral é uma leitura boa pra passar o tempo, nada de mais. podia botar aqui minhas preferidas mas vai dar um trabalho de achar... mas é fácil de reler, também, então pronto.

rafiki (2018)
aquele filme queniano lésbico que pensei em passar na times, mas desisti porque nem tem tanto inglês assim, falam mais suahíli. vi com talita porque tava disponível no "cinema #emcasacomsesc" (acabei de ver que tem as duas irenes lá! que morgana do literalmente vlogando participou na produção, se não me engano. show). gosto muito das cores, das decorações caprichadas nas casas... sofá, pano que separa cômodos, coberta de oncinha, paredes. me parece uma coisa bem áfrica, né, e acho massa pensar em outras estéticas. a história parte de kena, que mora com a mãe e trabalha na vendinha do pai, que é candidato a algum cargo político na cidade. ela tem dois amigos, blacksta e um outro gratuitamente homofóbico, e eles costumam se reunir na lanchonete de uma senhora fofoqueira. um dia ziki chama a atenção de kena, e elas vão se aproximando apesar da outra ser filha do rival político do pai dela. muito estilosa, essa ziki, viu. gosto de como kena se veste, me identifico. as duas se paqueram e começam a namorar em segredo, nesse romeu e julieta lésbico moderno. foda ouvir o pastor pregando na igreja contra o "homossexualismo" e ziki querendo pegar na mão de kena. elas ficam juntas numa kombi abandonada perto do campo de futebol, bem style, bonito o romance. mas as pessoas começam a estranhar e um dia pegam as duas juntas lá, e as agridem pesadamente. cenas fortes, véi. que horror. acaba que ziki desencanta e trata aquilo tudo como uma brincadeira, impossível de ser real, e é mandada pra londres pra estudar, enquanto kena fica pra se tornar médica. no fim contam pra ela que ziki voltou, anos passados, e a última cena é kena numa colina perto de onde ziki morava, sentindo uma mão no ombro e se virando sorrindo. achei bonito, apesar de muito triste, também. muito doce as partes delas começando a se paquerar, os beijos tímidos, o deslumbramento. fiquei sentida. acho kena bem bonita, também. massa ter filmes assim, quero ver mais. "rafiki" quer dizer "amigas". parece que foi proibido/banido no país :( lá é foda em questão de homofobia, criminalidade.

la importancia de llamarse ernesto (oscar wilde)
um dos livrinhos lá da casa do mato; peguei em algum momento de querer distrair do mundo. é uma peça em três atos, sobre esse tal jack (apelido de john) que diz se chamar ernest pra conquistar a mulher em quem é interessado, e pra outro grupo de conhecidos diz ter um irmão mais novo chamado ernest, que usa como desculpa pra se sair quando der vontade. no primeiro ato ele se declara pra essa tal gwendolen, que por algum motivo diz só poder amar um homem chamado ernest (ele até testa perguntar sobre seu próprio nome, só pra ouvi-la rejeitando totalmente), e conta pro amigo algernon que diz ter um irmão fictício que usa em benefício próprio; algernon também tem uma história dessas, algo sobre "bunbury", pra poder se retirar pro campo (se passa entre londres e o condado de hertfordshire). jack tem uma pupila, cecily, que ama o tal ernest, coitada. no segundo ato algernon aparece na casa dela fingindo ser ele, e os dois trocam declarações e já combinam o casamento (essa menina é meio doida, inventou toda uma história com ernest, um noivado de tempos, uma briguinha pra depois reatarem...); engraçado que jack chega contando que o irmão morreu, todo de luto, só pro amigo se revelar dali a pouco. no terceiro ato tem uma reviravolta ainda maior: gwendolen conhece cecily, ambas revelam estar comprometidas com um tal de ernest, gwendolen não sabia de nada do suposto irmão mais velho dele... quando jack aparece cecily fala que é o tutor dela, e quando algy aparece gwendolen diz que ele é seu primo (assim que jack a conhece, aliás). confessam as mentiras, os dois prestes a serem rebatizados pelo padre ou sei lá do lugar, mas ainda vem coisa: a mãe de gwendolen, lady bracknell, reconhece a governanta de cecily, miss prism, porque 28 anos atrás ela trabalhava pra família dela e saiu com um livro e um bebê, o filho da irmã de lady bracknell, que se perderam (ela inverteu as bolsas, algo besta do tipo). e assim se dão conta de que o bebê era jack, que foi mesmo criado pelo avô ou sei lá de cecily, adotado. ou seja, ele é o irmão mais velho de algernon mesmo, e se chama ernest, por ser primogênito (mesmo nome do pai). ôxe, hein. no fim os casais ficam juntos, só não entendi porque cecily não reclama do nome real de algernon não ser ernest (ela também veio com esse papo). no prólogo explicam mais sobre o título, que faz mais sentido em inglês (the importance of being earnest), pela sonoridade do adjetivo earnest e do nome ernest... uma crítica sobre a sociedade da época (1895, mais ou menos), essa coisa de honestidade, aparências, bobageiras. foi legal, esperava menos.

gräns (2018)
comecei aqui a missão de assistir filmes que me interessam logo após ter visto alguém falar sobre ou qualquer coisa do tipo. nesse caso foi puiupo que tweetou sobre filmes com os designs favoritos de monstros/criaturas dela, e por pouco não via border (o título em inglês), mas lembrei que tinha na plataforma do sesc onde vimos rafiki. filme sueco categorizado como romance e fantasia, mas só fui ver isso depois de ter começado a assistir (faz sentido) (esse pôster é tão bonito). a protagonista é tina, que trabalha supervisionando as pessoas que chegam em um porto na suécia. ela tem uma espécie de sexto sentido que a permite farejar emoções nas pessoas, e a partir disso aponta quem está transportando algo ilegal. o que ela sabe é que foi atingida por um raio quando criança, e por isso tem essa habilidade, mas além de tudo ela tem uma aparência que a wikipédia descreve como "neanderthal"; numa hora ela diz que é uma deformidade cromossômica (acho que já vi ou li sobre). quando ela pega um cara com um cartão de memória com pornografia infantil as autoridades pedem ajuda dela pra prosseguir a investigação. um dia passa um cara na fronteira que a intriga demais, mas não acham nada de anormal com ele. ele sorri de um jeito tenso e parece muito com ela, fisicamente. em outro momento ela pede pra revistá-lo por completo, e descobrem que ele tem genitália feminina e uma cicatriz no cóccix, o que deixa tina constrangida. ela também tem uma cicatriz assim, porque caiu numa pedra quando criança, segundo o pai. ela acaba indo atrás dele e eles se aproximam, porque ela se sente diferente e atraída; ela até o convida a ficar na casa de hóspedes que tem junto à dela (tina mora com um cara que tem cachorras de competição, mas não se interessa em se envolver sexualmente com ele, porque a machuca). os dois tem medo de tempestade, e numa conversa depois de um beijo vore diz que o que eles têm não é uma deformidade, que ela não deveria escutar os humanos. eles transam e tina o penetra, surpresa em ter um pênis ereto (parece um clitóris comprido), e vore diz que ela é um troll. só que aí ela encontra um bebê na geladeira dele (ele sempre tá com uma barrigona e numa noite deu à luz!) e fica sabendo que aquilo é um hiisi, um embrião não fertilizado que morre em pouco tempo e é fisicamente maleável. turns out que vore é o traficante de bebês ligado ao caso de pornografia infantil, porque ele tem essa ideia de estimular a maldade e o corrompimento moral entre os humanos como vingança pelo que fizeram com os trolls (o que ele faz é trocar bebês humanos por esses hiisi, que saem dele regularmente). what! tina discorda com isso e o denuncia pra polícia, certamente omitindo as partes fantásticas, mas ele pula no mar, de algemas, e desaparece. ela põe o pai na parede e ele revela que a adotou depois que seus pais morreram no hospital psiquiátrico onde faziam torturas e experimentos neles. what!! o nome real de tina é reva, que ela acha lindo (concordo). revolta. termina com ela recebendo uma caixona onde tem um bebê troll e um cartão postal da finlândia, onde vore disse haver uma colônia de trolls em segredo. what!!! achei esse filme incrível, inesperadíssimo e muito diferente. vi com talita e carol, que ficou meio estranhada, mas acho que curtiram. palavras suecas que lembro e reconheci: helvete e flicka.

por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça (reni eddo-lodge)
tava lendo esse há alguns meses, já. demorei porque por um tempo fiquei mal demais pra pegar em leituras pesadas. quando voltei li alguns trechos pra talita, sobre feminismo negro e outras partes que me chamaram a atenção. cada capítulo foca num âmbito, contando histórias, falando sobre o sistema, sobre privilégio branco, sobre feminismo e sobre raça e classe. muito completo e bem escrito, com alguns relatos pessoais e mais pontuais, já que a escritora é jornalista. ela fala da grã-bretanha e usa muitos detalhes históricos, mas tudo reverbera aqui no brasil e no mundo também (interessante pensar as diferenças e semelhanças entre esse livro e pequeno manual antirracista). o único problema foram as inúmeras vezes em que tinha algo errado com a tradução/edição: vários trechos esquisitos, erros de escrita e etc, uma pena. quem escreve o prefácio é a gabi do canal de pretas, gosto dela. "Eu parei de falar sobre raça com pessoas brancas porque eu não acredito que desistir é um sinal de fraqueza. Às vezes é sobre autopreservação." muito doloroso, mas absurdamente importante e necessário. massa que ficou esses dias gratuito pra baixar, porque conversa com muita coisa que vem acontecendo agora, que vem sido falado nas manifestações. aprendi e refleti sobre muita coisa, mas sei que ainda tenho muito o que pensar e voltar e fazer. alguns dos destaques que eu fiz:

A jornada para entender o racismo estrutural ainda exige que as pessoas de cor priorizem os sentimentos brancos. Mesmo que eles consigam te ouvir, eles não estão realmente escutando. (...) Quem realmente gostaria de ser alertado sobre um sistema estrutural que o beneficia à custa de outros?

Eu não posso ter uma conversa com as pessoas sobre detalhes de um problema se elas sequer reconhecem que o problema existe. Pior ainda é a pessoa branca que pode estar disposta a considerar a possibilidade do racismo dito, mas que pensa que entramos nessa conversa como iguais. Nós não entramos.

Diante de um esquecimento coletivo, precisamos lutar para lembrar.

uma definição para racismo institucional:

(...) racismo institucional, explicou o relatório, é “o fracasso coletivo de uma organização em fornecer um serviço adequado e profissional às pessoas por causa de sua cor, cultura ou origem étnica. Pode ser visto ou detectado em processos, atitudes e comportamentos que resultam em discriminação por preconceito inconsciente, ignorância, falta de pensamento e estereotipagem racistas que prejudicam as minorias étnicas.”

Dizemos a nós mesmos que pessoas boas não podem ser racistas. Parece que pensamos que o verdadeiro racismo só existe nos corações das pessoas más. Dizemos a nós mesmos que o racismo é sobre valores morais, quando, em vez disso, é sobre a estratégia de sobrevivência do poder sistêmico.

É muito provável que homens brancos altamente qualificados e bem remunerados sejam patrões, chefes, CEOs, professores-chefes ou vice-reitores em universidades. Eles são quase certamente pessoas em posições que influenciam a vida de outras. Eles são quase certamente o tipo de pessoas que estabelecem culturas organizacionais. É improvável que eles se gabem de suas políticas com colegas ou conhecidos por causa do estigma social de estarem associados a visões racistas. Porém, o racismo deles é encoberto.

sobre não ver raça e sobre o padrão ser branco:

Não ver raça pouco faz para desconstruir estruturas racistas ou melhorar materialmente as condições às quais as pessoas de cor estão sujeitas diariamente. Para desmantelar estruturas injustas e racistas, precisamos ver raça. Precisamos ver quem se beneficia de sua raça, quem é desproporcionalmente impactado por estereótipos negativos sobre sua raça e a quem o poder e o privilégio são concedidos – merecidos ou não – por causa de sua raça, sua classe e seu gênero. Ver raça é essencial para mudar o sistema.

O neutro é branco. O padrão é branco. Porque nós nascemos em um roteiro já escrito que nos diz o que esperar de estranhos devido à sua cor de pele, sotaques e status social, toda a humanidade é codificada como branca. A negritude, no entanto, é considerada a “outra” e, portanto, de se suspeitar. Aqueles que são codificados como uma ameaça em nossa representação coletiva da humanidade não são brancos.

(...) privilégio branco é a ausência das consequências negativas do racismo. Uma ausência de discriminação estrutural, uma ausência da sua raça sendo vista como um problema em primeiro lugar, uma ausência de “menos chances de sucesso por causa da minha raça”. É uma ausência de olhares engraçados direcionados a você porque acredita-se que você esteja no lugar errado; uma ausência de expectativas culturais; uma ausência da violência promulgada em seus antepassados por causa da cor de suas peles; uma ausência de uma vida inteira de marginalização sutil e divisória – exclusão da narrativa de ser humano.

a diferença entre racismo e preconceito (muito massa pra se entender por que não existe racismo reverso):

Existe uma diferença entre racismo e preconceito. Existe uma definição não-atribuída de racismo que o define como preconceito mais poder. Os desfavorecidos pelo racismo podem certamente ser cruéis, vingativos e preconceituosos. Todo mundo tem a capacidade de ser desagradável com outras pessoas, de julgá-las antes de conhecê-las. Entretanto, simplesmente não há pessoas negras o suficiente em posições de poder para promulgar o racismo contra pessoas brancas no tipo de grande escala que atualmente opera contra pessoas negras. Os negros estão super-representados nos lugares e espaços onde o preconceito poderia realmente ter efeito? A resposta é quase sempre não.

essa fala famosa de martin luther king jr. que me faz pensar em performative allyship e etc:

Martin Luther King Jr. também refletiu: “Primeiro, devo confessar que, nos últimos anos, tenho sido gravemente desapontado com os moderados brancos. Cheguei quase à lamentável conclusão de que o grande obstáculo dos negros no caminho da liberdade não é o Conselheiro do Cidadão Branco ou o Ku Klux Klanner, mas o moderado branco que se dedica mais à ‘ordem’ do que à justiça; que prefere uma paz negativa, que é a ausência de tensão, à uma paz positiva que é a presença da justiça; que constantemente diz: ‘Eu concordo com você no objetivo que você procura, mas não posso concordar com seus métodos diretos’; que, paternalisticamente, sente que pode definir o tempo de liberdade de outro homem; que vive pelo mito do tempo e que constantemente aconselha o negro a esperar até uma ‘estação mais conveniente’.” (...) “A compreensão superficial das pessoas de boa vontade é mais frustrante do que a incompreensão absoluta das pessoas de má vontade. A aceitação indiferente é muito mais desconcertante do que a rejeição total.”

sobre relacionamentos inter-raciais e adoção transracial! putz:

Agora, quando vejo um casal inter-racial, me sinto desconfortável, embora esteja em um relacionamento interracial. Quando vejo um pai branco com um mestiço, penso: ‘Esse filho vai ter o que precisa?’. Porque não tive o que eu precisava. Acho que, para pessoas brancas que estão em relacionamentos inter-raciais, ou que têm filhos mestiços, ou que adotam transracialmente, a única maneira de isso funcionar é se eles realmente se comprometerem em ser antirracistas. Ser humilde e aprender que eles são racistas, mesmo quando pensam que não são.” (...) pais brancos que adotam filhos de cor assumem uma nova responsabilidade de serem conscientes em relação à raça. Eles embarcam em uma jornada muito nova de autodescoberta e têm o dever de não mais se comprometer com as políticas limitantes da neutralidade racial. Eles têm esse dever porque uma criança negra não pode ser sobrecarregada com a responsabilidade de enfrentar os preconceitos do mundo por conta própria. Nem todos os pais brancos dedicam tempo para aprender.

sobre monumentos históricos! foda:

Um debate nacional sobre se a estátua deveria cair se seguiu. Os estudantes negros que se manifestaram foram acusados de serem antidemocráticos. “Cecil Rhodes era um racista”, dizia uma manchete, “mas você não pode apagá-lo da história.” Essa foi uma conclusão estranha a ser tirada, porque fazer campanha para derrubar uma estátua não é o mesmo que deletar o nome de Cecil Rhodes dos livros de história. A campanha Rhodes Must Fall não queria que Rhodes fosse apagado da história. Em vez disso, eles estavam questionando se ele deveria ser tão abertamente celebrado. Os oponentes da campanha – que incluíam Lord Patten, o chanceler da Universidade de Oxford – disseram que, ao exercer seu direito democrático de protestar, os estudantes estavam na verdade interferindo na liberdade de expressão. Ao fazer um barulho, interrompendo o cotidiano e apontando o problema, eles se tornaram o problema. De alguma forma, não era crível que Lorde Patten simplesmente quisesse um debate livre e justo e uma troca saudável de ideias em seu campus. Parecia que ele só queria o silêncio, o tipo de paz forçada que fervia de ressentimento, do tipo que requer que alguns sofram para que outros se sintam confortáveis.

sobre vitimização branca:

Para as pessoas que se opõem ao antirracismo com base na liberdade de expressão, a oposição a disparidades raciais grosseiras é uma questão de “ofensa”, em vez das condições materiais altamente desiguais que as pessoas afetadas por ela carregam como fardo. Estar em uma posição em que suas vidas são tão confortáveis que eles realmente não têm nada material para se opor, os falsos defensores do “discurso livre” gastam todo seu tempo livre injuriando contra a “cultura ofensiva”. Quando focam em ofensas, ao invés de sua própria cumplicidade em um sistema drasticamente injusto, eles transferem, com sucesso, a responsabilidade de consertar o sistema dos beneficiados por ele para aqueles mais inclinados a perder por causa dele. Combater o racismo passa de conversas sobre justiça para conversas sobre sensibilidade. Aqueles que são repetidamente atingidos pelas tendências do racismo de impedir suas chances de vida são aconselhados a endurecer e a ficarem mais fortes.

sobre personagens negros, véi! é isso:

É no cinema, na televisão e nos livros que vemos as manifestações mais potentes do branco como a suposição padrão. Um personagem não pode simplesmente ser negro sem um aviso prévio para um assumido público branco. Personagens negros como protagonistas são considerados como não-identificáveis (com exceção de um punhado de estrelas hollywoodianas notáveis). Quando o casting para filmes e para a TV dá um passo fora da branquitude, fãs repetidamente revelam seu lado obscuro, expressando sua irritação, desgosto e decepção. O medo de personagens negros é o medo de um planeta negro.

(...) As pessoas brancas estão tão acostumadas a ver um reflexo de si mesmas em todas as representações da humanidade, em todos os momentos, que só percebem quando isso é tirado delas.

sobre minoria modelo! véi. hermione:

Hermione, negra ou mestiça, suportando insultos cuspidos de “sangue-ruim” de seus colegas, afastada de seus pais, dita que é especial e parte de uma raça completamente diferente, pode estar muito interessada em assimilar, em ser aceita. Não é de se admirar que ela tenha tentado tanto. Não é de admirar que ela tenha feito o dever de casa de seus amigos e tenha sido a primeira a levantar a mão na aula. Ela era a minoria-modelo. Uma Hermione negra ou mestiça movimentando-se para libertar elfos domésticos, depois de seis ou sete anos sofrendo insultos raciais, pode não ter coragem de desafiar seus colegas, e em vez disso poderia ter se agarrado a algo que ela sentia que realmente poderia mudar.

sobre a tarefa de educar:

Um século depois, em 1984, a feminista negra, ativista e poeta Audre Lorde escreveu em Sister Outsider: Essays and Speeches: “As mulheres de hoje ainda estão sendo convocadas a atravessar a lacuna da ignorância masculina e educar os homens quanto à nossa existência e nossa necessidades. Essa é uma ferramenta antiga e primária de todos os opressores para manter os oprimidos ocupados com as preocupações do mestre. Agora ouvimos dizer que é tarefa das mulheres de cor educar as mulheres brancas – diante de uma tremenda resistência – em relação à nossa existência, nossas diferenças, nossos papéis relativos à nossa sobrevivência conjunta. Isto é um desvio de energias e uma repetição trágica do pensamento patriarcal racista.”

sobre a necessidade do feminismo negro:

bell hooks se apresentou em 1981, escrevendo em Ain’t I a Woman: Black Women and Feminism: “O processo começa com a aceitação da mulher individual de que… as mulheres, sem exceção, são socializadas para serem racistas, classistas e sexistas, em graus variados, e nos rotular de feministas não muda o fato de que devemos conscientemente trabalhar para nos livrar do legado da socialização negativa. É óbvio que muitas mulheres se apropriaram do feminismo para servir a seus próprios fins, especialmente aquelas mulheres brancas que estiveram na vanguarda do movimento; mas, em vez de me resignar a essa apropriação, escolho reapropriar o termo ‘feminismo’, para me concentrar no fato de que ser ‘feminista’, em qualquer sentido autêntico do termo, é querer, para todas as pessoas, mulher e homem, a libertação do machismo, padrões de gênero, dominação e opressão.”

O feminismo branco em si não é particularmente ameaçador. Torna-se um problema quando suas ideias dominam – representadas como universais, para serem aplicadas a todas as mulheres. É um problema porque consideramos a humanidade através do prisma da branquitude. É inevitável que o feminismo não ficasse imune a isso. Consequentemente, o feminismo branco reforça sua posição quando aqueles que o desafiam são considerados causadores de problemas. Quando escrevo sobre o feminismo branco, não estou reduzindo as mulheres brancas à cor de sua pele. A branquitude é uma posição política, e desafiá-la em espaços feministas não é um olho por olho porque o preconceito precisa de poder para ser eficaz. (...) Quando as feministas brancas ignoram a raça, elas inicialmente não estão vindo de um lugar de malícia – embora a oposição delas possa muito rapidamente evoluir ao ponto de espumar quando suas políticas são desafiadas. Em vez disso, aprendi que elas vêm de um lugar muito parecido com o meu. Nós todos crescemos em um mundo dominado por brancos. Este é o contexto no qual as feministas brancas estão trabalhando, beneficiando e reproduzindo um sistema que elas mal percebem. No entanto, suas habilidades de análise crítica são muito boas em identificar sistemas exclusivos, como gênero, dos quais elas não se beneficiam.

sobre o que o feminismo deve ser:

O feminismo não é sobre igualdade e, certamente, não é sobre deslizar silenciosamente para um mundo de trabalho criado por e para os homens. O feminismo, no seu melhor, é um movimento que trabalha para libertar todas as pessoas que foram marginalizadas econômica, social e culturalmente por um sistema ideológico que foi projetado para que elas fracassem. Isso significa pessoas com deficiência, negros, trans, mulheres e pessoas não-binárias, pessoas LGB e pessoas da classe trabalhadora. (...) Além das exigências óbvias – o fim da violência sexual, o fim do hiato salarial – o feminismo deve estar consciente da classe e ciente da cultura limitante da binariedade de gênero. É necessário que ele reconheça que as pessoas com deficiência não são inerentemente defeituosas, mas sim que as pessoas sem deficiência falharam na criação de um mundo físico que serve a todos. O feminismo precisa exigir moradias acessíveis, decentes e seguras e uma renda básica universal. Ele deve exigir pagamento para mães em tempo integral e creches gratuitas para mães que trabalham fora. Deve reconhecer que vivemos em um mundo em que as mulheres são constantemente instigadas a serem cobiçadas, mas punem as profissionais do sexo por usarem essa situação para ganhar a vida. O feminismo precisa reconhecer completamente que a sexualidade é fluida, e precisamos sonhar com um mundo onde as pessoas não sejam violentamente policiadas por transgredirem os rígidos papéis sociais de gênero. O feminismo precisa reivindicar um mundo no qual a história racista é reconhecida e explicada, na qual as reparações são distribuídas, nas quais a raça é completamente desconstruída.

A igualdade é boa como uma demanda transitória, mas é desonesto não reconhecê-la pelo que é – o caminho mais fácil. Há uma diferença entre dizer “queremos ser incluídas” e dizer “queremos reconstruir seu sistema exclusivo”. A primeira é mais prontamente aceita no mainstream.

sobre mulheres negras raivosas e emasculação (!):

Que mulheres negras raivosas parecem emascular homens é sexista porque faz suposições sobre as
características dos homens que inevitavelmente limitam o escopo de sua humanidade. Para acreditar na emasculação, você tem que acreditar que a masculinidade é sobre poder, força e domínio. Esses traços supostamente deveriam ser grandes nos homens, mas são muito pouco atraentes nas mulheres. Especialmente nas negras raivosas.

sobre mobilidade social:

Mudar de classe exige um mínimo de sucesso e, se você não é branco, o sucesso é uma faca de dois gumes. Mesmo se você trabalhar muito e se ver no seu melhor, haverá um debate sobre se isso aconteceu por causa de sua raça, ou apesar disso.

e por fim, sobre o papel de cada um na luta antirracista:

O trabalho antirracista – a logística, a estratégia, a organização – precisa ser liderado por aqueles no cume da injustiça. Entretanto, também acredito que os brancos que reconhecem o racismo têm um papel extremamente importante. Essa parte não pode ser feita enquanto sentem culpa deliberadamente. (...) Pessoas brancas, vocês precisam falar com outras pessoas brancas sobre raça. Sim, vocês podem ser taxados como radicais, mas têm muito menos a perder. Conversem com outras pessoas brancas que confiam em você. Conversem com pessoas brancas nas áreas de sua vida nas quais você tem influência. Se vocês se sentirem sobrecarregados por seu privilégio não merecido, tentem usá-lo para algo e usem-no onde for necessário. Mas não sejam antirracistas em prol de uma audiência. Ser branco e antirracista em sua vida privada ou profissional, onde há muito poucos elogios a serem encontrados, é muito mais difícil, mas, em última análise, mais significativo.

Se você está enojado com o que vê, e sente o fogo correndo em suas veias, então depende de você. Você não precisa ser o líder de um movimento global ou um nome de peso. Pode ser tão em pequena escala quanto diminuir as relações de poder distorcidas em seu local de trabalho. Pode ser transmitindo conhecimento e habilidades para aqueles que não teriam acesso a eles de outra forma. Pode ser de forma criativa. Pode ser informal. Pode ser o seu trabalho. Não importa o que seja, contanto que você esteja fazendo alguma coisa.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

lidos (7) e assistidos (11) em julho

dark season 3 (2020)
ok... depois de duas temporadas incríveis, as expectativas tavam enormes, né, e a terceira temporada não esteve bem à altura das outras. só de vir com isso de outro mundo já fiquei meio cabreira porque podia virar cringe. analisando enquanto assistia com as meninas entendi o problema: o jeito de contar a história e revelar os mistérios não foi igual antes, e por isso ficou tão destoante do que a gente conhecia. fiquei lembrando de um vídeo sobre como j.k. rowling escreve histórias de mistério em harry potter, em contraste com a série sherlock: no primeiro a gente vai descobrindo as coisas gradualmente, tendo pistas pra poder juntar e formular hipóteses como se estivéssemos participando de tudo, acompanhando os personagens, enquanto na outra tudo é jogado na cara sem que haja tempo pra gente pensar sozinho, porque sherlock pensa em tudo e já vai dando as respostas. e foi isso que fizeram nessa temporada, sendo que antes era do outro jeito; se tivessem mudado a ordem das revelações em vez de ficar repetindo as mesmas falas de adam com eva podia ter sido melhor. mas os três últimos episódios foram bons, e gostei do final – achei bem coerente, a coisa de ser três dimensões e não duas sempre esteve na nossa cara (tem o meio além do começo e do fim, tem 2019, 1986 e 1953...), afinal. e putz, os personagens!!! silja filha de HANNAH COM EGON, meia irmã tanto de jonas quanto de claudia, então. hannah dando o colarzinho do padroeiro dos viajantes pra mãe de katharina, que depois MATA katharina, puta merda. silja e bartosz virando casal e TENDO NOAH, jesus. e um meio termo entre jonas adulto e adam, tenso demais, chega a matar hannah. queria ter visto mais da convivência de elisabeth e noah no futuro, de como ela se tornou aquela líder fodona. MEU DEUS o pai dela morrendo,  aquela faca entrando no pescoço em câmera lenta, logo depois dela quase ser estuprada. jovenzinha e se vingou do cara brutalmente, hein. que dó, mano. melhor personagem ela, afinal, mas fiquei chateada de ver que ela não é surda de verdade. no segundo mudo quem é surda é franziska, bartosz é esquisitão e o namoradinho de martha é irmão do erik que desaparece. uma das coisas que mais me incomodou foi como essa martha chorava o tempo inteiro; muito ruim essa caracterização. meio confuso as inúmeras marthas, cinco minutos de diferença entre elas, sei lá. e que vergoinha tocar what a wonderful world enquanto todo mundo desaparece da existência ashuhs. massa o jantar dos colegas, tiraram uma com a cara dos fãs quase falando do olho de wöller, ainda por cima.

killing eve season 1 (2018)
comecei sem planejar muito e foi uma surpresa agradável. sandra oh showzona como eve polastri, uma detetive que vê e quer mais do que o emprego permite. um assassinato feio e ela tem certeza que é uma mulher; tem juntado informações sobre outros crimes que ela acha ter algo em comum. a criminosa é vilanelle, russa que mora na frança e responde a konstantin, quem dá os serviços pra ela. muito talentosa e inteligente, psicopata também, meio attention-seeker. cruza com eve logo antes de ir matar a testemunha do último crime e se atrai por ela, diz pra usar o cabelo solto. um massacre traumático e nessa eve é demitida, mas é recrutada como parte de um grupo secreto que investiga esses mesmos casos em busca da tal assassina. logo cai a ficha de eve sobre a "enfermeira" que falou com ela no banheiro e a partir daí vira uma dupla obsessão (esse é o título da série em português, aliás), vilanelle provocando eve e mandando coisas pra ela, eve tentando encontrá-la e não parando de pensar nela. a doida chega a invadir a casa de eve, véi, pede pra jantar junto, conversam. várias coisas, viagens, vilanelle mata brutalmente o parceiro de eve, no meio da balada, porque ele percebeu que ela tava atrás de eve e ficou seguindo ela. o marido de eve é polonês, acho, por isso o sobrenome; chegou até a ajudar numa tradução lá no começo antes da testemunha ser morta. mas ele começa a ficar cabreiro com o trabalho dela, muitos riscos, ela mudando, só trabalha, esquece dos compromissos com ele e os amigos. enfim, a chefe da investigação é uma tal de carolyn, toda fodona e com experiência de décadas, mas estranhamente ela conhece konstantin (tiveram um casinho no passado) e fala diretamente com vilanelle quando ela tá na cadeia num dos trabalhos dela. eve passa a desconfiar e fazer coisas sozinha, acha a casa de vilanelle e aparece lá quebrando tudo. a ota chega, elas conversam, se deitam na cama e eve esfaqueia ela. mas logo em seguida se desespera, tenta ajudar, quase se matam, e a ota foge. kkkk véi. já tinham se aproximado de novo antes, quando vilanelle tá perseguindo um carinha que tinha sido chefe de eve na polícia e que tá fazendo coisa pra organização potentona pra quem vilanelle trabalha. ela passa com o carro por cima da ex-namorada, jesus, e nem mata. por isso vai pra cadeia, pra terminar de matar a coitada. enfim, várias coisas, tô curtindo. 3 temporadas.

vozes negras (amanda condasi, flor, priscila, isa souza, maria ferreira e pétala souza)
dos 4 contos, gostei mais do segundo e do terceiro: "carimbos e memórias", de flor, priscila, e "não existem sinônimos suficientes para futuro", de isa souza e pétala souza. nesse primeiro a história é sobre essa menina chamada glorinha, que quando mais jovem ajudou numa pesquisa com a comunidade pra nomear a biblioteca da escola, e através disso conheceu carolina maria de jesus, de quem a tia do sorvete tinha sido vizinha no passado. a menina cresce, sempre gostando de escrever; vence um concurso de poesia da TV (o poema dela cita noémia de souza, carolina maria de jesus, maya angelou e a própria mãe; bem bonito) e começa a pensar que quer ter uma profissão onde pode escrever e viajar o mundo. no final ela tá num avião em direção a mais uma reportagem, de muitas, e dá a entender que ela é a glória maria. ela fala sobre ser um símbolo para outras meninas negras e tal. a outra história é mais ficção científica, bizarramente próxima do contexto atual de isolamento e pandemia. um tal de omega vírus que mata muita gente, uma doença que tem a ver com compatibilidade genética. passam muitos anos, duas gerações ou mais, e todo esse tempo as pessoas viveram em isolamentos familiares. agora tem projetos de reinserção na sociedade, jovens "trangênicos" que não provocam novos surtos, uma festa pra dar início ao convívio não-digital. mas aleduma vem de um quilombo, um refúgio onde a vida continuou sem isolamento, e a missão dela é levar enyin pra lá, mas contrariando as expectativas ela quer ficar, fazer a mudança de dentro. não sei se gosto do fim, porque foi só uma insistência a mais de aleduma e a outra se viu desmotivada e foi junto, pronto. mas a história em si foi massa, trechos bonitos, uma coisa sobre espelhos e verdade. bem escrito. os outros contos não me chamaram muito a atenção: o primeiro é daquela maria do canal/instagram impressões de maria, e fala de um relacionamento que deu errado, ida dela de salvador pra são paulo pra estudar letras, o cara negro não conseguia ficar com uma negra por causa da pressão que sofreria no ambiente de trabalho e contatos. meio sem sal, não cativou em nada, pareceu muito relato pessoal. o último é até ok, uma menina que encontra sapatilhas de balé quando ajudava a mãe no lixão, alimenta o sonho e faz aulas em ONGs até ser convocada pela companhia de dança do harlem. um indício de romance que não leva pra nada, duas amigas, festa de aniversário e bebidas, uma delas sapatão. não consigo deixar de ler esses livros e ver os erros de escrita, as letras comidas ou invertidas, a falta de ou falha na revisão. também não gosto da indecisão sobre que linguagem usar, umas coisas do tipo "ai, amiga, eu a vi no instagram" no meio de uma conversa coloquial, sabe. queria histórias que usam a linguagem do dia-a-dia mesmo, sem tentar se aproximar do literário, porque fica esse estranhamento, não parece natural. no mais, ilustrações massa. no final tem referências de livros, autores e obras.

dois garotos num navio (slaeff)
curtinho, de ler em uma sentada. referências ao passado, aparentemente recente, de quando o pai de um deles viu os dois se beijando. parece ter sido um problema, o cara reagiu mal, o filho pede desculpas pro outro. atmosfera de sonho, não querendo abrir os olhos. primeiro estão numa rua, bastante gente em volta, mas através de um beijo se transportam pro titanic. noite fria, jantam juntos, precisam correr pra ir embora porque sabem o que vai acontecer em seguida. e no fim a mãe do menino narrando o acorda, e ele vai pro velório do outro garoto. "naufrágio de um de nós". interessante a construção, foi o melhor desses young adults que tô lendo esses tempos. melancolia, né. ainda vejo defeitinhos, erros de digitação e coisa e tal, mas a composição em si foi tranquila.

onheama, a infância de um guerreiro (pequeno teatro do mundo, 2020)
uma ópera de marionetes transmitida pelo "em casa com o sesc" que analuísa chamou pra ver. sobre um eclipse – uma onça monstrona que engoliu o sol e a única esperança de trazê-lo de volta é uma criança. no caminho ele encontra yara e o boto cor-de-rosa, que se juntam a ele pra ajudar (ou atrapalhar, no caso do boto). o jeito é mandar uma flecha no focinho da onça, pra ela espirrar e vomitar o sol... ahushs, show. ela é toda robótica futurista. difícil de entender a letra às vezes, principalmente na voz da mulher, por ser agudo. podia ter legenda ou uma transcrição em algum lugar. foi divertido, bem bonito, as marionetes e tal. parece que eles mesmos que fazem, deve ser massa demais.

jeanne dielman, 23 quai du commerce, 1080 bruxelles (1975)
quanto tempo levei pra assistir esse filme de três horas? foram muitos almoços observando jeanne viver. muito louco essa abordagem, a revolução que isso foi lá atrás. tudo acontece quando nada acontece, né. eu já sabia que ela ia matar um cara, mas foi massa ir vendo as pistas. ela abre o presente e deixa a tesoura ali na penteadeira, já imaginei que seria a arma do crime. antes ela teve vários momentos de ficar com o olhar perdido, derrubar e quebrar coisas, fazer coisa errado. aquele bebê da vizinha, véi, fiquei tensa pensando que ela ia fazer algo com ele. não parava de chorar. o filho é meio tosco, né, não é capaz nem de tirar os próprios pratos. bem bosta isso da mãe/mulher cuidar da casa toda, da comida, da roupa, tudo. e ainda é uma realidade. foi bom assistir, devia ser mais conhecido. parece que a amanda miranda aqui de sbo curte muito essa diretora. se liga nas minhas anotações enquanto assistia:
- super empoeirado o cobertor na cama, viu. ela bate pra limpar e sai uma fumaça.
- então é assim que se usa uma banheira. tinha aquecedor no banheiro, então deve ser mais tranquilo no frio. e ela limpou depois de tomar banho, olha lá.
- aquela cortina pertíssimo do fogão, medo. por que as panelas tavam pra fora? talvez a geladeira seja só o clima do lado de fora mesmo. esquentou rapidinho até jantarem.
- eles nem mastigam direito, só vão engolindo. aposto que aquela comida toda no prato dele foi pro lixo, pena.
- ela lê a carta quase sem respirar. o menino nem fala nada, que bosta.
- só saíram de noite pra botar a coisa pra fora e dar uma volta?
- ele não tem quarto, então. toda noite tem que afastar os móveis e fazer isso
- abriu a janela mas tá tão cedo que nem iluminou
- ligou o aquecedorzinho... trocou toda a roupa do cara. até engraxou o sapato
- agora tem duas cadeiras na cozinha!
- que rápido esse café
- haha isso de deixar a roupa de dormir debaixo do travesseiro
- dois segundos de bebê
- a velhinha ali só de enfeite
- que escuro esse lugar que ela toma café. vontade de acender o lustre acima dela
- a hora do cara estranho!!! dois segundos e já saem, mas ela tá de cabelo bagunçado. o cara da dinheiro e diz "até quinta-feira"... sabia que ia acontecer coisa desde de manhã que ela botou aquele paninho na cama. eca
- perspectiva diferente da cozinha! será que ela percebeu que deixou a panela no fogo? parece meio atordoada, levando a panela pra lá e pra cá. só mais uma batata, é isso? vai sair pra comprar ou emprestar?
- coitada. terceira vez que vai na rua no mesmo dia
- essas batata marronzona. aí tem que descascar mesmo. olhar vazio, perdida em pensamentos
- sempre mandando ele parar de ler e comer
- aff ele parado depois de terminar. ela já pega os pratos e leva pra cozinha...
- a entrada é sempre uma sopa, então
- "un petit minute"
- nem conversam eles, ele nem responde o que ela diz
- que negócio é esse que ele faz e tem prova de natação?
- esse corte confuso, bem quando ele afasta o livro muda pra ela segurando um e depois fechando, ele escrevendo no caderno
- "não vamos ligar o rádio hoje?" por que você mesmo não faz, véi?
- o "sair" deles é dar uma volta no quarteirão? sempre esse escuro que não dá pra ver nada, só ouvir o saltinho dela
- que papo doido é esse, menino. o membro masculino é uma espada que machuca, uhum. idade de se interessar por mulheres, ele diz, com essa cara de vinte e poucos
- ela sempre abotoa todo o negócio azul que veste
- todo dia engraxar sapato, véi
- os mesmos gestos, até. o jornal debaixo do braço, o sapato em cima do lixo...
- ele apontou o botão aberto... wow
- tinha achado estranho ela colocar o prato ensaboado no escorredor e ela percebe, fica confusa! show
- tem uma bacia que fica sempre na pia. interessante
- nossa, super fino esse "colchão" onde o cara dorme né
- todo dia ela faz tudo sempre igual...
- derrubou um talher, tinha derrubado a escova de engraxar... olha só
- não entendo esse lugar que ela vai. bureau, ingang... ela que saiu cedo demais, foi?
- esqueceu a sacola...
- o número 23 esquisito fechado? que lugar é esse?
- que trabalho infinito essa carne...
- olha a sacada!!!
- que é isso que ela tirou da panela?
- nossa, jogou o leite com café todo fora??? chega pensei que era o leite estragado
- queria menos café será? esses cubinhos de açúcar, jamais vi
- de novo!!!!!! por quê? tá ruim o café?
- chaleira engraçada, uma rosquinha
- tá na bad hoje, né, minha filha. i feel you
- arrumar/limpar a casa pra ver se se apruma
- eita, vai receber gente. é agora
- sempre teve essas poltronas e a mesinha? não tô lembrando
- só bonjour e nada mais, que seco né
- que choro gritado horrível
- pega, senta, repete... que agonia
- essa porta nunca é trancada né
- cenário novo! escadas rolantes
- já tinha gente onde ela senta...
- não vai tomar? pô
- o marido morreu então
- antes as roupas vinham com papel assim mesmo, né? lembro
- a tesoura ficou ali.............
- o cara sem reação aí em cima dela... não entendi se ela tava querendo tirar ele porque tava desagradável ou porque ela tava gostando. a cara que ela faz, se esconde no cobertor...
- wow hein. e todo esse tempo contemplativa. uma expressão de felicidade?
- FIM

crickets (2020)
curta de kristen stewart nessa série da netflix "feito em casa". talita correu assistir assim que carol avisou que tinha ela. uns pensamentos de isolamento, insônia, delírios. very relatable. massa que ela fez sozinha com a namorada, aparece no final (e também os nomes de quem editou e tratou a imagem). los angeles, parece, né. é isso, tá todo mundo na merda.

12 years a slave (2013)
mano, que história pesada. solomon northup existiu mesmo, e depois daquilo tudo se tornou um grande antiescravagista, atuando nos eua todo. ele vivia com a esposa e os dois filhos numa casa própria e era um violinista bem sucedido, mas numa viagem com uns caras do circo foi capturado e mandado para o sul como escravo. teve que fingir ser analfabeto, foi traído quando tentou mandar uma carta pra família e por isso desistiu, sofreu muita dor e humilhação. a personagem de lupita nyong'o, meu deus do céu, que horror. ela pedindo que solomon a matasse, o ciúme da esposa do senhor, os castigos, as feridas... o prêmio que ganhou pelo papel foi mais que merecido. quanto branco de merda, até os mais gentis não tinham coragem de peitar o sistema perverso. brad pitt aparece pra questionar isso e por fim ajuda solomon, que até outro nome tinha recebido. muito triste ele ser levado embora enquanto os outros negros que conheceu ficam pra trás. tem essa matéria sobre luiz gama, "nosso solomon northup", que quero ler ainda.

killing eve season 2 (2019)
a primeira terminou assim que eve esfaqueia vilanelle e essa termina quando vilanelle atira em eve. não entendo essas coisas de série em que a polícia acha o criminoso e faz acordos com ele, usam ele pra resolver outra coisa. é o que acontece aqui, vilanelle participando do interrogatório de uma assassina fodona que nem ela, depois fingindo ser amiga da irmã de um steve jobs escroto pra se aproximar dele e descobrir com o que tava envolvido. claro que no fim ela o mata, numa cena em que eve pensou que vilanelle ia se virar contra ela, mas carolyn tinha isso dentro das expectativas e não tá nem aí. foi à gota d'água pra eve; combinou de fugir com vilanelle e por um momento tava tudo lindo, lésbicas nas ruínas de roma, meu deus se beijem, mas ela amarela e toma um tiro de raiva de oksana. essa temporada foi massa, as coisas se intensificando; o que foi aquela cena de oksana transando com eve pela escuta? e o boy tosco da investigação junto, usado por eve, coitado. quase morre, eve deixa ele pra ir salvar oksana, véi, o amor. e ela com o machado no cara dos twelve!!! puta merda. é nessa temporada que ela quase empurra um cara na linha do metrô, né? porque ele passou trombando nela sem nenhuma educação. acho que tô curtindo mulheres assassinas, hein. oksana mandando a real na terapia com a irmã do cara lá, falando sobre estar sempre entediada e não saber por que faz o que faz, o que quer, etc. tô misturando um pouco a segunda e a terceira temporadas porque emendei uma na outra, mas gostei de ambas igualmente.

killing eve season 3 (2020)
no começo oksana tá se casando mas nunca mais tocou no assunto, não entendi a necessidade. aparece uma russa dinossaura que foi a professora dela, ginasta. aí ela decide voltar pros twelve e tentar subir de nível, mas perde a paciência com o aprendiz e o mata, véi. o menino era gay também, fez a maior patchotcheira matando a vítima na festinha de criança. eles vestidos de palhaço ahushs. roupas de oksana sempre on point, adoro a lesbian energy dos terninhos. e woooah o beijo dela e eve no ônibus!!! uma luta toda doida e depois isso, aiai. antes ela nem sabia que eve tinha sobrevivido, coitada. eve tá mal, vivendo num apartamento minúsculo, trabalhando num restaurante de comida coreana com conhecidos da família. carolyn surge pra avisar que vilanelle voltou à ativa. kenny morre, pô!!! brutal demais, caído do prédio. e claro que konstantin tá no meio de tudo. a filha dele, aliás, não falei dela antes, mas what a little lesbian! gosto de como é andrógina e irritantemente inteligente. a coitada mata o padrasto, parece influenciada por vilanelle, no fim tem que ficar numa instituição por causa dos sinais de psicopatia. adorei o final! ela e eve se perguntando sobre o que viria depois, oksana falando pra andarem cada um pra um lado e não olharem mais pra trás, e depois de uns metros as duas olham pra trás *------* asuhsuh. nossa, o marido de eve quase morre nas mãos daquela véia ginasta, lá na polônia (teve PTSD depois de oksana matar a paquerinha dele e deixou eve – "fuck off forever" haush). oksana visita a família, mãe doida, mata ela explodindo a casa toda. deixa dinheiro pro menininho fã de elton john, só deixou ele e outro irmão vivos. tem várias coisas bobinhas, tipo isso de konstantin voltar toda hora ou outras repetições nada surpreendentes, mas o humor e a narrativa são muito únicas. não resolveu tanta coisa assim, mas acho que foi um bom final. ou pensei que ia ser, né, mas esses dias vi na internet que as filmagens da quarta foram adiadas por causa do corona. não acho que precisa, mas MANDA.

struwwelpeter (heinrich hoffmann)
umas historinhas bizarras sobre crianças malcriadas que sofrem consequências absurdas, pra ensinar pelo medo o que não fazer. anisha deu uma história chamada die geschichte vom suppen-kaspar, em alemão (super punk e tenso esse vídeo), e reconheci as ilustrações; era desse livro que era de rômulo, acho. li as outras rapidinho, são em forma de poema, com rimas e tal. interessante de pensar como era isso, ou se sempre foi humor mesmo. é de 1840 mais ou menos.

angola janga (marcelo d'salete)
li cumbe na casa de thiago e peguei angola janga na biblioteca antes da pandemia estragar tudo. fui ler só agora, na pretatona, mas pelo menos deu certo de eu ter um quadrinho de um autor negro pra preencher uma das categorias. massa como ele enfatiza que essa é uma história de palmares, não a história, porque tem tantas possíveis. aqui zumbi foi criado como livre, tendo sido tomado pelos portugueses quando bebê, porque os pais foram mortos num ataque a um quilombo. era instruído e protegido por um padre, e num dia em que outro menino ameaça machucá-lo com instrumentos de tortura de escravos ele foge pela serra da barriga. mas o quadrinho vem desde antes, acompanhando um escravo fugido chamado soares, que depois vai ser a mão direita de zumbi. no final é quem entrega seu paradeiro, também, sob a promessa de liberdade dos bandeirantes. um antagonista que eu não conhecia era zumba, que foi ganga de um quilombo também, mas que fez um acordo de paz com os portugueses pra viver em cucaú. zona era quem o influenciava, mais que tudo, e esse tinha sido homem de zumbi antes de discordar com ele e partir caminhos. a história mostra isso tudo, o massacre de indígenas no recrutamento pra guerra, a guerra em si. o uso de canhões foi decisivo na vitória dos portugueses. muita destruição e dor na construção dessa terra, né. mas é isso, olhar pra perspectiva não hegemônica, ouvir as vozes negras contando sua própria história. muitas referências, mapas e dados no final; 11 anos de dedicação... foda. espero que teja circulando bem, nas escolas e tal. uma leitura bem importante.

the ones who walk away from omelas (ursula k. le guin)
que conto incrível. o narrador vai descrevendo esse lugar chamado omelas, que parece utópico, e numa hora ele até provoca dizendo que aquilo não era nada irreal. que as pessoas eram complexas e educadas como qualquer um de nós, que a ausência de problemas e maldades não se explicava por nenhuma simplicidade. sem guerras, doenças, tristeza. massa como o narrador às vezes diz pro leitor imaginar o que quiser, que não se importa. e aí ele conta a que custo omelas é assim: em algum lugar de omelas há uma criança, sozinha, trancada perpetuamente num armário de vassouras, vivendo sobre o próprio excremento, demente. alguns habitantes vão vê-la, outros voltam a vê-la, mas todos prosseguem com suas vidas. nessa já entendi porque existiam aqueles que abandonam omelas, e é por isso mesmo. aqueles que não conseguem continuar fazendo parte daquilo sabendo o que o sustenta. pequeno e impactante, gostei de começar a ler ursula le guin por aqui. muitos pensamentos reverberando, por muito tempo, com certeza. quero fazer as meninas lerem a tradução do projeto cápsula pra gente conversar sobre.

pequeno manual antirracista (djamila ribeiro)
bem curtinho, vários capítulos pra tratar os diferentes âmbitos atravessados pelo racismo e orientações de como assumir atitudes antirracistas diante disso. achei conciso mas completo, discussões bem amarradas, bastante didáticas. é mesmo o que se propõe, um manual. fiquei desejando dar pra minha mãe ler, minha família. quem sabe. muitas referências pra consultar, também; muitos escritores negros e trabalhos importantes. não cheguei a anotar porque já reuni umas coisas (que vão me consumir por um bom tempo), e também porque sei que posso pegar sempre, já que é de carol, mas penso em ter esse livro um dia.

what we do in the shadows (2014)
vimos sob o uso de cannabis e foi absurdamente bom, mas já queremos rever porque tem referência demais pra pegar em só uma assistida. feliz que toparam ver taika waititi em vez de qualquer filme americano, e já baixei mais um monte de coisas dele porque gosto do humor e do estilo que ele tem e coloca nas histórias que conta. muito bom a coisa de vampiros serem gatos e lobisomens cachorros!!! a velhinha dizendo que já conheceu um lobisomem, que era muito gentil ahushus. sempre bonzinhos e preocupados em serem justos. se acorrentando pra lua cheia huash, até o camera man é atingido... e a surpresa do colega humano reaparecendo ahsuhs véi. muito tosco o vampiro mais novo, nick, né? e the beast sendo a ex-namorada de vlad haushus. coitado do nosferatu. talita disse que na cena do baile teve um espelho em que só o humano aparecia haushs muito boa essa parte! todo mundo chocado e tentando entender o que ele era kkkk. julia já tinha recomendado, apesar de eu conhecer antes disso e ter visto no letterboxd de puiupo também, e na hora sugeri que a gente visse com ela ou esperasse ela voltar pra vermos juntas. agora tá uma bosta, né, tudo arruinado e esquisito. mas foi bom, espero que dê pra contar pra ela o que achamos, sei lá.

hibisco roxo (chimamanda ngozi adichie)
não sabia nada sobre, e confesso que acho as edições da companhia das letras meio feias. não as ilustrações ou as cores (apesar de eu não gostar mesmo do roxo da capa desse ou da combinação roxo e vermelho), mas as fontes, véi... essa do título e a que sempre botam o nome da autora. enfim, já comecei me interessando pelo que a orelha propõe, dizendo que o leitor brasileiro poderia se reconhecer nos temas abordados, colonialismo e cristianismo. mas não esperava que fosse tão forte, sensível e bonito. primeira vez que leio chimamanda escrevendo literatura, e que talento, viu. umas coisas sutis mas absurdamente potentes; as diferenças entre a família de kambili e da tia ifeoma, como o pai pedia pra deus salvar a alma do avô "pagão" enquanto a tia pedia por sua saúde, como ela rezava pelo riso e confiava nos filhos pra fazer os saltos que ela esperava deles. a mudança no tratamento que a prima amaka dava a ela, como vão se tornando irmãs. jaja incorporando a rebeldia, sempre protegendo a irmã e a mãe. a língua dos olhos que tinham. e a mãe, meu deus, as descrições dela com o olho da cor de abacate muito maduro, ela envenenando eugene!!! não esperava por isso. que horror as agressões que elas sofriam, beatrice perdendo o bebê, kambili quase morrendo. e o romance platônico com o padre amadi, não imaginei que teria, também. mas foi tão doce, triste. o hibisco roxo, experimento da amiga da tia, como símbolo da mudança. tudo isso no meio de uma crise nacional, ainda por cima; golpe, paralizações, subornos, desigualdade. muita dor nesse livro, tão profundo essa coisa de religião e colonialismo e vida. kambili não sabia conversar, sabe, nunca sorria. corria assim que terminava a aula na escola porque senão apanhava por tomar tempo do motorista da família. o breve contato com papa-nnukwu, a pureza de ser "pagão", a conexão dele e amaka. a pintura, o enterro. nossa, que livro. daquelas histórias que marcam mesmo, que eu sei que releria um dia. que bom que é tão conhecido.

the half of it (2020)
filminho romance de netflix que você já sabe o que esperar. quando ellie e aster tão conversando na água fiquei prevendo as falas, "lonely" pra não acreditar em deus, etc. e que tosquinho a menina falando de se casar com o namorado idiota, você não tem nenhum senso de autonomia, não? imaginei ellie reagindo àquilo do jeito que falou do filme em que o cara corre atrás do trem, "morons". quais as chances de alguém ter teorias tão assertivas sobre o amor e relacionamentos? isso de alguém conquistar uma garota através da escrita ou planejamento de outra pessoa... previsível, né. essas coisas de filme adolescente em que as pessoas fazem arte juntas, criam uma coisa toda nova e inusitada, que jamais aconteceria na vida real. fiquei pensando nos produtores arquitetando isso, algo irreal mas faz parecer romântico. (elas grafitam uma parede juntas, "pincelada" por "pincelada", enquanto deixam recados sobre arte e blábláblá.) a voz da atriz que faz ellie é muito boa de ouvir, que é isso... mas também não é uma voz rara, né, dá pra imaginar um nome pra como essa voz é conhecida, até. meio rouca ou garganta raspando, madura, lésbica. e o menino apaixonado por aster, que feio, putz. enfim, filme okzinho, chorei fazendo paralelos com a minha vida medíocre. "have you ever loved someone so much you don't want them to change anything?"

black is king (2020)
no mesmo dia que lançou carol já recebeu link pra baixar em torrent e assistimos em 1080p, com legenda e tudo (loucura a pirataria). eu nem ia assistir, mas ela e analuísa ficaram enroladas esperando mariana (que no fim nem viu) e aí deu pra eu pegar tudo. analuísa disse que ficou arrepiada desde o começo, o que foi uma sensação ruim de ficar ligadona por tanto tempo... mas todo mundo ficou sem palavras. chorei algumas vezes, mas na maior parte do tempo estive com os olhos arregalados tentando não perder nenhum detalhe. sinto beyoncé como um messias, sei lá, alguém que chama e guia uma multidão. e é isso mesmo, né? as partes em que ela fala, sem cantar, umas coisas potentes e grandiosas... afrofuturismo no deserto. a filhinha junto atuando e dançando, orgulhosa do "this bloodline" na música do they'll never take my power. wow. feliz em ver isso. carol chamou a gente pra ver o lemonade qualquer dia, e topam rever black is king também; vou aproveitar as oportunidades.

terça-feira, 30 de junho de 2020

lidos (5) e assistidos (8) em junho

morella (edgar allan poe)
o cara que narra, claro, e fala dessa mulher com quem se casou. nada de amor ou paixão, mas a erudição dela o impressionava. ela tinha um fascínio pelo místico, literatura alemã antiga e sei lá mais o quê, uns temas de identidade. e o cara passa a odiá-la, fica na esperança de que ela morra, e quando finalmente tá pra morrer ela diz que vai viver através da criança deles. e essa criança nasce assim que ela morre, e cresce prematuramente com uma mente afiada que nem a mãe, uma maturidade e seriedade que não combinam com a idade, e o cara nunca dá nome pra menina. até que ele vai batizá-la e pensa em mil nomes mas o que sai da boca é "morella", e assim ela morre. uns negócios meio perturbadores parecendo possessão. gostei, curto esse, mas teve esse thriller e horror massa.

elektra (2005)
claro que iam usar algum misticismo oriental pra reviver elektra e ensinar umas lutas a ela. coisa de não precisar ver pra enxergar, se mover mais rápido que a luz e umas baboseiras parecidas. mas o líder manda ela embora, e então ela começa a trabalhar como assassina de aluguel, porque "é nisso que eu sou boa". mandam ela pra uma casona numa ilha e lá ela conhece uma menina de 13 anos, abby, e o pai dela, mark. logo em seguida recebe os detalhes do trabalho da vez: matar os dois. claro que ela não consegue e entra num negócio de ajudá-los a fugir, e tem os caras do mal que caminham esquisito e sorriem que nem bestas. um deles tem tatuagens de bichos e os bichos saem dele pra vigiar ou atacar os outros. outra é uma mulher que tira a vida das coisas, inimiga da greta thunberg, e ela beija (!) elektra pra imobilizá-la. uma coisa de elektra se ver na menina abby, que na real tá sendo perseguida porque é um prodígio e o lado ruim a quer, coisa das mães terem sido morta quando eram pequenas. uma luta besta num labirinto, o cara ruim jogado no poço e elektra revivendo abby. mas vai embora no final porque tem que ter a tensão de "vamos nos encontrar de novo". muuuuito ruim, hein. cansada desse tipo de filme há muito tempo.

mad max 2: the road warrior (1982)
muitíssimo melhor que o primeiro. as coisas "ruins" é engraçado, dá pra ver que é o que era possível fazer na época. tem aquele ator com a cara compridona que faz wo die grüne ameisen trüamen, ele tem um veículozinho que voa. max passa por uma armadilha dele e o acorrenta, leva ele junto. max tem um cachorro; tem uma hora que come uma lata de comida patêzuda e dá o resto pro cão, e o cara tenta pegar os restos. foi acorrentado porque dizia que tinha uma fortaleza de petróleo ali por perto, e max chega lá resgatando um homem que era um deles. umas pessoas vestidas de branco, loiras... do outro lado tem os doidos da estrada, um de moicano e sobrancelha feita com um loirinho na garupa da moto, bem bestão. estupram a mulher que tava com o cara e a matam. o líderzão desses, mascarado musculoso seminu, faz uma oferta de deixarem eles em paz se cederem a fortaleza. tem uma criança dentre os "bons" que é toda guerreira, usa um bumerangue assassino (mata o loirinho do cara feio!), só responde grunhindo. muito videogame esses personagens. dão gasolina pra max ir buscar um caminhão que ele diz ter visto na estrada e que daria pra eles levarem a bomba de gasolina que têm, e volta todo estrupiado mas consegue. ia se mandar mas o atacam de novo, matam o cachorro, o carro explode. volta rastejando pra fortaleza e se junta, quer pilotar o caminhão ainda, pra despistar enquanto os outros se espalham e vão correndo. querem ir pra um lugar que acham que é um paraíso, ao norte. bem boa a perseguição e luta na estrada, vi bastante coisa do mad max de 2015 já aqui. no fim tinha areia dentro, só, e o narrador era a criança fãzinha dele. o da cara comprida não morre nunca, o de moicano fica numa coleira de corrente de castigo... gosto dos carros que são só esqueletos.

speak (2004)
kristen stewart com 14 anos de idade sendo personagem principal, melinda. já tinha assistido mas nunca fiz review, lembrava bem mas chorei igual. ela tinha três amigas mas depois de chamar a polícia numa festa durante as férias se dissolveram. fez isso porque um garoto mais velho fica com ela e a estupra no carro dele. o pior é que uma das amigas tá namorando ele agora. ela fala francês e ajuda uma estudante intercambista, tá se preparando pra ir estudar na frança. as outras não aparecem tanto, mas uma chega a ser ok com ela na aula de artes. o professor é até legal, dá um tema pra cada aluno trabalhar ao longo do semestre, ir desenvolvendo arte sobre. o de melinda é "árvore". tem uma cena boa dele revoltado com a escola por cortarem o orçamento pras artes e o terem repreendido por dar muitas notas altas. loirinha tagarela no ônibus que quer ser popular e dá um fora de amizade em melinda por ela ser muito deprimida; professora de inglês de cabelo desgrenhado e toda doida que melinda vai meio que virando; professor de história fascista do caralho, "mr. neck" ainda por cima. fica implicando com melinda, pede uma redação pra ela recuperar as notas baixas que ele tá dando pra ela mas a reprime quando em vez de apresentar oralmente ela pede pro colega falar sobre o direito de não fazer isso e distribui cópias pra sala. sobre as sufragistas... a legenda era péssima, toda hora errando coisa, deixaram "sufrajettes" véi. ela constrói umas artes legais, tipo um bicho com os ossos do peru de ação de graças rodeado por garfos de plástico, uma tela com uma árvore atingida por um raio. no final mostra pro professor, que vai sair da escola, a salinha escondida que apropriou e encheu de coisa, várias árvores. ele chora! eventualmente ela contou pra amiga sobre o estuprador, ela não acredita de início, o cara a confronta no quartinho e ela o machuca com spray de pimenta ou sei lá. várias meninas abrem a porta e o pressionam. termina com ela finalmente falando pra mãe o que aconteceu. pais meio bestinhas os dela, a mãe nem se liga nela. gosto do filme. parece que é independente, adaptação de livro.

pétala (olívia pilar)
duas meninas bissexuais que estão juntas há 2 anos, sem serem exclusivas nem nomear propriamente o que são. bruna se prepara pra dizer à pétala que quer dar um passo adiante, e quer se desculpar por definir as coisas no começo (na única vez que pétala viu os pais dela, bruna a apresentou como uma amiga). pétala diz que por ter ficado em silêncio consentiu, também decidiu, e que ela não devia se responsabilizar tanto pelas coisas. se encontram num café de esquina em belo horizonte, rua movimentada, lugar onde se beijaram pela primeira vez. pétala tem uma situação mais delicada com os pais, bruna conversa com o irmão mais novo dj... a primeira faz arquitetura e a outra química, pétala muito segura de si e bruna mais incerta e receosa, se segurando no que conhece, pedindo o mesmo café sempre. conto curtinho, vai intercalando a cena no café e as lembranças de bruna. não sou muito de romance em livro mesmo, viu, mas não foi ruim; a escrita é boa. representatividade negra e lgbt.

cloudburst (2011)
não esperava que fosse ser tão levinho e engraçado! um casal de lésbicas de uns 80 anos, cabelinhos brancos e tudo: uma gordinha cega (dotty) e a outra butchzinha marrenta e pervertida (stella). primeiro dotty cai da cama enquanto stella brinca provocando ela com um vibrador, e volta do hospital com uma prescrição de repouso por várias semanas. a neta de dotty aparece pedindo pra ela assinar um papel, dizendo que é tipo um atestado de que stella não tinha sido responsável por machucá-la, mas no final a gente fica sabendo que era um negócio passando as coisas pro nome dela... a neta é tão besta que nem admite pra si mesma que a avó tem um relacionamento lésbico, apesar delas estarem juntas há 31 anos já. stella briga com ela mas acaba que levam dotty pra um asilo, do qual stella a resgata muito artimanhosamente, se passando por paciente e tudo. descobrem de alguma forma que a neta fez aqueles anúncios de procurados pra elas, então decidem ir pro canadá pra se casarem, e no caminho dão carona pra um tal de prentice, jovenzito dançarino tentando visitar a mãe doente. começam essa roadtrip toda torta, stella sempre muito arrogante e arrumando problema, prentice cuidando delas, dotty a voz da razão. muito engraçado quando eles se dividem pra "despistar" (coisa de stella) e têm que passar na fronteira do canadá; com dotty dá tudo certo mas com stella vira uma confusão de revista corporal completa. a piada que ela faz depois, quando prentice diz que quer "leave it all behind" ahsuhus véi. única coisa ruim, mas que é claramente apelação de filme de humor, é dotty deitando na cama com o pai de prentice pelado e o pinto dele indo parar na cara dela de um jeito nada a ver. e ela caga no bidê dele kkkk no final prentice faz um discurso legal sobre o amor delas, mas a neta interrompe o casamento e tem que ser casadas às pressas por prentice quando dotty sente que vai morrer. e morre :( poxa. mas curti o filme, surpreendente, tava precisando. vi talita e eu em dotty e stella no começo, afinal... somos um casal de velhas, é isso.

ralph breaks the internet (2018)
ralph e venellope amiguinhos etc, bebendo num bar até, ok. chega uma tomada nova no negócio e é wi-fi, mas o bichinho que controla tudo passa uma fita pra ninguém entrar. só que aí uma menina tá jogando o jogo de venellope e quebra o volantinho tentando assumir o controle da personagem dela, que tava indo por um atalho novo que ralph fez (porque venellope disse que já conhecia tudo no jogo, etc e tal). e aí as crianças usam os iphones pra buscar outro na internet, mas só tem um, no ebay (que específico)... e o dono do fliperama não pode comprar porque é muito caro, então claro que ralph e venellope se metem no wi-fi pra buscarem o negócio eles mesmos. legalzinho como construíram a internet: cada pessoa tem um avatarzinho de cabeça quadrada que fica andando por aí e jogando coraçõezinhos nas coisas que dá pra curtir. nem sei como é o ebay mas quando acham o volante funciona que nem um leilão, e eles se divertindo em falar números cada vez maiores acabam comprando o negócio por $24.001,00. primeiro "clicam" num anúncio de "ganhe dinheiro jogando!" e vão pro site caindo aos pedaços do brother, e precisam pegar o carro de uma tal shank, de um jogo, pra resgatar o dinheiro. quase conseguem, venellope pilotando muito, e no fim shank os orienta a ir pra uma tal de yesss, de uma variação do youtube. aliás, MUITOS anúncios hein, trocentas marcas de sites aparecendo, mas pra yesss talvez seria caro demais trabalhar com uma plataforma real como o youtube. ralph faz (mentirosamente) um bocadão de vídeos virais pra ganhar curtidas e conseguir dinheiro, mas venellope ficou encantada com o mundo de shank e quer voltar lá, mas não tem coragem de contar pra ele. conflitos, um vírus pra estragar o jogo e trazer ela de volta trapaceiramente, destruição na internet e um apaziguamento mentiroso depois, e ralph volta pro fliperama tendo comprado o volante, enquanto venellope fica no jogo de shank, felizes. lesbian energy essa shank, hein. muito bom o movimento aleatório de arregaçar as mangas que ela faz enquanto conversa com venellope!

berenice (edgar allan poe)
não entendi nada, ainda mais com talita lendo e eu deitada com sono. berenice era uma prima do cara, antes toda iluminada e descomplicada, enérgica, enquanto ele era esquisito e indisposto. ela adoece gravemente e ele oferece pra casar com ela, por algum motivo, e claro que cria uma obsessão pelos dentes da mulher. ela morre, supostamente, mas depois vão atrás dele na biblioteca e vêem uma pá num canto e ele todo sujo, e os dentes de berenice numa caixa... sem ele ter se dado conta. e ainda tava viva, a coitada. creepy.

a streetcar named desire (1951)
blanche vai visitar a irmã stella onde ela mora, em new orleans. parece que faz tempo que elas não se vêem, algo sobre stella ter deixado a casa dos pais de um jeito meio rancoroso, "abandono". blanche era professora de inglês e aparece dizendo que teve que se afastar no meio do ano letivo por causa dos nervos dela, porque não tá bem e precisa de companhia. mais tarde revela que perdeu a propriedade da família, que precisou do dinheiro pra pagar pelos funerais e enterros dos pais e talvez outros familiares que morreram. blanche é muito teatral e mórbida, um pouco delirante, sente a morte se aproximando dela. uma senhora mexicana oferecendo flores aparece duas vezes, e ela foge dizendo "agora não", assustada. o marido de stella é stanley kowalski, marlon brando (que voz feia, aliás), um idiota nojento e violento que quebra tudo e grita com elas. mas sempre stella volta pra ele abraçando e chorando depois de dois minutos. e ainda tá grávida... ele não confia em blanche, exige que ela mostre papeis comprovando a perda da propriedade, se preocupa porque por um tal código napoleônico "tudo que pertence à esposa pertence ao marido e vice-versa". um dos amigos com quem stanley joga pôquer é mitch, o mais decente, que se aborrece com as atitudes dele e enxerga blanche como especial. começam um romancinho, mas depois de um tempo stanley descobre umas coisas dela e conta pra ele, o que estraga tudo. blanche ficou um tempo recebendo gente num hotel antes de vir pra casa deles, ganhou má-fama na cidade e tudo, mas quando confrontada ela diz que era pra se sentir viva, menos solitária, já que a juventude se esvaía. quando era jovem teve um esposo que se matou, também, depois dela ter dito que perdera o respeito por ele. gosto de como a voz dela engrossa e ela fica sombria quando fala sobre o que teve que fazer no passado, música acompanhando, parecia coisa de edgar allan poe. numa discussão stanley a agride e ela fica pior ainda nas ilusões, até que no final chamam gente de um hospício ou sei lá pra levá-la embora. a coisa do "bonde chamado desejo" é porque blanche tem que pegar ele pra chegar na casa de stella, e no final ela fala sobre a morte ser o oposto do desejo. muitos problemas de machismo e preconceitos, mas achei mais interessante do que esperava. essa coisa dos anos 50 de atuações dramáticas, o jeito de falar sulista e cantado de blanche... ela é vivien leigh, afinal, scarlett o'hara de e o vento levou. acabei pesquisando sobre pra saber mais do tal racismo que não percebi quando carol me emprestou o filme, uma década atrás, dizendo o quanto amava a história.

el abrazo de la serpiente (2015)
duas histórias: a de theodor von martius, um etnógrafo alemão que esteve na amazônia por muito tempo, e a de richard schultes, décadas mais tarde, indo atrás de uma flor sagrada orientado pelos trabalhos do outro. os dois pedem ajuda de karamakate, um indígena cujo povo foi todo dizimado, e que vive isolado. outros povos o chamam de "movedor de mundos" ou algo assim. theodor precisa dele pra chegar onde supostamente o povo dele ainda vive, pra usar a tal flor pra curar a enfermidade que contraiu. o cara já tem a companhia de outro indígena, manduca, que entende que a única chance que os indígenas têm de continuar existindo é educando os brancos, os aceitando e falando com eles. karamakate não gosta muito deles mas acaba ajudando, caçoando do branco de vez em quando. não esperava ouvir alemão nesse filme, que aliás tem muitas línguas! os três passam pela aldeia de uns amigos de theodor, que pegam a bússola dele, ao que ele reage mal (é rude com um menino e fica bravo, dizendo que se usarem ela vão perder o conhecimento que tem sobre localização espacial... mas acho que não seria tão definitivo assim, né, se é uma bússola só e nem sabem como utilizar. deve ser mais o fascínio por uma coisa curiosa, mesmo. aliás, que incrível isso de saber se orientar pelas estrelas, saber quando as águas pedem pra remar o barco, conhecer os rios e a floresta... que riqueza). passam por um lugar onde um jesuíta catequiza rigorosamente indígenas crianças (ele os proíbe de falar suas próprias línguas e dá nomes espanhóis a eles), e acabam libertando eles e fugindo. no fim a comunidade de karamakate foi corrompida, cultivam a tal planta em vez de deixá-la nascer, estão viciados em coisas de branco. então ele destrói a planta toda e abandona theodor, que aparentemente morre, e seus estudos são mandados pra alemanha por manduca. depois viram um livro, e é o que richard usa pra buscar a flor, e nessa pede ajuda de karamakate mais velho, esquecido. ele diz ter se tornado um chullachaqui, que é esse duplo que toda pessoa tem, mas é vazio e oco, sem memória. quando jovem disse a theodor que a foto que ele tinha tirado dele era seu chullachaqui. interessante isso. depois com richard chegam a parar no mesmo lugar onde o jesuíta tava, e dessa vez tá muito pior: um português louco, canibal e estuprador, comandando um bocado de seguidores indígenas num delírio coletivo. e ao longo da jornada repetida karamakate vai recobrando as lembranças, mas dessa vez leva o cara à última flor, e a prepara pra ele consumir, apesar de ter sido ameaçado de morte. diz ser essa a missão dele, e que já se encontraram antes, não só há 40 anos mas desde o começo dos tempos, como se aquela fosse uma segunda chance. única cena colorida do filme é a viagem do cara, umas visões de padrões de desenho, karamakate jovem explodindo em luz. acaba com richard acordando sozinho. achei muito bom, esse jeito de falar da questão indígena, a narração. li sobre e o diretor diz ter dado total liberdade pros indígenas participarem atrás das câmeras também, na construção da história e do jeito de contá-la, que pediram licença pra floresta e seguiram o funcionamento de lá, e que por isso correu tudo certo e não tiveram acidentes ou problemas. que bonito. quero que a casa do mato veja, quero manter comigo e rever, revisitar.

born with it (2015)
quis assistir depois de ver @shimabukkake compartilhando que teria exibição desse filme seguido de discussão com uma etnóloga negra e okinawana. perdi a conexão de internet e não consegui ver a conversa toda quando voltou, porque tiraram do ar, mas aparentemente vão colocar de novo na próxima semana. o filme é um curta, na verdade, de 17 minutos, e é sobre esse menino de 10 anos chamado keisuke que entra numa escola nova em algum lugar no interior do japão. a mãe é japonesa mas o pai era negro (ele diz que morreu), e quando ele chega se apresentando pra classe as crianças se surpreendem por ele falar japonês. "nihonjin dakara desu", né, mas o preconceito é tanto que chegam a espalhar que ele tem aids e por isso tem a pele escura. um menininho dá atenção pra ele e brincam juntos, mas keisuke se machuca; depois eles acham sangue no outro, bem após ele ter dito que aids só passava pelo sangue e que ele não precisava usar máscara. o pior é que eles vão pesquisar na internet sobre a doença e só tem foto de pessoas negras, africanas, onde a aids dizimou feio. keisuke foge, conversa com a mãe mas acha que ela não entende por ser branca, vão ao médico pra conferir os exames dele. a mãe conta o que o pai costumava dizer e o orienta a lutar as próprias batalhas, e termina com ele voltando pra escola e indo encarar uma classe de alunos chocados na janela. uma representação forte essa, da infância, né... o próprio médico diz que no interior era mais punk (antes eles moravam em tóquio). acho que devia ter uma conversa partindo dos representantes da escola, ainda mais com uma acusação tão grave quando a que fizeram. o diretor do curta é um americano de pais nigerianos que mora no japão há muitos anos, e a discussão tinha um cantor-compositor negro-japonês e um autor e ativista, além da etnóloga. o cantor falou que era muito comum as pessoas se surpreenderem ao vê-lo e que ele não se importava, porque sempre usava isso como oportunidade de conscientização. massa. dois fenótipos fortes juntos, muito marcante, afinal. muito importante de se trabalhar, também.

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a primeira vez de natan & lino (henri b. neto)
ok, não gosto mesmo de ya. mas nesse vi muito mais defeitos que em pétala, por exemplo. a história é contada em formato de diário, com lino escrevendo, e marquei várias palavras que não tinham nada a ver, eram muito literárias ou sei lá, ou então uns tempos verbais estranhos (tipo uma hora que ele fala sobre ter ficado em pé o dia inteiro "no sebo que trabalhava" quando podia ser muito bem "trabalho", já que tinha acontecido dias antes). uns personagens bem tumblrzinho, tipo a amiga com um quarto cheio de suculentas e pallets e fridas kahlos e livros de harry potter, ou então o próprio lino sendo um grande leitor ou parando a pegação pra ir escrever no diário. e aliás, essa entrada foi tão longa que seria totalmente irreal ele ter se ausentado por todo o tempo que levaria pra escrever aquilo. não sei, se fosse outra a conversa dele com o próprio diário eu talvez teria engolido melhor. se ele não contasse o que aconteceu reproduzindo os diálogos com travessão e tudo... mas enfim, a questão de que tudo se resolve na conversa e que intimidade é mais importante que atração ou sei lá em qualquer namoro, foi bom. ah, véi, a amiga era assexual birromântica e os meninos eram alossexuais, e nem sei o que é isso (pesquisei, é o oposto de assexual). natan pan, lino bi. óia só. ainda nos desagrados, essa coisa de que a primeira noite ia definir todo o resto do relacionamento, umas coisas de referenciação que ficam meio capengas ("meu namorado" quando ficaria melhor dizer o nome, "a plataforma de streaming" pra netflix, natan lembrar bem da mãe e sentir tanta falta sendo que tinha dito que tinha 3 anos na foto de meses antes dela morrer, "imputar discriminações para toda a comunidade", referências de bruxa má do oeste e meg cabot, "apoiando o queixo no punho de suas mãos", ele não gosta de whatsapp porque odeia as "etiquetas sociais que o aplicativo de mensagens meio que criou no inconsciente geral"... aiai. o autor é youtuber e tem uma série com esses personagens. ok, não é pra mim.

the deep (rivers solomon with daveed diggs, william hutson & jonathan snipes)
mesmo já sabendo o que esperar dessa novela por ter visto comentários de outros leitores, a força que ela tem foi igualmente avassaladora. é sobre esse povo chamado wajinru, originado das mulheres africanas grávidas jogadas dos navios que transportavam escravos para as américas. assim como dentro do útero, seus bebês nasceram com a capacidade de respirar debaixo d'água, e com o cuidado de grandes baleias eles foram crescendo nas profundezas do oceano, protegidos da superfície. toda a história de como surgiram é tão cheia de dor e trauma que se estabelece apenas um deles para recordar todo o passado, de modo que os outros possam viver sem (literalmente) serem afundados pelo sofrimento. fora o "historiador", os demais wajinru têm uma memória de curto prazo, apesar de manterem no corpo as sensações e instintos trazidos pelas experiências. yetu é uma historiadora e a personagem principal, que há vinte anos se vê cada vez mais consumida pelo peso do passado e do presente, esvaziada de si mesma para dar lugar a toda a sua história. depois de várias situações de quase-morte (algumas autoinflingidas), yetu retorna a seu povo para a cerimônia anual em que o responsável pelas memórias as transmite a todos e os guia através delas. mas assim que yetu se esvazia, assim que sua mente recobra o silêncio e a calma tão inalcancáveis, ela foge numa tentativa desesperada de se salvar. por três semanas yetu se recupera das feridas físicas e mentais numa pequena piscina na superfície, desconectada do oceano, onde conhece alguns humanos ("duas-pernas"). por causa dos resíduos do passado que permanecem nela, yetu sabe reconhecer e falar sua língua, e assim troca longas conversas com oori, uma pescadora marcada pela perda de todo o seu povo. através dela yetu é levada a repensar a importância de conhecer sua história, de preservar memórias, e por fim retorna aos wajinru, que estão à beira de provocar uma tempestade capaz de engolir o mundo. mas dessa vez yetu não remove as lembranças de cada wajinru, mas os ensina a conviver com elas, reconhecendo a necessidade de se apoiarem para que consigam viver. é linda a maneira como esse livro trata do trauma intergeracional da áfrica diaspórica, com tantas analogias sensíveis, tanta potência. incrível como a dor e a ira dos wajinru têm a capacidade de impactar o mundo todo, como yetu sente na pele essa energia devastadora, como oori recorda como se respira debaixo d'água através da lembrança que yetu a transmite, como ela afunda nas profundezas dessa vez por um convite, como isso cria algo novo. a tortura de yetu em se sentir fraca como historiadora, o esgotamento de carregar esse fardo... e a solução em se dividir tudo, a reinterpretação através de diferentes perspectivas! mais massa ainda porque isso foi escrito por rivers solomon, mas veio inspirado pela música desse grupo de rap experimental chamado clipping., que antes já tinha sido inspirado pela música eletrônica de drexcyia, como um jogo de telefone sem fio em que as coisas se recriam e se enriquecem. muito especial a maneira como os historiadores do passado se referem a si mesmos como "nós", essa percepção de coletividade e unidade que clipping. também usa. e os wajinru têm os dois sexos! podem escolher entre apresentar um, ambos ou nenhum. o próprio relacionamento de yetu com oori, basha e ephras... todo mundo tem que ler isso.

domingo, 31 de maio de 2020

lidos (6) e assistidos (6) em maio

mc jess (2018)
o melhor do festival. mc jess é jéssica, que trabalha vendendo fones de ouvido no trem e mora na favela. já começa com jess recebendo sexo oral de uma menina que não dá pra saber se é namorada real, ainda mais porque ela diz que vai precisar ficar um tempo quieta porque "tão começando a reparar". jess visita os pais no aniversário da mãe e almoçam juntos, a irmãzinha contando de um exorcismo que o pai fez e ela foi junto. questão de minutos pro pai jogar na cara de jess que ela não estuda, só quer saber de fazer música e não trabalhar. massa como passa pra ela contando pra paquerinha sobre o almoço, terminando a história da discussão. a menina incentiva ela a ir num evento de slam que ela viu no facebook (legal isso de mostrar algo que viu e lembrou dela, bem real) e ela vai, fala de ser sapatão, de evangelho, ser negra. a poesia termina com ela encarando a câmera, e passa pro formato documentário dela falando o que aquilo significa pra ela. muito bom o que ela diz, que o jovem que escreve passou por muitas escolhas até chegar lá, negando o crime, as drogas, sobrevivendo. a narrativa de jess misturava mulheres falando sobre escrever e recitar em slam, show demais. gostei de como é a filmagem também, essas coisas cotidianas tipo ela botando miojo pra ferver. a poesia que jess já faz chamando as pessoas pra comprar o que ela vende... fiquei pensando sobre como esses trabalhadores informais tão nessa pandemia. foda.

para costurar folhas secas (2017)
duas mulheres negras, aparentemente namoradas. a mais alta entrega um dvd pra outra e é pariah! surpresa. de mãos dadas rodando e filmando, "você é a mulher mais linda que eu já vi" e a outra "eu sei disso!", e apesar de parecer forçado não achei ruim. elas caminham pela cidade, acho que são paulo, e perto do fim se beijam perto de luedji luna tocando no meio de uma caçadona. nessa hora nalu e mari se amaram. são abordadas por um cara trans vestido que nem evangélico e segurando uma bíblia com um arco-íris na capa, e fala extasiado umas palavras poéticas. se despedem onde começou, algo parecendo uma estação, e já tão sérias e tristes. a que recebeu o filme joga ele numa lixeira quando vai embora (não deixei de pensar "poxa vida"). sinto que não captei tudo tão bem, por causa de atenção mesmo, mas dá pra assistir no youtube.

o enterro prematuro (edgar allan poe)
esse conto foi diferente. o narrador não começou falando de si mesmo, e sim desse assunto de enterro de gente que na verdade tá viva. deu vários exemplos conhecidos, que não sei se são reais, tipo um de uma mulher que foi enterrada e o ex resgatou porque ele foi abrir o caixão pra pegar o cabelo dela e ela despertou. até que chega no relato do próprio narrador, que começa com ele falando que tinha catalepsia, uma doença em que a pessoa às vezes cai numa parálise dos músculos que pode durar muitas horas. segundo quem tá narrando, pode demorar até dias pra pessoa voltar ao normal, e a preocupação dele era ter um episódio longe da família e dos amigos, que são as pessoas que sabem da condição dele, e ser dado como morto e enterrado antes da hora. ele se preocupa muito com isso e fica meio obcecado, mandando reformar o mausoléu da família pra ser possível de abrir de dentro, botando uma corda dentro do caixão que dá num sino do lado de fora, usando um caixão confortável, abastecendo o negócio de água e comida, deixando chegar ar e luz... doideira, claro, e aí acontece dele entrar em estado cataléptico e despertar num lugar que não é a cova que ele preparou pra si mesmo. ele começa a ficar desesperado mas logo ouve uma voz chamando ele e alguém tocando seu braço, e no fim ele só tava em alguma caverna onde tinha chegado numa escalada com amigos. depois disso ele se livra do fascínio com a morte e deixa de pensar tanto sobre esse medo que ele diz ser, indiscutivelmente, o maior de todos os possíveis (nada a ver isso aí), e acaba que essas apreensões dele "haviam sido menos a consequência do que a causa" da doença dele, e o cara se cura. como assim um final "feliz"? ok né, inesperado.

o encontro marcado (edgar allan poe)
achei que começou bem, um cenário diferente. um cara numa gôndola nas águas de veneza, que tavam completamente negras por causa da escuridão da noite. do nada um grito e luzes de tochas, gente indo ver, e o que aconteceu foi que uma criança caiu de uma janela pro rio. a mãe tá na beira do canal parecendo uma estátua, pálida e com um semblante sólido, como descreve o narrador. ela é uma marquesa muito respeitada e admirada na itália. um cara mergulha e salva a criança, levando-a à mulher, e alguém pega logo e leva ela pra dentro. a mulher recobra a cor e diz a ele "venceste — uma hora após o raiar do dia — encontrar-nos-emos — que seja!"... o narrador oferece uma carona pro cara, todo encharcado, porque já se conheciam, e ele convida o outro a visitá-lo em sua casa cedíssimo no próximo dia. ele vai e descreve o monte de coisas que o amigo tem na casa, muitas pinturas e vasos e esculturas, vitrais nas janelas, mil estímulos visuais, e mesmo assim nada conseguia prender o olhar. o rosto desse cara também é descrito assim, olhos cativantes, cabelos pretos e maxilar divino, mas "não exibia qualquer expressão decididamente determinante a ficar gravada na memória; uma fisionomia vista e instantaneamente esquecida — mas esquecida com um desejo vago e incessante de trazer de volta à lembrança". o cara-narrador descobre um poema que o cara-amigo tinha escrito, falando de como uma mulher era antes sua vida e agora ele vivia como que num sonho, sem propósito, e no fim ele (o amigo) morre assim que o dia nasce com a taça de veneno que tomou. em seguida a notícia de que a marquesa também morreu, e o encontro marcado era entre esses dois, então, romeu e julieta repaginado. essa atmosfera de sonho, bem assim de ver coisas fascinantes mas nunca segurar a atenção numa só, achei massa. só não entendi o papel da criança nisso tudo.

silêncio: uma fábula (edgar allan poe)
procurei uma leitura de algum dos contos que ainda não lemos e essa foi a primeira que tava igual à tradução do livro que eu tenho. um demônio contando a história pra um cara, que diz achar ela uma das mais bonitas ou algo assim. o demônio descreve um lugar inóspito, um rio cor de açafrão cercado por um deserto, nenúfares na água, uma floresta sombria, bem essa atmosfera tensa (e ainda teve essa música do vídeo, né). uma pedra onde se lê "desolação", um cara vestido de grego que senta nela e fica parecendo aflito. começa uma tempestade e o homem levanta a cabeça pra dar atenção, e o demônio amaldiçoa o lugar com a maldição do silêncio, e a palavra na pedra passa a ser essa. o homem se desespera com tudo mudo e foge. fim. ôxe. não gostei não, não peguei nada de especial.

babyji (abha dawesar)
dentre 3 livros de autoras indianas que eu podia ter escolhido pra asian readathon eu peguei esse porque o clube lesbos curitiba ia promover uma discussão online, e foi de longe a pior escolha. não teve uma parte boa esse livro, sério, é péssimo. a protagonista se chama anamika, uma estudante de 16 anos que se acha a cereja do bolo e age como se fosse a pessoa mais inteligente e madura do mundo. já nas primeiras páginas essa mulher encontra ela na escola que tá tentando matricular o filho de 5 anos e chama anamika pra um café gelado na manhã seguinte (quê?), e elas começam a ter um caso. no mesmo dia anamika vê uma mulher da comunidade humilde perto de onde mora e dali a pouco ela vira criada da família, e claro que a menina aproveita a posição de superioridade pra provocá-la e seduzi-la. sendo a melhor aluna da sala e monitora da escola, anamika abusa da posição de poder que tem pra "inspecionar" o uniforme curto da colega sheela, e daí pra diante fica forçando as coisas com ela pra ter um terceiro caso. a coitada é abusada no ônibus e um dia na casa dela anamika a penetra violentamente mesmo sheela tendo dito que não queria. aí anamika fala pra si mesma que não foi estupro, que só forçou sheela a acelerar algo que já queria fazer, que ela não deveria ser tão dura consigo mesma, mas com qualquer outra coisa ela é adulta e responsável, né. sheela diz que overreacted, véi, sério? ela chama a criada de rani, que é um nome genérico, e nem se importa em perguntar o nome real da coitada. dorme com ela todas as noites quando rani passa a morar na casa dela, depois do marido tê-la agredido. várias vezes anamika a trata como uma posse, fala que ela é um brinquedo, usa ela pra "compensar os espaços vazios que a outra deixou"... forçou sexo na primeira vez também. porra. como se não bastasse, o pai do melhor amigo também se atrai por ela e fica provocando com palavras, tocando intimamente, dá um beijo. não é nem um pouco realista a maneira como todas as pessoas se atraem por ela, como os adultos a consideram madura ou como ela consegue manipular todos e conseguir o que bem quiser. esse pai do amigo dá lolita pra ela ler e ela se imagina como humbert humbert, véi, e sheela como a ninfeta dela. chega a falar que se identifica com ele e tudo. tem um colega na classe dela de uma casta inferior que fica xingando ela, que é brahmin, e mesmo ele tendo arranjado de explodirem uma bomba nela e deixado uma camisinha usada na carteira de sheela, anamika ainda tenta protegê-lo e fazer acordos pra "salvá-lo", porque "um bom líder não rejeita as ovelhas negras". a única coisa que coloca a história na realidade é uma tal de mandal comission que dava mais cadeiras pra estudantes de castas inferiores nas universidades, e anamika se mostra contra isso. tem brahmins se incendiando em protesto, mas ela também acha isso idiota e fútil. eu comecei a grifar as coisas bizarras que ela falava mas chegou num ponto que quase toda página era uma merda tremenda. zero simpatia pela personagem principal, zero aprofundamento nem desenvolvimento de qualquer personagem, zero enredo também, porque todo conflitinho é resolvido como se não fosse nada. sempre a mesma coisa, ela falando dos estudos, fugindo de noite da casa dos pais, blá blá blá. esse é aquele tipo de livro que pode muito ser pego pra representar lesbianidade ou sei lá e vai ser muito prejudicial, sabe? ela objetifica demais todas as mulheres, imagina até as professoras nuas, sente ciúme das "amantes" e fica querendo controlar como elas se portam e vestem, considera os colegas imaturos, repudia a mulher adulta por beber cerveja e fumar maconha uma vez (!!!), fica mudando de humor o tempo todo e fazendo birra, fica se perguntando sobre o sentido da vida e quer a "verdade" (???), fica poetizando física, se exibe falando das leituras (kundera, dostoievsky, "eu tento evitar bestsellers", AFF). uma mísera coisinha sobre binariedade ser construto ocidental, que as coisas não eram só preto no branco.

território do brincar (2015) 
outro documentário que analuísa precisava ver pra uma disciplina, mas dormiu a maior parte do tempo. esse é mais baraka, só umas filmagens de crianças brincando e fazendo brinquedos, sem narração ou conversa. uma hora tem um menino mais crescido falando de imitar pássaros, de como fica feliz quando consegue pegar um pássaro, mas acho que só. vários lugares diferentes, de uma aldeia indígena até um condomínio chique com cara de filme, apesar desse último ser o que menos aparece. absurda a criatividade surpreendente das crianças, brinquedos simples ou então construídos com o que cada um tem. umas coisas chocantes de uns menininhos usando chumbo pra fazer um barquinho ou então usando um facão enorme pra cortar madeira e montar uma carrocinha. meninos do mangue, matando pássaro e pegando calango. aqueles pensamentos e sentimentos sobre a presença/falta de independência e estímulo, de criatividade mesmo. muito bom e gostoso de ver. pipas, fantasias, gororobas de comer de mentira, casinhas em miniatura, histórias de dar medo em volta de uma fogueira de noite. muita riqueza na infância e no mundo enorme que é o brasil.

the first grader (2010)
uma nova política de educação gratuita para todos no quênia e kimani ng'ang'a maruge, um senhor de 84 anos, aparecendo na escola porque quer aprender a ler. uma multidão pra matricular os filhos, 200 alunos em 50 carteiras, e o velho insiste indo lá mais de uma vez. primeiro não tinha os dois cadernos e o lápis apontado, depois faltava o uniforme, mas na terceira não tinha desculpa e a professora jane não resistiu. algumas coisas trazem flashes de lembranças pra ele, e não deve ter tido uma em que eu não chorei. fiquei mal pensando no quanto o ser humano é perverso e o quanto as minorias sofreram na mão dos brancos, sentindo vontade de não existir. muita violência, os britânicos queimando casas e assassinando mulheres e crianças, torturando os rebeldes brutalmente. maruge, que era quicuio, foi parte da resistência, os mau mau. viu a mulher e o filho bebê serem mortos na sua frente, teve o ouvido furado por um lápis, foi chicoteado pendurado de cabeça pra baixo. ele queria aprender a ler porque tem uma carta, e no final ele acaba pedindo pra professora ler pra ele (e eu já tava pensando que era porque ele tinha sentido que ia morrer, mas não). era o governo reconhecendo a luta dele e reconhecendo o direito dele de receber uma indenização em compensação pelo tempo que foi prisioneiro em diversos campos de concentração ao longo de uma década ou mais. várias ameaças a ele e à professora, o dono ou sei lá da escola fazendo com que jane fosse transferida, os pais reclamando e celebrando a nova professora mas sendo recebidos por uma rebelião das criancinhas que espantou ela huash. maruge animadão com o alfabeto, bom com os números, inspiração que ganhou fama e foi parar no guinness book e na onu. morreu em 2009, com 89 ou 90 anos.

euphoria season 1 (2019)
me surpreendeu a ponto de eu reassistir tudo com as meninas depois de terminar de ver com talita. trilha sonora forte, cores e luzes, cada episódio se aprofundando em um personagem do núcleo central. rue narrando sempre, como se soubesse de tudo, o que me fez pensar no final (depois de ver pela segunda vez) que é porque ela pode ter morrido. quando criança ela foi diagnosticada com um bocado de coisa, toc e ansiedade principalmente, e já passou a tomar muitos remédios. quando o pai adoeceu de câncer ela começou a pegar comprimidos dele e foi virando vício. a série começa com ela saindo do centro religioso de reabilitação, toda cética e correndo pra se drogar de novo. teve overdose no verão, a irmã mais nova encontrou ela caída dura no próprio vômito, pesadão. falta às reuniões com os narcóticos anônimos e suborna um cara pra conseguir certificado de que foi, pra mentir pra mãe. pede pra amiga lexi mijar num pote de tylenol pra ela amarrar na coxa e fingir que é a própria urina quando a mãe quer fazer teste. o dealer dela é fez, personagem muito bom, todo brisadão mas querido. tem um irmão ajudante mó criança mas todo gângster, engraçado que nem explica. eles cuidam da vô acamada, em aparelhos. uma vez rue tá lá quando o fornecedor dele chega, cara invocadíssimo, que acaba drogando rue com fentanil e tirando dinheiro de fez de propósito. nessa rue fica malzona e jules faz ela prometer que vai parar de se drogar, porque não quer ser amiga de alguém que pode morrer assim. jules é nova na cidade, toda sailor moon, estilosa e criativa. loira altona, mas trans. o pai dela parece bem bacana. o episódio sobre a infância e juventude dela deve ser o mais chocante pra mim, com aquela música ainda. jules fica se encontrando com caras mais velhos em hotéis de estrada só pra ser comida, numa brisa de conquistar homens pra conquistar feminilidade e então destrui-la. gosto tanto da cena em que ela fala sobre ser trans, ir subindo de nível, fazer isso. chorei largado. a questão é que o pai de nate fica com ela numa dessas, mark de grey's anatomy!, e ele tem uma coleção de gravações de encontros assim. mas o cara é um magnata da cidade, todo reputação e essa merda, então tem que manter a aparência. nate é um cuzão líder do time de futebol americano, e a namorada é maddy, líder de torcida. quando criança ele descobriu os dvds pornô do pai e desde então vive nessa paranoia, além da pressão enorme de ser o filho perfeito do cara dono de meia cidade. ele se passa por outra pessoa e começa a conversar com jules, que fica toda apaixonadinha, só pra depois a ameaçar usando os nudes que ela mesmo mandou pra ele. e não dá pra saber o quanto ele realmente se sente amaldiçoado pelo mesmo gosto do pai ou só é doentio demais, mesmo. e o próprio pai dele fica todo deprimente com essa questão de nate ter tanto ódio dentro de si, chega a implorar pra jules não contar pra ninguém sobre eles quando a vê no parque de diversões da cidade. e rue tá gostando dela, mas jules fica agindo de um jeito muito egocêntrico. no final ela vai pra ny sozinha quando rue dá pra trás e achei muito simbólico, como se rue tivesse testando o que nate disse sobre jules ir embora assim que possível, e vendo o quanto a própria melhora vai ter que ser uma jornada individual de rue. gostei dela ter reconhecido isso e ficado, mas AQUELA CENA FINAL MARAVILHOSA tem tanta cara de morte. mas pode ser uma morte dessa velha rue, coisa de transformação mesmo, né. fez dizendo "till then"... putz, será que vai ser morto pelo chefão que viu sangue no dinheiro que arrumou? a mãe de rue se engraçando com o pai de jules... lexi personagem tão bacana. cassie pô, quanta merda na vida hein. mãe depressiva e alcólatra, pai viciado, namorado que parecia legal mas foi ruim, aborto. anna que jules conhece e fica em ny é aquela atriz não-binária de trinkets. maddy também, véi, nate agredindo ela toda hora, a coitada é muito forte e merece muito mais que isso. latina ela. aaah e tem kat ainda! makeover de dominatrix, toda ryca, e cadê os pais dessas crianças pra perceber tudo o que acontece? massa que ela se liga nos vacilos e fica com o carinha que gosta dela desde antes. talita não gosta que não falam sobre umas coisas óbvias, tipo raça, apesar de tratar de bipolaridade e depressão. gosto do fato dos personagens terem várias facetas, de não dar pra acusar todo mundo 100% e tal. queria ser como rue fisicamente.

little fires everywhere (celeste ng)
tinha escrito e perdi tudo por causa de internet não funcionando e pc travando, mas como já escrevi demais sobre isso por enquanto vou só copiar o que botei no caderno de leituras que comecei:

otouto no otto (gengoroh tagame)
mangá curtinho de gengoroh tagame, 'o marido do meu irmão'. yaichi vive no japão com a filhinha kana e eles são surpreendidos pela visita de mike, canadense que foi casado com o irmão gêmeo falecido de yaichi, ryouji. ele visita o japão porque tinha prometido ir com o marido um dia. ao longo das três semanas que mike passa com eles yaichi vai repensando e lidando com seus próprios preconceitos, e passa a entender melhor e fazer as pazes com essa parte da vida do irmão de que não fez parte. coisa de ryouji ter contado casualmente quando ainda era jovens e yaichi não ter nunca tocado no assunto, essa questão de fingir que não existe. o irmão era a única família ainda viva e mesmo assim ficaram um tempão sem se falar, depois que ele foi estudar e viver no canadá. triste. achei massa que mostra essa transformação em yaichi, que acaba vendo na própria vida aspectos igualmente não-convencionais (pai solo, divorciado) que também não merecem ser invalidados ou discriminados. a mãe chega a visitar kana, vai numa viagem com eles também, boa convivência. uma boa abordagem de uma perspectiva diferente. um pouco repetitivo as conversas sobre refeição e o próprio foco que a comida recebe toda hora, "quer x?", "então vamos comer!", mas nada de mais. kana toda animada em ter um tio canadense. esquisito ela tocando os músculos do peitoral de mike, peludo. umas coisas extras no mangá com ele explicando sobre casamento homossexual, bandeiras lgbt e tal, legal (fiquei chocada que falam logo da bandeira dos furry e de bdsm ahushs). descobri que também tem uma live-action em 3 episódios, com atores bem iguais aos personagens (exceto que mike é gordo, e não musculoso, mas prefiro assim. até yaichi era super musculoso no mangá, pra que isso).

little fires everywhere (2020)
fiquei um tempo sem querer continuar, mas vi o resto de uma vez antes da live da asian readathon pra discutir a série. estranhamento com essa mia, fazendo careta e reagindo a tudo, ameaçando chorar toda hora. no livro mia é tão quieta, misteriosa, fala só o necessário e o importante. meio querendo não ver pra não estragar. coisa de mãe e filha bem cinema, "i love you so much" em batidas na parede, blábláblá. JACKSON AVERY como joe ryan, ok. esses pesadelos de mia distorcem demais, véi. sifudê os comentários ridículos de elena sobre ações afirmativas pra entrar na universidade. pearl muito baba ovo de elena, mostrando até os poemas... nem parece que tem moody. negócio de entrar no ferro velho juntos e aff mia GRITANDO com pearl. ok, a pegada é muito mais sobre racismo. no livro não falam da cor delas, né. fizeram izzy lésbica, hum. "not your puppet" na testa, show. elena tem dia certo pra transar kkkk mas qual é essa de mia transar "com quem quer, quando quer"... isso de pauline ser parceira dela, pegou meio mal hein. odeio essa abertura. a maleta de comida de elena é igual o coiso de transportar órgãos de grey's anatomy, avery que trouxe né. wtf esse book club e mia se metendo, ficando pra beber e conversar com elena depois?? "parts of us that we're afraid to look at". em série eles têm que pegar o que era narração e botar na boca dos personagens pra gente poder ter acesso, né. nem sempre fica bom. "so much in common" só porque bryan e pearl são negros -_- mia indo atrás de may ling e se oferecendo pra fotografar o aniversário, véi... bebe já invade a casa assim?? raiva de como mia dá pala dos sentimentos sempre. horrível os peitos de bojo enormes. bryan muito mais legal, educando lexie o tempo todo, tentando na real porque ela só fala bosta, né. lexie tem muita cara de criança, véi, até estranho ela ser a mais velha e transar. izzy super cara de bebê também. putz os 70 centavos que negaram pra bebe mas deixaram izzy passar... mais essa agora, mia vendendo a única pintura de pauline que tem pra pagar advogado pra bebe, tudo diferente. elena investigando bebe... que beijo FEIO de pearl e trip, eca. um cheque pra bebe ficar quieta, putz. que história é essa de trip brochar e ser cuzão com pearl na primeira vez, merda. "you didn't make good choices, you had good choices" woah. e já tão uma contra a outra explicitamente. annasophia robb fazendo elena jovem! muita cara de alien né. essas boquinhas sem lábio... izzy alfinetando elena com mia no ny times, boa. mia super dura com lexie e izzy. massa o banheiro no meio dos quartos pra compartilhar. suborno com cupcakes, elena, really? então o amigo em ny é ex de elena. segura: "you're still the same sad person living a sad life. you stuck to your plan. it's not my job to make your life bearable"! mudaram a atriz de mia sendo que na foto e nos pesadelos é a mais velha, oxe. um tempão mostrando a gravidez não esperada de izzy, a mãe de elena mandando um "you're acting as if it's a choice". fizeram a foto da mulher/aranha ser um autoretrato, monstro, deusa, mãe, poder. e foda também, isso de planejar a vida inteira, ficar infeliz, não ter saída. um compromisso com você de um passadão. ~amiga~ de izzy no armário, literalmente. levando lição de mia sobre a arte com as bonecas, show. "is fighting for another person's child worth losing your own?", ameaçou mermo. todo mundo tem apelido e elena só não usa com izzy... pô. "linda is not going to lose her baby. because people like bebe chow don't win" :( bill ficando como bonzinho porque não perguntou do que mia fez. se mandando pra "comprar chupeta" kkk. massa também: "you're not an exception because you want to be" sobre izzy e a arte dela. "you don't get to challenge people and not let them challenge you back". outro: "if we can't say it with words we find another way. we're artists. there's always another way" :') PUTA MERDA elena que conta dos ryans pra pearl. elena cortou izzy das fotos de natal, véi, que pesado. na corte, "SE ELA ERA PERFEITA POR QUE VOCÊ MUDOU O NOME?", PORRA. achei meio simples a conversa entre mia e pearl e como se resolvem. izzy vai tacar fogo em tudo, ta chorando e impulsiva, mas TODOS OS FILHOS CONVERSANDO e então ELES QUE INCENDEIAM! massa essa mudança, mais sentido. e no fim elena pro policial "i did it", YES YOU DID BITCH. uma faísca de mudança, quem sabe. "was i the bird or was i the cage?" vocalizado como poema. o melhor foram esses finais repensados, mas a sutileza do livro é muito única. acho que se não tivesse lido ia ter gostado mais do dramalhão da série.