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sexta-feira, 31 de maio de 2019

lidos/assistidos em maio (10)

the amazing spider-man (2012)
véi, que filme ruim. baseado nos quadrinhos do jeito supostamente certo, só que ruim; parece uma releitura do filme com tobey maguire, com as mesmas coisas acontecendo de jeitos diferentes. demoradíssimo, ator chato e feioso, nem tem mary jane (kirsten dunst). tem gwen, que é emma stone; inteligentona no colégio e estagiária na oscorp. fica dando em cima de peter. no começo mostra os pais dele deixando ele criança com os tios e sumindo. o pai trabalhava na oscorp com pesquisa de regeneração e cura, peter se infiltra num negócio e se mete num lugar cheio de aranhas. leva a picada, fica grudando em coisa no metrô, quebrando tudo sem controlar a força. acaba que um cientista colega do pai injeta um negócio em si mesmo sem autorização e vira um lagartão. quer transformar toda a cidade nisso espalhando um gás, mas peter consegue trocar pelo antídoto. morre o pai de gwen, que era chefe da polícia. o tio ben morre de um jeito parecido com o primeiro filme também. agonia demais de ver, principalmente a cena que ele pula gwen com a teia pra beijar/contar que ele era o homem-aranha. deus me livre.

the kids are all right (2010)
tinha escolhido pra passar na movie class antes mesmo de assistir, e tive que trocar por causa das cenas de gente nua transando sexo. um casal de lésbicas (para sempre alice e mais uma) juntas há muito anos, com dois filhos, joni (mia wasikowska) e laser (josh hutcherson). o menino quer conhecer o pai biológico (hulk), o cara que doou sêmen pra elas engravidarem – porque parece que cada uma gerou um dos filhos. a menina que liga porque é mais velha, e vão escondidos conhecer ele. as mães descobrem, querem conhecer também, e depois a ruiva vai trabalhar no paisagismo do jardim da casa dele e eles começam a ter um caso. só quem não gostava dele era a outra, que sentia que ele tava roubando a família dela, já que todo mundo fazia alguma coisa com o cara. quando ela tá finalmente de boa, jantando na casa dele, ela vê cabelo da ota nas coisas e descobre o caso. brigam, as crianças ficam sem graça com ela também, param de ver o pai. a ruiva pede desculpas de um jeito bom. levam a menina pra onde ela vai começar a faculdade e o menino diz, na volta, que elas não deviam terminar porque eram muito velhas. tinha lido uma review que dizia que a única pessoa sem "final feliz" foi o pai, é. filme legalzinho mas muito ruim isso dos sexos, véi, pra quê. essa imagem pra lésbica... a ruiva sendo a tina da relação e tal. tem alguma coisa verdadeira assim que eu gostei que tinha, mas não tô lembrando.

the legend of korra S03 (2014)
depois da convergência harmônica começou a aparecer dobradores de ar em todas as nações, e entre eles um criminosão malvado que se livra e vai libertar os companheiros – um cara dobrador de terra que consegue dobrar lava, uma mulher sem braços dobradora de água e uma ota com terceiro olho dobradora de fogo daquele jeito de explosões. tão atrás de korra e até zuko aparece pra ajudar a protegê-la, mas só bem mais tarde ela entende a motivação deles. são a lótus vermelha, organização de que o tio unalaq fazia parte, que supostamente é a lótus branca do jeito que devia ser. não querem líderes mundiais porque acreditam que a ordem natural de tudo é a não-ordem. matam uma rainha chatona de ba sing se, zaheer (o que ganhou dobra de ar) tira o ar dos pulmões dela e a sufoca, pesado. sem sentido como ele dobra o ar tão bem sem treinamento algum, mas parece que ele estudava uns gurus, então quem sabe veio daí. tentam matar korra durante o estado avatar induzido por um veneno. mas claro que ela fica mais forte e miseravona, só não conseguia se controlar direito. mesmo zaheer não conseguindo deter korra ele achava que ela ia morrer por causa das toxinas, mas jinora grita que é metálico e a irmã da chefe beifong tira tudo do corpo dela, porque dobra metal. lin resolve conflitos com ela depois de uma sessão de acupuntura, visitaram a cidade de metal de onde ela é rainha. a filha dessa irmã também é das novas dobradoras, paquerinha de bolin. ele descobre que consegue dobrar lava quando tá ajudando tenzin a fugir. mako eletrocuta a mulher da água. eles destruíram o templo de ar do norte todo, judiaram de tenzin e os irmãos dele (bumi é um dos novos dobradores também)... no final korra tá na cadeira de rodas, bem debilitada, e tenzin estabelece jinora como mestre que vai guiar os novos dobradores a fazer o papel de korra pelo mundo (ela recebe as tatuagens de seta! carequinha). jinora de paquerinha com kai, um menino da tribo da terra novo dobrador (parece talita, olho verde e metade de baixo do cabelo raspado, pele não-branca). zaheer aprendeu a voar quando se "libertou de todos os desejos mundanos", ficava falando uns mantras com "enter the void", interessante. achei bem boa essa temporada.

the amazing spider-man 2 (2014)
tá melhor a qualidade nesse. melhor cena é gwen morrendo, puxada por uma teia na barriga mas batendo a cabeça no chão. chocante e inesperado uma morte feiona assim. talita disse que botaram gwen porque não podiam matar mary jane. dessa vez tão se formando no ensino médio, gwen é oradora da turma e peter perde porque tá combatendo crime. tem esse engenheiro elétrico que trabalha na oscorp, max, que é salvo pelo homem-aranha uma vez e é todo fã dele, finge que são best friends. ele se acidenta tentando consertar uns fios, cai num aquário de enguias e vira um ser de eletricidade que controla as coisa tudo. ninguém dava muita atenção pra ele antes e quando se encontra com homem-aranha assim diz que sente muito poder e raiva. aqui aparece o filho de osborne, harry, que tem uma doença genética que matou o pai. ele quer o sangue do homem-aranha pra se curar, mas peter (que é amigo dele de infância) acha que ele pode não aguentar e morrer. acaba que ele liberta electro de uma prisão e injeta o veneno das aranhas em si mesmo, e se salva vestindo uma armadura que regenera as feridas. doido total, vira duende verde, luta com homem-aranha logo após ele derrotar electro com muita ajuda de gwen, que aparentemente sabe tudo, e é nessa que ela morre caindo do relógio. termina com peter voltando a ser homem-aranha depois de muito tempo em luto. agonias de novo com ele e gwen tentando ser amigos e estabelecendo regras toscas como "você não pode dar essa risadinha, tem que ser mais insuportável".

the legend of korra S04 (2014)
esperando beijo entre korra e asami o tempo todo, mas o que aconteceu mesmo foi elas dando as mãos e virando de frente uma pra outra no final de tudo. começa tendo passado três anos que korra tá se recuperando, o pessoal esperando ela chegar em republic city com o pai dela que tá visitando. ele diz que já era pra ela ter chegado, que tinha saído da casa dos pais há seis meses, velejando. aí pronto, percebem que ela tá desaparecida (meio sem sentido, porque andavam mandando muita carta pra ela, e se seis meses se passaram os pais teriam continuado a receber cartas dos amigos dela... mas ok). ela tá disfarçada de dobradora de terra, roupas verdes e cabelo curto de bissexual (bem bonita assim, por sinal). tentando aquelas competições de luta que toph participava, mas se dando bem ruim. tá perturbada vendo assombração de si mesma no estado avatar, não conseguindo melhorar. devagar vai mostrando como ela voltou a andar e tudo, katara ajudando, uns sentimentos de revolta. até que ela segue um espiritinho e acha aquele pântano da árvore gigantesca, e lá encontra toph! velhinha brocadeira, "ensina" ela a não pensar enquanto luta. numa hora solta que korra que não quer se livrar do veneno no corpo dela, e ela nem tinha percebido que ainda tinha – sintoma da extrema falta de equilíbrio por que ela tá passando. toph diz que as filhas nunca foram dobradoras de metal muito boas. tenta tirar, mas korra agoniza muito; toph fala pra ela se virar e tirar quando estiver disposta a desapegar do veneno. aprende a sentir o pântano todo conectado pelas raízes da árvore, a ir além – toph mesmo diz que consegue ver o mundo inteiro, sabe como a família tá e tudo. nessa conexão pela árvore jinora e os outros filhos de tenzin identificam korra (tavam na missão de encontrá-la). korra dobra o metal pra fora de si mesma, suando o veneno. no mundo o que acontece é que kuvira, aquela militar que ajudou o pai de korra quando caiu do penhasco lutando com zaheer, assumiu o controle do reino da terra (depois daquela rainha ter sido morta), e tá unificando todos os estados feito uma ditadora. quer zaofu, a cidade de suyin, e tá cheia dos exércitos pra fazer isso. korra perde lutando com ela, não entende por que ainda tá fraca... varrick tava com kuvira desenvolvendo uma arma a partir de cipós espirituais, mas decide parar os experimentos quando percebe a possibilidade de causar tragédias – o que a aborrece, claro. zhu li se alinha a ela pra continuar o projeto, mas na verdade fica lá impedindo que dê certo. toph ajuda korra e a filha de suyin numa missão secreta pra salvar a família, que tava refém, e zhu li. kuvira então quer "tomar de volta" republic city e a cidade se prepara pra um ataque, que vem adiantado – ela construiu foi um robô absurdo de enorme com uma arma usando os cipós lá, bem guerra dos mundos com um raio rosa. muita destruição tentando pará-la, mako quase morre eletrocutado, o pai de asami é tirado da prisão pra ajudar e se sacrifica, entram na máquina que nem muriçocas de beija-flor. korra entende kuvira pois se vê muito nela, e a compaixão faz com que ela se entregue pra ser detida/punida (mas já tava sem saída, então ne). korra entra na frente de um raio pra salvar kuvira, o detém poderosona e com isso cria mais um portal pro mundo espiritual. equilíbrio de várias coisas que tava faltando. varrick e zhu li se casam, zhu li exigindo não ser tratada como assistente, vai "do the thing" forever com ele. asami foi a única pessoa cuja carta korra respondeu; se aproximaram bastante e pesquisando vi que os produtores dizem que o final é mesmo um começo de relacionamento. pena não ter tido nos episódios oficiais. gostei dessa temporada, os personagens tão mais agradáveis e interessantes, boa história também. vilãs mulheres é massa. dobradores de ar com roupinha de esquilo voador.

o meu primeiro abc da rua (kjell van ginkel)
livro de um colega de tati, estuda na faculdade de educação também. ele é holandês, artista visual, site legalzinho até. o livro é isso mesmo, o alfabeto, mas com fotografias da rua – sinais no asfalto, canos de qualquer coisa, "tartarugas" no chão, etc. massa, as páginas da direita convidam a adicionar fotos das letras no espaço urbano também.

sorry to bother you (2018)
cassius green, sobrinho do pai de todo mundo odeia o chris, começa a trabalhar numa agência de telemarketing. aprende que, pra conseguir vender as coisas, tem que usar sua white voice – e vai bombando até ser promovido a power caller, num andar diferente, pegando elevador que precisa de uma senha gigantesca, vendendo principalmente um tal de worry free (serviço de escravidão moderna em que a pessoa mora num lugar e trabalha lá dentro, tendo todo o resto garantido pela vida toda). tinha participado num protesto pequeno dentro da empresa, comandado pelo coreano de the walking dead, mas os chefes o selecionaram pra virar power caller assim mesmo. a namorada, artista que usa uns brincos com frases, acha que ele tá traindo os amigos e se corrompendo. cassius vai pra festa do dono dessa worry free e o cara quer falar com ele, dá um pó branco pra ele cheirar. cassius vai no banheiro pela porta errada e vê vários cavalo-humanos bizarríssimos, volta apavorado, o cara com um revólver apontado pra ele porque quer mostrar um vídeo de como estão criando uma nova espécie, equisapiens, cujo potencial de trabalho é muito maior que o de humanos... depois dessa cassius vaza um vídeo que os equisapiens gravaram pelo celular dele (que caiu no banheiro), se junta aos protestos pesados, vira líder e reconquista a namorada, pra no final começar a crescer um focinho de cavalo. absurdíssimo, muito doido, mas fala sobre várias coisas. isso de white voice, code switch... sociolinguística. passei na movie class e tudo se resumia a concordar com como o diretor define o filme: "an absurdist dark comedy with magical realism and science fiction, inspired by the world of telemarketing".

punch-drunk love (2002)
adam sandler tem uma empresinha de sei lá o quê. tá vestindo um terno pro trabalho e todo mundo pergunta por quê. tem 7 irmãs, uma mais irritante que a outra, que sempre ficam lembrando de coisa vergonhosa que ele fez quando mais novo. percebe um erro de marketing com um produto que dá milhas pra viajar e compra um monte de pudim. conhece uma amiga de uma irmã, loirinha com sotaque não-americano, que já tinha visto um dia que ela deixou o carro na mecânica do lado do galpão dele. descobre mais tarde que era só ela querendo conhecer ele, tinha visto foto de família, se interessou. nesse mesmo dia do carro ele pegou da rua um órgãozinho, botou no escritório. ligou pra um número de sexo por telefone porque queria alguém pra conversar, contar como se sentia. tinha visitado irmãs e contado pra um cunhado que às vezes chorava muito, que se odiava e não sabia o motivo. claro que logo todo mundo tava sabendo. a mulher com quem falou pelo telefone fica perseguindo ele, tentando extorquir dinheiro, e acaba brigando e usando toda a raiva dele pra proteger a loirinha (saíram). vai até o estado onde fica a loja do cara que tem esse negócio e o ameaça, diz pra deixar em paz, que tem a força do amor pra usar. viaja pro havaí pra encontrar a loirinha. felizes. filme legal, agonia grande das irmãs, várias cenas assim bagunçadas. não esperava adam sandler.

dark S01 (2017)
série alemã que talita viu e gostou, começou a me contar de memória a um tempo atrás mas parou e por isso resolveu rever comigo. se passa numa cidadezinha que tem uma usina nuclear, em 2019, e um menino desapareceu. tão procurando, a polícia se esforçando e as pessoas meio críticas, lembrando da situação parecida que aconteceu nos anos 80 com outra criança, irmão mais novo (mads) do chefe de polícia atual (ulrich). uma caverna esquisita e uns jovens zoando de noite, uns barulhos e coisas estranhas e outro desaparecimento de criança, dessa vez o filho mais novo do chefe de polícia (mikkel). do nada acham um corpo mas vêem que não é do filho dele, e depois de um tempo ele começa a achar que é o corpo do irmão que sumiu há 33 anos. vai se envolvendo mais e mais na investigação, entrelaçando os dois casos, tentando invadir a usina – que não podem acessar, apesar da caverna dar pra ela – pra descobrir coisas incompletas. um menino, jonas, é recém órfão de pai (michael) porque o cara se suicidou. jonas ficou um tempo num hospital psiquiátrico se recuperando e agora começa a mexer nas coisas do pai. ah, ulrich é amante da mãe dele (hannah). tem uma carta que o pai deixou pra não ser aberta antes de tal data, que era quando o filho do policial desapareceu... jonas vai achando coisas, recebendo sinais e orientação de um cara estranho que aparece pra se hospedar na cidade, e a questão é que o pai, michael, é o menino que desapareceu, mikkel. de 2019 ele foi 33 anos pra trás e cresceu lá até se tornar pai de jonas. e a viagem no tempo vai além, porque envolve a usina e um padre esquisitão, noah, e uma missão que não se entende direito. ulrich consegue viajar no tempo mas vai 66 anos pra trás, e agride um menininho (helge) que no futuro se torna um cara que ajuda nos sequestros e transportes no tempo. ele não consegue matar o menino e fica lá preso no passado, e isso sai no jornal da época e uma policial de agora (charlotte) vê ele no jornal antigão. tudo doido e conectado. a policial tem uma filha surda (elisabeth) que encontra noah numa vez que ela some brevemente. charlotte tem outra filha (franziska) que começa a namorar o filho mais velho do policial (magnus), que fumava maconha na escola. a mãe dele (katharina) é diretora. e a irmã (martha) é atriz, teve um casozinho com jonas mas agora tá com o amigo dele (bartosz), depois do tempo que ele levou pra se reabilitar. tem uma travesti prostituta misteriosa, um policial com tapa-olho estranho inexplicado, a dona do hotel (regina, mãe de bartosz, casada com aleksander) tá sempre com cara de sofrimento. no passado a mãe dela (claudia) foi a primeira diretora mulher da usina, e descobriu que tinha problemas a resolver, toda a cidade pela qual se responsabilizar. um monte de tonéis perigosos. esse cara estranho que dá coisas pra jonas é jonas do futuro!!!, na esperança de conseguir destruir a câmara onde as viagens acontecem... eita que essa review tá doidona também. mas que série massa, a trilha sonora, a história, tudo showzão. assistimos em maio pra ver a segunda temporada no fim de junho. coisa de tentar reconstruir quem é quem nos diferentes anos, quais as conexões, ver que jonas tá beijando a própria tia quando jovens. episódios bons, sem ser suspense manjado ou sei lá.

desmundo (2002)
esse filme tenta recriar o português de 1500. tem que assistir com legenda, nem tudo se parece. umas jovens órfãs são levadas pro brasil pra serem esposas dos colonos, e a principal, oribela, se recusa a aceitar o cara que a quer. apanha da freira mas não cede, as mãos ardendo. outro cara a aceita, leva pra fazenda dele, quer logo fazer sexo. ela pede pra esperar, pra deixar ela o conhecer. no começo ele concorda, mas depois de oribela ser gentil com um judeu colega dele claro que ele a estupra. talvez antes disso ela tinha tentado fugir, chega na praia, pede ajuda pra uns caras que tem "nave" mas eles já tão tentando estuprar ela quando o marido chega. leva ela de volta presa ao cavalo, tendo que andar o caminho todo. fica presa num quartinho por muito tempo. grita que não é "animalia". volta se oferecendo pro marido. mais tarde foge de novo, fingindo ser homem, e chega numa cidadezinha, mas o judeu diz que não vai durar muito. o marido já tá lá esperando, procurando, e ela pede que o judeu a abrigue. tem um lugar meio escondido na casa dele e ela fica lá por um tempão. ele a trata bem, é tranquilo, e os dois ficam de romance. tentam fugir juntos, de cavalo, mas o marido persegue. ela no meio, tentando fazer parar, mas ouve-se um tiro... última cena é ela com um bebê, com o marido, sendo levada não sei pra onde numa espécie de rede que os escravos (índios, talvez) carregam. melhor do que tava esperando, apesar de ser ruim o assunto e tal. quis ver porque iam passar no cine do iel.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

lidos em janeiro

os big noses e os insanos - corporation of the insanos (quadrinhos de talita dias aka TMS)
acho massa demais a criatividade que talita tem desde sempre (são de 2006), muita coisa engraçada e bem feita. nunca que eu teria noção de desenho pra fazer a família dos big noses com 12 anos de idade (não tenho até hoje, né). gosto do final do primeiro dos big noses, uma fotografia... o primeiro volume dos insanos é "estilo mangá"; tem muita luta, fusões, "bora ver" e nomes ótimos – principal, tudo, nunca, quem, do mal, tudo principal do mal d'flash – além de capítulos dando spoiler – o hulk, o ataque do hulk, a morte do hulk haushshu muito bom!

the yolo pages (adefisayo adeyeye, beach sloth, gabby bess, liz bowen, melissa broder, jos charles, richard chiem, santino dela, brian ecklund, pancho espinosa, joshua espinoza, catalina gallagher, cean gamalinda, james ganas, cassandra gillig, amelia gillis, lara glenum, philip gordon, tom hank, michael hessel-mial, @horse_ebooks, brett elizabeth jenkins, raymond johnson, kenji khozoei, ji yoon lee, tao lin, cayla lockwood, patricia lockwood, carrie lorig, sharon mesmer, stephen michael mcdowell, luna miguel, k. silem mohammad, moon temple, ashley opheim, anthony peregrine, @postcrunk, john rogers, amy saul-zerby, bob schofield, lk shaw, angela shier, bianca shipton, alexandra simone, andrew w.k., sara woods, dylan york, joseph kendrick, steve roggenbuck, e.e. scott, rachel younghans & charlie the dog emeritus)
livro massa cheio de alt-lit, o preferido de talita e talvez a antologia mais completa (não sei se teve mais coisa assim desde 2014, o ano que foi lançado). bastante motivacional, talvez todo mundo vegano, vários LGBTs, show. única coisa que não gostei tanto foi flarf poetry. anotei vários poemas que curti aqui e aqui e os poetas que mais gostei foram os seguintes (deixando aqui pra pesquisar mais depois): adefisayo adeyeye, beach sloth, joshua espinoza, catalina gallagher, tom hank, kenji khozoei, cayla lockwood, luna miguel, moon temple, ashley opheim, john rogers, amy saul-zerby, bob schofield, lk shaw, bianca shipton, alexandra simone (alli simone defeo), andrew w.k., russ woods, joseph kendrick, steve roggenbuck e e.e. scott. cadastrei o livro no skoob!

segunda-feira, 31 de julho de 2017

leituras deste ano até aqui (parte 2)

dia 1º de abril teve a abertura de uma exposição que acontece anualmente desde 2015 na biblioteca municipal, chamada ocupa. teve vários artistas expondo seus trabalhos, além de comidas veganas e showzinhos do lucas arissa (meu ano fantasma) e do douglas prado. comprei uma zine da editora recém formada fim de feira e prints da amanda paschoal e da isadora fernandes. eu já acompanhava o trabalho delas pela internet há um bom tempo (e sabia que amanda era de sbo e tinha feito cv) e foi muito legal poder ver tanta coisa pessoalmente e apoiar comprando.


um pouquinho depois do meu aniversário eu recebi parabéns pra vc toda sua família amigos & eu, de talita dias. fiquei muito contente porque era uma coisa que eu pretendia comprar, mas ganhar de presente da própria caterpiem foi muito especial. é um compilado de três anos de parabéns no facebook, com um humor nonsense perfeito; me causou muitos risos & sorrisos.


recebi dinheiro de presente de alguns parentes, como costume, e usei uma parte pra comprar livros de artistas nacionais que eu gosto bastante. os primeiros a chegar foram do selo piqui: coral (de taís koshino) e topografias (de bárbara malagoli, julia balthazar, lovelove6, mariana paraizo, puiupo & taís koshino). o primeiro tem algumas historinhas sem fala, desenho simples e calmo. gostei e é assim que gostaria de desenhar. o outro é bem diverso, com histórias de todas essas artistas super massa; bem bonito visualmente e legal as coisas também.


esse cartão postal veio junto e eu nem conhecia o projeto, série postal. taís koshinho que ilustrou; achei massa isso que ela disse falando sobre (e penso que complementa os pensamentos sobre hq): Então fui ler artigos e ensaios sobre o cartão postal, o que mais me interessou foi ‘O Postal Ilustrado da Frente ao Verso: Imagens Mais que Reprodutíveis’ da Maria da Luz Correia. Texto interessante que traz um diálogo com Benjamin, Nancy e Blanchot, apresenta o cartão postal como uma escritura acentrada, de dupla face, assim como acontece nos quadrinhos, é um encontro, uma colisão, um enfrentamento, entre imagem e palavra. A imagem, como sua parte pública, comumente é uma reprodução, feita em massa, de uma obra de arte; o texto, como a parte privada, um espaço de comunicação interpessoal entre o remetente e o destinatário. E esses dois lados não são separáveis ou divisíveis.


comprei também život je tady, da singh bean – uma das coisas que eu mais queria, considerando o tempo que faz que acompanho essa artista e admiro suas colagens. achei muito bonito e inspirador, feliz de ter. mandei uma pergunta no tumblr dela até, hehe.


também comprei dois quadrinhos da samanta flôor, que talvez seja a primeira pessoa de quem eu comecei a ver tudo na internet há muitos anos atrás. lia os toscomics que ela postava no blog que tinha, imprimia desenhos dela porque gostava do traço, curtia o nome samanta. três é o mais antigo dos dois quadrinhos, sobre a infância dela com os irmãos, enquanto click é sobre essa câmera que tira dos outros um pouco mais que fotografias. minha mãe viu e falou coisas feias das coisas que eu leio, pra variar. mas achei bacanas.


não falo muito como é cada coisa porque são curtos de ler e sei que vou sempre ter comigo. fiquei contente de finalmente comprar arte de gente brasileira que eu gosto e espero manter o costume, apoiar artistas mulheres do meu país. tudo é muito especial, e sinto que quem ganha sou eu.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

lidos em junho

dia 2 terminei de ler rainer maria rilke, mas por volta de 70% do ebook eu li em maio. singh bean cita esse autor (cartas a um jovem poeta) em život je tady e vi que era um livro disponível no kindle unlimited, por isso peguei pra ler. o ebook tem duas obras, na verdade; a primeira parte é composta basicamente por conselhos a esse franz kappus, jovem que aspira à profissão artística e pede orientação do escritor. ele trata de discorrer sobre a solidão, a tristeza, o amor, deus e, obviamente, a arte; achei muita coisa muito inspiradora e interessante (percebe-se pela quantidade de trechos marcados), embora algumas vezes tenha tido que reler para fazer passar a sensação de "cê tá se achando o sabedor de tudo, não é bem assim" (compreendendo melhor até que concordava com ele). mais tarde percebi que um trecho está também em coral, de taís koshino.

Pois não basta talento ou determinação, é preciso desprendimento.
A obra de arte, ser misterioso, precisa mais de amor do que compreensão para revelar seus segredos.
As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra pisou.
Ninguém o pode aconselhar ou ajudar – ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo.
Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças.
Procure soerguer as sensações submersas desse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar.
Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro conselho fora este: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua vida; na fonte desta é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar.
O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.
Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.
Deixar amadurecer inteiramente, no âmago de si, nas trevas do indizível e do inconsciente, do inacessível a seu próprio intelecto, cada impressão e cada germe de sentimento, e aguardar com profunda humildade e paciência a hora do parto de uma nova claridade: só isso é viver artisticamente na compreensão e na criação.
Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo, consiga viver a resposta.
Não tendo nenhuma comunhão com os homens, procure ficar perto das coisas, que não o abandonarão. Ainda há as noites e os ventos que passam pelas árvores e percorrem muitos países. No mundo das coisas e dos bichos tudo está ainda cheio de acontecimentos de que o senhor pode participar.
Se Ele é o mais perfeito, não deve ter havido algo menor antes d'Ele para que Ele se pudesse escolher a si mesmo dentro da plenitude e abundância? Não deverá ser Ele o último, para encerrar tudo em si? Que sentido teria a nossa vida se Aquele a que aspiramos já tivesse sido?
É bom estar só, porque a solidão é difícil. O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita.
O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe. Do amor que lhes é dado, os jovens deveriam servir-se unicamente como de um convite para trabalhar em si mesmos ("escutar e martelar dia e noite"). A fusão com outro, a entrega de si, toda a espécie de comunhão não são para eles (que deverão durante muito tempo ainda juntar muito, entesourar); são algo de acabado para o qual, talvez, mal chegue atualmente a vida humana.
Mas como podem eles, que já se atiraram uns aos outros e não mais se delimitam nem se distinguem, quer dizer, que nada mais possuem de seu, encontrar uma saída em si mesmos, no fundo de sua solidão já derramada?
Essa humanidade da mulher, levada a termo entre dores e humilhações, há de vir à luz, uma vez despidas, nas transformações de sua situação exterior, as convenções de exclusiva feminilidade. Os homens, que não a sentem vir ainda, serão por ela surpreendidos e derrotados. Um dia (desde já predito, sobretudo nos países nórdicos, por sinais fidedignos) ali estará a moça, ali estará a mulher cujo nome não mais significará apenas uma oposição ao macho nem suscitará a ideia de complemento e de limite, mas sim a de vida, de existência: a mulher-ser-humano. Esse progresso há de transformar radicalmente (muito contra a vontade dos homens a quem tomará a dianteira) a vida amorosa, hoje tão cheia de erros numa relação de ser humano para ser humano, não de macho para fêmea. Esse amor mais humano (que se produzirá de maneira infinitamente atenciosa e discreta, num atar e desatar claro e correto) assemelhar-se-á àquele que nós preparamos lutando fatigosamente, um amor que consiste na mútua proteção, limitação e saudação de duas solidões.
Perigosas e más são apenas as tristezas que levamos por entre os homens para abafar a sua voz. Como as doenças tratadas superficialmente e à toa, elas apenas se escondem e, depois de leve pausa, irrompem muito mais terríveis. Juntam-se no fundo da alma e formam uma vida não vivida, repudiada, perdida, de que se pode até morrer.
São, com efeito, esses os momentos em que algo de novo entra em nós, algo de ignoto: nossos sentimentos emudecem com embaraçosa timidez, tudo em nós recua, levanta-se num silêncio, e a novidade, que ninguém conhece, se ergue aí, calada, no meio.
Parece-me que todas as nossas tristezas são momentos de tensão que consideramos paralisias, porque já não ouvimos viver nossos sentimentos que se nos tornam estranhos; porque estamos a sós com o estrangeiro que nos veio visitar; porque, num relance, todo o sentimento familiar e habitual nos abandonou; porque nos encontramos no meio de uma transição onde não podemos permanecer.
Não podemos dizer quem veio, talvez nunca o venhamos a saber, mas muitos sinais fazem crer que é o futuro que entra em nós dessa maneira para se transformar em nós mesmos, muito antes de vir a acontecer. Por isso é tão importante estar só e atento quando se está triste.
Quanto mais estivermos silenciosos, pacientes e entregues à nossa mágoa, tanto mais profunda e imperturbável entra a novidade em nós, tanto melhor a conquistamos, tanto mais ela se tornará nosso destino e quando, num dia ulterior, vier a "acontecer" – isto é, quando sair de nós para se chegar a outros –, senti-la-emos familiar e próxima. Deve ser assim. É preciso – e a nossa evolução, aos poucos, há de processar-se nesse sentido – que nada de estranho nos possa advir, senão o que nos pertence desde há muito.
Seu cérebro deveria inventar alguma mentira enorme para alcançar e esclarecer o estado de seus sentidos. Dessa maneira é que se alteram, para quem se torna solitário, todas as distâncias, todas as medidas. Muitas dessas transformações se verificam repentinamente e, como no homem colocado no cume da montanha, produzem-se então imaginações insólitas e estranhas sensações cujas proporções parecem insuportáveis. Mas é preciso vivermos também isso. Temos que aceitar a nossa existência em toda a plenitude possível; tudo, inclusive o inaudito, deve ficar possível dentro dela. No fundo, só essa coragem nos é exigida: a de sermos corajosos em face do estranho, do maravilhoso e do inexplicável que se nos pode defrontar.
Entretanto, quão mais humana aquela perigosa incerteza que faz os prisioneiros dos contos de Poe apalparem as formas de suas terríveis prisões e não desconhecerem os indizíveis horrores de sua moradia.
Talvez todo horror, em última análise, não passe de um desamparo que implora o nossa auxílio.
Para que perseguir-se a si mesmo com a pergunta: de onde pode vir tudo aquilo e para onde vai? Não sabia estar em transição? Desejava algo melhor do que transformar-se? Se algum ato seu for doentio, lembre-se de que a doença é o meio de que o organismo se serve para se libertar de um corpo estranho; é só ajudá-lo a ficar doente, ter toda a sua doença e deixar a esta o seu curso.
O "grandioso" não foi aquilo que o senhor pensa ter cumprido (embora seu sentimento tenha razão), mas o fato de já ter existido algo que o senhor pôde colocar em lugar daquele engano, algo de real e verdadeiro. Sem isso, o seu triunfo também teria sido apenas uma reação moral, sem significação ampla; com ele, tornou-se uma seção de sua vida.
Sua dúvida por tornar-se uma qualidade se o senhor a educar. Deve-se transformar em saber, em crítica. Cada vez que ela lhe quiser estragar uma coisa, pergunte-lhe por que aquilo é feio. Peça-lhe provas, examine-a; talvez a ache indecisa e embaraçada, talvez revoltada. Mas não ceda, exija argumentos. Ponha-se a agir assim, atenta e consequentemente, cada vez, e dia virá em que, de destruidora, ela se tornará sua melhor colaboradora. talvez a mais sábia de quantas cooperam na construção de sua vida.

a segunda parte chama-se a canção de amor e de morte do porta-estandarte cristóvão rilke. é uma pequena história (ou poema) sobre esse porta-estandarte, nuns tempos do século XV, a serviço de uma cavalaria austríaca, aparentemente. acontecem breves comentários sobre outros homens que o acompanham, entre eles um francês que carrega uma rosa abençoada pela amada que o espera, até que chegam a um castelo e se hospedam nele. o de languenau (a como se refere o protagonista) se envolve com uma condessa depois de um festim e acaba morrendo num incêndio que toma início do lado de fora. também marquei pedaços de que gostei. 

As altas chamas tremulavam, as vozes estrugiam, confusas canções jorravam dos cristais e das luzes; e finalmente dos ritmos amadurecidos brotou a dança. E a todos arrastou. Era um bater de vagas pela sala – um encontrar-se e um escolher-se, um despedir-se e um reencontrar-se, um embriagar-se de brilho e um cegar-se de luz, e um embalar-se no vento estival que mora nas roupagens das cálidas mulheres.
Não. É somente porque a infância lhe caiu dos ombros – esse suave traje nubloso. Quem lho arrebatou? "Tu?", pergunta com uma voz que nunca tinha ouvido. "Tu!" E agora não há nada por cima dele. E está despido como um santo. Claro e esguio.
A câmara da torre está apagada. Mas eles iluminam seus rostos com sorrisos. Tateiam diante de si como cegos e encontram o outro como uma porta. Quase como crianças assustadas diante da noite, apertam-se um ao outro. No entanto nada temem. Não há nada contra eles: nenhum ontem e nenhum amanhã, pois o tempo se desmoronou. E eles florescem das suas próprias ruínas.

dia 11 terminei mayombe, de pepetela. não sei nem como abordar esse livro, que, por sinal, gostei de forma não proporcional ao tempo que demorei pra ler. a história se desenvolve durante a guerra de independência da angola contra portugal, tendo como personagens os guerrilheiros do mpla (movimento popular de libertação de angola). diferentes narradores tomam frente e todos têm apelidos de acordo com sua personalidade e/ou atitudes: sem medo é o comandante muito valente, mundo novo é bem estudado nas tendências europeias, milagre é o melhor bazukeiro, teoria é o professor do grupo e assim por diante. o livro é muito real, mostrando o cotidiano dos que faziam a luta revolucionária, bem como seus sentimentos, reflexões, contradições e conflitos – coisa que recebeu até críticas na época que foi lançado, já que exibia suas falhas e divisões internas, uma vez que o tribalismo continuava tendo voz. cada pessoa tem sua razão para estar ali e isso fica claro nos trechos onde personagens tomam frente da narrativa, já que através desse recurso inovador conhecemos a origem e as experiências de diferentes elementos do movimento. o que mais se destaca é sem medo, que tece a história com muitos ideais interessantíssimos à medida que conta sua jornada, aconselha seu companheiro comissário e gerencia a frente libertadora. gostei muito de tudo; inclusive acho esse vídeo um complemento ótimo. marquei tanta coisa que tô até envergonhada, mas fazer o quê.

Talvez é não para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não.
— (...) Há vezes em que um homem precisa de sofrer, precisa de saber que está a sofrer e precisa ultrapassar o sofrimento. Para que, por quê? Às vezes, por nada. Outras vezes, por muita coisa que não sabe, não pode ou não quer explicar.
(...) os rótulos só servem os ignorantes que não veem pela coloração qual o líquido encerrado no frasco.
Como é dramático ter sempre de escolher, preferir um caminho a outro, o sim ou o não! Por que no Mundo não há lugar para o talvez?
O silêncio pesado que se seguiu a afirmação de Sem Medo não foi afastado para trás, como as lianas que nos batem na cara. O silêncio era o Mayombe, sempre ele, presente, por muitas lianas que se afastassem para trás.
Os guerrilheiros encavalitaram-se num enorme tronco caído. Deixara de respirar, monstro decepado, e os ramos cortados juncavam o solo. Depois de a serra lhe cortar o fluxo vital, os machados tinham vindo separar as pernas, os braços, os pelos; ali estava, lívido na sua pele branca, o gigante que antes travava o vento e enviava desafios às nuvens. Imóvel mas digno. Na sua agonia, arrastara os rebentos, os arbustos, as lianas, e seu ronco de morte fizera tremer o Mayombe, fizera calar os gorilas e os leopardos.
— (...) O que é que o patrão faz para ganhar esse dinheiro? Nada, nada. Mas é ele que ganha. E o machado com que vocês trabalham nem sequer é dele. É vosso, que o compram na cantina por setenta escudos. E a catana é dele? Não, vocês compram-na por cinquenta escudos. Quer dizer, nem os instrumentos com que vocês trabalham pertencem ao patrão. Vocês são obrigados a comprá-los, são descontados do vosso salário no fim do mês. As árvores são do patrão? Não. São vossas, são nossas, porque estão na terra angolana. Os machados e as catanas são do patrão? Não, são vossos. O suor do trabalho é do patrão? Não, é vosso, pois são vocês que trabalham. Então, como é que ele ganha muitos contos por dia e a vocês dá vinte escudos? Com que direito? Isso é exploração colonialista.
— (...) Ou negava, ou matava o que me perseguia, ou endoidecia de medo. Matei Deus, matei o Inferno e matei o medo do Inferno. Aí aprendi que se devem enfrentar os inimigos, é a única maneira de se encontrar a paz interior.
— (...) A partir daí compreendi que não são os golpes sofridos que doem, é o sentimento da derrota ou de que se foi covarde.
— (...) Guardar para si não dá, só quando se é escritor. Aí um tipo põe tudo num papel, na boca dos outros. Mas, quando se não é escritor, é preciso desabafar, falando. A ação é outra espécie de desabafo, muitos de nós utilizam esse método, outros batem na mulher ou embebedam-se. Mas a ação como desabafo perde para mim todo o seu valor, tornando-se selvática, irracional. As outras formas são uma covardia. Só há a conversa franca que me parece o melhor, a mim que não sou escritor.
— (...) Deve ser horrível morrer com a sensação de que os últimos instantes de vida destruíram toda a ideia que se tem de si próprio, toda a ideia que se levou uma vida inteira a forjar de si próprio.
— De vez em quando mexe os braços e as pernas — disse Sem Medo ao Comissário. — Senão podem ficar fixos ao chão, pois o clima aqui é tão fértil que, com a chuva, se criam raízes dum dia para o outro. Boa noite, sonhos cor-de-rosa!
— (...) Um erro é menor, se há razões anteriores que levam as pessoas a cometerem esses erros.
E os guerrilheiros perceberam então que o deus-Mayombe lhes indicava assim que ali estava o seu tributo à coragem dos que o desafiavam: Zeus vergado a Prometeu, Zeus preocupado com a salvaguarda de Prometeu, arrependido de o ter agrilhoado, enviando agora a águia, não para lhe furar o fígado, mas para o socorrer.
— (...) As pessoas devem estudar, pois é a única maneira de poderem pensar sobre tudo com a sua cabeça e não com a cabeça dos outros. O homem tem de saber muito, sempre mais e mais, para poder conquistar a sua liberdade, para saber julgar. Se não percebes as palavras que eu pronuncio, como podes saber se estou a falar bem ou não? Terás de perguntar a outro. Dependes sempre de outro, não és livre. Por isso toda a gente deve estudar, o objetivo principal duma verdadeira Revolução é fazer toda a gente estudar.
— Penso que é como a religião — disse Sem Medo. — Há uns que necessitam dela. Há uns que precisam crer na generosidade abstrata da humanidade abstrata, para poderem prosseguir um caminho duro como é o caminho revolucionário. Considero que ou são fracos ou são espíritos jovens, que ainda não viram verdadeiramente a vida. Os fracos abandonam só porque o seu ideal cai por terra, ao verem um dirigente enganar um militante. Os outros temperam-se, tornando-se mais relativos, menos exigentes. Ou então mantêm a fé acesa. Estes morrem felizes embora talvez inúteis. Mas há homens que não precisam ter uma fé para suportarem os sacrifícios; são aqueles que, racionalmente, em perfeita independência, escolheram esse caminho, sabendo bem que o objetivo só será atingido em metade, mas que isso já significa um progresso imenso. É evidente que estes têm também um ideal, todos o têm, mas nestes o ideal não é abstrato nem irreal. Eu sei, por exemplo, que todos temos bem no fundo de nós um lado egoísta que pretendemos esconder. Assim é o homem, pelo menos o homem atual. Para que serviram séculos ou milénios de economia individual, senão para construir homens egoístas? Negá-lo é fugir à verdade dura, mas real. Enfim, sei que o homem atual é egoísta. Por isso, é necessário mostrar-lhe sempre que o pouco conquistado não chega e que se deve prosseguir. Isso impedir-me-á de continuar? Por quê? Se eu sei isso, a frio, e mesmo assim me decido a lutar, se pretendo ajudar esses pequenos egoístas contra os grandes egoístas que tudo açambarcaram, então não vejo por que haveria de desistir quando outros continuam. Só pararei, e aí racionalmente, quando vir que a minha ação é inútil, que é gratuita, isto é, se a Revolução for desviada dos seus objetivos fundamentais.
Para que o progresso se faça, é necessário que um elemento crie o seu contrário, o qual entrará em contradição com ele para o negar.
Não há que lamentar divisões entre os responsáveis: elas são uma necessidade histórica.
— (...) O organismo vivo, verdadeiramente vivo, é aquele que é capaz de se negar para renascer de forma diferente, ou melhor, para dar origem a outro.
— (...) O problema é esse. É que, nos nossos países, tudo repousa num núcleo restrito, porque há falta de quadros, por vezes num só homem. Como contestar no interior dum grupo restrito? Porque é demagogia dizer que o proletariado tomará o poder. Quem toma o poder é um pequeno grupo de homens, na melhor das hipóteses, representando o proletariado ou querendo representá-lo. A mentira começa quando se diz que o proletariado tomou o poder. Para fazer parte da equipa dirigente, é preciso ter uma razoável formação política e cultural. O operário que a isso acede passou muitos anos ou na organização ou estudando. Deixa de ser proletário, é um intelectual. Mas nós todos temos medo de chamar as coisas pelos seus nomes e, sobretudo, esse nome de intelectual.
O brilho do diamante são as lágrimas dos trabalhadores da Companhia. A dureza do diamante é a ilusão: não é mais que gotas de suor esmagadas pelas toneladas de terra que o cobrem.
A imensidão do mar que nada pode modificar ensinou-me a paciência. O mar une, o mar estreita, o mar liga. Nós também temos o nosso mar interior, que não é o Kuanza, nem o Loje, nem o Kunene. O nosso mar, feito de gotas-diamante, suores e lágrimas esmagados, o nosso mar é o brilho da arma bem oleada que faísca no meio da verdura do Mayombe, lançando fulgurações de diamante ao sol da Lunda.
— (...) Não digas pois que te sujeitarias à opinião da massa, se sabes perfeitamente que podes influenciar essa massa.
O Comissário olhou Sem Medo. Olhar puro, de criança, embaciado pelas lágrimas. É assim que te vais tornando homem, pensou Sem Medo. Tornar-se homem é criar uma casca à volta, cheia de picos que protejam, uma casca cada vez mais dura, impenetrável. Ela endurece com os golpes sofridos.
— Compreendi, em primeiro lugar, que o verdadeiro homem, aquele que não pode ser dominado, é o que pode calar a paixão para seguir friamente um plano. Todo o sentimento irracionaliza e, por isso, incapacita para a ação. Que todo o dominador é em parte dominado, é essa a relação dialética entre o escravo e o senhor de escravos. Que as relações humanas são sempre contraditórias e que as não há perfeitas. Que a sorte sorri a quem procura, arriscando. Que não há atos gratuitos e que não existe coragem gratuita, ela deve estar sempre ligada à procura dum objetivo. E que, quando alguém quer fazer uma asneira, deves deixá-lo fazer a asneira. Cada um parte a cabeça como quiser! Depois de ter a cabeça partida, aceitará melhor um conselho. Só se pode provar que um plano é mau, quando ele não atingir o objetivo proposto.
— O amor é assim. Se se torna igual, a paixão desaparece. É preciso reavivar a paixão constantemente. Eu não o sabia ainda, deixei-me convencer pela vida sem histórias que levávamos.
— O contrário da vida é o imobilismo — disse Sem Medo. — No amor é a mesma coisa. Se uma pessoa se mostra toda ao outro, o interesse da descoberta desaparece. O que conta no amor é a descoberta do outro, dos seus pecadilhos, das suas taras, dos seus vícios, das suas grandezas, os seus pontos sensíveis, tudo o que constitui o outro. O amante que se quer fazer amar deve dosear essa descoberta. Nem só querer tudo saber num momento, nem tudo querer revelar. Tem de ser ao conta-gotas. E a alma humana é tão rica, tão complexa, que essa descoberta pode levar uma vida.
— (...) a que chamas tu ser dogmático?
— Ser dogmático? Sabes tão bem como eu.
— Depende, as palavras são relativas.
Sem Medo sorriu.
— Tens razão, as palavras são relativas. Ele é demasiado rígido na sua conceção da disciplina, não vê as condições existentes, quer aplicar o esquema tal qual o aprendeu. A isso eu chamo dogmático, penso que é a verdadeira aceção da palavra. A sua verdade é absoluta e toda feita, recusa-se a pô-la em dúvida, mesmo que fosse para a discutir e a reforçar em seguida, com os dados da prática. Como os católicos que recusam pôr em dúvida a existência de Deus, porque isso poderia perturbá-los.
— E tu, Sem Medo? As tuas ideias não são absolutas?
— Todo o homem tende para isso, sobretudo se teve uma educação religiosa. Muitas vezes tenho de fazer um esforço para evitar de engolir como verdade universal qualquer constatação particular. Uma pessoa está habituada a não discutir, a não pôr em questão uma série de ensinamentos que lhe vieram da infância. É preciso uma atenção constante para não cair na facilidade, não atirar com um rótulo para a frente e assim fugir a uma análise profunda do facto. Porque o esquematismo, o rotulismo, são o resultado duma preguiça intelectual. Preguiça intelectual ou falta de cultura. Mas é a primeira que é grave. Claro que também é uma covardia.
— Por enquanto a tua ação é ainda aqui — cortou o dirigente.
— O que não impedirá de sonhar com esse futuro.
— Desde que o sonho te não tire faculdades para o presente, isso não é proibido.
— Não tirará. Não sou um sonhador passivo. O sonho leva-me a criar o futuro.
É o cigarro alimentando o vício, aquele que se diz ser o último. Por que não deixar de fumar de vez? Medo do salto no abismo. Agarramo-nos desesperadamente a raízes frágeis, atrasando apenas o inevitável. Salta, João, larga a raiz e salta no abismo. No fundo pode haver água que te amorteça a queda. Não tenhas medo do risco, João.
Lenine teve razão ao inventar a autocrítica. Que boa coisa é a autocrítica! Há uns burros que sempre a recusam. Ainda não descobriram o furo. Quando estiveres em maus lençóis, faz a tua autocrítica. Todos os ataques pararão imediatamente. E a teoria da ação e da reação: uma força que faz uma ação e provoca uma reação, precisa que haja uma reação para se exercer. Se tu eliminas a reação, que no caso seria a tua defesa, que acontece? A ação deixará de se exercer. É simples como água. Faço logo de começo a minha autocrítica, aí os ataques serão só para a forma, já terão perdido toda a força da raiva. Quem pode atacar um homem que não se defende?
— Ora! Nunca foi ofensa quebrar um mito. Ele é que se criou um mito sobre mim, agora apercebe-se que estava enganado. Talvez eu o tenha ajudado a criar esse mito, quem sabe? Não era a minha intenção, mas posso ter contribuído. Ele apercebeu-se por si próprio e agora, pelo caminho, a cada passada, vai desmoronando a estátua que construíra. Não há razão nenhuma para estar preocupado ou ofendido. A partir de agora, ele não precisará de mitos para viver, vai tornar-se um homem livre. Devemos mesmo estar contentes.
— (...) Isso é que me enraivece. Queremos transformar o mundo e somos incapazes de nos transformar a nós próprios. Queremos ser livres, fazer a nossa vontade, e a todo momento arranjamos desculpas para reprimir os nosso desejos. E o pior é que nos convencemos com as nossas próprias desculpas, deixamos de ser lúcidos. Só covardia. É medo de nos enfrentarmos, é um medo que nos ficou dos tempos em que temíamos Deus, ou o pai ou o professor, é sempre o mesmo agente repressivo. Somos uns alienados. O escravo era totalmente alienado. Nós somos piores, porque nos alienamos a nós próprios. Há correntes que já se quebraram mas continuamos a transportá-las connosco, por medo de as deitarmos fora e depois nos sentirmos nus.
A amoreira gigante à sua frente. O tronco destaca-se do sincretismo da mata, mas se eu percorrer com os olhos o tronco para cima, a folhagem dele mistura-se à folhagem geral e é de novo o sincretismo. Só o tronco se destaca, se individualiza. Tal é o Mayombe, os gigantes só o são em parte, ao nível do tronco, o resto confunde-se na massa. Tal o homem. As impressões visuais são menos nítidas e a mancha verde predominante faz esbater progressivamente a claridade do tronco da amoreira gigante. As manchas verdes são cada vez mais sobrepostas, mas num sobressalto, o tronco da amoreira ainda se afirma, debatendo-se. Tal é a vida.
Os olhos de Sem Medo ficaram abertos, contemplando o tronco já invisível do gigante que para sempre desaparecera no seu elemento verde.
Do coração do Bié, a mil quilómetros do Mayombe, depois de uma marcha de um mês, rodeado de amigos novos, onde vim ocupar o lugar que ele não ocupou, contemplo o passado e o futuro. E vejo quão irrisória é a existência do indivíduo. É, no entanto, ela que marca o avanço no tempo. Penso, como ele, que a fronteira da verdade e a mentira é um caminho no deserto. Os homens dividem-se dos dois lados da fronteira. Quantos há que sabem onde se encontra esse caminho de areia no meio da areia? Existem, no entanto, e eu sou um deles.

no finzinho de maio comprei numa dada situação, de francis alÿs, e li na madrugada do dia 20, sob aromas de incenso. eu tinha colocado na wishlist da amazon porque parecia interessante, mas na verdade nem sabia muito sobre o trabalho do artista. [olhando agora o livro custa R$46,80 (o preço de capa é R$117) e consegui pagar só R$27,80.] valeu muito a pena porque é extremamente artístico e poético; trata-se de vários elementos do processo criativo de seu filme tornado, feito após dez anos de perseguições de furacões nos planaltos da cidade do méxico. além de pinturas e stills de vídeos o livro contém várias frases e trechos de obras que tocam no assunto do pó, da espiral, do caos – tudo super inspirador, gostei muito da experiência.


na tarde do mesmo dia recebi úlcera, de puiupo & adonis pantazopoulos. comprei, também, numa espécie de promoção: puiupo tava vendendo por R$20 as últimas unidades que ela tinha. além de imagens ocasionais do quadrinho nos perfis dela não tinha muita informação sobre o conteúdo; achei massa, meio perturbador, demandando certa calma pra digerir. úlcera é o nome de uma das protagonistas, esta tendo sua parte da história ilustrada por puiupo, enquanto a outra é mirra, narrada por adonis. ambas inserem-se nesse lugar chamado de "a torre": úlcera uma humana que abandonou um reformatório periférico e mirra uma afrodite pertencente ao príncipe ambidestro. os sites onde a hq é vendida a descrevem como uma headtrip de ficção científica visceral, e acho uma boa forma de descrevê-la – o tipo de história que não seria a mesma se não fosse pelo estilo dos dois artistas, que comunicam tanto de um jeito muito próprio. também dizem que úlcera está na veia de jodorowsky misturado a masaaki yuasa, e pesquisando sobre ambos fiquei bem curiosa em explorar suas obras mais profundamente.


em uns três dias li viagem solitária, de joão w. nery, que eu nem esperava que tivesse disponível no kindle unlimited. é uma autobiografia do primeiro homem trans brasileiro de que se teve notícia, narrando as angústias presentes desde a infância pela incompatibilidade que sua mente encontrava em seu corpo. ele percorre por todos os pontos que construíram sua jornada – o bullying, a depressão, os relacionamentos, a autoafirmação, as cirurgias, o recomeço, a paternidade –, bem como vários nomes que tiveram algum impacto em sua vida. pelo que parece é uma espécie de atualização/complemento de sua primeira obra, erro de pessoa: joana ou joão?, publicada em 1984. pra citar simone ávila, que no final do livro fala um pouco sobre o autor: Ele se pergunta: "em que grupo existente eu me enquadraria?". Ou, dito de outro modo, "quem inventou essa coisa de que temos de nos enquadrar no que já existe?!? Por que não podemos simplesmente ser o que queremos ou quisermos?!? Por que eu tenho de seguir normas que não são minhas?!?" é muito sensível e pesado. pensar no tanto de pessoas incompreendidas que precisaram encarar tanto sofrimento numa época de repressão onde ainda faltava muito avanço é doloroso; pensar que ainda há um longo caminho a se percorrer nos dias de hoje demanda muita coragem.

Somos seres únicos, a diferença e a diversidade entre os indivíduos são condição essencial da natureza humana.
João considera Darcy seu mentor intelectual, quem lhe mostrou um jeito de habitar um mundo que não o compreendia. "Ou você fica rico para calar a boca das pessoas, ou vira um intelectual", postulava ao jovem.
"Você nasce e morre dentro de caixas. Caixa da família, da escola, do casamento e depois vai para o caixão. Ponha o pé para fora disso e você já é estigmatizado. Tem que ter muita estrutura para segurar a peteca da marginalidade."
Era como se quisesse dizer a todas as pessoas que o meu físico não era aquele, ou melhor, fazê-las entender que meu corpo mentia contra mim.
Quando sentia medo, pelo menos pressupunha um objeto, uma ameaça, algo que eu pudesse de algum modo contornar ou dele fugir. Porém, nessa angústia nada me ameaçava claramente. Não havia um objeto a ser enfrentado para prosseguir minha estranha caminhada existencial. Percebi, então, que o "sem sentido" e o "sem valor" da minha angústia me tornavam um estrangeiro nesse mundo tão cheio de categorias. A ironia era precisar de um rótulo, do que todos tentam fugir.
Minha alma não se conformava de ter de se expressar por meio daquele monte de carne, sobre o qual não tinha podido decidir nada. Foi-me imposto sem pedir licença, para a forma, para o conteúdo e todos os papéis que, obrigatoriamente, carregava junto. Não conseguiria me submeter a esta sociedade pronta e chauvinista. Não sou isto!
Dizem que as pessoas tendem a esquecer os traumas, por defesa do ego. Creio que os preservei ao máximo na memória, a fim de evitar que outros se repetissem.
Pensou em suicídio? Um jeito de se livrar deste sofrimento? Vamos, diga em voz alta, sua babaca, o visgo que tem pela vida: "Meus pais chorarão", não é isso que está pensando? Fica mais estúpido ainda ter remorso antecipado! De que adianta saber-se amado depois de morto? O que te segura é que, no fundo, ainda tem esperança de que as coisas mudem.
Percebi, subitamente, que o fundo do poço não estava na morte, mas na vida. Na minha vida.
Quando o drama estiver insuportável, torne-se subitamente a plateia, para se ver atuando no palco. Verá a comédia que todo drama contém, como agora, e se fortalecerá. Não adianta mais ter ódio nem pena de si mesmo. Sobretudo, é preciso ter humor. Procure a essência do absurdo. Mas não se torne um alienado, antes, um inconformado. Se, num dado momento, a dor for insuportável, não racionalize a fim de obter a pseudotranquilidade. Consuma-se sem defesa até o fim. Esprema a dor e respire fundo.
— Não quero ter uma relação falsa com você. Sei que sua visão é outra. Foi educada numa época diferente. Não a estou obrigando a me aceitar. Não tenho esse direito. Desejo somente partilhar aspectos importantes da minha vida.
Quando pequeno, diziam que carregava o pecado portal por não ter sido batizado, e sem entender vivia um medo-mistério. Com oito anos, perguntei à mamãe:
— Por que as pessoas vão à igreja aos domingos?
Surpresa, parou a correção das provas.
— Ora, vão para ouvir do padre que devem ser boas.
Diante dessa explicação, só tive uma conclusão:
— Mas, mãe, será que são tão más assim que necessitam ouvir toda semana a mesma coisa?
Depois, perguntei ao Matheus por que nunca tinha comentado minha história com a mulher. Foi sucinto:
— Essa história é sua, e não minha. Você é que tinha de contar, se quisesse.
Mais uma lição que aprendi com meu amigo – sua noção gigantesca de respeito pelo outro.
Aparecia e desaparecia como miragem e foi na força de sua ausência que descobri sua presença.
Embora houvesse essa noção forte de individualidade, havia inevitavelmente um "nós" que curtíamos, cuidando, porém, que não nos engolisse. Abdicarmos em nome do amor em questões vitais nos levaria à anulação como pessoas. Cedíamos, mas o suficiente para não nos violentarmos.
A reação dos meninos foi uma lição para os adultos. Enquanto estes tinham mil dificuldades sobre como me tratar, sem saber como me explicar aos conhecidos, os garotos pareciam ver tudo mais claro, sem complicar o óbvio. Era como se a minha figura anterior é que fosse a confusa e estranha. A atual era definida, mais bem entendida e aceita. Anteriormente, os meninos me viam com certa reserva, ressabiados, como olhando para algo estranho. Agora, podiam compreender Amanda como minha mulher e como sua tia.
Mas, de todas as histórias, a melhor frase ainda foi a do Djalma, chefe dos motoristas, que, diante das exibições de quem comia mais e melhor, disse bem alto para todos ouvirem:
— Macho bom não é o que goza várias vezes, mas é o que faz a mulher gozar várias vezes.
Só a noite aparecia,
Iluminando o silêncio das coisas sem nome.
Não carregava o retrato da filha na carteira porque não queria se promover por intermédio dela.
Na última conversa que tivemos, falou-me sobre a tragédia. Não a grega, mas a de Nietzsche. Resumia-me, dizendo que só há tragédia quando não se acredita na vida pós-morte.
"Todo o mundo nasce nu, o resto é drag".
Quando nos referimos ao papel do homem ou da mulher, estamos falando de "gênero" ou papéis de gênero, e não de sexo.
Li um artigo enviado por uma amiga, de Beatriz Preciado, que dizia: "A sexopolítica é uma das formas dominantes da ação biopolítica no capitalismo contemporâneo".
Maitê, a atriz, foi mais sucinta: "Tenho medo do que foi criado nessa sociedade para manter as algemas e grilhões que nos impõem, retardando mesmo a descoberta do que somos de verdade. Acredito num mundo sem gêneros e sem fronteiras, como forma de acabar com estes sofrimentos".
Depois de lhe contar a última com meus amigos trans, sobre o homem grávido, perguntei a opinião dele. Respondeu sem pestanejar:
— Acho que precisamos ser mais tolerantes.

além disso, no começo de cada capítulo tinha trechinhos com alguma poesia ou citação. gostei de vários:

É na angústia que se anuncia o estado do qual se deseja sair, e é a angústia que proclama não bastar o desejo para que daí se saia. (S. Kierkegaard)
Amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas ao amor. (F. Nietzsche)
Quando perdemos o medo de perder, acabamos descobrindo a imensa alegria de achar. (Thomas J. Burke)
O homem começa não apenas quando é concebido, mas quando se determina a fazer alguma coisa, quando se realiza após esse impulso para a existência. (Sartre)
Amadurecer é a transcendência do suporte ambiental ao autossuporte. (F. Perls)
Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando como a noite
Em sua vigília estrelada.
(Rabindranath Tagore)
Mude, mas comece devagar, porque a  direção é mais importante que a velocidade. (Clarice Lispector)
Hoje entendo bem meu pai. Um homem precisa viajar. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto [...] para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. (Amyr Klink)
Pessoa "trans" é aquela que está em permanente "trans-formação", disposta a "trans-por" todos os obstáculos. É aquela pessoa que "trans-gride" regras e padrões de conduta, "trans-mitindo" à sociedade, de forma absolutamente "trans-parente", novas ou inexploradas possibilidades de realização. Pessoa "trans" é aquela que "trans-cende" a si mesma, tentando expressar ao mundo a pessoa que ela realmente é, em vez da pessoa que o mundo acha que ela deveria ser. (Letícia Lanz)
Estes percorreres por aí à balda,
nestes saudosos antigos eus.
Qual deles deixei no meio da estrada
e em que sombra,
me perseguem até onde sou?
(Do poema "Corte em Mim", do autor)
Os espelhos fariam bem em refletir um pouco mais antes de devolver imagens. (Jean Cocteau)

era pra eu ter lido coisas da lista de leitura de algum vestibular mas, pra variar, fui inútil. tô me preocupando em arrumar emprego e cursinho agora. seja o que deus quiser.