quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

lidos/assistidos em fevereiro

laranja mecânica (anthony burgess)
massa, nada muito diferente do filme de stanley kubrick – mas este é baseado na edição americana que omite o último capítulo, no qual alex tá "crescendo" e começando a pensar sobre família (coisa que achei bem estranho, mas ok). não lembrava do final do filme, se tem isso de ele ser curado depois da tentativa de suicídio. muitos extras na edição especial de 50 anos; colocam ao lado de admirável mundo novo e 1984 como distopia. "laranja mecânica" por causa da condição de automatizar o orgânico, "o casamento forçado de um organismo e um mecanismo". bastante ênfase na questão da perda da escolha, Será que Deus quer bondade ou a escolha da bondade? Será que um homem que escolhe o mal é talvez melhor do que um homem que teve o bem imposto a si? muito nadsat misturando palavras russas e linguajar da classe operária britânica, fico pensando assim, às vezes. parece que o autor falou numa entrevista que alex se torna um grande compositor depois dos eventos descritos no livro, coisa reforçada pela aparência semelhante à beethoven, e a técnica ludovico tem esse nome por causa de ludwig também, não tinha percebido. bacana os textos do autor no final (talvez um pouco desnecessário o tal de os russos humanos), pensamentos sobre submissão social e etc – trabalhadores têm pouquíssimo espaço para o individualismo, dá pra entender a submissão como férias da necessidade de escolha; estamos mais acostumados a ser instruídos a não fazer o mal do que estimulados a fazer o bem... trechos também dos extras: rei james na bíblia diz "no amor não há medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo; porque o medo envolve castigo; e quem tem medo não é perfeito no amor" (1 joão 4:18) e goethe "cuidado ao desejar qualquer coisa na juventude, pois você a terá na meia-idade".

a clockwork orange (1971)
reassisti pra comparar com o livro e também porque não lembrava de tudo. gostei menos do que antes e prefiro o livro mesmo... não pensei que o escritor lá que provocou a tentativa de suicídio de alex, porque no livro os colegas com interesses políticos parecem genuínos (apesar de que o cara pode ter ido visitar o quarto ao lado de onde hospedaram alex quando o reconheceu também). os ex-druguis dele não fazem quase nada com alex no filme comparado à "ultraviolência" original, grande coisa bater com aquele cacetete. lembrei da música, aquele "tontontontonton", mas a respeito do tratamento só mencionam a nona sinfonia. no livro o que segura os olhos dele abertos são coisas puxando a testa, o que me parece cumprir o propósito de um jeito menos angustiante que aqueles ferrinhos nas pálpebras, mas bom que pensaram na coisa de lubrificar os olhos. não lembrava que ele fica arrotando quando passa mal. no mais é bem fiel à narrativa... e mais cinematográfico acabar na cura mesmo. ruim que na história geral alex nem passa muito tempo sofrendo com os efeitos do negócio. e nem falam muito sobre a hipnopedia que o trouxe de volta, né.

língua: vidas em português (2001)
documentário que passaram na primeira semana de introdução aos estudos da linguagem. fala basicamente sobre isso, aspectos linguísticos do português – falamos a mesma língua, mas ela não é falada da mesma maneira(...) não há uma língua portuguesa, há línguas em português. se passa na índia, em portugal, moçambique, brasil, japão e frança. pensamentos sobre a identidade do idioma, sobre portugal ter dado à luz um filho maior que o pai, sobre a língua ter ficado "sem dono" e "se sujado" e se transformado em cada lugar que ficou (falas de mia couto). legal de ver, certa emoção de falar português e estar na faculdade de linguística.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

lidos em janeiro

os big noses e os insanos - corporation of the insanos (quadrinhos de talita dias aka TMS)
acho massa demais a criatividade que talita tem desde sempre (são de 2006), muita coisa engraçada e bem feita. nunca que eu teria noção de desenho pra fazer a família dos big noses com 12 anos de idade (não tenho até hoje, né). gosto do final do primeiro dos big noses, uma fotografia... o primeiro volume dos insanos é "estilo mangá"; tem muita luta, fusões, "bora ver" e nomes ótimos – principal, tudo, nunca, quem, do mal, tudo principal do mal d'flash – além de capítulos dando spoiler – o hulk, o ataque do hulk, a morte do hulk haushshu muito bom!

the yolo pages (adefisayo adeyeye, beach sloth, gabby bess, liz bowen, melissa broder, jos charles, richard chiem, santino dela, brian ecklund, pancho espinosa, joshua espinoza, catalina gallagher, cean gamalinda, james ganas, cassandra gillig, amelia gillis, lara glenum, philip gordon, tom hank, michael hessel-mial, @horse_ebooks, brett elizabeth jenkins, raymond johnson, kenji khozoei, ji yoon lee, tao lin, cayla lockwood, patricia lockwood, carrie lorig, sharon mesmer, stephen michael mcdowell, luna miguel, k. silem mohammad, moon temple, ashley opheim, anthony peregrine, @postcrunk, john rogers, amy saul-zerby, bob schofield, lk shaw, angela shier, bianca shipton, alexandra simone, andrew w.k., sara woods, dylan york, joseph kendrick, steve roggenbuck, e.e. scott, rachel younghans & charlie the dog emeritus)
livro massa cheio de alt-lit, o preferido de talita e talvez a antologia mais completa (não sei se teve mais coisa assim desde 2014, o ano que foi lançado). bastante motivacional, talvez todo mundo vegano, vários LGBTs, show. única coisa que não gostei tanto foi flarf poetry. anotei vários poemas que curti aqui e aqui e os poetas que mais gostei foram os seguintes (deixando aqui pra pesquisar mais depois): adefisayo adeyeye, beach sloth, joshua espinoza, catalina gallagher, tom hank, kenji khozoei, cayla lockwood, luna miguel, moon temple, ashley opheim, john rogers, amy saul-zerby, bob schofield, lk shaw, bianca shipton, alexandra simone (alli simone defeo), andrew w.k., russ woods, joseph kendrick, steve roggenbuck e e.e. scott. cadastrei o livro no skoob!

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

assistidos em janeiro

the hitchhiker's guide to the galaxy (2005)
bem bostinha. poucas coisas engraçadas de verdade, ênfase desnecessária nos golfinhos no começo (com direito a música), desvio total pra criar romance com trillian... marvin não era quadrado e cinza como imaginava, zaphod parecia o cara de nickelback. não tem enredo nenhum, é só um amontoado de coisas nonsense jogadas de qualquer jeito. já sabia das críticas mas esperava mais.

another (2012)
o live-action é do mesmo ano que o anime e cada mídia consegue modificar as coisas de um jeito. não lembro mais como é no mangá mas sei que prefiro o final original, apesar de ainda gostar do anime. achei o filme ruinzinho e fraco, malfeito, uns efeitos bizarros. a primeira morte, do guarda-chuva, chega a ser engraçada porque dá pra perceber claramente que usaram um robô esquisito. alteraram como as mortes aconteciam também, encurtaram pedaços e inventaram umas coisas. só quem conhece a história vai se interessar, acho. esperava mais (2).

black mirror S04 (2017)
gostei bastante dessa temporada. uss callister tem a atriz que faz a mãe de how i met your mother como principal; massa eles pilotando em direção ao buraco de minhoca/atualização dizendo "espero que a gente morra", mas pensei que se excluiriam mesmo em vez de ficar no jogo pela nuvem, meio ruim pensar na eternidade dos coitados. arkangel é previsível nas possibilidades de dar merda, muito azar a mãe olhando justo nas piores horas. tenso que o implante não é removível; imaginei como seria isso de transmitir o que uma pessoa vê e que seria diferente, 3Dzão talvez, e seria show se desse pra fotografar. me pergunto se não dava pro menino avisar ela que a mãe tinha ameaçado e vigiava ainda; se fosse eu, tentava. não esperava a violência no final e fiquei pensando se a menina organizava as próprias coisas o bastante pra saber as prioridades do que levar pra fugir de casa. um pouco de medo de carona com caminhão mas ok. crocodile eu não entendi porque tem esse nome mas dá pra ficar pensando. show que foi na islândia e reconheci logo; o cabelo da mulher parecia o meu mal-cortado. absurdo que ela escolhe fazer toda aquela carnificina em vez de deixar o cara mandar uma carta; show que pegaram pelo bichinho que ela esqueceu. hang the dj achei muito bom, não esperava nem um pouco o jeito que terminou, raro um final feliz. bizarro o personagem do ator que faz athelstan em vikings e inesperado ter a música de the smiths depois. talita tinha percebido que não faziam nada no lugar, que todos eram magros porque no tempo livre faziam exercícios e etc, mas não pensei em simulações e coisas virtuais tipo o primeiro episódio. bacana que pelo menos um dos relacionamentos foi lésbico; triste pensar nessas coisas de quanto tempo duram. metalhead não tem explicação nenhuma e pouquíssimas falas, parece que foi tentativa de fazer um episódio assim mesmo e trabalhado no terror. interessante o aspecto do monocromático, a musiquinha agoniante; me lembrava lars von trier de alguma forma. não achei ruim mas fico sem entender aquilo tudo. essas coisas de gente sobrevivendo a coisas perigosonas me fazem pensar que eu jamais iria longe num mundo assim. black museum foi show, pesadíssimo, praticamente três episódios em um e cheio de referências à própria série. o nome do museu me fez pensar em gente negra, mas era mais a questão de black mirror mesmo (apesar de não deixar de ter a ver com o primeiro). angustiante demais todas as situações, o ponto em que as coisas chegaram. não sei se seria permitido acontecer isso de usar a pessoa virtual e tudo, acho que teriam noção de que são capazes de sentir igual... pareceu um bom final de série. melhor parte foi assistir com talita e poder parar pra conversar e pensar sobre cada episódio.

vips (2010)
é sobre esse cara que é piloto e vai assumindo umas identidades diferentes toda hora. baseado em história real, mas não sei se o estelionatário também perdia a noção do que era invenção da mente dele ou não; coisa de transtorno de personalidade mesmo. wagner moura jovem emo... bem irreal. vários pedaços difíceis de entender com criminosos falando espanhol. não achei grande coisa mas não lembrava disso das personalidades tão fortes, apesar de ter lido sinopse um tempo atrás. bacana a coisa de pilotar, me pergunto como ele sabia tanto mesmo com um pai piloto inventado (o que dá sentido à roupinha e chapéu constantes). triste pelo coqueiro que arrancaram só por causa que tava na frente da placa da gol.

kaze tachinu (2013)
menino míope que não pode ser piloto decide construir aeronaves. sonha sempre com esse engenheiro italiano, caproni, que o motiva a ir em frente (diz que "aviões são lindos sonhos amaldiçoados, esperando que o céu os engula"). repete algumas vezes a frase "le vent se lève, il faut tenter de vivre" – que é parte de um poema de um filósofo francês. filmes do studio ghibli têm sempre umas texturas brilhosas, as coisas volumosas de um jeito específico, as mulheres principais com a mesma cara. acho massa a animação de um pedaço onde o protagonista (jiro) trabalha numa daquelas escrivaninhas inclinadas, meio mal sentado na cadeira, os olhos com zoom pelo óculos. jiro tá construindo coisas pra usarem na segunda guerra mundial, ao lado da alemanha; é sobre uma pessoa real mesmo, embora baseado numa biografia ficcionalizada. caproni diz que um artista é criativo por 10 anos apenas. tem romance também, com uma menina que ajudou depois de um terremoto (o grande sismo de kantou) e jamais esqueceu, depois se reencontram mas ela tá morrendo de tuberculose.  uma hora ele vai pra casa e fica trabalhando numa mesinha do lado dela, que tá deitada pra dormir, e ficam de mãos dadas... bonitinho, faria muito. demorei pra terminar, não dava muita vontade de ver direto nem foi o melhor deles que vi, mas bacana.
mosquiteirão da zorra.
earthlings (2007)
documentário sobre a dependência humana nos animais, dividido em tópicos como pets, comida, roupas, testes... dificílimo de assistir, chorei bastante e mantive as mãos cobrindo o rosto na maior parte do tempo. tenho certeza que se as pessoas assistissem repensariam tudo e passariam pro vegetarianismo/veganismo; mal consegui olhar pra carne que minha mãe trouxe do mercado no outro dia. é narrado pelo joaquin phoenix, de signs e her, que é vegano há muito tempo – "virei vegano aos três anos, quando vi uns pescadores destriparem peixes e perguntei à minha mãe, chorando, por que ela não tinha me contado de onde vinha a carne". até na questão da religião e gente que usa o argumento de que "deus deu entendimento pro homem então temos o direito de fazer isso", não consigo conceber um criador que tá de boa com essa situação; em outros tempos, quando as próprias pessoas cuidavam da produção de sua comida e tudo era mais próximo, até ok, mas hoje em dia... f*da. me parece um documentário que chamariam de sensacionalista ou exagerado, mas mesmo que não seja tudo igual é mostrado não dá pra negar que essas coisas acontecem. mas é tanto absurdo, não faz sentido que tão pouca gente pare pra refletir seus comportamentos; espero muito que isso continue mudando. tem umas falas bem boas no filme, como de que na questão dos animais todos os homens são nazistas (abaixo) e de que testes em animais só mostram resultados válidos pra animais, que é uma ofensa à ciência verdadeira. essas partes que copiei são da introdução.

Nobel Prize winner Isaac Bashevis Singer wrote in his bestselling novel 'Enemies, A Love Story’ the following: “As often has Herman had witnessed the slaughter of animals and fish, he always had the same thought: in their behavior toward creatures, all men were Nazis. The smugness with which man could do with other species as he pleased exemplified the most extreme racist theories, the principle that might is right”.
The comparison here to the holocaust is both intentional and obvious: one group of living beings anguishes beneath the hands of another. Though some will argue the suffering of animals cannot possibly compare with that of former Jews or slaves, there is, in fact, a parallel. And for the prisoners and victims of this mass murder, their holocaust is far from over.
In his book ‘The Outermost House’ author Henry Beston wrote: “We need another and a wiser and perhaps a more mystical concept of animals. Remote from universal nature, and living by complicated artifice, man in civilization surveys the creatures through the glass of his knowledge and sees thereby a feather magnified and the whole image in distortion. We patronize them for their incompleteness, for their tragic fate of having taken form so far below ourselves. And therein we err, and greatly err. For the animal shall not be measured by man. In a world older and more complete than ours they move finished and complete, gifted with extensions of the senses we have lost or never attained, living by voices we shall never hear. They are not brethren; they are not underlings; they are other nations, caught with ourselves in the net of life and time, fellow prisoners of the splendor and travail of the earth”.

food choices (2016)
esse documentário traz várias questões relacionadas à alimentação e saúde, defendendo uma dieta à base de plantas. acho interessante que comentaram, já que não é muito discutido, isso de que ao longo da história o ser humano se comportava como caçador-coletor, mas que esses coletores eram mulheres – o que liga essa questão ao machismo, já que quem caçava recebia a glória em vez de quem providenciava a base feita de vegetais e etc. bastante coisa que eu já sei, mas interessante ver especialistas falando sobre: as pessoas comem proteína em excesso, o que sobrecarrega órgãos e promove o risco de doenças; a proporção de ômega 3 e 6 tá muito acima do recomendado e pílulas de ômega 3 são tentativas de diminuir essa anormalidade obtendo lucros; a pecuária extensiva pode dar uma criação mais "humana" mas não muda o fato de que as mortes continuam inumanas (além de que o gado alimentado por grama produz mais metano que aquele alimentado por grãos, e obviamente exige mais espaço)... tem uma mulher que conta que tinha depressão, tentou suicídio, e depois conheceu o veganismo e decidiu nunca mais colocar dentro do corpo dela o sofrimento de outros animais, massa. falam de veganos acima do peso e que o que faz diferença de verdade é cortar "calorias vazias", que seriam os óleos vegetais, gorduras, açúcares e comidas processadas; que se continuar do jeito que tá, em 2048 os peixes comerciais estarão todos extintos; que precisamos parar de ser tão egoístas e olhar como nossas escolhas afetam aqueles ao nosso redor e principalmente as gerações futuras. e é isso, véi.

mudando a vida de geral que vê, né...
GAWI (2015)
curta bem curto sobre "uma menina presa em um estado de paralisia do sono (que) mergulha nas texturas dos sonhos". bacana os barulhos e o traço/animação mas nada de mais. a pessoa que postou chama de "student film", na verdade. deu um pouco de medinho, ainda mais se tratando de paralisia do sono, mas não tem susto.

e cabelo massa.
the true cost (2015)
esse é sobre a indústria da moda, bem bom. "roupas são a pele que a gente escolhe". falam que as pessoas pensam em comer alimentos orgânicos para não ingerir tantos químicos mas não param pra pensar que é a mesma coisa com roupas, que a pele é o maior órgão do corpo, etc. que a indústria têxtil é a segunda mais poluente, só atrás do petróleo; que só olham para o produto final, sem ver o custo verdadeiro que essa produção envolve; mostram as péssimas condições de trabalho e vida de indianos e cambojanos (em sua maior parte, mulheres) empregados de fábricas de tecido, gente que não tem escolha a não ser trabalhar nisso recebendo pouquíssimo... horrível. é absolutamente necessário que o sistema mude como um todo. tô ficando triste vendo esses documentários, meio que perdendo a pouca esperança no mundo; certo medo de continuar vivendo e do que vou ver no futuro.

janghwa, hongryeon (2003)
a tale of two sisters, em inglês, é um filme coreano de drama/suspense. já começa com a menina mais velha parecendo olhar direto pra câmera e dando disfarçadinha. na verdade começa com ela num hospital psiquiátrico, um médico pedindo pra ela contar sobre "aquele dia"... não entendi de primeira quem era a pessoa porque tava de cabeça abaixada, cabelo escorrido na cara. ela vive protegendo a irmã mais nova, que parece até infantil demais. têm uma madrasta que detestam, as trata mal e questiona se estão loucas mais de uma vez. a mãe morreu... vão vendo umas assombrações e não sei quem é a pessoa com distúrbios, primeiro parecia a irmã mais nova, depois a madrasta, depois a tia que vai jantar lá, depois o pai; no final é a garota mais velha mesmo. a mais nova morreu e a madrasta nem tá na casa com ela e o pai, ela que tem alucinações e personifica as outras duas. tenso, tinha apreensão de olhar pra tela nos pedaços que tinha possível susto. termina com a menina sendo levada à clínica, lembrando do que aconteceu pra mãe e a irmã morrerem – o pai aparentemente se casa com a mulher lá, a mãe deprimida se enforca dentro do armário, a menina mais nova encontra o corpo, fica chacoalhando tentando revivê-la e acaba fazendo o armário cair em cima dela. todo mundo na casa ouve o barulho mas ninguém vai olhar, ninguém tá com pressa, absurdo a filmagem de todo mundo virando o rosto mas ficando imóvel. quase o filme inteiro sem entender nada, mas interessante, e não me lembro de ter visto um filme coreano antes.

domingo, 31 de dezembro de 2017

assistidos em dezembro

em dezembro terminei a season 3 (2015) de vikings. segue o resumão: no começo ragnar leva seu povo a wessex de novo pra solidificar acordos feitos com o rei ecbert. lagertha toma frente no estabelecimento de uma colônia de agricultura enquanto ragnar leva guerreiros para retomar terras pertencentes ao rei, que ficam para kwenthrith (princesa meio doida que depois mata envenenado o amado irmão). melhor parte desse pedaço pós-batalha é rollo chapado incomodado com o ângulo de uma perna. em wessex acontece de athelstan se envolver um judith, nora do rei, que engravida e perde uma orelha sendo condenada por adultério mais tarde. em kattegat, aparece um andarilho que se apresenta como harbard, com quem helga, siggy e aslaug sonharam igualzinho. ele é o único capaz de acalentar o filho aleijado de aslaug e se envolve sexualmente com ela também. em um momento ele salva os filhos dela após caírem no lago congelado, e siggy morre tentando ajudar. mais tarde floki fica sabendo e diz que era na verdade odin que as visitara, e que coisas boas viriam apesar da perda de siggy. não demora muito para que os saxões massacrem a colônia dos norse men, notícia que chega até ragnar através de um único camponês e que é reprimida para não causar revolta. o condado de lagertha fora usurpado por seu braço direito enquanto estavam na inglaterra e ragnar a convence a deixar as coisas como estão, convidando o novo earl para sua próxima incursão – paris. floki desaprova muito a união de ragnar com os cristãos, criticando principalmente a intimidade com athelstan, e acaba assassinando o priest (que tinha acabado de "receber um sinal de deus" e renascer como cristão). é lamentável a falta que ele faz para ragnar, de uma maneira quase que muito afetuosa. em paris ele encarrega floki de liderar a invasão, mas mesmo com toda sua engenharia eles não são capazes de fazê-lo de primeira e muitos guerreiros são perdidos. ragnar se fere e fica extremamente fraco, pedindo que os franceses o batizem no cristianismo como parte do acordo para irem embora, além de muitos tesouros. seus companheiros começam a censurá-lo e desconfiar dele e pra piorar ragnar pede que seja feita uma missa antes de seu enterro. floki constrói um caixão bem bonito, seus amigos mais próximos fazem confissões sobre ele com ragnar dentro, dado como morto, e alguns homens levam-no para a igreja da cidade pra ocasião da missa – lá ele salta do caixão, até que bem vivo, mata o bispo e declara ter vencido, indo embora com mais tesouros ainda e deixando rollo e outros guerreiros para preparar a próxima incursão. tudo isso por causa de uma profecia do seer que ele lembrou bem no final: I can see that not the living, but the dead will conquer Paris. na profecia também tinha coisa sobre um urso conquistando uma princesa, coisa que não seria bom pra ragnar, e isso é rollo recebendo a mão da princesa francesa irritante em casamento e o título de lorde (ou sei lá o que) em troca de lutar contra o irmão quando ele voltasse. a temporada acaba com ragnar falando pra floki que sabe que ele matou athelstan. gostei do cabelo e tatuagens de ragnar nessa temporada, e de þórunn guerreira também (mas achei desnecessária a partida dela depois de ter uma filha com björn).

o tempo todo se autodepreciando por causa do ferimento/cicatriz no rosto sendo que nem ficou feia e nem faz diferença...

assisti alguns filmes com talita e o primeiro foi xxy (2007), que é sobre alex, jovem intersex tentando existir de seu próprio jeito e começando a entender sua sexualidade. a atriz que interpreta alex fez medianeras também. gostei bastante, achei bem sensível e dá pra pensar sobre muita coisa. deve ser bem raro ter pais que não permitem nenhuma intervenção médica logo após o nascimento, como os do filme... seria legal que essa discussão ganhasse espaço e houvesse mais conhecimento e menos tabus pra lidar com tudo. (acho massa a iniciativa de pigeon.)

depois vimos 3 generations (2015), que trata dessa família composta por um aborrecente trans, sua mãe solteira e sua avó lésbica. tem uma reviravolta enorme envolvendo os "pais" de ray, vários conflitos entre as mulheres, a questão de assinarem o negócio permitindo que ele comece a tomar testosterona... não gostei muito, mas sempre choro um pouquinho pensando em transexualidade e família.

vimos também um documentário, project nim (2011), sobre um experimento linguístico que fizeram na década de 70 com um chimpanzé, ensinando linguagem de sinais. começou sendo criado como um bebê numa família grande, depois foi pra uma mansão dos pesquisadores e, quando cresceu e ficou violento, acabou sendo levado pra um lugar tipo aquele de planet of the apes (tava só esperando começar uma revolução). no final o chefe do projeto constatou que nim só tinha aprendido a pedir coisas, não a se comunicar de fato. o chimpanzé viveu por um bom tempo num santuário destinado a equinos, mais tarde recebendo outros de sua espécie, e morreu de ataque cardíaco em 2000, com 26 anos.

por último teve mommy (2014), que achei massa. bom demais a coisa de enquadramento e as mudanças, pedaços em câmera lenta com música bonita, a amizade dos três personagens, tenso a coisa meio incestuosa de mommy, triste demais steve tentando se matar, o final quase assustando com born to die do nada e o menino saindo correndo, pena dele com camisa de força e da mãe chorando com tudo, final sugestivo correndo pra janela. bem bonito as cores, artístico, show. gente falando francês muito rápido, "nous deux", "mutuelle!"... gostei de ver com liu.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

lidos em dezembro

depois de séculos consegui terminar família schürmann - um mundo de aventuras, de heloisa schürmann, sobre a viagem de dois anos e meio que fizeram em seu veleiro seguindo a rota de fernão de magalhães, português pioneiro em circum-navegar o globo terrestre. aprendi várias coisas, por exemplo, que tem um lago num país da micronésia onde existem águas-vivas inofensivas, que aliá é como se chama a fêmea do elefante e que ovos de avestruz aguentam até 600kg sobre eles. pesquisei bastante sobre o que falavam, os lugares e culturas, e foi legal de conhecer um pouquinho de tanto. heloisa me lembra muito nazira, a professora de química do colégio, e era engraçado imaginar as reações dela dentro das diversas situações relatadas no livro. também pude enxergar na escrita um humorzinho bem parecido com o meu no começo do blog. mencionou várias vezes pigafetta, cronista oficial da esquadra de magalhães, comparando-se a ele e fazendo correspondência entre seu laptop e a pena e tinta dele... na época da viagem apareciam no fantástico. teve uma hora que estavam numa reserva na áfrica do sul e dei risada do que escreveu: Passamos por um Kraal (vila tradicional dos habitantes nativos da área, os Zulus). Os moradores da vila mostraram algumas tradições de sua cultura. O curandeiro da tribo fumava seu comprido cachimbo com um estranho fumo: maconha. 

desde que terminei a lista de leitura da unicamp tenho lido apenas as coisas paradas comigo, e neste mês comecei por um leão em família, de luiz puntel (daquela coleção vagalume). é sobre um menino que encontra um leão que supostamente caiu de um vagão de trem e leva-o pra casa, mais tarde tendo que fugir porque alguém parecia querer matá-lo e não sei o que mais. não gostei nadinha, achei muito besta e ordinário. qualquer pessoa escreveria de um jeito mais agradável.

depois li vito grandam - uma história de vôos, do ziraldo, e me surpreendi demais. é sobre um menino de 17 anos que começa a analisar sua relação com o tio três anos mais velho, victor, e alguns detalhes de sua vida que o conduziram até o primeiro plano da narrativa. ele fala sobre sua escrita enquanto faz isso e achei bastante original, bonito mesmo. vito grandam é como ele escrevera "victor grandão" quando criança, sendo depois o nome usado pelo tio ao voar de asa-delta – e é assim mesmo que meu irmão trocava o aumentativo nas palavras quando tava começando a escrever... gostei de ter lido e esqueci de marcar trechos, mas tudo bem porque é curtinho e posso reler em breve.

li os melhores poemas de mário quintana, que encontrei uma vez no ponto de ônibus em frente ao poli e tá todo destruído (mas com todas as páginas). não gostei muito da poesia de mário quintana não, nada de especial. só anotei alguns melhorzinhos: noturno, presença, sempre, operação alma e envelhecer.

aí li macunaíma, de mário de andrade, e até que me diverti. é bem bizarro e nonsense (vi em algum lugar uma comparação com o guia do mochileiro das galáxias, mas sem a ficção científica), cheio de bagunça e brincadeiras – tanto no sentido que tô acostumada quanto como sinônimo de sexo, usado no livro inteiro. várias vezes macunaíma foge pelos estados do brasil como se corresse por um mapa estendido no chão, coisa que contribui pra não-regionalização da história, presente também na utilização de trocentos nomes de frutas, peixes e tudo quanto é coisa. também tem uns mitos e origens de expressões inventadas (talvez nem tanto), como "vá tomar banho" pros europeus que não estavam acostumados com o compromisso diário de quem vive nos trópicos...

li então o livro do riso e do esquecimento, de milan kundera. É um romance que se refere ao riso e ao esquecimento, que diz respeito ao esquecimento e a Praga, que fala de Praga e anjos. tem várias narrativas sobre situações diversas – um homem envergonhado por seu passado com uma mulher feia perseguido pelo estado repressor; um casal que tem sua liberdade reconquistada após uma visita de mamãe e da amiga entusiasta de 3-ways; duas estudantes que engendram a discussão do riso diabólico e angelical; uma viúva que tenta recuperar cartas e diários abandonados em praga, de onde fugiu; um estudante que se envolve com uma mulher casada do interior, admira poetas nacionais e carrega sua litost (estado atormentador nascido do espetáculo de nossa própria miséria repentinamente descoberta); a retomada da personagem da viúva numa busca de livrar-se do peso que carrega; um homem que encontra harmonia na incompreensão de sua "parceira" e pensa sobre no começo da vida erótica do homem há excitação sem prazer, e no final há prazer sem excitação. tem várias partes onde o autor descreve experiências próprias após a invasão russa da república tcheca, além de falar bastante sobre as coisas que está criando ao escrever. achei bom, meio filosófico como a insustentável leveza do ser (ele até menciona essa ideia na segunda parte de tamina). e percebo que anoto umas coisas que posso querer pensar sobre depois, não necessariamente que me impressionam.

Foi como um despertador que a tirasse de um sonho. E, nesse momento, como ela se abraçasse com Eva (assim como quem dorme, ao ser acordado, se abraça ao travesseiro, para esconder-se da luz perturbadora do dia), Eva perguntou-lhe: Combinado? E ela assentiu, com um gesto que indicava que estava de acordo, e apertou seus lábios contra os de Eva. Sempre a amara, porém, pela primeira vez, amava-a com todos os sentidos, por ela mesma, por seu corpo e por sua pele, e embriagava-se com esse amor carnal como se fosse uma revelação súbita.
Ela quer ter esses diários para que a frágil estrutura dos acontecimentos, tal como a construiu em seu diário, possa receber paredes e tornar-se a casa onde ela poderá morar. Porque, se o edifício vacilante das lembranças cai como uma tenda mal levantada, não vai sobrar nada de Tamina a não ser o presente, esse ponto invisível, esse nada que avança lentamente em direção à morte.
Eles iniciaram uma conversa. O que intrigava Tamina eram as suas perguntas. Não o conteúdo delas, mas o simples fato de ele as fazer. Meu Deus, havia tanto tempo que não lhe perguntavam nada! Tinha a impressão de que havia uma eternidade! Só seu marido lhe fazia perguntas sem cessar, porque o amor é uma interrogação contínua. É, não conheço definição melhor do amor.
(...) No barro úmido sem mato e sem árvores, acossados por baixo pela cor ocre e amarela e, do alto, por nuvens cinza e pesadas, eles caminhavam lado a lado, calçados com botas de borracha que afundavam na lama e deslizavam. Estavam sós no mundo, cheios de angústia, de amor e de inquietação desesperada um pelo outro.
A mulher que ele mais amou no mundo (ele tinha na época trinta anos) lhe dizia (ele ficava quase desesperado quando ouvia isto) que ela só se prendia à vida por um fio muito fino. Sim, ela queria viver, a vida lhe proporcionava uma alegria imensa, mas ela sabia ao mesmo tempo que esse quero viver era tecido com fios de teia de aranha. Bastava tão pouco, tão infinitamente pouco, para se encontrar do outro lado da fronteira além da qual nada mais tinha sentido: o amor, as convicções, a fé, a História. Todo o mistério da vida humana consistia no fato de que ela se desenrola em proximidade imediata e mesmo em contato direto com essa fronteira, que ela não fica separada desta por quilômetros, mas apenas por um milímetro.
O olhar do homem já foi descrito muitas vezes. Ele pousa friamente sobre a mulher, ao que parece, como se a medisse, a pesasse, a avaliasse, a escolhesse, ou seja, como se a transformasse em coisa.
O que não se sabe tão bem é que a mulher não está inteiramente desarmada contra esse olhar. Se ela é transformada em coisa, então ela observa o homem com o olhar de uma coisa. É como se o martelo tivesse de repente olhos e observasse fixamente o pedreiro que se serve dele para fixar um prego. O pedreiro vê o olhar mau do martelo, perde a segurança e dá uma martelada no próprio dedo.
O pedreiro é o senhor do martelo, porém é o martelo que leva vantagem sobre o pedreiro, porque a ferramenta sabe exatamente como deve ser manejada, enquanto aquele que a maneja só pode sabê-lo mais ou menos.
O poder de olhar transforma o martelo em ser vivo, mas o bravo pedreiro tem de sustentar seu olhar insolente e, com a mão firme, transformá-lo novamente em coisa. Dizem que a mulher vive assim um movimento cósmico para cima e para baixo: a elevação da coisa tornada criatura e a queda da criatura tornada coisa.

comecei a ler elogio da loucura também, que felipe me deu, mas tava chatão e acho que vou abandonar.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

lidos/assistidos em novembro

nesse mês terminei de ler o cortiço, de aluísio azevedo, coisa que nem pretendia... mas fiquei olhando a lista de leitura da unicamp, faltando só esse unzinho, e aproveitei que tinha tempo ainda (mentira, foi só uma desculpa pra não estudar sem deixar de estudar). tive que renovar duas vezes o empréstimo na biblioteca, mas não achei tão ruim – nem lembrava de bertoleza se matando com a faca de peixe, que aconteceu literalmente na última página. enfim, aquilo tudo que já ouvi mil vezes: o cortiço sendo o real protagonista, o meio determinando como as pessoas agiam, a galera sendo corrompida, tudo bem escrachado e animalizado. teve sexo lésbico e não lembrava de gláucia contando... tinha outra descrição que me chamou atenção antes mas esqueci de anotar. a seguinte é só um exemplo.

E com um arranco de besta-fera caíram ambos prostrados, arquejando. Ela tinha a boca aberta, a língua fora, os braços duros, os dedos inteiriçados, e o corpo todo a tremer-lhe da cabeça aos pés, continuamente, como se estivesse morrendo; ao passo que ele, de súbito arremessado longe da vida por aquela explosão inesperada dos seus sentidos, deixava-se mergulhar numa embriaguez deliciosa, através da qual o mundo inteiro e todo o seu passado fugiam como sombras fátuas. E, sem consciência de nada que o cercava, nem memória de si próprio, sem olhos, sem tino, sem ouvidos, apenas conservava em todo o seu ser uma impressão bem clara, viva, inextinguível: o atrito daquela carne quente e palpitante, que ele em delírio apertou contra o corpo, e que ele ainda sentia latejar-lhe debaixo das mãos, e que ele continuava a comprimir maquinalmente, como a criança que, já dormindo, afaga ainda as tetas em que matou ao mesmo tempo a fome e a sede com que veio ao mundo.

assisti bem sem atenção um filme ruim que larissa colocou no netflix, chamado sacrifice (2016). bizarrinho.

vi män som hattar kvinnor (2009), porque decidi que vou assistir os filmes que tenho baixados antes de outros... e gostei da versão sueca, me pareceu mais explicada e entendível – apesar de preferir a lisbeth de rooney mara à de noomi rapace (que, inclusive, faz as irmãs gêmeas de um filme que larissa gostou e sobre o qual falei há um tempo atrás).

li alguns livros curtos: um conto de natal (charles dickens), amores diversos (vários autores), olhar de descoberta (vários autores) e histórias para ler sem pressa (mamede mustafa jarouche). o primeiro achei bacana, história conhecidíssima, massa a narrativa de dickens mas nada encantador, sei lá. os dois seguintes são parte da uma coleçãozinha, larissa deixou comigo porque eu queria ler numa época, mas achei bem dispensáveis (o primeiro é de poemas e o outro de contos/crônicas). só gostei mesmo desse poema e o primeiro conto de olhar de descoberta é sobre amizade mas tem muita cara de amor homossexual. o último obtive na feira de troca de livros da biblioteca, peguei por serem histórias árabes... mas esperava mais, achei bem rasas. continuo preferindo malba tahan.

avancei na leitura de família schürmann mas só termino em dezembro, então deixa pra lá.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

assistido em outubro

a única coisa que vi neste mês foi o documentário she's beautiful when she's angry (2014) ao longo de três dias, enquanto fazia pausas pra jantar. gostei de conhecer melhor como se organizou o movimento feminista, as histórias das mulheres por trás dessa luta e as questões levantadas desde então. é incrível ver o quanto devemos a liberdade de hoje a esse movimento e um pouco triste pensar que ainda falta tanta coisa.

ó pra isso, hein

aquilo de supostamente toda mulher ser, no mínimo, bi... hehe

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

lidos em outubro

nesse mês li demais pra compensar o que não li anteriormente, mas não de propósito, na verdade; apenas foi o que funcionava melhor pra me tirar da agonia dos dias.

primeiro terminei de ler sermões de quarta-feira de cinza, do padre antonio vieira, cuja introdução, intitulada a arte de morrer (por alcir pécora), diz assim: Vieira propõe que a verdadeira substância do que vive não é dada pelo tempo "presente", mas pelo "passado" e pelo "futuro". O "presente" seria um estado de aparência e engano entre um estado essencial revelado no "passado" e confirmado no "futuro". (...) O intervalo da vida terrena entre ambos pode ser representado por um movimento circular cujo princípio e cujo fim são idênticos. Afastar-se de um é aproximar-se do mesmo, aparentando outro. A existência circular do homem, diversamente da de Deus que é sempre idêntica ao seu próprio Ser, é ser e não ser: falso avanço, quando faz supor que se distancia e muda em relação a sua essência original, e, entretanto, avanço real e verdadeiro, porque o fim de que se aproxima é efetivamente a essência que a existência oculta. (...) Na "3ª regra" desse "segundo modo", lê-se: "[...] considerar, como se estivesse em artigo de morte, a forma e a medida que então queria ter adotado no modo da eleição presente, e conduzindo-me por ela, aja com inteira determinação". E na 4ª se estabelece que, "[...] cuidando e considerando como estarei no dia do juízo, pensar como então queria ter deliberado acerca da presente coisa, e a conduta que então queria ter tido, e tomá-la agora, para que assim encontre inteiro prazer e gozo". (...) No primeiro sermão, livra-o das penas eternas que fazem justiça às faltas cometidas em vida; no segundo, livra-o do transe terrível da hora última; no terceiro, enfim, livra-o das atribulações sem fim dos negócios do mundo. Por outro lado, em termos positivos, esse terceiro sermão acentua a "quietação" proporcionada pela morte; o segundo ressalta a eficácia dos preparativos para dominar o medo implicado nela; o primeiro torna-a condição do conhecimento dos limites e da destinação da vida humana. achei bacana até, a lógica dada pras coisas, apesar de obviamente não pensar em seguir qualquer coisa religiosa. pra mim essas foram as partes mais relevantes do primeiro sermão (talvez tenha exagerado nas marcações):

O pó levantado, como vão, quis fazer distinções de pó a pó: e porque não pôde distinguir a substância, pôs a diferença nas cores. Porém a morte como vingadora de todos os agravos da natureza a todas essas cores faz da mesma cor, para que não distinga a vaidade, e a fortuna os que fez iguais a razão.
Nas tuas ruínas vês o que foste, nos teus oráculos lês o que hás de ser; e se queres fazer verdadeiro juízo de ti mesma, pelo que foste e pelo que hás de ser, estima o que és.
Se quereis ver o futuro, lede as histórias, e olhai para o passado: se quereis ver o passado, lede as profecias, e olhai para o futuro. E quem quiser ver o presente para onde há de olhar? Não o disse Salomão, mas eu o direi. Digo que olhe juntamente para um e para outro espelho. Olhai para o passado e para o futuro, e vereis o presente. A razão ou consequência é manifesta. Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é o futuro do passado e o mesmo presente é o passado do futuro.
Comecemos de hoje em diante a viver, como quereríamos ter vivido na hora da morte. Vive assim como quiseras ter vivido quando morras. Oh que consolação tão grande será então a nossa, se o fizermos assim! E pelo contrário, que desconsolação tão irremediável, e tão desesperada, se nos deixarmos levar da corrente, quando nos acharmos onde ela nos leva!

do segundo:

Sê desde logo o pó que és, e não temerás depois ser o pó que hás de ser. Sabeis, Senhores, por que tememos o pó que havemos de ser? É porque não queremos ser o pó que somos. Sou pó, e hei de ser pó; pois antes de ser o pó que hei de ser, quero ser o pó que sou. Já que hei de ser pó por força quero ser pó por vontade. Não é melhor que faça desde logo a razão o que depois há de fazer a natureza? Se a natureza me há de resolver em pó, eu quero-me resolver a ser pó; e faça a razão por remédio, o que há de fazer a natureza sem remédio. Não sei se entendestes todos a metáfora? Quer dizer mais claramente, que o remédio único contra a morte é acabar a vida antes de morrer.
Bem creio eu que haverá não poucos que quiseram antes trocados esses termos, e poder nascer duas vezes, para escolher nascimento. Mas Deus que nos fez para a eternidade e não para o tempo, para a verdade, e não para a vaidade, deixou o nascer à natureza, e o morrer à eleição. No nascer, em que todos somos iguais, não pode haver erro, e por isso basta nascer uma vez; no morrer, em que o erro ou acerto importa tudo, e há de durar para sempre, era justo que o homem pudesse morrer duas vezes, para eleger a morte que mais quisesse, e para aprender, morrendo, a saber morrer.
Não morras no tempo que não é teu (...). Mas qual é o tempo meu, em que é bem que morra, e qual o tempo não meu, em que é bem que não morra? O tempo meu é o tempo antes da morte; o tempo não meu é o tempo depois da morte. E guardar ou esperar a morte para o tempo depois da morte, que não é tempo meu, é ignorância, é loucura, é estultícia, como a deste néscio: Stulte; mas antecipar a morte, e morrer antes de se acabar a vida, que é o tempo meu, esse é o prudente, e o sábio, e o bem entendido morrer. (...)
(...) E que quer dizer: eu vivo, mas já não sou eu? (...) Todas as cousas deste mundo são para mim, como para os mortos; nem as sinto, nem me dão cuidado, nem faço mais caso delas, como se não foram; porque se elas ainda são, eu já não sou. Considerai as imunidades dos mortos, e vereis o descanso de que gozam, e os trabalhos de que se livram os que antecipam a morte. (...) Entre os mortos livre. Livre dos cuidados do mundo, porque já está fora do mundo. Livre de emulações e invejas, porque a ninguém faz oposição. Livre de esperanças e temores, porque nenhuma cousa deseja. Livre de contingências e mudanças, porque se isentou da jurisdição da fortuna. Livre dos homens, que é a mais dificultosa liberdade, porque se descativou de si mesmo. Livre, finalmente, de todos os pesares, moléstias e inquietações da vida, porque já é morto.

e do terceiro:

(...) El-rei Ezequias mandou queimar os livros de Salomão, porque o povo recorrendo às virtudes das ervas, em suas enfermidades deixava de acudir a Deus, que é a verdadeira raiz da saúde. Assim o refere Eusébio Cesariense. Mas enquanto duraram os mesmos livros, nem aos enfermos particulares, nem ao mesmo Salomão aproveitou aquela grande ciência médica; até quando? Até que as próprias doenças os sujeitaram ao médico universal, que, sem aforismos, nem receitas, cura em um momento a todas, que é a morte. (...) Morrestes; acabaram-se todas as moléstias e aflições que martirizam um corpo humano; e até o temor da mesma morte se acabou, porque os mortos já não podem morrer.
(...) El-rei Antígono vendo que seu filho pelo ser se ensoberbecia, com que lhe abateria os fumos? (...) Não sabes, filho (lhe disse), que o nosso reino, e o reinar, não é outra cousa que um cativeiro honrado? Os reis são senhores de todos, mas também cativos de todos. A todos mandam como reis, e de todos são julgados como réus. Como o rei é a alma do reino, tem obrigação de viver em todos os seus vassalos, e padecer neles, e com eles quanto eles padecem. Se não padece assim, não é rei; e se padece, que maior martírio? Há-se de matar e morrer, para que eles vivam: há-se de cansar, para que eles descansem; e há de velar, para que eles durmam, sendo mais quieto e sossegado o sono do cavador sobre cortiça que o do rei debaixo de céus de brocado. (...)
(...) Quando eu jazer na sepultura, diz Davi, dormirei e descansarei em paz para isso mesmo, in idipsum. Que quer dizer para isso mesmo? Não se podia significar mais admiravelmente a diferença do sono, do descanso, e da paz dos mortos em comparação dos vivos. Os vivos dormimos, descansamos, e temos paz, mas não para isso mesmo; porque dormimos para acordar, descansamos para tornar a cansar, e temos paz para tornar outra vez à guerra: pelo contrário, os mortos dormem, descansam e estão em paz para isso mesmo: In pace in idipsum dormiam et requiescam. Dormem para isso mesmo: porque dormem, não para acordar, senão para dormir; descansam para isso mesmo; porque descansam, não para tornar a cansar, senão para descansar; e gozam a paz para isso mesmo, porque não gozam a paz para tornar à guerra, senão para lograr perpétua, e quietamente: Requiescat in pace.
(...) Três razões teve Deus para antecipar ou apressar a morte àquele moço: a primeira, porque lhe agradou a sua alma e a quis levar para si: Placita enim erat Deo anima illius: a segunda, porque o quis livrar das ocasiões da maldade: Properavit educere illum de medio iniquitatum: A terceira, porque o quis fortificar: Quare munierit illum Dominus. Aqui reparo. Se Deus lhe tirou a vida para o fortificar, que fortificação é esta, e contra quem? O contra quem são os vícios e pecados: a fortificação é aquela onde a morte defende os que matou, que é a sepultura. O homem vivo, com todas as portas dos sentidos abertas, é como a praça sem fortificação, que pode ser acometida, e entrada por toda a parte: porém o morto, com as mesmas portas cerradas, e cerrado ele dentro da sepultura, não há castelo tão forte, nem fortaleza tão inexpugnável a todo o inimigo; porque nem pode ser vencida do pecado, nem ainda acometida. (...)
(...) Quem vive em Deus, não vive em si; quem vive com Cristo, não vive com o mundo: e quem não vive em si, nem com o mundo, este verdadeiramente vive como morto. O morto tem olhos, e não vê; tem ouvidos, e não ouve; tem língua, e não fala; tem coração, e não deseja: e posto que o morto-vivo pode desejar, falar, ouvir e ver; nem vê o que não é lícito que se veja, nem ouve o que não é lícito que se ouça, nem fala o que não convém que se fale, nem deseja o que não convém que se deseje; porque é morto às paixões e aos apetites; e posto que viva ao sentimento, não vive à sensualidade. Isto é viver em Deus, e não em si. E que é viver com Cristo, e não com o mundo? É estar morto a tudo o que o mundo ama, a tudo o que o mundo estima, a tudo o que o mundo venera, a tudo o que o mundo adora, a tudo o que chama honra, a tudo o que chama interesse, a tudo o que chama boa ou má fortuna; porque tudo o que é próspero, ou adverso, alto ou baixo, precioso ou vil, pesado na balança da morte viva, é vaidade, é fumo, é vento, é sombra, é nada. E a todos os que assim vivem ou viverem, podemos dizer como S. Paulo: Mortui estis.

em seguida li o bem amado, de dias gomes, que achei engraçado e bem construído: odorico paraguaçu era um coronel bastante influente na cidade baiana de sucupira, bem pacata e pacífica, e aproveita o ensejo da morte de um velho pescador para discursar a respeito da vergonha que era precisar deslocar os mortos para a cidade vizinha. ele promete construir um cemitério se fosse eleito como prefeito e, quando consegue, faz uso de verbas destinadas a outras obras para construir o campo-santo. no entanto, passa-se um ano e nenhuma morte – a frustração de odorico faz com que ele praticamente encomende um enfermo, primo de uma moradora, mas o sujeito acaba melhorando com os ares locais e até se enamora com a moça. então é chamado um "fazedor de defuntos", cangaceiro natural de sucupira, que recebe a posição de delegado com a esperança de criar conflitos – o que também não acontece, uma vez que zeca diabo tem a intenção de se regenerar e aprende leis com o jornalista que faz oposição ao prefeito, neco pereira. então odorico arma mais uma situação: dá trela ao ciúme do marido de dulcineia, sua secretaria e amante, mas joga-o pra cima do jornalista e oferece até um revólver; a mulher é morta e o homem preso, proibido de conversar com a imprensa. quando a necrópole parece praticamente inaugurada, no velório de dulcineia, chega um tio com o testamento do pai dela, declarando sua vontade em ter toda a família enterrada na cidade de jaguatirica. odorico surta, se nega a obedecer, faz guarda ao caixão da morta, demite o delegado num acesso e recebe a notícia de que dirceu (marido da finada) contou tudo a neco – zeca acaba por matar o prefeito, pois traidor não merece viver, tanto mais traidor de moça donzela. a história termina, ironicamente, com neco pereira fazendo discurso no enterro de odorico, que acaba por ser o primeiro hóspede de seu "sonho".

então li sonetos de camões, de (óbvio) luís de camões, apesar de apenas 14 dos 55 contidos no livro serem pedidos pela unicamp (e mais outros 6 que tive que ler na internet). além de sonetos o livro contém redondilhas e mais uns negócios, e os elementos que permeiam as obras são os seguintes: instabilidade dos sentimentos e da realidade; ideal de perfeição física e moral; desconcerto do mundo; amor platônico; perda da amada; a própria atividade poética. achei massa, gosto de camões. alguns preferidos:

Tanto de meu estado me acho incerto
que, em vivo ardor, tremendo estou de frio,
sem causa, juntamente choro e rio;
o mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando;
num'hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar um'hora.
Se me pergunta alguém porque assi ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.
Que de tanta estranheza sois ao mundo,
que não é de estranhar, Dama excelente,
que quem vos fez fizesse céu e estrelas.
Vossos olhos, Senhora, que competem
co Sol em fermosura e claridade,
enchem os meus de tal suavidade
que em lágrimas, de vê-los, se derretem.
Meus sentidos vencidos se sometem
assi cegos a tanta divindade
e da triste prisão, da escuridade,
cheios de medo, por fugir remetem.
Quando o sol encoberto vai mostrando
ao mundo a luz quieta e duvidosa,
ao longo de ũa praia deleitosa,
vou na minha inimiga imaginando.
Aqui a vi os cabelos concertando;
ali, co a mão na face, tão fermosa;
aqui, falando alegre, ali cuidosa;
agora estando queda, agora andando.
Aqui esteve sentada, ali me viu,
erguendo aqueles olhos tão isentos;
aqui movida um pouco, ali segura;
aqui se entristeceu, ali se riu...
enfim, nestes cansados pensamentos,
passo esta vida vã, que sempre dura.

também acabei lendo sagarana (de guimarães rosa) inteiro, apesar de só o último conto importar agora. prossegui a leitura com duelo, que conta a história de turíbio todo e cassiano gomes – este o amante da esposa daquele, descoberto num retorno da pesca adiantado. turíbio é bom atirador e vai até a casa de cassiano para matá-lo, mas acaba que o morto é levindo gomes, irmão do outro, e nisso turíbio sai da cidadezinha e se inicia uma perseguição por entre os povoados da região, durando meses. cassiano abandona a causa, relembrado de seu problema cardíaco, e turíbio passa para terras paulistas e lá fica; mas, quando o médico anuncia que cassiano tem poucos meses de vida, ele se despede de todos com o intuito de pegar o inimigo antes de partir. não vai muito longe, piorando e se assentando num povoadinho, onde conhece um homem, de apelido vinte-e-um, que se torna seu compadre e recebe seu dinheiro para ajudar a família; cassiano morre e deixa tudo para ele. sabendo da notícia turíbio retorna e acaba dividindo estrada com vinte-e-um, que o mata: Peço perdão a Deus e ao senhor, mas não tem outro jeito, porque eu prometi ao meu compadre Cassiano, lá no Mosquito, na horinha mesma d'ele fechar os olhos...

o segundo conto, chamado minha gente, trata desse homem que vai visitar a fazenda de seu tio e acaba reacendendo a paixão por uma prima que já namorou, maria irma; ela o provoca e faz rodeios nas falas mas nunca cede aos seus apelos. ele toma conhecimento de um rapaz que a emprestava livros, ramiro, mas maria irma anuncia que ele era noivo de uma amiga, armanda. o primo, enciumado, tenta traçar um plano para atraí-la e visita outra fazenda, onde mora outra namorada de brinquedo de outros tempos – coisa que não afeta nada, o que faz com que ele vá embora pra outra cidade, triste. mais tarde recebe uma carta do tio, com notícias de que seu partido ganhara as eleições, e outra de um amigo louco por xadrez, terminando uma partida começada na viagem. resolve revisitar os parentes, querendo mostrar à prima que não gostava mais dela, e é então que ela o apresenta a armanda, de quem fica noivo, enquanto maria irma fica com ramiro: tudo se desdobrando conforme os planos da moça. me chamou atenção pelos pedaços que enfiei na minha vidinha...

Dormi mal, acordei de saudades, corri para junto de Maria Irma.
— Que tal, a Aldinha? — perguntou.
— Que tal você e eu, Maria Irma?
(...) E desesperava, ao sentir que eu acumulara comigo tanto amor que estava inútil, sem ter onde pousar.
Mais sofri, todavia, porque lua havia, uma lua onde cabiam todos os devaneios e em que podia beber qualquer imaginação.
— Prefiro caminhar. Quer? — perguntou-me Armanda.
Quis. Andamos. Calados. Crescia em mim uma coisa definitiva, assim com a impressão de já conhecê-la, desde muito, muito tempo. Nossas mãos se encontraram, de repente, e eu senti que ela também estremeceu.

depois vem são marcos, que é sobre esse homem muito crente em superstições, mas não em feitiçaria. ele tinha o costume de, todo domingo, visitar uma mata riquíssima em fauna e flora, e no caminho insultava e caçoava do negro joão mangolô, mestre das artes de despacho, atraso, telequinese, vidro moído, vuduísmo, amarramento e desamarração de seu povoado. numa dessas viagens ele encontra um colega que acaba contando uma história envolvendo a oração de são marcos, supostamente muito perigosa, mas com a qual o narrador até brinca. acontece que, subitamente, ele perde a visão enquanto descansa no mato – se machuca muito, quase se perde, mas lembra da reza-brava e é tomado por uma energia ao proferi-la. ele sai em disparada para a casa do feiticeiro, se atraca com ele e quase o esganava quando voltou a enxergar, só pra ver que era trabalho de mangolô: Não quis matar, não quis ofender... Amarrei só esta tirinha de pano preto nas vistas do retrato, p'ra Sinhô passar uns tempos sem poder enxergar... Olho que deve de ficar fechado, p'ra não precisar de ver negro feio... o narrador estende a bandeira branca, alegando que tem santo bom, e propõe que não tivessem briga, indo embora depois de deixar uma nota de dez mil-réis.

o próximo conto é corpo fechado, que começa com um tal de manuel fulô contando sobre os malfeitores do povoado para o doutor, seu amigo. ele descobre que fulô está noivo, coisa que não parecia de grande importância para ele – cuja maior paixão é sua mula, beija-flor –, mas targino, o sujeito mais intimidador do momento, anuncia que deseja passar uma noite com sua noiva antes do casamento e que, se fulô tivesse algo contra, o mataria. manuel fica desconjuntado mas acaba recebendo uma proposta do feiticeiro antonico: ele fecharia/blindaria seu corpo em troca da mula. os dois tinham um impasse pois fulô queria a sela mexicana de antonico, que queria a mula de fulô; o trato é feito, não obstante, e os tiros de targino não fazem nada contra manuel, que o mata com um canivete e passa a representar a figura de valentão no lugar dele.

depois vem conversa de bois, contanto um caso, a partir do relato de uma irara, sobre esse carro de bois levando rapadura e um defunto para um arraial. seu guia é um menino, filho do defunto (que quando vivo era doente e inválido) e o condutor é uma espécie de padrasto dele (pois é o companheiro de sua mãe), mas muito cruel e insensível com a criança, que caminha triste. os bois têm consciência e conversam entre si sobre sua vida e o que percebem dos homens, chegando num ponto em que seus pensamentos se misturam com os do menino e incitam vingança – eles fazem com que o menino grite, assustando os animais, que fazem pular o carro e derrubam o carreiro, que é atropelado pela roda. apesar do desespero do menino o resto do trajeto se torna mais leve com dois defuntos.

— Podemos pensar como o homem e como os bois. Mas é melhor não pensar como o homem...
— É porque temos de viver perto do homem, temos de trabalhar... Como os homens... Por que é que tivemos de aprender a pensar?...
— É engraçado: podemos espiar os homens, os bois outros...
— Pior, pior... Começamos a olhar o medo... o medo grande... e a pressa... O medo é uma pressa que vem de todos os lados, uma pressa sem caminho... É ruim ser boi-de-carro. É ruim viver perto dos homens... As coisas ruins são do homem: tristeza, fome, calor – tudo, pensando, é pior...
— Mas, pensar no capinzal, na água fresca, no sono à sombra, é bom... É melhor do que comer sem pensar. Quando voltarmos, de noite, no pasto, ainda haverá boas touceiras do roxo-miúdo, que não secaram... E mesmo o catingueiro-branco está com as moitas só comidas a meia altura... É bonito poder pensar, mas só nas coisas bonitas...
— Que é que está fazendo o carro?
— O carro vem andando, sempre atrás de nós.
— Onde está o homem-do-pau-comprido?
— O homem-do-pau-comprido-com-o-marimbondo-na-ponta está trepado no chifre do carro...
— E o bezerro-de-homem-que-caminha-sempre-na-frente-dos-bois?
— O bezerro-de-homem-que-caminha-adiante vai caminhando devagar... Ele está babando água dos olhos...

e, por último, a hora e a vez de augusto matraga (que foi uma releitura) – o protagonista é esse bandoleiro que não quer saber de trabalhar e só faz maltratar os outros e desprezar a esposa e a filha, até que sua família vai morar em outro sítio e seus homens passam pro lado de outro major. quando tenta confrontá-los é violentado até quase morrer, salvo por um casal de negros que morava ao pé do barranco do qual ele se jogou. envergonhado e arrependido, nhô augusto decide se redimir e parte para outro povoado com os velhos, assim que se recupera, e lá passa a trabalhar dia e noite para todos, se lembrando sempre que vai para o céu nem que seja a porrete. numa ocasião surge um bando de jagunços no local e augusto os hospeda e se amiga com o líder, que percebe que matraga nem sempre fora daquele jeito e o convida para se juntar ao grupo. ele recusa mas, tempos mais tarde, parte com um jumento para outro canto e topa com o bando, porém se coloca contra o jagunço para defender uma família. eles lutam até a morte, terminando contentes e amigos assim mesmo, e augusto matraga abençoa sua filha e parte conformado de que este fora o desígnio divino para ele.

E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso acontecido, não senhor.
E isso foi pensado muito ligeiro, porque já ele enrolava a palha, com uma pressa medonha, como se não tivesse curtido tantos anos de abstenção. Tirou tragadas, soltou muitas fumaças, e sentiu o corpo se desmanchar, dando na fraqueza, mas com uma tremura gostosa, que vinha até ao mais dentro, parecendo que a gente ia virar uma chuvinha fina.
A lâmina de Nhô Augusto talhara de baixo para cima, do púbis à boca-do-estômago, e um mundo de cobras sangrentas saltou para o ar livre, enquanto seu Joãozinho Bem-Bem caía ajoelhado, recolhendo os seus recheios nas mãos.

eu gostei bastante dos contos e do estilo de guimarães rosa, quero ler mais obras dele no futuro. não achei a linguagem tão difícil quanto como ouvi dizerem, apenas bastante diversa e dinâmica (são marcos foi o pior nesse aspecto pois tinha muita descrição de árvores e animais). meus preferidos foram sarapalha e conversa de bois, e o que menos gostei foi a volta do marido pródigo. (vídeo massa sobre tudo aqui.)

em seguida terminei poemas negros, de jorge de lima, que não me agradou por inteiro mas foi uma leitura tranquila. vê-se a homenagem feita às crenças e mitologias negras, retratando grande sincretismo religioso por meio de um "africanismo de adoção", além da denúncia da desigualdade social e dos problemas do povo. um que achei muito forte é intitulado Foi mudando, mudando:

Tempos e tempos passarram
por sobre teu ser.
Da era cristã de 1500
até estes tempos severos de hoje,
quem foi que formou de novo teu ventre,
teus olhos, tua alma?
Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão?
Os modos de rir, o jeito de andar,
pele,
gozo,
coração...
Negro, índio ou cristão?
Quem foi que te deu esta sabedoria,
mais dengo e alvura,
cabelo escorrido, tristeza do mundo,
desgosto da vida, orgulho de branco, algemas, resgates, alforrias?
Foi negro, foi índio ou foi cristão?
Quem foi que mudou teu leite,
teu sangue, teus pés,
teu modo de amar,
teus santos, teus ódios,
teu fogo,
teu suor,
tua espuma,
tua saliva, teus abraços, teus suspiros, tuas comidas,
tua língua?
Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão?

Olá! Negro também é muito bom e mais popular um pouco (abaixo um trecho).

Apanhavas com vontade de cantar,
choravas com vontade de sorrir,
com vontade de fazer mandinga para o branco ficar bom,
para o chicote doer menos,
para o dia acabar e negro dormir!
Não basta iluminares hoje as noites dos brancos com teus jazzes,
com tuas danças, com tuas gargalhadas!
Olá, Negro! O dia está nascendo!
O dia está nascendo ou será a tua gargalhada que vem vindo?

agora um trecho aleatório...

Eu sou um corpo distraído.
Bóiam os meus olhos pelas superfícies.
Mas os meus olhos correm mais perigo
do que se andassem em acrobacias contemplativas
pulando no céu alto, perto das estrelas.

...e pedaços de Invenção de Orfeu, aparentemente a obra-prima do autor:

Sonâmbulas as flores
conservam pelo dia
as noites.
Os ouvidos das pétalas,
e seus lábios de olor
recordam-se
transidos e orvalhados,
indiferentes, frios,
tão frios.
Jamais os dias quentes
poderão aquecer-lhes
os seus sangues noturnos
tão frios.
Agora nos jardins
espalham
nos silêncios intactos
suas presenças frias,
tão frias.
São beijadas, porém
volvidas
à lembrança das noites
permanecem veladas
e frias.
Não há na vida amor que em vão termine
nem vão esquecimento que o destine.
Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.
A estepe e a noite de deitaram juntas,
paralelas as asas sobre as asas,
ambas com as solidões, ambas defuntas,
e entre elas, sós, ardentes como brasas,
espreitando à direita e à esquerda o estrito
espaço ínfimo que entre as duas corre,
correm cruciados como o imenso grito,
imenso grito mudo de quem morre,
os olhos renegados de quem está
esperando, esperando. Que esperando?
Entre a estepe e a noite olham olhos, rente
às trevas opressoras, olhos que a
estepe e a noite juntas se estreitando
apagam misericordiosamente.

esse último se chama Poemas da vicissitude e é o canto V (achei bonito, identifico coisas). tem mais coisa que salvei por ser mais romântico (ou não)...





certo. não vou acabar mais nada esse mês então é isso.