domingo, 30 de julho de 2017

lidos em julho

dia 12 terminei minha vida de menina, de helena morley. demorei quase um mês pra ler, porque não conseguia me concentrar e me dedicar (e também porque é um pouco enjoativo, sendo um diário)... são relatos do cotidiano da autora quando adolescente (pseudônimo de alice dayrell) no interior de minas gerais, durante os anos de 1893, 1894 e 1895. é descrito como "livro que nasceu clássico" por alexandre eulálio, que faz a introdução – É mesmo raro o sabor dessa prosa coloquial, cheia de chiste e tão próxima, em pitoresco, desatavio e naturalidade, da sua fonte popular. começou a escrever por recomendação da escola e incentivo de seu pai; em suas descrições percebe-se as peculiaridades de uma diamantina no limiar do urbano e do rural, com a presença da mineração e da decadência econômica. Voltada para o encanto da vida livre do pequeno núcleo aberto para o campo, a jovem Helena, familiar a todas as classes sociais daquele âmbito, estava colocada num invejável ponto de observação. Assim o seu depoimento transcende o plano apenas biográfico ou geográfico para valorizar-se de um ponto de vista tanto psicológico quanto social. no começo eu me confundia no mundaréu de pessoas sobre as quais ela falava, mas fui acostumando, até porque ela repete as mesmas coisas frequentemente (eu faço igual quando escrevo em diário). achei legal ter esse vislumbre de épocas onde tudo era diferente. muitos ex-escravos estão em seus relatos e, apesar de ela dizer não fazer diferença entre ninguém, percebe-se traços de racismo solidificados por entre a sociedade. gostei da expressão "fazer castelos", que ela usa muito, e quer dizer ficar imaginando coisas, sonhando acordado. penso que ela pode ter trocado o nome com uma tia, irmã de seu pai, e com quem tem o gênio muito parecido, segundo ele (a autora escreve o nome da tia como alice).

Nós, meninas, fomos proibidas de confessar com Senhor Bispo, porque ele pergunta muita coisa que a gente não entende e meu pai disse que é um absurdo mamãe nos deixar confessar com um velho já caduco. Ele está muito velhinho. Como no Palácio há muitos padres, mamãe escolheu para nós o Padre Florêncio. Ele é muito bom e dá penitência pequena, mas a gente sai cansada do confessionário de tanta história de santo que ele aproveita para contar e aconselhar a gente a imitar. Como se isso dependesse da gente. Eu regulo por mim; tenho inveja das pessoas boas e santas mas não posso deixar de ser o que sou.
(...) Certa hora eu perguntei: "Vocês não pensam para que a gente vive? Não era melhor Deus não ter criado o mundo? A vida é só de trabalho. A gente trabalha, come, trabalha de novo, dorme e no fim não sabe se ainda vai parar no inferno. Eu não sei mesmo para que se vive". Mamãe disse: "Que horror, minha filha! Para que você passou tanto tempo no Catecismo, para agora vir me dizer que não sabe para que a gente vive? Não estudou lá todos os dias que a gente vive para amar e servir a Deus na terra e gozar dele no céu?". Eu respondi: "Estudei, mamãe, mas já vi que só a família de vovó e poucos outros podem viver só para amar a Deus na terra e esperar gozar da presença dele no céu. Se a senhora soubesse como eu tenho sofrido com essa história de amar a Deus, até tinha pena de mim. Não há uma vez que me confesse que eu não diga ao padre que eu penso que não amo a Deus, porque só lembro de Deus na hora do aperto. Padre Neves diz que não acredita e que sabe que eu amo a Deus porque não faço percado mortal. Eu respondo que é porque nada é pecado para ele. Todos os pecados que eu conto horrorizada, às vezes ele até me desculpa. Os furtos que eu e Luisinha fazíamos das frutas de que vovó fazia tanto gosto, que eu até esperava ir para o inferno, quando eu contava a Padre Neves ele dizia: 'Tirar de sua avó não é pecado'. Eu pensava que era pecado e furtava e depois tinha medo do inferno; de ofender a Deus não me passava pela cabeça". Mamãe respondeu: "É porque você vive sempre de cabeça em pé e não procura pensar. Quem pensa tem que ter amor a Deus. Eu o amo acima de tudo". Renato parou com o alçapão e disse: "Sabem o que eu já estive pensando? Não há esse negócio de céu nem de inferno nada; isso tudo é conversa de padre. Eu penso que a vida é como um punhado de fubá que se põe na palma da mão; quando se assopra vai embora e não fica nada. Nós também depois de mortos a terra come; não tem nenhuma alma". Mamãe ficou horrorizada e perguntou: "A quem você saiu com essas ideias? Estou pasma do que você disse! Como um menino de sua idade pode ter essas ideias tão hereges! Valha-me Deus, que castigo! Que fiz eu a Deus para ter um filho assim? Virgem Santa! Agora vou viver só por sua conta, meu filho". Mamãe contou a história de uma mulher que tinha um filho assim e fez penitência de rasgar o corpo com um prego para Deus perdoar-lhe. Deus perdoou e ele se ordenou e foi um padre muito santo. Renato fazendo o alçapão, sem levantar a cabeça, disse: "Mas a senhora não precisa rasgar seu corpo com prego que eu não vou ser padre. Pau que nasce torto não se conserta".
Ficamos todas as primas tristes de ver a maldade que nossos irmãos fizeram de lavar os pés na água do Pau de Frutas, que é a que vem para a gente beber na cidade. Beatriz até chorou de pensar que o pai dela estava bebendo daquela água na cidade. Minhas tias a consolaram dizendo que até chegar cá já estava limpa. Estivemos sabendo também que morreu um burro dentro do rego e ficou lá até apodrecer. Eu acho aquela água muito porca. Se eu pensasse não bebia dela nunca. Mas a gente faz tudo é sem pensar, graças a Deus.
Hoje temos rido com ele a não mais poder. Ele foi convidado para o baile de ontem na União Operária e a viúva também ia. Ele foi ao dicionário, tirou umas palavras, fez uma frase e levou a Sérgio para ver se estava boa para ele dizer à viúva. A frase era: "Sinto-me compungido de não ter podido até então tirá-lo para uma valsa". Sérgio disse: "Se ela é mulher, você não deve dizer tirá-lo, mas tirá-la". Ele corrigiu, ficou decorando a frase e meteu o papel no bolso.
Hoje Sérgio perguntou se ele tinha dito a frase com desembaraço e ele respondeu: "Qual o quê! Quando eu cheguei perto dela para falar, ela, antes de eu começar, levantou, enfiou o braço no meu e saímos dançando. Eu fiquei mudo, porque só tinha na cabeça aquelas palavras que ela não me deixou falar".
Meu pai é muito querido na família. Todos gostam dele e dizem que ele é muito bom marido e um homem muito bom. Eu gosto muito disso, mas fico admirada de todo o mundo só falar que meu pai é bom marido e nunca ninguém dizer que mamãe é boa mulher. No entanto, no fundo do meu coração, eu acho que só Nossa Senhora pode ser melhor que mamãe.

também li, em ebook, edda em prosa - gylfaginning e skáldskaparmál (de snorri sturluson). o autor defendia a teoria de que reis e figuras históricas eram invocados em combates e venerados até serem lembrados apenas como divindades, e faz paralelos desses deuses com personalidades troianas e com o cristianismo. acho engraçado os absurdos: uma vaca lambe um bloco de gelo e dali saiu o homem que seria avô de odin; heimdallr, o guardião dos deuses na bifröst, é filho de nove damas, todas irmãs; com angrboda, uma gigante, loki teve como filhos o lobo fenrir (que matará odin no ragnarök), a serpente jörmungandr (que circunda toda a terra mordendo sua própria cauda) e hel (que tem poder sobre o nono mundo e reparte as moradas entre os mortos de doença ou idade avançada); loki se transforma em égua para atrair um cavalo que ajudava um gigante (para atrapalhá-lo) e acaba tendo "certas relações" com ele, mais tarde dando à luz a um potro cinza de oito patas; a baba que corre da boca de fenrir, preso por um grilhão feito de seis coisas "inexistentes" (o ruído de um gato ao andar, a barba de uma mulher, as raízes de uma montanha, os tendões de um urso, a respiração de um peixe e o cuspe de um pássaro), forma um rio chamado ván; um navio chamado skídbladnir é grande o suficiente para todos os æsir embarcarem nele, mas quando não há motivo para usá-lo no mar pode ser dobrado como um guardanapo e guardado num bolso... mas é massa reconhecer referências/inspirações de outras obras: freyja tem um colar chamado brísingr, como a espada/feitiço de eragon; heimdallr tem o gjallarhorn, como a banda finlandesa que fala sueco; angrboda, gigante mãe dos filhos sinistros de loki, é o nome da filha de floki e helga em vikings; der ring des nibelungen, ópera alemã, se inspirou numa história do edda bastante parecida com lotr, que por sua vez tem muitos nomes de anões citados aqui. no que diz respeito aos paralelos e comparações, o autor diz que o longo conto do ragnarök são as guerras dos troianos:

Quando se diz que Öku-Thor usou como isca uma cabeça de boi e fisgou a Serpente de Midgard, mas que a serpente manteve sua vida e afundou no mar, então esta é uma outra versão da história em que Heitor matou Volukrontes, um famoso herói, na presença de Aquiles, e isso chamou o último para ele com a cabeça da presa, na qual foi comparada a cabeça de um boi, que Öku-Thor tinha arrancado. Quando Aquiles foi tragado para este perigo, por conta de sua ousadia, foi a salvação de sua vida que ele fugiu dos golpes fatais de Heitor, embora ele fosse ferido. Também é dito que Heitor travou a guerra tão poderosamente, e que sua raiva era tão grande quando ele avistou Aquiles, que nada era tão forte que poderia ficar diante dele. Quando ele errou Aquiles, que havia fugido, ele acalmou sua ira matando o campeão chamado Roddros. Mas os Æsir dizem que quando Öku-Thor errou a serpente, ele matou o gigante Hymir. No Ragnarök, a Serpente de Midgard veio de repente para cima de Thor e jorrou veneno sobre ele, e, portanto, o matou. Mas os Æsir não poderiam se decidir para dizer que este tinha sido o destino de Öku-Thor, que alguém ficou em cima dele morto, embora isso tivesse acontecido assim. Eles se precipitaram sobre sagas antigas mais do que era verdade quando disseram que a Serpente de Midgard teve sua morte, e eles adicionaram isto na história, Aquiles colheu a fama da morte de Heitor, embora ele jazesse morto no mesmo campo de batalha. (...)

também gostei de alguns aspectos que desconhecia: os dois corvos de odin são pensamento (huginn) e memória (muninn); comparam o choro de todos os seres e coisas por baldr, para que ele fosse trazido de volta de hel, a como "essas coisas choram quando saem do frio para o calor"; terremotos são atribuídos a loki se contorcendo contra o veneno de cobra que cai em seu rosto onde foi acorrentado pelos æsir; no ragnarök será terminado um navio chamado de naglfar, que é feito de unhas não cortadas de homens mortos. foi uma leitura válida.

recebi minhas compras do amazon day e li jumanji (de chris van allsburg) e elefante (de bartolomeu campos de queirós), ambos muito bonitos em suas ilustrações e muito únicos em suas breves histórias. (não vou escrever sobre eles porque posso pegá-los na estante e ler em poucos minutos, então né. única coisa é que confundi jumanji com zathura, só pra depois descobrir que o segundo é sequência e tem livro do mesmo autor.)

depois resolvi participar da maratona literária de inverno, que inicialmente era do dia 16 ao dia 30, mas depois acrescentaram seis dias... fizeram três níveis diferentes (iniciante, intermediário e hardcore) e tinha três desafios pra cada – escolhi o intermediário e encaixei quatro livros nos desafios:

• livro com a capa azul → família schürmann - um mundo de aventuras (heloisa schürmann)
• livro com menos de 200 páginas/escrito por uma mulher → uma duas (eliane brum)
• livro que você comprou pela capa → cyrano de bergerac (edmond rostand)
• livro sem saber a sinopse ou do que se trata/nacional → caminhos cruzados (érico veríssimo)


no domingo que a maratona começou eu tava revendo colegas em outra cidade, então li pouquinho, 30% e alguma coisa de uma duas, de eliane brum (que terminei dia 18). tinha montado um cronograma mostrando onde eu deveria estar em cada leitura a cada dia para ler tudo em tempo; comecei atrasando um dia mas ok. trata-se da história da relação nada saudável entre duas mulheres, mãe e filha, que se sobrepõem à medida que a narrativa submerge nelas – não existe clareza entre o bem e o mal, o certo e o errado, o real e o fictício. ambas são personagens únicas, apresentando um nível de frieza incomparável. livro visceral, intenso e doloroso, me incomodava e não me deixava ficar muito tempo sem pensar nele e querer concluir de vez. o final não é muito definido, dando a entender que foi só ficção pra exorcizar demônios e se abrigar nas possibilidades que a literatura oferece. gostei bastante do estilo; foi o encerramento da experiência com o kindle unlimited.

Finalmente o grito preso ali se solta. E ela sente que nunca mais o grito cessará, que aquele grito é para sempre, é um grito para toda a vida e para além da vida. Porque agora ela alcança a inteireza do horror. E gritos são coisas que não podem ser ditas. Não há como escapar da carne da mãe. O útero é para sempre.
Sempre tive medo de escrever. Da hora de tornar meu sangue símbolo do sangue. Tinha medo por causa da dor desconhecida que talvez viesse, que eu quase podia tocar como certeza. Ainda que eu sangre com sangue, este ritual eu conheço. Ele faz de mim o pouco que tenho de mim. É uma constituição. Me constituo eu pelos cortes em mim. As palavras, não. O que elas farão de mim?
As palavras que rastejam de mim como vermes gordos de hemácias me fazem desconfiar de que não há um sujeito que diz, não há eu. Então, quem fala? De quem são as palavras que me constrangem?
A luta de classes de Marx não é uma luta, é apenas uma divisão entre os que podem fazer perguntas e os que só estão autorizados a dar respostas.
Como sempre, esquece onde está enquanto escreve. A escrita é um lugar que ela pode habitar. É reconfortante escrever sobre a vida dos outros. Esta é a melhor parte de ser jornalista. Poder escrever sobre uma realidade que não precisa virar ficção para ser pronunciada.
Eu sentava na outra ponta da mesa de fórmica da cozinha e ficava olhando-o comer. Ele mastigava muitas e muitas vezes cada bocado e um dia me explicou que era preciso mastigar 98 vezes de cada vez, para ajudar o estômago na digestão da comida e manter a saúde. Fiquei aliviada. Então era por isso que ele não conversava comigo. Eu nem mesmo queria que ele falasse. Não sei se foi aí que começou, mas sempre tive medo das palavras. Das pronunciadas. Preferia ficar ali, compartilhando o silêncio do meu pai.
Minha cabeça se esvaziou. Mais tarde eu intuiria que aquilo era felicidade.
Vivia em mim e seguia a rotina dos dias como uma sonâmbula com os dois olhos abertos só pra dentro. Quem perdeu muito sabe que há um certo alívio em não esperar nada de bom, em não desejar nada.
Tinham me contado que os escritores eram uma espécie de deuses. Eles criavam um mundo em que podiam viver e escapavam deste pela porta dos fundos. Me preparei a vida inteira para ser deus. E só o que faço agora é desinventar a mim mesma. Acho que é isso. A realidade é uma ficção. E ao escrever eu vou quebrando essa criatura esculpida com amor e desespero. É o contrário. É preciso destruir a forma humana que está ali para alcançar a pedra.
Sim, porque eu só sei escrever a mão. E acho que há mais coragem em escrever a mão, sopesando cada letra, que exige esforço e não aparece e desaparece numa tela como se as palavras pudessem simplesmente surgir ou simplesmente ser eliminadas sem que se pague um preço por isso.
Não lembro quem disse, mas isso é um filho. "Aquele que entra em minha casa e não veio de fora".
Se sabemos o que esperar, até mesmo a dor pode ser confortadora. E eu descubro que o pior caminho é melhor que o desconhecido.
Sempre me surpreende o interesse de qualquer homem por mim. Me excita e me ofende ao mesmo tempo.
Dou um sorriso tímido e saio quase correndo, como se fosse uma menina. Nem me lembro de perguntar seu nome. Melhor assim. Os nomes nos ancoram a uma identidade. E o melhor daquele encontro é que ele era fluido, não tinha ficado impresso em lugar algum. Sem nomes, sem registro.
Eu preciso muito de fronteiras e nunca entendi aqueles jargões publicitários de uma vida sem limites. Para mim, a liberdade sempre esteve ligada à capacidade de erguer muros cada vez mais altos.
O branco, ela pensa, não é a soma de todas as cores, mas a ausência de todos os sentimentos. O branco não tem dor nem medo nem vilania. Por isso é a cor da paz, porque é uma soma que subtrai o humano.
Você também não é normal, Laura. Herdou os meus genes deformados e lembra o que não deveria. Eu a salvei, mas a salvei de mim mesma. Fui ao mesmo tempo sua assassina e sua heroína. E acredito que é isso que todas as mães são em alguma medida. Sua Noviça Rebelde não existe. Lembre-se, ela era uma madrasta. Em algum momento, os filhos já tinham matado a mãe verdadeira. Mas ninguém nunca quis saber o que aconteceu com ela. Será que os tumores que tomam conta de mim são aqueles bebês todos que matei e que voltaram para se vingar? Tenho medo, mas se for isso não vou reclamar, porque agora eles podem, e eu não. Estou velha e já não posso afogar ninguém.
A única palavra que eu quis escrever, nascida do meu desejo. Sim, porque você não nasceu porque o seu pai se enfiou dentro do meu corpo paralisado. Você nasceu quando olhou para mim, e eu me vi no seu olhar. E desejei que você vivesse. Você é tudo o que eu sinto de vivo em mim agora que morro.
Pego as mãos da minha mãe, cada vez mais diferentes das minhas agora que a doença a molda à sua imagem e semelhança. O câncer é como uma possessão alienígena de dentro para fora. De fato, não. É uma possessão do corpo pelo próprio corpo. O câncer é tão da minha mãe como as células sadias que fracassam em defendê-la da mutação de suas irmãs. É um filme de terror, filmado por dentro. Uma ficção científica que não é ficção. Fico fascinada com a quantidade de horror que a normalidade nos assegura dia após dia. Para que inventar zumbis e aliens vindos do espaço se existe o câncer?
Abraço meu corpo e choro embrulhada em mim como o tatu-bola da minha infância. Sou um quadro de solidão e desamparo no quarto de hospital. Uma mulher adulta em posição fetal quando a mulher que lhe deu à luz acaba de deixar este mundo. Partiu levando com ela seu útero.
Nenhuma vida se completa. Isso ela agora sabe. Como a mãe, ela também vai esperar que algo se complete, mas a vida seguirá até o fim em aberto, inconclusa. A vida humana é a única que acaba sem um fim, porque é a única que o espera.
Descubro que escrevi sobre a impossibilidade da literatura. O fracasso previamente assumido de tentar transformar vida em palavra. O que mais importa é o que não pode ser escrito, o que grita sem voz e sem corpo entre as linhas. O para sempre indizível.

o próximo livro que separei pra ler foi caminhos cruzados, mas tive tanta dificuldade e falta de ânimo que nem continuei nutrindo esperanças de concluir com sucesso a maratona. fui ler sejamos todos feministas, de chimamanda ngozi adichie, que baixei no kindle há algum tempo atrás por ser um ebook gratuito na amazon. é a transcrição de uma palestra que a escritora fez num evento do TEDx, sobre sua experiência como mulher e como feminista. sempre massa esse tipo de discussão, embora ainda tenha muita coisa confusa na minha cabeça a respeito de gênero e etc (como que seja opressão, não identidade). dá pra ler rapidinho e em seguida assisti a uma palestra a qual ela se refere no começo do ebook, the danger of a single story, que achei incrível.

Se repetimos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal. Se só os meninos são escolhidos como monitores da classe, então em algum momento nós todos vamos achar, mesmo que inconscientemente, que só um menino pode ser o monitor da classe. Se só os homens ocupam cargos de chefia nas empresas, começamos a achar "normal" que esses cargos de chefia só sejam ocupados por homens.
Então, de uma forma literal, os homens governam o mundo. Isso fazia sentido há mil anos. Os seres humanos viviam num mundo onde a força física era o atributo mais importante para a sobrevivência; quanto mais forte a pessoa, mais chances ela tinha de liderar. E os homens, de uma maneira geral, são fisicamente mais fortes. Hoje, vivemos num mundo completamente diferente. A pessoa mais qualificada para liderar não é a pessoa fisicamente mais forte. É a mais inteligente, a mais culta, a mais criativa, a mais inovadora. E não existem hormônios para esses atributos. Tanto um homem como uma mulher podem ser inteligentes, inovadores, criativos. Nós evoluímos. Mas nossas ideias de gênero ainda deixam a desejar.
O que me impressiona – em relação a ela e a várias outras amigas americanas – é o quanto essas mulheres investem em ser "queridas", como foram criadas para acreditar que ser benquista é muito importante. E isso não inclui demonstrar raiva ou ser agressiva, tampouco discordar. (...) Se, por um lado, perdemos muito tempo dizendo às meninas que elas não podem sentir raiva ou ser agressivas ou duras, por outro, elogiamos ou perdoamos meninos pelas mesmas razões.
O modo como criamos nossos filhos homens é nocivo: nossa definição de masculinidade é muito estreita. Abafamos a humanidade que existe nos meninos, enclausurando-os numa jaula pequena e resistente.
Nós policiamos nossas meninas. Elogiamos a virgindade delas, mas não a dos meninos (e me pergunto como isso pode funcionar, já que a perda da virgindade é um processo que normalmente envolve duas pessoas).
E se criássemos nossas crianças ressaltando seus talentos, e não seu gênero? E se focássemos em seus interesses, sem considerar gênero?
A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura.

dia 30 reli é apenas o vértice do mundo interior, de agnieszka piksa, que luiz tinha me mostrado no comecinho do cv2 e descobri que yuri tinha quando fui na casa dele com aldivo após a peça do guto (eita quanta gente mencionada). é uma zine distribuída na 31ª bienal de sp, queria muito ter porque acho muito foda. tem muitas colagens e desenhos, fala sobre várias coisas muito interessantes (as que mais gosto são essas que anotei – o mais próximo possível de como tava na zine, por sinal). o nome em inglês é it's just the spin of inner life, além de que vi escrito vórtice (em vez de vértice) em algum lugar, o que me faz pensar que talvez trocaram uma letra aí, porque faz mais sentido se comparado com spin, né...

O processo da vida
quando penso nesta vida, cara...
– quero dizer...
primeiro, éramos espermatozóides...
depois entramos na célula, e de certo modo já não éramos mais espermatozóides
começamos a nos desenvolver como embriões...
depois disso, saímos do corpo da mãe de forma realmente apocalíptica, e nos tornamos crianças... e mais tarde humanos adultos
em cada uma dessas etapas, fomos transformados completamente, existindo em cada fase como seres totalmente diferentes
nós não nos lembrávamos do estado anterior de nós mesmos e não podíamos prever o que vai vir depois
muito provavelmente tínhamos certeza de que o fim daquela fase era o fim da nossa existência.
não podemos nem mesmo afirmar que era ainda o mesmo nós passando por todas essas fases!
então, como podemos acreditar que esta vida é a última vida e que a morte é mesmo o fim?
Carta de um deus
neste sonho, recebo resposta email dele.
obrigado por enviar seu currículo geral, o sr. deus apressia sua sinceridade, considerando seus erros. nós apoiamos os erros, porque erros também são uma forma de entender as coisas.
e pouco mais tarde, seus delegados vêm com a proposta:
nosso consórcio está satisfeito com sua proposta de projeto – você trabalhará no estabelecimento da embaixada do céu
no mundo subterrâneo, isto é, no inferno. logo, assinamos o acordo com os parceiros de negócio do outro lado do rio estige – o acordo tem muitas páginas, procedimentos complicados de visto são garantidos para todos os candidatos à viagem... /lista de pecados, lista de benfeitorias, confirmação das desflorações cometidas, exame de pensamentos sujos, relatório do nível dos bônus cármicos, sofrimentos antecipados, facadas nas costas, ações equivocadas, sedimentação de boas intenções, scan da aura.../ assim como o rigoroso controle de fronteira de ambos os lados do rio subterrâneo e punições drásticas por tentativas de emigração ilegal
eu, como diplomata pela minha natureza profunda, acordo me sentindo muito feliz, com uma visão de uma futura união democrática entre o céu e o inferno. embora ainda não tenho certeza do que meu empregador diria sobre isso...
Justiça para os aliens
na maioria dos filmes de ficção científica, não há justiça alguma. quero dizer: por que os aliens sempre têm de ser perversos e maus, inimigos dos seres humanos? na maioria dos filmes, eles são normalmente representados como predadores, animais, feras primitivas que apenas se empenham em obter carne humana e destruição... embora sejam ao mesmo tempo cultos o bastante para consequirem construir e pilotar espaçonaves de alta tecnologia, máquinas do tempo etc, que estão muito além ds nossa imaginação tecnológica e científica. isto não é um paradoxo? que estariam eles interessados em carne humana e em fazer-nos sofrer, quando podem fazer muitas outras coisas legais e civilizadas como voar para qualquer lugar do espaço, teleportarem-se daqui para acolá, jogarem mortal kombat com robôs etc? se fossem tão civilizados, por que obedeceriam a instintos primitivos tão baixos e básicos? na verdade, isto cheira realmente a projeção dos seres humanos. imagine, por exemplo, se agentes de alguma cultura alienígena do espaço sideral aparecessem amanhã diante de nós. o que aconteceria? graças à imagem de um alien, como um de nossos piores inimigos, que foi implementada na consciência coletiva graças a filmes sci-fi populares/comerciais, a população da terra provavelmente saudaria esses agentes com armas, facas e bombas. em lugar de flores e uma taça de vinho, e isto não é justo, a existência de culturas alienígenas ainda não foi confirmada, mas este fato nos autoriza a projetar todo o nosso ódio e necessidade natural pela incorreção nesse espaço vazio? o que isto nos diz sobre nós, humanos? parece que o pensamento sobre o "inimigo desconhecido" nos leva a conhecer melhor nossas próprias partes vergonhosas. Quem produziu essas imagens de aliens senão nossa própria mente, ao tentar se ver livre de suas próprias partes vergonhosas. depois que contei isto a um amigo que é cartunista, ele tirou uma boa conclusão, mencionando o filme solaris, dirigido por andrei tarkovski a partir do livro de stanislaw lem. nesse filme, astronautas estão tentando se comunicar com um planeta alienígena, que na verdade é um grande organismo consciente... mas toda tentativa de abordá-lo desperta e materializa os elementos mais baixos e subliminares de seu próprio subconsciente, obrigando-os a encará-los e a lidar com eles. meu amigo cartunista disse: – sim, este é o filme que vamos mostrar a eles primeiro quando nos visitarem.
Aliens do espaço sideral, quem quer que sejam, peço desculpas a vocês diante da raça humana.
(15/03/2016)

nesse dia também terminei caminhos cruzados, de érico veríssimo. no começo eu não conseguia ler sem ser tomada por um sono insuportável, então não engatei na leitura até passar da metade. é "um livro de protesto que marca a inconformidade ante as desigualdades, injustiças e absurdos da sociedade burguesa" – são vários personagens inseridos em núcleos completamente diferentes, cujos caminhos se cruzam de alguma maneira durante os cinco dias de que tratam a história e exibem diferentes perspectivas sobre os eventos. é assim:

• teotônio leitão leiria, rico que se considera merecedor de uma noite com uma prostituta (cacilda), demite gente de sua empresa sempre que alguém influente pede emprego pra outra pessoa e critica os novos-ricos;
• dodó leitão leiria, sua esposa, senhorinha empertigada em ser devota de santa teresinha e ajudar os pobrezinhos, adorando aparecer no jornal como grande figura da caridade;
• vera leitão leiria, filha única do casal, é apaixonada por chinita e despreza o advogado armênio, que não desiste de cortejá-la;
• virgínia madeira, só faz desdenhar seu marido, seu filho e suas criadas, convencida de que sua vida é insuportável e alimentando um amante platônico com quem troca olhares todo dia às cinco horas;
• noel, filho de virgínia, é extremamente inseguro por causa da falta de afeto dos pais e se refugia em mundos paralelos criados a partir de livros e histórias, sendo trazido à realidade pela mão da amiga fernanda;
• zé maria pedrosa, coronel, ganha na loteria e se muda de jacarecanga para porto alegre, onde constrói um palacete, arruma uma amásia e gasta sem limites para se exibir, além de pensar sempre no amigo que o criticava na cidadezinha ("Quero só ver a cara do Madruga!");
• chinita, filha de zé maria, vive num mundinho próprio onde finge ser atriz de hollywood e leva a vida como se tudo fosse parte de um filme;
• maria luísa, esposa de zé maria, que só sabe lamentar-se de absolutamente tudo e se ausentar de qualquer decisão, pensando na antiga vida em jacarecanga e em como tudo mudou pra pior (me fazia pensar sempre na senhora de longa jornada noite adentro);
• salustiano, passa uma noite com cacilda mas é namorado de chinita, não faz nada da vida além de receber uma mesada gorda e desfrutar de seus privilégios;
• joão benévolo, desempregado, vive numa fantasia com suas leituras onde esquece das precariedades pelas quais passa com sua esposa e filho, recebe diariamente a visita do ex-noivo de sua esposa, que permanece "esperando" a hora certa pra recuperá-la;
• fernanda, filha mais velha de dona eudóxia, trabalha para leitão leiria e cuida da casa, sendo uma segunda mãe para o irmão, além de ser amiga fiel de noel desde a infância de ambos;
• pedrinho, irmão de fernanda, adolescente que se apaixona pela "mulher à-toa" com quem teve sua primeira relação sexual (cacilda) e junta trocados que recebe da irmã para poder comprar um colar e presenteá-la;
• maximiliano, tuberculoso desenganado, cuja morte é aguardada com ansiedade por sua esposa, para que ela possa buscar trabalho e uma melhora de vida para os filhos;
• clarimundo, professor, só se importa com a ciência e corrige quem fala errado, colocando-se num patamar superior a tudo e todos.


gostei bastante da narrativa do autor e achei muito engenhosa a construção da história. tatiana feltrin disse que foi um dos primeiros livros a conter um romance lésbico, apesar de nada passar de um beijo desesperado interpretado como diversão por chinita. no final noel e fernanda confessam amar um ao outro, sem precisar de palavras; dodó recebe a atenção especial do jornal no dia de seu aniversário; chinita cai nos encantos de salu e descobre o mundo de prazer que reside no sexo (a primeira vez que eles fizeram foi bem horrível, eu gostava do nome salu mas depois dessa não engoli mais seu personagem); maximiliano morre em decorrência de dona dodó ter se esquecido de mandar que o levassem para o hospital; o "amante" de dona virgínia é assassinado pelo esposo da mulher com quem ele tinha um caso e ela se sente traída, por algum motivo; maria luísa recebe uma carta anônima de leitão leiria denunciando que seu marido tem uma amante, mas nem se surpreende já que o pessimismo é parte dela; joão benévolo desfalece na rua depois de um dia sem se alimentar, procurando emprego, e as pessoas que o cercam e o recolhem julgam que o ocorrido foi por conta de bebida. a obra termina com clarimundo escrevendo o antelóquio (prefácio) de seu livro, o homem de sírio, entidade que observa a terra desde essa estrela e supostamente tem visões reveladoras acerca da vida no nosso planeta – ele se convence de que a vida é monótona e não tem nada de romântico, mencionando o que enxerga de seus vizinhos pela janela. é ótimo porque muitos núcleos da história estão ali, à sua vista, mas a distância que mantém de tudo faz com que ele pense que não há nada a acontecer.

vou mostrar só a parte de julho da MLI aqui, mesmo. ainda tenho que ler dois livros, supostamente, mas tô sem vontade. quero me dedicar aos livros da lista de leitura da unicamp. mas ok, é isso.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

assistidos em junho

dia 13 foi feriado tanto aqui quanto na cidade de talita e aproveitamos pra ver mad max (1979). bem besta: as coisas são sem sentido, o acontecimento contido nas sinopses só acontece no final do filme e max só fica mad nos últimos 30 minutos. apesar disso foi massa assistir simultaneamente e fazer críticas.

tia deila me deu uns livros dela pra colocar no meu brechó e um deles era para sempre alice, de lisa genova. eu sabia que tinha filme mas não sabia do que se tratava; achei interessante pelo que li no livro e decidi assistir (o filme/título original é still alice e é de 2014). é sobre essa professora universitária que desenvolve doença de alzheimer precocemente, aos 50 anos – fiquei meio surpresa por ser linguística a área dela, sendo que poucos dias antes eu tinha reencontrado esse curso e reacendido o interesse. muito triste e desesperador pensar numa situação dessas. ótima história.

essas mulheres. que mulheres.

outro dia liguei a tv e tava passando eat pray love (2010) na fox; assisti porque há algum tempo vi uma palestra da autora do livro (talita me mostrou) e fiquei curiosa pra saber da história. não sabia que era autobiográfico; esperava que envolvesse menos romance, não foi muito significativo – literalmente um ciclo de viagens que envolviam comer, rezar e amar.

fui ao cinema com larissa ver wonder woman, obviamente de 2017. a parte mais interessante de tudo eu já sabia – que a atriz é israelita e tem treinamento militar –, tinha visto um vídeo que abordou bem a coisa toda. mas é até que legal. me incomoda o negócio de ter um salto no sapato dela e a "armadura" não cobrir quase nada, e sério, um deus de bigode...? (e sobre isso de uma mulher valente se apaixonando pelo primeiro homem que vê na vida: why de novo.)

depois, na casa de aline, fiquei distraída com o filme que tava passando na tv (neighbors 2) e, apesar de ser besta, tive vontade de assistir. segui a ordem pra entender melhor: neighbors (2014) seguido por neighbors 2: sorority rising (2016). os dois são o típico besteirol americano, humorzinho idiota e sem nenhum compromisso de não serem rasos. experiência que geralmente declino mas ok, foi válido passar por isso uma vez.

em seguida assisti a now you see me (2013), porque bastante gente já falou desse filme ao meu redor e era um dos indicados por fabi na época da wizard. eu gosto de mágica e hipnose, interessante misturar isso com grandes golpes, mas o final foi tipo... quê? inesperado sim, mas me pareceu bem desconexo com todo o resto.

eu tava entediada e coloquei miss peregrine's home for peculiar children (2016)... e achei bem bostinha. lembro da febre que foi no booktube logo após o lançamento do livro; não sei se ter filme dirigido por tim burton foi a melhor coisa pra essa história, que nem chegou a me interessar. muito aleatório o negócio dos "peculiares" e bem bobinho o tal do vilão interpretado pelo samuel l. jackson e os monstros parecendo o slender man. achei curioso o asa butterfield super alto e magrelo porque a última coisa que vi com ele foi hugo (2011), quando ele ainda era mais criança (apesar de que aquele rosto me parece meiguinho demais pra qualquer coisa).

vi personal shopper (2016), com kristen stewart, porque comecei a ver uns vídeos dela e falavam desse filme, além de eu tê-lo anotado uns dias antes quando vi a propaganda no now da net. apesar da crítica não ser muito positiva eu gostei bastante; encarei a coisa de espíritos e gostei demais da kristen protagonizando. tem um ritmo bem lento, captando o cotidiano de uma forma perfeita; não é muito sólido ou definido mas gostei do que deixou comigo.

sabia que essa tatuagem era de guernica! e é da kristen mesmo, massa que foi mantido (edit: pesquisando li que era de uma personagem de outro filme mas que ela acabou se apegando e fez de verdade)

no final do mês terminei a season 7 de how i met your mother, mas nunca sei falar do que acontece nessa série (felizmente a wikipedia tem bons resumos). é muita namorada e muita doideira pra registrar, só aproveito as boas risadas quando tô precisando de algo que não me exija muito. em breve eu acabo.

lidos em junho

dia 2 terminei de ler rainer maria rilke, mas por volta de 70% do ebook eu li em maio. singh bean cita esse autor (cartas a um jovem poeta) em život je tady e vi que era um livro disponível no kindle unlimited, por isso peguei pra ler. o ebook tem duas obras, na verdade; a primeira parte é composta basicamente por conselhos a esse franz kappus, jovem que aspira à profissão artística e pede orientação do escritor. ele trata de discorrer sobre a solidão, a tristeza, o amor, deus e, obviamente, a arte; achei muita coisa muito inspiradora e interessante (percebe-se pela quantidade de trechos marcados), embora algumas vezes tenha tido que reler para fazer passar a sensação de "cê tá se achando o sabedor de tudo, não é bem assim" (compreendendo melhor até que concordava com ele). mais tarde percebi que um trecho está também em coral, de taís koshino.

Pois não basta talento ou determinação, é preciso desprendimento.
A obra de arte, ser misterioso, precisa mais de amor do que compreensão para revelar seus segredos.
As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra pisou.
Ninguém o pode aconselhar ou ajudar – ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo.
Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças.
Procure soerguer as sensações submersas desse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar.
Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro conselho fora este: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua vida; na fonte desta é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar.
O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.
Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.
Deixar amadurecer inteiramente, no âmago de si, nas trevas do indizível e do inconsciente, do inacessível a seu próprio intelecto, cada impressão e cada germe de sentimento, e aguardar com profunda humildade e paciência a hora do parto de uma nova claridade: só isso é viver artisticamente na compreensão e na criação.
Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo, consiga viver a resposta.
Não tendo nenhuma comunhão com os homens, procure ficar perto das coisas, que não o abandonarão. Ainda há as noites e os ventos que passam pelas árvores e percorrem muitos países. No mundo das coisas e dos bichos tudo está ainda cheio de acontecimentos de que o senhor pode participar.
Se Ele é o mais perfeito, não deve ter havido algo menor antes d'Ele para que Ele se pudesse escolher a si mesmo dentro da plenitude e abundância? Não deverá ser Ele o último, para encerrar tudo em si? Que sentido teria a nossa vida se Aquele a que aspiramos já tivesse sido?
É bom estar só, porque a solidão é difícil. O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita.
O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe. Do amor que lhes é dado, os jovens deveriam servir-se unicamente como de um convite para trabalhar em si mesmos ("escutar e martelar dia e noite"). A fusão com outro, a entrega de si, toda a espécie de comunhão não são para eles (que deverão durante muito tempo ainda juntar muito, entesourar); são algo de acabado para o qual, talvez, mal chegue atualmente a vida humana.
Mas como podem eles, que já se atiraram uns aos outros e não mais se delimitam nem se distinguem, quer dizer, que nada mais possuem de seu, encontrar uma saída em si mesmos, no fundo de sua solidão já derramada?
Essa humanidade da mulher, levada a termo entre dores e humilhações, há de vir à luz, uma vez despidas, nas transformações de sua situação exterior, as convenções de exclusiva feminilidade. Os homens, que não a sentem vir ainda, serão por ela surpreendidos e derrotados. Um dia (desde já predito, sobretudo nos países nórdicos, por sinais fidedignos) ali estará a moça, ali estará a mulher cujo nome não mais significará apenas uma oposição ao macho nem suscitará a ideia de complemento e de limite, mas sim a de vida, de existência: a mulher-ser-humano. Esse progresso há de transformar radicalmente (muito contra a vontade dos homens a quem tomará a dianteira) a vida amorosa, hoje tão cheia de erros numa relação de ser humano para ser humano, não de macho para fêmea. Esse amor mais humano (que se produzirá de maneira infinitamente atenciosa e discreta, num atar e desatar claro e correto) assemelhar-se-á àquele que nós preparamos lutando fatigosamente, um amor que consiste na mútua proteção, limitação e saudação de duas solidões.
Perigosas e más são apenas as tristezas que levamos por entre os homens para abafar a sua voz. Como as doenças tratadas superficialmente e à toa, elas apenas se escondem e, depois de leve pausa, irrompem muito mais terríveis. Juntam-se no fundo da alma e formam uma vida não vivida, repudiada, perdida, de que se pode até morrer.
São, com efeito, esses os momentos em que algo de novo entra em nós, algo de ignoto: nossos sentimentos emudecem com embaraçosa timidez, tudo em nós recua, levanta-se num silêncio, e a novidade, que ninguém conhece, se ergue aí, calada, no meio.
Parece-me que todas as nossas tristezas são momentos de tensão que consideramos paralisias, porque já não ouvimos viver nossos sentimentos que se nos tornam estranhos; porque estamos a sós com o estrangeiro que nos veio visitar; porque, num relance, todo o sentimento familiar e habitual nos abandonou; porque nos encontramos no meio de uma transição onde não podemos permanecer.
Não podemos dizer quem veio, talvez nunca o venhamos a saber, mas muitos sinais fazem crer que é o futuro que entra em nós dessa maneira para se transformar em nós mesmos, muito antes de vir a acontecer. Por isso é tão importante estar só e atento quando se está triste.
Quanto mais estivermos silenciosos, pacientes e entregues à nossa mágoa, tanto mais profunda e imperturbável entra a novidade em nós, tanto melhor a conquistamos, tanto mais ela se tornará nosso destino e quando, num dia ulterior, vier a "acontecer" – isto é, quando sair de nós para se chegar a outros –, senti-la-emos familiar e próxima. Deve ser assim. É preciso – e a nossa evolução, aos poucos, há de processar-se nesse sentido – que nada de estranho nos possa advir, senão o que nos pertence desde há muito.
Seu cérebro deveria inventar alguma mentira enorme para alcançar e esclarecer o estado de seus sentidos. Dessa maneira é que se alteram, para quem se torna solitário, todas as distâncias, todas as medidas. Muitas dessas transformações se verificam repentinamente e, como no homem colocado no cume da montanha, produzem-se então imaginações insólitas e estranhas sensações cujas proporções parecem insuportáveis. Mas é preciso vivermos também isso. Temos que aceitar a nossa existência em toda a plenitude possível; tudo, inclusive o inaudito, deve ficar possível dentro dela. No fundo, só essa coragem nos é exigida: a de sermos corajosos em face do estranho, do maravilhoso e do inexplicável que se nos pode defrontar.
Entretanto, quão mais humana aquela perigosa incerteza que faz os prisioneiros dos contos de Poe apalparem as formas de suas terríveis prisões e não desconhecerem os indizíveis horrores de sua moradia.
Talvez todo horror, em última análise, não passe de um desamparo que implora o nossa auxílio.
Para que perseguir-se a si mesmo com a pergunta: de onde pode vir tudo aquilo e para onde vai? Não sabia estar em transição? Desejava algo melhor do que transformar-se? Se algum ato seu for doentio, lembre-se de que a doença é o meio de que o organismo se serve para se libertar de um corpo estranho; é só ajudá-lo a ficar doente, ter toda a sua doença e deixar a esta o seu curso.
O "grandioso" não foi aquilo que o senhor pensa ter cumprido (embora seu sentimento tenha razão), mas o fato de já ter existido algo que o senhor pôde colocar em lugar daquele engano, algo de real e verdadeiro. Sem isso, o seu triunfo também teria sido apenas uma reação moral, sem significação ampla; com ele, tornou-se uma seção de sua vida.
Sua dúvida por tornar-se uma qualidade se o senhor a educar. Deve-se transformar em saber, em crítica. Cada vez que ela lhe quiser estragar uma coisa, pergunte-lhe por que aquilo é feio. Peça-lhe provas, examine-a; talvez a ache indecisa e embaraçada, talvez revoltada. Mas não ceda, exija argumentos. Ponha-se a agir assim, atenta e consequentemente, cada vez, e dia virá em que, de destruidora, ela se tornará sua melhor colaboradora. talvez a mais sábia de quantas cooperam na construção de sua vida.

a segunda parte chama-se a canção de amor e de morte do porta-estandarte cristóvão rilke. é uma pequena história (ou poema) sobre esse porta-estandarte, nuns tempos do século XV, a serviço de uma cavalaria austríaca, aparentemente. acontecem breves comentários sobre outros homens que o acompanham, entre eles um francês que carrega uma rosa abençoada pela amada que o espera, até que chegam a um castelo e se hospedam nele. o de languenau (a como se refere o protagonista) se envolve com uma condessa depois de um festim e acaba morrendo num incêndio que toma início do lado de fora. também marquei pedaços de que gostei. 

As altas chamas tremulavam, as vozes estrugiam, confusas canções jorravam dos cristais e das luzes; e finalmente dos ritmos amadurecidos brotou a dança. E a todos arrastou. Era um bater de vagas pela sala – um encontrar-se e um escolher-se, um despedir-se e um reencontrar-se, um embriagar-se de brilho e um cegar-se de luz, e um embalar-se no vento estival que mora nas roupagens das cálidas mulheres.
Não. É somente porque a infância lhe caiu dos ombros – esse suave traje nubloso. Quem lho arrebatou? "Tu?", pergunta com uma voz que nunca tinha ouvido. "Tu!" E agora não há nada por cima dele. E está despido como um santo. Claro e esguio.
A câmara da torre está apagada. Mas eles iluminam seus rostos com sorrisos. Tateiam diante de si como cegos e encontram o outro como uma porta. Quase como crianças assustadas diante da noite, apertam-se um ao outro. No entanto nada temem. Não há nada contra eles: nenhum ontem e nenhum amanhã, pois o tempo se desmoronou. E eles florescem das suas próprias ruínas.

dia 11 terminei mayombe, de pepetela. não sei nem como abordar esse livro, que, por sinal, gostei de forma não proporcional ao tempo que demorei pra ler. a história se desenvolve durante a guerra de independência da angola contra portugal, tendo como personagens os guerrilheiros do mpla (movimento popular de libertação de angola). diferentes narradores tomam frente e todos têm apelidos de acordo com sua personalidade e/ou atitudes: sem medo é o comandante muito valente, mundo novo é bem estudado nas tendências europeias, milagre é o melhor bazukeiro, teoria é o professor do grupo e assim por diante. o livro é muito real, mostrando o cotidiano dos que faziam a luta revolucionária, bem como seus sentimentos, reflexões, contradições e conflitos – coisa que recebeu até críticas na época que foi lançado, já que exibia suas falhas e divisões internas, uma vez que o tribalismo continuava tendo voz. cada pessoa tem sua razão para estar ali e isso fica claro nos trechos onde personagens tomam frente da narrativa, já que através desse recurso inovador conhecemos a origem e as experiências de diferentes elementos do movimento. o que mais se destaca é sem medo, que tece a história com muitos ideais interessantíssimos à medida que conta sua jornada, aconselha seu companheiro comissário e gerencia a frente libertadora. gostei muito de tudo; inclusive acho esse vídeo um complemento ótimo. marquei tanta coisa que tô até envergonhada, mas fazer o quê.

Talvez é não para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não.
— (...) Há vezes em que um homem precisa de sofrer, precisa de saber que está a sofrer e precisa ultrapassar o sofrimento. Para que, por quê? Às vezes, por nada. Outras vezes, por muita coisa que não sabe, não pode ou não quer explicar.
(...) os rótulos só servem os ignorantes que não veem pela coloração qual o líquido encerrado no frasco.
Como é dramático ter sempre de escolher, preferir um caminho a outro, o sim ou o não! Por que no Mundo não há lugar para o talvez?
O silêncio pesado que se seguiu a afirmação de Sem Medo não foi afastado para trás, como as lianas que nos batem na cara. O silêncio era o Mayombe, sempre ele, presente, por muitas lianas que se afastassem para trás.
Os guerrilheiros encavalitaram-se num enorme tronco caído. Deixara de respirar, monstro decepado, e os ramos cortados juncavam o solo. Depois de a serra lhe cortar o fluxo vital, os machados tinham vindo separar as pernas, os braços, os pelos; ali estava, lívido na sua pele branca, o gigante que antes travava o vento e enviava desafios às nuvens. Imóvel mas digno. Na sua agonia, arrastara os rebentos, os arbustos, as lianas, e seu ronco de morte fizera tremer o Mayombe, fizera calar os gorilas e os leopardos.
— (...) O que é que o patrão faz para ganhar esse dinheiro? Nada, nada. Mas é ele que ganha. E o machado com que vocês trabalham nem sequer é dele. É vosso, que o compram na cantina por setenta escudos. E a catana é dele? Não, vocês compram-na por cinquenta escudos. Quer dizer, nem os instrumentos com que vocês trabalham pertencem ao patrão. Vocês são obrigados a comprá-los, são descontados do vosso salário no fim do mês. As árvores são do patrão? Não. São vossas, são nossas, porque estão na terra angolana. Os machados e as catanas são do patrão? Não, são vossos. O suor do trabalho é do patrão? Não, é vosso, pois são vocês que trabalham. Então, como é que ele ganha muitos contos por dia e a vocês dá vinte escudos? Com que direito? Isso é exploração colonialista.
— (...) Ou negava, ou matava o que me perseguia, ou endoidecia de medo. Matei Deus, matei o Inferno e matei o medo do Inferno. Aí aprendi que se devem enfrentar os inimigos, é a única maneira de se encontrar a paz interior.
— (...) A partir daí compreendi que não são os golpes sofridos que doem, é o sentimento da derrota ou de que se foi covarde.
— (...) Guardar para si não dá, só quando se é escritor. Aí um tipo põe tudo num papel, na boca dos outros. Mas, quando se não é escritor, é preciso desabafar, falando. A ação é outra espécie de desabafo, muitos de nós utilizam esse método, outros batem na mulher ou embebedam-se. Mas a ação como desabafo perde para mim todo o seu valor, tornando-se selvática, irracional. As outras formas são uma covardia. Só há a conversa franca que me parece o melhor, a mim que não sou escritor.
— (...) Deve ser horrível morrer com a sensação de que os últimos instantes de vida destruíram toda a ideia que se tem de si próprio, toda a ideia que se levou uma vida inteira a forjar de si próprio.
— De vez em quando mexe os braços e as pernas — disse Sem Medo ao Comissário. — Senão podem ficar fixos ao chão, pois o clima aqui é tão fértil que, com a chuva, se criam raízes dum dia para o outro. Boa noite, sonhos cor-de-rosa!
— (...) Um erro é menor, se há razões anteriores que levam as pessoas a cometerem esses erros.
E os guerrilheiros perceberam então que o deus-Mayombe lhes indicava assim que ali estava o seu tributo à coragem dos que o desafiavam: Zeus vergado a Prometeu, Zeus preocupado com a salvaguarda de Prometeu, arrependido de o ter agrilhoado, enviando agora a águia, não para lhe furar o fígado, mas para o socorrer.
— (...) As pessoas devem estudar, pois é a única maneira de poderem pensar sobre tudo com a sua cabeça e não com a cabeça dos outros. O homem tem de saber muito, sempre mais e mais, para poder conquistar a sua liberdade, para saber julgar. Se não percebes as palavras que eu pronuncio, como podes saber se estou a falar bem ou não? Terás de perguntar a outro. Dependes sempre de outro, não és livre. Por isso toda a gente deve estudar, o objetivo principal duma verdadeira Revolução é fazer toda a gente estudar.
— Penso que é como a religião — disse Sem Medo. — Há uns que necessitam dela. Há uns que precisam crer na generosidade abstrata da humanidade abstrata, para poderem prosseguir um caminho duro como é o caminho revolucionário. Considero que ou são fracos ou são espíritos jovens, que ainda não viram verdadeiramente a vida. Os fracos abandonam só porque o seu ideal cai por terra, ao verem um dirigente enganar um militante. Os outros temperam-se, tornando-se mais relativos, menos exigentes. Ou então mantêm a fé acesa. Estes morrem felizes embora talvez inúteis. Mas há homens que não precisam ter uma fé para suportarem os sacrifícios; são aqueles que, racionalmente, em perfeita independência, escolheram esse caminho, sabendo bem que o objetivo só será atingido em metade, mas que isso já significa um progresso imenso. É evidente que estes têm também um ideal, todos o têm, mas nestes o ideal não é abstrato nem irreal. Eu sei, por exemplo, que todos temos bem no fundo de nós um lado egoísta que pretendemos esconder. Assim é o homem, pelo menos o homem atual. Para que serviram séculos ou milénios de economia individual, senão para construir homens egoístas? Negá-lo é fugir à verdade dura, mas real. Enfim, sei que o homem atual é egoísta. Por isso, é necessário mostrar-lhe sempre que o pouco conquistado não chega e que se deve prosseguir. Isso impedir-me-á de continuar? Por quê? Se eu sei isso, a frio, e mesmo assim me decido a lutar, se pretendo ajudar esses pequenos egoístas contra os grandes egoístas que tudo açambarcaram, então não vejo por que haveria de desistir quando outros continuam. Só pararei, e aí racionalmente, quando vir que a minha ação é inútil, que é gratuita, isto é, se a Revolução for desviada dos seus objetivos fundamentais.
Para que o progresso se faça, é necessário que um elemento crie o seu contrário, o qual entrará em contradição com ele para o negar.
Não há que lamentar divisões entre os responsáveis: elas são uma necessidade histórica.
— (...) O organismo vivo, verdadeiramente vivo, é aquele que é capaz de se negar para renascer de forma diferente, ou melhor, para dar origem a outro.
— (...) O problema é esse. É que, nos nossos países, tudo repousa num núcleo restrito, porque há falta de quadros, por vezes num só homem. Como contestar no interior dum grupo restrito? Porque é demagogia dizer que o proletariado tomará o poder. Quem toma o poder é um pequeno grupo de homens, na melhor das hipóteses, representando o proletariado ou querendo representá-lo. A mentira começa quando se diz que o proletariado tomou o poder. Para fazer parte da equipa dirigente, é preciso ter uma razoável formação política e cultural. O operário que a isso acede passou muitos anos ou na organização ou estudando. Deixa de ser proletário, é um intelectual. Mas nós todos temos medo de chamar as coisas pelos seus nomes e, sobretudo, esse nome de intelectual.
O brilho do diamante são as lágrimas dos trabalhadores da Companhia. A dureza do diamante é a ilusão: não é mais que gotas de suor esmagadas pelas toneladas de terra que o cobrem.
A imensidão do mar que nada pode modificar ensinou-me a paciência. O mar une, o mar estreita, o mar liga. Nós também temos o nosso mar interior, que não é o Kuanza, nem o Loje, nem o Kunene. O nosso mar, feito de gotas-diamante, suores e lágrimas esmagados, o nosso mar é o brilho da arma bem oleada que faísca no meio da verdura do Mayombe, lançando fulgurações de diamante ao sol da Lunda.
— (...) Não digas pois que te sujeitarias à opinião da massa, se sabes perfeitamente que podes influenciar essa massa.
O Comissário olhou Sem Medo. Olhar puro, de criança, embaciado pelas lágrimas. É assim que te vais tornando homem, pensou Sem Medo. Tornar-se homem é criar uma casca à volta, cheia de picos que protejam, uma casca cada vez mais dura, impenetrável. Ela endurece com os golpes sofridos.
— Compreendi, em primeiro lugar, que o verdadeiro homem, aquele que não pode ser dominado, é o que pode calar a paixão para seguir friamente um plano. Todo o sentimento irracionaliza e, por isso, incapacita para a ação. Que todo o dominador é em parte dominado, é essa a relação dialética entre o escravo e o senhor de escravos. Que as relações humanas são sempre contraditórias e que as não há perfeitas. Que a sorte sorri a quem procura, arriscando. Que não há atos gratuitos e que não existe coragem gratuita, ela deve estar sempre ligada à procura dum objetivo. E que, quando alguém quer fazer uma asneira, deves deixá-lo fazer a asneira. Cada um parte a cabeça como quiser! Depois de ter a cabeça partida, aceitará melhor um conselho. Só se pode provar que um plano é mau, quando ele não atingir o objetivo proposto.
— O amor é assim. Se se torna igual, a paixão desaparece. É preciso reavivar a paixão constantemente. Eu não o sabia ainda, deixei-me convencer pela vida sem histórias que levávamos.
— O contrário da vida é o imobilismo — disse Sem Medo. — No amor é a mesma coisa. Se uma pessoa se mostra toda ao outro, o interesse da descoberta desaparece. O que conta no amor é a descoberta do outro, dos seus pecadilhos, das suas taras, dos seus vícios, das suas grandezas, os seus pontos sensíveis, tudo o que constitui o outro. O amante que se quer fazer amar deve dosear essa descoberta. Nem só querer tudo saber num momento, nem tudo querer revelar. Tem de ser ao conta-gotas. E a alma humana é tão rica, tão complexa, que essa descoberta pode levar uma vida.
— (...) a que chamas tu ser dogmático?
— Ser dogmático? Sabes tão bem como eu.
— Depende, as palavras são relativas.
Sem Medo sorriu.
— Tens razão, as palavras são relativas. Ele é demasiado rígido na sua conceção da disciplina, não vê as condições existentes, quer aplicar o esquema tal qual o aprendeu. A isso eu chamo dogmático, penso que é a verdadeira aceção da palavra. A sua verdade é absoluta e toda feita, recusa-se a pô-la em dúvida, mesmo que fosse para a discutir e a reforçar em seguida, com os dados da prática. Como os católicos que recusam pôr em dúvida a existência de Deus, porque isso poderia perturbá-los.
— E tu, Sem Medo? As tuas ideias não são absolutas?
— Todo o homem tende para isso, sobretudo se teve uma educação religiosa. Muitas vezes tenho de fazer um esforço para evitar de engolir como verdade universal qualquer constatação particular. Uma pessoa está habituada a não discutir, a não pôr em questão uma série de ensinamentos que lhe vieram da infância. É preciso uma atenção constante para não cair na facilidade, não atirar com um rótulo para a frente e assim fugir a uma análise profunda do facto. Porque o esquematismo, o rotulismo, são o resultado duma preguiça intelectual. Preguiça intelectual ou falta de cultura. Mas é a primeira que é grave. Claro que também é uma covardia.
— Por enquanto a tua ação é ainda aqui — cortou o dirigente.
— O que não impedirá de sonhar com esse futuro.
— Desde que o sonho te não tire faculdades para o presente, isso não é proibido.
— Não tirará. Não sou um sonhador passivo. O sonho leva-me a criar o futuro.
É o cigarro alimentando o vício, aquele que se diz ser o último. Por que não deixar de fumar de vez? Medo do salto no abismo. Agarramo-nos desesperadamente a raízes frágeis, atrasando apenas o inevitável. Salta, João, larga a raiz e salta no abismo. No fundo pode haver água que te amorteça a queda. Não tenhas medo do risco, João.
Lenine teve razão ao inventar a autocrítica. Que boa coisa é a autocrítica! Há uns burros que sempre a recusam. Ainda não descobriram o furo. Quando estiveres em maus lençóis, faz a tua autocrítica. Todos os ataques pararão imediatamente. E a teoria da ação e da reação: uma força que faz uma ação e provoca uma reação, precisa que haja uma reação para se exercer. Se tu eliminas a reação, que no caso seria a tua defesa, que acontece? A ação deixará de se exercer. É simples como água. Faço logo de começo a minha autocrítica, aí os ataques serão só para a forma, já terão perdido toda a força da raiva. Quem pode atacar um homem que não se defende?
— Ora! Nunca foi ofensa quebrar um mito. Ele é que se criou um mito sobre mim, agora apercebe-se que estava enganado. Talvez eu o tenha ajudado a criar esse mito, quem sabe? Não era a minha intenção, mas posso ter contribuído. Ele apercebeu-se por si próprio e agora, pelo caminho, a cada passada, vai desmoronando a estátua que construíra. Não há razão nenhuma para estar preocupado ou ofendido. A partir de agora, ele não precisará de mitos para viver, vai tornar-se um homem livre. Devemos mesmo estar contentes.
— (...) Isso é que me enraivece. Queremos transformar o mundo e somos incapazes de nos transformar a nós próprios. Queremos ser livres, fazer a nossa vontade, e a todo momento arranjamos desculpas para reprimir os nosso desejos. E o pior é que nos convencemos com as nossas próprias desculpas, deixamos de ser lúcidos. Só covardia. É medo de nos enfrentarmos, é um medo que nos ficou dos tempos em que temíamos Deus, ou o pai ou o professor, é sempre o mesmo agente repressivo. Somos uns alienados. O escravo era totalmente alienado. Nós somos piores, porque nos alienamos a nós próprios. Há correntes que já se quebraram mas continuamos a transportá-las connosco, por medo de as deitarmos fora e depois nos sentirmos nus.
A amoreira gigante à sua frente. O tronco destaca-se do sincretismo da mata, mas se eu percorrer com os olhos o tronco para cima, a folhagem dele mistura-se à folhagem geral e é de novo o sincretismo. Só o tronco se destaca, se individualiza. Tal é o Mayombe, os gigantes só o são em parte, ao nível do tronco, o resto confunde-se na massa. Tal o homem. As impressões visuais são menos nítidas e a mancha verde predominante faz esbater progressivamente a claridade do tronco da amoreira gigante. As manchas verdes são cada vez mais sobrepostas, mas num sobressalto, o tronco da amoreira ainda se afirma, debatendo-se. Tal é a vida.
Os olhos de Sem Medo ficaram abertos, contemplando o tronco já invisível do gigante que para sempre desaparecera no seu elemento verde.
Do coração do Bié, a mil quilómetros do Mayombe, depois de uma marcha de um mês, rodeado de amigos novos, onde vim ocupar o lugar que ele não ocupou, contemplo o passado e o futuro. E vejo quão irrisória é a existência do indivíduo. É, no entanto, ela que marca o avanço no tempo. Penso, como ele, que a fronteira da verdade e a mentira é um caminho no deserto. Os homens dividem-se dos dois lados da fronteira. Quantos há que sabem onde se encontra esse caminho de areia no meio da areia? Existem, no entanto, e eu sou um deles.

no finzinho de maio comprei numa dada situação, de francis alÿs, e li na madrugada do dia 20, sob aromas de incenso. eu tinha colocado na wishlist da amazon porque parecia interessante, mas na verdade nem sabia muito sobre o trabalho do artista. [olhando agora o livro custa R$46,80 (o preço de capa é R$117) e consegui pagar só R$27,80.] valeu muito a pena porque é extremamente artístico e poético; trata-se de vários elementos do processo criativo de seu filme tornado, feito após dez anos de perseguições de furacões nos planaltos da cidade do méxico. além de pinturas e stills de vídeos o livro contém várias frases e trechos de obras que tocam no assunto do pó, da espiral, do caos – tudo super inspirador, gostei muito da experiência.


na tarde do mesmo dia recebi úlcera, de puiupo & adonis pantazopoulos. comprei, também, numa espécie de promoção: puiupo tava vendendo por R$20 as últimas unidades que ela tinha. além de imagens ocasionais do quadrinho nos perfis dela não tinha muita informação sobre o conteúdo; achei massa, meio perturbador, demandando certa calma pra digerir. úlcera é o nome de uma das protagonistas, esta tendo sua parte da história ilustrada por puiupo, enquanto a outra é mirra, narrada por adonis. ambas inserem-se nesse lugar chamado de "a torre": úlcera uma humana que abandonou um reformatório periférico e mirra uma afrodite pertencente ao príncipe ambidestro. os sites onde a hq é vendida a descrevem como uma headtrip de ficção científica visceral, e acho uma boa forma de descrevê-la – o tipo de história que não seria a mesma se não fosse pelo estilo dos dois artistas, que comunicam tanto de um jeito muito próprio. também dizem que úlcera está na veia de jodorowsky misturado a masaaki yuasa, e pesquisando sobre ambos fiquei bem curiosa em explorar suas obras mais profundamente.


em uns três dias li viagem solitária, de joão w. nery, que eu nem esperava que tivesse disponível no kindle unlimited. é uma autobiografia do primeiro homem trans brasileiro de que se teve notícia, narrando as angústias presentes desde a infância pela incompatibilidade que sua mente encontrava em seu corpo. ele percorre por todos os pontos que construíram sua jornada – o bullying, a depressão, os relacionamentos, a autoafirmação, as cirurgias, o recomeço, a paternidade –, bem como vários nomes que tiveram algum impacto em sua vida. pelo que parece é uma espécie de atualização/complemento de sua primeira obra, erro de pessoa: joana ou joão?, publicada em 1984. pra citar simone ávila, que no final do livro fala um pouco sobre o autor: Ele se pergunta: "em que grupo existente eu me enquadraria?". Ou, dito de outro modo, "quem inventou essa coisa de que temos de nos enquadrar no que já existe?!? Por que não podemos simplesmente ser o que queremos ou quisermos?!? Por que eu tenho de seguir normas que não são minhas?!?" é muito sensível e pesado. pensar no tanto de pessoas incompreendidas que precisaram encarar tanto sofrimento numa época de repressão onde ainda faltava muito avanço é doloroso; pensar que ainda há um longo caminho a se percorrer nos dias de hoje demanda muita coragem.

Somos seres únicos, a diferença e a diversidade entre os indivíduos são condição essencial da natureza humana.
João considera Darcy seu mentor intelectual, quem lhe mostrou um jeito de habitar um mundo que não o compreendia. "Ou você fica rico para calar a boca das pessoas, ou vira um intelectual", postulava ao jovem.
"Você nasce e morre dentro de caixas. Caixa da família, da escola, do casamento e depois vai para o caixão. Ponha o pé para fora disso e você já é estigmatizado. Tem que ter muita estrutura para segurar a peteca da marginalidade."
Era como se quisesse dizer a todas as pessoas que o meu físico não era aquele, ou melhor, fazê-las entender que meu corpo mentia contra mim.
Quando sentia medo, pelo menos pressupunha um objeto, uma ameaça, algo que eu pudesse de algum modo contornar ou dele fugir. Porém, nessa angústia nada me ameaçava claramente. Não havia um objeto a ser enfrentado para prosseguir minha estranha caminhada existencial. Percebi, então, que o "sem sentido" e o "sem valor" da minha angústia me tornavam um estrangeiro nesse mundo tão cheio de categorias. A ironia era precisar de um rótulo, do que todos tentam fugir.
Minha alma não se conformava de ter de se expressar por meio daquele monte de carne, sobre o qual não tinha podido decidir nada. Foi-me imposto sem pedir licença, para a forma, para o conteúdo e todos os papéis que, obrigatoriamente, carregava junto. Não conseguiria me submeter a esta sociedade pronta e chauvinista. Não sou isto!
Dizem que as pessoas tendem a esquecer os traumas, por defesa do ego. Creio que os preservei ao máximo na memória, a fim de evitar que outros se repetissem.
Pensou em suicídio? Um jeito de se livrar deste sofrimento? Vamos, diga em voz alta, sua babaca, o visgo que tem pela vida: "Meus pais chorarão", não é isso que está pensando? Fica mais estúpido ainda ter remorso antecipado! De que adianta saber-se amado depois de morto? O que te segura é que, no fundo, ainda tem esperança de que as coisas mudem.
Percebi, subitamente, que o fundo do poço não estava na morte, mas na vida. Na minha vida.
Quando o drama estiver insuportável, torne-se subitamente a plateia, para se ver atuando no palco. Verá a comédia que todo drama contém, como agora, e se fortalecerá. Não adianta mais ter ódio nem pena de si mesmo. Sobretudo, é preciso ter humor. Procure a essência do absurdo. Mas não se torne um alienado, antes, um inconformado. Se, num dado momento, a dor for insuportável, não racionalize a fim de obter a pseudotranquilidade. Consuma-se sem defesa até o fim. Esprema a dor e respire fundo.
— Não quero ter uma relação falsa com você. Sei que sua visão é outra. Foi educada numa época diferente. Não a estou obrigando a me aceitar. Não tenho esse direito. Desejo somente partilhar aspectos importantes da minha vida.
Quando pequeno, diziam que carregava o pecado portal por não ter sido batizado, e sem entender vivia um medo-mistério. Com oito anos, perguntei à mamãe:
— Por que as pessoas vão à igreja aos domingos?
Surpresa, parou a correção das provas.
— Ora, vão para ouvir do padre que devem ser boas.
Diante dessa explicação, só tive uma conclusão:
— Mas, mãe, será que são tão más assim que necessitam ouvir toda semana a mesma coisa?
Depois, perguntei ao Matheus por que nunca tinha comentado minha história com a mulher. Foi sucinto:
— Essa história é sua, e não minha. Você é que tinha de contar, se quisesse.
Mais uma lição que aprendi com meu amigo – sua noção gigantesca de respeito pelo outro.
Aparecia e desaparecia como miragem e foi na força de sua ausência que descobri sua presença.
Embora houvesse essa noção forte de individualidade, havia inevitavelmente um "nós" que curtíamos, cuidando, porém, que não nos engolisse. Abdicarmos em nome do amor em questões vitais nos levaria à anulação como pessoas. Cedíamos, mas o suficiente para não nos violentarmos.
A reação dos meninos foi uma lição para os adultos. Enquanto estes tinham mil dificuldades sobre como me tratar, sem saber como me explicar aos conhecidos, os garotos pareciam ver tudo mais claro, sem complicar o óbvio. Era como se a minha figura anterior é que fosse a confusa e estranha. A atual era definida, mais bem entendida e aceita. Anteriormente, os meninos me viam com certa reserva, ressabiados, como olhando para algo estranho. Agora, podiam compreender Amanda como minha mulher e como sua tia.
Mas, de todas as histórias, a melhor frase ainda foi a do Djalma, chefe dos motoristas, que, diante das exibições de quem comia mais e melhor, disse bem alto para todos ouvirem:
— Macho bom não é o que goza várias vezes, mas é o que faz a mulher gozar várias vezes.
Só a noite aparecia,
Iluminando o silêncio das coisas sem nome.
Não carregava o retrato da filha na carteira porque não queria se promover por intermédio dela.
Na última conversa que tivemos, falou-me sobre a tragédia. Não a grega, mas a de Nietzsche. Resumia-me, dizendo que só há tragédia quando não se acredita na vida pós-morte.
"Todo o mundo nasce nu, o resto é drag".
Quando nos referimos ao papel do homem ou da mulher, estamos falando de "gênero" ou papéis de gênero, e não de sexo.
Li um artigo enviado por uma amiga, de Beatriz Preciado, que dizia: "A sexopolítica é uma das formas dominantes da ação biopolítica no capitalismo contemporâneo".
Maitê, a atriz, foi mais sucinta: "Tenho medo do que foi criado nessa sociedade para manter as algemas e grilhões que nos impõem, retardando mesmo a descoberta do que somos de verdade. Acredito num mundo sem gêneros e sem fronteiras, como forma de acabar com estes sofrimentos".
Depois de lhe contar a última com meus amigos trans, sobre o homem grávido, perguntei a opinião dele. Respondeu sem pestanejar:
— Acho que precisamos ser mais tolerantes.

além disso, no começo de cada capítulo tinha trechinhos com alguma poesia ou citação. gostei de vários:

É na angústia que se anuncia o estado do qual se deseja sair, e é a angústia que proclama não bastar o desejo para que daí se saia. (S. Kierkegaard)
Amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas ao amor. (F. Nietzsche)
Quando perdemos o medo de perder, acabamos descobrindo a imensa alegria de achar. (Thomas J. Burke)
O homem começa não apenas quando é concebido, mas quando se determina a fazer alguma coisa, quando se realiza após esse impulso para a existência. (Sartre)
Amadurecer é a transcendência do suporte ambiental ao autossuporte. (F. Perls)
Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando como a noite
Em sua vigília estrelada.
(Rabindranath Tagore)
Mude, mas comece devagar, porque a  direção é mais importante que a velocidade. (Clarice Lispector)
Hoje entendo bem meu pai. Um homem precisa viajar. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto [...] para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. (Amyr Klink)
Pessoa "trans" é aquela que está em permanente "trans-formação", disposta a "trans-por" todos os obstáculos. É aquela pessoa que "trans-gride" regras e padrões de conduta, "trans-mitindo" à sociedade, de forma absolutamente "trans-parente", novas ou inexploradas possibilidades de realização. Pessoa "trans" é aquela que "trans-cende" a si mesma, tentando expressar ao mundo a pessoa que ela realmente é, em vez da pessoa que o mundo acha que ela deveria ser. (Letícia Lanz)
Estes percorreres por aí à balda,
nestes saudosos antigos eus.
Qual deles deixei no meio da estrada
e em que sombra,
me perseguem até onde sou?
(Do poema "Corte em Mim", do autor)
Os espelhos fariam bem em refletir um pouco mais antes de devolver imagens. (Jean Cocteau)

era pra eu ter lido coisas da lista de leitura de algum vestibular mas, pra variar, fui inútil. tô me preocupando em arrumar emprego e cursinho agora. seja o que deus quiser.