quinta-feira, 26 de outubro de 2017

lidos em outubro

nesse mês li demais pra compensar o que não li anteriormente, mas não de propósito, na verdade; apenas foi o que funcionava melhor pra me tirar da agonia dos dias.

primeiro terminei de ler sermões de quarta-feira de cinza, do padre antonio vieira, cuja introdução, intitulada a arte de morrer (por alcir pécora), diz assim: Vieira propõe que a verdadeira substância do que vive não é dada pelo tempo "presente", mas pelo "passado" e pelo "futuro". O "presente" seria um estado de aparência e engano entre um estado essencial revelado no "passado" e confirmado no "futuro". (...) O intervalo da vida terrena entre ambos pode ser representado por um movimento circular cujo princípio e cujo fim são idênticos. Afastar-se de um é aproximar-se do mesmo, aparentando outro. A existência circular do homem, diversamente da de Deus que é sempre idêntica ao seu próprio Ser, é ser e não ser: falso avanço, quando faz supor que se distancia e muda em relação a sua essência original, e, entretanto, avanço real e verdadeiro, porque o fim de que se aproxima é efetivamente a essência que a existência oculta. (...) Na "3ª regra" desse "segundo modo", lê-se: "[...] considerar, como se estivesse em artigo de morte, a forma e a medida que então queria ter adotado no modo da eleição presente, e conduzindo-me por ela, aja com inteira determinação". E na 4ª se estabelece que, "[...] cuidando e considerando como estarei no dia do juízo, pensar como então queria ter deliberado acerca da presente coisa, e a conduta que então queria ter tido, e tomá-la agora, para que assim encontre inteiro prazer e gozo". (...) No primeiro sermão, livra-o das penas eternas que fazem justiça às faltas cometidas em vida; no segundo, livra-o do transe terrível da hora última; no terceiro, enfim, livra-o das atribulações sem fim dos negócios do mundo. Por outro lado, em termos positivos, esse terceiro sermão acentua a "quietação" proporcionada pela morte; o segundo ressalta a eficácia dos preparativos para dominar o medo implicado nela; o primeiro torna-a condição do conhecimento dos limites e da destinação da vida humana. achei bacana até, a lógica dada pras coisas, apesar de obviamente não pensar em seguir qualquer coisa religiosa. pra mim essas foram as partes mais relevantes do primeiro sermão (talvez tenha exagerado nas marcações):

O pó levantado, como vão, quis fazer distinções de pó a pó: e porque não pôde distinguir a substância, pôs a diferença nas cores. Porém a morte como vingadora de todos os agravos da natureza a todas essas cores faz da mesma cor, para que não distinga a vaidade, e a fortuna os que fez iguais a razão.
Nas tuas ruínas vês o que foste, nos teus oráculos lês o que hás de ser; e se queres fazer verdadeiro juízo de ti mesma, pelo que foste e pelo que hás de ser, estima o que és.
Se quereis ver o futuro, lede as histórias, e olhai para o passado: se quereis ver o passado, lede as profecias, e olhai para o futuro. E quem quiser ver o presente para onde há de olhar? Não o disse Salomão, mas eu o direi. Digo que olhe juntamente para um e para outro espelho. Olhai para o passado e para o futuro, e vereis o presente. A razão ou consequência é manifesta. Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é o futuro do passado e o mesmo presente é o passado do futuro.
Comecemos de hoje em diante a viver, como quereríamos ter vivido na hora da morte. Vive assim como quiseras ter vivido quando morras. Oh que consolação tão grande será então a nossa, se o fizermos assim! E pelo contrário, que desconsolação tão irremediável, e tão desesperada, se nos deixarmos levar da corrente, quando nos acharmos onde ela nos leva!

do segundo:

Sê desde logo o pó que és, e não temerás depois ser o pó que hás de ser. Sabeis, Senhores, por que tememos o pó que havemos de ser? É porque não queremos ser o pó que somos. Sou pó, e hei de ser pó; pois antes de ser o pó que hei de ser, quero ser o pó que sou. Já que hei de ser pó por força quero ser pó por vontade. Não é melhor que faça desde logo a razão o que depois há de fazer a natureza? Se a natureza me há de resolver em pó, eu quero-me resolver a ser pó; e faça a razão por remédio, o que há de fazer a natureza sem remédio. Não sei se entendestes todos a metáfora? Quer dizer mais claramente, que o remédio único contra a morte é acabar a vida antes de morrer.
Bem creio eu que haverá não poucos que quiseram antes trocados esses termos, e poder nascer duas vezes, para escolher nascimento. Mas Deus que nos fez para a eternidade e não para o tempo, para a verdade, e não para a vaidade, deixou o nascer à natureza, e o morrer à eleição. No nascer, em que todos somos iguais, não pode haver erro, e por isso basta nascer uma vez; no morrer, em que o erro ou acerto importa tudo, e há de durar para sempre, era justo que o homem pudesse morrer duas vezes, para eleger a morte que mais quisesse, e para aprender, morrendo, a saber morrer.
Não morras no tempo que não é teu (...). Mas qual é o tempo meu, em que é bem que morra, e qual o tempo não meu, em que é bem que não morra? O tempo meu é o tempo antes da morte; o tempo não meu é o tempo depois da morte. E guardar ou esperar a morte para o tempo depois da morte, que não é tempo meu, é ignorância, é loucura, é estultícia, como a deste néscio: Stulte; mas antecipar a morte, e morrer antes de se acabar a vida, que é o tempo meu, esse é o prudente, e o sábio, e o bem entendido morrer. (...)
(...) E que quer dizer: eu vivo, mas já não sou eu? (...) Todas as cousas deste mundo são para mim, como para os mortos; nem as sinto, nem me dão cuidado, nem faço mais caso delas, como se não foram; porque se elas ainda são, eu já não sou. Considerai as imunidades dos mortos, e vereis o descanso de que gozam, e os trabalhos de que se livram os que antecipam a morte. (...) Entre os mortos livre. Livre dos cuidados do mundo, porque já está fora do mundo. Livre de emulações e invejas, porque a ninguém faz oposição. Livre de esperanças e temores, porque nenhuma cousa deseja. Livre de contingências e mudanças, porque se isentou da jurisdição da fortuna. Livre dos homens, que é a mais dificultosa liberdade, porque se descativou de si mesmo. Livre, finalmente, de todos os pesares, moléstias e inquietações da vida, porque já é morto.

e do terceiro:

(...) El-rei Ezequias mandou queimar os livros de Salomão, porque o povo recorrendo às virtudes das ervas, em suas enfermidades deixava de acudir a Deus, que é a verdadeira raiz da saúde. Assim o refere Eusébio Cesariense. Mas enquanto duraram os mesmos livros, nem aos enfermos particulares, nem ao mesmo Salomão aproveitou aquela grande ciência médica; até quando? Até que as próprias doenças os sujeitaram ao médico universal, que, sem aforismos, nem receitas, cura em um momento a todas, que é a morte. (...) Morrestes; acabaram-se todas as moléstias e aflições que martirizam um corpo humano; e até o temor da mesma morte se acabou, porque os mortos já não podem morrer.
(...) El-rei Antígono vendo que seu filho pelo ser se ensoberbecia, com que lhe abateria os fumos? (...) Não sabes, filho (lhe disse), que o nosso reino, e o reinar, não é outra cousa que um cativeiro honrado? Os reis são senhores de todos, mas também cativos de todos. A todos mandam como reis, e de todos são julgados como réus. Como o rei é a alma do reino, tem obrigação de viver em todos os seus vassalos, e padecer neles, e com eles quanto eles padecem. Se não padece assim, não é rei; e se padece, que maior martírio? Há-se de matar e morrer, para que eles vivam: há-se de cansar, para que eles descansem; e há de velar, para que eles durmam, sendo mais quieto e sossegado o sono do cavador sobre cortiça que o do rei debaixo de céus de brocado. (...)
(...) Quando eu jazer na sepultura, diz Davi, dormirei e descansarei em paz para isso mesmo, in idipsum. Que quer dizer para isso mesmo? Não se podia significar mais admiravelmente a diferença do sono, do descanso, e da paz dos mortos em comparação dos vivos. Os vivos dormimos, descansamos, e temos paz, mas não para isso mesmo; porque dormimos para acordar, descansamos para tornar a cansar, e temos paz para tornar outra vez à guerra: pelo contrário, os mortos dormem, descansam e estão em paz para isso mesmo: In pace in idipsum dormiam et requiescam. Dormem para isso mesmo: porque dormem, não para acordar, senão para dormir; descansam para isso mesmo; porque descansam, não para tornar a cansar, senão para descansar; e gozam a paz para isso mesmo, porque não gozam a paz para tornar à guerra, senão para lograr perpétua, e quietamente: Requiescat in pace.
(...) Três razões teve Deus para antecipar ou apressar a morte àquele moço: a primeira, porque lhe agradou a sua alma e a quis levar para si: Placita enim erat Deo anima illius: a segunda, porque o quis livrar das ocasiões da maldade: Properavit educere illum de medio iniquitatum: A terceira, porque o quis fortificar: Quare munierit illum Dominus. Aqui reparo. Se Deus lhe tirou a vida para o fortificar, que fortificação é esta, e contra quem? O contra quem são os vícios e pecados: a fortificação é aquela onde a morte defende os que matou, que é a sepultura. O homem vivo, com todas as portas dos sentidos abertas, é como a praça sem fortificação, que pode ser acometida, e entrada por toda a parte: porém o morto, com as mesmas portas cerradas, e cerrado ele dentro da sepultura, não há castelo tão forte, nem fortaleza tão inexpugnável a todo o inimigo; porque nem pode ser vencida do pecado, nem ainda acometida. (...)
(...) Quem vive em Deus, não vive em si; quem vive com Cristo, não vive com o mundo: e quem não vive em si, nem com o mundo, este verdadeiramente vive como morto. O morto tem olhos, e não vê; tem ouvidos, e não ouve; tem língua, e não fala; tem coração, e não deseja: e posto que o morto-vivo pode desejar, falar, ouvir e ver; nem vê o que não é lícito que se veja, nem ouve o que não é lícito que se ouça, nem fala o que não convém que se fale, nem deseja o que não convém que se deseje; porque é morto às paixões e aos apetites; e posto que viva ao sentimento, não vive à sensualidade. Isto é viver em Deus, e não em si. E que é viver com Cristo, e não com o mundo? É estar morto a tudo o que o mundo ama, a tudo o que o mundo estima, a tudo o que o mundo venera, a tudo o que o mundo adora, a tudo o que chama honra, a tudo o que chama interesse, a tudo o que chama boa ou má fortuna; porque tudo o que é próspero, ou adverso, alto ou baixo, precioso ou vil, pesado na balança da morte viva, é vaidade, é fumo, é vento, é sombra, é nada. E a todos os que assim vivem ou viverem, podemos dizer como S. Paulo: Mortui estis.

em seguida li o bem amado, de dias gomes, que achei engraçado e bem construído: odorico paraguaçu era um coronel bastante influente na cidade baiana de sucupira, bem pacata e pacífica, e aproveita o ensejo da morte de um velho pescador para discursar a respeito da vergonha que era precisar deslocar os mortos para a cidade vizinha. ele promete construir um cemitério se fosse eleito como prefeito e, quando consegue, faz uso de verbas destinadas a outras obras para construir o campo-santo. no entanto, passa-se um ano e nenhuma morte – a frustração de odorico faz com que ele praticamente encomende um enfermo, primo de uma moradora, mas o sujeito acaba melhorando com os ares locais e até se enamora com a moça. então é chamado um "fazedor de defuntos", cangaceiro natural de sucupira, que recebe a posição de delegado com a esperança de criar conflitos – o que também não acontece, uma vez que zeca diabo tem a intenção de se regenerar e aprende leis com o jornalista que faz oposição ao prefeito, neco pereira. então odorico arma mais uma situação: dá trela ao ciúme do marido de dulcineia, sua secretaria e amante, mas joga-o pra cima do jornalista e oferece até um revólver; a mulher é morta e o homem preso, proibido de conversar com a imprensa. quando a necrópole parece praticamente inaugurada, no velório de dulcineia, chega um tio com o testamento do pai dela, declarando sua vontade em ter toda a família enterrada na cidade de jaguatirica. odorico surta, se nega a obedecer, faz guarda ao caixão da morta, demite o delegado num acesso e recebe a notícia de que dirceu (marido da finada) contou tudo a neco – zeca acaba por matar o prefeito, pois traidor não merece viver, tanto mais traidor de moça donzela. a história termina, ironicamente, com neco pereira fazendo discurso no enterro de odorico, que acaba por ser o primeiro hóspede de seu "sonho".

então li sonetos de camões, de (óbvio) luís de camões, apesar de apenas 14 dos 55 contidos no livro serem pedidos pela unicamp (e mais outros 6 que tive que ler na internet). além de sonetos o livro contém redondilhas e mais uns negócios, e os elementos que permeiam as obras são os seguintes: instabilidade dos sentimentos e da realidade; ideal de perfeição física e moral; desconcerto do mundo; amor platônico; perda da amada; a própria atividade poética. achei massa, gosto de camões. alguns preferidos:

Tanto de meu estado me acho incerto
que, em vivo ardor, tremendo estou de frio,
sem causa, juntamente choro e rio;
o mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando;
num'hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar um'hora.
Se me pergunta alguém porque assi ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.
–
Que de tanta estranheza sois ao mundo,
que não é de estranhar, Dama excelente,
que quem vos fez fizesse céu e estrelas.
–
Vossos olhos, Senhora, que competem
co Sol em fermosura e claridade,
enchem os meus de tal suavidade
que em lágrimas, de vê-los, se derretem.
Meus sentidos vencidos se sometem
assi cegos a tanta divindade
e da triste prisão, da escuridade,
cheios de medo, por fugir remetem.
–
Quando o sol encoberto vai mostrando
ao mundo a luz quieta e duvidosa,
ao longo de ũa praia deleitosa,
vou na minha inimiga imaginando.
Aqui a vi os cabelos concertando;
ali, co a mão na face, tão fermosa;
aqui, falando alegre, ali cuidosa;
agora estando queda, agora andando.
Aqui esteve sentada, ali me viu,
erguendo aqueles olhos tão isentos;
aqui movida um pouco, ali segura;
aqui se entristeceu, ali se riu...
enfim, nestes cansados pensamentos,
passo esta vida vã, que sempre dura.

também acabei lendo sagarana (de guimarães rosa) inteiro, apesar de só o último conto importar agora. prossegui a leitura com duelo, que conta a história de turíbio todo e cassiano gomes – este o amante da esposa daquele, descoberto num retorno da pesca adiantado. turíbio é bom atirador e vai até a casa de cassiano para matá-lo, mas acaba que o morto é levindo gomes, irmão do outro, e nisso turíbio sai da cidadezinha e se inicia uma perseguição por entre os povoados da região, durando meses. cassiano abandona a causa, relembrado de seu problema cardíaco, e turíbio passa para terras paulistas e lá fica; mas, quando o médico anuncia que cassiano tem poucos meses de vida, ele se despede de todos com o intuito de pegar o inimigo antes de partir. não vai muito longe, piorando e se assentando num povoadinho, onde conhece um homem, de apelido vinte-e-um, que se torna seu compadre e recebe seu dinheiro para ajudar a família; cassiano morre e deixa tudo para ele. sabendo da notícia turíbio retorna e acaba dividindo estrada com vinte-e-um, que o mata: Peço perdão a Deus e ao senhor, mas não tem outro jeito, porque eu prometi ao meu compadre Cassiano, lá no Mosquito, na horinha mesma d'ele fechar os olhos...

o segundo conto, chamado minha gente, trata desse homem que vai visitar a fazenda de seu tio e acaba reacendendo a paixão por uma prima que já namorou, maria irma; ela o provoca e faz rodeios nas falas mas nunca cede aos seus apelos. ele toma conhecimento de um rapaz que a emprestava livros, ramiro, mas maria irma anuncia que ele era noivo de uma amiga, armanda. o primo, enciumado, tenta traçar um plano para atraí-la e visita outra fazenda, onde mora outra namorada de brinquedo de outros tempos – coisa que não afeta nada, o que faz com que ele vá embora pra outra cidade, triste. mais tarde recebe uma carta do tio, com notícias de que seu partido ganhara as eleições, e outra de um amigo louco por xadrez, terminando uma partida começada na viagem. resolve revisitar os parentes, querendo mostrar à prima que não gostava mais dela, e é então que ela o apresenta a armanda, de quem fica noivo, enquanto maria irma fica com ramiro: tudo se desdobrando conforme os planos da moça. me chamou atenção pelos pedaços que enfiei na minha vidinha...

Dormi mal, acordei de saudades, corri para junto de Maria Irma.
— Que tal, a Aldinha? — perguntou.
— Que tal você e eu, Maria Irma?
(...) E desesperava, ao sentir que eu acumulara comigo tanto amor que estava inútil, sem ter onde pousar.
Mais sofri, todavia, porque lua havia, uma lua onde cabiam todos os devaneios e em que podia beber qualquer imaginação.
— Prefiro caminhar. Quer? — perguntou-me Armanda.
Quis. Andamos. Calados. Crescia em mim uma coisa definitiva, assim com a impressão de já conhecê-la, desde muito, muito tempo. Nossas mãos se encontraram, de repente, e eu senti que ela também estremeceu.

depois vem são marcos, que é sobre esse homem muito crente em superstições, mas não em feitiçaria. ele tinha o costume de, todo domingo, visitar uma mata riquíssima em fauna e flora, e no caminho insultava e caçoava do negro joão mangolô, mestre das artes de despacho, atraso, telequinese, vidro moído, vuduísmo, amarramento e desamarração de seu povoado. numa dessas viagens ele encontra um colega que acaba contando uma história envolvendo a oração de são marcos, supostamente muito perigosa, mas com a qual o narrador até brinca. acontece que, subitamente, ele perde a visão enquanto descansa no mato – se machuca muito, quase se perde, mas lembra da reza-brava e é tomado por uma energia ao proferi-la. ele sai em disparada para a casa do feiticeiro, se atraca com ele e quase o esganava quando voltou a enxergar, só pra ver que era trabalho de mangolô: Não quis matar, não quis ofender... Amarrei só esta tirinha de pano preto nas vistas do retrato, p'ra Sinhô passar uns tempos sem poder enxergar... Olho que deve de ficar fechado, p'ra não precisar de ver negro feio... o narrador estende a bandeira branca, alegando que tem santo bom, e propõe que não tivessem briga, indo embora depois de deixar uma nota de dez mil-réis.

o próximo conto é corpo fechado, que começa com um tal de manuel fulô contando sobre os malfeitores do povoado para o doutor, seu amigo. ele descobre que fulô está noivo, coisa que não parecia de grande importância para ele – cuja maior paixão é sua mula, beija-flor –, mas targino, o sujeito mais intimidador do momento, anuncia que deseja passar uma noite com sua noiva antes do casamento e que, se fulô tivesse algo contra, o mataria. manuel fica desconjuntado mas acaba recebendo uma proposta do feiticeiro antonico: ele fecharia/blindaria seu corpo em troca da mula. os dois tinham um impasse pois fulô queria a sela mexicana de antonico, que queria a mula de fulô; o trato é feito, não obstante, e os tiros de targino não fazem nada contra manuel, que o mata com um canivete e passa a representar a figura de valentão no lugar dele.

depois vem conversa de bois, contanto um caso, a partir do relato de uma irara, sobre esse carro de bois levando rapadura e um defunto para um arraial. seu guia é um menino, filho do defunto (que quando vivo era doente e inválido) e o condutor é uma espécie de padrasto dele (pois é o companheiro de sua mãe), mas muito cruel e insensível com a criança, que caminha triste. os bois têm consciência e conversam entre si sobre sua vida e o que percebem dos homens, chegando num ponto em que seus pensamentos se misturam com os do menino e incitam vingança – eles fazem com que o menino grite, assustando os animais, que fazem pular o carro e derrubam o carreiro, que é atropelado pela roda. apesar do desespero do menino o resto do trajeto se torna mais leve com dois defuntos.

— Podemos pensar como o homem e como os bois. Mas é melhor não pensar como o homem...
— É porque temos de viver perto do homem, temos de trabalhar... Como os homens... Por que é que tivemos de aprender a pensar?...
— É engraçado: podemos espiar os homens, os bois outros...
— Pior, pior... Começamos a olhar o medo... o medo grande... e a pressa... O medo é uma pressa que vem de todos os lados, uma pressa sem caminho... É ruim ser boi-de-carro. É ruim viver perto dos homens... As coisas ruins são do homem: tristeza, fome, calor – tudo, pensando, é pior...
— Mas, pensar no capinzal, na água fresca, no sono à sombra, é bom... É melhor do que comer sem pensar. Quando voltarmos, de noite, no pasto, ainda haverá boas touceiras do roxo-miúdo, que não secaram... E mesmo o catingueiro-branco está com as moitas só comidas a meia altura... É bonito poder pensar, mas só nas coisas bonitas...
— Que é que está fazendo o carro?
— O carro vem andando, sempre atrás de nós.
— Onde está o homem-do-pau-comprido?
— O homem-do-pau-comprido-com-o-marimbondo-na-ponta está trepado no chifre do carro...
— E o bezerro-de-homem-que-caminha-sempre-na-frente-dos-bois?
— O bezerro-de-homem-que-caminha-adiante vai caminhando devagar... Ele está babando água dos olhos...

e, por último, a hora e a vez de augusto matraga (que foi uma releitura) – o protagonista é esse bandoleiro que não quer saber de trabalhar e só faz maltratar os outros e desprezar a esposa e a filha, até que sua família vai morar em outro sítio e seus homens passam pro lado de outro major. quando tenta confrontá-los é violentado até quase morrer, salvo por um casal de negros que morava ao pé do barranco do qual ele se jogou. envergonhado e arrependido, nhô augusto decide se redimir e parte para outro povoado com os velhos, assim que se recupera, e lá passa a trabalhar dia e noite para todos, se lembrando sempre que vai para o céu nem que seja a porrete. numa ocasião surge um bando de jagunços no local e augusto os hospeda e se amiga com o líder, que percebe que matraga nem sempre fora daquele jeito e o convida para se juntar ao grupo. ele recusa mas, tempos mais tarde, parte com um jumento para outro canto e topa com o bando, porém se coloca contra o jagunço para defender uma família. eles lutam até a morte, terminando contentes e amigos assim mesmo, e augusto matraga abençoa sua filha e parte conformado de que este fora o desígnio divino para ele.

E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso acontecido, não senhor.
E isso foi pensado muito ligeiro, porque já ele enrolava a palha, com uma pressa medonha, como se não tivesse curtido tantos anos de abstenção. Tirou tragadas, soltou muitas fumaças, e sentiu o corpo se desmanchar, dando na fraqueza, mas com uma tremura gostosa, que vinha até ao mais dentro, parecendo que a gente ia virar uma chuvinha fina.
A lâmina de Nhô Augusto talhara de baixo para cima, do púbis à boca-do-estômago, e um mundo de cobras sangrentas saltou para o ar livre, enquanto seu Joãozinho Bem-Bem caía ajoelhado, recolhendo os seus recheios nas mãos.

eu gostei bastante dos contos e do estilo de guimarães rosa, quero ler mais obras dele no futuro. não achei a linguagem tão difícil quanto como ouvi dizerem, apenas bastante diversa e dinâmica (são marcos foi o pior nesse aspecto pois tinha muita descrição de árvores e animais). meus preferidos foram sarapalha e conversa de bois, e o que menos gostei foi a volta do marido pródigo. (vídeo massa sobre tudo aqui.)

em seguida terminei poemas negros, de jorge de lima, que não me agradou por inteiro mas foi uma leitura tranquila. vê-se a homenagem feita às crenças e mitologias negras, retratando grande sincretismo religioso por meio de um "africanismo de adoção", além da denúncia da desigualdade social e dos problemas do povo. um que achei muito forte é intitulado Foi mudando, mudando:

Tempos e tempos passarram
por sobre teu ser.
Da era cristã de 1500
até estes tempos severos de hoje,
quem foi que formou de novo teu ventre,
teus olhos, tua alma?
Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão?
Os modos de rir, o jeito de andar,
pele,
gozo,
coração...
Negro, índio ou cristão?
Quem foi que te deu esta sabedoria,
mais dengo e alvura,
cabelo escorrido, tristeza do mundo,
desgosto da vida, orgulho de branco, algemas, resgates, alforrias?
Foi negro, foi índio ou foi cristão?
Quem foi que mudou teu leite,
teu sangue, teus pés,
teu modo de amar,
teus santos, teus ódios,
teu fogo,
teu suor,
tua espuma,
tua saliva, teus abraços, teus suspiros, tuas comidas,
tua língua?
Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão?

Olá! Negro também é muito bom e mais popular um pouco (abaixo um trecho).

Apanhavas com vontade de cantar,
choravas com vontade de sorrir,
com vontade de fazer mandinga para o branco ficar bom,
para o chicote doer menos,
para o dia acabar e negro dormir!
Não basta iluminares hoje as noites dos brancos com teus jazzes,
com tuas danças, com tuas gargalhadas!
Olá, Negro! O dia está nascendo!
O dia está nascendo ou será a tua gargalhada que vem vindo?

agora um trecho aleatório...

Eu sou um corpo distraído.
Bóiam os meus olhos pelas superfícies.
Mas os meus olhos correm mais perigo
do que se andassem em acrobacias contemplativas
pulando no céu alto, perto das estrelas.

...e pedaços de Invenção de Orfeu, aparentemente a obra-prima do autor:

Sonâmbulas as flores
conservam pelo dia
as noites.
Os ouvidos das pétalas,
e seus lábios de olor
recordam-se
transidos e orvalhados,
indiferentes, frios,
tão frios.
Jamais os dias quentes
poderão aquecer-lhes
os seus sangues noturnos
tão frios.
Agora nos jardins
espalham
nos silêncios intactos
suas presenças frias,
tão frias.
São beijadas, porém
volvidas
à lembrança das noites
permanecem veladas
e frias.
–
Não há na vida amor que em vão termine
nem vão esquecimento que o destine.
–
Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.
–
A estepe e a noite de deitaram juntas,
paralelas as asas sobre as asas,
ambas com as solidões, ambas defuntas,
e entre elas, sós, ardentes como brasas,
espreitando à direita e à esquerda o estrito
espaço ínfimo que entre as duas corre,
correm cruciados como o imenso grito,
imenso grito mudo de quem morre,
os olhos renegados de quem está
esperando, esperando. Que esperando?
Entre a estepe e a noite olham olhos, rente
às trevas opressoras, olhos que a
estepe e a noite juntas se estreitando
apagam misericordiosamente.

esse último se chama Poemas da vicissitude e é o canto V (achei bonito, identifico coisas). tem mais coisa que salvei por ser mais romântico (ou não)...





certo. não vou acabar mais nada esse mês então é isso.

sábado, 30 de setembro de 2017

lidos/assistidos em setembro

neste mês eu li a incrível quantidade de 0 livros! avancei pouquíssimas páginas em leituras pro vestibular (o que, no caso, diminuiu mesmo, porque desisti da usp) e não li ebook nenhum (porque meu celular quebrou). em compensação minha vida foi bem incrível, então tudo bem.

quanto a filmes, assisti alguns e vou falar deles bem por cima. dois com larissa: pitch perfect 2 (2015), que nem prestei atenção no que ela não pedia, e personal shopper (2016) de novo, porque indiquei e ela quis assistir. vi megamind (2010) na tv, porque o começo me chamou a atenção com um conceito tratado numa aula de geografia – sem o bem não teria porque o mal existir e vice-versa (achei bacana, engraçadinho e tal). com talita vi três e meio: american beauty (1999), finalmente e por indicação dela, que gostei bastante da construção e desenrolar da história; wild (2014), que tava na lista de indicados pelos professores do descomplica e foi massa pelo realismo inesperado; dois contos de relatos salvajes (2014), que ela indicou também e terminei depois (achei bem bom e surpreendente); e perfect sense (2011), que foi bom de reassistir pra renovar a gratidão por ter todos os sentidos. também vimos um curta lançado no ccl: bastidores (2017), com gente daqui da região no elenco, alguns conhecidos (longe de ser perfeito mas foi divertido).

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

assistidos em agosto

dia 1º já terminei the handmaid's tale e MEU DEUS, não sei nem por onde começar, sei nem se sou capaz de falar alguma coisa à altura. a história se passa num futuro onde a maioria das pessoas é estéril em decorrência de químicos nos alimentos e doenças, o que faz com que uma religião fundamentalista tome o poder e passe a regular tudo de forma bizarra – as mulheres férteis são feitas de servas para a elite, sendo submetidas a rituais de estupro para dar filhos àquelas famílias e perdendo qualquer direito de serem pessoas. acompanhamos offred ("of fred") e a perda de sua filha e marido, as tentativas de encontrar alguma saída nesse regime, o sofrimento de ser impotente e etc. homossexuais, médicos que faziam abortos e pessoas de outras religiões são brutalmente mortas. é aterrorizante porque parece muito possível, não parece que estamos longe de algo assim; outro dia mesmo eu vi qualquer coisa no facebook sobre estudos mostrando que a fertilidade de homens de não sei onde caiu pela metade... além de tudo a filmagem é maravilhosa. quero ler o livro agora e sei que vai ter continuação da série.

depois assisti silence (2016), filme tratando de jesuítas portugueses tentando difundir o catolicismo pelo japão que baniu essa religião. massa demais a coisa de supostamente não serem capazes de conceber uma crença que não envolvesse a natureza e coisas visíveis... sinto que o filme quer mostrar que, apesar de tudo, os missionários não abandonaram sua causa, mas ao mesmo tempo dá pra absorver grandes críticas à igreja católica. meio maçante o filme, ritmo lento, mas acho que é tudo parte desse negócio de silêncio, introspecção, filosofia budista... foi baseado num livro, aliás.

vi, em dois dias, todos os 100 episódios de the lizzie bennet diaries, webserie de 2012 em forma de vlog cujo produtor executivo é o hank green (!). é uma adaptação de pride and prejudice pros dias atuais de forma muito cômica e criativa. vários personagens tem suas próprias redes sociais, lydia bennet tem até o próprio canal em contraponto ao da irmã, e desenvolveram-na de forma incrível. trocaram o negócio de casamento por emprego e achei genial! até charlotte tem mais espaço, conseguiram abordar muita coisa. com certeza devia ser mais conhecido.

reassisti hotarubi no mori e (2011) porque tava com vontade de chorar. chorei.

assisti a um ted da amanda palmer chamado the art of asking, que me deixou ouvindo as músicas dela por um tempinho. gostei do que ela abordou e desse pensamento, adotaria pra vida se fosse artista.

vi a season 2 de mr. robot, puramente porque fiquei usando o capuz do meu moletom nos dias de friozão e me senti muito elliot alderson. precisava fazer um resumo de todas as temporadas porque tem coisa demais e é confuso pra caramba, mas não tô muito com vontade. mas eu gostei, me surpreendeu também, logo sai a 3ª e pretendo ver.

minha mãe coisou um mês grátis de netflix e aproveitei pra ver to the bone (2017), cujo trailer eu vi há algum tempo e me interessei. é sobre uma jovem com anorexia que vai pra uma casa de recuperação onde tem várias outras pessoas com problemas similares. gostei do filme, não é exatamente sobre recuperação mas sim sobre o processo pra começar. teve uma cena que achei bonitona, massa tudo. a música também é boa, e curti essa também. tem outra onde a mãe dela quer tratá-la como um bebê porque sente que algum problema nessa fase acarretou os problemas alimentares posteriores, e é tão triste. ela diz que aceita se a filha quiser morrer mesmo e chorei demais.

larissa me recomendou what happened to monday (2017), também do netflix, e assisti... mas achei bem bosta. noomi rapace faz 7 irmãs gêmeas nessa sociedade onde não pode existir mais de um filho por casal, e cada dia da semana é uma que sai pro mundo. logicamente acabam descobrindo e elas têm que fugir, várias morrem, acaba que era tudo conspiração de uma que queria existir sozinha. não gostei de nada e achei uma perda de tempo, no geral.

vi um curta sobre mulheres carecas chamado omg she's bald: the power of a woman with a shaved head (2017), porque tava na pira de ver tudo quanto é vídeo falando desse assunto. bacana ver a gama de significados que isso traz, apesar de minhas maiores motivações serem ter agonia de meu cabelo e querer saber o formato da minha cabeça.

assisti the matrix (1999), que eu não tenho certeza de já ter visto, mas no filmow marquei que sim e até dei 4 estrelas. é legal, meio absurdo, alegoria de platão ou jesus e aquela coisa toda. gostaria de ver as sequências em breve.

nos dias adoentados vi uns vídeos aleatórios do broadly/vice e o documentário she is my son: afghanistan's bacha posh, when girls become boys (2016). nunca que eu ia imaginar que em alguma parte do mundo as pessoas forçassem meninas a fingirem ser homens pra benefício de suas famílias, me surpreendi bastante. muitos questionamentos brotando de abolição de gênero, transexualidade como sintoma desse sistema, desvínculo de estereótipos, sexualidade...

vi também um mini-doc sobre o processo artístico do jim carrey após o suicídio de sua namorada, chamado i needed color (2017). não sabia que ele se envolvia com arte nem nada dessa história, mas achei massa e bem real o que ele fala.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

lidos em agosto

no comecinho do mês terminei cyrano de bergerac, de edmond rostand, que tava na minha estante há anos desde que comprei no sebo. é uma peça teatral sobre esse herói um tanto quanto pitoresco, com um nariz enorme, muito valente e talentoso. ele acaba cedendo seu dom de escrita a cristiano, que está apaixonado por roxane, prima dele – a quem também ama, mas considera-se sem chances por causa de sua feiura. achei muito massa as coisas que ele compunha e falava se passando por cristiano, como se criasse tudo mas, na verdade, expressando o que sentia. os dois acabam partindo para um combate, no qual cristiano falece; anos mais tarde, roxane fica sabendo do combinado entre eles, quando cyrano está morrendo, e lamenta por um amor duas vezes perdido. achei bastante dinâmico e surpreendente, além de que não esperava que o protagonista tivesse existido de verdade!

em agosto levei meu irmão na biblioteca pela primeira vez, e enquanto fazia companhia a ele na seção infantil li ou isto ou aquilo, da cecília meireles. são vários poemas criativos ilustrados pelo traço lindão de odilon moraes. foi gostosinho de ler; acho que fui conhecer pela jotapluftz há um tempo atrás.

finalmente li coração, cabeça e estômago, de camilo castelo branco. o narrador, silvestre da silva, começa se apaixonando a torto e a direito, sem obter sucesso em nenhum relacionamento; em seguida se dedica ao intelecto, escrevendo para um jornal sobre a sociedade hipócrita de onde vivia, o que (quase?) o coloca na prisão; por último se rende às coisas do corpo, buscando paz e satisfação, e acaba se casando e engordando muito, até adoecer. na verdade existe um editor, amigo de silvestre, que reuniu seus escritos e de vez em quando faz críticas e comentários à narrativa, supostamente deixada para servir de guia para os jovens. os seguintes trechos são todos da parte do estômago, o único que mais me chamou a atenção.

O amor inventou-o depois o estragamento dos bons costumes gregos e romanos, como coisa necessária e acirrante aos paladares botos dos filhos viciosos das cidades.
Ainda agora nas aldeias, afastadas dos focos da corrupção, coisa que eu nunca ouvi dizer é: A Maria do Ribeiro ama o Antônio da Capela." Lá não se diz ama; é querem-se. Querem-se" é outra coisa; é amalgamarem-se num só ser, em uma só vontade, numa identidade de alma e corpo tal, e tão uma que nem sequer cogitam se há desgraça com força de desuni-los aquém da morte. E para lá da sepultura ainda eles têm como segura a vida imortal em união de penas ou glórias.

O amor dispensa-se onde está a profunda estima. Lá nesses consórcios bem-aventurados que florescem obscuros nas gargantas das serranias e nas selvas que bordam as margens dos rios não há tempo nem ocasião de discutirem sutilezas do coração. Crê-se ali que o vínculo é eterno e o sacramento do matrimônio uma religião, ou o dogma mais sacratíssimo dela. Pode ser que nem isto mesmo pensem: o que eles deveras sabem é que são felizes.
(...) As minhas meditações eram pachorrentas, terra a terra, sem enlevos que me deslocassem da felicidade do momento para me transportarem ao passado, onde estava a saudade, ou ao futuro donde me podia estar mentindo a esperança.
Que a saudade, para além dos trinta anos, é uma enchente de lágrimas que desdobra o peito daqueles mesmos que se não sentem viver no coração.
E a esperança é uma virgem de encantos doidos, a qual vos não deixa gozar os encantos doutra virgem que vos alinda os bens presentes.
Cabeça e coração senti sem vida,
No estômago busquei uma alma nova
E encontrá-la pensei... Crença perdida!
Mulher aos pés o coração me sova;
Foge ao mundo a razão espavorida;
E por muito comer eu desço à cova!

teve americanazine na biblioteca e li mais zines lá do que já li em toda minha vida, provavelmente. gostei bastante; tem uma infinidade de temas, tudo muito criativo. tirei foto de uma poesia que achei engraçadíssima no meio de tantos poemas existencialistas: ela se chama toda vez que eu chego em casa e é de jeison placinsch.

estava olhando um filme
quando percebi algo
fora da televisão se mexer
se mexer não, pular e sumir
passou um tempo e nada aconteceu
até vir voando na minha cara
uma coisa que eu já sabia ser uma
barata, barata, baratina
nisso dei um golpe de ninja pro lado
e liguei a luz
mas não consegui ver pra onde ela foi
puxei um colchão pra cada lado
mais as madeirinhas que sustentam eles
e nada
nem um sinal daquela filha da puta
então decidi puxar de volta
e vi uma coisinha correndo embaixo
AHA!!!
dessa vez não iria fugir
quero dormir sozinho hoje
então me estiquei
botei eles pro lugar
e vi a pontinha da bunda dela tentando
escapar, mas nem conseguiu
finalmente botei tudo no lugar
e senti que precisava falar pra vocês
sobre este belo ocorrido
e na metade disso veio voando
mais uma na minha direção
vingança?
só pode
o mais bizarro é que nesses
quase cinco anos que moro aqui
lembro de ter visto só duas baratas
até hoje
e agora, até agora,
uma e trinta e cinco da manhã,
essa última já foi a quarta
que matei.

depois li três contos de sagarana, de guimarães rosa (aqui tem resumos/análises massa). primeiro, o burrinho pedrês (vídeo): sete-de-ouros, burrinho velho mas experiente, é necessário para fazer uma travessia de bois de um major bastante influente, uma vez que alguns cavalos haviam debandado na noite anterior. os vaqueiros não se empolgam muito em ter esse tipo de montaria, mas prosseguem, e no caminho de volta ficam num impasse ao encontrar o ribeirão cheio. decidem deixar o animal ir primeiro – O burrinho é quem vai resolver: se ele entrar n'água, os cavalos acompanham, e nós podemos seguir sem susto. Burro não se mete em lugar de onde ele não sabe sair! no entanto, os cavalos e vaqueiros não suportam a correnteza e são afogados, enquanto sete-de-ouros vai pisando onde conhece e nadando quando deveria. apenas dois homens se salvam, um agarrado ao rabo do burro e outro montado nele, adormecido de bêbado e mais tarde sendo deixado na varanda da fazenda, sem se dar conta do episódio.

(...) E, com isso, deixaram todos de caber no dia, que rodou e se foi, redondo e repleto, com a tarde a cair rente, uma tarde triste de tempo frio.

Enquanto isso tudo, na coberta do Reynéro, ali perto, afrouxadas as barrigueiras e tirados os freios, os cavalos descansavam. Longe dos outros, deixado num extremo, no canto mais escuro e esquerdo do telheiro, Sete-de-Ouros estava. Só e sério. Sem desperdício, sem desnorteio, cumpridor de obrigação, aproveitava para encher, mais um trecho, a infinda linguiça da vida. 

segundo, a volta do marido pródigo: lalino salãthiel era um trabalhador preguiçoso e irresponsável que decide abandonar seus serviços e se mudar para o rio de janeiro, em busca da boa-vida; deixa sua esposa maria rita, sem nem avisá-la, e vende sua viola a um espanhol que morava por perto. ele retorna depois de um tempo, desiludido, e descobre que maria rita está com o espanhol; passa então a trabalhar como cabo eleitoral para um major e vai conseguindo as coisas com malemolência e despojamento. no final ele consegue derrotar o adversário político e, de quebra, expulsar a colônia espanhola do local, reconquistando sua esposa.

por último, sarapalha, sobre esse lugar assolado pela malária, onde não resta quase ninguém – dois primos, ribeiro e argemiro, passam seus dias a esperar a morte, conversando sentados num cocho em companhia de um cachorro abatido. a esposa do primeiro tinha fugido com um vaqueiro há algum tempo, e ele pede para que o primo reconte a história do diabo que fugiu com uma moça, para aliviar. argemiro era apaixonado pela esposa do primo e acaba revelando isso, embora alegue que jamais pensara em desrespeitar ribeiro; ele se sente traído até pelo último companheiro e, ofendido, o expulsa. argemiro é tomado pela febre enquanto vai embora.

— Conta o resto da estória...
— ..."Então, a moça, que não sabia que o moço-bonito era o capeta, ajuntou suas roupinhas melhores numa trouxa, e foi com ele na canoa, descendo o rio..."
— A moça que eu estou vendo agora é uma só, Primo... Olha!... É bonita, muito bonita. É a sezão. Mas não quero... Bem que o doutor, quando pegou a febre e estava variando, disse... você lembra?... disse que a maleita era uma mulher de muita lindeza, que morava de-noite nesses brejos, e na hora da gente tremer era quem vinha... e ninguém não via que era ela quem estava mesmo beijando a gente... Mas, acaba de contar a estória, Primo...

além disso, li um pouco de poemas negros, de jorge de lima, e de o universo numa casca de noz, de stephen hawking. este tô ouvindo em audiobook sempre que tenho uma louça monstruosa pra lavar ou coisa do tipo. esse mês não foi grande coisa no quesito leituras, devia ter lido bem mais, considerando os planos pros livros obrigatórios, mas claramente sou incapaz de ter qualquer disciplina a longo prazo. uma desculpa possível é que fiquei doente...

segunda-feira, 31 de julho de 2017

leituras deste ano até aqui (parte 2)

dia 1º de abril teve a abertura de uma exposição que acontece anualmente desde 2015 na biblioteca municipal, chamada ocupa. teve vários artistas expondo seus trabalhos, além de comidas veganas e showzinhos do lucas arissa (meu ano fantasma) e do douglas prado. comprei uma zine da editora recém formada fim de feira e prints da amanda paschoal e da isadora fernandes. eu já acompanhava o trabalho delas pela internet há um bom tempo (e sabia que amanda era de sbo e tinha feito cv) e foi muito legal poder ver tanta coisa pessoalmente e apoiar comprando.


um pouquinho depois do meu aniversário eu recebi parabéns pra vc toda sua família amigos & eu, de talita dias. fiquei muito contente porque era uma coisa que eu pretendia comprar, mas ganhar de presente da própria caterpiem foi muito especial. é um compilado de três anos de parabéns no facebook, com um humor nonsense perfeito; me causou muitos risos & sorrisos.


recebi dinheiro de presente de alguns parentes, como costume, e usei uma parte pra comprar livros de artistas nacionais que eu gosto bastante. os primeiros a chegar foram do selo piqui: coral (de taís koshino) e topografias (de bárbara malagoli, julia balthazar, lovelove6, mariana paraizo, puiupo & taís koshino). o primeiro tem algumas historinhas sem fala, desenho simples e calmo. gostei e é assim que gostaria de desenhar. o outro é bem diverso, com histórias de todas essas artistas super massa; bem bonito visualmente e legal as coisas também.


esse cartão postal veio junto e eu nem conhecia o projeto, série postal. taís koshinho que ilustrou; achei massa isso que ela disse falando sobre (e penso que complementa os pensamentos sobre hq): Então fui ler artigos e ensaios sobre o cartão postal, o que mais me interessou foi ‘O Postal Ilustrado da Frente ao Verso: Imagens Mais que Reprodutíveis’ da Maria da Luz Correia. Texto interessante que traz um diálogo com Benjamin, Nancy e Blanchot, apresenta o cartão postal como uma escritura acentrada, de dupla face, assim como acontece nos quadrinhos, é um encontro, uma colisão, um enfrentamento, entre imagem e palavra. A imagem, como sua parte pública, comumente é uma reprodução, feita em massa, de uma obra de arte; o texto, como a parte privada, um espaço de comunicação interpessoal entre o remetente e o destinatário. E esses dois lados não são separáveis ou divisíveis.


comprei também život je tady, da singh bean – uma das coisas que eu mais queria, considerando o tempo que faz que acompanho essa artista e admiro suas colagens. achei muito bonito e inspirador, feliz de ter. mandei uma pergunta no tumblr dela até, hehe.


também comprei dois quadrinhos da samanta flôor, que talvez seja a primeira pessoa de quem eu comecei a ver tudo na internet há muitos anos atrás. lia os toscomics que ela postava no blog que tinha, imprimia desenhos dela porque gostava do traço, curtia o nome samanta. três é o mais antigo dos dois quadrinhos, sobre a infância dela com os irmãos, enquanto click é sobre essa câmera que tira dos outros um pouco mais que fotografias. minha mãe viu e falou coisas feias das coisas que eu leio, pra variar. mas achei bacanas.


não falo muito como é cada coisa porque são curtos de ler e sei que vou sempre ter comigo. fiquei contente de finalmente comprar arte de gente brasileira que eu gosto e espero manter o costume, apoiar artistas mulheres do meu país. tudo é muito especial, e sinto que quem ganha sou eu.

assistidos em julho

este mês foi pobre em coisas assistidas pois comecei a estudar e me dediquei a isso e a leituras. no começo do mês passou karate kid (2010) na tv e assisti com minha mãe (matheus não queria ver mas no final deu atenção). foi legalzinho; resolvi ver porque tem algo sobre em himym (mas era sobre o filme antigo, obviamente, o que percebi com uma tristezinha já que não era esse que tava passando).

vi blackfish, documentário de 2013 sobre orcas performáticas mantidas em cativeiro em parques aquáticos. me cortou o coração as cenas de captura dos filhotes na islândia; terrível o sofrimento dos "personagens" e todos os acidentes que aconteceram, um pior que outro. coisas que fazem a esperança nos humanos se perder.

dia 9 terminei de ver how i met your mother... é, eu já sabia do final porque me revelaram no aniversário da ana, além de natasha e alan terem soltado qualquer coisa no dia que fui à festa junina com eles (mas não liguei de receber spoilers). a última temporada é bem sem graça, se passa quase inteiramente durante o fim de semana quando robin e barney se casam. depois é um amontoado de coisas breves, ted e tracy, nada especial além das lindas "coincidências" que o destino construiu com eles. robarney se separa e a doença da esposa do ted é mencionada só uma vez, e depois pronto, tá lá ele oferecendo o blue french horn pra ela. gostei bem mais da oitava temporada, se não tô lembrando errado de qual foi. uma que tem o episódio 20 falando de viagem no tempo e que ted deseja ter podido passar mais tempo com tracy. foi muito bonitinho essa parte, mas acho que é o máximo que a história deles atinge. de qualquer forma, foi uma série prazerosa pelas risadas – nunca ri tanto com alguma coisa. ajudou a distrair da vida. músicas massa do final: essa e essa.

fui ao cinema dia 13 ver spider-man: homecoming (2017, obviamente). matheus deitou a cabeça no colo da minha mãe falando que tava chato no começo, e realmente, tava bem parado; depois foi massa, divertido e tal. acho que superestimaram um pouco pelo que me passaram, mas o ponto de vista do cadê a chave é, como sempre, muito válido. (fiquei morrendo de vontade de mijar igual leon porque fui idiota: bebi água e esqueci do conselho dele. fiquei só pra primeira cena após os créditos. não me arrependo porque ainda não coloquei em prática meu plano de ver os filmes todos da marvel, afinal, então provavelmente eu nem entenderia.)

passou uns filmes de john green na tv e minha mãe tava assistindo; tive preguiça de sair do sofá e vi the fault in our stars (2014) novamente. fiquei pensando nas coisas que somente aconteceriam em histórias fictícias. mamãe chorou.

quando fomos no cinema vi que o terceiro e último filme de planeta dos macacos vai sair em agosto aqui. percebi que ainda não tinha visto o segundo e fui arrumar isso: vi dawn of the planet of the apes (2014) dia 19. gosto mais do primeiro mas foi interessante, muito massa a sociedade que os símios criaram a partir do caesar e tal (fez-me recordar de libras e querer aprender). bem triste o que leva à guerra, na real. pensava que seria algo maior. matheus gostou e viu várias vezes já.

outra coisinha assistida foi um curta chamado father and daughter (2000). achei muito bonitinho e triste e simbólico!

comecei a assistir uma série nova, the handmaid's tale, porque elogiaram muito e eu queria ler mas não tenho dinheiros pra gastar. é muito pesado e incrível e tô indo devagar pra não morrer (já chorei meus olhos num episódio envolvendo um casal lésbico).

domingo, 30 de julho de 2017

lidos em julho

dia 12 terminei minha vida de menina, de helena morley. demorei quase um mês pra ler, porque não conseguia me concentrar e me dedicar (e também porque é um pouco enjoativo, sendo um diário)... são relatos do cotidiano da autora quando adolescente (pseudônimo de alice dayrell) no interior de minas gerais, durante os anos de 1893, 1894 e 1895. é descrito como "livro que nasceu clássico" por alexandre eulálio, que faz a introdução – É mesmo raro o sabor dessa prosa coloquial, cheia de chiste e tão próxima, em pitoresco, desatavio e naturalidade, da sua fonte popular. começou a escrever por recomendação da escola e incentivo de seu pai; em suas descrições percebe-se as peculiaridades de uma diamantina no limiar do urbano e do rural, com a presença da mineração e da decadência econômica. Voltada para o encanto da vida livre do pequeno núcleo aberto para o campo, a jovem Helena, familiar a todas as classes sociais daquele âmbito, estava colocada num invejável ponto de observação. Assim o seu depoimento transcende o plano apenas biográfico ou geográfico para valorizar-se de um ponto de vista tanto psicológico quanto social. no começo eu me confundia no mundaréu de pessoas sobre as quais ela falava, mas fui acostumando, até porque ela repete as mesmas coisas frequentemente (eu faço igual quando escrevo em diário). achei legal ter esse vislumbre de épocas onde tudo era diferente. muitos ex-escravos estão em seus relatos e, apesar de ela dizer não fazer diferença entre ninguém, percebe-se traços de racismo solidificados por entre a sociedade. gostei da expressão "fazer castelos", que ela usa muito, e quer dizer ficar imaginando coisas, sonhando acordado. penso que ela pode ter trocado o nome com uma tia, irmã de seu pai, e com quem tem o gênio muito parecido, segundo ele (a autora escreve o nome da tia como alice).

Nós, meninas, fomos proibidas de confessar com Senhor Bispo, porque ele pergunta muita coisa que a gente não entende e meu pai disse que é um absurdo mamãe nos deixar confessar com um velho já caduco. Ele está muito velhinho. Como no Palácio há muitos padres, mamãe escolheu para nós o Padre Florêncio. Ele é muito bom e dá penitência pequena, mas a gente sai cansada do confessionário de tanta história de santo que ele aproveita para contar e aconselhar a gente a imitar. Como se isso dependesse da gente. Eu regulo por mim; tenho inveja das pessoas boas e santas mas não posso deixar de ser o que sou.
(...) Certa hora eu perguntei: "Vocês não pensam para que a gente vive? Não era melhor Deus não ter criado o mundo? A vida é só de trabalho. A gente trabalha, come, trabalha de novo, dorme e no fim não sabe se ainda vai parar no inferno. Eu não sei mesmo para que se vive". Mamãe disse: "Que horror, minha filha! Para que você passou tanto tempo no Catecismo, para agora vir me dizer que não sabe para que a gente vive? Não estudou lá todos os dias que a gente vive para amar e servir a Deus na terra e gozar dele no céu?". Eu respondi: "Estudei, mamãe, mas já vi que só a família de vovó e poucos outros podem viver só para amar a Deus na terra e esperar gozar da presença dele no céu. Se a senhora soubesse como eu tenho sofrido com essa história de amar a Deus, até tinha pena de mim. Não há uma vez que me confesse que eu não diga ao padre que eu penso que não amo a Deus, porque só lembro de Deus na hora do aperto. Padre Neves diz que não acredita e que sabe que eu amo a Deus porque não faço percado mortal. Eu respondo que é porque nada é pecado para ele. Todos os pecados que eu conto horrorizada, às vezes ele até me desculpa. Os furtos que eu e Luisinha fazíamos das frutas de que vovó fazia tanto gosto, que eu até esperava ir para o inferno, quando eu contava a Padre Neves ele dizia: 'Tirar de sua avó não é pecado'. Eu pensava que era pecado e furtava e depois tinha medo do inferno; de ofender a Deus não me passava pela cabeça". Mamãe respondeu: "É porque você vive sempre de cabeça em pé e não procura pensar. Quem pensa tem que ter amor a Deus. Eu o amo acima de tudo". Renato parou com o alçapão e disse: "Sabem o que eu já estive pensando? Não há esse negócio de céu nem de inferno nada; isso tudo é conversa de padre. Eu penso que a vida é como um punhado de fubá que se põe na palma da mão; quando se assopra vai embora e não fica nada. Nós também depois de mortos a terra come; não tem nenhuma alma". Mamãe ficou horrorizada e perguntou: "A quem você saiu com essas ideias? Estou pasma do que você disse! Como um menino de sua idade pode ter essas ideias tão hereges! Valha-me Deus, que castigo! Que fiz eu a Deus para ter um filho assim? Virgem Santa! Agora vou viver só por sua conta, meu filho". Mamãe contou a história de uma mulher que tinha um filho assim e fez penitência de rasgar o corpo com um prego para Deus perdoar-lhe. Deus perdoou e ele se ordenou e foi um padre muito santo. Renato fazendo o alçapão, sem levantar a cabeça, disse: "Mas a senhora não precisa rasgar seu corpo com prego que eu não vou ser padre. Pau que nasce torto não se conserta".
Ficamos todas as primas tristes de ver a maldade que nossos irmãos fizeram de lavar os pés na água do Pau de Frutas, que é a que vem para a gente beber na cidade. Beatriz até chorou de pensar que o pai dela estava bebendo daquela água na cidade. Minhas tias a consolaram dizendo que até chegar cá já estava limpa. Estivemos sabendo também que morreu um burro dentro do rego e ficou lá até apodrecer. Eu acho aquela água muito porca. Se eu pensasse não bebia dela nunca. Mas a gente faz tudo é sem pensar, graças a Deus.
Hoje temos rido com ele a não mais poder. Ele foi convidado para o baile de ontem na União Operária e a viúva também ia. Ele foi ao dicionário, tirou umas palavras, fez uma frase e levou a Sérgio para ver se estava boa para ele dizer à viúva. A frase era: "Sinto-me compungido de não ter podido até então tirá-lo para uma valsa". Sérgio disse: "Se ela é mulher, você não deve dizer tirá-lo, mas tirá-la". Ele corrigiu, ficou decorando a frase e meteu o papel no bolso.
Hoje Sérgio perguntou se ele tinha dito a frase com desembaraço e ele respondeu: "Qual o quê! Quando eu cheguei perto dela para falar, ela, antes de eu começar, levantou, enfiou o braço no meu e saímos dançando. Eu fiquei mudo, porque só tinha na cabeça aquelas palavras que ela não me deixou falar".
Meu pai é muito querido na família. Todos gostam dele e dizem que ele é muito bom marido e um homem muito bom. Eu gosto muito disso, mas fico admirada de todo o mundo só falar que meu pai é bom marido e nunca ninguém dizer que mamãe é boa mulher. No entanto, no fundo do meu coração, eu acho que só Nossa Senhora pode ser melhor que mamãe.

também li, em ebook, edda em prosa - gylfaginning e skáldskaparmál (de snorri sturluson). o autor defendia a teoria de que reis e figuras históricas eram invocados em combates e venerados até serem lembrados apenas como divindades, e faz paralelos desses deuses com personalidades troianas e com o cristianismo. acho engraçado os absurdos: uma vaca lambe um bloco de gelo e dali saiu o homem que seria avô de odin; heimdallr, o guardião dos deuses na bifröst, é filho de nove damas, todas irmãs; com angrboda, uma gigante, loki teve como filhos o lobo fenrir (que matará odin no ragnarök), a serpente jörmungandr (que circunda toda a terra mordendo sua própria cauda) e hel (que tem poder sobre o nono mundo e reparte as moradas entre os mortos de doença ou idade avançada); loki se transforma em égua para atrair um cavalo que ajudava um gigante (para atrapalhá-lo) e acaba tendo "certas relações" com ele, mais tarde dando à luz a um potro cinza de oito patas; a baba que corre da boca de fenrir, preso por um grilhão feito de seis coisas "inexistentes" (o ruído de um gato ao andar, a barba de uma mulher, as raízes de uma montanha, os tendões de um urso, a respiração de um peixe e o cuspe de um pássaro), forma um rio chamado ván; um navio chamado skídbladnir é grande o suficiente para todos os æsir embarcarem nele, mas quando não há motivo para usá-lo no mar pode ser dobrado como um guardanapo e guardado num bolso... mas é massa reconhecer referências/inspirações de outras obras: freyja tem um colar chamado brísingr, como a espada/feitiço de eragon; heimdallr tem o gjallarhorn, como a banda finlandesa que fala sueco; angrboda, gigante mãe dos filhos sinistros de loki, é o nome da filha de floki e helga em vikings; der ring des nibelungen, ópera alemã, se inspirou numa história do edda bastante parecida com lotr, que por sua vez tem muitos nomes de anões citados aqui. no que diz respeito aos paralelos e comparações, o autor diz que o longo conto do ragnarök são as guerras dos troianos:

Quando se diz que Öku-Thor usou como isca uma cabeça de boi e fisgou a Serpente de Midgard, mas que a serpente manteve sua vida e afundou no mar, então esta é uma outra versão da história em que Heitor matou Volukrontes, um famoso herói, na presença de Aquiles, e isso chamou o último para ele com a cabeça da presa, na qual foi comparada a cabeça de um boi, que Öku-Thor tinha arrancado. Quando Aquiles foi tragado para este perigo, por conta de sua ousadia, foi a salvação de sua vida que ele fugiu dos golpes fatais de Heitor, embora ele fosse ferido. Também é dito que Heitor travou a guerra tão poderosamente, e que sua raiva era tão grande quando ele avistou Aquiles, que nada era tão forte que poderia ficar diante dele. Quando ele errou Aquiles, que havia fugido, ele acalmou sua ira matando o campeão chamado Roddros. Mas os Æsir dizem que quando Öku-Thor errou a serpente, ele matou o gigante Hymir. No Ragnarök, a Serpente de Midgard veio de repente para cima de Thor e jorrou veneno sobre ele, e, portanto, o matou. Mas os Æsir não poderiam se decidir para dizer que este tinha sido o destino de Öku-Thor, que alguém ficou em cima dele morto, embora isso tivesse acontecido assim. Eles se precipitaram sobre sagas antigas mais do que era verdade quando disseram que a Serpente de Midgard teve sua morte, e eles adicionaram isto na história, Aquiles colheu a fama da morte de Heitor, embora ele jazesse morto no mesmo campo de batalha. (...)

também gostei de alguns aspectos que desconhecia: os dois corvos de odin são pensamento (huginn) e memória (muninn); comparam o choro de todos os seres e coisas por baldr, para que ele fosse trazido de volta de hel, a como "essas coisas choram quando saem do frio para o calor"; terremotos são atribuídos a loki se contorcendo contra o veneno de cobra que cai em seu rosto onde foi acorrentado pelos æsir; no ragnarök será terminado um navio chamado de naglfar, que é feito de unhas não cortadas de homens mortos. foi uma leitura válida.

recebi minhas compras do amazon day e li jumanji (de chris van allsburg) e elefante (de bartolomeu campos de queirós), ambos muito bonitos em suas ilustrações e muito únicos em suas breves histórias. (não vou escrever sobre eles porque posso pegá-los na estante e ler em poucos minutos, então né. única coisa é que confundi jumanji com zathura, só pra depois descobrir que o segundo é sequência e tem livro do mesmo autor.)

depois resolvi participar da maratona literária de inverno, que inicialmente era do dia 16 ao dia 30, mas depois acrescentaram seis dias... fizeram três níveis diferentes (iniciante, intermediário e hardcore) e tinha três desafios pra cada – escolhi o intermediário e encaixei quatro livros nos desafios:

• livro com a capa azul → família schürmann - um mundo de aventuras (heloisa schürmann)
• livro com menos de 200 páginas/escrito por uma mulher → uma duas (eliane brum)
• livro que você comprou pela capa → cyrano de bergerac (edmond rostand)
• livro sem saber a sinopse ou do que se trata/nacional → caminhos cruzados (érico veríssimo)


no domingo que a maratona começou eu tava revendo colegas em outra cidade, então li pouquinho, 30% e alguma coisa de uma duas, de eliane brum (que terminei dia 18). tinha montado um cronograma mostrando onde eu deveria estar em cada leitura a cada dia para ler tudo em tempo; comecei atrasando um dia mas ok. trata-se da história da relação nada saudável entre duas mulheres, mãe e filha, que se sobrepõem à medida que a narrativa submerge nelas – não existe clareza entre o bem e o mal, o certo e o errado, o real e o fictício. ambas são personagens únicas, apresentando um nível de frieza incomparável. livro visceral, intenso e doloroso, me incomodava e não me deixava ficar muito tempo sem pensar nele e querer concluir de vez. o final não é muito definido, dando a entender que foi só ficção pra exorcizar demônios e se abrigar nas possibilidades que a literatura oferece. gostei bastante do estilo; foi o encerramento da experiência com o kindle unlimited.

Finalmente o grito preso ali se solta. E ela sente que nunca mais o grito cessará, que aquele grito é para sempre, é um grito para toda a vida e para além da vida. Porque agora ela alcança a inteireza do horror. E gritos são coisas que não podem ser ditas. Não há como escapar da carne da mãe. O útero é para sempre.
Sempre tive medo de escrever. Da hora de tornar meu sangue símbolo do sangue. Tinha medo por causa da dor desconhecida que talvez viesse, que eu quase podia tocar como certeza. Ainda que eu sangre com sangue, este ritual eu conheço. Ele faz de mim o pouco que tenho de mim. É uma constituição. Me constituo eu pelos cortes em mim. As palavras, não. O que elas farão de mim?
As palavras que rastejam de mim como vermes gordos de hemácias me fazem desconfiar de que não há um sujeito que diz, não há eu. Então, quem fala? De quem são as palavras que me constrangem?
A luta de classes de Marx não é uma luta, é apenas uma divisão entre os que podem fazer perguntas e os que só estão autorizados a dar respostas.
Como sempre, esquece onde está enquanto escreve. A escrita é um lugar que ela pode habitar. É reconfortante escrever sobre a vida dos outros. Esta é a melhor parte de ser jornalista. Poder escrever sobre uma realidade que não precisa virar ficção para ser pronunciada.
Eu sentava na outra ponta da mesa de fórmica da cozinha e ficava olhando-o comer. Ele mastigava muitas e muitas vezes cada bocado e um dia me explicou que era preciso mastigar 98 vezes de cada vez, para ajudar o estômago na digestão da comida e manter a saúde. Fiquei aliviada. Então era por isso que ele não conversava comigo. Eu nem mesmo queria que ele falasse. Não sei se foi aí que começou, mas sempre tive medo das palavras. Das pronunciadas. Preferia ficar ali, compartilhando o silêncio do meu pai.
Minha cabeça se esvaziou. Mais tarde eu intuiria que aquilo era felicidade.
Vivia em mim e seguia a rotina dos dias como uma sonâmbula com os dois olhos abertos só pra dentro. Quem perdeu muito sabe que há um certo alívio em não esperar nada de bom, em não desejar nada.
Tinham me contado que os escritores eram uma espécie de deuses. Eles criavam um mundo em que podiam viver e escapavam deste pela porta dos fundos. Me preparei a vida inteira para ser deus. E só o que faço agora é desinventar a mim mesma. Acho que é isso. A realidade é uma ficção. E ao escrever eu vou quebrando essa criatura esculpida com amor e desespero. É o contrário. É preciso destruir a forma humana que está ali para alcançar a pedra.
Sim, porque eu só sei escrever a mão. E acho que há mais coragem em escrever a mão, sopesando cada letra, que exige esforço e não aparece e desaparece numa tela como se as palavras pudessem simplesmente surgir ou simplesmente ser eliminadas sem que se pague um preço por isso.
Não lembro quem disse, mas isso é um filho. "Aquele que entra em minha casa e não veio de fora".
Se sabemos o que esperar, até mesmo a dor pode ser confortadora. E eu descubro que o pior caminho é melhor que o desconhecido.
Sempre me surpreende o interesse de qualquer homem por mim. Me excita e me ofende ao mesmo tempo.
Dou um sorriso tímido e saio quase correndo, como se fosse uma menina. Nem me lembro de perguntar seu nome. Melhor assim. Os nomes nos ancoram a uma identidade. E o melhor daquele encontro é que ele era fluido, não tinha ficado impresso em lugar algum. Sem nomes, sem registro.
Eu preciso muito de fronteiras e nunca entendi aqueles jargões publicitários de uma vida sem limites. Para mim, a liberdade sempre esteve ligada à capacidade de erguer muros cada vez mais altos.
O branco, ela pensa, não é a soma de todas as cores, mas a ausência de todos os sentimentos. O branco não tem dor nem medo nem vilania. Por isso é a cor da paz, porque é uma soma que subtrai o humano.
Você também não é normal, Laura. Herdou os meus genes deformados e lembra o que não deveria. Eu a salvei, mas a salvei de mim mesma. Fui ao mesmo tempo sua assassina e sua heroína. E acredito que é isso que todas as mães são em alguma medida. Sua Noviça Rebelde não existe. Lembre-se, ela era uma madrasta. Em algum momento, os filhos já tinham matado a mãe verdadeira. Mas ninguém nunca quis saber o que aconteceu com ela. Será que os tumores que tomam conta de mim são aqueles bebês todos que matei e que voltaram para se vingar? Tenho medo, mas se for isso não vou reclamar, porque agora eles podem, e eu não. Estou velha e já não posso afogar ninguém.
A única palavra que eu quis escrever, nascida do meu desejo. Sim, porque você não nasceu porque o seu pai se enfiou dentro do meu corpo paralisado. Você nasceu quando olhou para mim, e eu me vi no seu olhar. E desejei que você vivesse. Você é tudo o que eu sinto de vivo em mim agora que morro.
Pego as mãos da minha mãe, cada vez mais diferentes das minhas agora que a doença a molda à sua imagem e semelhança. O câncer é como uma possessão alienígena de dentro para fora. De fato, não. É uma possessão do corpo pelo próprio corpo. O câncer é tão da minha mãe como as células sadias que fracassam em defendê-la da mutação de suas irmãs. É um filme de terror, filmado por dentro. Uma ficção científica que não é ficção. Fico fascinada com a quantidade de horror que a normalidade nos assegura dia após dia. Para que inventar zumbis e aliens vindos do espaço se existe o câncer?
Abraço meu corpo e choro embrulhada em mim como o tatu-bola da minha infância. Sou um quadro de solidão e desamparo no quarto de hospital. Uma mulher adulta em posição fetal quando a mulher que lhe deu à luz acaba de deixar este mundo. Partiu levando com ela seu útero.
Nenhuma vida se completa. Isso ela agora sabe. Como a mãe, ela também vai esperar que algo se complete, mas a vida seguirá até o fim em aberto, inconclusa. A vida humana é a única que acaba sem um fim, porque é a única que o espera.
Descubro que escrevi sobre a impossibilidade da literatura. O fracasso previamente assumido de tentar transformar vida em palavra. O que mais importa é o que não pode ser escrito, o que grita sem voz e sem corpo entre as linhas. O para sempre indizível.

o próximo livro que separei pra ler foi caminhos cruzados, mas tive tanta dificuldade e falta de ânimo que nem continuei nutrindo esperanças de concluir com sucesso a maratona. fui ler sejamos todos feministas, de chimamanda ngozi adichie, que baixei no kindle há algum tempo atrás por ser um ebook gratuito na amazon. é a transcrição de uma palestra que a escritora fez num evento do TEDx, sobre sua experiência como mulher e como feminista. sempre massa esse tipo de discussão, embora ainda tenha muita coisa confusa na minha cabeça a respeito de gênero e etc (como que seja opressão, não identidade). dá pra ler rapidinho e em seguida assisti a uma palestra a qual ela se refere no começo do ebook, the danger of a single story, que achei incrível.

Se repetimos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal. Se só os meninos são escolhidos como monitores da classe, então em algum momento nós todos vamos achar, mesmo que inconscientemente, que só um menino pode ser o monitor da classe. Se só os homens ocupam cargos de chefia nas empresas, começamos a achar "normal" que esses cargos de chefia só sejam ocupados por homens.
Então, de uma forma literal, os homens governam o mundo. Isso fazia sentido há mil anos. Os seres humanos viviam num mundo onde a força física era o atributo mais importante para a sobrevivência; quanto mais forte a pessoa, mais chances ela tinha de liderar. E os homens, de uma maneira geral, são fisicamente mais fortes. Hoje, vivemos num mundo completamente diferente. A pessoa mais qualificada para liderar não é a pessoa fisicamente mais forte. É a mais inteligente, a mais culta, a mais criativa, a mais inovadora. E não existem hormônios para esses atributos. Tanto um homem como uma mulher podem ser inteligentes, inovadores, criativos. Nós evoluímos. Mas nossas ideias de gênero ainda deixam a desejar.
O que me impressiona – em relação a ela e a várias outras amigas americanas – é o quanto essas mulheres investem em ser "queridas", como foram criadas para acreditar que ser benquista é muito importante. E isso não inclui demonstrar raiva ou ser agressiva, tampouco discordar. (...) Se, por um lado, perdemos muito tempo dizendo às meninas que elas não podem sentir raiva ou ser agressivas ou duras, por outro, elogiamos ou perdoamos meninos pelas mesmas razões.
O modo como criamos nossos filhos homens é nocivo: nossa definição de masculinidade é muito estreita. Abafamos a humanidade que existe nos meninos, enclausurando-os numa jaula pequena e resistente.
Nós policiamos nossas meninas. Elogiamos a virgindade delas, mas não a dos meninos (e me pergunto como isso pode funcionar, já que a perda da virgindade é um processo que normalmente envolve duas pessoas).
E se criássemos nossas crianças ressaltando seus talentos, e não seu gênero? E se focássemos em seus interesses, sem considerar gênero?
A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura.

dia 30 reli é apenas o vértice do mundo interior, de agnieszka piksa, que luiz tinha me mostrado no comecinho do cv2 e descobri que yuri tinha quando fui na casa dele com aldivo após a peça do guto (eita quanta gente mencionada). é uma zine distribuída na 31ª bienal de sp, queria muito ter porque acho muito foda. tem muitas colagens e desenhos, fala sobre várias coisas muito interessantes (as que mais gosto são essas que anotei – o mais próximo possível de como tava na zine, por sinal). o nome em inglês é it's just the spin of inner life, além de que vi escrito vórtice (em vez de vértice) em algum lugar, o que me faz pensar que talvez trocaram uma letra aí, porque faz mais sentido se comparado com spin, né...

O processo da vida
quando penso nesta vida, cara...
– quero dizer...
primeiro, éramos espermatozóides...
depois entramos na célula, e de certo modo já não éramos mais espermatozóides
começamos a nos desenvolver como embriões...
depois disso, saímos do corpo da mãe de forma realmente apocalíptica, e nos tornamos crianças... e mais tarde humanos adultos
em cada uma dessas etapas, fomos transformados completamente, existindo em cada fase como seres totalmente diferentes
nós não nos lembrávamos do estado anterior de nós mesmos e não podíamos prever o que vai vir depois
muito provavelmente tínhamos certeza de que o fim daquela fase era o fim da nossa existência.
não podemos nem mesmo afirmar que era ainda o mesmo nós passando por todas essas fases!
então, como podemos acreditar que esta vida é a última vida e que a morte é mesmo o fim?
Carta de um deus
neste sonho, recebo resposta email dele.
obrigado por enviar seu currículo geral, o sr. deus apressia sua sinceridade, considerando seus erros. nós apoiamos os erros, porque erros também são uma forma de entender as coisas.
e pouco mais tarde, seus delegados vêm com a proposta:
nosso consórcio está satisfeito com sua proposta de projeto – você trabalhará no estabelecimento da embaixada do céu
no mundo subterrâneo, isto é, no inferno. logo, assinamos o acordo com os parceiros de negócio do outro lado do rio estige – o acordo tem muitas páginas, procedimentos complicados de visto são garantidos para todos os candidatos à viagem... /lista de pecados, lista de benfeitorias, confirmação das desflorações cometidas, exame de pensamentos sujos, relatório do nível dos bônus cármicos, sofrimentos antecipados, facadas nas costas, ações equivocadas, sedimentação de boas intenções, scan da aura.../ assim como o rigoroso controle de fronteira de ambos os lados do rio subterrâneo e punições drásticas por tentativas de emigração ilegal
eu, como diplomata pela minha natureza profunda, acordo me sentindo muito feliz, com uma visão de uma futura união democrática entre o céu e o inferno. embora ainda não tenho certeza do que meu empregador diria sobre isso...
Justiça para os aliens
na maioria dos filmes de ficção científica, não há justiça alguma. quero dizer: por que os aliens sempre têm de ser perversos e maus, inimigos dos seres humanos? na maioria dos filmes, eles são normalmente representados como predadores, animais, feras primitivas que apenas se empenham em obter carne humana e destruição... embora sejam ao mesmo tempo cultos o bastante para consequirem construir e pilotar espaçonaves de alta tecnologia, máquinas do tempo etc, que estão muito além ds nossa imaginação tecnológica e científica. isto não é um paradoxo? que estariam eles interessados em carne humana e em fazer-nos sofrer, quando podem fazer muitas outras coisas legais e civilizadas como voar para qualquer lugar do espaço, teleportarem-se daqui para acolá, jogarem mortal kombat com robôs etc? se fossem tão civilizados, por que obedeceriam a instintos primitivos tão baixos e básicos? na verdade, isto cheira realmente a projeção dos seres humanos. imagine, por exemplo, se agentes de alguma cultura alienígena do espaço sideral aparecessem amanhã diante de nós. o que aconteceria? graças à imagem de um alien, como um de nossos piores inimigos, que foi implementada na consciência coletiva graças a filmes sci-fi populares/comerciais, a população da terra provavelmente saudaria esses agentes com armas, facas e bombas. em lugar de flores e uma taça de vinho, e isto não é justo, a existência de culturas alienígenas ainda não foi confirmada, mas este fato nos autoriza a projetar todo o nosso ódio e necessidade natural pela incorreção nesse espaço vazio? o que isto nos diz sobre nós, humanos? parece que o pensamento sobre o "inimigo desconhecido" nos leva a conhecer melhor nossas próprias partes vergonhosas. Quem produziu essas imagens de aliens senão nossa própria mente, ao tentar se ver livre de suas próprias partes vergonhosas. depois que contei isto a um amigo que é cartunista, ele tirou uma boa conclusão, mencionando o filme solaris, dirigido por andrei tarkovski a partir do livro de stanislaw lem. nesse filme, astronautas estão tentando se comunicar com um planeta alienígena, que na verdade é um grande organismo consciente... mas toda tentativa de abordá-lo desperta e materializa os elementos mais baixos e subliminares de seu próprio subconsciente, obrigando-os a encará-los e a lidar com eles. meu amigo cartunista disse: – sim, este é o filme que vamos mostrar a eles primeiro quando nos visitarem.
Aliens do espaço sideral, quem quer que sejam, peço desculpas a vocês diante da raça humana.
(15/03/2016)

nesse dia também terminei caminhos cruzados, de érico veríssimo. no começo eu não conseguia ler sem ser tomada por um sono insuportável, então não engatei na leitura até passar da metade. é "um livro de protesto que marca a inconformidade ante as desigualdades, injustiças e absurdos da sociedade burguesa" – são vários personagens inseridos em núcleos completamente diferentes, cujos caminhos se cruzam de alguma maneira durante os cinco dias de que tratam a história e exibem diferentes perspectivas sobre os eventos. é assim:

• teotônio leitão leiria, rico que se considera merecedor de uma noite com uma prostituta (cacilda), demite gente de sua empresa sempre que alguém influente pede emprego pra outra pessoa e critica os novos-ricos;
• dodó leitão leiria, sua esposa, senhorinha empertigada em ser devota de santa teresinha e ajudar os pobrezinhos, adorando aparecer no jornal como grande figura da caridade;
• vera leitão leiria, filha única do casal, é apaixonada por chinita e despreza o advogado armênio, que não desiste de cortejá-la;
• virgínia madeira, só faz desdenhar seu marido, seu filho e suas criadas, convencida de que sua vida é insuportável e alimentando um amante platônico com quem troca olhares todo dia às cinco horas;
• noel, filho de virgínia, é extremamente inseguro por causa da falta de afeto dos pais e se refugia em mundos paralelos criados a partir de livros e histórias, sendo trazido à realidade pela mão da amiga fernanda;
• zé maria pedrosa, coronel, ganha na loteria e se muda de jacarecanga para porto alegre, onde constrói um palacete, arruma uma amásia e gasta sem limites para se exibir, além de pensar sempre no amigo que o criticava na cidadezinha ("Quero só ver a cara do Madruga!");
• chinita, filha de zé maria, vive num mundinho próprio onde finge ser atriz de hollywood e leva a vida como se tudo fosse parte de um filme;
• maria luísa, esposa de zé maria, que só sabe lamentar-se de absolutamente tudo e se ausentar de qualquer decisão, pensando na antiga vida em jacarecanga e em como tudo mudou pra pior (me fazia pensar sempre na senhora de longa jornada noite adentro);
• salustiano, passa uma noite com cacilda mas é namorado de chinita, não faz nada da vida além de receber uma mesada gorda e desfrutar de seus privilégios;
• joão benévolo, desempregado, vive numa fantasia com suas leituras onde esquece das precariedades pelas quais passa com sua esposa e filho, recebe diariamente a visita do ex-noivo de sua esposa, que permanece "esperando" a hora certa pra recuperá-la;
• fernanda, filha mais velha de dona eudóxia, trabalha para leitão leiria e cuida da casa, sendo uma segunda mãe para o irmão, além de ser amiga fiel de noel desde a infância de ambos;
• pedrinho, irmão de fernanda, adolescente que se apaixona pela "mulher à-toa" com quem teve sua primeira relação sexual (cacilda) e junta trocados que recebe da irmã para poder comprar um colar e presenteá-la;
• maximiliano, tuberculoso desenganado, cuja morte é aguardada com ansiedade por sua esposa, para que ela possa buscar trabalho e uma melhora de vida para os filhos;
• clarimundo, professor, só se importa com a ciência e corrige quem fala errado, colocando-se num patamar superior a tudo e todos.


gostei bastante da narrativa do autor e achei muito engenhosa a construção da história. tatiana feltrin disse que foi um dos primeiros livros a conter um romance lésbico, apesar de nada passar de um beijo desesperado interpretado como diversão por chinita. no final noel e fernanda confessam amar um ao outro, sem precisar de palavras; dodó recebe a atenção especial do jornal no dia de seu aniversário; chinita cai nos encantos de salu e descobre o mundo de prazer que reside no sexo (a primeira vez que eles fizeram foi bem horrível, eu gostava do nome salu mas depois dessa não engoli mais seu personagem); maximiliano morre em decorrência de dona dodó ter se esquecido de mandar que o levassem para o hospital; o "amante" de dona virgínia é assassinado pelo esposo da mulher com quem ele tinha um caso e ela se sente traída, por algum motivo; maria luísa recebe uma carta anônima de leitão leiria denunciando que seu marido tem uma amante, mas nem se surpreende já que o pessimismo é parte dela; joão benévolo desfalece na rua depois de um dia sem se alimentar, procurando emprego, e as pessoas que o cercam e o recolhem julgam que o ocorrido foi por conta de bebida. a obra termina com clarimundo escrevendo o antelóquio (prefácio) de seu livro, o homem de sírio, entidade que observa a terra desde essa estrela e supostamente tem visões reveladoras acerca da vida no nosso planeta – ele se convence de que a vida é monótona e não tem nada de romântico, mencionando o que enxerga de seus vizinhos pela janela. é ótimo porque muitos núcleos da história estão ali, à sua vista, mas a distância que mantém de tudo faz com que ele pense que não há nada a acontecer.

vou mostrar só a parte de julho da MLI aqui, mesmo. ainda tenho que ler dois livros, supostamente, mas tô sem vontade. quero me dedicar aos livros da lista de leitura da unicamp. mas ok, é isso.